A imprensa de hoje faz referência aos dados mais recentes do Eurostat relativos à composição dos agregados familiares. Em Portugal, 25,1% dos agregados familiares incluem crianças, um valor um pouco acima da média da UE. Cerca de metade das famílias com crianças em toda a UE têm apenas um filho, sendo que em Portugal esta situação abrange 61,8%, um dos valores mais altos da UE. Por outro lado, as famílias com crianças e três ou mais filhos são, em média, 12%, enquanto em Portugal é apenas de 6%.
Muitas vezes aqui tenho referido esta
questão crítica da demografia em Portugal. Em Portugal ter filhos é muito caro
e com custos de natureza diferenciada. Segundo alguns estudos recentes indiciam
que as mulheres portuguesas são de entre as europeias as que mais valorizam a
carreira profissional e a família. Também é sabido de outros estudos que as
mulheres portuguesas são das que mais tempo trabalham fora de casa, aliás, são
também das que mais tempo trabalham em casa.
Como parece claro, este cenário,
menos filhos quando se deseja fortemente compatibilizar maternidade e
carreira, exige, já o tenho referido, a urgência do repensar das políticas de
apoio à família. Os salários baixos ou o desemprego, sobretudo jovem, são
algumas das razões que “obrigam” a que as famílias revejam em baixa, como agora
se diz, os projectos relativos a filhos. Por outro lado, Portugal tem um dos
mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que,
naturalmente, é mais um obstáculo para projectos de vida que envolvam filhos.
Toda esta situação torna urgente
a definição de políticas de apoio à família com impactos a curto e médio prazo
como, por exemplo, a acessibilidade aos equipamentos e serviços para a infância
com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja
oferta está abaixo da meta estabelecida bem como combater a discriminação
salarial e de condições de trabalho através de qualificação e fiscalização
adequadas.
Seria ainda importante, à
semelhança do que se passa noutros países, a introdução de ajustamentos na
organização social do trabalho, nos horários, por exemplo, que tornassem mais
amigáveis e compatíveis para famílias com filhos os desempenhos profissionais.
Os custos destas medidas seriam certamente compensados em várias dimensões.
Só com uma abordagem global e
multi-direccionada me parece possível promover a recuperação demográfica
indispensável.
No que respeita à situação de
filho único que com muita frequência é percepcionada como algo com
consequências negativas para o desenvolvimento da criança produzindo adultos
dependentes, "egoístas", etc. importa, do meu ponto de vista, ser
cauteloso nestas abordagens. Nenhuma criança que seja filho único está
"condenada" a ser uma criança mal educada e um adulto com
dificuldades de adaptação, incompetente do ponto de vista social, etc. , não se
podem estabelecer relações ligeiras de causa efeito. Podemos correr o risco da
culpabilização dos pais de filhos únicos e aumentar a sua ansiedade ou a sua
confiança nas capacidades parentais.
Na verdade, os estilos educativos
adequados e a boa qualidade do trabalho parental ajudarão os filhos únicos a
crescerem de forma tranquila e sem sobressaltos. Os filhos únicos não têm de, inevitavelmente, ser superprotegidos e mal educados. Mais uma vez depende da forma
como os pais encarem a educação e dos apoios e serviços a que podem aceder, não
da sua condição de filhos únicos.
Precisamos é de serviços de
qualidade para infância, acessíveis e suficientes, bem como apoios e orientação às
famílias.
Estas condições, para além de
minimizar os riscos da "síndrome do filho único", poderia atenuar a
baixa brutal nos nascimentos.