Partiu Luís Represas, a voz dos Trovante que sempre fizeram parte da banda sonora da minha vida.
Fica Timor, um dos hinos dos Trovante na voz de Luís
Represas.
"E o mundo ..., sou eu que o contemplo, é ele que me contempla, ou trocamo-nos? ..." Herberto Helder
Partiu Luís Represas, a voz dos Trovante que sempre fizeram parte da banda sonora da minha vida.
Fica Timor, um dos hinos dos Trovante na voz de Luís
Represas.
Merece leitura e reflexão a “Carta ao Presidente da República: salvar a democracia exige salvar o ensino público” de António Carlos Cortez, divulgada no DN.
Na verdade, parece clara a necessidade de ajustamentos sérios e competentes nas políticas públicas, em particular de educação. Sabemos que “todo o mundo é composto de mudança”, mas o “ímpeto reformista”, o deslumbramento digital e a sofreguidão devem ser mediados pela imprescindível avaliação das fragilidades e desajustamentos e então, de forma estudada, reflectida e envolvendo os diferentes actores, decidir os objectivos e os processos e os tempos da mudança.
A equipa que gere a PEC (política
educativa em curso), é de uma tal agitação que parece funcionar ao contrário,
ou seja, procura mudar tudo e ao mesmo tempo e pensa depois, se pensar.
O cidadão fica perplexo, sem
confiança o que acaba por minar a eficiência e o impacto de algumas medidas em partícular nesta área crítica, o ensino público.
Está a decorrer desde hoje até 6 de Agosto a 1.ª fase do processo de candidatura ao ensino superior. Esta etapa está a acontecer no meio de um processo inenarrável de incompetência e irresponsabilidade relativo aos exames finais de que ainda não vislumbramos as consequências. Sublinhe-se a posição de avestruz assumida pelo MECI desconsiderando as inquietações sentidas por alunos e famílias e por professores e escolas que também sentiram e sofreram as dificuldades e consequências da forma como tudo decorreu e está a decorrer.
Ainda assim e como sempre tenho
feito nesta altura deixo umas notas sobre a escolha do curso.
O processo que agora se inicia
envolve uma primeira decisão que estará tomada e me parece de sublinhar, aceder
a formação de nível superior. É uma decisão importante e positiva.
Contrariamente ao que tantas vezes se ouve, não somos “um país de doutores”, antes
pelo contrário, no contexto europeu ainda é necessário elevar a média de
cidadãos com formação superior.
Coloca-se então a escolha do
curso e as dúvidas que podem envolver essa decisão embora muitos dos que se vão
candidatar já tenham definido a sua opção.
Para esta escolha a questão mais
colocada pode ser assim enunciada, os jovens deverão seguir a sua motivação e
interesses ou a escolha deve obedecer ao conhecimento do mercado de trabalho,
isto é, nível de empregabilidade, estatuto salarial e saídas profissionais tão
abordadas pela imprensa nesta altura?
Para muitos de nós,
provavelmente, a resposta será fácil, seja num sentido ou no outro. Alguns
dirão que cada jovem deve, obviamente, seguir o seu desejo, o seu gosto, só
assim se realizará. Ideia romântica e sem noção da realidade que corre o sério
risco de desembocar no desemprego, dirão outros, para os quais a escolha deve
ser racional, pragmática, realista, o jovem deve procurar uma formação que lhe
garanta, tanto quanto possível, saída profissional e para isso deve
"estudar" o mercado e assim proceder à escolha. Os primeiros acharão
que este entendimento pode levar a um risco de frustração e desencanto que
podem instalar-se em quem "faz o que não gosta".
Na verdade, não será fácil a
escolha para muitos jovens a que acresce, frequentemente, a pressão familiar ou
de outras pessoas para a "escolha acertada".
Dito isto, sou dos que entendem
que cada um de nós deve poder escrever, tanto quanto as circunstâncias o
permitirem, a sua narrativa, cumprir o seu sonho. Por outro lado, a vida também
nos ensina que é preciso estar atento aos contextos e às condições que os
influenciam, sabendo ainda da volatilidade e rapidez com que hoje a vida
acontece e a rápida variabilidade dos mercados de trabalho.
Nesta perspectiva, parece-me
importante que um jovem, sabendo o que a sua escolha representa, ou pode
representar nas actuais, sublinho actuais, condições do mercado de trabalho, a
faça assente na motivação ou no projecto de vida que gostava de construir e,
então, informar-se sobre as opções, sobre as escolas e respectivos níveis de
qualidade a que pode aceder para se qualificar. A plataforma Infocursos, entre
várias outras fontes, pode ser uma ajuda.
Finalmente, do meu ponto de
vista, boa parte da questão da empregabilidade, mesmo em situações de maior
constrangimento, relativiza-se à competência, este é o ponto fulcral.
Na verdade, o que frequentemente
me inquieta é a ligeireza com que algumas pessoas parecem encarar a sua
formação superior, assumindo logo aqui uma atitude pouco
"profissional", cumprem-se os serviços mínimos e depois logo se vê. A
formação académica é mais do que um título que se cola ao nome, é um
imprescindível conjunto de saberes e competências que sustentam, alicerçam, um
projecto de vida pessoal e profissional com melhores perspectivas de sucesso.
Mesmo em áreas de mais baixa
empregabilidade, ou assim entendida, continuo a acreditar que, apesar dos maus
exemplos que todos conhecemos, a competência e a qualidade da formação e
preparação para o desempenho profissional, são a melhor ferramenta para entrar
nesse "longínquo" mercado de trabalho.
Dito de outra maneira, maus
profissionais terão sempre mais dificuldades, esteja o mercado mais aberto ou
mais fechado.
Boa sorte e boa viagem para todos
os que vão iniciar agora esta fase fundamental na sua vida.
Depois da lida da manhã aqui no Monte, como dizia o Mestre Zé Marrafa num monte há sempre trabalho, sentei-me e abro computador começo a olhar para imprensa e … disse para comigo, hoje não, fico por aqui, neste mundo pequeno. Sorte a minha que o tenho.
Quase sempre, quando a lida não é
muito pesada, os meus dias por aqui começam por uma caminhada pelos caminhos do
monte, gosto de ir vendo as oliveiras, que já estão carregadas com azeitona, oxalá se crie bem e não caia, os sobreiros pequenos que estão bonitos e a crescer ...
Às tantas, fiquei a olhar para
uma roupa que tínhamos estendida numa corda entre duas oliveiras. Pode parecer
assim um bocadinho estranho, mas gosto de ver um estendal numa casa no meio do
campo. É uma prova de vida, um sinal de humanidade. Por coincidência, quando
passei pelo lado de cima do monte também reparei que se via roupa a secar ao pé da casa da herdade que está mais perto. Outro sinal de vida, são casas habitadas,
com gente.
A certa altura, certamente para
me fazer sentir melhor, veio acompanhar-me uma das gatas residentes aqui no
monte e caminhou à minha beira algum tempo. Trocámos umas palavras por umas
miadelas e concordámos, sabe bem passear no monte. Somos amigos, algum comer a
troco de alguns ratos caçados e da guarda quando não estamos.
Bom, agora, já depois da volta, de umas limpezas erva com a roçadora e
de excelente petisco, beringela panada e salada de tomate, tudo cá da horta, um
tempinho para esta escrita. Talvez seja um pouco estranha num tempo de nuvens
negras que nos inquietam, mas não podemos esquecer. Trata-se de agradecer as
graças que a vida ainda nos dá, como os 71 anos da minha companheira de estrada
há quase cinquenta anos que hoje se cumprem.
E são assim os dias do Alentejo.
O meu pai sempre me dizia e lembrava que na nossa vida devemos ser gente com espinha, se erramos, assumimos, se pensamos, defendemos, se temos razão, agimos. É assim que deve ser, gente com espinha. Era a sua designação para seriedade, sentido ético e de responsabilidade perante o outro.
Esta atitude é ainda mais
exigente para quem tem funções em que as suas decisões ou procedimentos se
repercutem no bem-estar ou nos direitos dos outros.
No que respeita ao universo das
políticas públicas quem ocupa cargos desta natureza é, obviamente, responsável
pelo que de melhor ou menos bom acontece na sua área de intervenção e exige-se
que assuma as suas responsabilidades em cada momento, bom ou mau.
Um exercício breve de olhar à
volta, ouvir muitos discursos e assistir a comportamentos recorrentes de muitas
figuras mostra como tanta gente terá problemas de coluna. Aliás alguns parecem
mesmo nem sequer ter coluna, são enguias.
Talvez não tivessem sido bem
cuidados quando cresciam.
Provavelmente, eu e tantas outras
pessoas como eu estamos erradas e fora do tempo.
Certamente é isso,
falta-nos flexibilidade na coluna. A flexibilidade demonstrada pelos
responsáveis pelo indecente processo dos exames nacionais e múltiplas
intervenções sobre o mesmo. Mau demais.
É uma questão muito séria, mas lembrei-me de uma anedota que se contava quando eu era miúdo. Na inauguração de uma ponte esta desabou. Seguíu-se o normal inquérito no qual foram interrrogados os materiais, quando perguntaram ao ferro se sabia de algum problema, a resposta foi "eu?!!, nem sequer lá estava".
Todo o processo relativo aos exames finais tem sido tudo o que não podia ser e é inaceitável nos tempos que correm. Pensando melhor, talvez sejam os tempos que correm que sustentam processos desta natureza e com estes contornos.
O Ministro continua a insistir em que os resultados dos exames nacionais serão conhecidos hoje.
Será bom se acontecer. Ainda assim, os resultados serão conhecidos embrulhados em desconfiança o que numa matéria desta natureza é grave e inaceitável.
É previsível um aumento significativo de reapreciações. Primeiro, foi dito que todos os alunos a poderiam solicitar. Entretanto, o Ministro corrigiu para que é preciso proceder ao requerimento pelo aluno ou pelo encarregado de educação. É sabido que os recursos são mais frequentemente solicitados por famílias mais favorecidas, nada de novo, em quase tudo assim é.
Partindo do princípio de que se conhecem os resultados, tal não chega para branquear responsabilidades. Gente séria assume e não enjeita a responsabilidade diluindo-a na máquina pela qual responde.
A ver vamos.
Merece leitura e reflexão o texto de Paulo Prudêncio no Público, “O fatal descaramento”.
Sendo certa a necessidade de ajustamentos nas políticas
públicas de educação, “todo o mundo é composto de mudança”, já não é necessária
a agitação improdutiva decorrente do “ímpeto reformista” que leva a uma deriva
de políticas públicas no sentido da desregulação, liberalismo e um caminho de
privatização em áreas chave como saúde ou educação.
É claro que sendo também um problema de competência, é,
sobretudo, a promoção de uma visão de sociedade em que certamente não cabem
todos os cidadãos, em que os direitos são de geometria variável, em que o bem comum
é bem menos comum que o desejável, em que …
É mau, muito mau.
PS - O Ministro Fernando Alexandre afirmou hoje que "há risco" de que os resultados dos exames finais. Nada de novo, há dois anos que aguardamos o número real de alunos sem professor a todas as disciplinas.
Estamos a chegar ao dia em que serão divulgados os resultados dos exames nacionais. Não tenho memória de um processo desta natureza ter sido tão mal planeado e gerido. E não, o problema não está na digitalização, está na competência e gestão do processo.
O MECI tem desvalorizado os
problemas e responsabilidades, nada de novo.
Resta esperar que se concretize o
“mantra” que herdámos dos tempos da pandemia, “vai correr bem”.
Vai mesmo?
Na verdade, este processo tem tido como eixos a incompetência e irresponsabilidade mascarados por exercícios de "wishful thinking". Mau demais.
PS - Em declarações de hoje, apesar de um agradecimento aos docentes pelo esforço, o ministro afirma “Aqui e ali tem havido alguma resistência. Basta ver que os professores não têm todos a mesma opinião sobre este processo. A grande maioria, não tenho dúvida, está com o passo que estamos a dar, mas há alguns que não estão e temos de compreender que isso perturba o processo em si" e ainda que “é preciso identificar as provas que não estão a ser corrigidas, porque há professores que podem ter atestado médico".
Esta gente, aqui e ali, é uma malandragem e ainda por cima fracos de saúde. Estava o processo de classificação todo bem preparado, afinadinho e pronto ... deu nisto
No Público encontra-se uma peça referindo a declaração de Ursula von der Leyen informando que a Comissão Europeia irá apresentar uma proposta de limitação do acesso de menores às redes sociais, definindo uma idade mínima e um acesso faseado de acordo com a faixa etária.
Face ao cenário completamente
desregulado e a transformação das redes sociais em boa parte dos seus conteúdos
num esgoto por onde passam os utilizadores e numa obscena mina para os seus titulares
e para algumas figuras, conhecidas por “influencers” que se aproveitam vivendo muito
bem do esterco que produzem e que alegre e acriticamente é consumido,
percebe-se a medida da proibição do acesso de menores ainda que duvide da sua eficácia.
Como é sabido a Austrália foi,
creio, o primeiro país a estabelecer a proibição de acesso de menores de 16
anos às redes sociais como o TikTok, Facebook, Snapchat, Reddit e X. A lei
prevê multas elevadas às entidades que se revelem incapazes de vedar o acesso
de crianças e adolescentes a estas plataformas.
Também sabemos que outros países,
incluindo Portugal têm avançado no sentido de legislar no sentido de
condicionar o acesso por parte dos mais novos.
Também é já conhecido que na experiência da Austrália os efeitos parecem não ser tão eficazes quanto se esperava, verificando-se, por exemplo, a permissão por muitos pais do acesso dos filhos às redes sociais “à boleia”. Referi aqui há algum tempo o estudo “Why Bans Fail: Tipping Points and Australia’s Social Media Ban” realizado na Austrália, pouco tempo após a proibição de acesso por parte de jovens menores de 16 anos. Sem surpresa, “Apenas cerca de um em cada quatro jovens entre os 14 e os 15 anos” cumpre a proibição”. A maioria continua a aceder às redes sociais através de VPN, com a ajuda dos pais ou irmãos. É também relevante que cerca de 90% dos jovens, sendo conhecedores da lei, não abdicam da utilização e 78% entende que o continuar a utilizar não implica consequências pessoais.
Nada de novo, faz parte da espécie e do
espírito do tempo.
Também não tenho conhecimento
suficiente para saber se a proibição é efectivamente possível ou facilmente
contornada com dados incorrectos como na Austrália.
Por outro lado, a experiência
diária e, como agora se diz, a evidência mostram de forma cada vez mais clara
como o excesso de tempo que crianças e adolescentes (mas não só) passam
“trancados” em ecrãs, em particular envolvidos nas redes sociais, têm impacto
negativo no seu bem-estar e saúde mental, no desenvolvimento de competências e
capacidades cognitivas, sociais e emocionais e, naturalmente, na aprendizagem.
São conhecidos muitos exemplos de situações graves ocorridas no contexto de
utilização das redes sociais.
Em muitos sistemas educativos e
também por cá, vão surgindo iniciativas, sobretudo nos espaços escolares, no
sentido de minimizar esse tempo incluindo a redução da utilização dos recursos
digitais na aprendizagem, sobretudo em particular com os mais pequenos.
Certamente mais difícil será a
mudança nos contextos familiares e comunitários. O próprio comportamento dos
adultos não parece favorável a esse trajecto de mudança. Creio, aliás, a
absoluta desregulação da utilização por parte dos adultos será um enorme obstáculo
à auto-regulação por parte dos mais novos. Lembro-me de estar numa conversa com
pais de crianças no básico a falar sobre esta questão e referir as orientações
das associações de pediatria oftalmológica relativas ao tempo aceitável de
exposição a ecrãs em diferentes idades. Um pai comentou, "são
opiniões". Pois, o problema é esse mesmo, as opiniões.
Muitas vezes aqui tenho abordado
esta questão tal como no meu trajecto profissional a abordei em muitas
conversas com pais e encarregados de educação e é clara a dificuldade de
mudança dos comportamentos, independentemente dos discursos de concordância com
a preocupação ou a expressão de dificuldades.
Continuo com dúvidas sobre a
bondade e eficiência de estratégias essencialmente proibicionistas, entendo que
será sempre mais eficaz e sustentado ainda que mais difícil, o incremento de
comportamentos de auto-regulação ajustados às diferentes idades.
No entanto, com alguma frequência
se alimenta o equívoco de que não proibir significa a ausência de regras e
limites. De todo, como tantas vezes afirmo, as regras e os limites são bens de
primeira necessidade no bem-estar global e no desenvolvimento saudável de
crianças e adolescentes.
É o bem-estar dos mais novos e a
qualidade global dos processos educativos que estão em jogo.
É uma questão demasiado
importante.
Dada a inenarrável odisseia da classificação dos exames e incompetência dos responsáveis e promotores deste processo tornando hercúlea e exasperante a tarefa dos professores classificadores, está comprometida a confiança nos resultados que se esperam para dia 17. Aliás, o MECI, Ministério dos Enleios, Caliqueiras e Irresponsabilidade, (em alentejano), já anunciou a gratuitidade das reapreciações que venham a ser solicitadas.
Como se regista numa peça do Público os processos de reapreciação têm sido caracterizados na última
década por um número baixo de pedidos, cerca de 2%, por uma subida das notas em
cerca de 76% e identificando os alunos com famílias mais favorecidas como os que
mais recorrem à reapreciação um processo burocrático e com custos que, como já
referi, o MECI decidiu não cobrar.
Independentemente do que possa vir
a acontecer neste ano infernal parece estranho o elevado número de alterações da
nota após a reapreciação e, como já tenho escrito, também se pode questionar a regularidade
desta situação e a forma discreta como é acolhida.
Sabe-se que a avaliação escolar é
um processo que contém uma incontornável dimensão de subjectividade e
complexidade, por isso, é necessário um trabalho muito consistente ao nível da
qualidade dos exames, da solidez, clareza e coerência dos critérios de avaliação
e, naturalmente, da preparação e competência dos avaliadores. Estes aspectos
são, aliás, objecto de frequentes referências na imprensa durante a época de
exames.
Ainda assim, como explicar a
percentagem significativa de recursos em que sobe a classificação? Por outro
lado, também me parece de considerar o risco de alguma perda de confiança no
processo de avaliação. Conheço muitas situações em que professores aconselham
os alunos a recorrer pois a probabilidade de conseguir melhoria na nota é grande.
Este ano, dado o processo caótico
que se desenvolveu, tudo isto é ampliado e mina a confiança num processo que não
deveria suscitar dúvidas. O trabalho dos professores classificadores tem sido
um pesadelo, os problemas e dificuldades são mais que muitas e, muito
provavelmente, ainda não acabou.
Há alguns anos, também na altura
em foram conhecidos os resultados dos recursos, a professora Leonor Santos da
Universidade de Lisboa, especialista em avaliação das aprendizagens, afirmava
em entrevista ao Público que aqui citei na altura devido ao seu interesse, a
existência de estudos que confirmam a tendência de subida de notas nos
processos de reapreciação. Entende que tal situação decorre mais da “atitude de
base” do classificador que de erros cometidos. Afirmava, “Há investigação que
já demonstrou que a preocupação dos avaliadores que estão a classificar pela
primeira vez é a de manter os mesmos critérios para todas as provas. Mas quando
está a fazer uma revisão de prova, a sua atitude é completamente diferente:
tenta aproveitar tudo o que for possível”.
Não sou especialista nestas
matérias, mas julgo que deveriam ser, tanto quanto possível, ponderadas e
consideradas para que os exames e a sua classificação mereçam a confiança de
alunos e famílias.
O processo deste ano com a provável
subida exponencial dos pedidos de reapreciação vai criar mais um enleio no qual
também está envolvido o acesso ao superior.
Então como é que te correu? A mim não correu mal de todo.
A mim nem por isso. O tempo não
me deu para fazer tudo. Acho também que algumas coisas não me saíram muito bem.
Pois é, às vezes não estamos bem
preparados.
Para alguns dos problemas até
acho que estava preparado, outros não sabia mesmo como deveria ter feito.
Sabes que às vezes aparecem
algumas questões com que nem estamos a contar e depois fica mais difícil
resolver, mesmo quando já temos alguma experiência e achamos que sabemos.
Também apareceram umas fáceis e
que se resolveram bem. Algumas até gostei mesmo de fazer.
É sempre assim, acho eu. Umas
coisas mais difíceis, outras mais fáceis, mas temos que aguentar com o que
aparece pela frente. Sabes qual é o problema maior?
Qual é?
Quando acabamos uma vida é que
estamos preparados para viver outra.
Claro, muito provavelmente já
correria melhor.
Bom, até à próxima.
Próxima, que próxima?
Tens razão, é o hábito.
O processo de classificação dos exames nacionais continua com uma turbulência e numa espiral de problemas que parece não ter fim.
As notícias que vão saindo do
lado da tutela não conseguem garantir que o processo termine de uma forma que
assegure qualidade e transparência.
A questão que está em jogo é
crítica para a vida dos alunos. As notas nos exames têm um impacto muito significativo
no acesso ao ensino superior. Como por aqui tenho dito, creio que deveria ser o
ensino superior a assegurar o acesso, mas nesta altura é uma questão pouco
pertinente.
A questão mais séria, é o que se
segue e o que falta saber.
Como terminará?
Quando terminará?
Qual a confiança que os
resultados merecerão?
O que verdadeiramente falhou num
processo que tem tudo menos transparência?
Que a assumpção de responsabilidades
e respectivas consequências?
Que lições a considerar?
Que mudanças a adoptar?
…
É mau demais.
De acordo com estatísticas da Direcção-Geral da Política de Justiça (DGPJ) do Ministério da Justiça, ontem divulgadas e citadas pelo Público, os crimes contra idosos aumentaram 30,5% entre 2020 e 2025, mais de 44 mil vítimas com mais de 65 anos. Parece significativo que o aumento é mais acentuado O crescimento tem, aliás, sido mais acentuado no grupo de pessoas idosas que em grupos etários mais novos.
Apesar dos crimes contra o
património serem mais frequentes, a percentagem de crimes contra as pessoas foi
de 27,5% dos crimes verificados com pessoas idosas.
Recordando dados da Associação
Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) que já aqui referi importa considerar que os
episódios de agressão dirigidos a idosos ocorrem na maioria dos casos em
contexto familiar e genericamente os agressores são filha ou filho da vítima,
32,3%, seguida do cônjuge, 21,5%.
Ainda de acordo com a APAV a
maioria das vítimas apoiadas, 53,6%, está em situação de vitimização continuada
e 46,6% das vítimas não apresentou queixa nem teve a sua situação denunciada.
É um cenário inquietante no meio
de mundo em estado inquietante. Quer no seio das famílias, quer em instituições
para onde alguns velhos são enviados compulsivamente como tem sido denunciado
pela APAV, algumas encerradas por determinação legal, tal é a gravidade das
situações, multiplicam-se as referências à forma inaceitável como os velhos
estão a ser tratados.
Começam por ser desconsiderados
pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis, transforma os
velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência.
Continua com um sistema de saúde
que deixa muitos milhares de velhos dependentes de medicação e apoio sem médico
de família.
Em muitas circunstâncias, as
famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades ou
alterações nos estilos de vida, não se constituem como um porto de abrigo,
sendo parte significativa do problema e não da solução. As situações muito complicadas
em que milhares de famílias estão envolvidas com o retornar de várias gerações
à mesma casa e a tentação de aproveitar os baixos rendimentos dos velhos
potenciam o risco de maus tratos.
Finalmente, as instituições,
muitas delas, subordinam-se ao lucro e escudam-se numa insuficiente
fiscalização além de que, com frequência, os equipamentos de qualidade são
inacessíveis aos rendimentos de boa parte dos nossos velhos.
Lamentavelmente, boa parte dos
velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice.
Não é um fim bonito para nenhuma
narrativa, entende o velho que escreve estas letras.
A propósito da realização da 9.ª Conferência Internacional sobre Investigação em Adopção (ICAR9), organizada pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, o Público tem uma peça sobre a questão da adopção, em particular, da adopção de crianças por famílias estrangeiras ou a adopção por famílias portuguesas de crianças estrangeiras.
Com alguma frequência aqui tenho abordado
a questão da adopção, uma família é um bem de primeira necessidade na vida de
uma criança.
Creio que ninguém duvida deste
entendimento, mas a verdade é que Portugal continuamos com um número muito
elevado de crianças institucionalizadas
Os constrangimentos e
dificuldades são de natureza variada para além de questões de natureza
processual. A existência de fratria, deficiência, etnia ou a idade são
variáveis determinantes na maior ou menor dificuldade em entrar num processo de
adopção.
Precisamos de repensar todo o
processo relativo ao acolhimento, à adopção, ao funcionamento e calendário dos
processos de decisão sobre as crianças que vivem em circunstâncias familiares
adversas.
Deixem-me mais uma vez recordar
algo que ou vi a Laborinho Lúcio lá para trás no tempo e não mais esqueci.
Estávamos os dois numa mesa de um encontro no Sardoal no âmbito da protecção de
crianças e jovens e Laborinho Lúcio, pedindo para que as muitas pessoas
presentes no auditório não reagissem logo no início da afirmação, disse “Só as
crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas
pelos seus pais”.
Mas há quem não seja, demasiados.
Como também há quem não seja
adoptado pela escola, pela justiça, pela saúde, pela segurança e bem-estar,
etc.
Na verdade, muitas crianças não
chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas e, por vezes,
mal-tratadas. É, por isso, absolutamente necessário que em tempo útil e com
oportunidade se crie a oportunidade para que crianças "desabrigadas"
possam ser adoptadas, possam ser felizes.
Merece leitura o último texto de Pacheco Pereira no Público, “O falso argumento da “modernidade”. Pacheco Pereira associa e reflecte sobre os riscos da “modernidade” ligada ao deslumbramento tecnológico, à digitalização ou à inteligência artificial.
Como muitas vezes aqui tenho referido
e, felizmente, parece estar a acontecer também no universo da educação se
verifica uma reflexão sobre o impacto do que considero o deslumbramento
digital.
Neste sentido, recordo um
Relatório de 2023 da Unesco, “Technology in education: A tool on whose terms?”.
Também se registam iniciativas e análises em diferentes sistemas educativos que
pretendem repensar a utilização dos recursos digitais. Mais perto, volto a
sugerir estimulante texto de Francisco Laranjo, “Regresso ao futuro da escola:
dos ecrãs aos livros” divulgado no Público há algum tempo e que aqui reflecti
retomando as notas da altura.
Apesar do seu enorme potencial as
ferramentas digitais não são a poção mágica para o ensino e aprendizagem. Os
computadores ou tablets na sala de aula, os smart boards, não promovem sucesso
só pela sua existência. A forma como são utilizados por professores e alunos é
que pode potenciar a qualidade e os resultados desse trabalho. Aliás, o mesmo
se pode dizer de qualquer outro recurso ou actividade no âmbito dos processos
de aprendizagem.
É certo que múltiplos estudos e
experiências valorizam a integração destes recursos nos processos de ensino e
aprendizagem pelo que é importante garantir o acesso pela generalidade dos
alunos, mas, não podem passar a ser o tudo no trabalho escolar. Acresce que
como sabemos, alunos e professores experimentam diariamente enormes
dificuldades com equipamentos e acesso, quer na quantidade, quer na qualidade.
Neste contexto e como já tenho
afirmado, considerando o que se sabe em matéria de desenvolvimento das crianças
e adolescentes, dos processos de ensino e aprendizagem e da sua complexa teia
de variáveis, das experiências e dos estudos neste universo, mesmo quando
aparentemente contraditórios alguns tópicos:
1 – O contacto com as tecnologias
digitais é, por princípio, uma experiência positiva para os alunos, para todos
os alunos, se considerarmos o mundo em que vivemos e no qual eles se estão a
preparar para viver. Nós adultos ainda estamos a pagar um preço elevado pela iliteracia,
os nossos miúdos não devem correr o risco da iliteracia informática. Os tempos
da pandemia mostraram isso mesmo.
2 – O computador/tablet, kits
robóticos, smart boards, etc., na sala de aula serão mais uma ferramenta, não
são A ferramenta, não substituem a escrita manual e a leitura em papel, não
substituem a aprendizagem do cálculo, não substituem coisa nenhuma, são
“apenas” mais um meio, muito potente sem dúvida, ao dispor de alunos e professores
para ensinar e aprender e agilizar o acesso a informação e conhecimento.
3 - O que dá qualidade e eficácia
aos materiais e instrumentos que se utilizam na sala de aula não é a tanto a
sua natureza, mas, sobretudo, a sua utilização, ou seja, incontornavelmente, o
trabalho dos professores é uma variável determinante. Posso ter um computador
para fazer todos os dias a mesma tarefa, da mesma maneira, sobre o mesmo tema,
etc. Rapidamente se atinge a desmotivação e ineficácia, é a utilização adequada
que potencia o efeito as capacidades dos materiais e dispositivos.
4 - Para alguns alunos com
necessidades especiais o computador pode ser mesmo a sua mais eficiente
ferramenta e apoio para acesso ao currículo.
5 – Para além de garantir o
acesso dos miúdos aos materiais é obviamente imprescindível promover o acesso a
formação e apoio ajustados aos professores sem os quais se compromete a
qualidade do trabalho a desenvolver bem como, evidentemente, assegurar as condições
exigidas para que o material possa ser rentabilizado. São por demais conhecidas
as dificuldades sentidas nas escolas com os recursos e acessibilidade.
6 – Finalmente, como em todo o
trabalho educativo, são essenciais os dispositivos de regulação e avaliação do
trabalho de alunos, professores e escolas. Estes dispositivos devem incluir
avaliação externa.
7 – Precisamos de uma reflexão
séria e alargada relativa ao impacto da IA na educação.
Como referi acima, não existem
poções mágicas em educação por mais desejável que possa parecer a sua
existência. Não deixemos que o fascínio deslumbrado pelo que se julga ser as
"salas de aula do futuro" faça esquecer os problemas das salas de aula
do presente.
As memórias do FB recordaram-me hoje que em 7 de Julho de 2018 tinha colocado este texto no Atenta Inquietude, “Professor, uma profissão de risco”. Reli e fiquei incomodado. Em oito anos o que mudou? Que políticas públicas de educação se têm desenvolvido? Que responsabilidades assumidas? E o futuro?
“Começam a ser conhecidos os
resultados do estudo realizado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova em parceria com a Fenprof sobre as condições pessoais dos
professores considerando dimensões relativas ao “desgaste emocional, “burnout”
incluído”, e sobre as condições em que estes trabalham - se há cansaço,
desânimo, desmotivação ou, pelo contrário, alegria.”
Responderam perto de 16000
docentes e os resultados são inquietantes. Quase metade dos docentes que
responderam revela sinais preocupantes de “exaustão emocional”, (20,6% mostram
sinais “preocupantes”, 15,6% apresentam “sinais críticos” e 11,6% têm já “sinais
extremos” de esgotamento) e mais de 40% não se sentem profissionalmente
realizado.
Foram identificados alguns
factores explicativos dos resultados, a idade dos docentes, as questões
relativas à carreira, organização (burocracia na escola e gestão hierarquizada
das escolas) e o comportamento indisciplinado dos alunos.
Algumas notas.
De acordo com a Fenprof existirão
perto 12000 docentes em situação de baixa médica sendo que em Março, de acordo
com a ADSE estavam mais de seis mil professores com baixa médica há mais de
sessenta dias a aguardar pela realização de junta médica. O ME não divulga o
total de docentes em situação de baixa mas os directores escolares e a as
estruturas sindicais afirmam que tem aumentado.
Estarão recordados que também em
Março se realizou em Lisboa um encontro internacional organizado pelo ME, OCDE
e pela organização Internacional da Educação. O tema central da cimeira foi o
bem-estar dos professores pois “Não se deve perder a oportunidade de colocar o
bem-estar dos professores no centro das políticas de todos os países que
participam nesta cimeira”, afirmou a propósito o secretário-geral da IE, David
Edwards e o bem-estar dos professores terá de ser percebido pelos Governos como
“um tema político de primordial importância”. Sabe-se que se os docentes “se
sentem bem com eles próprios podem fazer uma diferença positiva no ensino dos
seus alunos” lê-se na nota de imprensa.
Escrevi na altura que a cimeira
acontecia em Portugal num tempo em que certamente a boa parte dos docentes não
se sentirá globalmente valorizada embora, os estudos o confirmam, globalmente
gostem da profissão, tal como os alunos apreciam positivamente o seu trabalho.
O estudo agora conhecido vem
apenas confirmar e actualizar o que já outros indiciavam.
Como causas mais contributivas
para este cenário de elevado stresse profissional são identificadas turmas com
elevado número de alunos, o comportamento indisciplinado e desmotivação dos
alunos, a pressão para os resultados, insatisfação com as condições profissionais
e de carreira, carga horária e burocrática, falta de trabalho em equipa, falta
de apoio e suporte das lideranças da escola.
Também deve ser objecto de
reflexão o peso da variável idade.
Conforme o Relatório “Perfil do
Docente”, divulgado em Julho de 2016 e considerando dados de 14/15 apenas 1.4%
dos docentes que leccionam em escolas públicas têm menos de 30 anos, não chegam
a 500.
Acresce que o grupo etário com
mais de 50 anos é o mais representado, 39.5%. Se a este grupo adicionarmos o
escalão imediatamente anterior, 40 aos 49, temos que 77,3% dos docentes estão
nos dois grupos mais velhos.
Se juntarmos o baixo número de
saídas para aposentação e como escrevia há algum tempo num país preocupado com
o futuro este cenário faria emitir, como agora se usa, um alerta vermelho e
agir em conformidade. Acresce ainda os efeitos de grave situação relativa à
carreira, à progressão e ao estatuto salarial.
Na verdade, os dados só podem
surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa
parte dos opinadores que pululam pela comunicação social perorando sobre
educação e sobre os professores. Aliás, esta situação verifica-se noutros países,
sendo que para além dos professores, os profissionais de saúde e de apoios
sociais também integram os grupos profissionais mais sujeitos a stresse e
burnout.
Este quadro é inquietante, uma
população docente envelhecida e a revelar preocupantes sinais de desgaste.
Também se sabe que as oscilações
da demografia discente não explicam a saída de milhares de professores do
sistema, novos e velhos, como também não explicam a escassíssima renovação,
contratação de docentes novos. Sem estranheza, no universo do ensino privado é
bastante superior a presença de docentes mais jovens. Não esqueçamos ainda a
deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas
décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo,
um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. Acresce que
sucessivas equipas ministeriais têm empreendido um empenhado processo de
desvalorização dos professores com impacto evidente no clima das escolas e nas
relações que a comunidade estabelece com estes profissionais.
Sabemos que os velhos não sabem
tudo e os novos nem sempre trazem novidade. Mas também sabemos que qualquer
grupo profissional exige renovação pelas mais variadas razões incluindo
emocionais, de suporte, partilha de experiência ou pela diversidade.
As salas de professores são cada
vez mais frequentadas, quando há tempo para isso, por gente envelhecida,
cansada que se sente desvalorizada, pouco apoiada, e que muitas vezes,
demasiadas vezes, pergunta "Quanto tempo é que te falta?"
Na verdade, ser professor é uma
das funções mais bonitas do mundo, ver e ajudar os miúdos a ser gente, mas é
seguramente uma das mais difíceis e que mais respeito e apoio deveria merecer.
Do seu trabalho depende o nosso futuro, tudo passa pela educação e pela escola.
E a verdade é que conforme os
estudos internacionais de natureza comparativa mostram o trabalho de
professores e alunos, tem revelado progressos importantes nos últimos anos
desencadeando, aliás, uma curiosa luta pela paternidade desses sucessos que,
obviamente, pertence a professores e alunos.
Os sistemas educativos com
melhores resultados são, justamente, os sistemas em que os professores são mais
valorizados, apoiados e reconhecidos.”
No Público encontra-se uma peça que merece leitura e reflexão a propósito do brincar em contexto familiar. Divulgam-se alguns resultados do estudo “Práticas e Perspectivas Parentais no Brincar das Crianças em Portugal: Um Inquérito Transversal”, publicado recentemente na revista Acta Médica Portuguesa realizado em 2024.
Alguns dados para reflectir. De
acordo com as respostas dos inquiridos, pais de crianças entre os três e os dez
anos e resultou num total de 4637 respostas, as crianças passaram, em média,
oito horas na escola e 75% também participaram em actividades
extracurriculares, na maioria das vezes durante uma a duas horas por semana.
O tempo médio de exposição a
ecrãs mais frequente foi de 1 a 2 horas. Os “parceiros” mais referidos foram a
mãe ou o pai, 51%, seguidos pelos irmãos, 50% e pela criança a brincar sozinha,
24%. O espaço para brincar mais referido foi dentro de casa, 72%, e o quintal
ou terraço, 20%.
Considerando o tempo durante a
semana a brincar com os pais, “na maioria das vezes” foi menos de uma hora por
dia”, 46%. Nos fins-de-semana, “a brincadeira conjunta durou, com maior
frequência, entre uma e três horas diárias, 43%. Durante estes períodos, 2139
pais referiram estar dedicados exclusivamente a brincar, 46%, enquanto 2118
referiram realizar tarefas domésticas em simultâneo (46%).
São dados muito interessantes e
em linha com outros trabalhos, Há algum tempo referi aqui um estudo realizado
pelo IAC em 2024 com indicadores interessantes e a merecer reflexão. Cerca de
52% das crianças brincam menos de uma hora por dia e se procurar quem brinca de
duas a três horas diárias são apenas 9%.
Acresce que os pais participam
pouco nas brincadeiras das e com as crianças e 40,4% aponta o cansaço “devido à
carga de trabalho!”, valor que tem vindo a crescer desde 2018.
O estudo, “Portugal a Brincar”
envolveu mais de 1100 famílias e cuidadores de crianças com idades até aos dez
anos. 36% dos pais inquiridos desejava que os filhos brincassem pelo menos
cinco horas por dia. Metade das famílias entende o tempo livre como factor
necessário para permitir o brincar.
No entanto, 47% dos inquiridos
reconhecem o brincar como actividade para a imaginação e criatividade e 21,5%
como forma de promoção do desenvolvimento emocional.
Quem por aqui passa dá conta da
frequência com que aqui abordo a questão do brincar, a actividade mais séria
que as crianças realizam e na qual põem tudo o que são e o que virão a ser.
No entanto e como já tenho
referido aqui em muitas intervenções de natureza profissional, nos últimos
anos, provavelmente associada às mudanças nos estilos de vida e quadro de
valores, foi-se instalando a ideia de que o brincar é supérfluo, é perda de
tempo, o foco deve ser em trabalhar, em rendimento e resultados, em nome da
competitividade e da produtividade, condição para a realização e felicidade.
Progressivamente foi-se retirando
aos miúdos o tempo e o espaço que muitos de nós na sua idade tínhamos e
empregam-nos horas sem fim nas fábricas de pessoas, escolas, chamam-lhes. Aí os
miúdos trabalham a sério, a tempo inteiro, dizem, pois só assim serão grandes a
sério, dizem também.
Às vezes, alguns miúdos ainda
brincam de forma escondida, é que brincar passou a uma actividade quase
clandestina que só pais ou professores “românticos”, “facilitistas”,
“eduqueses” ou “incompetentes” acham importante.
Nestes tempos de férias, muitos
outros miúdos vão para umas coisas a que chamam “tempos livres” e que, com
frequência, de livres têm pouco, onde, frequentemente, se confunde brincar com
entreter e, outras vezes, acontece a continuação do trabalho que se faz na
fábrica de pessoas, a escola.
Numa história que já aqui contei
ouvi uma mãe que se mostrava muito aborrecida com o Atelier de Tempos Livres em
que o filho, gaiato de uns 10 anos, passa boa parte das férias, porque os
técnicos responsáveis "dão poucas actividades às crianças e depois elas
põem-se a brincar umas com as outras".
Também são encaixados em dezenas
de actividades fantásticas, com nomes fantásticos, que promovem competências
fantásticas e fazem um bem fantástico a tudo e mais alguma coisa.
É inquietante perceber alguma
visão que, de mansinho, se foi instalando também em muitos pais.
O brincar da infância vai-se
encurtando, algum dia os miúdos vão nascer crescidos para já não precisarem de
brincar. Importa ainda lembrar que também existem crianças, muitas, em que a
infância é encurtada, diria roubada, porque são mão-de-obra barata e coisificada.
Era bom escutar os miúdos. Se
lhes perguntarem, (das diferentes formas de fazer perguntas e ouvir respostas),
vão ficar a saber, como disse acima, que brincar é a actividade mais séria que
realizam, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que virão a
ser e a saber.
Em 2018 a Academia Americana de
Pediatria recomendou aos pediatras que na sua prática clínica prescrevam “tempo
para brincar”, um bem de primeira necessidade para o bem-estar dos mais novos
com impacto em diferentes dimensões.
Insistem que não se trata de uma
ideia “frívola” e os actuais estilos de vida de muitas famílias, por diferentes
razões, tornam ainda mais importante que se reafirme a importância de brincar.
No caso mais particular, mas
também essencial do brincar na rua sabemos que as questões da segurança e,
sobretudo dos estilos de vida e a mudança verificada nos valores e nos
equipamentos, brinquedos e actividades dos miúdos, o brincar na rua começa a ser
raro.
Embora consciente das questões
como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível
alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua,
talvez com a supervisão de velhos que estão sozinhos, as comunidades e as
famílias conseguissem alguns tempos e formas de ter as crianças por algum tempo
fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã.
Como muitas vezes tenho escrito e
afirmado, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a
autonomia, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como fala
Almada Negreiros. A brincadeira, a rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado
obviamente, os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas
fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.
Curiosamente, se olharmos às
nossas condições climatéricas, Portugal é um dos países com valores mais baixos
no tempo dedicado a actividades de ar livre, situação com implicações menos
positivas na qualidade de vida, nas suas várias dimensões, de miúdos e
crescidos.
Talvez, devagarinho e com os
riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por
pouco tempo e não todos os dias.
É, pois, importante que todos os
que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de
orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam o brincar como uma
das “guide lines” para a sua intervenção.
Os mais novos vão gostar e
faz-lhes bem.
Desculpem a insistência e a
extensão, mas brincar é mesmo uma coisa séria e ainda uma história pequenina
que aqui coloquei em 2007 no começo do Atenta Inquietude.
A propósito dos textos que
surgiram na imprensa referindo o tempo disponível nas famílias para a relação
com os filhos, deixo-vos uma estorinha.
- Pai…
- Sim.
- Pai … quanto ganhas por uma
hora de trabalho?
- Que pergunta!
- Responde.
- Cerca de 30 €.
(algum tempo depois)
- Pai…
- Sim.
Já é difícil dizer algo de novo
sobre o processo de classificação dos exames. É evidente que em qualquer
processo, seja de que natureza for, podem ocorrer sobressaltos e dificuldades. É
por isso que, obviamente, num qualquer processo existe uma fase que se designa
por “preparação” que também deve prever e identificar riscos e criar opções.
Provavelmente, dada a importância
que os exames têm para boa parte dos alunos pelo impacto significativo no
acesso ao superior, os alunos ter-se-ão preparado melhor para os exames que o
MECI.
As dúvidas e situações que se vão
conhecendo colocam sérias questões e minam a confiança que um processo desta
natureza deve incutir nos alunos, famílias, professores e comunidade.
O Ministro, mais do que menorizar
as questões que se vão conhecendo, deveria assumir com clareza a
responsabilidade e considerar a apresentação e discussão de um dispositivo que recuperasse
o que parece perdido, a credibilidade.
Num processo desta natureza é
imprescindível.
É inevitável e desculpar-me-ão. Cá estou de novo a recordar a perplexidade e o gozo da última grande descoberta nesta minha viagem que já vai longa, a avozice. É sempre assim a cada 4 de Julho ou 5 de Abril.
Cumprem-se hoje treze anos desde
que, com o Simão, entrei pela primeira vez no mundo encantado, no mundo mágico
da avozice que se alargou com a chegada do Tomás, há dez anos. O tempo voa e o
tempo dos velhos parece que voa ainda mais depressa.
Esta mudança de geração tem sido
uma bênção em cada dia que passa e contribui decisivamente para cumprir a
narrativa de um Homem de sorte, eu.
Às vezes, quando brincam ou
quando fazemos trabalhos e “projectos” que sempre inventam, por cá ou pelo
Alentejo de que tanto gostam, fico assim a olhar para eles, para os meus netos,
o grande neto Grande, o Simão, e o grande neto Pequeno, o Tomás, fico a
imaginar que viagens irão fazer. Nessas alturas sinto-me assim … desculpem o atrevimento... um anjo da guarda.
Na verdade, que mais deve ser um
avô que não um anjo da guarda.
Às vezes, não sabemos, não
percebemos, não queremos ou não podemos.
Mas é bonito.
No Expresso de hoje encontra-se peça extensa e elucidativa de uma matéria que é fonte de sofrimento significativo, a violência nas relações de namoro de adolescentes e jovens. Para além da referência a alguns casos reais, são referidos alguns dados do estudo anual sobre violência no namoro realizado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) inquirindo 8080 jovens com idades entre os 12 e os 21 anos que aqui já referi quando foi divulgado no início do ano.
Na verdade, estes dados,
lamentavelmente, já não surpreendem, e continuam preocupantes. A maioria dos
inquiridos, 68,2%, não considera violência no namoro pelo menos um dos
comportamentos analisados.
No namoro juvenil, a violência
nem sempre se mostra visível. A maioria dos inquiridos, 68,2%, não reconhece
como violência no namoro pelo menos um dos comportamentos analisados. De facto,
53,5% desvaloriza atitudes controladoras e a perseguição não é entendida como
um problema por 40,9% dos jovens. Aceder às redes sociais e mensagens sem
autorização do parceiro(a) ou procurá-lo de forma insistente ao longo do dia
são comportamentos legitimados por mais de um terço dos inquiridos.
Também a violência psicológica,
insultar durante uma discussão por ex., não é reconhecida como tal por 27,6%
dos jovens e 12% não consideram abusivo que essas ofensas sejam divulgadas nas
redes sociais.
A violência sexual e a física
surgem como as menos normalizadas. No entanto, 14%, mais de mil jovens,
entendem como normal pressionar alguém para beijar ou mesmo beijar contra a
vontade e 5,9% (479) consideram que magoar fisicamente o companheiro(a) com empurrões
ou bofetadas não configura violência no namoro.
São os jovens do sexo masculino,
44% da amostra, que mais entendem como legítimas todas as formas de violência
analisadas. Entre os géneros as diferenças são mais claras relativamente ao
controlo e na violência psicológica. Nos rapazes, 65,3% não reconhecem que
controlar a namorada ou namorado seja uma forma de violência. Nas raparigas, o
valor é 43,3%, ainda assim significativo.
No mesmo sentido, recordo um
trabalho também realizado pela UMAR com financiamento da Comissão para a
Cidadania e Igualdade de Género divulgado em 2024 e envolvendo 6152 jovens
entre o 7.º e o 12.º considerando duas dimensões, legitimação e prevalência dos
indicadores de violência, também se encontram dados inquietantes.
É significativo que 68,1% dos
inquiridos legitimam pelo menos um tipo de violência, sendo que controlo
(54,6%) e violência psicológica (33,5%) são os mais referidos sendo ainda que
27,9% dos jovens consideram normal ser insultado numa discussão.
No que respeita a tipos de
violência a que foram sujeitos, 63% dos jovens referem que já estiveram numa
relação em que passaram pelo menos por um tipo de violência.
Assim, 43% refere a proibição de
estar ou falar com alguma pessoa, 39,9% viveram pelo menos uma forma de
violência psicológica, 20,4% de perseguição, e 18,4% de alguma forma de
violência sexual, nomeadamente serem obrigados a beijar, e 11% sofreram violência
física.
São indicadores suficientes para
que nos sintamos apreensivos e o que
torna a situação ainda mais complexa é a manutenção sem grandes alterações
destes indicadores ao longo dos anos, incluindo trabalhos com estudantes do
ensino superior, o que talvez ajude a perceber como a violência doméstica
parece indomesticável.
Os dados convergem no indiciar do
que está por fazer em matéria de valores e comportamentos sociais. Acresce que
boa parte das situações de abuso não são objecto de queixa.
Este conjunto de dados é
preocupante, gostar não é compatível com maltratar, mas creio que não é
surpreendente, lamentavelmente. Os dados sobre violência doméstica em adultos
que permanece indomesticável deixam perceber a existência de um trajecto pessoal
anterior que suporta os dados muitos trabalhos sobre violência no namoro e que
se mantêm inquietantes. Aliás, nos últimos anos a maioria das queixas de
violência doméstica registadas pela APAV foram de mulheres jovens embora seja
um drama presente em todas as idades.
Os sistemas de valores pessoais
alteram-se a um ritmo bem mais lento do que desejamos e estão, também e
obviamente, ligados aos valores sociais presentes em cada época. De facto, e
reportando-nos apenas aos dados mais gerais, é criticamente relevante a percentagem
de jovens, incluindo estudantes universitários, que afirmam um entendimento de
normalidade face a diferentes comportamentos que evidentemente significam
relações de abuso e maus-tratos.
Como todos os comportamentos
fortemente ligados à camada mais funda do nosso sistema de valores, crenças e
convicções, os nossos padrões sobre o que devem ser as relações interpessoais,
mesmo as de natureza mais íntima, são de mudança demorada. Esta circunstância,
torna ainda mais necessária a existência de dispositivos ao nível da formação e
educação de crianças e jovens; de uma abordagem séria persistente nos meios de
comunicação social; de um enquadramento jurídico dos comportamentos e limites
numa perspectiva preventiva e punitiva e, finalmente, de dispositivos eficazes
de protecção e apoio a eventuais vítimas.
Só uma aposta muito forte na
educação, escolar e familiar, pode promover mudanças nos comportamentos nas
relações de namoro entre os mais jovens (e não só). É uma aposta que urge e sublinha a necessidade de matérias desta natureza serem
objecto de abordagem na educação escolar sendo que não terão de o ser de uma
forma “disciplinarizada”. Não me parece que haja outro caminho.
Entretanto e enquanto não muda,
"só faço isto, porque gosto de ti, acreditas não acreditas?". Não,
não se pode acreditar.
Retomo como iniciei. Apesar dos
dias inquietantes que vivemos e para os quais não estávamos preparados, talvez
seja de não esquecer questões como estas que devastam o quotidiano de muita
gente.
Está em discussão pública a proposta de alteração do DL 54/2018 relativo à chamada a educação inclusiva.
Comecei a ler e parei no que se propõe para artº 1 “O presente decreto-lei estabelece os princípios e as normas que garantem a inclusão, enquanto processo que visa responder à diversidade das necessidades e potencialidades de todas e de cada uma das crianças e jovens, através do aumento da participação nos processos de aprendizagem e na vida da comunidade educativa.”
Vamos então ter um DL que garante
a inclusão, está muito bem, mas no mundo em que vivemos nada garante a inclusão. Acresce que, do meu ponto de vista, todo o quadro
normativo e legislativo relativo à Educação deverá ter como desígnio … garantir a Educação
e a sua qualidade … para todos os alunos. A formulação proposta alimenta a
representação sobre os “especiais”, mesmo que alguns sejam “universais”.
Deixem-me recuperar algumas
notas.
Há uns meses foi divulgado o mais
recente inquérito realizado pela Fenprof direccionado para a resposta aos
alunos com necessidades especiais.
Responderam ao inquérito 147
directores de agrupamentos e escolas, 18% do total no continente, e envolveu
9252 turmas, 188 262 alunos e 19 231 docentes, 1 303 de educação especial.
Alguns dados.
No conjunto das turmas
envolvidas, 15 437 alunos beneficiam de apoio específico, 8,2% do total, sendo
que 12 237 são abrangidos por medidas selectivas e 3 200 por medidas
adicionais. A estes alunos acrescem 17
132 estudantes, 9%, que recebem "apoio indirecto", sem intervenção
directa do professor de educação especial, apenas orienta o professor da turma.
O docente de educação especial dá orientações ao docente titular da turma sobre
como trabalhar com os alunos, mas não trabalha directamente com eles.
De acordo com os directores
escolares 47,6% das turmas envolvidas no estudo deveriam ser reduzidas,
deveriam ter menos de 20 estudantes e, no máximo, dois alunos com necessidades
especiais. Das 9252 turmas examinadas, 27,1% das turmas com alunos com
necessidades educativas está sobrelotada, 12,4% tinha mais de 20 alunos, 8%
tinha mais de dois alunos com NE e 6,7% tinha mais de 20 alunos e mais de dois
alunos com NE considerando a legislação.
No que respeita a recursos
humanos, 82,3% dos directores referem "não ter os recursos necessários
para aplicar uma educação efectivamente inclusiva, ou seja, o que está
previsto" na legislação.
De forma mais fina, 74,3% refere
a insuficiência de professores de educação especial suficientes e 71,6%
afirmaram ter ficado com horários por preencher sem qualquer candidato. No
entanto, 8,1% dos docentes com esta especialização, na sua maioria dos quadros
dos agrupamentos, tiveram de assumir turmas.
Acresce que 76,9% dos directores
refere a falta de assistente operacionais e 79,6% a insuficiência de técnicos
especializados, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas,
mediadores sociais e culturais ou assistentes sociais.
É um quadro preocupante, mas
expectável face ao resultado de anos anteriores e, naturalmente, da situação
global do nosso sistema educativo, falta de recursos humanos, professores e
técnicos e a questão de fundo, políticas públicas de educação no sentido correcto
e com os meios necessários. A falta de docentes é uma questão crítica.
Voltando à inclusão, vou repetir
algumas ideias, mas esta área foi a minha vida profissional, quase 50 anos.
Comecei a trabalhar no universo da educação, em particular da educação para
alunos com necessidades especiais, (à época os alunos com deficiência) em 1976
e aposentei-me definitivamente em 2024, sempre nesta área, a educação. Como as
pessoas ligadas à educação sabem ou irão saber, de professor e de pai nunca nos
reformaremos por mais longa que seja a nossa vida. Também é curioso que a minha
companheira de estrada tenha sido professora de educação especial no 1.º ciclo
durante a quase totalidade da carreira, achando eu que tive alguma
responsabilidade nessa opção.
Dito isto, comecei no tempo das
escolas especiais organizadas por deficiência (eu ligado à primeira CERCI que
se constituiu, a de Lisboa), trabalhei no tempo da educação especial, no tempo
da integração e das equipas de professores de ensino especial e, finalmente, no
tempo da inclusão.
Sempre com esperança, acompanhei
a mudança de quadro conceptual e legal que enquadrava este trabalho, ah, já me
esquecia, também acompanhei as mudanças de paradigma, como sabem as coisas só
mudam quando muda o paradigma, passei do paradigma da escola especial, para um
paradigma combinado já com salas de ensino especial (salas de apoio) na escola
regular, passei depois para o paradigma da integração, os alunos passaram a
estar fundamentalmente integrados em turmas de ensino regular com
acompanhamento dos professores de educação especial e, finalmente, o paradigma
da inclusão, os alunos, todos os alunos, estão incluídos, já não são
estigmatizados como alunos com necessidades educativas especiais. Assim, os
alunos que revelavam algum tipo de dificuldade passaram a ser objecto de
medidas educativas arrumadas em três categorias, as medidas “universais”, as
medidas “selectivas” e as medidas “adicionais”. Isto parece que é uma outra
forma de categorizar, mas não é. No paradigma da educação inclusiva é assim que
se faz.
E pronto, chegámos à educação
inclusiva, somos um exemplo para muitos países que se organizam nos velhos
paradigmas, ainda não chegaram à educação inclusiva. Esperemos que lá cheguem,
mas os ventos não vão de feição para os mais vulneráveis.
No entanto, a maldita realidade
nem sempre colabora. Eu reconheço e conheço, sempre conheci, excelentes e
inspiradores trabalhos de professores, técnicos, pais, escolas ou instituições
ao longo destas quase cinco décadas de paradigmas diferentes. No entanto,
também importa reconhecer, veja-se os dados acima e outros, por exemplo de
relatórios da IGEC, que propagandear discursos sobre inclusão assentes em
“wishful thinking” ou torturar a realidade para que se mostre diferente não é
assim muito eficaz. Não, muitos alunos não estão incluídos nem sequer
integrados, estão “entregados” com as consequências que professores, técnicos e
pais bem conhecem. E importa considerar que não estou apenas a referir-me aos
alunos “categorizados” pelas "não categorias", os “Selectivos”, os
“Adicionais” ou os “Universais”. De facto, existem ainda muitos outros alunos
que, lembrando Sam the Kid, fazem parte de uma percentagem que a sondagem nunca
mostra.
Desculpar-me-ão a heresia ou
descrença, mas uma escola inclusiva é algo que não existe e, provavelmente, não
existirá nos tempos mais próximos. Os modelos e estilos de vida actuais,
económicos, políticos, sociais, culturais, as assimetrias brutais que se mantêm
são pouco compatíveis com “uma escola inclusiva”. São brutalmente inquietantes
os tempos que vivemos. Existem escolas, isso sim, que desenvolvem excelente
trabalho com alguns alunos, o que é diferente de “uma escola inclusiva”.
Eu sei e gosto de acreditar que a
escola é, também, uma alavanca de mudança, mas a verdade é que a escola, de uma
forma ou de outra, é sobretudo um reflexo da sociedade que serve no tempo
histórico em que vive.
No entanto, em nome dos meus
netos e de todos os netos que serão o futuro, bem como das minhas convicções e
como disse acima, acredito numa escola que possa, quanto possível, promover
educação, a relação diária entre quem está na escola, assente em princípios de
educação inclusiva. E neste sentido em todas escolas existirá educação
inclusiva, há sempre quem a promova mesmo em contextos menos favoráveis.
A designação está tão desgastada
que já nem sabemos bem o que significa. No entanto e de uma forma simples,
entendo que a inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com
direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão
todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível
nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos
gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A
estas cinco dimensões acrescem os princípios inalienáveis da autodeterminação,
autonomia e independência.
Finalizo voltando ao início, as
políticas públicas são onerosas, a política pública de educação é onerosa, a
suficiência de recursos será sempre uma questão problemática, mas é, também,
por aqui que se avaliam a competência e adequação das… políticas públicas. E,
fazendo bem as contas, a exclusão tem custo bem mais elevados.
Reafirmo que não esqueço o que
positivo se faz, mas conheço tantas práticas e tantos discursos que alimentam
exclusão, mas que são desenvolvidas e enunciados ... em nome da inclusão.
Sempre recordo o Mestre Almada Negreiros na "Cena do Ódio" quando
falava da "Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga
de Camões".
Desculpem a extensão do texto.
Acho que ainda voltarei à
proposta de revisão do DL 54/2018, mas gostava de ter o optimismo que tinha há umas décadas lá atrás no tempo. Coisa de velho, já se vê.
Está zangada a Terra, queima, alaga, destrói, treme …
Imagino que a Terra comece a
ficar cansada da irresponsabilidade delinquente desta gente que a povoa, sobretudo
dos que lideram. Depois de tanta asneira, insistem nos maus-tratos e não se
entendem sobre a forma de mudar de rumo.
Dão-lhe cabo das entranhas,
alteram-lhe o clima, mudam paisagens, esgotam-na, deixam-na estéril e sem
sustento.
A minha avó Leonor, mulher de
sabedoria, costumava dizer que não era bom a gente meter-se com a Terra, com a
natureza, e maltratá-la. A natureza vai ser sempre maior que a gente e não
aceita que mandem nela.
O MECI, Ministério dos Enleios, Caliqueiras e Irresponsabilidade, recorrendo a algum vocabulário aqui do Alentejo, está imparável.
A trapalhada dos exames e da sua correcção de que,
afinal, são as escolas e direcções os grandes responsáveis, continua sem fim à vista. Nada de
novo, o ímpeto reformista do Governo, aqui na área da educação e, certamente,
já como efeito da hiperactividade e hipercompetência, (não existirá o termo, mas fica
a ideia) do Ministro Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado,
já está a resultar.
O Ministro da Educação, homem
sensato e ponderado, regista que a "A digitalização está a ocorrer sem
grandes problemas e reconhece que surgiram algumas "dificuldades
técnicas" resultantes da "novidade do sistema". Pois.
É ainda de registar que num
encontro com professores os encontrou com “boa disposição”. Pois.
Ainda bem que assim é, motivos
não faltam e o contrário seria estranho e ingratidão.
Realizou-se ontem no Porto a 9.ª edição da Marcha pela Vida Independente. É urgente a necessidade de alargar a resposta aos problemas das pessoas com deficiência e uma questão crítica é a vida independente. Apenas existem 35 Centros de Apoio à Vida Independente o que é manifestamente insuficiente.
Recordo que em Abril o Parlamento
aprovou um projecto de lei do PS com o objectivo de reforçar os dispositivos de
assistência pessoal a pessoas com deficiência e um projecto de resolução do
Chega sobre a mesma questão.
A proposta do PS pretendia
alargar a resposta e a gratuitidade do serviço de assistência pessoal para
pessoas com deficiência, no âmbito do Modelo de Apoio à Vida Independente
(MAVI). Esta iniciativa promoveria mais apoio à autonomia e à inclusão. Propunha-se aumentar a cobertura
nacional da resposta estabelecendo novos acordos com Centros de Apoio à Vida
Independente e do aumento da capacidade dos já existentes. Era definido como
objectivo conseguir no primeiro ano um aumento de 30% da resposta disponível,
incluindo mais horas de assistência. Continuamos a aguardar.
Retomo umas notas que muitas
vezes aqui tenho deixado, recordando o que escrevi em 5 de Maio de 2025, o Dia
Europeu da Vida Independente, em que se realizaram manifestações em oito
cidades portuguesas com o objectivo de "chamar a atenção para um conjunto
de questões que continuam por resolver no que diz respeito aos direitos das
pessoas com deficiência".
Na verdade, tantas vezes digo e
repito, a vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável
prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que ampliam de forma
inaceitável a limitação na mobilidade que a sua condição, só por si, pode
implicar. No entanto, muitos dos obstáculos não têm apenas a ver com barreiras
físicas, remetem para a falta de senso, incompetência ou negligência com que
gente responsável(?) lida com estas questões.
Muitos destes obstáculos estão
associados ao que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo,
entendem ser os direitos, o bem comum e o bem-estar das pessoas, de todas as
pessoas.
Como é evidente, existem muitas
outras áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência,
designadamente apoios sociais, educação, qualificação profissional e emprego,
habitação, em que a vulnerabilidade e os riscos de exclusão e pobreza são
elevados traduzido em taxas de desemprego entre pessoas com deficiência muitíssimo
superiores à verificada com a população sem deficiência.
Uma das questões críticas também
a considerar prende-se com os apoios à vida independente, designadamente o
apoio para as pessoas tenham acesso a assistente pessoal, "A vida
independente, para ser possível, é preciso ter o direito à habitação, é preciso
ter acesso à habitação, aos transportes, à educação inclusiva, ao trabalho, mas
há uma ferramenta que é fundamental, que é a assistência pessoal". Alguns
milhares de pessoas aguardam o acesso a assistente pessoal.
Como tantas vezes tenho afirmado
e escrito durante décadas, a inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais,
Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma
forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente
da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por
referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como
membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis,
autodeterminação e autonomia e independência.
As pessoas com deficiência não
precisam de tolerância, não precisam de privilégios, não precisam de caridade,
precisam só de ter os seus direitos considerados. Os direitos não são de
geometria variável cumprindo-se apenas quando é possível ou numa lógica de
serviços mínimos que mascara a realidade.
Este é o caderno de encargos que
nos convoca a todos.
A obesidade de um Ministério que tutela o ensino básico, o secundário, o superior e a investigação científica tem como efeito trágico que a incompetência produza efeitos em múltiplos sectores.
Ontem referi aqui a questão
crítica relativa aos exames finais do secundário e tudo o que tem estado a ser
divulgado e questionado.
Hoje uma chamada de atenção para dois
textos divulgados no Público relativos às mudanças no ensino superior e na
investigação. “Universidades de investigação ou fábricas de produção de diplomas?" de Mário A. Barbosa e ”Da falecida Fundação para a Ciência e a Tecnologia ao coma da AI²” de João Conde merecem
leitura atenta.
Poderia recordar a fórmula mais
erudita de Lampedusa, em “O Leopardo” e a ideia de que "é preciso que
tudo mude para tudo fique na mesma”, mas prefiro a mais portuguesa, “cada
cavadela, cada minhoca” como ontem utilizei a propósito da ”barraca” dos exames
do secundário.
É mau demais.
Parece estarmos a atravessar no mundo da educação um período informado pela conhecida lei de Murphy que se pode traduzir em algo como “tudo o que pode correr mal, está mesmo a correr mal”.
Para além das dificuldades que se
registaram na utilização e eficiência dos recursos digitais, com a questão dos
processos, conteúdos e dispositivos de correcção dos exames temos uma nova trapalhada. Recordo a ideia de criar em cada exame um
conjunto de questões âncora que permitissem a comparação de resultados durante
vários anos. Ficará certamente para ...
Esperemos que um emergente
movimento no sentido de repensar o papel crítico, sublinhe-se, dos recursos
digitais possa contribuir para um maior equilíbrio e, naturalmente, assegurar a
garantia de equipamentos suficientes e adequados para a sua ajustada utilização
ao longo da escolaridade.
O sistema educativo precisa
urgentemente de alguma serenidade, previsibilidade e competência. Recordo que
ainda não se sabe quantos alunos não têm, não tiveram, professores a todas as
disciplinas
Assente num discurso sobre
mudança, inovação e competência o MECI funciona em modo “cada cavadela, cada
minhoca”.
Ontem realizou-se em frente ao MECI uma manifestação de pais, professores e técnicos das designadas instituições de ensino especial que providenciam a educação escolar e apoios especializados a alunos com necessidades especiais que boa parte das vezes passaram por grandes dificuldades de apoio nas escolas regulares e com o acesso ao subsídio de educação especial cujo valor será insuficiente para a manutenção dos apoios e funcionamento das instituições que enfrentam sérias dificuldades. Temem não garantir o início do próximo ano lectivo.
A resposta de natureza mais
especializada é crítica para o desenvolvimento e trajecto educativo para muitas
crianças e jovens com necessidades especiais, também porque o cenário
verificado nas escolas regulares em matéria de apoios educativos tem graves carências
como tantas vezes aqui tenho abordado. Esta matéria foi o meu universo
profissional durante quase 50 anos.
Apesar das boas experiências que,
felizmente, existem, a falta de recursos, equipamentos e humanos (professores,
técnicos e auxiliares), o incumprimento dos ratios na constituição de turmas,
um excesso de utilização do “outsourcing” que em educação é pouco eficiente são
algumas das questões sentidas por todos que lidam com a educação escolar.
Não é nada de novo, os mais
vulneráveis são sempre os que sofrem mais.
Mas não é uma fatalidade, fazemos
os dias assim, como cantam os Trovante.
Há muitos anos, no tempo em que eu era miúdo, a zona onde nasci e vivia, perto de Almada, era ainda feita de poucas casas e algumas quintas, não havia a ponte com o nome cujo significado era um sonho longe naquela altura, a época dos santos era esperada com alguma excitação por nós, os mais pequenos, mas não só, evidentemente.
O santo que nos pertence é o S.
João, é hoje o dia e daí estas notas, mas todos nos serviam, o S. António em
Lisboa e o S. Pedro no Seixal também eram populares pretextos para nos
divertirmos.
Os adultos organizavam umas
festas nas ruas com bailarico e as incontornáveis sardinhas e bifanas, com rega
é claro, que vendiam para financiar uma excursão ao estrangeiro, a Badajoz
quase sempre, que naquele tempo o “nosso” estrangeiro era perto e o dinheiro
sempre curto.
Mas para nós, para além de uns
desaparecidos "pirolitos" em garrafas que tinham um berlinde de
vidro, os santos eram sobretudo as fogueiras, isso sim, as fogueiras.
Uns dias antes de cada santo, por
assim dizer, e por zonas começávamos a juntar lenha. Para tal, fazíamos umas
visitas às quintas da terra, ainda havia muitas que agora têm prédios plantados
e, sobretudo, organizávamos umas expedições às obras em curso e
"recolhíamos" toda a madeira que conseguíssemos e que acumulávamos
procurando tê-la sempre debaixo de olho, porque a carne do pessoal das outras
zonas era fraca e poderia não resistir à tentação de "levar" a nossa
lenha.
Nos dias da celebração a fogueira
durava enquanto houvesse lenha e vontade de saltar por cima dela. Tratava-se
então de saber quem era mais corajoso e enfrentava as chamas mais altas. À
custa destas exibições sempre conseguíamos umas vistosas aterragens falhadas do
outro lado ou uma roupa chamuscada.
Também se lançavam foguetes e
todos os anos um balão de ar quente feito por nós e cheio de cores que, quando
voava sem problemas, era uma festa dentro da festa.
Ainda brincávamos na rua e nestas
noites era até tarde.
Havia inevitavelmente sempre o
espectáculo extra de alguns dos adultos já com algum lastro alcoólico, digamos
assim, tentarem mostrar dotes de saltadores de fogueiras e a coisa não acabar
bem.
Com alguma regularidade e como
número extra, tínhamos direito a uma cena de lambada, sem grandes consequências
porque festa é festa, na qual quase sempre estava envolvida uma figura mítica
da minha terra, o meu saudoso amigo Pedro, mais conhecido pelo Sucata. Era
homem que andava por um enorme metro e sessenta, mas era a pessoa mais amiga de
arranjar uma confusãozinha de onde saía, invariavelmente, com mais umas
lambadas e, é verdade, mais uns amigos que lhe pagavam um copito. Tenho
saudades do velho Sucata.
Os santos na minha terra já não
são tão populares, limitam-se a oferecer feriados e algumas iniciativas. Muitas
delas, por assim dizer, são de “plástico”.
Hoje realiza-se o exame de Matemática do 12.º ano. A esse propósito o Público tem uma entrevista notável com Marcelo Viana, professor e investigador de Matemática e com uma extensa obra de divulgação. A entrevista está com o título, “Costumo dizer que a profissão de professor de Matemática é a mais difícil do mundo” e merece leitura, reflexão e divulgação.
Na verdade, a relação que os
alunos estabelecem com a Matemática e o seu desempenho, para além das
incontornáveis e nunca consensuais, mesmo entre a classe docente, perspectivas relativas
aos conteúdos curriculares e como aqui já tenho abordado, podem ainda ser
influenciadas, não numa relação de causa-efeito, por múltiplas variáveis como
número de alunos por turma, tipologia das turmas e das escolas e dos contextos,
dispositivos de apoio às dificuldades de alunos e professores ou questões de
natureza didáctica e pedagógica.
Acresce a esta complexidade um
conjunto de outras variáveis, por vezes menos consideradas, mas que a
experiência e a evidência mostram ter também algum impacto.
São variáveis de natureza mais
psicológica como a percepção que os alunos têm de si próprios como capazes de
ter sucesso associada a contextos familiares de natureza diversa, por exemplo.
É também conhecido e os
resultados do PISA sublinham, que os pais com mais qualificação e de mais
elevado estatuto económico têm expectativas mais elevadas sobre o desempenho
escolar dos filhos o que se repercute na acção educativa e nos resultados escolares
e, naturalmente, mais facilmente mobilizam formas de ajuda para eventuais
dificuldades, seja nos TPC, seja através de ajuda externa.
Finalmente uma outra variável
neste âmbito, a representação sobre a própria Matemática. Creio que ainda hoje
existe uma percepção passada nos discursos de muita gente com diferentes níveis
de qualificação de que a Matemática é uma “coisa difícil” e ainda de que só os
mais “inteligentes” têm “jeito” para a Matemática. Esta ideia é tão presente
que não é raro ouvir figuras públicas afirmar sem qualquer sobressalto e até
com bonomia que “nunca tiveram jeito para a Matemática, para os números”. É
claro que ninguém se atreve a confessar uma eventual “falta de jeito” para a
Língua Portuguesa e, por vezes, bem que parece. A mudança deste cenário é uma
tarefa para todos nós e não apenas para os professores e seria importante que
acontecesse.
De facto, este tipo de discursos
não pode deixar de contaminar os alunos logo desde o 1º ciclo convencendo-se
alguns de que a Matemática vai ser difícil, não vão conseguir ser “bons” e a
desmotivar-se.
Não fica fácil a tarefa dos
professores, mas no limite e como sempre, será a escola, o braço operacional da
comunidade, a fazer a diferença.
A entrevista de Marcelo Viana é
particularmente interessante nesta abordagem.
É crítico que se consiga promover
mais e melhor sucesso e não empurrar os alunos para os anos seguintes sem
nenhuma melhoria nas suas competências ou saberes e é essencial, como referia
acima, criar e tornar acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e
recursos adequados e competentes de forma a evitar a última e genericamente
ineficaz medida da retenção a que voltarei amanhã.
Sabemos também que a escola pode
e deve fazer a diferença, em muitas escolas isso acontece. Mas para que isto
seja consistente e não localizado também sabemos que o sucesso se constrói
identificando e prevenindo dificuldades de forma precoce, com a definição de
currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio eficazes,
competentes e suficientes a alunos e professores, com a definição de políticas
educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos
adequados e reais de autonomia, organização e funcionamento desburocratizado
das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, com a
valorização do trabalho dos professores, com práticas de diferenciação que não
sejam "grelhodependentes", com expectativas positivas face ao
trabalho e face aos alunos, com melhores níveis de trabalho cooperativo e
tutorial, quer para professores quer para alunos, etc.
Uma nota final para a importância
da avaliação externa como forma imprescindível de regulação. No entanto, não
entendo que só por existirem e serem muitos, os exames finais, só por si,
insisto, só por si, melhorem a qualidade. É como esperar que só por medir
muitas vezes a febre irá baixar. A qualidade é promovida considerando o que
escrevi em cima e regulada em termos globais pela avaliação externa que permite
análises necessárias, nacionais ou internacionais como, por exemplo, o TIMSS.
É com a escola, por dentro da
escola e integrado em sólidos projectos de autonomia e responsabilidade e com
recursos adequados que o caminho se constrói.
Sabemos tudo isto. Nada é novo.
Só falta um pequeno passo.