Hoje realiza-se o exame de Matemática do 12.º ano. A esse propósito o Público tem uma entrevista notável com Marcelo Viana, professor e investigador de Matemática e com uma extensa obra de divulgação. A entrevista está com o título, “Costumo dizer que a profissão de professor de Matemática é a mais difícil do mundo” e merece leitura, reflexão e divulgação.
Na verdade, a relação que os
alunos estabelecem com a Matemática e o seu desempenho, para além das
incontornáveis e nunca consensuais, mesmo entre a classe docente, perspectivas relativas
aos conteúdos curriculares e como aqui já tenho abordado, podem ainda ser
influenciadas, não numa relação de causa-efeito, por múltiplas variáveis como
número de alunos por turma, tipologia das turmas e das escolas e dos contextos,
dispositivos de apoio às dificuldades de alunos e professores ou questões de
natureza didáctica e pedagógica.
Acresce a esta complexidade um
conjunto de outras variáveis, por vezes menos consideradas, mas que a
experiência e a evidência mostram ter também algum impacto.
São variáveis de natureza mais
psicológica como a percepção que os alunos têm de si próprios como capazes de
ter sucesso associada a contextos familiares de natureza diversa, por exemplo.
É também conhecido e os
resultados do PISA sublinham, que os pais com mais qualificação e de mais
elevado estatuto económico têm expectativas mais elevadas sobre o desempenho
escolar dos filhos o que se repercute na acção educativa e nos resultados escolares
e, naturalmente, mais facilmente mobilizam formas de ajuda para eventuais
dificuldades, seja nos TPC, seja através de ajuda externa.
Finalmente uma outra variável
neste âmbito, a representação sobre a própria Matemática. Creio que ainda hoje
existe uma percepção passada nos discursos de muita gente com diferentes níveis
de qualificação de que a Matemática é uma “coisa difícil” e ainda de que só os
mais “inteligentes” têm “jeito” para a Matemática. Esta ideia é tão presente
que não é raro ouvir figuras públicas afirmar sem qualquer sobressalto e até
com bonomia que “nunca tiveram jeito para a Matemática, para os números”. É
claro que ninguém se atreve a confessar uma eventual “falta de jeito” para a
Língua Portuguesa e, por vezes, bem que parece. A mudança deste cenário é uma
tarefa para todos nós e não apenas para os professores e seria importante que
acontecesse.
De facto, este tipo de discursos
não pode deixar de contaminar os alunos logo desde o 1º ciclo convencendo-se
alguns de que a Matemática vai ser difícil, não vão conseguir ser “bons” e a
desmotivar-se.
Não fica fácil a tarefa dos
professores, mas no limite e como sempre, será a escola, o braço operacional da
comunidade, a fazer a diferença.
A entrevista de Marcelo Viana é
particularmente interessante nesta abordagem.
É crítico que se consiga promover
mais e melhor sucesso e não empurrar os alunos para os anos seguintes sem
nenhuma melhoria nas suas competências ou saberes e é essencial, como referia
acima, criar e tornar acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e
recursos adequados e competentes de forma a evitar a última e genericamente
ineficaz medida da retenção a que voltarei amanhã.
Sabemos também que a escola pode
e deve fazer a diferença, em muitas escolas isso acontece. Mas para que isto
seja consistente e não localizado também sabemos que o sucesso se constrói
identificando e prevenindo dificuldades de forma precoce, com a definição de
currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio eficazes,
competentes e suficientes a alunos e professores, com a definição de políticas
educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos
adequados e reais de autonomia, organização e funcionamento desburocratizado
das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, com a
valorização do trabalho dos professores, com práticas de diferenciação que não
sejam "grelhodependentes", com expectativas positivas face ao
trabalho e face aos alunos, com melhores níveis de trabalho cooperativo e
tutorial, quer para professores quer para alunos, etc.
Uma nota final para a importância
da avaliação externa como forma imprescindível de regulação. No entanto, não
entendo que só por existirem e serem muitos, os exames finais, só por si,
insisto, só por si, melhorem a qualidade. É como esperar que só por medir
muitas vezes a febre irá baixar. A qualidade é promovida considerando o que
escrevi em cima e regulada em termos globais pela avaliação externa que permite
análises necessárias, nacionais ou internacionais como, por exemplo, o TIMSS.
É com a escola, por dentro da
escola e integrado em sólidos projectos de autonomia e responsabilidade e com
recursos adequados que o caminho se constrói.
Sabemos tudo isto. Nada é novo.
Só falta um pequeno passo.