No Público, há já alguns dias, encontra-se uma peça que merece reflexão. São divulgadas diversas iniciativas em comunidades diferentes no sentido de promover o brincar na rua. São excelentes exemplos do que pode ser feito, “o homem sonha, a obra nasce”.
Tenho de me repetir, muitas vezes
aqui tenho abordado a necessidade públicas de educação, do ambiente, do
urbanismo e habitação, etc., que sejam amigáveis da qualidade de vida das
comunidades e das crianças em particular.
É necessário que nas zonas
urbanas fossem criados espaços seguros para as crianças brincarem no exterior
considerando a importância que que terá para o seu bem-estar e desenvolvimento.
Lembro sempre o trabalho incansável do Professor Carlos Neto, com quem muitas
vezes me cruzei, na defesa do brincar na rua.
Continuo a insistir na ideia de
que brincar é a actividade mais séria que as crianças realizam, nela põem tudo
quanto são e constroem a base de tudo o que virão a ser. Para que o brincar na
rua seja possível e seguro exige-se que as políticas públicas tornem os espaços
urbanos mais amigáveis para os mais novos. Em muitos países e também por cá,
felizmente começam a surgir iniciativas nesse sentido.
Com as alterações nos estilos de
vida e as opções em matéria de organização do trabalho, muitas crianças têm a
vida preenchida por um tempo significativo de estadia na escola (até lhe chamam
Escola a Tempo Inteiro) e muitos pais recorrem ainda ao envolvimento dos filhos
em múltiplas actividades transformando-as numa espécie de crianças-agenda.
Todas estas actividades, a oferta é variadíssima, são percebidas como
imprescindíveis à excelência, aliás, muitas crianças são educadas
(pressionadas) para a excelência. Promovem níveis "fantásticos" de
desenvolvimento intelectual e da linguagem, desenvolvimento motor, maturidade
emocional, criatividade, interacção social, autonomia e certamente de mais
alguns aspectos que agora não recordo. Assim, as crianças e adolescentes estão
sempre envolvidos em qualquer actividade, a quase todas as horas pois delas se
espera não menos que a excelência.
Nada disto esquece a importância
que, de facto, podem ter algumas actividades, mas apenas sublinhar alguns
riscos no excesso.
Os pais, alguns pais, seduzidos
pela sofisticação desta oferta, pressionados por estilos de vida que não
conseguem ou podem ajustar e com a culpa que carregam pela falta de tempo para
os filhos e sem vislumbrar alternativas aceitam que os trabalhos dos miúdos se
desenvolvam para além do que seria desejável, eu diria saudável.
Somos dos países da Europa em que
adultos e crianças menos desenvolvem actividades no exterior contrariamente,
por exemplo ao que se verifica nos países nórdicos. É verdade que esses países
têm habitualmente climas bastante mais amenos que o nosso, mas, ainda assim,
poderíamos ter durante mais tempo crianças e adultos a realizar actividades no
exterior. Por princípio e sempre que possível, a área curricular Estudo do
Meio, mas não só, poderia ser também Estudo no Meio.
Muitas experiências, incluindo em
Portugal, sugerem múltiplos benefícios para as crianças, desenvolvem maior
autonomia, maior consciência ambiental e competências em dimensões como
bem-estar emocional, a partilha de emoções, a autoconfiança, auto-regulação, a
criatividade ou o pensamento crítico para além, naturalmente dos benefícios
mais directamente associados a qualquer actividade.
Embora consciente das questões
como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível
alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua, ter
mais algum tempo as crianças fora das paredes de uma casa, escola, centro
comercial, automóvel ou ecrã promovendo, por exemplo, níveis de literacia
motora frequentemente aquém do desejável.
Como tantas vezes afirmo e
escrevo, também neste espaço, o eixo central da acção educativa, escolar ou
familiar, é a autonomia, a auto-regulação, a capacidade e a competência para
“tomar conta de si” como fala Almada Negreiros. O brincar, o brincar na rua, a
abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente, os desafios, os limites, as
experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento, de literacia
motora também, e promoção dessa autonomia.
Importa sublinhar a necessidade
de controlar um eventual perigo que, ainda assim, é diferente do risco, as
crianças também “aprendem” a lidar com o risco.
Talvez, devagarinho e com os
perigos e riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo
que por pouco tempo e não todos os dias.
É, pois, importante que todos os
que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de
orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam como “guide line”
para a sua intervenção a promoção do brincar. E a actividade de brincar na
infância não se esgota, longe disso, numa disciplina curricular.
Os mais novos vão gostar e faz-lhes bem.