quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

REGRESSAR À ESCOLA. QUEM? QUANDO? MAS SOBRETUDO, COMO?

 Parece estar a desenhar-se um movimento de pressão e tomadas de posição no sentido de que, asseguradas condições também identificadas ao nível das questões de segurança de saúde, se proceda a partir do início de Março à abertura progressiva das escolas começando, naturalmente, pelos mais novos, creche, educação pré-escolar e 1.º e 2.º ano do 1º ciclo do ensino básico, 3.º e 4.º ano, posteriormente o 2º ciclo e 3º ciclo e, em Abril, os alunos do Secundário e Superior.

Creio que nesta altura e com a experiência e conhecimento, nacional e internacional, já adquiridos, parece inquestionável que o impacto do encerramento das escolas é fortíssimo nos alunos mais novos, ainda que como sempre, modulados por variáveis de natureza sociodemográficas ou individuais, literacia familiar ou uma condição de vulnerabilidade, por exemplo.

Assim, parece importante que, dentro de um quadro de seguranças no que respeita à saúde pública este processo possa ser desencadeado. Aliás, o Governo tem também demonstrado esta visão, começar pelas escolas, mas  com muitas "reservas" quanto a datas. Compreende-se, está ainda “preso” ao facilitismo criado no Natal e ao atraso no encerramento das escolas em Janeiro.

No entanto, e tal como tenho escrito, tanto como a importância do retorno ao ensino presencial, inquieta-me a forma com serão acolhidos os alunos neste novo retorno.

É bom recordar, por exemplo que os alunos que estão agora no segundo ano, no ano lectivo passado, o seu primeiro ano de escola, onde tudo começa em termos de aprendizagem escolar, literacia, educação matemática, educação científica e expressões e actividade física, tiveram aulas até ao início de Março, entraram em modo não presencial com os impactos e limitações reconhecidos, começaram o segundo ano e no início do 2º período voltam ao modo não presencial. É, para ser simpátcio, uma trajecto pouco amigável para o sucesso nas aprendizagens sendo que, como sempre, as desigualdades têm um impacto crítico.

Neste cenário e considerando todos anos de escolaridade, mas, insisto, sobretudo nos primeiros por razões óbvias gostava de estar tranquilo relativamente à forma como será gerido o retorno ao ensino presencial, não basta, “sentá-los” como se voltassem de um intervalo. Tanto quando as datas, eventualmente menos previsíveis a ver pelas afirmações do Presidente da República, seria desejável que, existissem orientações, admito que existam, no sentido da avaliação de prováveis dificuldades, recordo a situação particular dos alunos no segundo ano de escolaridade, da definição de apoios e recursos dedicados a esta “recuperação”.

A proactividade, apesar da complexidade da situação, é mais amigável da qualidade que a reactividade embora saibamos, temos o exemplo de Março de 2020, que às vezes há que reagir e avançar. No entanto, temos já experiência que deveria ajudar a regular o que actualmente vai acontecendo.

Creio que ainda estamos a tempo de apesar das dificuldades podermos levar a generalidade das crianças e jovens a porto seguro, assim saibamos e queiramos responder atempadamente e competentemente às suas necessidades.

Ainda há poucos dias aqui referi a estranheza com umas afirmações do Ministro numa entrevista, “Sabemos que necessariamente (esta geração de alunos) vão ter mais problemas de alergologia daqui a 20 anos. Porque vão ser muito mais obesos. Vamos ter problemas oncológicos, respiratórios, cardiovasculares, mentais”.

Não Senhor Ministro, tal não irá certamente acontecer, muito menos pelas razões que refere. Se fizer o seu trabalho, com maiores ou menores dificuldades, como sempre e em todas as circunstâncias, escolas, professores, directores, técnicos auxiliares, pais e alunos farão o que lhes compete.

Correrá sempre tudo bem? Não, estamos no universo da educação escolar, num tempo difícil e numa sociedade complexa e desigual.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

DEBATE "PROFESSORES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS"

 A Fundação Francisco Manuel dos Santos, a propósito do lançamento do livro de Paulo Guinote, “Quando as Escolas Fecharam: Cadernos da pandemia”, organizou um debate com o título sugestivo, “Professores à beira de um ataque de nervos?”.

Para além do professor Paulo Guinote, participarei eu e o professor Paulo Prudêncio com a moderação da jornalista Catarina Carvalho.

Num tempo com características excepcionais e em que as dúvidas são seguramente mais que as certezas, a discussão é sempre útil na busca por um caminho ou caminhos num universo complexo como é a escola e a educação.

O debate poderá ser visto hoje às 21h na página da Fundação.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

UM CAMPEÃO DE MUITAS PROVAS

 O atleta Miguel Monteiro bateu ontem o recorde do mundo do lançamento do peso na categoria F40 de atletismo adaptado. Miguel Monteiro lançou o engenho a 11,01 metros.

Como é óbvio, um record mundial mereceria o destaque que, provavelmente, não vai ter.

A vida de muitas pessoas com deficiência é, na verdade, uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que ampliam de forma inaceitável a limitação na mobilidade e a funcionalidade em diferentes áreas que a sua condição, só por si, pode implicar. Como é evidente, existem muitas áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente, educação e emprego em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são enormes.

Reafirmo algo que recorrentemente subscrevo, os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como lidam com as minorias e as suas problemáticas.

Como disse, provavelmente o feito desportivo de Miguel Monteiro não terá o relevo que merecia. As primeiras páginas, mesmo no desporto, não são para estes indivíduos, as pessoas com deficiência não têm "glamour", não enchem estádios e não fazem movimentar milhões, não são colunáveis, são apenas, simplesmente, campeões, a sério.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

A CULTURA DO "DESENRASCANÇO"

 Um dos muitos efeitos e dificuldades acrescidas que a alteração do modelo de aulas presenciais para o trabalho online, não lhe estou a chamar ensino à distância, trouxe foi a questão da avaliação e da forma de regular a seriedade de um processo de avaliação realizado em situação não presencial.

Considerando a minha experiência pessoal que creio ser próxima do que passa na generalidade das instituições procuramos da forma possível minimizar o risco de fraude. Para muitos de nós docentes a situação também não era familiar, certamente teremos conseguido travar alguns episódios, mas, provavelmente, algumas situações aconteceram, acontecem e vão continuar a acontecer. A questão não é nova, actualiza-se conforme os tempos. No meu tempo de básico e secundário, papéis com a matéria enrolados com um elástico que permitia ir funcionando como “auxiliar de memória”era do mais “sofisticado”, mas, mesmo nessa altura, criatividade era algo que não faltava.

O Público traz uma peça elucidativa sobre esta questão, muitos professores têm sido solicitados para, a troco de pagamento significativo, apoiar alunos na realização de avaliações online. Nada que não antecipássemos e que logo no primeiro confinamento tentámos evitar através de diferentes expedientes.

A questão da fraude, nas diferentes tipologias, mas sobretudo a questão do plágio é um fenómeno em alta também no ensino superior, realidade que conheço melhor, mas não só, a título de exemplo já tive textos do blogue plagiados. Considerando o volume crescente de situações muitas instituições têm vindo a adoptar dispositivos de despiste e regulamentos que minimizem o risco de tais práticas.

É verdade que de há uns tempos para cá, felizmente, tem vindo a emergir e entrar na agenda a questão da utilização da informação disponível, designadamente na net, na produção fraudulenta ou nos limites da ética de trabalhos académicos e científicos da mais variada natureza como é o caso dos artigos científicos falsos.

A necessidade de proceder a avaliações em modo online veio promover uma alteração nas práticas de fraude, mas a questão de fundo é a mesma. A percepção e representação que parte importante dos alunos tem sobre a sua “naturalidade”

O Centro de Estudos Sociais da Faculdade Economia da U. de Coimbra desenvolveu um estudo nacional, creio que divulgado em 2018 sobre a questão da fraude académica cujos dados apontavam no sentido de que de que 37.6 % dos inquiridos aceita a fraude desde que “não prejudique ninguém”. A estes dados, pode acrescentar-se um estudo da Universidade do Minho também de há algum tempo referindo que as situações de algum tipo de “copianço” envolvem três em cada quatro estudantes.

Este reconhecido aumento das situações de plágio ou de tentativa de fraude que se verificam em todos os níveis de ensino, do básico à formação pós-graduada, doutoramentos incluídos, bem como artigos científicos, traduz o que costumo designar por relação ética que estabelecemos com o conhecimento e que os alunos mais novos replicam. Aliás, no estudo da U. do Minho, dos alunos que admitiam copiar, 90 % afirmavam fazê-lo desde sempre.

O conhecimento será entendido como algo que se deve mostrar para justificar uma nota ou estatuto, não para efectivamente integrar e, ou, acrescentar uma mais-valia no conhecimento ou na ciência, ou seja, importante mesmo é que a nota dê para passar, que o curso se finalize, que a tese fique feita e se seja doutorado ou que se possa acrescentar mais um artigo à produção científica num mundo altamente competitivo, muitíssimo competitivo. Que tudo isto possa acontecer à custa da manhosice, do desenrasca mais ou menos sofisticado, são minudências com as quais não podemos perder tempo.

É importante termos consciência que esta questão não é um exclusivo nosso. São conhecidos recentes casos em diferentes países da Europa. De qualquer forma, não deixa de ser uma preocupação e justifica que as escolas, do básico ao superior, se envolvam nesta tentativa de que todos tenhamos uma relação sólida do ponto de vista ético com o conhecimento, a sua produção e divulgação.

O caminho passa pelo estabelecimento obrigatório de códigos de conduta com implicações sancionatórias severas e com uma atitude formativa e preventiva durante as aulas.

O trabalho será sempre difícil pois o actual contexto ao nível dos valores e da ética dos comportamentos e funcionamento social é, só por si, um caldo de cultura onde o copianço, o plágio ou a fraude científica, por vezes, não passam de "peanuts". É a cultura do desenrascanço, não importa como.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

CANDIDATURAS INDEPENDENTES

 De forma discreta, já no final do ano passado, PS e PSD aprovaram no Parlamento uma nova lei reguladora da eleição para os órgãos das autarquias. A lei veio tornar ainda mais complicada a apresentação de candidaturas eleitorais fora dos aparelhos partidários, as chamas candidaturas independentes.

Nada de estranho, trata-se da partidocracia a funcionar e nas grandes questões o “centrão” entende-se.

Mais recentemente começaram a surgir fortes críticas e parece que com “sentido de estado”, "espírito democrático" e magnanimidade, como sempre, PS e PSD admitem alterações. Aliás, a Provedora de Justiça solicitou ao Tribunal Constitucional a fiscalização da lei por eventual "violação dos direitos dos cidadãos de tomar parte na vida política".

Com este tipo de “práticas”, por assim dizer, talvez se perceba a razão(ões) para que no Índice de Democracia anualmente publicado pela revista The Economist, Portugal tenha passado de democracia plena em 2019 para a democracia com falhas em 2020.

Umas notas sobre esta questão das candidaturas de independentes começando logo pela curiosidade despertada pela designação, “independentes”. Estes serão os que estão fora dos aparelhos partidários pelo que, presumo, "dependentes", serão os que "dependem" das estruturas partidárias. Teremos, pois, que nos decidir por independentes ou por dependentes.

A verdade, muitas vezes o tenho escrito, é que no actual quadro político-administrativo é muito difícil a intervenção cívica, no sentido político, fora da tutela dos aparelhos partidários cuja praxis criou uma “partidocracia” que minou a confiança e tem provocado o afastamento dos cidadãos pelo que se percebe a afirmação da necessidade de mudança.

Verifica-se também que a capacidade de mobilização dos partidos se dirige, sobretudo, a uma minoria de pessoas que emerge dos respectivos aparelhos que, assim, podem aceder e manter alguma forma de poder e a uma maioria que enche autocarros, recebe uns brindes e tem um almocinho de borla ainda que os tempos pandémicos e a dificuldades económicas exijam alterações.

A partidocracia não atrai porque os partidos se tornam donos da consciência política das pessoas, veja-se o espectáculo deprimente da Assembleia da República e o desempenho de boa parte dos deputados, salvo honrosas excepções vota-se o que o partido manda, independentemente da consciência, a liberdade de voto parece a excepção.

Reconhece-se hoje que as camadas mais novas, sobretudo, mas não só, atravessam uma situação complexa envolvendo os valores, a confiança nos projectos de vida, os estilos de vida, etc. Neste quadro, a adesão à intervenção política, tal como se verifica genericamente em Portugal, parece mais uma parte do problema que um caminho para a solução, a “velha” partidocracia parece incapaz de responder a problemas novos,.

Creio que o descontentamento e desconfiança de muitos dos cidadãos, traduzidos em percentagens de abstenção acima dos 50%, mostram que importa pensar numa participação política para lá dos partidos. Várias manifestações com grande mobilização que escaparam à lógica da partidocracia, bem como iniciativas de grupos de cidadãos mobilizados por causas ou algumas candidaturas verdadeiramente fora do espectro partidário, dão sinais nesse sentido.

De tudo isto resulta, como muitas vezes refiro, o afastamento das pessoas pelo que a construção de outras formas de participação cívica parece ser a única forma possível de reformar o quadro político que temos, ou seja, os partidos ou definham ou mudam, pela pressão do exterior.

Existe, é preciso que exista, intervenção política para além dos partidos, que se reformam ou tenderão a implodir com riscos para a própria democracia cuja saúde já está debilitada com os efeitos precupantes que a vamos assistindo, a emergência de grupos anti-sistema radicais, mas por dentro do sistema, com narrativas populistas, xenófobas e racistas e, obviamente, não democráticas.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

TODA A GENTE SABE LER

 Quando oiço alguém, miúdo ou graúdo, que me diz que não sabe ler ou que conhece outro alguém que não sabe ler eu pergunto sempre, “ler o quê?”. O mais habitual é o meu interlocutor ficar um pouco embaraçado e mostrar que não percebe a minha pergunta.

Ainda tive o privilégio de, já há muitos anos, contactar com o Mestre João dos Santos, uma figura que merece referências que por injustiça e desatenção tardam. Uma vez, a propósito das questões da leitura e do saber ler, ouvi-lhe algo de que não mais esqueci, qualquer coisa como, “as crianças aprendem a ler desde que nascem, os livros um bocadinho mais tarde”. Na verdade, se bem atentarmos, toda a gente sabe ler.

Os bebés lêem muito bem as suas mães, tal como as mães sabem ler os seus bebés.

Os bons pais são os que melhor sabem ler os filhos e os filhos também vão sempre lendo os seus pais bem como tudo o que está à sua volta, leitura essa que com clareza os ajuda a compreenderem-se e a compreender o que está para além deles.

Na escola, como nas famílias, os bons professores são os que melhor conseguem ler os miúdos, os seus comportamentos, as suas dificuldades ou a sua alma. Os melhores alunos também lêem melhor tudo o que a escola lhes coloca no caminho, tenha letras ou não.

Por isto tudo, fico sempre mais apreensivo com quem não quer ler, letras, circunstâncias ou pessoas, do que com quem não sabe, ainda, juntar letras. Toda a gente sabe ler.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

PANDEMIA E EDUCAÇÃO EM DEBATE

 Foi, por assim dizer, um início de tarde diferente. Com os professores Paulo Guinote, Paulo Prudêncio e com a moderação da jornalista Catarina Carvalho estivemos a gravar um debate promovido pela Fundação Manuel Francisco dos Santos, “Professores à beira de um ataque de nervos?”, a propósito do livro de Paulo Guinote, “Quando as Escolas Fecharam: Cadernos da pandemia”.

Num tempo com características excepcionais e em que as dúvidas são, provavelmente, mais que as certezas, a discussão é sempre útil na busca por um caminho ou caminhos num universo complexo como é a escola e a educação.

O debate poderá ser visto no dia 23 de Fevereiro às 21h na página da Fundação


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A HISTÓRIA DO COITADINHO

 Era uma vez um Rapaz chamado Coitadinho, nome que não se devia dar a nenhum Rapaz, é muito feio.

O Coitadinho foi-se habituando a conviver com o nome, comportava-se, quase sempre é assim, como se espera que um Coitadinho se comporte. Não era muito bom nas tarefas escolares, experimentava sempre alguma dificuldade com as tarefas pedidas, precisava de alguma ajuda para as ir realizando, mas, diziam, o Coitadinho esforçava-se, mas, coitadinho, não era muito fácil ser bem-sucedido.

Os seus colegas não se davam muito com ele, como sabem, são muito poucos os miúdos que, tal como os adultos, gostam de estar junto de Coitadinhos. E assim, o Coitadinho quase sempre andava o seu canto, discreto, colado às sombras, coitadinho, sempre só.

Com o tempo toda a gente estranhava o Coitadinho não crescer, não ser como os outros miúdos, permanecia como sempre e até parecia que estava cada vez mais pequeno e mais só.

As pessoas não sabem que os Coitadinhos, quase sempre, não crescem para cima e por dentro, crescem para baixo e para dentro.

Vida de Coitadinho num mundo em que vivem todos e tantos não cabem.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

AULAS SÍNCRONAS VS AULAS PRESENCIAIS, DE NOVO

 Há uns dias escrevi aqui um texto a propósito de uma notícia do Público em que se referia a existência de várias escolas em que no âmbito da actual situação de ensino não presencial se replicam em actividade síncrona os horários presenciais dos respectivos anos.  Na altura, representantes dos directores escolares afirmaram conhecer a situação, mas não a dimensão.

Foi agora divulgado um inquérito realizado pela Fenprof sobre diferentes questões ao qual responderam “mais de quatro mil professores” de cujas respostas no “Plano pedagógico” releva, cito da página da Fenprof:

(…)

- 34% dos docentes, ou seja, 1/3 do total, afirmam que as sessões síncronas são de duração igual às aulas presenciais, o que é completamente desajustado, contrariando as recomendações divulgadas;

- Relativamente ao número de sessões síncronas, 50% dos docentes afirma que ele é igual ou superior a metade do número de aulas presenciais;

- Já em relação ao horário das sessões assíncronas, 53% desenvolvem-nas no horário que estava determinado para as presenciais, articulando-as com as síncronas, mas há ainda 8,4% que afirma manter disponibilidade permanente online.

(...)

Não conheço a composição do grupo de respondentes, designadamente no que respeita aos ciclos e níveis de ensino, pelo que estes indicadores devem ser vistos com alguma prudência embora mereçam reflexão.

Parece significativo que cerca um terço dos docentes afirme que as aulas síncronas têm a mesma duração que as presenciais embora, como já referi fosse importante saber que anos de escolaridade estão envolvidos. De qualquer forma parece um indicador relevante.

Creio que a experiência adquirida durante o ano lectivo passado e o conhecimento desde então produzido e acumulado parecem sustentar sem grandes dúvidas a importância de adequar às idades dos alunos (anos de escolaridade) e aos conteúdos curriculares, designadamente, os tempos de duração das actividades síncronas.

As próprias orientações do ME que, desta vez bem, não definiu cargas horárias fechadas, mas divulgou orientações no sentido de se estabelecer equilíbrio nas actividades síncronas em função de critérios como os que referi.

A autonomia não pode ser usada desta forma, é mau para os alunos atrelá-los num ecrã por tempo excessivo para “dar o programa”, não é um bom serviço educativo.

Tal como acontece em situações que conheço parece ter-se verificado em algumas escolas alguma pressão de pais e encarregados de educação neste sentido, hórários semelhantes ao modo presencial. Como argumentos parece haver a crença de que se estiverem mais tempo aprenderão mais e, por outro lado, mais empo em aulas síncronas poderá significar mais “alívio” para os pais, muitos dos quais com enormes dificuldades para conciliar toas as necessidades.

Percebe-se, mas a escola não pode, não deve abdicar de decidir com base na experiência e no conhecimento sendo também por isto que me parece inquietante o número de docentes que refere aulas síncronas com a mesma duração de aulas presenciais. Tanto quanto possível os pais devam ser envolvidos, informados e orientados relativamente às decisões da escola para que as suas crenças e necessidades não substituam o que claramente parece ser melhor para os filhos.

Não é bom para os alunos, sobretudo para os mais novos. A situação já é particularmente complicada para que a tornemos ainda mais.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A LER, "A POBREZA NÃO JUSTIFICA TUDO"

 Um texto interessante de Paulo Prudêncio no Público de hoje, “A pobreza não justifica tudo”, reflecte sobre a associação fortíssima entre as condições sociodemográficas dos alunos e as dificuldades sentidas no actual contexto em termos sociais, económicos e, naturalmente, educativos e que são potenciadas por políticas públicas menos competentes, pela insuficiência e inadequação de recursos materiais e humanos, por práticas desajustadas ou pela oportunidade das decisões, mais reactivas que proactivas. Sendo certo que não existe relação de causa-efeito, a pobreza não explica tudo, está bem estudada e reconhecida a associação entre estas dimensões ou variáveis.

Neste quadro e como escrevia há dias, parece claro, felizmente, que o confinamento poderá durar menos tempo que o verificado no ano passado. No entanto, mesmo num cenário mais optimista os efeitos negativos para muitos alunos acontecerão e de novo se coloca a questão do planeamento, da proactividade, de que falava acima.

Como receberemos os alunos no regresso, como avaliar “danos”, como desenvolver apoios, com que recursos e orientações poderemos religar miúdos que, mais uma vez, ficaram mais distantes da escola ou continuaram distantes da escola? Poderemos ter de responder, era bom que assim fosse, dentro de poucas semanas.

Pode ser necessário, mas não basta esperar que cheguem mais uns computadores, ajustar o calendário de aulas e o calendário de exames.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

JÁ QUE VAIS AO HIPERMERCADO, TRAZ BATATAS, AÇÚCAR E 2 KG DE LIVROS

 Não tenho a menor das dúvidas de que se em qualquer circunstância decidir em matéria de políticas públicas não é tarefa fácil, em situações de extrema complexidade e gravidade como as que atravessamos é ainda mais difícil.

Tal entendimento não colide com a necessidade de que as decisões não sejam objecto de escrutínio e discussão alargada. É assim que as sociedades abertas devem funcionar.

Serve esta introdução para referir a perplexidade que me causa as decisões recentes em matéria de venda de livros.

Nos primeiros dias deste novo confinamento e dado que os livros incompreensivelmente não são produtos essenciais foi proibida a sua venda.

No período que entra em vigor amanhã e dado que o Presidente da República referiu explicitamente a venda de livros, o Governo volta a permitir a venda de livros … nos supermercados e hipermercados. Como?!

Temos um nicho de estabelecimentos comerciais também conhecidos como livrarias que vendem, adivinhem! Isso mesmo, livros. Pois estes estabelecimentos estão obrigatoriamente encerrados por questões de saúde pública pelo que temos de ir comprar livros ao hipermercado, situação muito mais segura, evidentemente.

Não sei se a Ministra da Cultura, existe lembrem-se, teve algum peso nesta decisão ou se ainda está extasiada com a luminosa ideia de colocar os mais pobres que procuram o futuro nas raspadinhas a financiar com a sua esperança e poucos recursos algo de que muito provavelmente não irão usufruir.

Talvez se possa compreender a decisão de manter as livrarias encerradas porque é reconhecido que as poucas que vão resistindo estão sempre apinhadas de gente que, ainda por cima, não se sabe proteger. Como sabem, somos um país com um excelente nível de vida, com uma sociedade fortemente escolarizada e com índices muito elevados  de consumo de bens culturais como livros. Basta ver as ocasiões em que o nosso futuro Nobel da Literatura, José Rodrigues dos Santos, lança um novo trabalho (não lhe chamo livro porque gosto de livros) em que se formam filas sem fim de ávidos leitores procurando o autógrafo que atesta a sublime ocasião. E com a produtividade que o escriba demonstra os ajuntamentos são uma ameaça pública.

Não, agora a sério, o nosso mercado livreiro está em grandes dificuldades, os níveis de consumo de livros são baixos e, obviamente, só nas livrarias encontramos uma oferta diferenciada e conhecedora. Nos hipermercados vendem-se os livros como qualquer outro produto de alta rotação e com critérios que não têm a ver com o valor dos livros, mas com o “peso” comercial de quem os lá coloca.

Também se poderá dizer que se pode aceder aos livros através das encomendas online, claro, aos outros produtos em venda nos hipermercados também e não é preciso dizer que, genericamente, quem gosta de livros, ainda que também os adquira pela net, também gosta de livrarias, da procura e da conversa com os livreiros.

As lideranças inteligentes e competentes não são as que decidem sempre bem, tal não existe.

As lideranças inteligentes e competentes são as que reconhecem quando erram e alteram as decisões com uma comunicação clara.

Num tempo em que estamos mais tempo em casa, sejam competentes, inteligentes e mostrem que, pelo menos, respeitam os livros, abram as livrarias, porra!

sábado, 13 de fevereiro de 2021

OS DIAS DA RÁDIO

 Não sabia que existia o Dia Mundial da Rádio, mas seria previsível que tal acontecesse. A este propósito, o Público tem duas peças, uma muito bonita sobre o papel das rádios locais, o caso da Rádio Voz do Soraia, mesmo num tempo dominado pela globalização e a outra sobre esperadas dificuldades que as rádios locais enfrentam ainda que, como afirma o Presidente da Associação, estejam “vacinadas” contra as dificuldades e vão resistindo, sendo companhia diária de muita gente em muitas comunidades.

Esta peça fez-me andar para trás no tempo, ainda sou do tempo dos dias da rádio. Foi uma viagem de que gostei ainda que não queira voltar para aqueles tempos.

Quando era miúdo, a rádio era o tudo na nossa vida em matéria de música, a de alguns de nós evidentemente, pois não tínhamos mais do que um aparelho de rádio lá em casa, muito bonito aliás, panorama que mudou quando, pelos meus doze anos, entrou uma novidade extraordinária, um gravador de cassetes, ainda uns aninhos antes de acedermos a um luxo chamado televisão.

A rádio era assim a nossa janela para o mundo para além de uma imprensa em papel que, salvo honrosas e combatidas excepções, era muito cinzenta, como os tempos da época.

Conhecia a música e a informação que a rádio estava autorizada a dar-nos a conhecer.

Felizmente que havia muita gente que tentava contrariar o ditado musical e informativo da época, de diferentes maneiras, abrindo assim umas janelinhas para outros mundos. Ainda me lembro de algumas incursões de alguns programas em autores "proibidos" e da audição às escondidas da BBC em onda curta para saber do outro lado do país.

Recordo como os relatos desportivos feitos pelas estrelas do tempo de forma que quase nos levavam para dentro dos estádios, eram seguidos lá em casa.

Nesta viagem plos dias da rádio e esquecendo certamente memórias que não deveria recordo, o “Em Órbita” de Jorge Gil no ar de 1965 a 2001 iniciado no antigo Rádio Clube Português, o “Pão com Manteiga” sob a responsabilidade de uma equipa liderada por Carlos Cruz integrando, por exemplo, Mário Zambujal ou os incontornáveis “5 minutos de Jazz “ de José Duarte, iniciado na Rádio Renascença e “Oceano Pacífico” de João Chaves, iniciado em 1984 na RFM.

Recordo ainda o tempo em que gravava já tarde na noite com receio de que os cães dos vizinhos ladrassem umas crónicas sobre educação que eram passadas semanalmente numa rádio local, creio que já não existe, a Nova Antena da zona de Odivelas, era divertido, mas quando tinha de repetir …

No que respeita à música e ainda só com o já referido e “espectacular” gravador de cassetes, numa pirataria ingénua, passei muitas horas de expectativa e ansiedade com o gravador preparado para carregar no "Rec" e ir gravando as músicas que me permitiam a constituição de "playlists" com as preferências. E como odiava os homens da rádio quando resolviam falar em cima das músicas inutilizando a sua gravação e o crescimento do meu acervo musical.

Hoje os tempos são outros, a informação chega de múltiplas fontes, tal como a música. No entanto, continuo a ouvir rádio, menos que naquele tempo e do que a qualidade do que se vai fazendo justificaria.

Por outro lado, e tal como a peça sobre a Rádio Voz do Soraia sublinha, as rádios locais são imprescindíveis no seu papel junto de muita gente que, provavelmente, não acede regularmente a outras plataformas de informação ou de música. A proximidade é pouco amigável para a globalização e massificação que caracterizam os tempos.

Não deixemos que os dias da rádio fiquem ameaçados, fazem falta num mundo em que a proximidade é um bem de primeira necessidade.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

DEFINITIVAMENTE, MALTRATAR NÃO É GOSTAR

 A nossa vida está agora submersa numa preocupação gigantesca e de diferentes dimensões de que dificilmente nos alheamos, mesmo que brevemente. No entanto, parece-me também importante que não esqueçamos outras questões.

Foram divulgados os dados relativos a 2020 do estudo sobre a Violência no Namoro que a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) tem vindo a realizar nos últimos anos promovendo a prevenção primária de violência de género. O trabalho envolveu 4598 jovens de escolas de todos os distritos do continente e ilhas, do 7.º ao 12.º ano de escolaridade.

Alguns indicadores relevantes. 67% dos jovens inquiridos, média de 15 anos de idade, consideram legítima a violência no namoro. Destes, 26% acham legítimo o controlo, 23% a perseguição, 19% a violência sexual, 15% a violência psicológica, 14% a violência através das redes sociais e 5% a violência física.

De registar ainda que 25% acham aceitável insultar durante uma discussão, 35% que é aceitável entrar nas redes sociais sem autorização, 29% que se pode pressionar para beijar e 6% entendem como aceitável empurrar/esbofetear sem deixar marcas.

São dados profundamente inquietantes. Em cerca de 5000 jovens com uma média de 15 anos de idade 67% acham normal algum tipo de violência nas relações de namoro e 58% referem já ter sofrido pelo menos uma forma de violência.

O que torna a situação ainda mais complexa é a manutenção sem grandes alterações destes indicadores ao longo dos anos, incluindo trabalhos com estudantes do ensino superior, o que talvez ajude a perceber como a violência doméstica parece indomesticável.

Os dados convergem no indiciar do que está por fazer em matéria de valores e comportamentos sociais. Acresce que como sabemos, boa parte das situações de abuso não são objecto de queixa.

Este conjunto de dados é preocupante, gostar não é compatível com maltratar, mas creio que não é surpreendente, lamentavelmente. Os dados sobre violência doméstica em adultos que permanece indomesticável deixam perceber a existência de um trajecto pessoal anterior que suporta os dados destes e de outros trabalhos sobre violência no namoro e que se mantêm inquietantes. Aliás, nos últimos anos a maioria das queixas de violência doméstica registadas pela APAV foram de mulheres jovens embora seja um drama presente em todas as idades.

Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores sociais presentes em cada época. De facto, e reportando-nos apenas aos dados mais gerais, é criticamente relevante a percentagem de jovens, incluindo estudantes universitários, que afirmam um entendimento de normalidade face a diferentes comportamentos que evidentemente significam relações de abuso e maus-tratos.

Como todos os comportamentos fortemente ligados à camada mais funda do nosso sistema de valores, crenças e convicções, os nossos padrões sobre o que devem ser as relações interpessoais, mesmo as de natureza mais íntima, são de mudança demorada. Esta circunstância, torna ainda mais necessária a existência de dispositivos ao nível da formação e educação de crianças e jovens; de uma abordagem séria persistente nos meios de comunicação social; de um enquadramento jurídico dos comportamentos e limites numa perspectiva preventiva e punitiva e, finalmente, de dispositivos eficazes de protecção e apoio a eventuais vítimas.

Só uma aposta muito forte na educação, escolar e familiar, pode promover mudanças sustentadas nesta matéria. É uma aposta que urge e tão importante e sublinha a necessidade óbvia de matérias desta natureza serem objecto de abordagem na educação escolar sendo que não terão de o ser de uma forma “disciplinarizada”. Não me parece que haja outro caminho

Entretanto e enquanto não muda, "só faço isto, porque gosto de ti, acreditas não acreditas?"

Retomo como iniciei. Apesar da natureza e gravidade fora do comum dos dias que vivemos e para os quais não estávamos preprarados, talvez seja de não esquecer questões como estas que devastam o quotidiano de muita gente.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

BAIXOU A TAXA DE ABANDONO ESCOLAR PRECOCE

 Contrariamente ao que se passa com polémicas, muitas vezes inconsequentes ou com problemas conhecidos, as boas notícias em educação têm quase sempre uma divulgação discreta. Trata-se, provavelmente, de uma questão cultural e/ou de uma questão de gestão de interesses e agendas  que, aliás, se traduz na corrida aos testes de paternidade.

Segundo dados do INE agora divulgados, em 2020 a taxa de abandono precoce, um indicador relativo à percentagem de jovens com mais de 18 anos que chega ao mercado de trabalho sem completar o ensino secundário e não está a cumprir um programa de formação, foi de 8,9%.

Com este indicador Portugal fica abaixo da meta comprometida com a UE, 10%. Na última década o abandono escolar precoce tem vindo a baixar sistematicamente sendo que em 2019 foi de 10.6%,  11.8% em 2018 e a 12.6% em 2017.

Uma primeira nota para registar a evolução positiva, realçar o trabalho de alunos, professores, escolas e famílias. Ao que leio na imprensa o ME já veio a terreiro saudar as comunidades educativas atribuindo a evolução ao sucesso das escolas TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária) Programa de Promoção do Sucesso Escolar, ao Apoio Tutorial Específico, à aposta no Ensino Profissional, e Autonomia e Flexibilidade Curricular e, obviamente, a revolução na educação inclusiva. 

A segunda nota para relembrar o caderno de encargos que ainda continuamos a ter pela frente, continuar a combater o abandono e a exclusão, quase sempre a primeira etapa da exclusão social, promover a qualificação, um bem de primeira necessidade e combater as desigualdades criando efectivos dispositivos de mobilidade social em que a escola faz a diferença e pode ajudar a contrariar o destino.

Só assim se promove a construção de projectos de vida viáveis e proporcionadores de realização pessoal e base do desenvolvimento das comunidades.

Neste caminho temos duas vias que se complementam e de igual importância, a prevenção do insucesso que leva ao abandono e a recuperação para trajectos de formação e qualificação da população que, entretanto, já abandonou.

Esperemos que a existência de dispositivos de apoio competentes e suficientes às dificuldades de alunos e professores na generalidade das comunidades educativas seja uma opção clara pois é uma ferramenta imprescindível à minimização do insucesso.

No que respeita à recuperação dos jovens que já abandonaram espero que a oferta de trajectos diferenciados de formação e qualificação ou iniciativas em desenvolvimento como o programa Qualifica, sucessor do Novas Oportunidades, ou os anunciados no âmbito do ensino superior tenha os meios necessários e se resista à tentação do trabalho para a “estatística”, confundindo certificar com qualificar.

Neste cenário, também é de registar a aproximação da taxa de escolarização no ensino superior, 39,6% ao objectivo estabelecido para 2020, 40%.

Apesar dos indicadores de progresso é necessário insistir, merecemos e precisamos de mais e melhor sucesso e qualificação e menos abandono e exclusão.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

QUE É ISTO GENTE?

 No Público lê-se que existem várias escolas que replicam em actividade online os horários presenciais dos respectivos anos. Representantes dos directores escolares corroboram a existência desta situação ainda que, naturalmente, não se saiba a sua expressão.

Que é isto gente?

Então não aprendemos com a experiência? Nesta altura também já existe conhecimento que sustenta com muita clareza a necessidade de ajustar às idades dos alunos (anos de escolaridade) e aos conteúdos curriculares, designadamente, os tempos de duração das actividades síncronas.

Já aqui tenho referido por diversas vezes as razões desta necessidade, não é necessário repetir.

O ME, desta vez bem do meu ponto de vista, não determinou tempos de forma fechada, mas divulgou orientações no sentido de se estabelecer equilíbrio nas actividades síncronas em função dos critérios que referi acima.

Também já tinha conhecimento de algumas situações em que manifestamente os programas são iguais ou muito próximos dos definidos para o ensino presencial.

A autonomia não pode ser usada desta forma, é mau para os alunos atrelá-los num ecrã por tempo excessivo para “dar o programa”, não é um bom serviço educativo.

Curiosamente, a peça refere a existência de pais que defendem um maior número de aulas síncronas. Também conheço a situação e alguma da sustentação dessa defesa. Alguns pais acreditam que se os filhos tiverem mais tempo no computador em aulas síncronas, aprenderão mais e, por outro lado, os pais terão maior disponibilidade para as suas próprias necessidades.

Sim, mas pais não são professores, alguns sê-lo-ão, e importa que as decisões em matéria de educação escolar sejam informadas pela experiência e conhecimento dos responsáveis, ainda que os pais devam ser envolvidos, informados e orientados relativamente às decisões que respeitam aos filhos.

 Este não é certamente o melhor caminho para a generalidade das crianças.

Também sei que, como sempre e felizmente, boa parte dos alunos “sobreviverão” a esta experiência. As crianças são resilientes, mas não parece boa ideia criar-lhes obstáculos que não têm sentido.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

OS ALÇAPÕES DA NET

 Num tempo em que até a escola chega pela internet assinala-se hoje o dia o Dia Europeu da Internet Mais segura. Como é habitual na imprensa surgem algumas referências diversificadas.

No JN são referidos dados da Directoria do Norte da PJ referindo que em 2020 os crimes sexuais contra crianças aumentaram mais de 150%, de 161 casos registados em 2019 para 396 em 2020.

Atravessamos um novo período de confinamento durante o qual aumentará exponencialmente o tempo que crianças, adolescentes e jovens, tal como muitos adultos, estarão em frente do ecrã. Naturalmente os riscos também aumentarão, não só os de natureza sexual, mas também os de cyberbullying, de chantagem e roubo, de exposição a conteúdos inadequados às idades, etc.

Trata-se de mais um factor de pressão para a supervisão imprescindível, mas muito difícil dos mais novos na sua relação com a net.

É de sublinhar que dados do Estudo Internacional de Alfabetização em Informática e Informação (ICILS) envolvendo 11 países e divulgados em 2020 sugerem que os alunos portugueses são os mais bem preparados para usar a internet de forma responsável. No entanto, os dados relativos aos riscos são, de facto, inquietantes. 

No âmbito do Projecto Kids Online que envolve 30 países e analisa a utilização da net e das redes sociais por crianças e adolescentes os dados de 2018, cerca de 2000 alunos entre os 9 e os 17 anos mostraram comparativamente a 2014 se verifica uma subida da frequência das situações de risco a que parece também estar a associada a maior operacionalidade e o tempo de contacto permitido pela migração da utilização dos pc para os mais “operacionais” smartphones”.

Para além dos dados do EU Kids Online recordo um trabalho da OCDE de 2018 "Curriculum Flexibility and Autonomy in Portugal – na OECDreview” em que considerando dados de 2012 e 2015 (recolhidos no âmbito do PISA), oito em cada dez adolescentes portugueses afirmam "sentir-se mal" se não estiverem ligados à internet. Apenas os adolescentes franceses e suecos de entre os 31 países envolvidos evidenciam uma taxa superior.

Podemos considerar mais um sinal dos tempos as múltiplas referências ao tempo excessivo e dos riscos associados que que muitas crianças e adolescentes despendem com a ligação à net nas suas múltiplas possibilidades designadamente as redes sociais e os riscos associados. Os indicadores relativos ao cyberbullying são inquietantes.

Nesta perspectiva e tal como noutras áreas o recurso privilegiado a estratégias proibicionistas não funciona. Em tempos de confinamento e da escola a chegar pela net a situação é ainda mais complexa.

São mais eficientes a promoção da utilização autoregulada e informada. A net e o mundo de oportunidades, benefícios e riscos que está presente em todas as suas potencialidades é uma matéria que deve merecer a reflexão de todos os que lidam com crianças e jovens embora não lhes diga exclusivamente respeito. É o nosso trabalho.

Mesmo em tempos “normais”, seja lá isso o que for, em casa, muitas crianças têm um ecrã como companhia durante o pouco tempo que a escola "a tempo inteiro" e as mudanças e constrangimentos nos estilos de vida das famílias lhes deixam "livre". Também é verdade que a crescente "filiação" em redes sociais virtuais pode “disfarçar” o fechamento, juntando quem “sofre” do mesmo mal e o tempo remanescente para estar em família, frequentemente ainda é passado à sombra de uma televisão.

Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos e os riscos potenciais, são problemas menos conhecidos para muitos pais. Aliás, as dificuldades sentidas por muitas famílias na ajuda aos filhos neste tempo de ensino não presencial, mostrou isso mesmo, baixos níveis de literacia digital. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para que a utilização imprescindível e útil seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes. Existem demasiadas situações em que desde muito cedo os “smartphones” funcionam como “babysitters”.

Por outro lado, a experiência mostra-me que muitos pais desejam e mostram necessidade de alguma ajuda ou orientação nestas matérias. Sabemos que estratégias proibicionistas tendem a perder eficácia com a idade.

Creio que o caminho terá de passar por autonomia, supervisão, diálogo e muita atenção aos sinais que crianças e adolescentes nos dão sobre o que se passa com elas.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

COMEÇOU

 O que se vai conhecendo deste início de um novo período de ensino não presencial está a evidenciar algumas questões, também referidas em inúmeras peças na imprensa, que não surpreendem, eram, aliás, bem previsíveis. Umas notas sem hierarquizar a sua importância.

Antes de iniciar uma nota que me parece de registar para uma maior preocupação com os alunos em situação mais vulnerável.

Vejamos algumas questões. Está a verificar-se uma enorme latitude de formas de organização das escolas, incluindo cargas horárias, volume de actividades, distribuição dos vários modos de organização do trabalho, etc.

Como a experiência mostrou e a investigação sublinhou, a organização da resposta deveria ser diferenciada considerando os anos de escolaridade e conteúdos. O grande risco, mais uma vez, é que sem a ajuda muitas vezes difícil ou mesmo impossível dos pais algumas crianças irão certamente desligar-se de mansinho da relação educativa com os riscos conhecidos.

A questão da acessibilidade a equipamentos e a rede com qualidade é ainda um enorme constrangimento para muitas crianças que, também elas, sentirão a impossibilidade de se ligarem e/ou a ligação não ir abaixo.

Sublinhe-se que mais uma vez, independentemente até da bondade das decisões das escolas, mais adequadas ao cumprimento formal de programas ou mais amigáveis dos alunos para se mantenham em actividade educativa e ligados a pares e professores, o esforço que as escolas e professores realizarão será gigantesco.

No entanto, algumas das questões com mais peso devem-se, do meu ponto de vista ao menos competente planeamento do ME na questão dos equipamentos e acessibilidade com qualidade por parte de alunos e escolas. Como ontem disse, começou a ser anunciado em Abril e acabámos com encomendas realizadas demasiado recentemente.

Se considerarmos que um dos pilares da mudança e desenvolvimento da UE e das opções do PEES é a tão apregoada Transição Digital, o investimento em dotar o sistema educativo dos recursos e meios que sustentam esta transição digital é um investimento criticamente estratégico no futuro. Está para além de uma reacção aos efeitos da pandemia, mas, naturalmente, deveria ser acelerado pelo contexto existente. Não se trata de uma perpectiva, indefensável diga-se, de substituir o ensino presencial em toda a escolaridade obrigatória pelo ensino à distância. Aliás, boa parte do que está a acontecer não é, sequer, ensino à distância como também já parece claro. Trata-se fundamentalmente da integração generalizada dos meios digitais nos processos educativos de todos os alunos, sublinho todos os alunos, promovendo níveis de literacia digital imprescindíveis ao desenvolvimento.

Parece claro, felizmente, que o confinamento poderá durar menos tempo que o verificado no ano passado. No entanto, mesmo num cenário mais optimista os efeitos negativos para muitos alunos acontecerão e de novo se coloca a questão do planeamento.

Como receberemos os alunos no regresso, como avaliar “danos”, como desenvolver apoios, com que recursos e orientações poderemos religar miúdos que, mais uma vez, ficaram mais distantes da escola ou continuaram distantes da escola? Poderemos ter de responder, era bom que assim fosse, dentro de poucas semanas

Pode ser necessário, mas não basta ajustar o calendário de aulas e o calendário de exames.

A ver vamos, como se diz no meu Alentejo.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

MIÚDOS QUE PASSAM MAL NÃO APRENDEM

 Por estes dias e por razões óbvias, as referências no que respeita aos mais novos centram-se no regresso ao ensino não presencial e nas questões envolvidas. De entre estas questões que por aqui também tenho abordado, relevam modelos e práticas a seguir pelas escolas nesta nova, esperando-se que a experiência e o conhecimento disponível atenuem riscos conhecidos, sobretudo para alunos mais novos, a acessibilidade de muitos alunos, professores e escolas a equipamentos e à rede que permita melhor qualidade e adequação na resposta educativa ou as condições de apoio e dificuldades de pais que estando em teletrabalho ou com mais do que um filho em idade escolar certamente sentirão.

No entanto, existe uma outra dimensão de problemas, um lado B, que o JN hoje aborda, as dificuldades ao nível da alimentação que muitas famílias atravessam envolvendo crianças, adolescentes e jovens. Como exemplo, a Câmara de Lisboa está distribuir 820 refeições diárias em jardins de infância e escolas. Como se sabe a pobreza é silenciosa e envergonhada, as dificuldades serão muito mais do que as conhecidas e numa trajectória de crescimento decorrente do brutal impacto económico e social da situação iniciada há quase um ano e agora num pico de severidade.

Podemos associar a esta tragédia dados produzidos pelo INE, também referidos na imprensa esta semana, mostrando que 25,8% das crianças portuguesas com menos de 12 anos vivem em casas com humidade ou em que chove, perto de 13% não têm a habitação devidamente aquecida, 9,2% não têm luz suficiente e 6,5% vivem em zonas consideradas violentas.

Nunca será demais chamar a atenção para a situação de extrema dificuldade que muitas famílias atravessam para assegurar condições básicas de qualidade de vida como a alimentação. Nos tempos que atravessamos, os riscos sobem apesar do esforço de autarquias e outras instituições. Aliás, para este período de ensino não presencial está previstas a prestação de refeições nas escolas a alunos beneficiários dos escalões de acção social escolar A e B ou a crianças em risco de abandono.

O impacto das circunstâncias de vida no bem-estar das crianças e em aspectos mais particulares como o rendimento escolar ou o comportamento é por demais conhecido e essas circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências significativas ao nível das necessidades básicas.

Em qualquer parte do mundo, miúdos com fome, com carências, não aprendem e vão continuar pobres. Manteremos as estatísticas internacionais referentes a assimetrias e incapacidade de proporcionar mobilidade social através da educação. Não estranhamos. Dói, mas é “normal”, é o destino.

Quando penso nestas matérias não resisto a recuperar uma história que conto muitas vezes, coisas de velho como sabem, e que foi umas das maiores e mais bonitas lições sobre educação que já recebi.

Aconteceu há já uns anos largo em Inhambane, Moçambique, também conhecida por Terra da Boa Gente. Num início de manhã, eu o Velho Carlos Bata, um homem velho e sem cursos, meu anjo da guarda durante as semanas que lá estive em trabalho, íamos a passar por uma escola para gaiatos pequenos e o Velho Bata, parou a olhar. Não estranhei, era um homem que não conhecia o significado de pressa.

Um tempinho depois disse-me que se tivesse “poderes de mandar” traria um camião de batata-doce para aquela escola. Perante a minha estranheza, explicou que aqueles miúdos teriam de comer até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.

Pois é Velho, miúdos com fome e que passam mal não aprendem e vão continuar pobres. E infelizes, não se riem.

Ontem, hoje e amanhã. Não podemos falhar.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

DA ESCOLA DIGITAL

 Estamos quase a iniciar um novo período de ensino não presencial. Funcionará em moldes diferentes do que se verificou a partir de Março passado com algumas mudanças em sentido positivo e que já aqui sublinhei.

Durante algum tempo a discussão gerada pelo retorno a um modo de funcionamento não presencial centrou-se, naturalmente, no impacto que para muitos alunos, sobretudo nos mais novos e por diferentes razões, pode ter esse retorno.

No entanto, nos últimos dias a discussão passou para o problema do acesso aos equipamentos e à rede.

Parece clara a razão, sem computadores com capacidades mínimas e com acessibilidade à rede com eficiência. Algumas notas.

Assim, existem alunos que não têm equipamentos e famílias com meios para os adquirir, existem famílias com mais exigências de equipamentos, mais filhos e teletrabalho dos pais, por exemplo, existem professores sem equipamentos ou indisponíveis para utilizar os seus próprios recursos porque a isso não obriga o enquadramento legal do teletrabalho, existem escolas que têm equipamentos obsoletos que não permitem a realização de trabalho não presencial a partir dos espaços da escola, existem…

A minha maior inquietação é que no contexto absolutamente excepcional que vivemos desde há quase um ano a questão dos equipamentos teria de ser a que deveria estar resolvida e a que certamente teria em termos de impacto menor custo, aliás, seria um investimento numa educação mais preparada para os tempos que vivemos e para o futuro.

Se tivessem sido desencadeados oportunamente os mecanismos que executassem a promessas feitas em Abril de no próximo ano lectivo se verificar o “acesso universal à Internet e aos equipamentos a todos os alunos do ensino básico e secundário”, no próximo ano lectivo, contidas no Programa de Estabilização Económica e Social apresentado em Junho prevendo uma dotação de 400 milhões de euros destinados à aquisição de computadores e ligação à Internet para as escolas públicas.

Sendo, finalmente, que em 16 de Julho o Conselho de Ministros aprovou a aquisição prevista na iniciativa Escola Digital integrada no PEES e referida atrás, destinada, para além “da compra de computadores e de serviços de ligação à internet para escolas e alunos, reforçar a cobertura de rede, a aquisição de software e para dois outros programas: um destinado a desenvolver a “capacitação digital dos docentes” e outro para a desmaterialização dos manuais escolares.”

Insisto que tudo isto foi decidido até Julho.

Não deveríamos, pois, estar a discutir o que estamos a discutir. Em sociedades abertas as políticas públicas podem e devem ser discutíveis, podem e devem ser defendidas opções diferentes, podem e devem ser escrutinadas e podem e devem ser assumidas responsabilidades pelas suas consequências e decisões.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

DA ESCOLA

 Há quase um ano e repentinamente ficámos mergulhados numa educação escolar com características absolutamente excepcionais em que praticamente tudo se alterou, espaços e tempos, modos de ensino e de aprendizagem, sistemas de relações interpessoais, materiais e recursos, reconfiguração do papel dos pais na educação escolar, etc.

Não era certamente esta a escola do Séc. XXI pela qual tantos reclamam. Confesso que me assusta um pouco esta insistência pois cada vez tenho mais receio das ondas de inovação, das sucessivas mudanças de paradigma que, apesar de algumas alterações, pouco impacto têm na substância.

Neste contexto e com esta experiência, talvez possamos olhar para a escola e com o que sabemos e aprendemos construir um caminho recentrando entendimentos.

A reflexão de Paulo Prudêncio no Público “A escola enredou-se em radicalidades antagónicas”, pode ser um contributo. A ler.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

ENTRE O OPTIMISMO, O PESSIMISMO E O REALISMO

 Quando foi anunciado o actual período de encerramento das escolas tive oportunidade de em algumas colaborações com a imprensa e nas reflexões que aqui deixo afirmar que me parecia ser importante ter alguma serenidade e prudência nas reacções a um novo período de ensino não presencial. Referi a necessidade de não sobrevalorizar, mas não esquecer, as consequências negativas que inevitavelmente surgirão para alguns alunos.

Tal entendimento não releva da crença mágica de que “vai correr tudo”, “as escolas estão preparadas” ou dos discursos do Ministro da Educação.

Não, não vai correr tudo bem, já lá iremos, mas acredito que vai correr melhor do que no ano passado.

Em primeiro lugar, os professores e as escolas, vão colocar o empenho e esforço com que habitualmente trabalham e neste nova etapa têm um acervo de experiência e reflexão que permitirá minimizar o que no ano passado foi menos eficaz, melhor utilização dos dispositivos digitais e melhor adequação aos diferentes anos de escolaridade (idade) dos alunos na definição de trabalho síncrono e assíncrono, mais contenção e critério na definição e duração de actividades, maior atenção aos níveis de autonomia dos alunos o que poderá minimizar a dependência do apoio dos pais. Esta afirmação não esquece o que de muita qualidade foi realizado, mas recorda dimensões muito presentes no ensino de emergência que foi estruturado.

Um outro aspecto que me parece de considerar é a experiência também já adquirida pelos alunos e pelos pais que, conjugada com a dos docentes, permitirá que o seu trabalho seja mais adequado, envolvido e eficaz.

Do meu ponto de vista, também não é irrelevante o facto de, na actual circunstância, o horizonte temporal de encerramento ser, provavelmente, mais curto. Aliás, é imperioso que o seja salvaguardando, naturalmente, as questões de saúde pública.

Acresce que desta vez parece mais acautelado o apoio presencial a alunos mais vulneráveis, com necessidades especiais ou acompanhados pelas CPCJ bem como das equipas locais de intervenção precoce na infância.

Acima referi não esperar que tudo vá correr bem apesar de mostrar algum optimismo e confiança. O principal factor de risco continua a ser, do meu ponto de vista, o incumprimento do prometido, para Setembro, equipamentos informáticos e de acessibilidade para alunos, professores escolas.

Os que já chegaram ás escolas são manifestamente insuficientes apesar do esforço de algumas entidades como autarquias e particulares. A prometida tarifa social no acesso a banda larga está também por cumprir. Foi noticiada a assinatura de contratos de compra de equipamentos já no final de Dezembro e hoje no JN é noticiada autorização aprovada pelo Governo para a realização de despesa para a aquisição de computadores e ligação à net sendo que as aulas começam no dia 8.

Como é reconhecido, o efeito mais severo do ensino não presencial sobretudo nos alunos mais novos foi, justamente, o acentuar da falta de equidade, o acentuar dos efeitos das variáveis sociodemográficas colocando muitos alunos mais distantes da escola.

Também creio que deveria estar a ser preparado, eventualmente estará, mas as práticas anteriores são pouco animadoras, um plano de retorno ao ensino presencial, não que tenha de ter datas, mas de procedimentos, orientações no sentido de avaliação de efeitos e apoios dedicados à recuperação.

A proactividade, apesar da complexidade da situação, é mais amigável da qualidade que a reactividade embora saibamos, temos o exemplo de Março de 2020, que às vezes há que reagir e avançar. No entanto temos já experiência que deveria ajudar a regular o que actualmente vai acontecendo.

Creio que ainda estamos a tempo de apesar das dificuldades podermos levar a generalidade das crianças e jovens a porto seguro, assim saibamos e queiramos responder atempadamente e competentemente às suas necessidades.

O Ministro afirma que “Sabemos que necessariamente (esta geração de alunos) vão ter mais problemas de alergologia daqui a 20 anos. Porque vão ser muito mais obesos. Vamos ter problemas oncológicos, respiratórios, cardiovasculares, mentais. Não Senhor Ministro, tal não irá certamente acontecer, muito menos pelas razões que refere.

Se fizer o seu trabalho, com maiores ou menores dificuldades, como sempre e em todas as circunstâncias, escolas, professores, directores, técnicos auxiliares, pais e alunos farão o que lhes compete. Correrá sempre tudo bem? Não, estamos no universo da educação escolar e numa sociedade complexa e desigual.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

OS EQUÍVOCOS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

 

Estando perto o dia 8 em que se iniciará um novo período de ensino não presencial, são múltiplas as referências na imprensa a esta questão e em particular à maior ou menor preparação das escolas para esta nova etapa.

No DN de ontem estava mais um trabalho sobre esta matéria e, sem estranheza, voltou a ouvir directores e representantes de directores escolares entenderem que existem muitos problemas ou, pelo contrário, que as escolas estão preparadas. Aliás, desde Setembro já ouvi algumas dessas figuras assumir que as escolas estão preparadas para o ensino não presencial, mas também que as escolas vão ter muitas dificuldades pois não chegaram a alunos e professores os equipamentos prometidos, para Setembro, agora parece que será no final de Março, o parque informático de muitas escolas é obsoleto e o acesso à net faz-se por um banda muito estreitinha além de que a também prometida tarifa social no acesso à banda larga para alunos e famílias em situação de maior vulnerabilidade não passou da promessa.

Até aqui, nada de novo. A peça do DN ouviu as opiniões de alguns alunos e pais que revelam alguma inquietação.

Foi ouvida uma mãe que, cito o DN, “é mãe de uma criança sinalizada como necessitando de educação inclusiva”. Considera óptima escola que a filha frequenta, mas o ano passado a situação não correu muito bem porque, cito a mãe, “o apoio da educação inclusiva chegou muito mais tarde".

Mais à frente a peça revela que, cito o DN, “Mário Nogueira também está apreensivo com a situação dos alunos de educação inclusiva e dos alunos sinalizados.”

Sim, eu sei, não é possível generalizar qualquer reflexão a propósito destes dois exemplos.

De qualquer forma, do meu ponto de vista, não deixam de ser elucidativos dos equívocos gerados e alimentados pelo que vai acontecendo em diferentes escolas e agrupamentos e de tantos discursos que se ouvem ao abrigo de um guarda-chuva sem fim a que se vai chamando educação inclusiva.

Sim, também sei do muito bom trabalho que se realiza, mas algo não está bem e as sucessivas afirmações do contrário, por mais insistentes que sejam … não mudam a realidade.

Na história mais recente destas questões, o grande equívoco surge logo com o DL 54/2018 que estabelece o “Regime jurídico da educação inclusiva”, ou seja, no quadro legal existente à época para o sistema educativo enxerta-se um “regime jurídico” para uma parcela, área, dimensão, não sei o que lhe chamar, que será a educação inclusiva que continuará a ser percebida como “a “educação” de que alguns alunos precisam. O que é de natureza jurídica deveria ser remetido para os quadros jurídicos das matérias a que dizem respeito e o que não é jurídico deveria ser definido como orientações no âmbito de políticas educativas promotoras de equidade e qualidade na educação para todos os alunos.

A afirmação da mãe, relativa à educação inclusiva chegou tarde ou  a do/a jornalista que escreve sobre os alunos da educação inclusiva não se explicam por eventuais desconhecimentos de pessoas não especialistas, antes fosse.

Não, não queria mesmo, ter que falar disto, são já algumas décadas e já pesa algum desalento, mas talvez por isso mesmo, cá fica o desabafo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

DE CONSCIÊNCIA TRANQUILA

 Parece que não pára de crescer o conhecimento de situações de vacinação indevida sendo que já foi prometido um regime sancionatório e terão sido desencadeadas investigações por parte do Ministério Público.

O que é ainda mais inquietante é a tranquilidade com que, aparentemente, recebemos estas notícias, sustentando a ideia de que “já estávamos à espera” e … “é sempre assim”.

Diversas vezes aqui tenho referido a esta espécie de traço da nossa cultura cívica, "a atençãozinha" ou a sua variante "dar um jeito" em escala variada. Trata-se de um fenómeno, um comportamento, profundamente enraizado e com o qual parecemos ter uma relação ambivalente, uma retórica de condenação, uma pontinha de inveja dos dividendos que se conseguem e a tentação quotidiana de receber ou providenciar uma "atençãozinha" ou pedir ou dar um jeito, sempre "desinteressadamente", é claro.

A teia de interesses que ao longo de décadas se construiu envolvendo o poder político, a administração pública, central e autárquica, o poder económico, o poder cultural, a área da justiça e segurança, parte da comunicação social e toda a relação do dia a dia com a "atençãozinha" à recepcionista que nos passa para a frente na lista de espera ou ao funcionário de quem esperamos que possa dar um "jeito", dificulta seriamente qualquer alteração substantiva neste modo de funcionar.

Depois, da vacina para o amigo aos “negócios” de milhões, é só uma questão de escala.

Combater este cenário passará, naturalmente, por meios e legislação adequada, mas passa sobretudo pela formação cívica que promova uma outra cidadania

Do meu ponto de vista, e devido justamente à complexa teia de interesses instalada, mais do que não querer mexer seriamente na questão da corrupção, a questão é não poder e vejamos porque não se pode.

Nas últimas décadas, temos vindo a assistir à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos uma partidocracia instalada que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários ou próximos donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do estado.

A alteração desta teia sem fim que se estende a todos os domínios apesar das muitas e honrosas excepções de ética, seriedade e competência será uma tarefa gigantesca.

Como sempre nestas ocasiões e de acordo com o “script” clássico, veja-se as declarações de alguns dos envolvidos na cedência de vacinas a quem as não deveria receber, ouvimos que estão de “consciência tranquila” ou a variante "nada me pesa na consciência". Acredito que tal possa acontecer pois, para este pessoal, “consciência” não significa certamente o mesmo que para a maioria das pessoas.

Certamente que poderíamos viver sem a "atençãozinha" ou o "jeitinho", mas não era a mesma coisa.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

DIA 8 DE FEVEREIRO

 Sabemos ainda muito pouco sobre o que será o futuro próximo da educação escolar.

Sabemos que a 8 de Fevereiro regressará o ensino não presencial para a generalidade dos alunos. São conhecidas algumas excepções, havendo grupos de alunos que, por diferentes razões, terão apoio presencial.

Sabemos ainda que se registarão certamente muitas dificuldades decorrentes do não cumprimento da promessa de equipar alunos e escolas com os recursos necessários.

Sabemos que muita gente afirma que as escolas estão preparadas e muita outra gente que afirma que, em qualquer circunstância e mais uma vez, professores e escolas vão fazer o melhor possível, como habitualmente acontece e o primeiro confinamento mostrou.

Também sabemos hoje muito mais do que sabíamos sobre ensino à distância, bem diferente de ensino não presencial de emergência. Em termos nacionais e internacionais, sobretudo a partir do primeiro confinamento e da avaliação e investigação realizada, emergiu um volume de conhecimento que está disponível e que permitirá optimizar o esforço que certamente irá ser realizado e minimizar o que de menos positivo se verificou.

Também não sou um especialista desta área, estas décadas de trabalho em educação têm sido, sobretudo, direccionadas, para, por assim dizer e me manter próximo da terminologia, entender e procurar intervir no que leva tantas crianças a ficar distantes da escola.

Quando comecei, anos setenta, a distância era a mesmo a ausência, obviamente por razões diferentes das actuais, refiro-me, por exemplo, a crianças com necessidades especiais ou com insucesso escolar continuado que, ou não iam para a escola ou já não estavam a escola.

No entanto, muitas outras variáveis levavam muitas crianças, já na escola, a ficarem “distantes” da escola, variáveis sociais e de contexto, expectativas e atitudes decorrentes da percepção de competência dos alunos e da “bondade” da sua presença na escola,  efeito de politicas públicas desadequadas, falta de equipamentos e recursos, incluindo recursos humanos, falta de dispositivos de apoio competentes e suficientes, etc. etc.

Do meu ponto de vista e apesar de mudanças significativas, muito do que enunciei persiste e merece muita atenção pelo impacto que ainda tem no trajecto educativo dos alunos. Neste contexto, não será fácil o nos espera e o que espera os alunos.

Como disse, não sou especialista em ensino não presencial e como há quem saiba e existem professores, muitos professores com boas práticas e com a experiência adquirida no ano lectivo passado, julgo que a peça do Público sobre esta questão pode ser interessante e, mais do interessante, útil no processo de preparação em curso nas escolas.

(…) o Departamento de Educação do estado norte-americano do Illinois enviou às escolas em Março do ano passado para as ajudar na transição para o online. Com base em trabalhos de investigação anteriores, a publicação propõe um tempo “óptimo” para aulas remotas síncronas, consoante o nível de ensino. (…)

Não, não vai correr tudo bem, mas certamente vai correr melhor.

domingo, 31 de janeiro de 2021

OS SEMPRE EM PÉ

 Há muitos anos era frequente brincarmos com uma figuras coloridas muito cómicas que permaneciam sempre em pé. Empurrávamos, abanávamos, atirávamos as figuras das mais variadas formas e elas, desafiantes, persistentes e criativas continuavam sempre em pé.

Há já muito tempo que não me cruzo com brinquedos deste tipo. Já não são deste tempo em que os brinquedos, dizem, são bastante mais sofisticados e complexos.

No entanto, muitas vezes penso como existem miúdos e circunstâncias na vida de muitos miúdos que me recordam os sempre em pé. São miúdos que passam por circunstâncias de vida muito complicadas, são objecto de maus tratos e mal-querer de variadas naturezas e por parte de diferentes mãos, surpreendentemente mantêm-se de pé, sempre em pé, embora, tragicamente, alguns não aguentem e se afundem.

Quando com mais atenção escrutinamos essas circunstâncias de vida, por vezes inimagináveis de violência, mais perplexos ficamos com a enorme capacidade desses miúdos de após alguns tropeções, tal como os bonecos, continuar de pé. Chamam-lhes resilientes e nem sempre compreendemos como e donde lhes vem essa capacidade de permanecer sempre em pé.

É por isso que eu acho que os Sempre em pé são algo de extraordinariamente complexo e sofisticado, os brinquedos e os miúdos.

Os tempos que correm fazem apelo a todas as capacidades que os miúdos possam ter e têm para se manterem “sempre em pé”.

sábado, 30 de janeiro de 2021

SERENIDADE PRECISA-SE

 Na passagem de olhos diária pela imprensa e no que respeita ao futuro próximo da educação escolar algumas das referências que encontrei.

“Directores preocupados com alunos que não têm condições para estudar em casa”, Público.

Covid-19: Costa não acredita em aulas presenciais dentro de 15 dias, alternativa é ensino online”, Público.

Regresso do ensino à distância preocupa dirigentes escolares”, Público.

Paulo Oom: “Abaixo dos 12 anos seria possível manter as escolas abertas””, Público.

Portáteis têm de chegar até 25 de março - É a data limite de entrega pelos fornecedores dos 335 mil computadores em falta, a distribuir pelos alunos do ensino básico”, Expresso.

A polémica da interrupção das aulas: pais, público e privado respondem às mesmas 4 perguntas - eis o que os une e os separa”, Expresso.

Computadores prometidos pelo Governo para o ensino público encomendados oito meses depois - Aquisição dos equipamentos foi assinada em 31 de dezembro de 2020”, CM

Aulas online. "Os pais estão mais bem preparados, mas as dificuldades tecnológicas continuam" (Jorge Ascenção, dirigente da CONFAP), Obervador.

É inquietante o conjunto de dúvidas que toda a gente sente sobre o futuro próximo, a percepção das dificuldades causadas pelo óbvio não cumprimento da promessa de dotação de alunos e escolas com os equipamentos necessários para assegurar que ensino não presencial chegue a mais alunos embora, a questão da equidade esteja bem para lá ter disponíveis um portátil e acesso.

As políticas públicas, independentemente maior ou menor concordância que possam merecer de cada cidadão, devem promover, tanto quanto possível confiança no universo a que se destinam. Essa confiança, entre outros aspectos, depende da comunicação clara das medidas e da sua fundamentação, da transparência nos processos de tomada de decisão ou da percepção de competência e realismo dos seus responsáveis. Esssa comunicação deve, obrigatoriamente, ter em consideração os diferentes destinatários e acomodar o seu sua natural posicionamento e envolvivento  face a decisões, medidas ou impolicações.  

A situação no universo da educação é insustentável, enorme dificuldade na percepção de algumas decisões que solicitam esclarecimentos posteriores que mais dúvidas levantam, navegação à vista em matéria de planeamento (sim a situação é difícil, mas importa a existência de medidas e cenários que possam induzir alguma percepção  realista do rumo próximo), falhas sucessivas no cumprimento de medidas anunciadas, e, finalmente, mas não menos importante, uma liderança cujas intervenções quase sempre geram dúvidas, referem-se a uma realidade que não corresponde ao que se passa nas escolas, uma comunicação que ela própria gera um problema  de confiança.

Como é óbvio, o que escrevi serve para nada.

No entanto, não deixo de entender que seria imprescindível que os discursos e narrativas produzidos, quer individualmente, quer em termos institucionais, identificando problemas, necessidades, comentando boas ou más decisões, que são essenciais ao escrutínio das políticas públicas tivessem uma preocupação de serenidade.

A serenidade é um bem precioso, precisamos de proteger, também, a tranquilidade dos mais novos. No fundo, tudo, de melhor ou pior, vai sobrar para eles através dos pais e dos professores.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

A DESPENALIZAÇÃO DA MORTE MEDICAMENTE ASSISTIDA

 O Parlamento aprovou despenalização da morte medicamente assistida, também designada por “lei da eutanásia”, sendo desejável e adequado que fosse enunciada na primeira forma, trata-se de facto, de despenalizar a morte medicamente assistida.

A iniciativa teve 136 votos favoráveis e 78 votos contra. Os votos contra foram os do CDS e Chega, de 55 deputados do PSD e 8 do PS que definiram liberdade de voto e dos 10 deputados do PCP.

Em primeiro lugar nenhuma dúvida sobre a legitimidade de cada sentido de voto. As minhas considerações remetem para o argumentário utilizado como as primeiras reacções evidenciam.

Desde o início, a discussão sobre a problemática da morte assistida ou eutanásia, tal como aconteceu com a interrupção voluntária da gravidez, está, do meu ponto de vista, contaminada por um pecado original, os termos em que se enuncia a questão

Discute-se se somos contra ou a favor da eutanásia tal como se discutia se se era contra ou a favor do aborto. Os termos da discussão deveriam sempre ser colocados na posição contra ou a favor da descriminalização do processo de morte assistida em condições claramente definidas legalmente, reguladas e escrutinadas seriamente.

Da mesma forma e relativamente à IVG, a questão é entender se a mulher que dentro das condições estabelecidas e de forma regulada recorresse à interrupção voluntária da gravidez deveria ser criminalizada. Isto não tem nada a ver com “ser contra ou a favor do aborto”.

Com a aprovação desta lei não se abriu a anunciada “Caixa de Pandora”, não subiram os casos de IVG, antes pelo contrário, desceram e baixaram significativamente os problemas decorrentes deste processo existentes com a situação anterior, designadamente as graves ou fatais complicações de saúde das mulheres.

Também da despenalização da morte assistida não creio que venha o caos e o terror anunciados em múltiplas narrativas individuais ou institucionais, que destilam manipulação e hipocrisia e insultam a inteligência e a sensibilidade. Aliás, o líder da bancada do PCP “compreende” a questão, mas preocupa-se com a eventual “banalização”. A sério Sr. Deputado? Uma lei não é para ter consequências? O mau uso da lei não está regulado?

Como já escrevi, não sei o que será o meu entendimento pessoal se e quando estiver em circunstâncias críticas, imagino que quererei serenidade e dignidade.

Mas sei que não devo impedir ninguém de recorrer à morte assistida sem que daí decorra a imputação de um crime a alguém.

É uma decisão individual, que se aplica no âmbito dos direitos individuais e da dignidade, nunca de um grupo político, de uma religião ou de uma corporação profissional. Nenhum é dono da autodeterminação, autonomia, da cidadania num quadro extremo e irreversível de sofrimento e desespero.

António Gedeão afirmou na “Fala do Homem Nascido”, “Só quero o que me é devido por me trazerem aqui que eu nem sequer fui ouvido no acto de que nasci”.

Toda a gente nasceu sem ser ouvida e muita gente vive sem a dignidade que lhe é devida.

Talvez a gente pudesse ser ouvida no acto de que morrerá e ter no seu fim ou, pelo menos no seu fim, a dignidade que lhe é devida.

Não é simples, não é fácil, envolve outras pessoas e os seus valores, mas não vejo mesmo outro caminho. Importa, no entanto, aguardar pela decisão do Presidente da República.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

AS PALAVRAS QUE OFENDEM

 É só mais um exemplo e grave. O opinador Camilo Lourenço, um manhoso vendedor de agendas, escreveu num texto do Jornal de negócios que a Ministra da Saúde é “mesmo autista”. O Camilo não percebe e não vai perceber que “autista” não é um termo que se deva usar de ânimo leve e ignorante para apreciar comportamentos. Seria pedir demais ao escriba, também não iria perceber o quadro ético e de valores que inibe tal comportamento, manifestamente não saberia do que se estaria a falar.

A verdade é que de há algum tempo para cá entrou no léxico comum da cena política uma terminologia vinda da área da saúde mental com efeitos que ainda não foram avaliados. Alguns exemplos. É muito frequente a referência a estados de depressão, o país está deprimido, os mercados estão deprimidos, algumas regiões portuguesas são consideradas deprimidas, etc. Diz-se com todo o à vontade que certos comportamentos políticos podem ser suicidas, seja de pessoas ou de partidos. Inventaram um quadro de claustrofobia democrática, seja lá isso o que for. Não há opinador, amador ou profissional, que não se refira a autismo, autista ou esquizofrénico para adjectivar discursos e comportamentos políticos. Aliás, deve recordar-se que a Assembleia da República aprovou há tempos, sem grande resultado aparentemente, uma moção no sentido de se não utilizar tal terminologia nos debates parlamentares. Multiplicam-se as referências a pessoas que assumem compulsivamente estratégias de vitimização, a comportamentos obsessivos ou alucinados, etc. Abundam as análises que sublinham a grave baixa auto-estima dos portugueses.

Toda esta linguagem é usada como o maior à vontade.

Recordo que, creio que em 2016, a Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo do Douro entendeu por bem apresentar queixa pela utilização em duas novelas de referências ao autismo de forma depreciativa. No entanto, a Entidade Reguladora da Comunicação Social entendeu que o uso da palavra “autista” não é ofensivo. É elucidativo.

No final de 2015 a associação BIPP (Banco de Informação de Pais para Pais) – Inclusão para a Deficiência desencadeou uma campanha de sensibilização que visava inibir o uso de expressões como “deficiente mental” ou “atrasado mental” como insulto ou para censurar determinados comportamentos humanos. A campanha intitulava-se “Ser deficiente não é um insulto” e tinha como objectivo que o recurso a esta terminologia alimenta ou promove comportamentos de exclusão social dos cidadãos com deficiência.

Na verdade, para além das expressões citadas remetendo para o universo da deficiência, são também usados com demasiada regularidade termos próprios da área da saúde mental, esquizofrenia ou autismo, por exemplo, para adjectivar comportamentos e discursos em particular na vida política.

Dito de outra forma, a condição de deficiência, de doença mental ou de qualquer outra dimensão de vulnerabilidade é utilizada como insulto sendo que este comportamento é recorrente mesmo em pessoas com responsabilidade de natureza pública e social de relevo o que agrava o seu já inaceitável uso.

Sem querer assumir uma posição "politicamente correcta" este uso e abuso incomoda-me. Creio que ignora e ofende o sofrimento das pessoas e das famílias que lidam com quadros clínicos, de desenvolvimento ou de funcionalidade desta natureza. A decisão em tempos tomada pela Entidade Reguladora da Comunicação Social foi lamentável.

No entanto, este é apenas mais um exemplo das palavras que ofendem e que tão frequentemente ouvimos.