No DN encontra-se uma peça que justifica leitura e reflexão. Reflecte sobre a forma como muitas famílias olham para a prática desportiva dos filhos, designadamente o futebol.
Antes de mais, devo afirmar que
desde muito pequeno e até os joelhos aguentarem tive sempre uma enorme paixão
por jogar futebol que continuo a sentir agora apenas como espectador ou a
trocar umas bolas com os meus netos que, no entanto, estão mais virados para o
basquetebol qua praticam com muito gosto.
Na peça é referida e analisada a forma como
muitos pais se excedem na pressão que criam sobre o desempenho dos miúdos. Como
refere Jorge Silvério, “Muitas vezes o sonho é mais dos pais do que dos
próprios atletas” e “o futebol juvenil deixou há muito de ser apenas uma
atividade extracurricular. Tornou-se um projeto familiar — emocional e
financeiro”. A questão é que “Os estudos apontam que mais ou menos 1% dos
jovens consegue chegar a outras possibilidades no futebol. O que quer dizer que
é extremamente reduzido”, afirma. “Mas a ênfase é muito posta em lutar por esse
objetivo e falta depois acompanhamento quando esses atletas são dispensados.”
Neste contexto os riscos de
mal-estar e decepção são elevados e muitos jovens e famílias passam por
situações complicadas.
Importa, pois, alguma moderação
nas expectativas que se criam e alimentam.
Esta peça do DN recordou-me uma
situação a que assisti há já uns anos um parque e que aqui divulguei. Já naquela
altura sugeria o que agora se verifica de uma forma bem mais “dura”.
Actores principais - Pai e filho
com uns 6 ou 7 anos
Actores secundários - A mãe que
entre chamadas no telemóvel grita incentivos para o filho
Cenário - uma zona relvada com
dois pinos colocados de forma a simular uma baliza.
Assistentes discretos - o escriba
Guião - O pai ensina o filho a
dar pontapés numa bola de futebol em direcção à baliza dos pinos
Cena e diálogo (reconstruído a
partir de excertos ouvidos pelo escriba)
O pai apontando para uma zona do
pé do miúdo que tem botas de futebol calçadas - Já te disse que é com esta
parte do pé que tens de acertar na bola, vê se tomas atenção.
O miúdo em silêncio faz mais uma
tentativa que não sai muito bem, não acerta na baliza.
O pai - Assim não vale a pena,
não fazes como te digo, tens que estar concentrado, (aqui lembrei-me do Futre,
um homem concentradíssimo e, certamente por isso, um grande jogador).
O filho - Mas eu dei com esta
parte.
O pai - És parvo, se tivesses
dado com essa parte a bola tinha ido para a baliza. Faz outra vez.
O miúdo com um ar completamente
sofredor executa o que em futebolês se chama o gesto técnico e a bola
teimosamente voltou a não sair na direcção desejada.
O pai - Pareces burro, se queres
ser jogador de futebol, tens que te aplicar, (será que o miúdo quer mesmo ou
será o pai que quer viver um sonho que foi dele e que agora cobra no filho?).
O miúdo, desesperado, sentou-se
no chão com ar de quem espera o fim do jogo.
O pai, irritado, mandou a bola
para longe com um forte pontapé.
O escriba pensou que se o árbitro
tivesse visto, o pai merecia um cartão por comportamento incorrecto.