O JN divulga alguns dados do inquérito realizado pela Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (Andaep). A maioria defenderá a direcção pessoal ainda que 46,4% afirmem preferir a existência de um órgão colegial. A maioria não muito significativa, 54,5%, defende que a eleição da direcção não deverá ser realizada pelo Conselho Geral, mas envolver todos os docentes e funcionários, e representantes dos pais e dos alunos (no caso das escolas secundárias).
Muitas vezes aqui tenho abordado
a questão do modelo de governança de escolas e agrupamentos e retomo algumas
notas.
Em Dezembro, em reunião com os
directores escolares, o Ministro da Educação anunciou a criação do estatuto do
director e a revisão do regime de gestão e autonomia das escolas a acontecer
durante o ano em curso.
Enquanto aguardamos, existe uma questão
concreta verificada na situação actual que deveria ser alterada, a gestão do
limite de mandatos dos directores. Em Abril de 2025, numa peça do Público que aqui
comentei, afirmava que durante o ano cerca de 200 directores deveriam abandonar
a liderança das suas escolas ou agrupamentos por cumprir 16 anos na função,
quatro mandatos.
Existem muitas situações de
directores que desempenham a função há bem mais que os 16 anos. Por outro lado,
tal como noutros sectores, veja-se as candidaturas às autarquias, um director
que está obrigado a terminar o tempo de liderança numa escola ou agrupamento
pode candidatar-se a outro. Estava nessa situação, em trânsito, o professor
Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e
Escolas Públicas, que defende a ausência de limites de mandato e que, tendo
estado nos últimos 30 anos na gestão do Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos,
em Vila Nova de Gaia, foi eleito para a direcção do Agrupamento de Escolas D.
Pedro I, também em Gaia. É assim, nada de novo, as leis em Portugal são
basicamente indicativas, não imperativas. Não existindo o estatuto de director,
agora outra vez prometido pelo actual Ministro, o director será sempre
professor e, portanto, não é director, está como director. Provavelmente,
alguns já não saberão como ser professor.
São recorrentes a divulgação e o
conhecimento por parte de quem se move neste universo de inúmeras situações
negativas envolvendo a direcção de escolas e agrupamentos como, também devemos
registar e sublinhar também existem muitas situações que correm de forma
positiva dentro do que se pode esperar num universo tão complexo como a
educação.
Agora a questão de fundo, o
modelo de direcção de escolas e agrupamentos. O modelo de direcção unipessoal
das escolas e agrupamentos e a forma como é desempenhado volta com regularidade
à agenda incluindo o questionar do próprio modelo face a uma direcção colegial.
Têm existido estudos de opinião e tomadas de posição individuais ou manifestos
que alimentam a discussão ou mesmo a necessidade de alterar o modelo de
direcção. É o caso do inquérito aos directores agora divulgado.
Como já tenho afirmado a
propósito de outras matérias, talvez fruto do ambiente de fortíssima tensão que
nos últimos anos envolve a educação, os debates e as ideias também tendem a ser
crispados, com opiniões definitivas e sem margem de entendimento e, frequentemente,
com agendas menos explícitas. O modelo de gestão das escolas será apenas mais
um exemplo deste cenário.
Com o atrevimento de quem não
vive por dentro o quotidiano das escolas, mas que nas últimas décadas tem, como
profissional e como cidadão, acompanhado de forma atenta o universo da
educação, recupero algumas reflexões que já aqui deixei e que continuam actuais.
Levo também em conta a experiência de alguns anos de presença como elemento da
comunidade nos Conselhos Gerais de dois agrupamentos da zona onde vivo.
Conforme tenho dito, sempre me
pareceu claro que a transformação da direcção de escolas e agrupamentos num
modelo unipessoal e a sua forma de eleição através dos conselhos gerais,
acompanhada por uma política de mega-agrupamentos diminuindo substancialmente o
número de unidades orgânicas, gosto desta designação, se inscreveu na sempre
presente tentação de controlo político do sistema. A experiência tem vindo a
evidenciar essa situação.
São conhecidos casos, alguns
chegam à imprensa, de processos de eleição de direcções escolares que mais não
são do que formas de colocar pessoas com o alinhamento certo na função. Aliás,
o próprio funcionamento dos Conselhos Gerais é, em algumas situações, um
exemplo disto mesmo. Assim sendo, o modelo de gestão unipessoal e a forma de
eleição dos directores não são garantias de “mais democracia” ou “melhor
democracia” nas escolas.
Dado um pecado estrutural do
nosso sistema educativo, a ausência ao longo de décadas de dispositivos
eficientes de regulação, coexistem boas experiências e práticas em situações de
direcção unipessoal com situações bem negativas.
Por outro lado, importa recordar
que, em muitas circunstâncias, também a “gestão democrática", de
democrática não tinha assim tanto e também se verificavam casos gritantes de
menor competência.
Dito isto, parece-me que tanto
quanto ou mais do que o modelo de direcção, unipessoal ou colegial, julgo de
reflectir a forma de eleição, participam todos os docentes ou um pequeno grupo
que “representa” o corpo docente no conselho geral, o mesmo se passando com os
funcionários. É ainda de considerar a forma de participação de pais e
autarquias no processo de eleição bem como de elementos da comunidade.
Por outro lado, também me parece
que deve existir um claro reforço do papel dos Conselhos Pedagógicos no
funcionamento de escolas e agrupamentos. Parece-me também clara a vantagem da
presidência do Pedagógico ser claramente independente da direcção da escola,
sobretudo num modelo de direcção unipessoal.
Importa também que a reflexão
sobre os modelos de governança e de eleição das direcções de escolas e agrupamentos seja acompanhada de uma verdadeira
reflexão sobre o quadro de autonomia nas suas várias dimensões e equilíbrios.
Qual o efeito da municipalização ou “proximidade”, como também lhe chamam, na
autonomia e funcionamento de escolas e agrupamentos e, mesmo na sua gestão.
É claro que quanto mais sólido
for o modelo de autonomia das escolas mais importante se torna o papel e função
da direcção, independentemente do modelo de direcção, individual ou colegial, e de eleição, Conselho Geral ou com a participação de toda a comunidade e reperesentantes de pais e alunos no caso das secundárias. Esta é do meu ponto de vista a
questão central.