Com base no relatório Avaliação da Educação Inclusiva, realizado no âmbito do Programa Temático Demografia, Qualificações e Inclusão (Pessoas 2030) por uma equipa do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais do ISCTE, coordenada por Luís Capucha e Paulo Pedroso, o Público tem uma peça extensa e elucidativa das agruras da educação de alunos com necessidades específicas. Continuo a insistir que não é um problema da chamada educação inclusiva, é um problema da educação, ponto.
Uma primeira nota relativa ao
número de alunos considerados com necessidades específicas que aumento 29% em
10 anos num período em que baixou o número global de alunos. O número de alunos
nesta situação passou de 76364 em 14/15 para 98200 em 24/25, mais 21836 alunos,
quase 100 000 alunos actualmente.
Também o relatório intercalar de
2026 da Garantia para a Infância, recentemente divulgado e que aqui citei, sublinha as
dificuldades por que passa a educação destas crianças e jovens.
Este relatório “Avaliação da
Educação Inclusiva” que aqui já citei em Janeiro refere também a existência de
um “subfinanciamento estrutural” na educação inclusiva. É registada a
necessidade de entre 500 a 700 milhões de euros para a garantir a educação
inclusiva ou de outra forma, para assegurar a “plena execução do DL n.º
54/2018, mas os recursos disponíveis estão muito aquém”.
As escolas lidam diariamente com
um enorme conjunto de dificuldades, falta professores, assistentes
operacionais, técnicos especializados, materiais, espaços dedicados, entre
outros aspectos. Um inquérito realizado pela Fenprof no final do ano, que também
aqui divulguei, refere que 82,3% dos 147 directores que participaram afirmam
não ter os recursos suficientes para assegurar uma educação “efectivamente
inclusiva”, 64% diziam ter falta de professores de educação especial e 76,9% de
assistentes operacionais suficientes para dar resposta a estes alunos. Estimam
a necessidade de mais 557 assistentes operacionais e técnicos bem como a
necessidade de formação dado que apenas 5,2% dos assistentes operacionais têm
formação para trabalhar com estas crianças e jovens com necessidades
específicas.
A peça do Público merece leitura
atenta dada a informação disponibilizada no estudo.
Tendo trabalhado desde 1977,
ainda como estudante, até à aposentação sempre ligado, primeiro à educação
especial e, posteriormente à educação inclusiva e tantas vezes aqui abordado
esta universo, já não consigo inovar.
Peço desculpa, mas é só um
desabafo sustentado no cansaço.
Não faltam entre 500 e 700
milhões para a educação inclusiva. Também não sei se a outra educação, a dos
alunos que não têm necessidades específicas, tem um financiamento adequado, mas
desconfio que não.
É que a questão é de outra
natureza. A educação, as políticas públicas de educação, estão subfinanciadas, e com falta de competência e desígnio,
e isto é que é estrutural, não é o subfinanciamento da educação inclusiva.
Neste cenário, as situações de maior vulnerabilidade são mais penalizadas, mas
a questão é da Educação e não da Educação Inclusiva, seja lá isto o que for.
Agora, que se fala da revisão da
Constituição, parece de lembrar que:
Recordando a Constituição que
alguns parecem querer rever vale a pena sublinhar:
(…)
Artigo 73.º
Educação, cultura e ciência
1. Todos têm direito à
educação e à cultura.
2. O Estado promove a
democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada
através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de
oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, o
desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de compreensão
mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e para a
participação democrática na vida colectiva.
(…)
Artigo 74.º
Ensino
1. Todos têm direito ao ensino
com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar.
2. Na realização da política
de ensino incumbe ao Estado:
a) Assegurar o ensino básico
universal, obrigatório e gratuito;
b) Criar um sistema público e
desenvolver o sistema geral de educação pré-escolar;
(…)
É “apenas” isto que está em causa
nos dias de hoje, defender a existência de uma escola pública de qualidade que
cubra as necessidades de toda a população porque:
Só a educação e a rede pública de
qualidade podem promover equidade e igualdade de oportunidades.
Só a educação e a rede pública de
qualidade podem ser verdadeiramente inclusivas e receber todos os alunos.
Só a educação e rede pública pode
chegar a todos os territórios educativos e a todas as comunidades.
Só a educação e rede pública de
qualidade promovem mobilidade social em circunstâncias de equidade no acesso.
Para que possam cumprir a
Constituição a educação e a rede pública precisam de recursos materiais e
recursos humanos valorizados e competentes.
Os custos da educação e rede
pública de qualidade não são despesa, são investimento.
A políticas públicas de educação
têm em cada momento histórico a suprema responsabilidade de garantir que assim
seja.
Não é a educação inclusiva que
está em causa e subfinanciada, é a Educação.
É isso que hoje se exige. Em
defesa da Educação e da Escola Pública. Em nome dos nossos filhos, dos filhos
dos nossos filhos, dos ...