domingo, 29 de março de 2020

DO MESTRE COIMBRA DE MATOS


Nestes tempos de chumbo em que, estranhamente, o isolamento é que nos protege parece-me interessante a entrevista a Coimbra de Matos divulgada há dias no Sapo24.
O Professor Coimbra de Matos é uma das raras pessoas a quem, literalmente, desde sempre e até hoje tenho tratado por Mestre. É sempre um desafio cruzarmo-nos, a vivacidade, a inquietação e a sabedoria são uma inspiração.

sábado, 28 de março de 2020

DOS PLANOS DE ENSINO À DISTÂNCIA

Ainda que não esteja formalmente decidido mas certamente acontecerá, o terceiro período deverá decorrer nos moldes em que tem estado funcionar nestes dias. Apesar de todas as dificuldades emergentes não teremos alternativas imediatas e eficazes o que solicita que com realismo encaremos os constrangimentos identificados.
Existe já o Roteiro - 8 Princípios Orientadores para a Implementação do Ensino a Distância (E@D) que orientará as escolas para construção do seu Plano de Ensino à Distância.
Eu e muitas outras pessoas e entidades temos procurado alertar para a situação de particular vulnerabilidade de alguns milhares de alunos que por diversas razões, falta de recursos e constrangimento de acessibilidades à rede, competências digitais nos contextos familiares, níveis de escolaridade das famílias, circunstâncias de vida e disponibilidade em muitos agregados (apenas um dos pais em casa, teletrabalho, número de crianças e idades, alunos com necessidades especiais, entre outros aspectos).
Sabemos que com demasiada frequência os mais vulneráveis são os que mais são atingidos pelas dificuldades. Estamos também a falar num plano dos direitos como aliás a impensa de hoje refere e que só a escola pública pode assegurar.
Face a esta questão o Roteiro estabelece no ponto 1.3. “Mobilizar parceiros disponíveis para colaborar”.
A articulação com a edilidade e/ou com outros parceiros, por exemplo, as Juntas de Freguesia, as Bibliotecas, as Associações de Pais, as Associações de Solidariedade Social, os Bombeiros, os mediadores do Programa Escolhas, os mediadores de ONG, as organizações da Economia Social, entre outros, podem ser uma forma para chegar a todas as crianças e a todos os alunos.
Esta dimensão assume principal relevância para os alunos com problemas de conectividade e infraestrutura e/ou menor acompanhamento familiar.
Talvez tenha lido apressadamente, mas não encontrei referência explícita às dificuldades envolvendo as necessidades especiais de muitos alunos. Não estranho, mas registo.
Neste Roteiro sublinho a atribuição de uma enorme autonomia às escolas responsabilizando-as pelo desenvolvimento de Planos de Ensino à Distância face a orientações, metodologias e recursos que, gostava de estar errado, boa parte das nas nossas comunidades escolares terão dificuldade de aceder e operacionalizar em tão pouco tempo apesar do esforço, motivação de escolas e professores e do que muito de positivo já está em funcionamento.
De repente, chegou a autonomia às escolas, mas acho que em modo “desenrasquem-se”.
Já me cansa sentir estar a fazer este tipo de discursos, serei certamente eu que estarei errado quando parte do que leio me parece ser um “pensamento mágico” que não cola com a realidade. A realidade não é a projecção dos meus desejos. Os tempos são duros e os constrangimentos gigantescos para pessoas e entidades limitando a sua capacidade de resposta. Desde logo importa reconhecer isto. 
Como muitas vezes tenho dito não me quero sentir o Waldorf ou o Statler, os velhos dos Marretas que estão sempre na crítica. Não tenho a idade do miúdo que diz “o Rei vai nu”, mas também não sou tão velho como o do Restelo. Não seria, aliás, justo que assim fosse, pois, há também muito bom trabalho em desenvolvimento e muita gente faz diariamente um enorme esforço para minimizar dificuldades.
Acresce que, lamentavelmente, também não sou capaz de apresentar soluções infalíveis. Acredito que teremos de as procurar com pouco tempo e sem os recursos que desejaríamos. Mas nesta conjuntura o ME não pode ficar como aparenta, "distante".

sexta-feira, 27 de março de 2020

DO TEATRO


Li algures que hoje se assinala o Dia Mundial do Teatro. Acontece num época estranha e trágica em que por muitas paragens os teatros estão encerrados.
Recordo de novo uma afirmação muito bonita de Luís Miguel Cintra, um enorme Homem do Teatro, no discurso de aceitação do Prémio Pessoa de 2005. Escolheu o teatro "para continuar a fazer em adulto aquilo que fazemos em crianças, para continuar a brincar contra toda a solidão".
Nestes tempos de confinamento e apesar dos avanços tecnológicos de que felizmente dispomos, muita gente estará mais só e outra gente mais isolada.
Às famílias, sobretudo, com crianças, é solicitada uma multiplicidade de papéis que a encenação não previu e que tentamos desempenhar com as ferramentas que possuímos e aprendendo cada dia a melhor forma de criar ou recriar cada papel, todos bem exigentes e para todos os protagonistas.
Não teremos os aplausos ou os assobios no fim desta peça, mas espero e desejo que tenhamos tentado e conseguido “brincar contra toda a solidão”.

quinta-feira, 26 de março de 2020

EDUCAÇÃO E ENSINO À DISTÂNCIA, ATÉ ONDE VAI A INCLUSÃO?


O Paulo Guinote na sua colaboração com o “educare.pt” trata hoje uma questão que nestes últimos dias também aqui tenho abordado, os constrangimentos que muitas famílias terão no que respeita a recursos, acessibilidade e literacia digital o que, evidentemente, compromete o trabalho de alunos e professores neste cenário de “educação à distância”.
Parece claro que a situação actual se manterá provavelmente até final do ano lectivo sendo desejável que pensássemos todos como poderíamos “mitigar” tais circunstâncias.
Este grupo alargado de famílias e alunos e também a situação de alunos com necessidades especiais solicita a reconfiguração para este cenário da questão da educação inclusiva. A "escola à distância" não pode aumentar a distância para a escola como há dias escrevi.
A sua particular situação de vulnerabilidade não será resolvida decretando a criação de “escolas inclusivas de segunda geração à distância”. É necessário que consigamos em tempo útil optimizar dispositivos de suporte e os recursos disponíveis e necessários, de uma forma real, sem pensamento mágico. A primeira etapa é reconhecer os problemas e não olhar para eles “à distância”.

quarta-feira, 25 de março de 2020

SIM, É NECESSÁRIO AVALIAR, MAS AVALIAR O QUÊ?


Como tem sido amplamente referido e sentido o universo da educação, familiar e escolar, enfrenta desafios gigantescos.
As escolas, os professores, estão a desenvolver um esforço enorme no sentido de minimizar os efeitos do encerramento das escolas, da estadia dos alunos e de muitos pais recorrendo predominantemente aos dispositivos de natureza digital.
A situação é muito complexa e desigualdades reconhecidas nos recursos digitais e nos níveis de literacia das famílias, capacidade e acessibilidade das redes em muitos locais, disponibilidade das famílias que também têm que assegurar vida profissional, seja em teletrabalho, seja nos espaços habituais, estabelecem um quadro inquietante. Acresce a ameaça ao bem-estar psicológico que decorre das dificuldades emergentes de diferente natureza incluindo económicas ou a existência de necessidades específicas em muitos alunos.
Parece seguro que a recuperação de alguma normalidade estará certamente afastada no tempo, o terceiro período será vivido neste cenário.
Ninguém têm as respostas e os recursos necessários, eventualmente até seria difícil definir com algum rigor e confiança quais as respostas, quais os recursos e como disponibilizá-los em tempo útil.
Teremos agora uns dias para reflexão, chamar-lhes férias da Páscoa soa a estranho, mas não é fácil introduzir mudanças com impacto rápido.
Uma das questões que mais recorrentemente é referida prende-se com a avaliação dos alunos, como e quando realizá-la. Creio que a questão da avaliação é, de facto, muito importante, sendo que o seu impacto varia com os anos de escolaridade e natureza da avaliação, interna, externa, provas de aferição ou exames nacionais, sobretudo no secundário devido ao peso que assumem no acesso ao ensino superior.
Sendo certo que a avaliação é uma ferramenta imprescindível nos processos educativos vejo menos reflectido o outro lado da avaliação, a aprendizagem.
Que competências e saberes decorrentes dos conteúdos curriculares estão a ser adquiridas em função das circunstâncias que acima referi, uma enorme diversidade nos contextos familiares, nos recursos e competências disponíveis, a diversidade do trabalho realizado por escolas e professores em situações múltiplas na natureza, actividades, meios utilizados, duração, dispositivos de apoio, etc.
Sim, é necessário avaliar, mas avaliar o quê? Avaliar o que avaliaríamos num cenário de ”normalidade” adaptando os dispositivos e suporte?  Como regular e promover equidade no acesso ao que será objecto da avaliação.
E certamente também teremos de ir avaliando o que tem sido feito para sustentar melhor o que temos de fazer.
Creio que como a generalidade das pessoas, não tenho certezas, são muitas as dúvidas, são de mais.
É isso que me inquieta.

terça-feira, 24 de março de 2020

OS NOVOS TEMPOS NO ENSINO E NA APRENDIZAGEM


A minha experiência no ensino com o apoio de ferramentas digitais, desculpem lá mas não gosto da expressão “à distância”, distância não rima com ensino e aprendizagem, tem sido fundamentalmente com grupos pequenos, seminários, conferências, reuniões ou trabalho de orientação e considero que são ferramentas extremamente potentes com grande capacidade apoio e versatilidade.
Por estes dias e por razões óbvias utilizei uma plataforma para uma aula com grupos maiores. Tem sido uma experiência interessante e creio poder dizer que está a correr bem e, obviamente, é a única forma de manter a vida académica em funcionamento ainda que num novo normal.
No entanto, tenho-me lembrado de uma expressão que há muitos anos atrás, princípio dos anos 80, um colega e amigo sueco me dizia num seminário em que ambos participávamos, em que se abordava emergência da entrada das novas tecnologias, naquela altura eram de facto novas hoje nem tanto, no universo do ensino e da aprendizagem.
Dizia-me o colega que iria tornar-se comum o recurso a estas tecnologias com imensas potencialidade e capacidade de suporte a problemáticas específicas de muitos alunos, mas … numa sala de aula, aquilo a que chamamos e continuaremos a chamar sala de aula mesmo em espaços que habitualmente não consideramos sala de aula, o corpo e a voz do professor em proximidade serão sempre o melhor meio audiovisual.
Mas isto é conversa de velho, obviamente.,

segunda-feira, 23 de março de 2020

MUNDO VELHO, MUNDO NOVO


Por mais que desejemos não encontramos algo de seguro que nos diga como, quando e com que preço este tempo irá acabar.
Na mesma linha do que eu próprio gosto e quero acreditar, talvez deste pesadelo pudessem emergir outras ideias e visões reconfiguradas para o mundo em continuaremos a viver e para as quais muita gente vai dando contributos.
Desde logo que, com base no que nos caiu em cima se instalasse a dúvida e o desejo de mudança. Queremos apenas o antes? Tal e qual?
Ou será que precisamos de reconfigurar valores, crenças, expectativas, atitudes, comportamentos, melhor e mais aberta regulação dos modelos e competência das lideranças, etc.
Será que os estilos de vida e prioridades que estabelecíamos, individualmente ou enquanto comunidade se manterão?
Será que o mundo do trabalho se reorganizará como antes? Ou caminharemos numa maior diferenciação dos modelos de organização, dos tempos e dos espaços do trabalho?
E no universo da educação familiar e escolar o que poderá ou quereremos tentar alterar face à experiência que passamos agora e ao que eram os dias do tempo antes? Terá sentido em educação escolar falar de virtual vs presencial ou de distância vs proximidade ou ainda de ... vs ...? Diferenciação não será um novo "normal"  e não uma medida?
Assumo para comigo próprio um dever de optimismo, tenho netos pequenos, mas …  temo que passado o choque e a experiência  possa ficar o mundo velho apesar das experiências novas.
Como diz o Mestre Marrafa, deixem lá ver.

domingo, 22 de março de 2020

UMA HISTÓRIA COM POETA DENTRO


Porque ontem, de acordo com o calendário das consciências, passou o Dia Mundial da Poesia e porque o mundo e nós estamos a precisar de um olhar, uma história com poeta dentro. Aliás e antes da história, é curioso que 21 de Março, para além de assinalar o início da Primavera, assinala ainda o Dia Mundial da Árvore e da Floresta, o Dia Mundial da Infância, o Dia Internacional da Síndrome de Down, o Dia internacional para a Eliminação da Discriminação Racial e também o Dia Mundial da Marioneta, tudo motivos para um outro olhar.
Um dia destes estava o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, a arrumar umas obras que tinham oferecido à escola, quando entrou o Tiago.
Olá Tiago, estás bem?
Estou, Velho. Estamos no intervalo e calhou entrar. Olha lá, os poetas são os escritores que escrevem versos como os que estão no livro, não é, Velho?
Sim, os poetas escrevem poesia a que tu estás a chamar versos, porquê?
A Professora agora na aula, depois da ficha do livro, disse para a gente escrever só três ou quatro linhas sobre o que gostávamos de ver acontecer. Eu escrevi isto, não podia escrever mais, lê lá.
"Eu gostava que deixasse de haver guerras muitas pessoas muito pobres. Também gostava que as pessoas tivessem empregos porque é mau não ter emprego como o meu tio e a minha tia. Gostava que os pais tivessem mais tempo para brincar com os filhos e que a escola não fosse o dia todo inteiro. Gostava que a Joana gostasse de mim, eu gosto dela, mas acho que ela não gosta de mim."
Está engraçado. Mas não percebo a tua dúvida.
A professora leu alto para a turma toda o que escrevi e depois disse, "Este Tiago é um poeta". Mas isto não tem versos, pois não?
Eu acho que entendo, vamos lá a ver se te explico.
Agora não, Velho Vai a Joana a passar ali, vou atrás dela, eu gosto mesmo dela.
É por isso que és um poeta Tiago. Ainda gritou o Professor Velho.

sábado, 21 de março de 2020

O NOBEL DA EDUCAÇÃO


Hoje não falo do “bicho” como lhe chama o meu neto Simão.
Ao que leio na imprensa, a professora Cristina Simões, da área da educação especial, em Tondela está no grupo de finalistas do Global Teacher Prize mundial, iniciativa que parece ser considerada algo como o Nobel da Educação. O resultado do escrutínio será em Outubro
Uma saudação à professora Cristina Simões pelo reconhecimento do seu trabalho sublinhando o facto dele se desenvolver como refere Cristina Simões com alunos com “necessidades acrescidas”. É sabido que foi decretado o fim da terminologia “necessidades especiais”.
Como já referi o ano passado entendo que este tipo de iniciativas pode ter algum significado sobretudo como valor simbólico da necessária valorização e reconhecimento social e alargado do trabalho dos professores num tempo em que tal reconhecimento e valorização nem sempre são sólidos e expressos, antes pelo contrário. No entanto, não acredito muito na ideia do melhor Professor de … 
Algumas notas.
A esmagadora maioria dos professores é competente e empenhada nesse trabalho, procurando desenvolvê-lo com qualidade, rigor e eficácia, sem facilitismos, contrariamente ao que tantas vezes se afirma de forma ignorante. Todos os dias, em todas as escolas muitos professores fazem trabalhos de notável qualidade que mais frequentemente apenas são valorizados e conhecidos … pelos seus alunos, todos os alunos.
É verdade, tinha que falar no “bicho”, neste momento as escolas estão do avesso e alunos, professores e pais enfrentam desafios gigantescos inesperados e para os quais ninguém consegue estar preparado e tranquilo embora o empenho, a competência e o esforço de todos possam minimizar danos. Esperemos que assim seja.
Voltando ao trabalho dos professores, quando qualquer de nós faz um esforço para recuperar lembranças positivas sobre os professores, poucos ou muitos, com que nos cruzámos durante o nosso trajecto escolar, creio que quase todos nos lembramos de professores que continuam na nossa lembrança não só pelos saberes escolares que nos ajudaram a adquirir mas, sobretudo, por aquilo que representaram e foram para nós, ou seja, pela forma como nos marcaram. Cada um desses professores é, certamente, o melhor professor que conhecemos.
Por isso, cada vez mais estou convicto de que os professores, tanto quanto ensinar o que sabem, ensinam o que são, ou seja, existem muitos que nos ensinam saberes, o que é bom e indispensável, mas nem todos permanecem com a gente.
Parece-me sempre oportuno mas nestes tempos mais que nunca acentuar a importância desta dimensão mais ética e afectiva do ensino. Deve ser valorizada e promovida para que os miúdos possam, posteriormente, falar dos professores que os marcaram e que, por essa razão, continuaram com eles.
Para complementar e em tempos tão pesados acrescentar alguma “viagem” permitam-me recuperar uma história que já aqui coloquei, a história do Mestre Teixeira, o mestre de Fusíveis.
O Mestre Teixeira foi há muitos anos professor de uma escola que havia naquele tempo que se destinava mais a ensinar o saber-fazer do que o saber-saber. Chamavam-lhes escolas técnicas, umas mais dirigidas para a indústria, as industriais, outras mais dirigidas para os serviços, as comerciais.
O Mestre Teixeira era professor numa escola industrial e era especialista nas coisas da electricidade, sabia tudo sobre esse mundo e tinha, isso é que o fazia ser como era, uma paixão enorme por aquelas coisas. Algumas pessoas, o Mestre Teixeira era uma delas, gostam que toda a gente goste das coisas que os apaixonam e era a partir dessa paixão que ele se relacionava com os alunos.
Mas a grande virtude do Mestre Teixeira era a sua capacidade para entender os alunos, ler os alunos, como eu costumo dizer. Tinha uma capacidade notável de perceber o que se passavam com os adolescentes, o que os levava aos comportamentos ou às dificuldades que evidenciavam. Era quando ele falava qualquer coisa como "tens algum fusível a precisar de ser visto ou a queimar".
Tinha então a sabedoria para perceber o que se passava e "arranjar" os fusíveis que não estavam em boas condições. Tal sabedoria e atenção e proximidade faziam dele um daqueles professores que nos marcam, ensinam o que são, mais do que o que sabem, mesmo quando sabem muito, como era o caso do Mestre Teixeira.
Por isso toda a gente lhe chamava O Mestre de Fusíveis. Hoje, mais do que nunca, fazem falta os Mestres de Fusíveis. Como a professora Cristina Simões certamente será.

sexta-feira, 20 de março de 2020

DA ESCOLA À DISTÂNCIA À DISTÂNCIA PARA A ESCOLA


Como já escrevi, comentei em alguma colaboração com a imprensa e todos sentimos, a situação que vivemos, é inédita na sua dimensão e impacto, coloca desafios de enorme complexidade em múltiplas áreas do funcionamento das comunidades.
Deixem-me voltar ao universo da educação e da escola. Os alunos, da creche e educação pré-escolar ao superior estão em casa bem como parte significativa dos pais e não existe manual de instruções para lidar com uma experiência com estas características.
A situação, só por si, gera um quadro complexo envolvendo variáveis como dimensão do agregado, idades dos mais novos, tipologia dos espaços de habitação, necessidades de trabalho dos pais, etc.
Neste quadro emergem questões de natureza mais psicológica, stresse, ansiedade, relacionamento interpessoal, risco de conflitualidade, etc., embora também possamos acreditar no reforço da qualidade da relação, dos níveis de comunicação e partilha, etc.
Emergem questões de natureza funcional, o que fazer, para conciliar tempo de trabalho dos pais com actividades dos filhos cuja autonomia diminui significativamente com a idade sendo crucial a definição de rotinas que sendo naturalmente flexíveis podem ser bons contributos e organizadores dos dias compridos que temos pela frente.
Uma nota final relativa às questões relacionadas com a escola, ou melhor, sobre as actividades de natureza escolar desenvolvidas em casa.
Ao que vamos conhecendo diariamente as escolas e os professores estão a desenvolver um esforço muito significativo e também em construção de estabelecimento de canais de comunicação, orientação e disponibilização de actividades utilizando diferentes recursos de natureza digital.
Não poderia ser de outra forma dada o contexto, um grave problema de saúde pública.
No entanto, sem que queira tornar mais complexa a situação talvez seja de considerar alguns aspectos.
Os recursos digitais que boa parte das famílias dispõem ou a qualidade do acesso à net pode ser insuficiente para as solicitações. O nível de literacia digital de muitas famílias e mesmo de muitos alunos pode criar algumas dificuldades, ser perito em redes sociais, jogos ou outras aplicações, não é o mesmo que ser um utilizador eficiente das plataformas de apoio ao ensino e à aprendizagem considerando ainda a multiplicidade da oferta. Aliás, surgem na imprensa referências relativas a esta questão, sobretudo às dificuldades dos pais.
Nesta perspectiva coloca-se uma questão de equidade nas oportunidades que, sobretudo numa perspectiva de utilização prolongada como é expectável, e apesar do efeito de aprendizagem que naturalmente ocorrerá pode correr o risco de aumentar a distância face à escola.

quinta-feira, 19 de março de 2020

QUANDO O BICHO SE FOR EMBORA


A situação inédita e perturbadora que vivemos tem trazido fortíssimas implicações de que apenas conhecemos o início.
Esta imprevisibilidade é só por si fonte de inquietação, como vai ser? Até quando?
Talvez com mais tempo disponível possamos construir imagens de futuro que nos inspirem para um outro tempo que há-de vir.
Em termos pessoais este confinamento envolve a distância física dos meus netos, do neto Grande, o Simão com os seus 6 anos, e do neto Pequeno, o Tomás com 3, bem como dos pais João e Rita
Temos os dispositivos que nos põem frequentemente à vista, mas como sabem, estar à vista não é estar próximo por mais próximo que nos quisermos sentir.
Num destes encontros à distância o meu neto Grande, o Simão, desenhou uma imagem criadora de futuro que nos obriga a chegar lá.
“Avó, quando o bicho se for embora, vamos todos para Odeceixe”
Está combinado e prometido, Simão, lá estaremos. Palavra de Avós.

quarta-feira, 18 de março de 2020

DA ESCOLA REAL À ESCOLA VIRTUAL


Estamos a passar por tempos estranhos. Sabemos que como Camões eternizou. “Todo o mundo é composto de mudança tomando sempre novas qualidades”.
Por agora é demais a incerteza, a inquietação, a dificuldade de perceber um rumo, a perplexidade.
No universo da educação e da escola temos tido tempos com discursos sobre a escola que em boa parte são virtuais.
No universo da educação e da escola temos conhecido políticas públicas que apesar da intenção  de promover a mudança, parte dos seus efeitos positivos afirmados são virtuais apesar do que de bom também acontece.
No universo da educação e da escola temos representações e expectativas sobre a educação e sobre a escola que em parte são virtuais.
No universo da educação e da escola temos discursos sobre os professores e o seu trabalho que também em parte são virtuais.
De repente temos agora uma escola que é virtual.
Não sei quando voltaremos à escola real, lá onde ela existe mesmo que em diferentes espaços e modos. Até lá e como sempre, alunos, professores e pais tentarão fazer um trabalho real de enormes dificuldades e sem manual de instruções, as variáveis envolvidas são múltiplas e de natureza complexa.
E depois, bom, e depois voltarão certamente os discursos sobre a educação e as escolas reais.

terça-feira, 17 de março de 2020

UM DIA FELIZ


De manhã, quando saiu de casa sentia-se a pessoa mais realizada do mundo, ia ao banco tratar de liquidar o crédito contratado para adquirir o andar. Vai ser um alívio para o orçamento familiar. Já no banco, ao proceder ao acerto de contas percebeu que ainda podia pagar o que faltava do empréstimo para a compra do carro. Ainda mais feliz ficou. Sem estar a pagar a casa e o carro, o orçamento ficava mais folgado.
À saída já imaginava que, finalmente, poderia ir com a mulher e o filho fazer aquelas férias no Brasil com que sempre sonhou. Pensou também que quando chegasse a casa ainda veria com a mulher se não era possível comprar uma televisão grande, um plasma, igual ao do cunhado, que é muito bom para ver os filmes e os jogos de futebol.
Vinha a entrar em casa e já imaginava os olhos contentes do gaiato, quando lhe dissesse que quando chegasse o Natal talvez pudessem comprar um computador novo, porque o outro parece que está muito lento. Vinha no elevador e assobiava de contente. Era o dia mais perfeito dos últimos anos, quase tão perfeito como o do seu casamento. Enquanto abria a porta a felicidade deu-lhe para dançar. No meio do balanço do corpo começou a sentir algo de estranho.
A sua mulher, deitada ao lado na cama, olhava-o com ar esquisito enquanto o abanava, “Acorda, pára de te mexeres, o despertador já tocou, olha que te atrasas para o autocarro”.

Um destes dias vamos acordar deste pesadelo que agora vivemos e voltar a tempos mais felizes mas não sonhados ou ... talvez sonhados.

segunda-feira, 16 de março de 2020

TEMPOS DE APRENDIZAGEM


Estes são tempos de incertezas, de receios, muitos, de dificuldades, muitas, e também de aprendizagem.
Estamos a aprender a distância de diferentes modos e entendimentos.
Vamos ter de reaprender a distância na relação educativa sendo verdade que o perto por vezes é longe e o longe pode ficar perto.
Vamos ter de aprender a trabalhar à distância quando a distância para muitos trabalhos já não existe.
Muitas famílias terão de reaprender a proximidade, a distância já conhecem.
Os velhos, grupo de maior risco, mais do que a distância, terão de aprender o isolamento que, aliás, muitos já conhecem.
Os mais novos terão de aprender com uma escola à distância quando muitos já se sentiam distantes da escola.
Como sou optimista quero acreditar que depois da distância imposta pelas nuvens negras reaprenderemos a proximidade, mas desta vez mais a sério.

domingo, 15 de março de 2020

E SE ...


Gostei de ler o texto de Vítor Belanciano no Público, “O vírus que faz parar para pensar”.
Na verdade, os tempos de chumbo, ansiedade e confinamento que vivemos envolvem consequência ainda imprevisíveis mas a todos os níveis já inquietantes.
O imediato será mitigar, como agora se diz, tanto quanto possível o que vai surgindo com o passar dos dias e buscar respostas mais eficientes.
Por outro lado e procurando desesperadamente algo de positivo no olho do furação, porque não acreditar talvez possam emergir outras ideias e visões reconfiguradas a partir deste processo que nos atropela e nos faz sentir como que perdidos.
E se da experiência que estamos a viver se instalasse a dúvida e o desejo de mudança.
Mudança em alguns dos nossos valores estabelecidos e considerados adquiridos, definitivos.
Mudança nos estilos de vida e definição de prioridades.
Mudança nos tempos e modelos de organização do trabalho.
Mudança …


sábado, 14 de março de 2020

TODOS EM CASA. E AGORA?


O DN solicitou-me uma pequena colaboração para uma peça sobre a situação actual das famílias portuguesas (e não só) com filhos em idade escolar. As escolas estão encerradas, muitos pais e ou mães estarão também em casa num tempo que não é de férias e num contexto completamente atípico.
Como sempre afirmo mesmo em situações de maior normalidade, por assim dizer, não existe “manual de instruções para os tempos que vivemos”, "É uma situação nova para todos”.
Será necessário um tempo de aprendizagem para adultos e mais novos. Não se trata de um tempo de férias, mas não há escola e também é importante que nos mantenhamos em casa.
A duração desta situação é também uma variável a ter em conta e com o conhecimento disponível não parece que seja breve.
Parece-me importante que os mais novos sejam esclarecidos sobre o que está acontecer de acordo com a sua idade e natural curiosidade mas sendo económico e simples nas abordagens minimizando ansiedade ou medo indefinido que um "excesso" de informação ou a audição de conversas entre nós pode instalar-se.
O estabelecimento ainda que com flexibilidade de algumas rotinas e alternativas de actividades diversificadas parecer ser uma ajuda para tanto tempo confinado ao mesmo espaço. Provavelmente e de acordo com os anos de escolaridade surgirão por parte das escolas algumas orientações relativamente ao trabalho escolar o que gerido em conjunto, tanto quanto possível pois muitos pais ainda que em casa terão actividade profissional e daí a importância da definição de algumas rotinas, pode facilitar a relação dos mais novos com eventuais tarefas de natureza mais escolar.
Parece-me ainda necessário que nós adultos estejamos atentos e desejavelmente serenos pois a própria situação, só por si, pode ser geradora de alguma intranquilidade e fonte de ansiedade e stresse. Como disse não existe um manual para lidar eficaz e tranquilamente com esta situação, atravessamos tempos difíceis para todos.
No entanto, também acredito na resiliência da generalidade dos pais e das crianças e jovens como também acredito que os pais vão encontrar forma de dar a mão na travessia destes tempos.
Desta vez não falo de uma eventual participação e envolvimento dos avós. A evidência conhecida diz-nos que somos tendencialmente um grupo de risco e, por isso, a colaboração, tal como a escola … é à distância. 
Tudo bem com vocês aí por casa, Simão e Tomás? Daqui a pouco já conversamos um tempinho.

sexta-feira, 13 de março de 2020

A PROPÓSITO DA COVID-19


Não creio que tenha algo de pertinente a afirmar a propósito desta situação muito grave da Covid-19 provocada pelo novo coronavírus. Deixo isso para os especialistas, para os decisores políticos e para toda gente, como sabem e como sempre, são mais as "sentenças" que as cabeças.
Ainda assim ... a minha "sentença".
Situações desta natureza, seja pela sua intensidade, duração, efeitos reais ou potenciais, pela dificuldade de resposta imediata e eficaz têm uma característica, fazem emergir com alguma clareza o que de melhor e de pior existe em nós, nos nossos discursos e comportamentos.
Procurando estar atento ao que vai acontecendo, lamentavelmente, encontro sempre mais motivos de inquietação e preocupação que de solidariedade, respeito e comportamentos cívicos que traduzam essa solidariedade e respeito.
Também não se conhece ainda antídoto para este cenário.
Espero e confio em que tudo corra de forma mais positiva possível o que é tanto mais provável quanto melhor cada um de nós cumprir o seu papel. E todos temos um.

quinta-feira, 12 de março de 2020

A LETRA BONITA


Era uma vez uma Menina que, como todas as meninas, era diferente. Esta era mais diferente do que as outras, por assim dizer. Tinha mais dificuldades em aprender as coisas da escola, às vezes não se percebia logo o que queria dizer e muitas coisas não fazia mesmo ou fazia a muito custo e sem que ficassem muito perfeitas.
Porque a Menina cresceu mudou de escola e na escola nova os professores e os colegas começaram a perceber que a Menina era um pouco diferente das outras. Quase sempre os miúdos percebem que ninguém é igual a ninguém e não estranham muito. Os mais crescidos, por vezes, assustam-se porque acham que não saberão o que fazer com os meninos e meninas que são diferentes, mais diferentes. Às vezes também não sabem muito bem o que fazer com os que não são tão diferentes, mas isso é de outra história.
A Menina gostou imenso de mudar de escola, sentiu-se bem com os colegas e com os professores o que até surpreendeu um pouco, pois esperava-se que se pudessem criar algumas dificuldades.
Um dia destes, uma das professoras da Menina sem se lembrar que ela era diferente, pediu-lhe para escrever qualquer coisa no caderno, tarefa que só com alguma ajuda poderia ser desempenhada. No entanto, muito tranquilamente, a Menina pediu à professora que escrevesse ela o que era solicitado. É que "a letra da professora é mais bonita" disse a Menina à sua maneira, sorrindo.
Os miúdos diferentes são inteligentes, nem sempre sabemos quanto.

PS - Continuo a conseguir não falar sobre o "novo coronavírus". 

quarta-feira, 11 de março de 2020

É O VENTO

(Foto de Rui Moura)
É o vento que faz rodar os miúdos à volta dos moinhos de papel.
É o vento que faz voar os miúdos agarrados aos papagaios.
É o vento que leva para longe os medos que assustam os miúdos.
É o vento que leva os miúdos para dentro dos sonhos.
É o vento que leva os miúdos atrás das borboletas.
É o vento que adormece os miúdos quando assobia baixinho.

PS - Não me apetece olhar para o mundo, está feio, está pesado.

terça-feira, 10 de março de 2020

COMUNIDADE E EDUCAÇÃO, POSTAL DOS AÇORES


No Público encontra-se uma peça com a referência a um projecto em desenvolvimento em S. Miguel, Açores, com o objectivo de baixar o insucesso e abandono escolar. Iniciou-se em 2016 em três escolas do Concelho de Lagoa, EBI Lagoa, Escola Secundária de Lagoa e EBI Água de Pau.
O projecto tem como eixo estruturante uma perspectiva de intervenção comunitária em rede alargada a múltimos sectores das comunidades.
Os resultados têm sido bastante positivos, validados também pelos resultados da avaliação externa, e actualmente já estão envolvidas nove escolas dos concelhos de Lagoa, Vila Franca do Campo, Povoação, Nordeste e Ponta Delgada.
Desde o início do projecto tive o privilégio de dar uma pequena contribuição de que guardo boas recordações.
Em modo memória recupero o texto  que aqui deixei na minha primeira participação, Junho de 2016.
No aeroporto de Ponta Delgada a iniciar o regresso depois de três dias de intenso trabalho em S. Miguel, uma das Ilhas Encantadas, os Açores.
O desafio era e é grande mas estimulante para quem tem a educação como paixão e também como forma de vida, dar um contributo que agora se iniciou para o desenho e acompanhamento de um Projecto, sempre um Projecto, que minimize o insucesso educativo e o abandono na população escolar do concelho de Lagoa.
Com o entendimento de que, como ouvi pela primeira vez em Moçambique, para fazer uma casa bastam quatro homens, para educar uma criança é preciso uma aldeia, (curiosamente também referido na peça do Público), o trabalho a realizar está para além das escolas, envolve as famílias e as diferentes estruturas, públicas ou privadas, que lidam com as problemáticas das crianças e jovens e das famílias.
Será uma tarefa difícil certamente mas acredito que seremos capazes de realizar algo de positivo.
O empenho e a mobilização que encontrei no trabalho com todos os professores das escolas de Lagoa, a disponibilidade, competência e abertura de várias entidades de sectores diversos da comunidade de Lagoa e, sobretudo, o muito trabalho com qualidade que já é realizado, são um conjunto de factores muito animadores apesar da consciência das dificuldades.
Foi bom ter estado, vai ser bom voltar com regularidade, vai ser bom ver resultados positivos que os miúdos, as famílias e os professores e técnicos competentes e empenhados que aqui encontrei merecem.
Uma nota final. O peixe nos Açores continua excelente".

PS – Registo que conforme expressei na altura os resultados conseguidos têm confirmado o empenho e a competência de todos os envolvidos incluindo alunos e famílias.
Obrigado pela oportunidade que tive.

segunda-feira, 9 de março de 2020

A LER, "O "VOO" DA JOANA"


O texto de Júlia Serpa Pimentel no Público, “O “voo” da Joana”, merece leitura. Parte da performance da Joana, minha colega de trabalho, no programa Got Talent Portugal e ilustra de forma inspiradora a sua história de vida pessoal e familiar.
Como tantas vezes tenho afirmado, sem ser por magia ou mistério, quando acreditamos que as pessoas, mais novas ou mais velhas, com algum tipo de necessidade especial, são capazes, não se "normalizam" evidentemente, seja lá isso o que for, mas, na verdade, são mais capazes, vão mais longe do que admitimos ou esperamos. Não esqueço a gravidade de algumas situações mas, ainda assim, do meu ponto de vista, o princípio é o mesmo, se acreditarmos que eles progridem, que eles são capazes de ... , o que fazemos, provoca progresso, o progresso possível e níveis de realização significativos. Está estudado de há muito o efeito de expectativas e representações nos processos educativos e de desenvolvimento.
É neste sentido que devem ser canalizados os esforços e os recursos que deverão, obrigatoriamente, existir. Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências noutras paragens, mas também por cá mostram que não é utopia. 
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.

domingo, 8 de março de 2020

MULHERES


Não há volta a dar, 8 de Março, o calendário das consciências manda reparar nas mulheres, no seu universo, nos seus problemas. Para além das iniciativas, discursos e referências na imprensa que fazem parte da liturgia comemorativa, reparemos então.
Reparemos como se mantêm em níveis dramáticos e inaceitáveis os episódios de violência doméstica incluindo homicídios. Acresce que ainda existem muitíssimas situações que não são do conhecimento público e, portanto, boa parte dos episódios não são sequer objecto de procedimento.
Reparemos como se mantém a diferença de oportunidades e a desigualdade salarial apesar das mudanças legislativas. Segundo alguns dados serão precisas décadas para atingir equidade no estatuto salarial.
Reparemos na dificuldade que muitas mulheres em Portugal têm em conciliar maternidade com carreira, adiando ou inibindo uma ou outra, sendo cada mais preterida a maternidade. A intenção expressa de ter filhos é um obstáculo no acesso ao emprego.
Reparemos em como as mulheres portuguesas são das que na Europa mais horas trabalham fora de casa e também das que mais trabalham em casa.
Reparemos na necessidade de imposição legal de quotas para garantia de equidade.
Reparemos na desigualdade no que respeita à ocupação de postos de chefia.
Reparemos nos números do tráfico e abuso de mulheres que também passa por Portugal.
Reparemos na criminosa mutilação genital feminina, também realizada em Portugal.
Reparemos como a igreja continua a discriminar as mulheres.
Reparemos na quantidade de mulheres idosas que vivem sós, sobrevivem isoladas e acabam por morrer de sozinhismo sem que ninguém, quase, se dê conta.
Reparemos, finalmente, no que ainda está por fazer.
Na verdade, a metade do céu que as mulheres representam carrega um fardo pesado.
Provavelmente ainda assim será no próximo ano como tem sido nos anos anteriores.

sábado, 7 de março de 2020

DISLEXIA E EXAMES NACIONAIS


Ao que se lê no Público, já a partir da próxima época de exames terão acesso a condições especiais de realização os alunos com um diagnóstico de dislexia estabelecido depois do 2º ciclo o que até agora não era possível. Também no que respeita às condições especiais de realização dos exames os alunos passam a ter um tempo suplementar de realização do mesmo.
Parece uma decisão no caminho no caminho ajustado num domínio de grande complexidade. Algumas notas.
Em primeiro lugar e desde logo pela dificuldade do próprio diagnóstico de dislexia, sobretudo em idades mais iniciais na aprendizagem da leitura e da escrita. O risco de sobrediagnóstico ou, pelo contrário, a má avaliação de um caso com um quadro de dislexia, podem ter consequências significativas no desenvolvimento e trajecto educativo dos alunos.
Por outro lado a multiplicidade de situações que parecem caber no âmbito da “dislexia” requer sólido conhecimento e competências de avaliação e intervenção que, lamentavelmente, nem sempre parecem estar presentes.
Acresce que a própria decisão do Júri Nacional de Exames sobre a aceitação, ou não, da definição das condições especiais pedidas através da submissão dos pedidos em plataforma não é isenta de riscos. Ao longo dos anos têm sido conhecidas diferentes situações desta natureza pois dificilmente as especificidades de cada situação cabem numa plataforma ou numa grelha que tanto se usa e de que tanto se abusa.
Neste contexto e mais uma vez, são imprescindíveis dispositivos de regulação que acautelem a competência e adequação das decisões protegendo a qualidade dos processos, a equidade e os direitos de todos os alunos à educação.

sexta-feira, 6 de março de 2020

A HISTÓRIA DO ARTESÃO


Uma vez conheci um Artesão como não há muitos, era um homem de uma sabedoria e de um amor à sua arte que impressionava.
Desde miúdo que sonhava dedicar-se à arte que viria a ser a sua. Preparou-se bem e mesmo já a trabalhar sempre procurou compreender mais, falando com outros mestres e outras pessoas que o Artesão entendia que o podiam ajudar a ser melhor.
Mesmo sendo um Artesão muito experiente e trabalhando sempre com a mesma matéria, quando começava cada trabalho estudava e pensava em cada peça que iniciava. Muitas vezes fazia o mesmo tipo de trabalho mas sabia que os materiais nunca são exactamente iguais e por isso não podem ser sempre trabalhados da mesma maneira. O Artesão dizia muitas vezes que temos de respeitar as diferenças nos materiais, só assim conseguiremos que eles acabem por se transformar em peças valiosas e, na verdade, as peças que saíam das mãos do Artesão eram peças valiosas, muito valiosas.
O Artesão referia frequentemente que algumas das peças se tornavam muito fáceis de produzir, tinham características próprias que lhe facilitavam o trabalho, outras, como ele dizia, davam luta, resistiam ao trabalho, às vezes nem corria bem, mas, quase sempre conseguia algo de interessante e bonito.
Este Artesão tinha uma outra qualidade que o tornou conhecido, não guardava a sua arte só para si, gostava de falar dela, de ajudar os mestres que estavam a começar e que também apreciavam o seu trabalho e a sua ajuda.
Coisa estranha, agora que estou a acabar a história do Artesão reparei que não referi a arte a que se dedicava. Era Professor. A sério.

quinta-feira, 5 de março de 2020

DA CONSTITUIÇÃO DAS TURMAS


O ME vai incluir no portal InfoEscolas a informação apenas acessível a escolas que permita "detectar assimetrias de resultados entre turmas” podendo estabelecer comparações entre escolas. A ideia será perceber a existência de perfis médios de turma em indicadores como desempenho escolar ou meio socioeconómico, dito de outra maneira, se estão constituídas turmas de “repetentes” e ou de “desfavorecidos” sendo que com muita frequência estas características são cumulativas.
Com esta informação pretende-se estimular “práticas mais inclusivas” pois, afirma o secretário de Estado Adjunto e da Educação, “já sabemos que (turmas de nível) não dão resultado, porque geralmente o que acontece é que os alunos de nível inferior ficam no nível inferior e os outros mantêm-se num nível superior.”.
Estou de acordo com o princípio aqui enunciado e também me parece que mais informação disponível é útil.
No entanto, parece-me oportuno relacionar esta iniciativa e a sua justificação com um trabalho recente também divulgado pelo ME que aqui comentei e de que recupero o essencial.
Como é conhecido está em desenvolvimento o Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar iniciado em 2016 no âmbito do qual 663 agrupamentos definiram planos de redução do insucesso.
Foi agora divulgado o relatório “Acção Estratégica das 50 escolas que mais diminuíram o insucesso escolar no ensino básico” elaborado pela equipa do Programa.
Como seria de esperar de um programa de promoção do sucesso escolar o insucesso está em queda nos agrupamentos envolvidos e este relatório analisa as 50 escolas com melhores resultados.
Registando o abaixamento do insucesso temos a questão mais curiosa. A maioria das escolas que mais reduziram o insucesso recorre à criação de Grupos Transitórios de Heterogeneidade Mitigada o que parecendo significar “grupos de nível” não significa, é mesmo um Grupo Transitório de Heterogeneidade Mitigada, uma designação notável de flexibilidade.
Também registei na altura a defesa que vi fazer deste novo enunciado assentando num estranho entendimento de que a “heterogeneidade mitigada” promove e defende a heterogeneidade natural e óbvia e que é uma ferramenta de educação inclusiva. 
Por outro lado, o recurso a esta “modalidade” parece ser apresentado como variável explicativa para o maior sucesso o que não consegui encontrar no Relatório. Aliás, como na altura referi, nada no Relatório sustenta uma relação de causa efeito entre Grupos Transitórios de Heterogeneidade Mitigada e desempenho escolar.
Como disse, creio ser bastante improvável que a variável “homogeneidade” de um grupo de alunos (ainda que mitigada) possa ser a “explicação” dos bons resultados pois é algo que não existe, não se conhecem dois alunos iguais.
Na verdade, se a homogeneidade fosse uma ferramenta de sucesso, todas as turmas que existem em muitas escolas constituídas por alunos “descamisados”, maus alunos, repetentes, malcomportados, desmotivados, etc., teriam de imediato sucesso, seriam homogéneas.
Na altura e partilhando a experiência pessoal, referi que eu próprio, entre o 1º ano do liceu e o 7º ano, frequentei quase sempre turmas de "heterogeneidade mitigada", também conhecidas por "turmas de repetentes e/ou indisciplinados" porque ainda não tinha sido inventada a inovação.
A verdade é que os alunos não têm sucesso significativo só por estar juntos por nível de desempenho, comportamento ou condição socioeconómica. Esta medida já existiu em tempos com as turmas de nível ou com outras designações e quem conhece a realidade sabe que os resultados dos alunos "maus" continuaram, genericamente maus, o povo diz junta-te aos bons e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior do que eles.
Mais uma vez, o que fomenta o sucesso não é estar ao lado de alunos menos bons.
O que fomenta o sucesso é mais e melhor apoio a alunos e a professores.
O que fomenta o sucesso é um grupo de alunos com uma dimensão razoável que permita mais e melhor diferenciação da intervenção em sala de aula tal como a evidência sustenta.
O que fomenta o sucesso é o recurso a dispositivos como o "par pedagógico" ou outras medidas da mesma natureza. Aliás, constam do elenco de metodologias no Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar e que algumas escolas acederam a recursos que lhes permitem ter mais docentes. Outras não, como sabemos.
Que se generalize esta tipologia de medidas através dos Projectos das escolas e menos sucessivos e inúmeros Projectos, Programas, Experiências, etc., vindos de fora das escolas e teremos melhor trabalho e mais sucesso de alunos e professores.
Não é sustentável afirmar que a variável que contribuiu para os bons resultados atingidos é a homogeneidade (mitigada ainda assim) das turmas.
É ainda perigoso que esta leitura possa legitimar decisões na constituição das turmas, guetizando alunos sem resultados se as outras variáveis não forem consideradas. Como muitas vezes não são. Aliás, a caixa de comentários da imprensa quando esta questão é abordada é elucidativa.
Quanto ao impacto, parece óbvio que a diversidade é sempre preferível a uma falsa homogeneidade. As atitudes de discriminação negativa não apresentam nenhuma espécie de vantagem pessoal ou social, guetizam, estigmatizam e promovem quer nos bons, quer nos maus, uma relação desconfiada e tensa facilitadora de problemas.
As dificuldades escolares gerem-se com apoios e recursos que terão certamente de ser diferenciados, mas não podem, não devem, implicar a criação de “guetos” para os “maus” ou de "condomínios" para os "bons".
Aliás, e voltando à iniciativa agora divulgada não deixa de ser curioso, para ser simpático, que na Conclusão do Relatório se enuncia como uma fragilidade os “Constrangimentos decorrentes da heterogeneidade do público escolar decorrente do alargamento da escolaridade obrigatória para 18 anos e da aplicação de medidas promotoras de equidade e inclusão e educativas;”
Notável. De facto, esta ideia de ter os alunos na escola até aos 18 anos, promover equidade e igualdade de oportunidades e uma educação escolar que acomode a diversidade dos alunos só atrapalha.
Mas é mesmo isto que se diz. Em que ficamos?

quarta-feira, 4 de março de 2020

A "FATALIDADE" DO INSUCESSO


A tradição continua a ser o que tem sido. Apesar de alguma melhoria global, a retenção escolar continua fortemente associada ao nível socioeconómico das famílias dos alunos.
Dos dados agora divulgados pelo ME e em síntese releva que em 2018/2019 apenas 21% dos alunos abrangidos pela Acção Social Escolar cumpriram o 9º ano sem retenções, entre os alunos com meios familiares mais favorecidos a percentagem de trajectos sem retenção foi 56%. No ensino secundário a diferença é menor, mas ainda bastante significativa, 29% e 45%.
Os números ilustram uma situação que, lamentavelmente, não tem nada de novo. Algumas notas.
Sabemos que muitas escolas são espaços de sucesso e que o insucesso é mais elevado em escolas de periferia que servem territórios mais vulneráveis em termos sociais e económicos e em escolas de concelhos do interior mais desertificado, embora, sublinhe-se, mesmo nesses contextos existam escolas que conseguem fazer a diferença.
Também sabemos que no âmbito do insucesso se identifica como questão crítica a aprendizagem da leitura, da escrita e da matemática num quadro curricular que carece de ajustamento para além da “mágica” flexibilidade.
Creio que para muitos de nós que a retenção escolar, o chumbo, só por existir,  não transforma o insucesso em sucesso, repetir só por repetir não produz sucesso, aliás gera mais insucesso conforme os estudos mostram, quer se queira, quer não. Recordo que já no relatório relativo ao PISA de 2012 a OCDE afirmava que a retenção, é para os alunos portugueses o principal factor de risco para os resultados na avaliação posterior, dito de outra maneira, os alunos chumbam … mas não melhoram.
Também os dados do PISA de 2018 mostram que só 10% dos alunos mais carenciados onseguem atingir os níveis mais elevados de competência em leitura.
Parece claro que para promover mais sucesso e não empurrar os alunos para os anos seguintes sem nenhuma melhoria nas suas competências ou saberes é essencial promover e tornar acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e recursos adequados e competentes de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo.
Sabemos também que a escola pode e deve fazer a diferença, em muitas escolas isso acontece. Mas para que isto seja consistente e não localizado também sabemos que o sucesso se constrói identificando e prevenindo dificuldades de forma precoce, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio eficazes, competentes e suficientes a alunos e professores, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados e reais de autonomia, organização e funcionamento desburocratizado das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, com a valorização do trabalho dos professores, com práticas de diferenciação que não sejam "grelhodependentes", com expectativas positivas face ao trabalho e face aos alunos, com melhores níveis de trabalho cooperativo e tutorial, quer para professores quer para alunos, etc.
Não tenho nenhuma convicção que a multiplicação de projectos que emergem fora das escolas, com formas robustas de financiamento fora do sistema educativo, que alimentam agendas e corporações de interesses possam ser o caminho apesar de surgirem sempre alguns resultados ou avaliações que os pretendem legitimar. É com a escola, por dentro da escola e integrado em sólidos projectos de autonomia e responsabilidade e com recursos adequados que o caminho se constrói.
Sabemos tudo isto. Nada é novo.
Só falta um pequeno passo.
Que todos para todos os miúdos possam aceder com equidade a trajectórias de sucesso. Não, não é uma utopia. Tal como o insucesso não é uma fatalidade do destino.

terça-feira, 3 de março de 2020

SAÚDE MENTAL E ESCOLA


Há uns dias encontrei no JN uma peça interessante referindo o envolvimento das escolas secundárias de Arouca e Escariz no Projecto WhySchool que tem por objectivo a promoção da saúde mental em contexto escolar através da formação de professores, pais e assistentes operacionais neste âmbito.
A saúde mental de crianças e adolescentes é uma área crítica nas nossas comunidades. Há algum tempo Cristina Marques e Miguel Xavier, Pedopsiquiatra, assessora do Programa Nacional para a Saúde Mental e Psiquiatra, director do Programa Nacional para a Saúde Mental em texto no Público, “Saúde mental infantil – uma quase indiferença de décadas” referiam que a “OMS estima que 20% das crianças e adolescentes apresentam pelo menos uma perturbação mental antes de atingir os 18 anos e que, mesmo em países desenvolvidos, apenas 1/3 das crianças com problemas significativos recebem tratamento”.
Recordo dados do European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs de 2016 sugerem que 13% os jovens portugueses até aos 16 anos consome antidepressivos e tranquilizantes. O estudo envolveu 96043 jovens de 35 países, 3456 portugueses alunos de escolas públicas. O valor é impressionante, a média do estudo é de 8%.
Uma nota referindo ainda um trabalho divulgado em 2015 da Faculdade de Psicologia e Educação da Universidade de Coimbra em colaboração com entidades estrangeiras apontando para que 8% por cento dos adolescentes portugueses que frequentam o 8.º e o 9 º ano apresentam sintomatologia depressiva e 19% estarão em risco de desenvolver a doença. O estudo contemplava também um programa de prevenção a promover em meio escolar, com a participação dos pais, que pareceu indiciar bons resultados.
Neste quadro, todas as iniciativas que promovam ao bem-estar de crianças e jovens são importantes. Por outro lado, considerando o tempo de estadia dos mais novos nos contextos escolares é natural que as suas dificuldades ou necessidades de diferente natureza emergem na escola, é lá que estão, mas julgo ser necessária prudência. Uma escola que é percebida como resposta para todas as questões que possam afectar os seus alunos pode fazer correr o risco de perder de vista a essência da educação escolar criando um padrão de atribuição de “competências” que a educação escolar não vai ter capacidade para responder
Também sabemos que se a escola for uma comunidade educativa, a escola é amigável para a saúde mental das crianças e adolescentes, como também é amigável para o desempenho académico, para a saúde cívica, para a saúde física, para … o bem-estar global e desenvolvimento, aliás, é amigável para todos os que nela desempenhem algum tipo de funções, incluindo, evidentemente, os professores. No entanto, a aproximação das questões da saúde mental à educação escolar estabelecida há muito pelo Mestre João dos Santos não é o mesmo que entender a escola como uma comunidade terapêutica.
Parece-me que temos sobretudo de insistir na qualidade do trabalho e nos recursos de apoio a alunos e professores para uma escola pública de qualidade e na existência suficiente e competente de apoios na comunidade, para crianças, adolescentes e família.

segunda-feira, 2 de março de 2020

AS CRIANÇAS-AGENDA


No DN está um trabalho interessante sobre uma matéria que respeita a muitíssimas famílias com custos de diferente natureza para pais e filhos, as inúmeras actividades que esperam muitas crianças depois da escola. Neste espaço e em trabalho com pais e encarregados de educação também a tenho abordado com alguma frequência.
Com o arranque do ano escolar as crianças e adolescentes retomam as suas rotinas, os trabalhos, um grupo mais pequeno, os do 1º ano, estão a iniciá-las. Com as alterações nos estilos de vida muitas famílias sentem um problema importante, a guarda das crianças nos períodos laborais, o sistema educativo tem procurado resolvê-lo da pior da maneira, prolongando inaceitavelmente a estadia das crianças na escola. Creio que nem toda a gente tem consciência de que, de acordo com a lei, uma criança, por exemplo do 5º ano, pode passar 11 horas por dia na escola, ou seja, 55 horas por semana. Relatório recente da Rede Eurydice voltava a mostrar que os alunos portugueses são do que passam mais tempo na escola, designadamente no 1º ciclo.
Esta overdose de estadia institucional na escola, com o tempo muitas vezes preenchido com actividades de duvidosa qualidade apesar de também existirem muito boas práticas, não pode deixar de ter consequências na relação que os miúdos estabelecem com a escola e com as actividades da escola.
Por outro lado, muitos pais recorrem ao envolvimento dos filhos em múltiplas actividades transformando-as numa espécie de crianças-agenda. Todas estas actividades, a oferta é variadíssima, são percebidas como imprescindíveis à excelência, os miúdos devem ser educados para ser excelentes. Promovem níveis fantásticos de desenvolvimento intelectual e da linguagem, desenvolvimento motor, maturidade emocional, criatividade, interacção social, autonomia e certamente de mais alguns aspectos que agora não recordo. Assim, as crianças e adolescentes estão sempre envolvidos em qualquer actividade, a quase todas as horas pois delas se espera não menos que a excelência. 
Nada disto belisca a importância que, de facto, podem ter algumas actividades, mas apenas sublinhar alguns riscos no excesso.
Os pais, alguns pais, seduzidos pela sofisticação desta oferta, pressionados por estilos de vida que não conseguem ou podem ajustar e com a culpa que carregam pela falta de tempo para os filhos e sem vislumbrar alternativas aceitam que os trabalhos dos miúdos se desenvolvam para além do que seria desejável, eu diria saudável.
Vamos ter que repensar os trabalhos dos miúdos, de muitos miúdos. O consumo excessivo, mesmo de actividades fantásticas ou de actividades escolares, tem riscos.
Recordo que em 2018 a Academia Americana de Pediatria recomendou aos pediatras que na sua prática clínica prescrevam “tempo para brincar”, um bem de primeira necessidade para o bem-estar dos mais novos com impacto em diferentes dimensões.
Insistem e insisto que não se trata de uma ideia “frívola” e os actuais estilos de vida de muitas famílias, por diferentes razões, tornam ainda mais importante que se reafirme a importância de brincar.
Mais uma vez, brincar é a actividade mais séria que os miúdos realizam, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que virão a ser e a saber.

domingo, 1 de março de 2020

A MATURIDADE DOS MIÚDOS


Uma das características dos tempos crispados que vivemos parece ser a incapacidade de comunicação, de diálogo, sem que rapidamente se passe à sobreposição de monólogos quando não à crispação e à agressividade.
A este propósito lembrei-me de uma situação a que assisti e que creio poder ser fonte de reflexão.
Há algum tempo no âmbito de um encontro informal com amigos e colegas, acabaram por se juntar dois miúdos de sete ou oito anos, um deles filho dos donos da casa. O miúdo da casa foi buscar uma série de brinquedos e no chão a um canto, os dois entretiveram-se a brincar durante algum tempo, a princípio sem grande envolvimento mas, de mansinho, a brincadeira começou a ser conjunta. A minha atenção prendeu-se no facto de não trocarem qualquer palavra, apenas olhavam um para o outro e a brincadeira ia-se desenrolando. No fim do serão quando a família visitante se retirou o miúdo perguntou aos pais.
Ele não fala?
Fala, fala inglês e quase nada em português. Tu sabes algumas palavras de inglês, mas vocês não falaram.
Não foi preciso, é meu amigo.
Finalizou o miúdo com um encolher de ombros de indiferença.
A maturidade dos putos não pára de me surpreender, sobretudo quando comparada com a imaturidade dos adultos que nem falando a mesma língua se conseguem entender.
Não tenho qualquer visão idealizada de crianças e jovens mas continuo a achar que terão mesmo de ser o melhor do mundo ainda que a afirmação seja de um Poeta que, como sabem, são uns fingidores.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

OS VERDES CAMPOS DO ALENTEJO


Estão bonitos os campos do Alentejo. Estão verdes os bonitos campos do Alentejo. É verdade que a verdura à vista mascara a secura da terra lá mais fundo, lá onde se garante a água nas nascentes e nos lençóis que são o sustento da Terra.
A manhã começou com uma chuva miúda que refresca a terra e se agradece. No entanto, faziam falta uns dias de chuva bem chuvida como por cá se fala.
E depois seguir-se-ão os dias criadores que trarão todas as outras cores que não o verde aos campos do Alentejo.
Mas estão bonitos, estão sempre bonitos
E são também assim os dias do Alentejo.




sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

DOS MANUAIS DE INSTRUÇÕES PARA EDUCAÇÃO FAMILIAR


No DN tropecei com uma peça dedicada a um livro “Como Não Estragar (completamente) os Filhos – Manual para pais que não acreditam em manuais para pais”, escrito por James Breakwell que é apresentado como “escritor de comédia, pai de comédia, pai de quatro filhas e especialista em parentalidade amadora” sendo um divertidíssimo “influencer” parental. Certamente por ignorância, não entendo o que será um “especialista em parentalidade amadora” e, lamento, também não percebo bem o que será um “influencer” parental que me parece mais um produto dos “tempos líquidos” de que fala Bauman.
Breakwell escreveu um livro anti-manual que pode servir de manual para que os pais “não estraguem (completamente) os filhos. Li o excerto publicado e encontrei um texto bem escrito, com algum humor e muito “engraçadismo” um tipo de discurso e comportamento muito frequente na comunicação social. Felizmente, de manual não tem muito e ainda bem, parece ser a intenção do autor.
No entanto, a verdade é que o universo da educação familiar nos tempos actuais envolve os pais e as mães num conjunto de desafios associados à pressão que sentem, vinda de dentro ou de fora, para que sejam mães (pais) perfeitas de filhos perfeitos.
Nesta “luta” torna-se frequente o cansaço, a reactividade que alimentam culpa e a tentativa de procura ajuda no que está `”mais à mão, net e redes sociais com milhentas páginas, grupos e fóruns onde se encontra a “solução” para todas as inquietações de todas as naturezas.
Também na lida profissional me cruzo frequentemente com estas mais e pais em sobressalto. Algumas notas repescadas.
Muitas das dificuldades percebidas pelos pais, de que não duvido e causam grandes inquietações, associam-se a algo que tem vindo a verificar-se, alguns excessos nos discursos sobre a "instrução" e "educação" e as questões novas que as mudanças nos valores e nos estilos de vida colocam levando a que alguns pais sintam algumas dificuldades no seu trabalho de pais e a que muito técnicos tenham a tentação de fornecer um "manual de instruções" que promoverá a educação perfeita da criança perfeita.
É verdade que contrariamente ao que acontece com todos os bens, até por imposição comunitária, as crianças continuam, felizmente, a ser providenciadas aos pais sem virem acompanhadas de um manual de instruções, em várias línguas, preferencialmente.
Provavelmente por isso, ultimamente tem-se verificado um aumento exponencial na publicação destes "manuais" ou de peças na imprensa com a mesma intenção, ensinar-nos o ofício de pais e agora chega o manual em versão anti-manual. São consideradas questões como lidar com birras, com os problemas dos adolescentes, com a escola e os seus problemas, como lidar com os filhos e com os amigos dos filhos, como comunicar com eles, como gerir os seus gostos e as suas crises, como agir nas férias, como ocupar os fins-de-semana, como dialogar em família, como perceber a “cabeça” dos mais novos, como definir regras e disciplina, que alimentação e estilos de vida, como ocupar os tempos livres, que actividades fazem melhor a quê, etc. etc. Todas estas matérias são escrutinadas e analisadas de modo a fornecer, crê-se, um manual de instruções.
A imprensa, em diferentes registos, acompanha a onda, em variadíssimas secções, colaborações e colunas de aconselhamento providenciam-nos receitas, dicas, sugestões exactamente com o mesmo objectivo mas em versão telegráfica. Dado que também colaboro regularmente com a comunicação social a minha preocupação aumenta, coloca-me dúvidas e tem motivado algumas recusas.
Finalmente e como não podia deixar de ser, o mundo sem fim da net e das redes sociais tem um papel enorme nesta busca da solução para os pais perfeitos.
Este frenesim assenta, creio, na melhor das intenções, tornar-nos bons pais. Pela avalanche de ajuda parece que não estamos a conseguir e a experiência mostra-me que muitos pais se sentem assustados com alguns dos discursos que lhes são dirigidos, tanto quanto com algumas das dificuldades que em algumas circunstâncias sentem com os filhos em diferentes idades.
Existem para todos os gostos, para todas as idades e escritos sob as mais variadas perspectivas. Tenho lido muitos, alguns são interessantes e uma eventual ajuda para alguns pais e para algumas questões, outros, devo confessar, deixam-me alguma inquietação, não passam de um enunciado de "orientações prescritivas" longe das circunstâncias de vida em que muitas famílias se movem.
Para além das ajudas que os pais possam encontrar nestes "manuais de instruções" creio ser importante sublinhar que, felizmente para todos nós, a começar pelas crianças, os pais são, de uma forma geral, intuitivamente competentes, mais "asneira", menos asneira", mais uma "festinha", menos um "ralhete" e a estrada cumpre-se sem grandes sobressaltos. Um discurso social excessivo em torno da "psicologização" ou induzindo a ideia de que só indo a uma "escola de pais" e lendo vários "manuais de instruções" poderemos ser bons pais, pode ser mais fonte de problemas que de ajuda.
Parece-me importante que os pais falem entre si sobre as suas experiências, sem medo de que os julguem maus pais, que na relação com os técnicos ligados à educação as conversas não incidam quase que exclusivamente sobre "se está bem ou mal na escola", mas que se abordem as questões educativas também no contexto familiar de forma aberta e serena. Os "manuais de instruções" não são a solução, são, muitos deles, apenas mais uma ajuda.
Pais atentos, pais confiantes, são pais que educam sem especiais problemas. Curiosamente, alguns "manuais" e alguns discursos "científicos" podem aumentar a insegurança e a ansiedade de alguns pais.
Começo a sentir que está fazer falta alguma tranquilidade e serenidade que devolvam aos pais a confiança em si mesmos e na sua capacidade para exercer bem o papel. Sei que por vezes não é fácil. Ser pai não é mobilizar de forma prescritiva um conjunto de “práticas” receitadas por diferentes especialistas. É melhor deixar que os pais falem e encontrem por si a forma de fazer. No fundo, a maioria saberá como, precisa apenas de se sentir confiante e tranquilo. Os que verdadeiramente necessitarão de ajuda serão bastante menos.
Não precisamos de “superpais” como também não precisamos de “superfilhos”.
Precisamos de pais confiantes, seguros, com tempo para o serem, com diálogo com outros pais e com apoios para as dificuldades que surgem e são naturais, os miúdos não vêm com “manual de instruções” e “times they are a-changing’”, também nas famílias.
Precisamos de crianças que cresçam rodeados pela combinação certa de tempo, afecto, regras e limites que as ajudem a um desenvolvimento saudável e autónomo. Não precisam de ser excelentes a tudo nem cumprir uma agenda intoxicante de actividades fantásticas.
É pedir muito?

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

EDUCAÇÃO, PROFESSORES E CONFLITUALIDADE


O mundo da educação é um universo particularmente exposto à emergência de conflitos. Parte desta conflitualidade resulta das suas especificidades e desafios diários nas escolas e salas de aulas mas também das opções e mudanças em matéria de políticas públicas, da profissionalidade, da concertação das diferenças dos papéis de múltiplos actores, das agendas individuais ou institucionais, de variáveis de contexto, etc.
Por outro lado, também me parece que uma parte dessa conflitualidade é potencialmente uma ferramenta de desenvolvimento e mudança, emerge da reflexão, da troca, da discussão e desse ponto de vista poderá ter reflexos positivos ao promover mudança no sentido pensado e escolhido.
No entanto e em termos genéricos, o nível de crispação e conflito que nos últimos anos se tem vindo a instalar nas comunidades escolares merece uma séria reflexão. Algumas notas necessariamente breves.
Como não pode deixar de ser uma das áreas mais sensível ao conflito e crispação as relações entre alunos, encarregados de educação, professores, técnicos ou auxiliares. Frequentemente aqui tenho referido esta questão a propósito dos múltiplos episódios de agressões a professores e auxiliares.
Do meu ponto de vista a conflitualidade também radica em aspectos nem sempre considerados, a imagem social dos professores e a sua cultura profissional.
A imagem social dos professores tem vindo a sofrer uma erosão significativa, alguns estudos e a chamada "opinião pública" reflectem-no embora seja interessante registar que os professores continuam a constituir uma das classes profissionais que merece mais confiança expressa em estudos realizados regularmente. As razões são variadas e dificilmente compatíveis com a abordagem neste espaço mas creio que uma boa parte da política educativa dirigida aos professores nos últimos anos, uma boa parte dos discursos dos líderes sindicais e os discursos ignorantes e irresponsáveis de alguns "opinion makers" têm dado um bom contributo para que, em termos sociais, a imagem dos professores seja afectada. Este processo mina de forma muito significativa a relação que pais e alunos têm com os professores, ou seja e sendo deselegante, "uma classe de gente que não trabalha", "que não se interessa pelos alunos", "que não quer ser avaliada", etc., (basta ver muitos dos comentários on-line a notícias que envolvem professores), não é, obviamente uma classe que mereça respeito pelo que se instala de mansinho um clima de reacção, desconfiança e fraqueza que minimizam o exercício da autoridade. Os pais e alunos que agridem e ofendem professores são uma espécie de "braço armado" dessa imagem social induzida.
Numa outra linha de abordagem e gostando de estar creio que este clima de crispação e conflitualidade também está associado ao facto de que a cultura profissional e institucional em boa parte das nossas escolas e agrupamentos é ainda marcada por algum individualismo, expresso em termos "individuais" ou de pequenos grupos mas, de qualquer forma minimizando a coesão. Quero dizer com isto que, lamentavelmente, os professores evidenciam níveis de cooperação e partilha profissional abaixo do que seria desejável. As razões serão várias e não cabem aqui, mas creio que justificam, muitas vezes, a não realização de queixas de incidentes, muitas vezes graves, por receio de exposição e demonstração de fragilidades face a colegas e responsáveis, o que uma cultura de maior cooperação atenuaria. Acresce ainda que, por desatenção, incompetência ou negligência muitas direcções de escolas e agrupamentos não vão muito longe na definição de dispositivos de apoio, recorrendo a outros docentes mais experientes ou à presença de dois professores por exemplo, que dariam aos professores apoio e confiança para o trabalho com os seus alunos.
Acresce ainda a conflitualidade emergente entre os próprios professores resultantes, por exemplo, de políticas públicas inadequadas em termos de questões profissionais (mecanismos de progressão e estatuto salarial, grupos disciplinares, funções desempenhadas na escola/agrupamento, etc) ou agendas decorrentes da partidocracia. São múltiplos os discursos tensos, para ser simpático, entre os fiéis devotos da "revolução" em curso, das poções mágicas, da "inovação" e os que levantam dúvidas ou questionam opções. Dir-me-ão que tudo isto é próprio de sociedades abertas e, como se costuma a afirmar, é "a democracia a funcionar". Será mesmo?
Talvez tudo isto também esteja associado ao clima de desencanto e cansaço que alimenta orisco de "burnout" que ameaça uma classe envelhecida que troca entre si a pergunta "quanto tempo é que te falta?"
As redes sociais e o ambiente em muitas escolas mostram esta crispação que é frequente e, por vezes, intensa. Embora se perceba este cenário também fragiliza os profesores enquanto classe profissional.cia e intensidade. 
Finalizando, independentemente de outras medidas certamente necessárias, urge caminhar no sentido de reconstruir os discursos sociais sobre os professores como fonte imprescindível de autoridade, saber e importância e, paralelamente, incentivar a construção nas escolas de dispositivos leves e ágeis de cooperação e de apoio aos professores para que cada um não se sinta entregue a si próprio e com receio de "enfrentar" os alunos e os pais, a pior das situações em que um docente se pode sentir.
Este caminho é da responsabilidade de todos, ministério, sindicatos, direcções de escola pais, professores e alunos.
Creio que é urgente, é para hoje.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A LER "DEFICIÊNCIA: NÃO HÁ CÁ COITADINHOS"


O texto, diria o manifesto, de Carmen Garcia no Público, “Deficiência: Não há cá coitadinhos” é uma impressiva e inspiradora reflexão sobre a experiência de vida de pais com filhos com algum tipo de deficiência. A ler.
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Permitam-me que insista em ideias e notas que muitas vezes já aqui deixei.
A verdade, mais uma vez e sempre, é que sem ser por magia ou mistério quando acreditamos que as pessoas, mais novas ou mais velhas, com algum tipo de necessidade especial, são capazes, não se "normalizam" evidentemente, seja lá isso o que for, mas são, na verdade, mais capazes, vão mais longe do que admitimos ou esperamos, mesmo tão longe como qualquer outra pessoa. Não esqueço a gravidade de algumas situações mas, ainda assim, do meu ponto de vista, o princípio é o mesmo, se acreditarmos que eles progridem, que eles são capazes de ... , o que fazemos, provoca progresso, o progresso possível e níveis de realização significativos.
E isto envolve professores do ensino regular, de educação especial, técnicos, pais, lideranças políticas, empregadores e toda a restante comunidade.
No entanto, em algumas circunstâncias o trabalho desenvolvido com e por estes alunos é ele próprio um factor de debilização, ou seja, alimenta a sua incapacidade, numa reformulação do princípio de Shirky.
Tal facto, não decorre da incompetência genérica dos técnicos, julgo que na sua maioria serão empenhados e competentes, mas da sua (nossa) própria representação sobre este grupo de pessoas, isto é, não acreditam(os) que eles realizem ou aprendam. Desta representação resultam situações e contextos de aprendizagem e formação, tarefas e materiais de aprendizagem, expectativas baixas traduzidas na definição de objectivos pouco relevantes, que, obviamente, não conseguem potenciar mudanças significativas o que acaba por fechar o círculo, eles não são, de facto, capazes. É um fenómeno de há muito estudado.
Mais uma vez. A inclusão assenta em quatro dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade) e Aprender (como qualquer pessoa para potenciar as suas capacidades adquirindo competências e saberes). Estas dimensões devem ser operacionalizadas assentes em modelos de diferenciação justamente para que acomodem e respondam à diversidade das pessoas.
É neste sentido que devem ser canalizados os esforços e os recursos que deverão, obrigatoriamente, existir. Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências noutras paragens, mas também por cá como a que serve de base a este texto, mostram que não é utopia.
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.