No âmbito de uma conferência do Edulog, "Preparar o Futuro", o think-tank para a Educação da Fundação Belmiro de Azevedo, foram apresentados dados do Projecto Ler coordenado por Isabel Leite centrado no desenvolvimento das competências de leitura em crianças no início da escolaridade.
Envolveu 6513 crianças do último
ano do pré-escolar, 1.º e 2.º ano e envolveu escolas públicas e privadas, 34%
das crianças do pré-escolar e 12% das que frequentavam o 1.º e 2.º anos estavam
em escolas privadas.
No que respeita à fluência de
leitura no final do 1.º ano, cerca de 50% dos alunos lêem menos de 37 palavras
por minuto sendo que 25% não conseguem ultrapassar as 21 palavras por minuto.
Na continuação do estudo estão a
ser analisadas outras dimensões para lá da fluência de leitura e as diferenças
que se registam, mais do que a escola ser pública ou privada, parecem mais associadas
ao nível de escolaridade dos pais o que é também esperado sustentado em
múltiplos estudos sobre aprendizagem.
Neste âmbito, recordo resultados do Diagnóstico de Fluência Leitora que o Instituto da Educação, Qualidade e Avaliação, realizou em Junho e divulgado em Dezembro que envolveu 92813 alunos do 2.º ano, cerca de 95% dos alunos registados e também alunos a frequentar ensino privado.
Considerando globalmente os
resultados, os alunos leram correctamente e em média 75 palavras o que se situa
no intervalo de referência considerado para o final do 2º ano de aprendizagem,
70 a 130 palavras lidas correctamente, ainda que numa zona baixa desse
intervalo.
No entanto, cerca de 25% dos
alunos não atingiram mais do que 51 palavras o que pode significar “risco de
dificuldades futuras de compreensão leitora".
Como aqui referi na altura de
realização do Diagnóstico, são óbvios a importância e o impacto da leitura no
conjunto das diferentes literacias como também são importantes os diferentes
dispositivos de avaliação externa.
A velocidade de leitura é
considerada um preditor da capacidade de compreensão de leitura, mas é
fundamental não esquecer dimensões essenciais como compreensão e prosódia.
A grande dificuldade é que as
escolas tenham condições para desenvolver a intervenção e as estratégias
adequadas para promoção das competências de leitura (e as outras) bem como
equipadas com os necessários recursos, desde logo professores em número suficiente
e com efectivos de turma adequados.
Na altura, o MECI informou que
está "a preparar um conjunto de medidas orientadas para o reforço das
competências básicas de leitura nos primeiros anos de escolaridade, que seriam
anunciadas, mas de que não dei conta.
Como já aqui tenho escrito, os
livros e a leitura são bens de primeira necessidade para gente de todas as
idades donde a insistência. Recordo sempre Marguerite Yourcenar que em “As
Memórias de Adriano” escrevia “A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz
humana.”
São múltiplos os estudos e
referências que sublinham o impacto dos livros e da leitura no desenvolvimento
e múltiplas competências escolares bem como no trajecto pessoal.
Lamentavelmente, são também muitos os trabalhos que mostram que os hábitos de
leitura são pouco consistentes entre as crianças, adolescentes e jovens como,
sem surpresa, também o são entre a população em geral. Nos últimos tempos
parece estar a despertar um maior interesse pelos livros, sobretudo entre os
mais novos, associado a um fenómeno das redes sociais, os booktokers que lêem e
divulgam livros no TikToK. Esperemos que se mantenha e fortaleça.
Os livros têm uma concorrência
fortíssima com outro tipo de materiais, telemóveis, jogos ou consolas por
exemplo, e que nem sempre é fácil levar as crianças, jovens ou adultos a outras
opções, designadamente aos livros.
Apesar de tudo isto também
sabemos que é possível fazer diferente, mesmo que pouco e com mudanças lentas.
Só se aprende a ler lendo e o
essencial é criar leitores que, quando o forem, procurarão o que ler, livros
por exemplo, em que espaços, biblioteca, casa ou escola e em que suportes,
papel ou digital.
Um leitor constrói-se desde o
início do processo educativo, escolar e familiar. Desde logo assume especial
importância o ambiente de literacia familiar e o envolvimento das famílias
neste tipo de situações, através de actividades que desde a educação pré-escolar
e 1º ciclo deveriam ser estimuladas, muitas vezes são, e para as quais poderiam
ser disponibilizadas aos pais algumas orientações. No entanto, é preciso não
esquecer e reflectir nas consequências de se ir construindo uma escola que,
como referia António Nóvoa, vai ficando cada vez mais obesa e que, apesar do
tempo enorme que os miúdos passam lá passam, não pode, e talvez não deva,
ensinar o "imenso tudo" que parece ser necessário saber nos tempos
que correm.
Apesar dos esforços de muitos
docentes, a relação de muitas crianças, adolescentes e jovens com os materiais
de leitura e escrita assentará, provavelmente de forma excessiva, nos manuais
ou na realização de trabalhos através da milagrosa “net” proliferando o
apressado “copy, paste” ou resumos disponíveis das obras que são de leitura
obrigatória ou recomendada.
Neste contexto, embora desejasse muito estar
enganado, não é fácil construir miúdos ou adolescentes leitores que procurem
livros em casa, em bibliotecas escolares ou outras e que usem o
"tablet" também para ler e não apenas para uma outra qualquer
actividade da oferta sem fim que está disponível. A iniciativa dos booktokers
que referi acima pode ser um bom sinal.
Felizmente e apesar das
dificuldades também importa sublinhar que se realizam com regularidade
experiências muito interessantes em contextos escolares no âmbito do Plano
Nacional de Leitura e da Rede de Bibliotecas Escolares com os professores
bibliotecários têm desenvolvido um trabalho essencial, ou em iniciativas mais
alargadas a outras entidades como autarquias e instituições culturais.
Esperemos que continue a existir e os professores continuem a poder realizar o
seu trabalho.
Sabemos, sem dúvida, que
precisamos de criar leitores e sendo leitores irão à procura dos livros ou da
leitura, mesmo em tempos menos favoráveis.