O Público de hoje apresenta uma
peça sobre as mudanças na educação com especial ênfase na experiência piloto de
flexibilização curricular embora refira a outras dimensões.
A peça tem como título “Vai haver mais mudanças nas escolas mas ainda não é a revolução” e como subtítulo, “Com a flexibilidade curricular restringida a projecto-piloto, a maior
parte dos agrupamentos ainda não vai ter de pensar numa nova forma de ensinar”.
Trata-se de um tipo de discurso que suscita umas notas repescadas.
Como muitas vezes tenho dito e
escrito sou dos que entendo a necessidade de mudanças em matéria de currículo,
de autonomia, de recursos e organização das escolas, etc. e também muitas vezes
tenho afirmado as razões para tal entendimento pelo que as deixo de lado.
Por outro lado, e como também já
disse, não simpatizo com a recorrente referência à necessidade de inovação em
educação ou de uma "nova forma de ensinar" e, muito menos, à "revolução" que virá.
Mudar algo na forma como se faz não é o mesmo que inovar, fazer
qualquer coisa de novo. Nestas matérias, talvez de forma simplista mas é
intencional, penso como Almada Negreiros quando referia na "Invenção do
Dia Claro”, "Nós não somos do século de inventar palavras. As palavras já
foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já
foram inventadas”.
Dito de outra maneira, já
conhecemos as palavras da educação, apenas temos que ir ajustando o que fazemos
com elas. Peço desculpa, só para dar dois exemplos comuns, não creio que
utilizar um tablet na sala de aula seja inovar, é fazer o que de há muito sabe,
o trabalho em sala de aula deve reflectir o estado da arte das comunidades em
matéria de desenvolvimento científico, ou seja, o tablet é “novo” mas a prática
nem tanto. Também não creio que um trabalho que articule conteúdos curriculares de
diferentes disciplinas seja “inovador” embora se possa dizer que não é tão
frequente como se desejaria ou que as múltiplas variáveis que envolvem os
processos de ensino e aprendizagem permitem.
A história recente mostra que as
dezenas de alterações que em matéria de currículo se foram produzindo sempre
aconteceram sem que se assegurasse a avaliação séria do que está em vigor e
qual o sentido da mudança. A experiência mostra ainda que as sucessivas
alterações foram produzidas sem que se procurasse, não digo um consenso pois
sei que em educação e em Portugal é quase impossível face a agendas e
corporações de interesses, mas o envolvimento e participação dos diferentes
actores intervenientes nos processos educativos na construção das alterações.
Finalmente, mostra ainda que os
calendários e a metodologia das mudanças raramente permitiram que se
processassem sem sobressaltos e com um mínimo de estabilidade.
Este acervo de experiência
deveria ajudar a que um novo processo de mudança contrariasse a fatalidade do
“sempre se fez assim” e os dispositivos de regulação e apoio inibissem a, a
peça refere, discursos generalizados do tipo “isto é o que já fazemos” e que se
constituem um dos mais sérios obstáculos a alterações.
O que vai sendo conhecido em
matéria de currículo tem claramente aspectos positivos mas também me suscita
algumas dúvidas ou apreensão.
A visão de currículo parece-me
caminhar num sentido diferente para melhor, não porque seja nova, continuo a
achar excessiva tanta referência a inovação que de inovação tem pouco, mas
porque tenderá a minimizar o impacto negativo de um currículo demasiado
extenso, prescritivo, normativo e pouco amigável para a diversidade entre os
alunos pois “normaliza” em excesso.
Parece-me também positivo que
seja ensaiado como o normativo agora publicado enquadra e que as escolas tenham
autonomia para gerir as alterações e a organização de conteúdos, tempos e
tipologia de aulas entre outras dimensões.
As minhas dúvidas e apreensão
radicam em alguns aspectos que retomo.
Não me parece que as comunidades
educativas tenham a informação suficiente para que se entenda, discordando ou
concordando, a natureza e alcance das mudanças. Ainda não estabilizou a
definição do Perfil do Aluno para o Sé. XXI. Uma boa ideia mal vendida pode
transformar-se numa má ideia tal como uma má ideia bem vendida pode parecer uma
boa ideia. Na minha opinião o estado de graça com que arrancou Nuno Crato
assentou neste último enunciado.
Não percebo muito bem como a
visão e os objectivos anunciados são compatíveis com a manutenção dos conteúdos
curriculares designadamente das metas curriculares tal como estão definidas.
Esta análise solicitaria mais tempo e a introdução de alterações sob pena de se
criarem constrangimentos do tipo, “está previsto mas não se dá”.
Como será gerido o tempo dos
docentes dada a sua “arrumação” por grupos disciplinares e a forma como está
organizada a sua carreira e formação?
Com que efectivo de turma iremos
trabalhar em “projecto”? O efectivo de turma tem impacto comprovado no nível de
diferenciação das práticas pedagógicas, no clima de aprendizagem ou na
acomodação da diversidade dos alunos.
Neste contexto preferia que
tivéssemos mais algum tempo de construção da mudança antes de a operarmos mesmo
que em regime experimental e em escala mais pequena.
Existindo dúvidas produz-se ruído
para além do que sempre emerge do contrismo ou do imobilismo que sendo
habitual, não é positivo. Não seria desejável que possamos correr o risco de,
mais uma vez, de perder uma oportunidade e esperar que novo ciclo eleitoral
traga nova(s) mudança no(s) currículo(s) ou noutras dimensões.
Estou, no entanto, a torcer para
que tudo corra o melhor possível. Já vai sendo tempo e já merecemos, sobretudo
os alunos e professores.
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