sexta-feira, 3 de julho de 2026

MALTRATAR NÃO É GOSTAR

 No Expresso de hoje encontra-se peça extensa e elucidativa de uma matéria que é fonte de sofrimento significativo, a violência nas relações de namoro de adolescentes e jovens.  Para além da referência a alguns casos reais, são referidos alguns dados do estudo anual sobre violência no namoro realizado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) inquirindo 8080 jovens com idades entre os 12 e os 21 anos que aqui já referi quando foi divulgado no início do ano.

Na verdade, estes dados, lamentavelmente, já não surpreendem, e continuam preocupantes. A maioria dos inquiridos, 68,2%, não considera violência no namoro pelo menos um dos comportamentos analisados.

No namoro juvenil, a violência nem sempre se mostra visível. A maioria dos inquiridos, 68,2%, não reconhece como violência no namoro pelo menos um dos comportamentos analisados. De facto, 53,5% desvaloriza atitudes controladoras e a perseguição não é entendida como um problema por 40,9% dos jovens. Aceder às redes sociais e mensagens sem autorização do parceiro(a) ou procurá-lo de forma insistente ao longo do dia são comportamentos legitimados por mais de um terço dos inquiridos.

Também a violência psicológica, insultar durante uma discussão por ex., não é reconhecida como tal por 27,6% dos jovens e 12% não consideram abusivo que essas ofensas sejam divulgadas nas redes sociais.

A violência sexual e a física surgem como as menos normalizadas. No entanto, 14%, mais de mil jovens, entendem como normal pressionar alguém para beijar ou mesmo beijar contra a vontade e 5,9% (479) consideram que magoar fisicamente o companheiro(a) com empurrões ou bofetadas não configura violência no namoro.

São os jovens do sexo masculino, 44% da amostra, que mais entendem como legítimas todas as formas de violência analisadas. Entre os géneros as diferenças são mais claras relativamente ao controlo e na violência psicológica. Nos rapazes, 65,3% não reconhecem que controlar a namorada ou namorado seja uma forma de violência. Nas raparigas, o valor é 43,3%, ainda assim significativo.

No mesmo sentido, recordo um trabalho também realizado pela UMAR com financiamento da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género divulgado em 2024 e envolvendo 6152 jovens entre o 7.º e o 12.º considerando duas dimensões, legitimação e prevalência dos indicadores de violência, também se encontram dados inquietantes.

É significativo que 68,1% dos inquiridos legitimam pelo menos um tipo de violência, sendo que controlo (54,6%) e violência psicológica (33,5%) são os mais referidos sendo ainda que 27,9% dos jovens consideram normal ser insultado numa discussão.

No que respeita a tipos de violência a que foram sujeitos, 63% dos jovens referem que já estiveram numa relação em que passaram pelo menos por um tipo de violência.

Assim, 43% refere a proibição de estar ou falar com alguma pessoa, 39,9% viveram pelo menos uma forma de violência psicológica, 20,4% de perseguição, e 18,4% de alguma forma de violência sexual, nomeadamente serem obrigados a beijar, e 11% sofreram violência física.

São indicadores suficientes para que nos sintamos apreensivos e o  que torna a situação ainda mais complexa é a manutenção sem grandes alterações destes indicadores ao longo dos anos, incluindo trabalhos com estudantes do ensino superior, o que talvez ajude a perceber como a violência doméstica parece indomesticável.

Os dados convergem no indiciar do que está por fazer em matéria de valores e comportamentos sociais. Acresce que boa parte das situações de abuso não são objecto de queixa.

Este conjunto de dados é preocupante, gostar não é compatível com maltratar, mas creio que não é surpreendente, lamentavelmente. Os dados sobre violência doméstica em adultos que permanece indomesticável deixam perceber a existência de um trajecto pessoal anterior que suporta os dados muitos trabalhos sobre violência no namoro e que se mantêm inquietantes. Aliás, nos últimos anos a maioria das queixas de violência doméstica registadas pela APAV foram de mulheres jovens embora seja um drama presente em todas as idades.

Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores sociais presentes em cada época. De facto, e reportando-nos apenas aos dados mais gerais, é criticamente relevante a percentagem de jovens, incluindo estudantes universitários, que afirmam um entendimento de normalidade face a diferentes comportamentos que evidentemente significam relações de abuso e maus-tratos.

Como todos os comportamentos fortemente ligados à camada mais funda do nosso sistema de valores, crenças e convicções, os nossos padrões sobre o que devem ser as relações interpessoais, mesmo as de natureza mais íntima, são de mudança demorada. Esta circunstância, torna ainda mais necessária a existência de dispositivos ao nível da formação e educação de crianças e jovens; de uma abordagem séria persistente nos meios de comunicação social; de um enquadramento jurídico dos comportamentos e limites numa perspectiva preventiva e punitiva e, finalmente, de dispositivos eficazes de protecção e apoio a eventuais vítimas.

Só uma aposta muito forte na educação, escolar e familiar, pode promover mudanças nos comportamentos nas relações de namoro entre os mais jovens (e não só). É uma aposta que urge e sublinha a necessidade de matérias desta natureza serem objecto de abordagem na educação escolar sendo que não terão de o ser de uma forma “disciplinarizada”. Não me parece que haja outro caminho.

Entretanto e enquanto não muda, "só faço isto, porque gosto de ti, acreditas não acreditas?". Não, não se pode acreditar.

Retomo como iniciei. Apesar dos dias inquietantes que vivemos e para os quais não estávamos preparados, talvez seja de não esquecer questões como estas que devastam o quotidiano de muita gente.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A REVISÃO DO DL 54/2018, A CHAMADA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

 Está em discussão pública a proposta de alteração do DL 54/2018 relativo à chamada a educação inclusiva.

Comecei a ler e parei no que se propõe para artº 1 “O presente decreto-lei estabelece os princípios e as normas que garantem a inclusão, enquanto processo que visa responder à diversidade das necessidades e potencialidades de todas e de cada uma das crianças e jovens, através do aumento da participação nos processos de aprendizagem e na vida da comunidade educativa.”

Vamos então ter um DL que garante a inclusão, está muito bem, mas no mundo em que vivemos nada garante a inclusão. Acresce que, do meu ponto de vista, todo o quadro normativo e legislativo relativo à Educação deverá ter como desígnio … garantir a Educação e a sua qualidade … para todos os alunos. A formulação proposta alimenta a representação sobre os “especiais”, mesmo que alguns sejam “universais”.

Deixem-me recuperar algumas notas.

Há uns meses foi divulgado o mais recente inquérito realizado pela Fenprof direccionado para a resposta aos alunos com necessidades especiais.

Responderam ao inquérito 147 directores de agrupamentos e escolas, 18% do total no continente, e envolveu 9252 turmas, 188 262 alunos e 19 231 docentes, 1 303 de educação especial. Alguns dados.

No conjunto das turmas envolvidas, 15 437 alunos beneficiam de apoio específico, 8,2% do total, sendo que 12 237 são abrangidos por medidas selectivas e 3 200 por medidas adicionais. A estes alunos acrescem   17 132 estudantes, 9%, que recebem "apoio indirecto", sem intervenção directa do professor de educação especial, apenas orienta o professor da turma. O docente de educação especial dá orientações ao docente titular da turma sobre como trabalhar com os alunos, mas não trabalha directamente com eles.

De acordo com os directores escolares 47,6% das turmas envolvidas no estudo deveriam ser reduzidas, deveriam ter menos de 20 estudantes e, no máximo, dois alunos com necessidades especiais. Das 9252 turmas examinadas, 27,1% das turmas com alunos com necessidades educativas está sobrelotada, 12,4% tinha mais de 20 alunos, 8% tinha mais de dois alunos com NE e 6,7% tinha mais de 20 alunos e mais de dois alunos com NE considerando a legislação.

No que respeita a recursos humanos, 82,3% dos directores referem "não ter os recursos necessários para aplicar uma educação efectivamente inclusiva, ou seja, o que está previsto" na legislação.

De forma mais fina, 74,3% refere a insuficiência de professores de educação especial suficientes e 71,6% afirmaram ter ficado com horários por preencher sem qualquer candidato. No entanto, 8,1% dos docentes com esta especialização, na sua maioria dos quadros dos agrupamentos, tiveram de assumir turmas.

Acresce que 76,9% dos directores refere a falta de assistente operacionais e 79,6% a insuficiência de técnicos especializados, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, mediadores sociais e culturais ou assistentes sociais.

É um quadro preocupante, mas expectável face ao resultado de anos anteriores e, naturalmente, da situação global do nosso sistema educativo, falta de recursos humanos, professores e técnicos e a questão de fundo, políticas públicas de educação no sentido correcto e com os meios necessários. A falta de docentes é uma questão crítica.

Voltando à inclusão, vou repetir algumas ideias, mas esta área foi a minha vida profissional, quase 50 anos. Comecei a trabalhar no universo da educação, em particular da educação para alunos com necessidades especiais, (à época os alunos com deficiência) em 1976 e aposentei-me definitivamente em 2024, sempre nesta área, a educação. Como as pessoas ligadas à educação sabem ou irão saber, de professor e de pai nunca nos reformaremos por mais longa que seja a nossa vida. Também é curioso que a minha companheira de estrada tenha sido professora de educação especial no 1.º ciclo durante a quase totalidade da carreira, achando eu que tive alguma responsabilidade nessa opção.

Dito isto, comecei no tempo das escolas especiais organizadas por deficiência (eu ligado à primeira CERCI que se constituiu, a de Lisboa), trabalhei no tempo da educação especial, no tempo da integração e das equipas de professores de ensino especial e, finalmente, no tempo da inclusão.

Sempre com esperança, acompanhei a mudança de quadro conceptual e legal que enquadrava este trabalho, ah, já me esquecia, também acompanhei as mudanças de paradigma, como sabem as coisas só mudam quando muda o paradigma, passei do paradigma da escola especial, para um paradigma combinado já com salas de ensino especial (salas de apoio) na escola regular, passei depois para o paradigma da integração, os alunos passaram a estar fundamentalmente integrados em turmas de ensino regular com acompanhamento dos professores de educação especial e, finalmente, o paradigma da inclusão, os alunos, todos os alunos, estão incluídos, já não são estigmatizados como alunos com necessidades educativas especiais. Assim, os alunos que revelavam algum tipo de dificuldade passaram a ser objecto de medidas educativas arrumadas em três categorias, as medidas “universais”, as medidas “selectivas” e as medidas “adicionais”. Isto parece que é uma outra forma de categorizar, mas não é. No paradigma da educação inclusiva é assim que se faz.

E pronto, chegámos à educação inclusiva, somos um exemplo para muitos países que se organizam nos velhos paradigmas, ainda não chegaram à educação inclusiva. Esperemos que lá cheguem, mas os ventos não vão de feição para os mais vulneráveis.

No entanto, a maldita realidade nem sempre colabora. Eu reconheço e conheço, sempre conheci, excelentes e inspiradores trabalhos de professores, técnicos, pais, escolas ou instituições ao longo destas quase cinco décadas de paradigmas diferentes. No entanto, também importa reconhecer, veja-se os dados acima e outros, por exemplo de relatórios da IGEC, que propagandear discursos sobre inclusão assentes em “wishful thinking” ou torturar a realidade para que se mostre diferente não é assim muito eficaz. Não, muitos alunos não estão incluídos nem sequer integrados, estão “entregados” com as consequências que professores, técnicos e pais bem conhecem. E importa considerar que não estou apenas a referir-me aos alunos “categorizados” pelas "não categorias", os “Selectivos”, os “Adicionais” ou os “Universais”. De facto, existem ainda muitos outros alunos que, lembrando Sam the Kid, fazem parte de uma percentagem que a sondagem nunca mostra.

Desculpar-me-ão a heresia ou descrença, mas uma escola inclusiva é algo que não existe e, provavelmente, não existirá nos tempos mais próximos. Os modelos e estilos de vida actuais, económicos, políticos, sociais, culturais, as assimetrias brutais que se mantêm são pouco compatíveis com “uma escola inclusiva”. São brutalmente inquietantes os tempos que vivemos. Existem escolas, isso sim, que desenvolvem excelente trabalho com alguns alunos, o que é diferente de “uma escola inclusiva”.

Eu sei e gosto de acreditar que a escola é, também, uma alavanca de mudança, mas a verdade é que a escola, de uma forma ou de outra, é sobretudo um reflexo da sociedade que serve no tempo histórico em que vive.

No entanto, em nome dos meus netos e de todos os netos que serão o futuro, bem como das minhas convicções e como disse acima, acredito numa escola que possa, quanto possível, promover educação, a relação diária entre quem está na escola, assente em princípios de educação inclusiva. E neste sentido em todas escolas existirá educação inclusiva, há sempre quem a promova mesmo em contextos menos favoráveis.

A designação está tão desgastada que já nem sabemos bem o que significa. No entanto e de uma forma simples, entendo que a inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem os princípios inalienáveis da autodeterminação, autonomia e independência.

Finalizo voltando ao início, as políticas públicas são onerosas, a política pública de educação é onerosa, a suficiência de recursos será sempre uma questão problemática, mas é, também, por aqui que se avaliam a competência e adequação das… políticas públicas. E, fazendo bem as contas, a exclusão tem custo bem mais elevados.

Reafirmo que não esqueço o que positivo se faz, mas conheço tantas práticas e tantos discursos que alimentam exclusão, mas que são desenvolvidas e enunciados ... em nome da inclusão. Sempre recordo o Mestre Almada Negreiros na "Cena do Ódio" quando falava da "Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões".

Desculpem a extensão do texto.

Acho que ainda voltarei à proposta de revisão do DL 54/2018, mas gostava de ter o optimismo que tinha há umas décadas lá atrás no tempo. Coisa de velho, já se vê.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A TERRA ESTÁ ZANGADA

 Está zangada a Terra, queima, alaga, destrói, treme …

Imagino que a Terra comece a ficar cansada da irresponsabilidade delinquente desta gente que a povoa, sobretudo dos que lideram. Depois de tanta asneira, insistem nos maus-tratos e não se entendem sobre a forma de mudar de rumo.

Dão-lhe cabo das entranhas, alteram-lhe o clima, mudam paisagens, esgotam-na, deixam-na estéril e sem sustento.

A minha avó Leonor, mulher de sabedoria, costumava dizer que não era bom a gente meter-se com a Terra, com a natureza, e maltratá-la. A natureza vai ser sempre maior que a gente e não aceita que mandem nela.


terça-feira, 30 de junho de 2026

NOTÍCIAS DO MECI

 O MECI, Ministério dos Enleios, Caliqueiras e Irresponsabilidade, recorrendo a algum vocabulário aqui do Alentejo, está imparável.

A trapalhada dos exames e da sua correcção de que, afinal, são as escolas e direcções os grandes responsáveis, continua sem fim à vista. Nada de novo, o ímpeto reformista do Governo, aqui na área da educação e, certamente, já como efeito da hiperactividade e hipercompetência, (não existirá o termo, mas fica a ideia) do Ministro Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado, já está a resultar.

O Ministro da Educação, homem sensato e ponderado, regista que a "A digitalização está a ocorrer sem grandes problemas e reconhece que surgiram algumas "dificuldades técnicas" resultantes da "novidade do sistema". Pois.

É ainda de registar que num encontro com professores os encontrou com “boa disposição”. Pois.

Ainda bem que assim é, motivos não faltam e o contrário seria estranho e ingratidão.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

VIDA INDEPENDENTE, É PRECISO INSISTIR

 Realizou-se ontem no Porto a 9.ª edição da Marcha pela Vida Independente. É urgente a necessidade de alargar a resposta aos problemas das pessoas com deficiência e uma questão crítica é a vida independente. Apenas existem 35 Centros de Apoio à Vida Independente o que é manifestamente insuficiente.

Recordo que em Abril o Parlamento aprovou um projecto de lei do PS com o objectivo de reforçar os dispositivos de assistência pessoal a pessoas com deficiência e um projecto de resolução do Chega sobre a mesma questão.

A proposta do PS pretendia alargar a resposta e a gratuitidade do serviço de assistência pessoal para pessoas com deficiência, no âmbito do Modelo de Apoio à Vida Independente (MAVI). Esta iniciativa promoveria mais apoio à autonomia e à inclusão. Propunha-se aumentar a cobertura nacional da resposta estabelecendo novos acordos com Centros de Apoio à Vida Independente e do aumento da capacidade dos já existentes. Era definido como objectivo conseguir no primeiro ano um aumento de 30% da resposta disponível, incluindo mais horas de assistência. Continuamos a aguardar.

Retomo umas notas que muitas vezes aqui tenho deixado, recordando o que escrevi em 5 de Maio de 2025, o Dia Europeu da Vida Independente, em que se realizaram manifestações em oito cidades portuguesas com o objectivo de "chamar a atenção para um conjunto de questões que continuam por resolver no que diz respeito aos direitos das pessoas com deficiência".

Na verdade, tantas vezes digo e repito, a vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que ampliam de forma inaceitável a limitação na mobilidade que a sua condição, só por si, pode implicar. No entanto, muitos dos obstáculos não têm apenas a ver com barreiras físicas, remetem para a falta de senso, incompetência ou negligência com que gente responsável(?) lida com estas questões.

Muitos destes obstáculos estão associados ao que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo, entendem ser os direitos, o bem comum e o bem-estar das pessoas, de todas as pessoas.

Como é evidente, existem muitas outras áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente apoios sociais, educação, qualificação profissional e emprego, habitação, em que a vulnerabilidade e os riscos de exclusão e pobreza são elevados traduzido em taxas de desemprego entre pessoas com deficiência muitíssimo superiores à verificada com a população sem deficiência.

Uma das questões críticas também a considerar prende-se com os apoios à vida independente, designadamente o apoio para as pessoas tenham acesso a assistente pessoal, "A vida independente, para ser possível, é preciso ter o direito à habitação, é preciso ter acesso à habitação, aos transportes, à educação inclusiva, ao trabalho, mas há uma ferramenta que é fundamental, que é a assistência pessoal". Alguns milhares de pessoas aguardam o acesso a assistente pessoal.

Como tantas vezes tenho afirmado e escrito durante décadas, a inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.

As pessoas com deficiência não precisam de tolerância, não precisam de privilégios, não precisam de caridade, precisam só de ter os seus direitos considerados. Os direitos não são de geometria variável cumprindo-se apenas quando é possível ou numa lógica de serviços mínimos que mascara a realidade.

Este é o caderno de encargos que nos convoca a todos.

domingo, 28 de junho de 2026

MAU DEMAIS

 A obesidade de um Ministério que tutela o ensino básico, o secundário, o superior e a investigação científica tem como efeito trágico que a incompetência produza efeitos em múltiplos sectores.

Ontem referi aqui a questão crítica relativa aos exames finais do secundário e tudo o que tem estado a ser divulgado e questionado.

Hoje uma chamada de atenção para dois textos divulgados no Público relativos às mudanças no ensino superior e na investigação. “Universidades de investigação ou fábricas de produção de diplomas?"  de Mário A. Barbosa e ”Da falecida Fundação para a Ciência e a Tecnologia ao coma da AI²” de João Conde merecem leitura atenta.

Poderia recordar a fórmula mais erudita de Lampedusa, em “O Leopardo” e a ideia de que "é preciso que tudo mude para tudo fique na mesma”, mas prefiro a mais portuguesa, “cada cavadela, cada minhoca” como ontem utilizei a propósito da ”barraca” dos exames do secundário.

É mau demais.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

À SOMBRA DA LEI DE MURPHY

 Parece estarmos a atravessar no mundo da educação um período informado pela conhecida lei de Murphy que se pode traduzir em algo como “tudo o que pode correr mal, está mesmo a correr mal”.

Para além das dificuldades que se registaram na utilização e eficiência dos recursos digitais, com a questão dos processos, conteúdos e dispositivos de correcção dos exames temos uma nova trapalhada. Recordo a ideia de criar em cada exame um conjunto de questões âncora que permitissem a comparação de resultados durante vários anos. Ficará certamente para ...

Esperemos que um emergente movimento no sentido de repensar o papel crítico, sublinhe-se, dos recursos digitais possa contribuir para um maior equilíbrio e, naturalmente, assegurar a garantia de equipamentos suficientes e adequados para a sua ajustada utilização ao longo da escolaridade.

O sistema educativo precisa urgentemente de alguma serenidade, previsibilidade e competência. Recordo que ainda não se sabe quantos alunos não têm, não tiveram, professores a todas as disciplinas

Assente num discurso sobre mudança, inovação e competência o MECI funciona em modo “cada cavadela, cada minhoca”.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

DOS APOIOS ESPECIALIZADOS

 Ontem realizou-se em frente ao MECI uma manifestação de pais, professores e técnicos das designadas instituições de ensino especial que providenciam a educação escolar e apoios especializados a alunos com necessidades especiais que boa parte das vezes passaram por grandes dificuldades de apoio nas escolas regulares e com o acesso ao subsídio de educação especial cujo valor será insuficiente para a manutenção dos apoios e funcionamento das instituições que enfrentam sérias dificuldades. Temem não garantir o início do próximo ano lectivo.

A resposta de natureza mais especializada é crítica para o desenvolvimento e trajecto educativo para muitas crianças e jovens com necessidades especiais, também porque o cenário verificado nas escolas regulares em matéria de apoios educativos tem graves carências como tantas vezes aqui tenho abordado. Esta matéria foi o meu universo profissional durante quase 50 anos.

Apesar das boas experiências que, felizmente, existem, a falta de recursos, equipamentos e humanos (professores, técnicos e auxiliares), o incumprimento dos ratios na constituição de turmas, um excesso de utilização do “outsourcing” que em educação é pouco eficiente são algumas das questões sentidas por todos que lidam com a educação escolar.

Não é nada de novo, os mais vulneráveis são sempre os que sofrem mais.

Mas não é uma fatalidade, fazemos os dias assim, como cantam os Trovante.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

QUANDO OS SANTOS ERAM (MAIS) POPULARES

 Há muitos anos, no tempo em que eu era miúdo, a zona onde nasci e vivia, perto de Almada, era ainda feita de poucas casas e algumas quintas, não havia a ponte com o nome cujo significado era um sonho longe naquela altura, a época dos santos era esperada com alguma excitação por nós, os mais pequenos, mas não só, evidentemente.

O santo que nos pertence é o S. João, é hoje o dia e daí estas notas, mas todos nos serviam, o S. António em Lisboa e o S. Pedro no Seixal também eram populares pretextos para nos divertirmos.

Os adultos organizavam umas festas nas ruas com bailarico e as incontornáveis sardinhas e bifanas, com rega é claro, que vendiam para financiar uma excursão ao estrangeiro, a Badajoz quase sempre, que naquele tempo o “nosso” estrangeiro era perto e o dinheiro sempre curto.

Mas para nós, para além de uns desaparecidos "pirolitos" em garrafas que tinham um berlinde de vidro, os santos eram sobretudo as fogueiras, isso sim, as fogueiras.

Uns dias antes de cada santo, por assim dizer, e por zonas começávamos a juntar lenha. Para tal, fazíamos umas visitas às quintas da terra, ainda havia muitas que agora têm prédios plantados e, sobretudo, organizávamos umas expedições às obras em curso e "recolhíamos" toda a madeira que conseguíssemos e que acumulávamos procurando tê-la sempre debaixo de olho, porque a carne do pessoal das outras zonas era fraca e poderia não resistir à tentação de "levar" a nossa lenha.

Nos dias da celebração a fogueira durava enquanto houvesse lenha e vontade de saltar por cima dela. Tratava-se então de saber quem era mais corajoso e enfrentava as chamas mais altas. À custa destas exibições sempre conseguíamos umas vistosas aterragens falhadas do outro lado ou uma roupa chamuscada.

Também se lançavam foguetes e todos os anos um balão de ar quente feito por nós e cheio de cores que, quando voava sem problemas, era uma festa dentro da festa.

Ainda brincávamos na rua e nestas noites era até tarde.

Havia inevitavelmente sempre o espectáculo extra de alguns dos adultos já com algum lastro alcoólico, digamos assim, tentarem mostrar dotes de saltadores de fogueiras e a coisa não acabar bem.

Com alguma regularidade e como número extra, tínhamos direito a uma cena de lambada, sem grandes consequências porque festa é festa, na qual quase sempre estava envolvida uma figura mítica da minha terra, o meu saudoso amigo Pedro, mais conhecido pelo Sucata. Era homem que andava por um enorme metro e sessenta, mas era a pessoa mais amiga de arranjar uma confusãozinha de onde saía, invariavelmente, com mais umas lambadas e, é verdade, mais uns amigos que lhe pagavam um copito. Tenho saudades do velho Sucata.

Os santos na minha terra já não são tão populares, limitam-se a oferecer feriados e algumas iniciativas. Muitas delas, por assim dizer, são de “plástico”.

terça-feira, 23 de junho de 2026

A MATEMÁTICA É UMA COISA MUITO DIFÍCIL

 Hoje realiza-se o exame de Matemática do 12.º ano. A esse propósito o Público tem uma entrevista notável com Marcelo Viana, professor e investigador de Matemática e com uma extensa obra de divulgação. A entrevista está com o título, “Costumo dizer que a profissão de professor de Matemática é a mais difícil do mundo” e merece leitura, reflexão e divulgação.

Na verdade, a relação que os alunos estabelecem com a Matemática e o seu desempenho, para além das incontornáveis e nunca consensuais, mesmo entre a classe docente, perspectivas relativas aos conteúdos curriculares e como aqui já tenho abordado, podem ainda ser influenciadas, não numa relação de causa-efeito, por múltiplas variáveis como número de alunos por turma, tipologia das turmas e das escolas e dos contextos, dispositivos de apoio às dificuldades de alunos e professores ou questões de natureza didáctica e pedagógica.

Acresce a esta complexidade um conjunto de outras variáveis, por vezes menos consideradas,  mas que a experiência e a evidência mostram ter também algum impacto.

São variáveis de natureza mais psicológica como a percepção que os alunos têm de si próprios como capazes de ter sucesso associada a contextos familiares de natureza diversa, por exemplo.

É também conhecido e os resultados do PISA sublinham, que os pais com mais qualificação e de mais elevado estatuto económico têm expectativas mais elevadas sobre o desempenho escolar dos filhos o que se repercute na acção educativa e nos resultados escolares e, naturalmente, mais facilmente mobilizam formas de ajuda para eventuais dificuldades, seja nos TPC, seja através de ajuda externa.

Finalmente uma outra variável neste âmbito, a representação sobre a própria Matemática. Creio que ainda hoje existe uma percepção passada nos discursos de muita gente com diferentes níveis de qualificação de que a Matemática é uma “coisa difícil” e ainda de que só os mais “inteligentes” têm “jeito” para a Matemática. Esta ideia é tão presente que não é raro ouvir figuras públicas afirmar sem qualquer sobressalto e até com bonomia que “nunca tiveram jeito para a Matemática, para os números”. É claro que ninguém se atreve a confessar uma eventual “falta de jeito” para a Língua Portuguesa e, por vezes, bem que parece. A mudança deste cenário é uma tarefa para todos nós e não apenas para os professores e seria importante que acontecesse.

De facto, este tipo de discursos não pode deixar de contaminar os alunos logo desde o 1º ciclo convencendo-se alguns de que a Matemática vai ser difícil, não vão conseguir ser “bons” e a desmotivar-se.

Não fica fácil a tarefa dos professores, mas no limite e como sempre, será a escola, o braço operacional da comunidade, a fazer a diferença.

A entrevista de Marcelo Viana é particularmente interessante nesta abordagem.

É crítico que se consiga promover mais e melhor sucesso e não empurrar os alunos para os anos seguintes sem nenhuma melhoria nas suas competências ou saberes e é essencial, como referia acima, criar e tornar acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e recursos adequados e competentes de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida da retenção a que voltarei amanhã.

Sabemos também que a escola pode e deve fazer a diferença, em muitas escolas isso acontece. Mas para que isto seja consistente e não localizado também sabemos que o sucesso se constrói identificando e prevenindo dificuldades de forma precoce, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio eficazes, competentes e suficientes a alunos e professores, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados e reais de autonomia, organização e funcionamento desburocratizado das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, com a valorização do trabalho dos professores, com práticas de diferenciação que não sejam "grelhodependentes", com expectativas positivas face ao trabalho e face aos alunos, com melhores níveis de trabalho cooperativo e tutorial, quer para professores quer para alunos, etc.

Uma nota final para a importância da avaliação externa como forma imprescindível de regulação. No entanto, não entendo que só por existirem e serem muitos, os exames finais, só por si, insisto, só por si, melhorem a qualidade. É como esperar que só por medir muitas vezes a febre irá baixar. A qualidade é promovida considerando o que escrevi em cima e regulada em termos globais pela avaliação externa que permite análises necessárias, nacionais ou internacionais como, por exemplo, o TIMSS.

É com a escola, por dentro da escola e integrado em sólidos projectos de autonomia e responsabilidade e com recursos adequados que o caminho se constrói.

Sabemos tudo isto. Nada é novo. Só falta um pequeno passo.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

DOS MAUS-TRATOS A MENORES

 No Expresso encontra-se uma peça com uma matéria inquietante, os maus-tratos a menores. Citando o trabalho do Núcleo de Apoio à Criança e Jovem em Risco (NACJR) do Hospital Fernando Fonseca (HFF), na Amadora, em 2025 subiu 10% o número de casos atendidos urgência pediátrica, 565. Destes casos, metade, 285, foram considerados

como comportamentos de perigo e autolesivos. A agressão física é o problema mais comum e é significativa a subida de agressões físicas por parte de outros adolescentes.

A peça do Expresso cita também o último Relatório Anual de Atividade das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens que sublinha os comportamentos de perigo, como a terceira tipologia que mais levou à referenciação de menores às CPCJ em 2025 e que envolve comportamentos graves antissociais e de indisciplina, o bullying (a criança como agressor), consumo de bebidas alcoólicas e de estupefacientes, exposição desadequada nas redes sociais, fuga de casa, jogo a dinheiro, a automutilação, tentativas suicidas, não adesão a terapêuticas de saúde mental e a prática de facto qualificado.

Considerando a pertinência desta questão, maus-tratos a menores, retomo as notas que escrevi há algum tempo a propósito do Relatório Anual de Atividade das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens divulgado em Maio.

Dado o aumento de situações de risco, uma nota sobre as próprias Comissões de Protecção de Crianças e Jovens. São 315 em 308 concelhos e desempenham um papel crítico nas políticas públicas para a infância e juventude. Não dispõem dos recursos de que necessitam, integram 3965 representantes de diferentes ministérios e entidades, mas existem 796 lugares não preenchidos, 27% não têm a composição completa, 10 Comissões não têm presidente e 13 não tem secretário, situação que, obviamente, dificulta o seu trabalho.

Durante o ano de 2025, as CPCJ receberam 62204 comunicações de menores em perigo envolvendo 61158 crianças ou jovens. Este valor representa uma subida de quase 40% desde 2020. Considerando os casos que transitaram de 2024 e os de 2025 as CPCJ têm 94743, um número sempre a subir.

A maioria dos casos foi sinalizada pelas forças de segurança, 42%, das escolas, 17,8%, denúncias de elementos do círculo próximo, 9% e 133 situações comunicadas pelas próprias crianças. É também relevante que a fonte de informação sobre casos que mais subiu foi a denúncia anónima, 7176 casos, mais 16% que em 2024.

Predominam as situações de negligência, falta de supervisão familiar ou negligência em cuidados de saúde por exemplo, a violência doméstica, os comportamentos de perigo, uso de substâncias ou envolvimento em actividades perigosas e o direito à educação comprometido o que inclui situações de absentismo, insucesso e abandono escolar).

São ainda registados casos de exploração infantil e casamento precoce ou forçado são residuais, mas, ainda assim, foram 103 os sinalizados no ano passado.

Umas notas em torno de ideias frequentemente aqui afirmadas. De há muito e a propósito de várias questões afirmo que em Portugal, apesar de existirem diferentes dispositivos de apoio e protecção às crianças e jovens e de existir legislação no mesmo sentido sempre assente no incontornável “superior interesse da criança", não possuímos ainda o que me parece mais importante, uma cultura sólida de protecção das crianças e jovens como alguns exemplos regularmente evidenciam.

Por outro lado, as condições de funcionamento as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens que procuram fazer um trabalho eficaz estão ainda longe de ser as mais adequadas e operam em circunstâncias difíceis. Na sua grande maioria, as Comissões têm responsabilidades sobre um número de situações de risco ou comprovadas que transcendem a sua capacidade de resposta.

A parte mais operacional das Comissões, a designada Comissão restrita, é composta por muitos técnicos em tempo parcial. Tal dificuldade repercute-se, como é óbvio, na eficácia e qualidade do trabalho desenvolvido, independentemente do esforço e empenho dos profissionais que as integram.

Muitas vezes tenho aqui referido a necessidade maior investimento e eficiência no âmbito do sistema de protecção de menores. Para além do reforço dos recursos das CPCJ seria desejável uma melhor integração e oportunidade das respostas a situações detectadas, uma adequação às mudanças e novas realidades na área dos Tribunais de Família e Menores, etc. Os serviços de apoio às comunidades, ainda que regulados e escrutinados, deverão ser suficientes e adequados em recursos e procedimentos.

Este cenário permite que ocorram situações, frequentemente com contornos dramáticos, envolvendo crianças e jovens que sendo conhecida a sua condição de vulnerabilidade não tinham, ou não tiveram, o apoio ou os procedimentos necessários. É então provável que, depois de se conhecerem episódios mais graves, possamos ouvir expressão que me deixa particularmente incomodado, a criança estava “sinalizada” ou “referenciada”, mas dessa "sinalização" não decorreu a adequada intervenção.

Sinalizamos e referenciamos com relativa facilidade, a grande dificuldade é minimizar ou resolver os problemas das crianças referenciadas ou sinalizadas. Importa ainda não esquecer as que passam mal em diferentes aspectos sem que estejam sinalizadas ou referenciadas. Nos tempos que atravessamos os riscos serão maiores.

Por isso, sendo importante registar uma aparente menor tolerância da comunidade aos maus-tratos aos miúdos, também será fundamental que desenvolva a sua intolerância face à ausência de respostas.

As crianças são resilientes, mas família, afecto, contextos educativos de qualidade, são bens de primeira necessidade.

Como afirma, Benedict Wells em “O fim da solidão”, “Uma infância difícil é como um inimigo invisível. Nunca se sabe quando nos vai atingir”.

domingo, 21 de junho de 2026

CÓPIAS E DITADOS

 Na escola do meu tempo, e não só, existiam duas tarefas que constituíam boa parte do nosso trabalho, as cópias e os ditados, os diversos ditados, não só os das letras. Como é evidente, na acção educativa é necessário recorrer, sem reservas infundadas, às cópias, aos modelos, como forma de ajudar a perceber o como fazer e também aos ditados, dizendo sem problemas, ditando, o que deve ser escrito ou realizado. Já não me parece muito razoável que a educação ou, de forma mais alargada, a relação entre as pessoas, assente quase que exclusivamente nas cópias ou ditados.

Em alguns contextos familiares, nem são solicitadas aos miúdos cópias de bons modelos, nem os ditados, as regras e os limites, são eficazes, deixando-os entregues a si próprios e sem dispositivos de regulação.

Talvez sejam sinais dos tempos. Por um lado, a visibilidade mediática e um sistema de valores enviesado cria modelos cuja cópia é assustadora e com resultados preocupantes. Se bem atentarmos nos discursos e comportamentos de muitas lideranças e figuras públicas e também o que fazemos e afirmamos no dia-a-dia muitas vezes produzimos modelos que não deveriam ser copiados, mas são.

Por outro lado, toda a gente, em diversas escalas vai entendendo que a sua verdade é a verdade, pelo que dita o que os outros devem assumir como a verdade do pensar, do fazer, do sentir, do etc.

Reparem como tantas vezes em supostas trocas de opiniões ou ideias, as frases começam por “é assim”, ou seja, dita-se o que se tem a dizer não para trocar mas para informar o outro.

Reparem como as lideranças políticas, económicas, sociais, culturais, etc., em diferentes níveis, do local ao mundial, impõem um ditado sobre o que devemos fazer, como devemos pensar, como devemos viver, reagindo mal a outros entendimentos. Entende-se a perspectiva, os ditados não são para discutir, são para realizar.

De tudo isto vai resultando um caldo em que é esperado e desejado que a gente copie o que aparece para copiar e vá fazendo o que lhe ditam para fazer. A questão crítica é como resistir às cópias do que querem que copiemos, aos ditados que se esperam que registemos.

Muitas destas cópias e ditados ferem a nossa dignidade e direitos, precisamos de incrementar a autonomia e autodeterminação nos nossos projectos de vida.

E desde novos.

sábado, 20 de junho de 2026

OS TRATOS DOS VELHOS

 Há dias o JN referenciava um comunicado da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) relativo à violência contra idosos. Os episódios de agressão dirigidos a idosos ocorrem na maioria dos casos em contexto familiar e genericamente os agressores são filha ou filho da vítima, 32,3%, seguida do cônjuge, 21,5%.

Ainda de acordo com a APAV a maioria das vítimas apoiadas, 53,6%, está em situação de vitimização continuada e 46,6% das vítimas não apresentou queixa nem teve a sua situação denunciada.

É um cenário inquietante no meio de mundo em estado inquietante. Quer no seio das famílias, quer em instituições para onde alguns velhos são enviados compulsivamente como tem sido denunciado pela APAV, algumas encerradas por determinação legal, tal é a gravidade das situações, multiplicam-se as referências à forma inaceitável como os velhos estão a ser tratados.

Começam por ser desconsiderados pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis, transforma os velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência.

Continua com um sistema de saúde que deixa muitos milhares de velhos dependentes de medicação e apoio sem médico de família.

Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades ou alterações nos estilos de vida, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução. As situações muito complicadas em que milhares de famílias estão envolvidas com o retornar de várias gerações à mesma casa e a tentação de aproveitar os baixos rendimentos dos velhos potenciam o risco de maus tratos.

Finalmente, as instituições, muitas delas, subordinam-se ao lucro e escudam-se numa insuficiente fiscalização além de que, com frequência, os equipamentos de qualidade são inacessíveis aos rendimentos de boa parte dos nossos velhos.

Lamentavelmente, boa parte dos velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice.

Não é um fim bonito para nenhuma narrativa, entende o velho que escreve estas letras.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

"HOUSTON, WE HAVE A PROBLEM"

 Como por aqui tenho escrito, comecei formalmente a minha ligação ao mundo da educação aos sete anos, a entrada para escola no meu tempo. Tenho quase 72 e até à reforma, não gosto do termo aposentação, definitiva em 2024, estive sempre ligado à Educação de formas e em circunstâncias diversas, mas sempre com a mesma paixão e inquietude.

Uma das dimensões mais estimulantes desta ligação é a enorme probabilidade de que algo nos surpreenda, de forma positiva ou de forma negativa. A Educação é um mundo “composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”, e, apesar do afastamento profissional, assim continua.

No Público encontra-se uma peça em que se aborda o novo mundo “high tech” ao serviço do “copianço” e do “jeitinho” de uma ajuda nos exames. Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas alerta para forma caduca e inadequada como se realiza a vigilância dos exames no sentido de minimizar a fraude sendo pouco eficiente face à transição digital no copianço.

Ao que parece e apesar da proibição relativa a telemóveis, relógios inteligentes (smartwatches) ou qualquer outro equipamento de comunicação electrónica para a sala de exames, Filinto Lima regista a existência de muitos dispositivos “quase imperceptíveis” que podem escapar à vigilância dos docentes e exemplifica referindo brincos com sistemas de comunicação, canetas inteligentes com acesso à inteligência artificial (IA) e até óculos inteligentes, “em que os alunos conseguem ler as respostas em relação à questão que estão a desenvolver”. É obra e mostra a excelência das aulas de Tecnologia de Informação e Comunicação.

Dada a minha insuficiente literacia nesta matéria não tenho solução para estas questões apenas me lembro da errada, mas conhecida, “Houston, we have a problem”.

É só mais um, estamos habituados.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O FUTURO EM RISCO

 De acordo com o Balanço Anual da Educação do Edulog, um centro de reflexão e investigação da Fundação Belmiro de Azevedo e divulgado no Público, mais de 80% dos alunos filhos de imigrantes falharam provas do 9.º ano. De facto, no ano lectivo de 2023/24, quatro em cada cinco alunos filhos de pais imigrantes não fizeram as provas nacionais de Português e de Matemática. No mesmo ano, a taxa de retenção dos filhos dos imigrantes foi cerca de 29%, enquanto a dos filhos dos portugueses residentes foi de 8,3%.Lamentavelmente nada de novo. Se considerarmos o Perfil Escolar de Alunos Filhos de Pais com Nacionalidade Estrangeira 2023/ 2024, publicado pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, e que já aqui referi, continua a verificar-se, sem surpresa, uma diferença significativa no desempenho escolar dos alunos com pais estrangeiros, cerca de um quarto dos alunos reprova ou desiste no secundário. Importa considerar que o número de alunos estrangeiros cresceu 283% em dez anos nas escolas públicas.

As taxas de retenção e desistência no secundário ascenderam a 25,5%, entre os alunos cujos dois pais tinham nacionalidade estrangeira (ou um dos pais e o próprio aluno). Representa uma diferença de 17,3 pontos comparando os alunos com pais portugueses, 8,2%.

Apesar de parte significativa dos alunos estrangeiros serem falantes de português é de importância crítica da presença de mediadores linguísticos e culturais a quem competirá “promover a integração plena no ambiente escolar” e, como sabemos, o seu número é manifestamente insuficiente.

Além dos mediadores, que trabalharão com alunos, professores, famílias e outros técnicos, está previsto que no âmbito do plano Aprender Mais Agora se verifiquem ajustamentos na oferta de disciplina de Português Língua Não Materna (PLNM). Com os resultados que se conhecem urge repensar a disciplina.

As escolas precisam de maior autonomia na colocação dos alunos nos anos curriculares considerando a sua origem e trajecto escolar.

De facto, parece crítica a necessidade de mudança na Disciplina de Português Língua Não Materna pois a baixa frequência que se verifica compromete, obviamente, os objectivos para que existe, outro lado e em termos genéricos, verifica-se uma baixa de frequência da Disciplina de Português Língua Não Materna, em 21/22, tínhamos 2% de todos os alunos estrangeiros inscritos no 1.º ciclo, 12,5% dos que frequentam o 2.º ciclo, 15% no 3.º ciclo e apenas 5,1% dos que estão no ensino secundário.

Apesar dos indicadores não serem propriamente uma surpresa, pois tem vindo a aumentar a vinda para Portugal de cidadãos de outros países importa considerar que, contrariamente ao que as narrativas xenófobas que se vão escutando afirmam, é importante esta vinda de pessoas de outras paragens que se radiquem por cá através de projectos de vida bem-sucedidos e contributivos para o desenvolvimento das nossas comunidades. Minimiza-se o efeito do Inverno demográfico que vivemos levando ao envelhecimento significativo da população portuguesa rejuvenescendo-se as populações com o que de positivo isso significa.

Como é evidente este movimento envolve famílias e, naturalmente, a existência de crianças e a necessidade da sua educação escolar, certamente, a mais potente ferramenta contributiva para a sua boa integração na comunidade.

Esta cenário não pode deixar de constituir o um enorme desafio para muitas escolas.

A disciplina de Português Língua Não Materna tem sido constituída com um número mínimo de 10 alunos e os recursos disponíveis são manifestamente insuficientes como directores e professores tem regularmente referido.

Está, pois, criada uma dificuldade acrescida para promover de forma eficiente o domínio da língua de aprendizagem, o português, e o impacto negativo que tal terá no seu trajecto escolar. Aliás, são bem conhecidas as enormes dificuldades que muitas comunidades portuguesas de emigrantes portugueses sentiram e ainda sentem no processo de escolarização dos seus filhos em diferentes países da Europa.

Sabemos da enorme dificuldade de conseguir que em cada escola se consiga responder de forma eficaz às necessidades específicas da população que a frequenta, nenhuma dúvida sobre isto.

No entanto, também sabemos que o domínio proficiente da língua de aprendizagem, escrita e falada, é imprescindível a um trajecto escolar com sucesso.

Não existe normativo ou discurso em educação que não sublinhe as ideias de educação inclusiva, equidade, a diversidade, etc. O problema está nas políticas públicas e nos recursos de diferente natureza que estes desafios exigem, a retórica não chega.

Estes alunos, tal como outros, enfrentam sérias dificuldades e um risco grande de insucesso como os dados evidenciam.

E é bom não esquecer que o seu sucesso será um forte contributo para as comunidades onde se integram, assim como poderemos ter de pagar um preço elevado pelo seu insucesso e exclusão.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

EXAMES FÁCEIS? DIFÍCEIS? ADEQUADOS? INADEQUADOS? DEIXEM LÁ VER

 Por estes dias e em matéria de educação é difícil fugir ao tema exames, estamos em plena época alta.

Como sempre, uma das grandes questões em apreço será a maior ou menor dificuldade ou adequação dos exames.

Como é reconhecido, o presidente do Conselho Científico do Instituto de Avaliação Educativa admitiu em tempos numa entrevista que os exames têm sido uma arma privilegiada na gestão política do sistema educativo. Daí a necessidade de que a avaliação externa fosse da responsabilidade de uma estrutura verdadeiramente independente do poder político.

Neste contexto, através da "modulação", por assim dizer, da sua dificuldade, poder-se-á influenciar os resultados no sentido esperado e mais favorável a interesses de circunstância. Este entendimento minimiza o impacto das análises comparativas. Veja-se, por exemplo, a discussão recorrente e raramente consensual sobre o grau de dificuldade e adequação dos exames. Esta discrepância acontece, sem estranheza, até na apreciação do mesmo exame como repetidamente tem acontecido com os exames de Matemática ou de Português, já está a acontecer no deste ano até por questões de natureza ética, registando-se diferentes opiniões entre Associações de Professores, ou nas redes sociais em que o universo de especialistas alarga e diversifica a discussão.

Parece claro que resultados escolares mais positivos sustentam o entendimento de venham mostrar que “alunos e professores corresponderam com o seu trabalho” o que contribui para ratificar a “bondade das políticas educativas”, mas os resultados menos positivos alimentam apreciações mais diferenciadas, políticas publicas, aspectos curriculares, tipologia do exame, etc.

Estes discursos aparecerão, evidentemente, sempre embrulhados em referências a rigor e a exigência.

Como dizia o meu estimado Mestre Marrafa aqui no Alentejo, “Deixe lá ver”. Vamos ver como se segue a época de exames.

Em princípio, nada de novo, tudo de velho.

terça-feira, 16 de junho de 2026

AOS ALUNOS E ALUNAS DO SECUNDÁRIO

 Caros alunos e alunas,

  Tinham de chegar. Com a disciplina de Português inicia-se hoje a época de exames nacionais do secundário e durante algum tempo o vosso programa está assegurado, exames, um caderno de encargos bem preenchido. Como é habitual umas notas relativas ao que vos espera.

O trabalho realizado durante os últimos anos vai ser testado. Alguns de vós sentir-se-ão relativamente tranquilos enquanto outros, a maioria, vão começar a sentir a ansiedade a subir. É normal, afinal trata-se de realizar um exame e alguma ansiedade ajuda-nos a estar mais atentos.

Os resultados serão importantes pois permitirão aceder ao ensino superior e na escola e curso que vos interessam, e, desculpem o atrevimento, e espero que tomem a decisão correcta, continuar a estudar. A qualificação superior é uma boa ferramenta para a construção de um projecto de vida mais sustentado e com maior potencial de realização. Os tempos não estão fáceis, mas estudar ainda compensa, acreditem.

Alguns de vós vão sentir-se pressionados para a obtenção de muito bons resultados, porque as médias de acesso nos cursos que desejam frequentar são habitualmente elevadas ou porque vos dizem que para se ser gente tem de se ser excelente. Irão perceber que, felizmente, tal não é verdade, é fundamental tentar fazer o melhor possível, mas não é essencial ser o melhor. Acresce ainda que, muitas vezes, essa pressão não ajuda, antes pelo contrário, atrapalha, … há que ter calma.

Muita gente, pais, professores, psicólogos, psiquiatras, nutricionistas, especialistas em “coaching” em múltiplas áreas, colegas, vos dá conselhos nesta altura, “estuda mais”, “descansa um pouco”, “devias fazer assim”, “era melhor desta maneira”, “não te esqueças de nada”, “toma atenção”, “começa pelas mais fáceis”, “revê no fim”, “cautela com a alimentação”, “é bom espairecer um pouco”, etc., etc. É normal e importa alguma tranquilidade. A presença nas redes sociais e a partilha da experiência com colegas vai certamente ajudar a dissipar o stresse, dividido por muitos pode dar menos para cada um.

A verdade é que não existem receitas infalíveis para o sucesso que não passem por trabalho sério, organização do tempo e das tarefas, percepção das dificuldades e da forma de as minimizar, partilhar dúvidas e pedir ajuda a professores ou colegas, entre outros aspectos que saberão identificar. Cada um de vós encontrará um caminho para lidar com os exames, é normal, somos diferentes.

Como é de prever, alguns acharão os exames mais fáceis e outros mais difíceis, depende sempre do que cada um sabe e dos conteúdos do exame, aquela história clássica de “ainda bem que saiu isto, sabia bem” ou, pior, “logo havia de sair isto que não estava bem preparado”, nada a fazer, são as circunstâncias e em toda a nossa vida iremos deparar com situações mais favoráveis ou menos favoráveis. Todos sabemos que a vossa tarefa não é fácil, mas estou convencido que para muitos de vós as coisas vão correr bem. O vosso trabalho e dos professores e o apoio dos pais merecem.

Como já disse, os próximos exames serão a última etapa antes do ensino superior, mas isso é uma outra narrativa. Um dia destes falaremos disso, cada coisa de sua vez.

Boa sorte e divirtam-se, se possível.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

É PEDIR MUITO?

 Vamos entrar em época de exames. Espero pelo dia em que a época de avaliação escolar no final do ano lectivo não seja notícia diária a não ser a referência à sua realização.

Gostava que um dia a avaliação externa, independentemente das suas modalidades e dispositivos, não fosse o (quase) tudo na vida da escola.

Gostava que um dia os dados das avaliações internas tivessem alguma coerência com os dados da avaliação externa.

Gostava que um dia a avaliação externa, realizada em diversas modalidades e dispositivos ficasse fora da política pequena da partidocracia e dentro da discussão imprescindível sobre as políticas públicas de educação.

Gostava que um dia a avaliação externa decorresse sem perturbações ou ruído como mais uma tarefa a cumprir durante o ano lectivo.

Gostava que um dia se entendesse que mais do que discutir “os exames” talvez fosse de perceber o que se faz com eles, em cada ciclo e no final do secundário.

Gostava que um dia a estabilidade na avaliação fosse a regra e não a excepção.

Gostava que um dia a discussão sobre a dificuldade e a realização dos exames fugisse ao padrão “cada cor, sua sentença”.

...

É pedir muito?

domingo, 14 de junho de 2026

DA SÉRIE "M'ESPANTO ÀS VEZES, OUTRAS M'AVERGONHO"

 Mais uma nota da série "M'espanto às vezes, outras m'avergonho" que me desculpe Sá de Miranda.

Quando pensamos que já dificilmente nos surpreendemos há sempre uma decisão em matéria de políticas públicas que desce mais um degrau nos direitos, na ética, nos valores, nem acho que seja um problema de competência.

No âmbito do inenarrável processo da Prestação Social Única, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, extraordinário exemplo de Solidariedade, propõe que as pessoas com um grau de deficiência abaixo de 80% definido no Atestado Médico de Incapacidade Multiuso cumpram "trabalho social". Só por incompetência, ignorância, ausência de dimensões de Solidariedade e Direitos, se pode justificar que alguém nestas circunstâncias possa ser obrigado a “trabalho social” inventando uma espécie de … terrorismo social.

Na verdade, não me deveria surpreender. Como aqui escrevi há dias, o Governo disponibilizou em 2026 39,7 milhões de euros para financiar os produtos de apoio para pessoas com deficiência ou incapacidades temporárias através do Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio (SAPA). Acontece que esta verba é inferior à que foi atribuída em 2025, 46 milhões de euros. As entidades e famílias temem o aumento das dificuldades diárias das pessoas com deficiência. Algumas décadas de trabalho nestas áreas e os direitos das pessoas não me permitem não insistir nestas questões.

De acordo o relatório Pessoas com Deficiência em Portugal: Indicadores de Direitos Humanos 2025 realizado pelo Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, coordenado por Paula Campos Pinto, em 2024, 32,4% dos jovens com deficiência não trabalhavam nem estudavam nem frequentavam dispositivos de formação. Nos jovens sem deficiência o indicador é de 8,1%, uma diferença significativa, superior a 24%.

A taxa de emprego das pessoas com deficiência em 2023 era de 64,4% sendo que em situações de deficiência grave passava para 50,9%.

A diferença da taxa de emprego entre pessoas com e sem deficiência em 2024 era de 21,3%. Esta taxa estava em decréscimo até 2022 e voltou a subir.

Numa outra área crítica, condições sociais e económicas, 66,4% das pessoas com deficiência com mais de 16 anos estão risco de pobreza antes das transferências sociais, duas vezes mais que as pessoas sem deficiência. Considerando as transferências sociais a taxa baixava para 22,2% nas pessoas com deficiência e para 14,1% nas pessoas sem deficiência. Esta diferença tem-se acentuado.

É neste quadro que decisão do Governo no sentido da diminuição do financiamento do Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio (SAPA) para as pessoas com deficiência não se compreende, mas, lamentavelmente, também não surpreende. Faltava esta pérola, é deficiente, faz trabalho social.

Na verdade, apesar de alguma evolução, a situação das pessoas com deficiência continua com grande vulnerabilidade face à pobreza e exclusão.

Não é novo, sucessivos relatórios de diferentes entidades vão mostrando o quanto está por fazer e as dificuldades decorrentes da corrida de obstáculos em que se transforma a vida das pessoas com deficiência ameaçando os seus direitos e bem-estar bem como das suas famílias. São por demais evidentes as dificuldades em áreas como, educação, saúde, trabalho e emprego, segurança social, acessibilidades, autonomia, independência ou autodeterminação.

Repetindo-me, a voz das minorias é continua muito baixa, ouve-se mal, existem variadíssimas áreas em que são significativas as dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente saúde, acessibilidades, educação, apoio social, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão continuam elevados como este relatório mostra.

Importa também sublinhar que os direitos fundamentais não podem ser de geometria variável em função de contextos ou hipotecados às oscilações de conjuntura ainda que tenhamos consciência da excepcionalidade destes tempos.

Parece necessário reafirmar mais uma vez que os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como lidam com os grupos mais vulneráveis e com as suas problemáticas. Este entendimento é tanto mais importante quanto mais difíceis são os contextos em que vivemos, os tempos actuais mostram discursos e comportamento hostis e agressivos face à diversidade, ameaçam quem é percebido como diferente como se existissem dois seres humanos iguais.

Mas, mais grave é que estes discursos começam a contaminar as políticas públicas dada a mediocridade de lideranças, e sustentam a negação de valores e culturas que dávamos como adquiridos. Desculpem a insistência.

Não passarão.

sábado, 13 de junho de 2026

DIAS DE ABAFURA

Vão duros os dias. Não chegam os impactos das incompetentes e pouco amigáveis políticas públicas fruto o trabalho da mediocridade de lideranças que tomou conta do mundo, ainda temos uns dias de abafura como se fala por aqui no Alentejo. Estão dias quentes, muito quentes.

Apesar do calor, o Alentejo está bonito com as cores que o Verão que está a chegar traz. Não adianta pintá-lo de verde com as culturas superintensivas de olival ou amendoal que irresponsavelmente e criminosamente vão aumentando, a terra por baixo vai morrendo e a seguir irá morrer por cima.

Se não atalharmos caminho, ainda estamos a tempo assim queiram os homens, vamos ficar com o deserto, com uma terra nua por cada vez mais tempo. E nessa altura que terão os nossos netos?

Desculpem lá o desabafo pouco optimista, se calhar foi por causa do calor, mas … o Alentejo é sempre lindo, também com o amarelo e castanho do tempo do calor.

Não quero imaginá-lo um deserto.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

"A GUERRA É A GUERRA"

 Repito a postagem porque saiu sem título. Boa parte do que a imprensa e muitos opinadores tudólogos têm produzido sobre educação nos últimos tempos, para além da indignação pela falta de seriedade intelectual, (não acredito na ignorância), tem-me causado alguma tristeza a discussão que tem gerado e a dificuldade de encontrar compromissos.

O que me parece mais curioso e inquietante é que esta discussão seja alimentada também por uma agenda que dela se serve para diabolização dos professores, as pessoas a quem entregamos os nossos filhos todos os dias.

A discussão serve também para que se possa atacar a escola pública e o esforço e a competência da esmagadora maioria dos que nela trabalham.

Continuam a aparecer na comunicação social nos seus vários formatos intervenções que produzidas pelos “falcões” habituais ou caceteiros de ocasião são intelectualmente desonestas, escondendo realidades sobre os professores e o seu trabalho e o trabalho de alunos e escolas e recorrendo às tão em moda “fake news”, factos alternativos.

Como escrevi vejo muita gente ligada à educação considerar como ignorantes as afirmações de muitos desses opinadores. Não sejamos ingénuos, não é ignorância, de todo, é guerra política pura e dura.

Como cantava o Fausto, “a guerra é a guerra”.

A educação e a sua qualidade são ferramentas essenciais de desenvolvimento. Apesar do que falta fazer e de situações que não deveriam acontecer, de políticas de sinal errado, alunos e professores têm evoluído positivamente no seu trabalho e constroem saber, ou seja, constroem o futuro.

Como diz Ordine no estimulante ”A utilidade do inútil”, “Só o saber pode desafiar uma vez mais as leis do mercado. Eu posso comungar com os outros os meus conhecimentos sem empobrecer…. Ensinar é um processo virtuoso que enriquece. Ao mesmo tempo, quem dá e quem recebe”.

Não, não é um discurso ingénuo ou romântico, todos estes anos de estrada dão-me alguma lucidez, creio. Os Professores e Educadores e de uma forma geral quem passou pela escola e não tem preconceitos ou agendas implícitas reconhece que é verdade.

No entanto, sei também que acontecem verdadeiros atropelos no quotidiano escolar. Entendo de há muito que um dos pecados estruturais do sistema é justamente a falta de dispositivos de regulação o que permite que coexistam na mesma escola a excelência e a mediocridade sem sobressaltos aparentes.

É assim triste que tantos e tão manhosamente ataquem quem, na sua esmagadora maioria, lhes leva os filhos ao futuro e os trouxe ao presente que têm. Acresce que também seguindo o espírito do tempo, a agressividade física e o insulto aos docentes é uma realidade significativa com sucessivos episódios e envolvendo famíliares e gente cada vez mais pequena.

Uma comunidade que não valoriza os seus professores e o seu trabalho é uma comunidade certamente mais pobre e menos desenvolvida. A Educação, o Conhecimento, a Formação são ferramentas de construção e distribuição de riqueza. Os professores e os alunos, futuros adultos, são os obreiros desta empresa.

Respeitem-nos!

"A GUERRA É A GUERRA"

 Boa parte do que a imprensa e muitos opinadores tudólogos têm produzido sobre educação nos últimos tempos, para além da indignação pela falta de seriedade intelectual, (não acredito na ignorância), tem-me causado alguma tristeza a discussão que tem gerado e a dificuldade de encontrar compromissos.

O que me parece mais curioso e inquietante é que esta discussão seja alimentada também por uma agenda que dela se serve para diabolização dos professores, as pessoas a quem entregamos os nossos filhos todos os dias.

A discussão serve também para que se possa atacar a escola pública e o esforço e a competência da esmagadora maioria dos que nela trabalham.

Continuam a aparecer na comunicação social nos seus vários formatos intervenções que produzidas pelos “falcões” habituais ou caceteiros de ocasião são intelectualmente desonestas, escondendo realidades sobre os professores e o seu trabalho e o trabalho de alunos e escolas e recorrendo às tão em moda “fake news”, factos alternativos.

Como escrevi vejo muita gente ligada à educação considerar como ignorantes as afirmações de muitos desses opinadores. Não sejamos ingénuos, não é ignorância, de todo, é guerra política pura e dura.

Como cantava o Fausto, “a guerra é a guerra”.

A educação e a sua qualidade são ferramentas essenciais de desenvolvimento. Apesar do que falta fazer e de situações que não deveriam acontecer, de políticas de sinal errado, alunos e professores têm evoluído positivamente no seu trabalho e constroem saber, ou seja, constroem o futuro.

Como diz Ordine no estimulante ”A utilidade do inútil”, “Só o saber pode desafiar uma vez mais as leis do mercado. Eu posso comungar com os outros os meus conhecimentos sem empobrecer…. Ensinar é um processo virtuoso que enriquece. Ao mesmo tempo, quem dá e quem recebe”.

Não, não é um discurso ingénuo ou romântico, todos estes anos de estrada dão-me alguma lucidez, creio. Os Professores e Educadores e de uma forma geral quem passou pela escola e não tem preconceitos ou agendas implícitas reconhece que é verdade.

No entanto, sei também que acontecem verdadeiros atropelos no quotidiano escolar. Entendo de há muito que um dos pecados estruturais do sistema é justamente a falta de dispositivos de regulação o que permite que coexistam na mesma escola a excelência e a mediocridade sem sobressaltos aparentes.

É assim triste que tantos e tão manhosamente ataquem quem, na sua esmagadora maioria, lhes leva os filhos ao futuro e os trouxe ao presente que têm. Acresce que também seguindo o espírito do tempo, a agressividade física e o insulto aos docentes é uma realidade significativa com sucessivos episódios e envolvendo famíliares e gente cada vez mais pequena.

Uma comunidade que não valoriza os seus professores e o seu trabalho é uma comunidade certamente mais pobre e menos desenvolvida. A Educação, o Conhecimento, a Formação são ferramentas de construção e distribuição de riqueza. Os professores e os alunos, futuros adultos, são os obreiros desta empresa.

Respeitem-nos!

quinta-feira, 11 de junho de 2026

DIA INTERNACIONAL DO BRINCAR

  Assinala-se hoje o Dia Internacional do Brincar e, mais uma vez, umas notas sobre esta questão central no desenvolvimento e bem-estar das crianças.

Durante os últimos anos, provavelmente associada às mudanças nos estilos de vida e quadro de valores, foi-se instalando a ideia de que o brincar é supérfluo, é perda de tempo, o foco deve ser em trabalhar, em rendimento e resultados, em nome da competitividade e da produtividade, condição para a realização e felicidade. Felizmente, nos últimos tempos começam a ouvir-se muitas vozes contrariando este entendimento. Os que por aqui vão passando reconhecerão a frequência com que aqui refiro esta questão e esta não será certamente a última.

Progressivamente foi-se retirando aos miúdos o tempo e o espaço que muitos de nós na sua idade tínhamos e empregam-nos horas sem fim nas fábricas de pessoas, escolas, chamam-lhes. Aí os miúdos trabalham a sério, a tempo inteiro, dizem, pois só assim serão grandes a sério, dizem também.

Às vezes, alguns miúdos ainda brincam de forma escondida, é que brincar passou a uma actividade quase clandestina que só pais ou professores “românticos”, “facilitistas”, “eduqueses” ou “incompetentes” acham importante.

Muitos outros miúdos vão para umas coisas a que chamam “tempos livres” e que, com frequência, de livres têm pouco, onde, frequentemente, se confunde brincar com entreter e, outras vezes, acontece a continuação do trabalho que se faz na fábrica de pessoas, a escola.

Numa história que já aqui contei ouvi uma mãe que se mostrava muito aborrecida com o Atelier de Tempos Livres em que o filho, gaiato de uns 10 anos, passa boa parte das férias, porque os técnicos responsáveis "dão poucas actividades às crianças e depois elas põem-se a brincar umas com as outras".

Também são encaixados em dezenas de actividades fantásticas, com nomes fantásticos, que promovem competências fantásticas e fazem um bem fantástico a tudo e mais alguma coisa.

É inquietante perceber alguma visão que, de mansinho, se foi instalando também em muitos pais.

O brincar da infância vai-se encurtando, algum dia os miúdos vão nascer crescidos para já não precisarem de brincar. Importa ainda lembrar que também existem crianças, muitas, em que a infância é encurtada, diria roubada, porque são mão-de-obra barata e coisificada.

Era bom escutar os miúdos. Se lhes perguntarem (das diferentes formas de fazer perguntas e ouvir respostas) vão ficar a saber que brincar é a actividade mais séria que realizam, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que virão a ser e a saber.

Em 2018 a Academia Americana de Pediatria recomendou aos pediatras que na sua prática clínica prescrevam “tempo para brincar”, um bem de primeira necessidade para o bem-estar dos mais novos com impacto em diferentes dimensões.

Insistem que não se trata de uma ideia “frívola” e os actuais estilos de vida de muitas famílias, por diferentes razões, tornam ainda mais importante que se reafirme a importância de brincar.

No caso mais particular, mas também essencial do brincar na rua sabemos que as questões da segurança e, sobretudo dos estilos de vida e a mudança verificada nos valores e nos equipamentos, brinquedos e actividades dos miúdos, o brincar na rua começa a ser raro.

Embora consciente das questões como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua, talvez com a supervisão de velhos que estão sozinhos, as comunidades e as famílias conseguissem alguns tempos e formas de ter as crianças por algum tempo fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã.

Como muitas vezes tenho escrito e afirmado, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a autonomia, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como fala Almada Negreiros. A brincadeira, a rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente, os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.

Curiosamente, se olharmos às nossas condições climatéricas, Portugal é um dos países com valores mais baixos no tempo dedicado a actividades de ar livre, situação com implicações menos positivas na qualidade de vida, nas suas várias dimensões, de miúdos e crescidos.

Talvez, devagarinho e com os riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por pouco tempo e não todos os dias.

É, pois, importante que todos os que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam o brincar como uma das “guide lines” para a sua intervenção.

Os mais novos vão gostar e faz-lhes bem.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

DIA DE PENSAR PORTUGAL

 Cumpre-se hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, um dia em que se pensa Portugal.

Deixem-me insistir, talvez possamos pensar Portugal e o seu futuro a partir de duas áreas críticas, a Educação e a Cultura.

Comecemos pela Educação e pensar os tempos que a Educação, a Escola, vivem e na forma como estamos a gerir o presente e futuro da nossa maior ferramenta de desenvolvimento, a escola pública, não esquecendo e também, naturalmente, o ensino privado.

Recordando a Constituição que alguns parecem querer rever vale a pena sublinhar:

(…)

Artigo 73.º

Educação, cultura e ciência

1. Todos têm direito à educação e à cultura.

2. O Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, o desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de compreensão mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e para a participação democrática na vida colectiva.

(…)

Artigo 74.º

Ensino

1. Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar.

2. Na realização da política de ensino incumbe ao Estado:

a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito;

b) Criar um sistema público e desenvolver o sistema geral de educação pré-escolar;

(…)

É “apenas” isto que está em causa nos dias de hoje, defender a existência de uma escola pública de qualidade que cubra as necessidades de toda a população.

Só a educação e a rede pública de qualidade podem promover equidade e igualdade de oportunidades.

Só a educação e a rede pública de qualidade podem ser verdadeiramente inclusivas e receber todos os alunos.

Só a educação e rede pública pode chegar a todos os territórios educativos e a todas as comunidades.

Só a educação e rede pública de qualidade promovem mobilidade social em circunstâncias de equidade no acesso.

Para que possam cumprir a Constituição a educação e a rede pública precisam de recursos materiais e recursos humanos valorizados e competentes.

Os custos da educação e rede pública de qualidade não são despesa, são investimento.

A políticas públicas de educação têm em cada momento histórico a suprema responsabilidade de garantir que assim seja.

É isso que hoje se exige. Em defesa da Educação e da Escola Pública. Em nome dos nossos filhos, dos filhos dos nossos filhos ...

A Educação e também a Cultura são, na verdade, a base e o sustento para o desenvolvimento e a forma de cumprir Portugal.

terça-feira, 9 de junho de 2026

QUE TURMA MAL COMPORTADA

 Isto não anda nada bem. Dizem-nos que embora menos gente beba, os que bebem fazem-no de forma excessiva.

Informam-nos que andamos a comer mal, abusamos das gorduras, economizamos nos legumes, ficamos gordos e estamos em risco.

Ralham porque temos uma das mais altas taxas de prevalência de problemas de saúde mental sendo, aliás, um dos maiores consumidores de psicofármacos.

Sistematicamente afirmam que produzimos pouco, que não poupamos o que devíamos e que gastamos bastante mais do que produzimos criando inúmeras e enormes situações de crédito pessoal e familiar que não conseguimos suportar.

Temos miúdos mal sucedidos na escola e pais pouco produtivos, ou seja, nem pais nem filhos são competitivos como agora se exige.

Os comportamentos cívicos também não são algo de que nos possamos orgulhar, basta olhar para o lixo, a pegada biológica dos cães nos passeios, as beatas para o chão ou os sacos de lixo pela beira das estradas. Acontece ainda que muita gente gosta de registar e divulgar tais cenários nas incontornáveis redes sociais. São gente que aprecia as nossas especificidades culturais e um espaço limpo não é a mesma coisa. Alguns não apreciam, mas não são "influencers".

O diálogo vai desaparecendo sendo substituído por monólogos à vez ou mesmo sobrepostos. O insulto ou a indiferença são recorrentes. O telemóvel sem ninguém do outro lado, apenas "produtos" é a companhia insubstituível.

Passamos o tempo a dizer mal uns dos outros sendo que o outro, seja quem for, nunca tem razão e a culpa, seja do que for, é sempre deles, os gajos, uma entidade indefinida responsável por tudo o que nos acontece.

Parece, que no meio disto tudo, o único que se aproveita, sou eu, o cada um de nós que é sempre perfeito. Juntos é que é um problema, é das companhias, como dizem os pais.

Não há saco para esta turma tão mal comportada que constituímos.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

DO ABANDONO ESCOLAR PRECOCE

No CM encontra-se uma peça sobre os dados do abandono escolar precoce, jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos que deixam o ensino e a formação. Em 2025 foi de 6,1%, abaixo da meta europeia de 9% estabelecida para 2030. O valor médio na União Europeia é de 9,1%. A percentagem tem vindo a descer e comparando com 2015 Portugal baixou 7,5%, a segunda maior descida. O trabalho não citava a fonte, presumo que seja o eurostat.

O abaixamento do abandono escolar não pode deixar de ser uma boa notícia, mas … há sempre um maldito “mas” para atrapalhar.

Parece claro que não basta, manter os alunos, todos os alunos. Acresce a óbvia necessidade de que o abaixamento da taxa de abandono escolar signifique conhecimentos e competências adquiridas pelos alunos.

No entanto, os últimos anos tem-se registado alguma incoerência nos resultados da avaliação interna, percursos de sucesso, e os dados das avaliações externas, provas de aferição, exames ou estudos comparativos internacionais.

No mesmo sentido, importa ainda recuperar que em 2020, o Tribunal de Contas afirmava que no sistema educativo nacional não existem indicadores ajustados, a imprescindível avaliação externa, que permita conhecer "os reais números do Abandono em Portugal, frustrando, quer a implementação eficiente das medidas preventivas e de recuperação dos alunos em Abandono ou em risco de Abandono, quer o direccionamento adequado do financiamento".

Na realidade, o abaixamento do abandono escolar precoce é fundamental e, sendo importante que os alunos não abandonem, é necessário assegurar que a sua continuidade tenha sucesso. Aliás, à semelhança do que tem sido o caminho da designada educação inclusiva, não basta que tenhamos os alunos com necessidades especiais “entregados” nas escolas regulares para que possamos falar de educação inclusiva.

Temos indicadores que mostram que muitos alunos, estando “ligados” à máquina educativa, ainda lutam, por razões diversas, por uma trajectória bem-sucedida e importa que cumprir a escolaridade signifique mesmo carreiras escolares promotoras de competências e capacidades como escrevi acima.

Só assim se promove a construção de projectos de vida viáveis, que proporcionem realização pessoal e base do desenvolvimento das comunidades.

Neste caminho é fundamental que a qualidade dos processos educativos e que a existência de dispositivos de apoio competentes e suficientes às dificuldades de alunos e professores na generalidade das comunidades educativas seja uma opção clara pois é uma ferramenta imprescindível à minimização do abandono e insucesso.

Por outro lado, importa não perder de vista a população que abandona e a que está em alto risco de que tal aconteça. Neste sentido é fundamental que a oferta de trajectos diferenciados de formação e qualificação ou iniciativas em desenvolvimento como o programa Qualifica, sucessor do Novas Oportunidades ou os anunciados no âmbito do ensino superior, tenham os meios necessários e se resista à tentação do trabalho para a “estatística”, confundindo certificar com qualificar.

Apesar dos indicadores de progresso é necessário insistir, merecemos e precisamos de mais e melhor sucesso e qualificação e menos abandono e exclusão.