Li com interesse a entrevista da Ministra da Educação da Estónia, a nova estrela dos sistemas educativos, que participou num evento em Oeiras. O discurso é bastante claro, importa, obviamente, considerar aspectos culturais e históricos do país, valorizar o trajecto feito e perceber que, mais uma vez, não é uma receita, é uma experiência em contexto próprio.
Duas notas que me parecem
pertinentes.
Em primeiro lugar, sublinho o
papel central do professor e do seu trabalho e, sobretudo, da sua autonomia.
Em segundo lugar, que tenha dado conta, a Ministra não falou de inovação. Como é possível falar de educação sem falar de inovação? Não sei qual terá sido a reacção do Ministro e do seu Secretário de Estado Adjunto e da Educação, um reconhecido especialista em educação.
Talvez os bons resultados que o
sistema educativo da Estónia evidencia estejam a associados a uma visão que não
se deixa seduzir por uma pretensa e mágica ideia de inovar, mas a um modo de fazer que
sabemos que funciona. E nós também sabemos o que funciona.
Pedindo desculpa por isso, será
conversa de velho e corro o risco de ser injusto, mas, já aqui o tenho
referido, cansa-me a recorrente narrativa da inovação. Por outro lado, e como
também já disse, não simpatizo com a insistência sobre a necessidade de
inovação em educação ou de uma "nova forma de ensinar".
Mudar algo na forma como se faz
não é o mesmo que inovar, fazer qualquer coisa de novo. Como dizia Camões há já
alguns aninhos, “todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas
qualidades” e, recordando um velho entendimento, na psicologia, inteligência é
adaptação, não é, repito, fazer de novo, acreditando que há um novo à nossa
espera.
Nestas matérias, talvez de forma
simplista, mas é intencional, penso como Almada Negreiros quando referia na
"Invenção do Dia Claro”, "Nós não somos do século de inventar
palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar
outra vez as palavras que já foram inventadas”.
Dito de outra maneira, já
conhecemos as palavras da educação, apenas temos que ir ajustando o que fazemos
com elas.
As escolas são o agora, o
presente, e é neste presente que se constrói o futuro. Não existem poções
mágicas em educação por mais desejável que possa parecer a sua existência e
desafiante a chuva de discursos e projectos de inovação.
Num exercício de crença e boa
vontade afirmo, como o José Afonso, “seja bem-vindo quem vier por bem” e
registo todas as iniciativas que possam contribuir para minimizar ou erradicar
problemas, mas já me falta convicção no impacto do procedimento habitual, para
cada constrangimento ou dificuldade percebida nas escolas, pelas escolas ou de
fora das escolas, aparece vindo de fora ou gerido de fora, um Plano, um
Projecto, um Programa, uma Iniciativa, as combinações são múltiplas, destinado
a minimizar eliminar as dificuldades
identificadas.
Durante as últimas décadas, perco
a conta a planos, projectos, programas, experiências inovadoras que chegaram às
escolas para combater o insucesso ou, pela positiva, promover o sucesso,
promover a leitura e escrita, promover a matemática, promover a educação
científica, promover a educação inclusiva, erradicar ou minimizar o bullying, a
relação entre escola e pais e encarregados de educação, promover a expressão
artística e a criatividade, promover comportamentos saudáveis e actividades
desportivas, literacia financeira, promover a inovação e as novas tecnologias,
Sim, também sei, tantas vezes
escrevo e afirmo, que são necessárias mudanças que acompanhem o tempo. O
desenvolvimento das comunidades exige ajustamentos regulares no que fazemos em
matéria de educação e em todos os patamares do sistema, este é que é o grande
desafio. Umas vezes melhor, outras vezes com mais sobressaltos, temos feito um
caminho importante e muito mais ainda vamos ter que fazer, mas os ajustamentos
que decorrem da regulação e avaliação não têm que ir atrás da “mágica” ideia da
inovação.
Tal como as crianças que só
aprendem a partir do que já sabem, nós também só mudamos a partir do fazemos e
do que sabemos. Este processo assenta num processo que deve ser robusto e
apoiado de auto-regulação e regulação que envolve actores e estruturas, ou
seja, o aluno, o professor, a escola, o ME, o sistema educativo. Dito de outra
maneira, a escola do futuro, seja lá isso o que for, constrói-se valorizando e
cuidando da escola do presente, como disse acima, o futuro é agora.
Confesso que me preocupam mais os
tratos que a escola actual recebe, que a inovação da escola do futuro.
