De acordo com dados do INE o número de crianças que nasceram em Portugal aumentou 3,7% em 2025. Um terço das crianças nascidas são filhas de mães estrangeiras.
Trata-se de uma boa notícia, mas a situação portuguesa a renovação geracional continua a agravar-se. Como aqui escrevi há algum tempo, Portugal integra o grupo com menores apoios sociais para que os pais fiquem mais tempo em casa com filhos pequenos. Acresce que, sobretudo nas zonas mais urbanas, (o interior desertifica-se o que também contribui para a baixa natalidade), a oferta de estruturas formais de acolhimento de bebés e crianças é insuficiente. Para além disso, Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças.
O emprego jovem dada a instabilidade e rendimento, somos um dos países com mais trabalho precário entre os mais novos, torna muito difícil assumir o encargo dos filhos agravado pelos obstáculos
à maternidade de mulheres empregadas.
Importa ainda não esquecer a
discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor
qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua
“flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias
sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a
intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por
gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas
para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc. Existem empresas
que exigem às mulheres um compromisso de que não irão engravidar nos próximos 5
anos. Não adianta argumentar com o quadro legal existente ou que venha a
existir. Em Portugal, com demasiada frequência, a lei tem mais um carácter
indicativo que imperativo.
O fluxo de emigração jovem nos
últimos anos é elevado e é pouco provável que se verifique o retorno da maioria
que emigrou.
Por outro lado, em tempos
altamente competitivos com a proletarização do trabalho com salários baixos e e
nas prestações sociais insuficientes, as pessoas hipotecam os projectos de vida
em troca das migalhas que permitam a sobrevivência o que lhes retira margem
negocial ou liberdade de escolha.
A fiscalização e regulação são
insuficientes, uso e abuso de estágios não remunerados ou miseravelmente pagos
e que não asseguram continuidade, condições de trabalho degradantes cuja não
aceitação implica a perda do lugar em troca por alguém ainda mais necessitado
e, portanto, calado.
A promoção de projectos de vida
familiar que incluam filhos implica, necessariamente, intervir nas políticas de
emprego e protecção do emprego e da parentalidade, na discriminação e combate
eficaz a abusos e a precariedade ilegal, na inversão do trajecto de
proletarização com salários que não chegam para satisfazer as necessidades de
uma família com filhos e custos elevados na educação apesar de uma escolaridade
dita gratuita, na fiscalidade, por exemplo. A questão é que a política que tem
vindo a ser seguida não permite acreditar que existam alterações.
É ainda urgente que se promova a
estabilidade de emprego a acessibilidade real (na distância e nos custos) aos
equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública
de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida.
É uma questão de futuro.