Nos últimos tempos a questão das refeições nas escolas tem estado na agenda e não por boas razões, qualidade e capacidade de resposta das escolas, por exemplo. É claro que o Ministro da Educação já referiu que é uma questão prioritária a rever, “se possível, já no início do próximo ano lectivo”. Bom, se não se for possível … logo se verá.
A verdade é que continuam
preocupantes os dados sobre as circunstâncias sociais e económicas em que vivem
muitas, demasiadas, crianças em Portugal. Apesar de frequentemente aqui abordar
estas questões, é preciso insistir.
Num relatório da Direcção-Geral
de Estatísticas da Educação e da Ciência, “Assimetrias entre Escolas: Ensinos
Básico e Secundário, 2022/23”, evidenciavam-se assimetrias muito significativas
entre escolas no que se refere ao contexto de vida dos alunos. A situação é
mais grave no 1.º ciclo, mas verifica-se em todos os ciclos, bem como no
secundário e no ensino profissional.
Sem surpresa os maiores
contrastes verificam-se nas regiões de Lisboa e Porto. Relativamente a Lisboa,
considerando 82 escolas de 1.º ciclo analisadas, em metade existem mais de 50%
de alunos que beneficiam da Acção Social Escolar e em pelo menos cinco o número
é superior a 80%.
No Porto a situação é da mesma
natureza, a percentagem de alunos do 1.º ciclo com apoio da ASE varia entre 77%
e 7% e das 46 escolas analisadas, em 37% metade ou mais dos alunos beneficia da
ASE sendo que seis destas escolas têm taxas superiores a 70%.
Com base Inquérito às Condições
de Vida e Rendimentos do INE, Carlos Farinha Rodrigues realizou um estudo, Portugal
Desigual, que mostrou que a escolaridade dos pais como critério e sem surpresa
o quadro é mais negativo, “a taxa de pobreza é quase quatro vezes superior
quando os pais têm apenas o ensino básico”, ou seja, no caso de filhos de pais
com escassa escolaridade a pobreza atinge os 34,3% enquanto nos filhos de pais
com o ensino superior, o valor baixa drasticamente para os 8,9%.
É na verdade preocupante,
precisamos de insistir e repito o que há pouco aqui escrevi.
Mantém um elevado risco de pobreza
entre as crianças portuguesas requerendo a atenção das políticas públicas
sectoriais. De acordo com os dados do INE referentes a 2023 verifica-se
"um aumento da taxa de pobreza infantil com 347 mil crianças em risco de
pobreza monetária
É ainda de registar que a
"taxa de risco de pobreza infantil em 2023 foi de 20,7%",
correspondendo a um regresso aos valores de 2017, o que coloca as crianças como
o "grupo etário que regista a maior taxa de risco de pobreza e também
aquele em que se observa uma evolução mais desfavorável deste indicador",
Parece, assim, que estamos longe
de conseguir minimizar os riscos de pobreza e exclusão importa insistir e
apelar a que estas matérias constituam preocupações sérias das políticas
públicas em diversas áreas.
Sabemos que a educação tem um
papel crítico neste processo. Retomando notas que aqui recentemente deixei,
recupero o relatório, “Portugal, Balanço Social 2023”, realizado pela Nova SBE
Economics for Policy. De acordo com o trabalho, 82% das crianças pobres com
três anos ou menos não frequentam pelo menos 30h de creche. Também no intervalo
entre 4 e 7 anos são também as crianças mais pobres que não frequentam educação
pré-escolar.
Apesar da gratuitidade da
frequência da creche em 2022, a insuficiência de vagas dificulta o acesso das
famílias de menor rendimento apesar de alguns efeitos decorrentes do Programa
Creche Feliz.
Está bem estudada a relação entre
a situação económica, laboral e nível de literacia familiar no trajecto
pessoal. E também sabemos que situações de "guetização da pobreza"
são um obstáculo à sua minimização.
Também sabemos que a pobreza tem
claramente uma dimensão estrutural e intergeracional, as crianças de famílias
pobres demorarão até cinco gerações a aceder a rendimentos médios, um indicador
acima da média europeia.
A escola é certamente uma
ferramenta poderosa de promoção de mobilidade social, mas, por si só,
dificilmente funciona como elevador social. Muito menos o fará em
circunstâncias em que a maioria vive em piores condições.
O impacto das circunstâncias de
vida no bem-estar das crianças e em aspectos mais particulares como o
rendimento escolar ou o comportamento é por demais conhecido e essas
circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso
e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências
significativas ao nível das necessidades básicas.
Algumas vezes, quando penso
nestas matérias não resisto a recuperar uma história que conto muitas vezes,
coisas de velho como sabem, e que foi umas das maiores e mais bonitas lições
sobre educação que já recebi. E mais uma vez.
Aconteceu há já uns anos em
Inhambane, Moçambique, também conhecida por Terra da Boa Gente. Num início de
manhã, eu o Velho Carlos Bata, um homem velho e sem cursos, meu anjo da guarda
durante as semanas que lá estive em trabalho, íamos a passar por uma escola
para gaiatos pequenos e o Velho Bata, parou a olhar. Não estranhei, era um
homem que não conhecia o significado de pressa.
Um tempinho depois disse-me que
se tivesse “poderes de mandar” traria um camião de batata-doce para aquela
escola. Perante a minha estranheza, explicou que aqueles miúdos teriam de comer
até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.
Pois é Velho, miúdos com fome e
que passam mal não aprendem e vão continuar pobres. E infelizes, não se riem.
Ontem, hoje e amanhã. Não podemos
falhar