quinta-feira, 23 de maio de 2019

O AUMENTO DOS COMPORTAMENTOS ANTI-SOCIAIS EM ADOLESCENTES


É conhecido o relatório de actividade das CPCJ em 2018. Comparativamente a anos anteriores as alterações não significativas para a generalidade da tipologia de situações mas alguns dados merecem particular atenção.
A negligência é motivo para 43.1% dos casos reportados, em segundo lugar temos os comportamentos de natureza anti-social do adolescente ou jovem, 18.7% (2606 casos) e em terceiro na frequência está o não cumprimento do direito educação, absentismo e abandono escolar (17.4%, 2422 casos).
É evidente que qualquer situação reportada é grave mas merece particular referência o aumento que de ano para ano se está a verificar nos “comportamentos de risco, anti-sociais”. Nos últimos cinco anos verificou-se um aumento ao ritmo de 3% em cada ano, as situações concentram-se na faixa entre os 15 e 17 anos e de acordo com a presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens consideram-se "situações de comportamento social incontrolável e indisciplinado, consumos de álcool, estupefacientes e adição às novas tecnologias".
O aumento destas situações merece a reflexão e, sobretudo, uma intervenção preventiva e remediativa que minimize a sua emergência e permita um maior controlo dos riscos e, desejavelmente a reabilitação dos comportamentos sociais adequados e saudáveis.
Parece-me importante que os comportamentos evidenciados por estes adolescentes não são a causa dos seus problemas, são uma consequência do seu mal-estar. Este entendimento não tem a ver com nenhuma intenção de desresponsabilização dos jovens ou com uma visão idealizada e romântica destas idades.
Sabemos que por várias razões, os outros dados do relatório ajudam a entender, existem contextos familiares pouco saudáveis e os recursos disponíveis nas escolas não são suficientes (nem adequados muitas vezes) para lidar com estas situações.
Sem querer desculpar ou branquear comportamentos creio que o nosso quotidiano vive inquinado com sementes de mal-estar que por um qualquer "gatilho" ou circunstância, por vezes irrelevantes, se transformam em comportamentos anti-sociais ou mesmo violência dirigida a quem quer que seja, às vezes contra si próprios.
Vai sendo tempo de nos interrogarmos sobre os tempos que vivemos, os valores que os informam, os modelos de discursos e comportamentos que evidenciamos, dos anónimos às elites e desde logo com as crianças, os atropelos à dignidade e direitos, a ausência de projectos de futuro que nos permitam a esperança e substituam o vazio em que muita gente, mais velha ou mais nova, vive. É neste caldo de cultura que nascem e se desenvolvem as sementes de mal-estar.
Estas sementes estão “incubadas” muitas vezes desde a infância e adolescência e podem ir passando despercebidas até que o peso interior leva à “necessidade” da sua exteriorização e um qualquer “gatilho” vai detonar um conjunto de comportamentos que podem mesmo ser de extrema violência.
Sabemos que a prevenção e programas de natureza comunitária, socioeducativa, têm custos mas importa ponderar entre o que custa prevenir e os custos posteriores da pobreza, exclusão, delinquência continuada e da insegurança.
É essencial uma atenção precoce e permanente atenção às pessoas, ao seu bem-estar, tentando detectar, tanto quanto possível, sinais que indiciem o risco de enveredar por um caminho que se percebe como começa, mas nunca se sabe como acaba.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

DA DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA


A banca nos últimos anos tem sido um pântano de corrupção e negócios manhosos envolvendo a restrita “família” que deste contexto beneficia tendo como certo que quando a coisa corre mal somos nós que “ajudamos” os bancos e não o patético mas “esperto” Berardo.
É em cenários desta natureza que também se gera e alimenta o mal-estar que se vai sentindo por diferentes paragens.
O quadro internacional é assustador, os movimentos populistas, extremistas e xenófobos ganham espaço e capitalizam apoios com a criação de “responsáveis” dessa inquietação e mal-estar. Já conhecemos esta narrativa e os seus efeitos trágicos. A mediocridade das lideranças, a manipulação e desinformação através das redes sociais e da mais despudorada e criminosa campanha de produção de “realidade” a que muita gente adere é mais um poderoso ingrediente.
Julgo que o caminho terá necessariamente de passar pelo recentrar do desenvolvimento no bem-estar das pessoas que liderará o funcionamento das economias e dos mercados abertos. Não podemos aceitar o aumento da concentração da riqueza e das disparidades em escala global ou nacional, a insustentabilidade do ambiente, a exclusão e a pobreza alimentados com os mercados a liderar.  As lideranças económicas, os interesses dos mercados, os modelos políticos de desenvolvimento que se orientam para resultados e mercados e não para pessoas, promovem riqueza sem que a sua distribuição tenha efeitos sérios na desigualdade social. Aliás, é claro que a distribuição da riqueza criada quer em países mais ricos, quer em países mais pobres, mostra justamente que a esmagadora maioria da riqueza criada continua concentrada nas mãos de uma pequena minoria.
Urge um regresso à política no sentido mais robusto e ético do termo, a promoção do bem- estar das pessoas.
Não podemos falhar, o custo será demasiado elevado.

COM UM BOCADINHO DE SORTE


Com um bocadinho de sorte teria nascido numa família que o desejasse, amasse e onde não representasse um estorvo.
Com um bocadinho de sorte teria brincado quando foi a altura de brincar.
Com um bocadinho de sorte teria passado por uma escola que sentisse sua e onde se acreditasse que era capaz.
Com um bocadinho de sorte teria encontrado os amigos certos que não o levassem por descaminhos.
Com um bocadinho de sorte teria encontrado alguém que gostasse dele e ficasse a seu lado.
Com um bocadinho de sorte não teria a vida, má e feia, em que mergulhou.
Com um bocadinho de sorte teria percebido que o consumo o consumiria.
Com um bocadinho de sorte não teria estado naquele momento, naquele sítio.
Com um bocadinho de sorte não teria acabado assim, ainda novo.
Com um bocadinho de sorte teria sido gente.
(...)
Tantos miúdos que nascem e crescem sem um bocadinho de sorte. Dizem que é destino ... ou fado. Será que não conseguimos contrariar o destino?

terça-feira, 21 de maio de 2019

CHICO BUARQUE, PRÉMIO CAMÕES 2019


É impossível dissociar a atribuição do Prémio Camões 2019 a Chico Buarque do que hoje é o Brasil e  dos tempos negros e inquietantes que se vivem naquela terra imensa.
No entanto, acredito que um dia …
Vai ser bonita a festa pá
Ficarei contente.

DA FALTA DE PROFESSORES

Ao longo do ano lectivo têm sido recorrentes as notícias relativas às dificuldades de suprimir a falta de docentes em alguns grupos e níveis de ensino por parte das direcções escolares. As razões são múltiplas mas o cenário mostra que a narrativa tão “vendida” dos professores a mais talvez não fosse tão evidente e que, como sempre em educação, as contas sobre o número de professores necessários ao sistema nunca dão certo.
As dificuldades de “recrutamento” reportadas pelos directores referem também as condições de precariedade e de carreira ou da falta de docentes em algumas áreas disciplinares e o número significativo de docentes em situações de baixa médica.
Em Dezembro escrevi aqui um texto sobre esta questão que de há muito se anuncia a que chamei “Mayday, Mayday” tendo retirado o título de um artigo histórico de um dos meus Mestres, o Professor Joaquim Bairrão Ruivo que também o usou com o sentido que tem na aviação. A situação é mesmo grave.
Num trabalho divulgado no final de 2018 pela OCDE, “Reviews of School Resources: Portugal 2018” retoma-se algo que tem vindo ser questionado nos últimos anos, designadamente nos dados divulgados pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência e em estudos do CNE, o envelhecimento brutal da classe docente e as potenciais consequências negativas e que se agrava a cada ano que passa. Como escrevi várias vezes a este propósito, num país preocupado com o futuro o cenário existente faria emitir, como agora se usa, um alerta vermelho e agir em conformidade.
Ao perfil dos docentes profundamente  inquietante em termos de idade acresce que como é reconhecido em qualquer país, a profissão docente e altamente permeável a situações de burnout, estado de esgotamento físico e mental provocado pela vida profissional, associado a baixos níveis de satisfação profissional. Também o estudo da OCDE refere aspectos desta natureza e numa classe envelhecida o risco é, obviamente, mais elevado.
Na verdade, este cenário só pode surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam pela comunicação social perorando sobre educação e sobre os professores. Aliás, esta situação verifica-se noutros países, sendo que para além dos professores, os profissionais de saúde e de apoios sociais também integram os grupos profissionais mais sujeitos a stresse e burnout.
Este quadro é inquietante, uma população docente envelhecida e a revelar preocupantes sinais de desgaste.
Também se sabe que as oscilações da demografia discente não explicam a saída de milhares de professores do sistema, novos e velhos, como também não explicam a escassíssima renovação, contratação de docentes novos. Sem estranheza, no universo do ensino privado é bastante superior a presença de docentes mais jovens. Não esqueçamos ainda a deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. Acresce que sucessivas equipas ministeriais têm empreendido um empenhado processo de desvalorização dos professores com impacto evidente no clima das escolas e nas relações que a comunidade estabelece com estes profissionais.
Sabemos que os velhos não sabem tudo e os novos nem sempre trazem novidade. Mas também sabemos que qualquer grupo profissional exige renovação pelas mais variadas razões incluindo emocionais, de suporte, partilha de experiência ou pela diversidade.
As salas de professores são cada vez mais frequentadas, quando há tempo para isso, por gente envelhecida, cansada e pouco apoiada que muitas vezes pergunta "Quanto tempo é que te falta?"
Com a previsível aposentação de milhares de professores num prazo relativamente curto teremos uma significativa falta de docentes. O problema é que muito pelo contributo de opinadores e por efeitos de algumas das políticas públicas em matéria de educação a profissão de professor perdeu capacidade de atracção.
Seria desejável que não nos esquecêssemos que os sistemas educativos com melhor desempenho são também os sistemas em que os professores são mais valorizados, reconhecidos e apoiados.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

DA REUTILIZAÇÃO DOS MANUAIS ESCOLARES


Neste final de ano lectivo o Tribunal de Contas alerta para a insustentabilidade da medida de gratuitidade dos manuais escolares caso não se eleve substancialmente a taxa de reutilização que terá ficado pelos 4% dos livros distribuídos neste ano lectivo. Nada de novo, estamos habituados a que as contas da educação nunca dêem certas.
Para além de decisões de muitos pais e de algumas escolas no sentido de não reutilizarem manuais, uma questão significativa é a dificuldade de produzir manuais com características que sejam amigáveis da reutilização apesar das orientações, agora mais explícitas para o próximo ano, no sentido de que a potencialidade de reutilização seja real.
Como disse há algum tempo, a operacionalização deste caminho, a reutilização dos manuais escolares, não seria fácil.
A elaboração dos manuais escolares, um importante nicho de mercado, sempre considerou a sua não utilização. De facto, a quantidade e o tipo de trabalho que os alunos realizam no manual impede a sua reutilização. Acresce que as mudanças frequentes quer nos conteúdos curriculares, quer nos manuais aprovados nos diferentes agrupamentos e escolas serão também um obstáculo à sua reutilização.
Neste sentido, a gratuitidade dos manuais escolares e a sua reutilização exigem um outro olhar sobre os manuais, considerando quer os conteúdos e apresentação, quer a utilização. As práticas já desenvolvidas em muitas salas de aula e a experiência de outros sistemas educativos mostra que é possível apesar da evidente resistência dos donos do mercado do livro escolar.
Assim, e com tantas vezes tenho afirmado creio que o caminho a percorrer em matéria de manuais escolares deveria incluir estratégias que tentassem contrariar o que costumo designar por uma excessiva “manualização” do ensino que emerge de práticas pedagógicas pouco diferenciadas muito decorrentes de conteúdos curriculares que apesar do “mantra” da flexibilidade curricular ainda são “passados” de forma prescritiva e normalizadora. Seria desejável atenuar a fórmula predominante, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.
Em algumas circunstâncias, o número de alunos por turma é também um factor contributivo para este cenário. A adequação do número de alunos por turma ao abrigo de uma verdadeira autonomia das escolas e dos docentes, permitiria a alunos e professores um trabalho de pesquisa e construção de conhecimentos com base noutras fontes incrementando, por exemplo, a acessibilidade a conteúdos e informação diversificada que as novas tecnologias oferecem.
A construção dos próprios manuais, tendo um outro papel no trabalho de alunos e professores, pode evitar a sua utilização como suporte do trabalho dos alunos e, assim, não impedir a sua reutilização. Aliás, o mercado também é fértil em materiais como “cadernos de actividades”, “fichas”, “Cds”, etc. que são suportes para o trabalho dos alunos
A questão é que os manuais escolares constituem um importantíssimo nicho de mercado potenciado por esta enorme quantidade de materiais que os acompanham. Como também é previsível, numa sociedade de consumo e desperdício a cultura de reutilização é pouco sólida e alimenta a resistência à reutilização é grande e dificulta o surgimento de outro tipo de manuais ou mesmo o seu abandono.
É também sabido que a reutilização de manuais é prática já verificada em muitos países.
Os manuais escolares são disponibilizados pelas escolas e devolvidos pelos alunos no final do ano lectivo ou da sua utilização. As famílias são responsabilizadas pelo seu eventual dano ou extravio e ficando, assim, com "folga" para aquisição de outros materiais, livros por exemplo, um bem com pouca presença em muitos agregados familiares.

domingo, 19 de maio de 2019

BASICAMENTE DE ACORDO COM PACHECO PEREIRA, "A HOSTILIDADE AOS PROFESSORES"


Desta vez também estou de acordo com o essencial do texto de Pacheco Pereira no Público, “A hostilidade aos professores”, sobre o mundo dos professores e do seu universo profissional.
“(…)
Por fim, e o mais importante, há uma desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que se fala
(…)
Na verdade, boa parte da opinião publicada sobre o universo dos professores e das condições do seu exercício profissional é sustentada pela arrogância da ignorância ou por agendas implícitas com interesses outros.
Como já tenho dito, entendo que alguns dos problemas dos professores são também problemas nossos e tanto mais quando está em causa a qualidade da escola pública e do trabalho de alunos, professores e pais.
Relembro, na mesma linha que Pacheco Pereira, a importância essencial e a responsabilidade que o trabalho dos professores assume na construção do futuro. Tudo passa pela escola e pela educação. Assim sendo, as mudanças na educação só podem ocorrer e ser bem-sucedidas com o envolvimento dos professores.

sábado, 18 de maio de 2019

A CHAMA IMENSA

A alma benfiquista acendeu de novo a chama imensa. Campeões pela trigésima sétima vez.









Com a estrada que já levo percorrida foram vários os títulos de campeão a que fui assistindo, como todos os outros as circunstâncias dão-lhes sabores diferentes. Uma palavra de apreço à entrega e valor da equipa, à competência de Bruno Lage, ao seu  bom senso, falou quanto baste, falou diferente e, sobretudo, calou quanto baste.
Um agradecimento ao fortíssimo contributo que muitos discursos de responsáveis de outras cores  deram a este título emprestando-lhe, de facto, um sabor especial.

AGRESSÃO A UMA PROFESSORA. Mais um episódio

Andam negros os tempos para os professores.
As notícias sobre agressões a professores, cometidas por alunos ou encarregados de educação, vão chegando com alguma frequência à comunicação social.
Desta vez aconteceu numa escola básica do concelho de Gaia. A mãe e a avó de uma aluna agrediram seriamente uma docente na presença de vários alunos.
Cada um destes recorrentes episódios é, obviamente, um caso de polícia mas não pode ser “apenas” mais um caso de polícia e julgo que, mais do que ser notícia, importaria reflectir nos caminhos que seguimos.
Algumas notas que apesar de repetidas me parecem ainda justificadas dada a frequência e gravidade destes episódios. Esta questão, embora sempre objecto de rápidos discursos de natureza populista e securitária, parece-me complexa e de análise pouco compatível com um espaço desta natureza.
Começo por uma breve reflexão em torno de três eixos: a imagem social dos professores, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade que me parecem fortemente ligados a este fenómeno.
Já aqui tenho referido que os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso de gente dentro do universo da educação que tem, evidentemente, responsabilidades acrescidas e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes ou com agendas implícitas, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para alterações significativas da percepção social de autoridade dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, sobretudo, alunos e pais. Os últimos tempos têm sido, aliás, elucidativos.
Esta fragilização tem, do meu ponto de vista, graves e óbvias consequências, na relação dos professores com alunos e pais.
Em segundo lugar, tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os professores, entre outras profissões, polícias ou médicos, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição de professores, como fontes de autoridade. Tal processo alterou-se, o facto de se ser professor, já não confere, só por si, “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de desrespeito ou de agressão. O mesmo se passa, como referi, com outras profissões em que também, por razões deste tipo, aumentam as agressões a profissionais.
Finalmente, importa considerar, creio, o sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a grandes, o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”.
Considerando este quadro, creio que, independente de dispositivos de formação e apoio, com impacto quer preventivo quer na actuação em caso de conflito, obviamente úteis, o caminho essencial é a revalorização da função docente tarefa que exige o envolvimento de toda a comunidade e a retirada da educação da agenda da partidocracia para a recolocar como prioridade na agenda política.
Definitivamente, a valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade sendo esta valorização uma das dimensões identificadas nos sistemas educativos melhor considerados.
É ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de punição e responsabilização séria dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

AS VOLTAS DA ESTRADA

Quando passados exactamente 50 anos se volta à escola onde cumprimos parte do secundário para trabalhar com professores do agrupamento a sensação é algo estranha.
Foi há tanto tempo, foi há tão pouco tempo, foi tão pouco tempo.
E tal como há 50 anos em que gostava das conversas que mantinha naquela escola, o na altura chamado Liceu D. João de Castro, também desta vez gostei da conversa com os professores.
Por outro lado e contrariamente acontecia com regularidade naqueles tempos espero que desta vez os professores tenham gostado da minha conversa.
As voltas da estrada têm circunstâncias curiosas. Foi giro.

ENSINO PRIVADO PARA QUEM?


Voltando de novo ao relatório Balancing School Choice and Equity elaborado pela OCDE com base nos dados do PISA de 2015 confirma-se o esperado, Portugal é um dos países em que o ensino privado mais é frequentado por alunos oriundos de contextos familiares mais favorecidos. A existência de contratos de associação não parece interferir significativamente neste quadro pois em 2015 apenas cerca 3% dos estabelecimentos de ensino privado estavam envolvidos. Algumas notas.
Como referia há dois dias entendo que a existência de um subsistema de ensino privado é próprio de sociedades abertas e importante até como forma de pressão reguladora sobre a qualidade da resposta pública. Por outro lado, nem o ensino privado é garantia de qualidade nem o ensino público é o inferno. A excelência não é um exclusivo da escola pública nem do ensino privado e todo o sistema deve ser regulado.
Ainda no mesmo sentido reafirmo:
Só a educação e a rede pública de qualidade podem promover equidade e igualdade de oportunidades.
Só a educação e a rede pública de qualidade podem ser verdadeiramente inclusivas e receber TODOS os alunos.
Só a educação e rede pública podem chegar a todos os territórios educativos e a todas as comunidades.
Só a educação e rede pública de qualidade promovem mobilidade social em circunstâncias de equidade no acesso.
Para que tal possa ser cumprido a educação e a rede pública precisam de recursos materiais e recursos humanos valorizados e competentes.
A política educativa em cada momento histórico tem a inalienável responsabilidade de garantir que assim seja.
Os custos da educação e da rede pública de qualidade não são despesa, são investimento.
É isso que se exige. Em defesa da Educação e da Escola Pública. Em nome dos nossos filhos, dos filhos dos nossos filhos ...

quinta-feira, 16 de maio de 2019

DEVAGAR, DEVAGARINHO


Encontrei no Público uma entrevista curiosa, por assim dizer, a Carl Honoré, tido como um estudioso e “guru” do movimento “slow living”, a transformação do “devagar” numa filosofia de vida.
Mais uma vez lembrei-me de um colega de escola lá muito para trás no tempo que já aqui referi.
Como sabem, é hábito que ainda se mantém, quando somos pequenos criar alcunhas era bastante frequente e acontecia a propósito das mais variadas razões. Muitas vezes a alcunha, seja pelo som, pela graça ou pela apropriada designação, entranhava-se na relação, substituía o nome e acontecia até que algum tempo depois já nem o recordamos. Foi o caso do Lesma, de tal forma a designação se colou que não consigo lembrar-me com segurança do seu nome.
Neste caso, a elegante designação de Lesma foi-lhe atribuída pela primeira vez por um dos professores e dela nunca mais se livrou, passou de uma brincadeira a uma identidade.
O Lesma foi a pessoa mais vagarosa, mais tranquila, mais sem pressa, que alguma vez conheci. Era o último a chegar a qualquer lado, sempre com ar de quem era o primeiro e a tempo. Em qualquer tarefa ou jogo, coisas da escola ou brincadeiras fora da escola o Lesma era exasperante, sempre sem pressa, sempre o último.
Até a falar o Lesma era vagaroso, demorava um tempo que nos parecia infindo a acabar uma frase cujo final todos já adivinhávamos.
Provavelmente porque o nosso tempo era outro e apesar da sua lentidão perdi o rasto Lesma.
Hoje em dia, a vida acelerou-se, inventámos o stresse, o para ontem, o temos que fazer tudo e rápido, não podemos perder tempo, etc., o tempo tornou-se um bem de primeiríssima necessidade que quase ninguém tem. Quase ninguém está, vai ou vem com tempo.
Como reacção a este estilo de vida têm vindo a surgir movimentos e ideias que direccionados para diferentes áreas de funcionamento têm de comum a intenção de abrandar o ritmo. A palavra chave emergente é "slow", na alimentação, nas actividades de lazer, nos locais de trabalho. Multiplicam-se as ofertas mais ou menos exóticas, mais ou menos criativas, mas todas apostando nas milagrosas virtudes do "slow" e do “slow living” como defende Carl Honoré.
Ao ler a sua entrevista não pude deixar de recordar o Lesma. Na verdade e sem que qualquer de nós conseguisse perceber, o Lesma era um visionário, o primeiro que conheci e que só mais tarde reconheci.
Não tenho nenhuma convicção de que tenhamos de nos converter ao "slow living" mas é crucial que consigamos reconstruir a relação com o tempo, começando pelo tempo dos e com os mais novos.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

ESCOLHER OS ALUNOS


Lê-se no Público que de acordo com os dados de 2015 do PISA usados no Relatório “Balancing School Choice and Equity”, 28% dos directores de escolas públicas inquiridos e 82% de escolas privadas referem que o desempenho escolar dos alunos é tido em conta na admissão.
Nada de novo. Creio que actualmente a situação se terá atenuado devido a reajustamento dos critérios de admissão e também pelo abaixamento do número de alunos.
No entanto e apesar desta prática importa não esquecer que a escola pública é ainda a grande ferramenta da promoção da inclusão, da equidade e do combate à desigualdade.
Ainda que esta seja o caminho menos interessante para “fazer a diferença” é a escola pública que, de facto, faz a diferença na vida dos alunos.
Reafirmo que a existência de ensino privado sublinha a importãncia e constitui um factor de pressão sobre a qualidade na escola pública.
Assim as políticas educativas se desenhem neste sentido, valorizando a escola pública e todos os que nela trabalham, a dotem de recursos necessários, se definam os adequados dispositivos de apoio e regulação.

terça-feira, 14 de maio de 2019

DOS "CENTROS DE ESTUDO"


O terceiro período está terminar e aproxima-se a época de exames. Como costumo dizer, estes são o tempo das explicações, procura-se a “recuperação” que evite o “chumbo”, o “saltinho” até à excelência ou a preparação para os exames.
É também habitual que a imprensa se refira a esta questão. Uma peça no DN tem o sugestivo título “ESCOLA: COMO OS CENTROS DE ESTUDOS PODEM AJUDAR OS PAIS NESTES TEMPOS DIFÍCEIS”.
São apresentadas algumas experiências e quer pais, quer responsáveis referem o impacto positivo nos alunos, sobretudo no que respeita ao desempenho escolar. Os pais referem a importância de sentir que os miúdos estão apoiados e, sublinho, ocupados. No entanto, a peça,  naturalmente  sem intenção, esqueceu aqueles pais que não conseguem aceder a esta “ajuda”, é cara e está fora das suas possibilidades.
É verdade que a oferta é variada e, certamente, o custo também. Andar pela proximidade de muitas escolas essa abundância da oferta de “explicações” recorrendo designações muito variadas, “Centros de Estudo”, “Sala de Estudos”, “Academias”, “Ginásios”, etc., que provavelmente terão mais efeito “catch” no sentido de atingir o “target”.
O mercado está sempre atento.
Com alguma regularidade desloco-me a um local perto de uma escola básica integrada de dimensão significativa. Como não podia deixar de ser existem vários espaços para “explicações”.
Um deles, mesmo em frente à escola, divulga numa enorme montra um impressionante conjunto de serviços.Começa por afirmar que recorre a metodologias divertidas para aprender melhor.
Depois temos o elenco de respostas:
Explicações de todos os níveis
Centro de alto rendimento escolar
Preparação para exames
Estratégias educativas
Motivação e auto-estima
Gestão de ansiedade
Stresse nos exames
Mindfulness terapia
Actividades de férias
Confesso que fiquei esmagado. Escola e professores para quê?
Apesar de nada ter contra a iniciativa privada, desde que com enquadramento legal e regulada, várias vezes tenho insistido no sentido de se entender como desejável que os apoios e ajudas de que os alunos necessitam fossem encontrados dentro das escolas e agrupamentos, ou seja, os centros de estudo, deveriam estar nas escolas. O impacto no sucesso dos alunos minimizaria, certamente, eventuais custos em recursos que, aliás, em alguns casos já existem dentro do sistema.
Esta minha posição radica no entendimento de que a procura “externa” de apoios, legítima por parte das famílias, tem também como efeito o alimentar da desigualdade de oportunidades e da falta de equidade como sucessivos relatórios nacionais e internacionais referem e de que aqui já falei.
A ajuda externa ao estudo como ferramenta promotora do sucesso não está ao alcance de todas as famílias pelo que é fundamental que as escolas possam dispor dos dispositivos de apoio suficientes e qualificados para que se possa garantir, tanto quanto possível, a equidade de oportunidades e a protecção dos direitos dos miúdos, de todos os miúdos.
As necessidades dos alunos poderiam ser atenuadas com o recurso a professores que já estão no quadro ou com contratos sucessivos sendo que muitos foram mesmo empurrados para fora. Também por esta razão a narrativa dos professores a mais é ... isso mesmo, uma narrativa.
De uma vez por todas, é necessário contenção e combate ao desperdício, mas em educação não há despesa há investimento.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

CRIANÇAS EM RISCO, FUTURO EM RISCO


Há dias, uma peça do Expresso fazia referência a uma intervenção pública da Procuradora-Geral da República, Lucília Gago, em que afirmou, “muito investimento ainda há por fazer" na protecção de menores” explicitando questões como a revisão da Lei Tutelar Educativa e das medidas de protecção de acolhimento residencial e familiar.
Muitas vezes tenho aqui referido a necessidade maior investimento e eficiência no âmbito da protecção de menores e sublinho também a importância do reforço dos recursos das CPCJ, a melhor integração e oportunidade das respostas a situações detectadas, uma adequação às mudanças e novas realidades na área dos Tribunais de Família e Menores, etc.
Como acentuou a Procuradora-Geral da República, "É, de facto, um domínio em que muito investimento há ainda por fazer e que se impõe que seja feito no sentido de que as crianças, os cidadãos com idade até aos 18 anos, são o futuro do país e o investimento que se faça neles é importantíssimo. É um investimento que tem retorno".
É ainda frequente a ocorrência de situações, por vezes com contornos dramáticos, envolvendo crianças e jovens que, sendo conhecida a sua condição de vulnerabilidade não tinham, ou não tiveram, o apoio e os procedimentos necessários. E acontece que depois de alguns episódios mais graves se oiça uma expressão que me deixa particularmente incomodado, a criança estava “sinalizada” ou “referenciada” o que foi insuficiente para a adequada intervenção. Em Portugal sinalizamos e referenciamos com relativa facilidade, a grande dificuldade é minimizar ou resolver ou minimizar os problemas das crianças referenciadas ou sinalizadas.
Como afirma, Benedict Wells no recente “O fim da solidão”, “Uma infância difícil é como um inimigo invisível. Nunca se sabe quando nos vai atingir”.

domingo, 12 de maio de 2019

O MELHOR PROFESSOR DE PORTUGAL


O calendário tem circunstâncias curiosas, num tempo em que os professores travessam tempos conturbados foi conhecido que no âmbito da iniciativa Global Teacher Prize Portugal o Professor Rui Correia (Escola Básica de Santo Onofre/Agrupamento de escolas de Raul Proença nas Caldas da Rainha) foi considerado o melhor professor de Portugal.
Sucede a José Jorge Teixeira, professor de Física e Química na Escola Secundária Júlio Martins em Chaves.
Uma saudação a Rui Correia e a recomendação para que se leiam as peças sobre o seu trabalho e, sobretudo, sobre a sua pessoa.
Como já referi o ano passado acho que este tipo de iniciativas pode ter algum significado sobretudo como valor simbólico da necessária valorização e reconhecimento do trabalho dos professores num tempo em que tal reconhecimento e valorização nem sempre são sólidos e expressos, antes pelo contrário. No entanto, não acredito muito na ideia do melhor professor de …  
A esmagadora maioria dos professores é competente e empenhada nesse trabalho, procurando desenvolvê-lo com qualidade, rigor e eficácia, sem facilitismos, contrariamente ao que tantas vezes se afirma de forma ignorante. Todos os dias, em todas as escolas muitos professores fazem trabalhos de notável qualidade que mais frequentemente apenas são valorizados e conhecidos … pelos seus alunos, todos os alunos.
Quando qualquer de nós faz um esforço para recuperar lembranças positivas sobre os professores, poucos ou muitos, com que nos cruzámos durante o nosso trajecto escolar, creio que quase todos nos lembramos de professores que continuam na nossa lembrança não só pelos saberes escolares que nos ajudaram a adquirir mas, sobretudo, por aquilo que representaram e foram para nós, ou seja, pela forma como nos marcaram. Cada um desses professores é, certamente, o melhor professor que conhecemos.
Por isso, cada vez mais estou convicto de que os professores, tanto quanto ensinar o que sabem, ensinam o que são, ou seja, existem muitos que nos ensinam saberes, o que é bom e indispensável, mas nem todos permanecem com a gente.
Parece-me sempre oportuno mas nestes tempos mais que nunca acentuar a importância desta dimensão mais ética e afectiva do ensino. Deve ser valorizada e promovida para que os miúdos possam, posteriormente, falar dos professores que os marcaram e que, por essa razão, continuaram com eles.
Para complementar permitam-me recuperar uma história que já aqui coloquei, o Mestre Teixeira, o mestre de Fusíveis.
O Mestre Teixeira foi há muitos anos professor de uma escola que havia naquele tempo que se destinava mais a ensinar o saber-fazer do que o saber-saber. Chamavam-lhes escolas técnicas, umas mais dirigidas para a indústria, as industriais, outras mais dirigidas para os serviços, as comerciais.
O Mestre Teixeira era professor numa escola industrial e era especialista nas coisas da electricidade, sabia tudo sobre esse mundo e tinha, isso é que o fazia ser como era, uma paixão enorme por aquelas coisas. Algumas pessoas, o Mestre Teixeira era uma delas, gostam que toda a gente goste das coisas que os apaixonam e era a partir dessa paixão que ele se relacionava com os alunos.
Mas a grande virtude do Mestre Teixeira era a sua capacidade para entender os alunos, ler os alunos, como eu costumo dizer. Tinha uma capacidade notável de perceber o que se passavam com os adolescentes, o que os levava aos comportamentos ou às dificuldades que evidenciavam. Era quando ele falava qualquer coisa como "tens algum fusível a precisar de ser visto ou a queimar". Tinha então a sabedoria para perceber o que se passava e "arranjar" os fusíveis que não estavam em boas condições. Tal sabedoria e faziam dele um daqueles professores que nos marcam, ensinam o que são, mais do que o que sabem, mesmo quando sabem muito, como era o caso do Mestre Teixeira.
Por isso toda a gente lhe chamava O Mestre de Fusíveis. Hoje, mais do que nunca, fazem falta os Mestres de Fusíveis. Como o Professor Rui Correia certamente será.

sábado, 11 de maio de 2019

AINDA AS CONTAS DOS 9A4M2D


Uma das questões que tem marcado o processo relativo à consideração do tempo de serviço dos docentes é a diversidade de números relativos ao encargo da contagem do tempo do tempo total. Não é estranho, as contas na educação nunca dão certas.
Não sou versado nestas matérias mas creio que talvez seja do algoritmo usado, como agora se fala. O povo costuma dizer, “cada algoritmo, sua sentença” e o povo é sábio.
Serve esta introdução para uma nota breve sobre um custo de todo este processo que ainda não vi considerado em nenhum dos algoritmos usados para … fazer contas.
Talvez seja da minha formação mas acho que não tem sido considerado o fortíssimo impacto que muito provavelmente o resultado a que se chegou tem na motivação, no ânimo da generalidade dos professores afectados pela medida.
O sentimento de injustiça, o sentimento de falta de reconhecimento e de valorização, a forma como têm sido tratados por muitos opinadores arrogantes e ignorantes com agendas que também obedecem a um algoritmo, uma permanente e desgastante tentativa de diabolização da sua posição, são base suficiente para potenciar mais mal-estar numa classe envelhecida, cansada.
Os custos deste mal-estar não são quantificáveis e os potenciais efeitos negativos são óbvios.
Felizmente, e aqui sou optimista, o sentido ético e a competência da grande maioria dos docentes fazem com que continuem a cumprir o seu trabalho diário com resultados genericamente reconhecidos nos estudos comparativos internacionais e a ver o seu trabalho reconhecido e valorizado pela maior parte dos alunos e pais.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

OS BONS ALUNOS CHUMBARAM OS PROFESSORES


O mundo anda um lugar estranho e a tradição já nem sempre é o que era, os bons alunos chumbaram os professores. A situação,já de si inovadora e portanto actual, é ainda mais curiosa pois quando são os alunos a avaliar os docentes se espera que sejam os maus alunos a chumbar os professores e não os bons alunos.
Pois aqui foi assim.
Os bons alunos da Troika que cortaram rendimentos e reactivaram ou activaram congelamento das progressões das carreiras dos docentes e de outros grupos profissionais, os bons alunos que sobrevalorizam e endeusam o défice e relativizam as pessoas, os bons alunos que têm como fonte privilegiada de inspiração e base de decisão em políticas públicas uma folha de Excel chumbaram os professores.
E agora?
Haverá segunda época?
Haverá recurso?
Teremos Novas Oportunidades?
Repetindo-me, a valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

PERMITAM-LHES A SESTA


O PAN apresentou ontem no Parlamento um projecto de resolução que que recomende ao Governo que “proporcione as condições adequadas, nomeadamente leito ou colchão, ambiente calmo, escuro, com temperatura adequada, limitação de ruído e com vigilância, a todas as crianças em idade pré-escolar a fim de assegurar a qualidade do sono da sesta”. Pretende que se garanta que todas as crianças a frequentar a educação pré-escolar em estabelecimentos públicos ou privados tenham condições para dormir a sesta.
A este propósito umas notas.
Há muitos anos o meu filho frequentava um jardim-de-infância da rede social, onde esteve globalmente muito bem acompanhado, a adaptação correu bem mas a partir de certa altura começou a pedir para que se possível o fôssemos buscar logo a seguir ao almoço. Para abreviar a história só algum tempo depois é que percebemos que o gaiato, na altura com quatro anos e ainda um sesto-dependente, se sentia muito desconfortável por ter de dormir calçado, isso mesmo, calçado. Falámos com a educadora e com a auxiliar, a situação alterou-se, a sesta ficou tranquila e o João feliz. É um exemplo de miúdo para o qual a sesta era importante e foi-o mais algum tempo, ainda nos rimos hoje cá em casa porque era frequente quando passeávamos naquela época ter que me sentar num banco de jardim onde ele adormecia facilmente durante um tempinho, ficando pronto e em forma para o resto do dia.
Também é conhecido que em muitas instituições, por várias razões, se determina uma idade, quase sempre aos três anos e menos frequentemente os quatro, a partir da qual se retira às crianças a possibilidade da sesta, "proibindo-a".
Como em muitos outros aspectos as crianças não têm padrões de sono/vigília iguais pelo que umas, mais cedo que outras, começam a dispensar a sesta e algumas, é bom não esquecer, a adquirir estilos de vida que não sendo contrariados pelas famílias as levam rapidamente a viver com menos horas de sono do que seria desejável com várias consequência menos positivas. Todos os estudos sobre esta questão assinalam a falta de qualidade do sono nas nossas crianças e também nos mais velhos com consequências significativas em várias dimensões
Por outro lado, muitas vezes a alternativa que em muitas instituições é oferecida para ocupar este tempo é ela também de má qualidade. Não há muito tempo foram divulgada a situação de crianças que não faziam a sesta e ficavam numa sala na penumbra a ver televisão.
Além disto, deve ainda considerar-se que boa parte das crianças estão nas instituições durante um número de horas significativo pelo que a sesta poderia ser um factor de repouso e corte numa presença institucional diária de longa duração.
Assim, parece uma questão de bom senso e qualidade educativa, permitir que no jardim-de-infância e sem o limite rígido da idade as crianças cumpram uma sestazinha que só faz bem e que deixa muitos de nós cheios de inveja.

NA QUEIMA DAS FITAS NÃO SE "QUEIMAM" APENAS AS FITAS.

É recorrente. Os eventos conhecidos por "queima da fitas, realizados nas várias cidades com ensino superior, designadamente, nas de maior dimensão e tradição, são palco de excessos e comportamentos de diferente natureza que causam alguma inquietação e que preferia que não acontecessem. Nada de importante, felizmente o o mundo não é a projecção dos meus desejos.
Nas queimas das fitas não se queimam apenas as fitas, também se queimam valores e ideias que deveriam ser preservadas.
Também não é um comentário de natureza moralista ou conservadora de um velho que que também passu há muito pelas "tradições académicas".
É um comentário de alguém que defende a educação com valores e não a educação para a santidade. A transgressão e os comportamento "fora da caixa" fazem parte, em muitas circunstâncias, das tarefas do desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens.
No entanto alguns dos comportamentos estão para além dessas "tarefas de desenvolvimento", são tóxicas, fazem mal.
Sou, por natureza, optimista, mas julgo que gente que irá construir o futuro o saberá fazer mas ... atenção, o futuro está a construir-se agora, também nas "queimas das fitas".

quarta-feira, 8 de maio de 2019

DIFERENCIAÇÃO E EDUCAÇÃO


Daqui a pouco vou fazer-me à estrada para mais um encontro de trabalho com professores do ensino básico, desta vez e mais uma vez em Peniche. A ideia será conversar sobre diferenciação no trabalho educativo, uma temática recorrente que da forma como tantas vezes é abordada corre o risco de perder significado e entra como é mais habitual entre nós em modo “cada cabeça, sua sentença” ou, de outra forma, “cá para mim, diferenciação é…”
Não tenho a pretensão do discurso definitivo, do manual, não creio que exista, encaro estes encontros como espaço de reflexão que, lamentavelmente e do meu ponto de vista são insuficientes nas escolas em parte devido à carga burocrática e também questões e modelos de organização e funcionamento.
Como todos reconhecemos, a característica mais evidente de qualquer sala de aula ou escola é a diversidade. Esta é questão central, com grupos diversos e escolas diversas a resposta deve, tem que ser, diferenciada sob pena de não acomodar as diferenças entre os alunos comprometendo a qualidade, o sucesso e a inclusão.
Todo o sistema educativo e as políticas educativas devem servir de suporte a esta visão e às suas múltiplas implicações.
Indo um pouco mais longe nas práticas pedagógicas e como nestas se traduz um princípio de diferenciação umas notas breves sublinhando que alterar alguns aspectos não tem a ver com “inovação” ou com “novos paradigmas”, terminologia cuja utilização frequente me irrita um bocado. A questão central pode ser alterar e não inovar, são de há muito conhecidas boas práticas que diariamente são mobilizadas em muitas escolas quase sempre com pouca divulgação, até mesmo interna.
Uma primeira nota sobre o equívoco habitual de que diferenciação é sinónimo de trabalho individual. Considerando as dificuldades (e o desajustamento) de fazer assentar o trabalho educativo no trabalho individual, encontra-se assim um suposto “impedimento” à diferenciação. De facto, diferenciar não é igual a trabalho individualizado, pelo contrário, implica muito fortemente a aprendizagem cooperada e a cooperação entre professores. Aliás, verificando-se desejavelmente a aprendizagem individual por parte de cada aluno a sua construção é social pelo que mesmo que fosse possível o recorrer exclusivamente ao trabalho individual, (o que nem com turmas mais pequenas aconteceria) não seria a melhor forma de trabalhar.
Assim, só o desenvolvimento de formas diferenciadas de organizar os processos educativos, de gerir a sala de aula, de avaliar, de gerir a estrutura curricular ela própria com uma concepção e conteúdos que sejam amigáveis desta diferenciação, de comunicar, de cooperar com pais e encarregados de educação, etc., poderá permitir responder tão bem quanto possível à diversidade dos alunos e contextos.
Nesta perspectiva, a organização e funcionamento de uma sala de aula da forma mais ajustada a recursos e necessidades contemplar alguma foram de diferenciação em dimensões como: Planeamento educativo/gestão curricular (aqui entra a “flexibilidade curricular” mas com conteúdos e organização dos currículos adequados); Organização do trabalho dos alunos – as múltiplas formas de organizar o trabalho dos alunos relativamente às situações de aprendizagem; Clima de aprendizagem – a qualidade e nível de interacção e relacionamento social entre alunos e entre professor e alunos; Avaliação – os processos relativos à avaliação e regulação do processo de ensino e aprendizagem; Actividades / Tarefas de aprendizagem – a escolha das diferentes tarefas ou situações de aprendizagem a propor aos alunos e Materiais e Recursos – a definição, utilização e gestão dos materiais e recursos que funcionarão como suporte ao processo de ensino/aprendizagem.
Mas para que isto seja consistente e não localizado também sabemos que o sucesso se constrói identificando e prevenindo dificuldades de forma precoce, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio eficazes, competentes e suficientes a alunos e professores, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados e reais de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, com a valorização do trabalho dos professores, com práticas de diferenciação e expectativas positivas face ao trabalho e face aos alunos, com melhores níveis de trabalho cooperativo e tutorial, quer para professores quer para alunos, etc.
Sabemos tudo isto. Nada é novo.

terça-feira, 7 de maio de 2019

AS PALAVRAS ADEQUADAS


Uma das actividades a que no âmbito da aprendizagem da escrita e da leitura nos primeiros anos de escolaridade os professores recorrem é providenciar aos alunos frases ou pequenos textos com espaços em branco que deverão ser preenchidos com as palavras adequadas, retiradas de uma lista fornecida pelo professor ou, mais difícil, escolhidas pelos alunos.
É um exercício engraçado que após o domínio aparente das competências de leitura e escrita tende a deixar de ser realizado.
Do meu ponto de vista é lamentável que assim aconteça.
À medida que crescemos assume progressiva importância a escolha das palavras adequadas. Em muitas circunstâncias da nossa vida e por razões bem diferentes na sua natureza, experimentamos sérias dificuldades na utilização das palavras ajustadas. Umas vezes, faltam-nos e sem a lista à mão ficamos aflitos para encontrar a boa palavra. Outras vezes, sobram-nos e nem sabemos muito bem o que fazer com elas, onde as colocar e quais.
Na verdade, já todos passámos por muitas situações em que não ouvimos ou dissemos as palavras adequadas. Pode tornar-se um embaraço maior ou menor ser maior ou menor e acontece com frequência.
É por isso que julgo ser importante continuar durante a vida a aprender a escolher as palavras certas para o que queremos dizer.
Os dias que correm mostram que demasiadas vezes os mais novos e também os mais velhos escolhem as palavras menos adequadas.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

MANIFESTO - PELA VERDADE DOS FACTOS


Manifesto - Pela Verdade dos Factos
Como Professores, membros da comunidade educativa e autores de diversos espaços de discussão sobre educação, temos opiniões livres e diversificadas.
Porém, não podemos ficar indiferentes quando está a ser orquestrada uma tão vil e manipuladora campanha de intoxicação da opinião pública, atacando os professores com base em falsidades.
Tais falsidades, proferidas sem o devido contraditório, por membros do Governo e comentadores, deveriam ser desmontadas com factos e não cobertas ou reforçadas pelo silêncio da comunicação social, que deveria estar mais bem preparada para que a opinião pública fosse informada e não sujeita a manobras de propaganda.
Serve este manifesto para repor a verdade dos factos:
       O Governo, pelo Ministério da Educação, a 18 de novembro de 2017, assinou um acordo com os sindicatos de professores, onde se comprometeu a recuperar todo o tempo de serviço. É, por isso, falso que essa intenção seja uma conspiração da oposição ou resulte de uma ilusão criada pelos sindicatos de professores.
       A recuperação total do tempo de serviço também foi proposta pelo PS. O PS, em dezembro de 2017, recomendou a total recuperação do tempo de serviço, conforme se pode verificar no diário da república (Resolução da Assembleia da República n.º 1/2018). É, por isso, falso que o PS nunca apoiou a recuperação integral do tempo de serviço congelado.
       Os valores apresentados pelo Governo sobre o custo da recuperação do tempo de serviço docente são falsos. Foi prometida há perto de um ano uma comissão para calcular os custos reais e até hoje não conhecemos o resultado do seu trabalho. Os números reais que estimamos, líquidos, rondam os 50 milhões de euros anuais, caso se opte pela solução da Região Autónoma da Madeira, de recuperar os 9 anos, 4 meses e 2 dias, no prazo de 7 anos. O Governo já apresentou por diversas vezes contas inflacionadas, com totais baseados em médias erróneas. Um grupo de professores verificou-as e constatou, segmentando os dados, a sua falsidade (https://guinote.files.wordpress.com/2019/05/contas-942-num-ano-2019-e-em-7-anos.xlsx). Ora, uma mentira dita muitas vezes nunca se transformará em verdade.
       A recuperação dos 2 anos, 9 meses e 18 dias em 2019 foi proposta do Ministério da Educação. Aliás, um recente decreto-lei do governo, que ainda aguarda promulgação, apresentou a possibilidade a todos os professores de recuperar parte desse tempo já em 2019. É, por isso, falso que o Governo não tenha verba no orçamento de 2019 para recuperar parte do tempo de serviço congelado. E, se o decreto do Governo é constitucional, então qualquer lei que a AR apresente, afirmando algo semelhante, também será.
       A recente proposta aprovada na Comissão da Educação não altera um cêntimo ao Orçamento de Estado de 2019. O orçamento de 2020 ficará a cargo de próximo Governo, ainda por decidir nas próximas legislativas.
       A proposta que tanta perturbação criou ao atual Governo e seus seguidores mediáticos nem traz nada de especial: a negociação continuará, ficando apenas assumido que, em parcelas e gradualmente, os 9 anos são para considerar na carreira (e nãodevolver”, termo que cria a ilusão falsa de que se vai pagar o que ficou perdido para trás e que nunca ninguém pediu). Os professores perderam milhares de milhões com os cortes salariais durante a crise financeira, mas é falso que seja recuperar isso que está a ser discutido. O que se discute agora é se o tempo de trabalho efetivamente prestado desaparece (ou não) da carreira dos professores.
       O Primeiro- Ministro, na sua declaração de eventual e coativa demissão, falou em falta de equidade e que a votação parlamentar punha em causa a credibilidade internacional. Lembre-se que mesmo as contas inflacionadas do Governo apontam apenas para um acréscimo no défice de 0,2 a 0,3 pontos percentuais. Quanto à credibilidade internacional, não foram os salários dos professores e restantes funcionários públicos que levaram a uma intervenção por parte da Troika. Aos bancos, que agora se descobre que foram causa primeira do descalabro financeiro, por via de empréstimos e investimentos ruinosos, nunca é contestado qualquer capital para novas injeções financeiras, nem se alega falta de credibilidade internacional por se continuar sem apurar responsabilidades.
O passado mostra que não se ganham eleições a vilipendiar um dos grupos profissionais mais estimados pelos portugueses. Nem repetindo falsidades para amesquinhar um grupo profissional que tem mostrado dignidade na luta, na adversidade e na solidariedade com o todo nacional.
Mas isso não anula a verdade simples: os portugueses em geral, mesmo os que não conseguem passar a barragem da comunicação social para se expressar, respeitam e compreendem os professores e não vão ser enganados por políticos que acham que, com barulheira e falsidades, se faz mais uma habilidade para evitar desgraças eleitorais.
Há coisas mais importantes que contar os votos da próxima eleição. Uma delas é o respeito pela verdade e pela dignidade de uma classe profissional que todos os dias dá o seu melhor pela formação dos futuros cidadãos.  

Portugal, 6 de maio de 2019

Subscrevem (por ordem alfabética):

AINDA O ACORDO ORTOGRÁFICO


Segundo o Expresso, a Assembleia da República irá dentro de algum tempo apreciar um conjunto de recomendações de alterações no Acordo Ortográfico de 1990, o acordo do nosso descontentamento. As recomendações foram elaboradas por um grupo de trabalho constituído pelo Parlamento. Será ainda apreciado um projecto de lei decorrente de uma petição subscrita por mais de 20000 cidadãos que exigem a sua revogação.
Enquanto for possível reverter a situação criada pelo AO90 vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. É uma questão de cidadania, de defesa da Cultura e da Língua Portuguesa.
É importante recordar que apenas Portugal, S. Tomé e Príncipe, Brasil e Cabo Verde procederam à ratificação. Em 2018 a Academia Angolana de Letras solicitou ao Governo angolano que o Acordo Ortográfico de 1990 não seja ratificado e há uma semana a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados do Parlamento do Brasil aprovou um requerimento de audi~encia pública para que seja debatida a revogação do AO ao que parece por indicação do Presidente Bolsonaro o que será porventura umas raríssimas ideias positivas vindas da figura.
Como tantas vezes tenho escrito, desculpem a insistência e não inovar, entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.
Mas o que se fez foi transformar a Língua Portuguesa numa confusão impossível de concertar dadas as diferenças entre o Português falado pelos diferentes países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Há dias, em vários órgãos de comunicação social encontrava-se um título onde se lia “Para brisas de Realidade Aumentada para tornar os carros mais seguros”. Como? A frase faz sentido em Português? O que são “brisas de realidade aumentada” e o que têm a ver com a segurança dos carros? Ah, afinal é pára-brisas. E não podia continuar a ser?

A ideia da impossível harmonização não colhe e não é um problema. Basta atentar no inglês ou no castelhano em tantos países que têm estas línguas com língua oficial sem necessidade de um “acordo”.
O que na verdade se verifica, existem exemplos extraordinários, é a transformação da Língua Portuguesa numa mixórdia abastardada. Por coincidência, ontem assinalou-se o Dia da Língua Portuguesa, talvez fosse boa ideia protegê-la.
Como tenho escrito e repito, vou continuar a escrever assim, “desacordadamente”.

domingo, 5 de maio de 2019

DIA DA MÃE


O calendário das consciências determina para hoje o Dia da Mãe.
Considerando que a parte simpática e de festa é acautelada pelas campanhas comerciais dirigidas a ofertas para a Mãe, pelos rituais das escolas e jardins-de-infância na construção da mais variada gama de produtos para oferecer à Mãe e ainda pelas reportagens da comunicação social envolvendo os meninos e as suas mães, uma palavra de solidariedade para o lado menos bonito do Dia da Mãe, umas palavras outras.
Uma palavra para as mulheres que pelas mais variadas razões, incluindo económicas, não conseguem cumprir o sonho da maternidade.
Uma palavra para as mulheres que tragicamente perderam filhos ficando na dramática condição de mães órfãs de filhos.
Uma palavra para as mães que por mais longe que tenham os filhos não deixam de ser mães, não vão de férias e nunca se reformam.
Uma palavra para as crianças que têm mães que não desejavam sê-lo e que, portanto, nunca aprenderam a gostar de ser mães, adoptando os seus filhos.
Uma palavra para os milhares de crianças institucionalizadas sem mãe na sua vida.
Uma palavra para as mulheres sós ou mal acompanhadas, que em situações muitas vezes difíceis constroem o bem-estar dos seus filhos.
Para finalizar, António Variações em "Deolinda de Jesus".
A minha mãe.
É a mãe mais bonita,
Desculpem, mas é a maior,
A minha mãe,
É a mãe mais amiga,
Certeza, com que posso contar,


TERRA DE TROCA-TINTAS


Nos meus tempos de gaiato, a avó Leonor, uma das mulheres mais fantásticas que conheci, com a mais-valia de ser minha, a minha avó, quando nós caíamos em alguma asneira e tentávamos as esfarrapadas desculpas que a imaginação, ou a falta dela, ditavam ou ainda, quando as pequenas ou grandes mentiras não saíam bem, tentava compor um ar severo, desmentido por uns olhos claros infinitamente doces, e dizia, “não sejam troca-tintas”.
Não me lembro se alguma vez lhe perguntei se sabia a origem da expressão, mas nestes tempos que vamos vivendo, com esta gente que de há décadas vai ocupando as lideranças sociais, politicas e económicas, lembrei-me da avó Leonor e dos troca-tintas.
Terra de troca-tintas.
Esta introdução parece vir a propósito de mais um enorme exemplo de “trocatintismo”, a cambalhota de Assunção Cristas após a “coligação” que estabeleceu na AR com o PSD. BE e PCP na questão da contagem do tempo de serviço dos professores, aguardando-se ainda o salto à retaguarda de Rui Rio. Mas não, de todo, vem a propósito do “trocatintismo” de todos os responsáveis neste processo. E aqui todos, significa mesmo todos, todos os actores com responsabilidade neste processo.
Terra de troca-tintas.

sábado, 4 de maio de 2019

GOSTEI DE LER, "DENTRO DAS PAREDES DA ESCOLA"


Gostei de ler, “Dentro das paredes da escola” de João Ruivo que numa reflexão oportuna aborda o que designamos por “clima de escola” um conjunto complexo de variáveis fortemente contributivo para a qualidade dos processos de trabalho nos estabelecimentos de ensino.
(…)
O sentimento de pertença a um grupo profissional, o estabelecimento de mecanismos de colaboração e de partilha, são factores decisivos para incrementar, ou não, o desenvolvimento profissional dos docentes. Sobretudo, quando se proporcionam, ou não, atitudes de autonomia, de participação nas decisões, de repartição das responsabilidades organizacionais e, finalmente, de gestão participada dos curricula, dos métodos e dos recursos.
(…)
Aos poucos e também fruto de políticas públicas inadequadas em vários domínios, mudança permanente, currículo, autonomia das escolas, valorização social e profissional e a gestão do número de professores, espaços, equipamentos e recursos humanos, técnicos e auxiliares de educação, criação de mega-agrupamentos, etc., as escolas foram-se transformando e, consequentemente, o seu clima de trabalho também.
Acresce que os professores constituem  uma classe profissional envelhecida em que os índices de cansaço e exaustão são preocupantes como revelam diferentes estudos. Como fontes desse mal-estar e para além do comportamento e desmotivação de muitos alunos, os professores apontam o elevado número de alunos e de turmas (realidade menos considerada), a pressão para os resultados, insatisfação com as condições profissionais e de carreira, carga horária e burocrática, falta de trabalho em equipa, falta de apoio e suporte das lideranças da escola.
É este conjunto de variáveis, entre outros que criam um clima em muitas escolas que, como bem assinala João Ruivo, compromete a estruturação de sentimentos de pertença e de comunidade, uma variável importante no bem-estar dos profissionais.
Há já algum tempo, numa conversa pública falei de uma das minhas utopias, sentir que cada vez mais os alunos e também os professores fogem para a escola. Não porque fujam de onde não se sentem bem, os contextos familiares, mas porque nas escolas, nas salas de aula, também se sentem bem e sentem que aí pertencem.
A verdade é que nos tempos que correm muitos professores, bons professores, por cansaço ou desesperança que já não fogem para a escola, um lugar de realização, de trabalho duro mas com uma das maiores compensações que se pode ter, ajudar gente pequena a ser gente grande.
No entanto e felizmente, muitos outros professores ainda conseguem fugir para escola, os alunos desses professores são miúdos com sorte.
Que andamos a fazer com a educação, com a escola, connosco?
Será que ficou mesmo impossível acreditar que os miúdos e os professores, de uma forma geral, queiram fugir para escola?

sexta-feira, 3 de maio de 2019

DA SÉRIE "AGARREM-ME SENÃO ..."


Neste jardim à beira mar plantado temos um novo episódio da série “Agarrem-me senão …” uma afirmação típica de quem ... não pretende realizar o que anuncia.
Posso estar enganado e não quero fazer concorrência aos politólogos e opinadores que adivinham o futuro, falta-me o engenho e a arte, mas esta ideia de Carlos César admitir a eventual demissão do Governo na sequência da votação de ontem no Parlamento sobre os mais famosos 9A4M2D dos nossos tempos não será para levar a sério.
Uma nota sobre a estranha votação que agrega CDS-PP, PSD, BE e PCP, afinal existem consensos que até a um recém-chegado à política, Santana Lopes, causam alguma perplexidade. No entanto, o mundo está cheio de amizades improváveis.
O que foi aprovado parece-me uma mão cheia de nada e mais uma habilidade em tempos de eleições. Não tem qualquer impacto no Orçamento deste ano, seria inconstitucional, e não fixa qualquer calendário de consideração do tempo congelado na carreira dos professores.
Teremos eleições em Outubro pelo que não será este Governo a gerir a situação em 2020 e anos seguintes ainda que, naturalmente, o PS possa vir a liderar um novo executivo. Que sentido faz esta conversa da demissão?
Embora de acordo com as intenções de voto conhecidas não seja previsível uma alteração significativa da distribuição do peso eleitoral dos partidos, também não me parece que o PS e os partidos à esquerda queiram arriscar um cenário de eleições antecipadas nesta altura. Já vimos este filme com os resultados que se conhecem e não me parece que nenhum esteja verdadeiramente nisso a não ser, eventualmente, o PCP devido à conflitualidade interna desencadeada pelo aopio à solução de Governo.
No fundo nada de novo, a política do Portugal dos Pequeninos e os sobressaltos da partidocracia.