A propósito da divulgação de um documento elaborado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, "Vamos falar sobre Necessidades Educativas Específicas", que merece leitura atenta, é referido na SIC Notícias que “Só 39% dos professores dizem-se preparados para um modelo inclusivo” e que 57% dos alunos com NEE graves passa mais de 40% do tempo afastado da turma de pertença.
Uma nota antes de uma abordagem
mais geral. Levanta-me sempre alguma reserva a ideia de que os professores “não
estão preparados para lidar com alunos com NEE”. Primeiro, porque não sei de
que “necessidades especiais“ se trata, as NEE não se definem em abstracto e,
segundo, com os alunos com “necessidades normais” (seja lá isso o que for) as
coisas também nem sempre correm bem, longe disso.
Na verdade, sendo o professor de ensino
regular o actor directo do trabalho em sala de aula a questão crítica da designada "educação inclusiva" é mais lata, trata-se da
qualidade e competência das políticas públicas de educação.
Após cinquenta anos de trabalho
em educação sobretudo direccionado para o lado “especial” já não sei muito bem
o que dizer, mas … não consigo ficar calado.
Quando comecei, nos idos de
setenta, tínhamos uma escola normal para os alunos “normais” e uma escola
“especial”, a "instituição" para os alunos “deficientes”.
Depois conheci escolas normais
que, para além dos alunos “normais” já recebiam alunos “especiais” no ensino
especial, em salas dos “normais” e em salas de ensino especial, as “salas de
apoio”. Chamava-se Educação integrada.
Depois as escolas deixaram de ser
normais e passaram a ser escolas inclusivas, lidam com os alunos normais e com
os alunos “universais”, com os alunos “selectivos” e com os alunos
“adicionais”.
E assim chegámos à “educação
inclusiva” que, apesar do que de muito bom se realiza e dos frequentes exercícios
de “wishful thinking” de que é objecto, faz parte das políticas públicas,
designadamente de educação, e, naturalmente, das consequências da sua qualidade, competência e recursos.
Nesta perspectiva, insisto, o problema não é a falha
na educação inclusiva, é a falha na Educação Falham as políticas públicas de
educação quando são inadequadas, mas com implicações diversificadas, estas sim, inclusivas. Falham, por exemplo, na falta de professores e na sua valorização que, aliás, estão ligadas.
Falham nos profissionais que,
para além dos docentes, são imprescindíveis à educação, técnicos, psicólogos,
por exemplo, mas também em apoios especializados ou assistentes operacionais.
Falham quando submergem os
profissionais numa burocracia que ineficiente e consumidora de recursos e
desgastante.
Falham quando deixam pais e
encarregados de educação inquietos e preocupados e impotentes face às
dificuldades sentidas pelos seus filhos para cumprir o direito à Educação.
Falham quando os recursos são
escassos ou ineficientes.
Falham quando …
Não, as políticas públicas de
educação não falham na Educação Inclusiva, falham mesmo na Educação.
PS - Não deveria ser necessário,
mas conheço e todos conhecemos e reconhecemos o que de muito bom se realiza
diariamente nas escolas. Dito de outra forma, todos os dias acontece Educação
em todas as escolas. Não precisamos de lhe chamar Inclusiva.