Com demasiada frequência são divulgadas situações e episódios de indisciplina e violência nos espaços escolares. Não estando as escolas imunes a efeitos de contexto, é preocupante, mas não surpreendente os cenários e episódios que se conhecem e muitos que não são divulgados, mas com que professores, técnicos e auxiliares têm de lidar.
Muitas vezes aqui tenho abordado
estas questões críticas e retomo algumas notas que em muitos encontros partilhei com
professores e técnicos.
Em todas as escolas parece
existir um grupo mais ou menos significativo que parece ter desistido do seu
estatuto de “estudantes”, mas que, por diversas razões, parecem optar por um
outro estatuto para si mais simpático, são “escolantes”, vão à escola, estarão
nas aulas, mas … não estudam, assumem uma posição de “presentismo”, estão
presentes nas aulas ou na escola, mas …, por vezes, de uma forma disruptiva que, mais cedo ou
mais tarde, se poderá transformar em indisciplina ou violência que lhes permitirá
recuperar um estatuto valorizado ou temido pelos pares o que alimenta os
comportamentos numa espiral que pode ser difícil de reverter.
É verdade que este cenário não
acontece apenas agora, no meu tempo de aluno já existiam situações desta
natureza, mas é potenciada pela desregulação de discursos e comportamentos que
os últimos tempos têm sustentado para além das dificuldades intrínsecas que as
escolas enfrentam para lidar com estas situações.
Muitos destes alunos,
“escolantes” em modo de “presentismo” criam expectativas de sucesso muito
baixas e a desmotivação cresce, aumentam as faltas, as aulas não servem de nada
a não ser como cenário de exibição de indisciplina, acham que “já não vão lá” e
acabam por ser os grandes candidatos ao empurrão para o ensino vocacional ou …
para lado nenhum.
No entanto, continuam a
deslocar-se diariamente para a escola, é lá que estão os seus amigos e, apesar
de tudo, é lá que eles acham que devem estar apesar dos discursos negativos e
agressivos que produzem com frequência sobre a escola. Ninguém gosta do fracasso,
os discursos e os comportamentos nas mais das vezes mascaram o mal que se
sentem pelo fracasso escolar e pelo que isso significa.
A tarefa de alunos e professores
não é, longe disso, uma tarefa fácil, mas importa não desistir de reverter a
condição de “escolantes” assumindo que são estudantes, alunos.
Como muitas vezes escrevo também
muitos alunos identificados (sinalizados) como tenho necessidades especiais não
estão incluídos nem integrados, estão “entregados”, constituem um outro grupo
de “escolantes” muitas vezes ao abrigo de uma qualquer ideia (existem muitas)
de escola inclusiva.
Todo este universo sublinha a
necessidade e urgência de ajustamento nas políticas públicas, designadamente,
de educação e sociais no sentido que tantas vezes aqui refiro.
É essencial promover e tornar
acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e recursos adequados e
competentes a minimizar o risco de insucesso.
É claro que mudanças estruturais
têm custos pelo que será de considerar a necessidade de investimento sério em
educação, 6% do Produto Interno Bruto o que está definido pela UNESCO como meta
para 2030. Talvez a aposta na Defesa condicione a aposta no futuro, a educação.
É crítica a necessidade de uma
política que atraia novos docentes com um modelo de carreira valorizada, justa
e atractiva.
É imprescindível é dotar as
escolas de forma continua e estável dos recursos necessários para minimizar
tanto e tão rápido quanto possível as dificuldades que identificam.
É necessário promover a
desburocratização asfixiante e reflectir sobre modelos de governança das
escolas mais adequados, competentes e participados.
Com real autonomia, com mais
recursos e com modelos organizativos, incluindo a governança, mais adequados e
desburocratizados as escolas poderiam certamente fazer mais e melhor. que quem
vem de fora numa passagem transitória, mais ou menos longa, mas transitória.
Sim, tudo isto deveria ser objecto de escrutínio, regulação e avaliação também
externa, naturalmente.
Escolas com mais auxiliares,
auxiliares informados e formados podem ter um papel importante em diferentes
domínios.
Directores de turma com mais
tempo para os alunos e professores com menos alunos poderiam desenvolver
trabalho útil em múltiplos aspectos do comportamento e da aprendizagem.
Psicólogos e outros técnicos em
número mais adequado poderiam acompanhar, promover e desenvolver múltiplas
acções de apoio a alunos, professores, técnicos e pais.
Mediadores que promovessem
iniciativas no âmbito da relação entre escola, pais e comunidade seriam, a
experiência mostra-o, um investimento com retorno. Repetindo e sintetizando, os
professores sabem como avaliar e identificar as dificuldades dos alunos.
Uma nota final para sublinhar a
necessidade de estabilização curricular e da questão da avaliação e percurso
escolar dos alunos e reafirmar a importância da avaliação externa como
reguladora do trabalho realizado.
É este o desafio que enfrentam as
políticas públicas de diferentes sectores.
Em nome do futuro, não podem
falhar, repito, não podemos falhar.
