sexta-feira, 15 de outubro de 2021

DOS MANUAIS ESCOLARES

 A questão dos manuais escolares reentra regularmente na agenda em particular no início de cada ano lectivo. Desta vez trata-se de um atraso na impressão e distribuição que, de acordo com editoras, se deverá ao prolongamento do ano lectivo passado.

Como algumas vezes aqui tenho referido creio que a questão dos manuais escolares merece alguma reflexão.

Como regularmente tenho afirmado e insisto, o nosso ensino parece ainda manter-se excessivamente "manualizado" o que tem óbvias implicações didáctico-pedagógicas e, naturalmente, económicas.

Apesar da progressiva disponibilização de outras fontes de informação e do acréscimo de acessibilidade através das tecnologias de informação e de outros suportes, a utilização dessas fontes alternativas aos manuais parece-me pouco valorizada incluindo por pais e alunos embora a experiência adquirida cm os períodos de confinamento seja certamente um contributo para mudanças.

De facto, embora o abandono do “livro único” tenha ocorrido há já bastante tempo e de uma preocupação nem sempre bem-sucedida com a qualidade dos manuais, predomina a sua utilização e das respectivas fichas e instrumentos como materiais de apoio às aprendizagens e à “ensinagem” e que agravam substantivamente os custos das famílias.

Para além de imenso material de outra natureza, temos em cada área programática ou disciplina uma enorme gama de cadernos de fichas, cadernos de exercícios, cadernos de actividades, materiais de exploração, etc. etc. que submergem os alunos e oneram as bolsas familiares, até porque muitos destes materiais não são incluídos nos apoios sociais escolares.

Em muitas salas de aula, dada a natureza da estrutura e conteúdos curriculares, corre-se o risco de substituir a “ensinagem”, o acto de ensinar, pela “manualização” ou “cadernização” do trabalho dos alunos, ou seja, a acção do professor será, sobretudo, orientar o preenchimento dos diferentes dispositivos que os alunos carregam nas mochilas.

É verdade que a minimização da dependência dos manuais envolve um conjunto de variáveis que devem ser consideradas.

Passa pela uma reorganização e flexibilização curricular, diminuindo a extensão de alguns conteúdos, por exemplo, o que permita a alunos e professores um trabalho de pesquisa e construção de conhecimentos com base noutras fontes potenciando, por exemplo, a acessibilidade que as novas tecnologias oferecem.

Passará pelo ajustamento no número de alunos por turma de modo a permitir melhores níveis de diferenciação pedagógica e, assim, acomodar outros suportes ao processo de ensino e aprendizagem.

Passará ainda por maior autonomia de escolas e professores e recursos que acomodem dispositivos de apoio, tutorias por exemplo, que diversifiquem e diferenciam as formas e materiais de trabalho bem como respondam mais eficazmente à diversidade entre os alunos.

Creio que seria importante caminharmos no sentido de atenuar a fórmula instalada que de forma simplista se pode enunciar, o manual formata operacionalmente o currículo, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.

É possível caminhar numa perspectiva de “desmanualização” do nosso trabalho escolar, existem já experiências em diferentes escolas e agrupamentos, da rede pública e privada, que sustenta a sua possibilidade.

Não esqueço, no entanto, o peso das decisões em matéria de política educativa bem como o peso económico deste mercado.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

UM RAPAZ CHAMADO PERFEITO

 Há uns tempos conheci um rapaz. Chamava-se Perfeito. Na escola onde andava não havia ninguém como ele. Nas aulas, apenas falava para esclarecer dúvidas ou ajudar os colegas. Pedindo antecipadamente autorização, claro. Os cadernos e trabalhos de casa do Perfeito estavam sempre em dia e bem organizados. Mostrava os conhecimentos esperados sobre todas as matérias. Nos intervalos brincava de forma tranquila, envolvido nos jogos próprios da sua idade. Era simpático para com os colegas, professores e funcionários que, naturalmente, adoravam o Perfeito.

Em casa era arrumado com as suas coisas, colaborava nas tarefas e ainda encontrava tempo para ajudar a irmã mais nova nos trabalhos de casa e, até para dia sim, dia não, telefonar aos avós. Gostava de falar com os pais e, por vezes, gostava de se envolver em conversas muito interessantes sobre o que lia no jornal. Não era exigente com a roupa, gostava de ler e ouvir música.

Os vizinhos do prédio adoravam o Perfeito, sempre com um sorriso e pronto a ajudar a D. Adosinda com o saco das compras.

Desde há dois meses que não sei nada sobre o Perfeito. Perdi o livro onde ele morava.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

OLÁ ABUELITO

 Como é reconhecido e, sobretudo, sentido, os ecrãs fazem parte próxima das nossas vidas e, naturalmente, também dos mais novos.

Muitas vezes aqui tenho abordado essa questão o que também frequentemente acontece em conversas com pais.

Como tenho afirmado, mais do que abordagens proibicionistas defendo um acesso mediado dos mais pequenos aos ecrãs e a promoção, de acordo com idade, de estratégias de auto-regulação, eles vão percebendo e decidindo o que pode, ou não, ser adequado.

Vem esta introdução a propósito de algo que me está a acontecer com regularidade e que é explicado pelo convívio com o ecrã do meu neto pequeno, o Tomás, cinco anos de vida.

De repente e com alguma surpresa passei a ser tratado por “abuelito” em vez de avô.  

Quando me dei conta da “espanholização” do tratamento procurei perceber a razão.

É simples, trata-se de uma banda desenhada “Santiago dos mares” que passa num canal dedicado à banda desenhada e com episódios em castelhano e de que o Tomás gosta. Ao que parece existe um personagem avô o que tem levado a que esta personagem, eu, seja de vez quando convertido em “Olá abuelito!” e com uma pronúncia perfeita. Aqui para nós, até acho piada.

E são também assim os dias mágicos da avozice com os meus dois “nietos”.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

A UNIVERSALIDADE DO ACESSO À EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR. AINDA NÃO É DESTA

 Há alguns dias foi divulgada a versão preliminar da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030. Vai entrar em discussão pública e inclui uma proposta de alargamento da escolaridade obrigatória para quinze anos iniciando-se aos três anos.

O objectivo será que através da frequência universal da educação pré-escolar se combatam desigualdades que afectam as crianças e dificultam o seu trajecto de desenvolvimento e educação de forma bem-sucedida.

Hoje, com a divulgação da proposta de Orçamento de Estado para 2022 ficamos a saber que ainda não será garantida a universalidade do acesso a educação pré-escolar aos 3 anos pois implicaria um investimento não previsto na capacidade de resposta da rede existente.

Sou dos tenho alguma reserva face à obrigatoriedade da frequência do jardim-de-infância aos três anos, mas defendo a universalidade do acesso. Dito de outra maneira, nenhuma criança com três anos deve ser obrigada frequentar jardim-de-infância, mas qualquer família que precise de aceder a esta resposta deve ter acesso e em condições acessíveis e com qualidade.

Assim, mais do que discutir sobre o alargamento da escolaridade obrigatória a partir dos três anos importa, isso sim, assegurar, a universalidade da resposta o que ainda não será conseguido durante o próximo ano dificultando a situação de crianças e famílias.

Como aqui escrevi há dias a propósito desta questão, existem lista de espera de creches e jardins-de-infância no chamado sector social em que as mensalidades são indexadas aos rendimentos familiares. Esta situação afecta sobretudo zonas mais urbanas e a alternativa da resposta privada é inacessível para muitas famílias.

Acresce que para além da dificuldade de encontrar respostas os custos elevados do acesso aos equipamentos, boa parte privada ou da rede social, são dos mais altos no contexto europeu de acordo com o relatório "Starting Strong 2017" da OCDE. Aliás esta questão é contributiva para a baixa natalidade tal como vários outros aspectos das políticas públicas, designadamente as políticas de família.

Como já afirmei, tendo dúvidas sobre a obrigatoriedade da frequência, mas tenho a maior convicção na necessidade de garantir a universalidade do acesso à educação pré-escolar aos três anos criando uma rede de oferta com respostas de qualidade, acessíveis, logística e economicamente.

Sabemos todos como o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos é fortemente influenciado pela qualidade das experiências educativas familiares e institucionais nos primeiros anos de vida, de pequenino é que ...

Assim, existem áreas na vida das pessoas que exigem uma resposta e uma atenção que sendo insuficiente ou não existindo, se tornam uma ameaça muito séria ao futuro, a educação de qualidade universalmente acessível para os mais pequenos é uma delas.

No entanto e mais uma vez, a educação pré-escolar é bastante mais que a “preparação” para a escola, não deve ser entendida como uma etapa na qual os meninos se preparam para entrar na escola embora se saiba do impacto positivo que assume no seu trajecto escolar.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O RISCO DA "DESPROFISSIONALIZAÇÃO" DOCENTE

 O início deste ano lectivo, para além da questão relativa à designada “recuperação das aprendizagens”  dos efeitos do quadro pandémico que ainda estamos a viver continua também marcado pela falta de docentes sobretudo em alguns grupos disciplinares e também em algumas regiões.

A situação tem levado à necessidade de contratação de profissionais que não possuem habilitação específica para a docência o que também não é uma situação nova.

Importa recordar que em 2020 o ME estabeleceu a possibilidade de que professores de Inglês, Francês, Alemão ou Espanhol possam dar aulas de Português no 3.º ciclo e secundário desde que tenham feito um “estágio pedagógico” nesta área. Também a disciplina de Inglês poderá ser assegurada por professores de Português, Francês, Alemão e Espanhol e a de Geografia por professores de História. Finalmente, a disciplina de TIC pode ser leccionada por qualquer docente que tenha frequentado uma acção de formação nesta área. Esta situação está agora a ser aproveitada.

Parece claro que a existência de muitos alunos sem aulas em diferentes disciplinas é um problema sério e que exige resposta.

Parece também claro que a negligência incompetente com que a questão do número de professores necessário ao sistema tem sido tratada contribui para a situação criada. Os dados demográficos, a composição dos grupos disciplinares e as necessidades das escolas constituem informação conhecida de há muito sem que se tenham desencadeado medidas com alguma eficiência e em tempo oportuno.

Parece ainda claro que a narrativa dos professores a mais, globalmente, não passava disso mesmo, uma narrativa.

Acresce que o modelo de carreira, a desvalorização da profissão docente entre outras variáveis serão contributivas para a actual situação que também se traduz numa menor capacidade de captação de novos professores, para além da alimentação da precariedade que vai contribuindo para que muitos professores vão tendo um conhecimento alargado do país.

Finalmente, parece claro que algumas opções seguidas levantam algumas inquietações em linha com o que aqui já tenho abordado a propósito de um risco emergente de “desprofissionalização” dos docentes. Esta “desprofissionalização” pode ir acontecendo através de medidas desta natureza, mas também através da timidez na promoção da autonomia das escolas associada aos efeitos da "municipalização” em curso ou projectos de intervenção nas escolas realizados em “outsourcing”.

Deve dizer-se que este movimento não é de agora e não começou por cá. Tem vindo a fazer o seu caminho em diferentes sistemas emergiu na década de 80 sob a designação de “deskilling” promovendo concepção “empobrecida”, diria “embaratecida”do professor e da sua função. Nesta visão, os docentes cumprem ordens e programas, não têm que fazer escolhas, possuir conhecimento aprofundado, solidez nas metodologias, valores éticos e morais, etc. Seria suficiente uns burocratas, agora mais burocratas digitais a papaguear, fabricar, aulas para grupos de alunos "normalizados".

Os professores serão basicamente “entregadores de conteúdos”, (content delivers na formulação original), outros burocratas a medir saberes ou a desvalorização da avaliação interna e externa e uns outros ainda a construir fórmulas de gestão em modelo “digito-burocrata) num qualquer serviço centralizado ou com um modelo que apesar de “descentralizado” não atribui, de facto, autonomia robusta às escolas cujo modelo de governação é parte desta equação.

Definitivamente, este não pode ser o caminho. A “desprofissionalização” pode tornar os professores mais “baratos”, mas o nosso futuro será mais caro por pior qualidade, um professor de … é muito mais que um técnico de …

Todas as necessárias mudanças na educação só podem ocorrer e ser bem-sucedidas com o envolvimento e valorização dos professores, das suas competências, mas também, naturalmente, com a sua avaliação justa, transparente e competente.

domingo, 10 de outubro de 2021

A SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E JOVENS

 Na agenda das consciências cumpre-se hoje o Dia Mundial da Saúde Mental que, como muitas afirmo, é o parente pobre das políticas de saúde. Os indicadores disponíveis mostram com as perturbações no âmbito da saúde mental constituem um problema grave em Portugal com impactos fortíssimos no bem-estar pessoal e familiar e económicos através da perda de funcionalidade e de gastos brutais em medicação de que somos dos maiores consumidores europeus.

Algumas notas repescadas pensando sobretudo nos mais novos.

Em Agosto foi divulgado um trabalho realizado pela Universidade de Calgary, no Canadá em que foram analisados 29 estudos de diferentes países envolvendo 80879 crianças e jovens. Como dado mais relevante constata-se que um em cada quatro crianças ou jovens tem sintomas de depressão elevados e um em cada cinco apresenta sintomas de ansiedade altos devido à pandemia da covid-19.

Complementando recordo que em Março deste ano foi divulgado que em alguns hospitais se registou um aumento do número de crianças e jovens que chegaram ao serviço de urgência com problemas de ansiedade ou humor. No Hospital D. Estefânia, por exemplo, o número de crianças e jovens que tiveram contacto com a pedopsiquiatra através de serviço de urgência aumentou quase 50% no início de 2021 face ao mesmo período do ano passado.

De facto, têm sido múltiplos os estudos que referem esta questão, a deterioração da saúde mental de crianças e jovens, mas também de adultos, no quadro da pandemia. O confinamento que se associou a isolamento e falta de rede social, as dificuldades de diversa ordem sentidas nos contextos familiares terão dado um contributo significativo.

Deste quadro resulta a necessidade de atenção à saúde mental, normalmente um parente pobre das políticas públicas de saúde.

O impacto da pandemia nas aprendizagens tem sido muito referido e está a ser objecto de um plano específico, Plano 21/23 Escola +. Seria importante que a esta recuperação no plano das aprendizagens estivesse associada a uma forte preocupação com a saúde mental de crianças e jovens mobilizando os recursos necessários.

Crianças e jovens que passam mal, não aprendem, vivem pior e correm riscos sérios de comprometer o futuro pelo que os apoios e resposta não podem, não devem, falhar.

Como o povo diz, é de pequenino que se torce o … destino.

Acresce que tem vindo a verificar-se em muitos agregados familiares e em contextos escolares a emergência de discursos que pressionam os mais novos no sentido de atingirem a excelência nos resultados escolares ou em qualquer actividade “importante” pois será, dizem, a “única” forma de atingir um patamar de sucesso futuro.

Como se sabe e a experiência mostra, muitas crianças e adolescentes não suportam com tranquilidade esta pressão o que se repercute no seu bem-estar e na sua saúde mental. Para complicar um pouco mais, ainda se verifica que algumas pessoas desvalorizam estes fenómenos, entendendo que é preciso ser exigente e bem-sucedido e não percebendo o sofrimento de algumas crianças e jovens.

Por outro lado, é também conhecida a enorme dificuldade que muitas instituições que acolhem menores estão a passar dificultando a resposta com a qualidade bem como a possibilidade de responder a novas situações.

Os miúdos, nas famílias preferencialmente, ou nas instituições, necessitam de um aconchego, um ninho, uma qualidade de vida que os cuidadores, por diversas razões, não sabem, não querem, não podem ou não são capazes de providenciar. Tal cenário implica riscos fortíssimos de compromisso do seu futuro pelo que os apoios e resposta são fundamentais, mas não podem passar apenas pela medicação.

Como o povo diz, é de pequenino que se torce o … destino.

sábado, 9 de outubro de 2021

O TEMPO DAS NOZES

 Este fim-de-semana depois de fabricar a terra dos pomares com o escarificador foi tempo para continuar a apanha das nozes aqui no Monte. É quase sempre na altura da Festa da Sra. D’Aires que também este ano ainda não se realizou por causa do maldito vírus que ainda nos inferniza a vida.

Acabámos há pouco a tarefa, apenas restam as nozes altas de uma nogueira que ficarão para ser batidas para a semana, as costas já protestam ainda que a vara não seja muito pesada, a modernice do carbono veio ajudar, é uma das que usamos para varejar as oliveiras. Sempre que colhemos as nozes recordo uma história, uma de muitas, que o Mestre Zé Marrafa me contou.

Dizia ele que há uns quarenta ou cinquenta anos lá para trás no tempo trabalhava para um lavrador muito velhaco, muito malino, naquele tempo havia muitos sublinhou, que obrigava as moças que trabalhavam na herdade a colher as nozes sempre no dia antes de começar a festa da Sra. D’ Aires, estivessem ou não prontas para colher.

Face à minha estranheza explicou que naquele tempo não se usavam luvas e que as mãos ficam tão negras e impregnadas com o óleo do invólucro das nozes que as moças tinham que ir à festa com as mãos num estado lastimoso. É verdade, não sei se já passaram pela experiência, por isso eu uso luvas de trabalho para tal tarefa.

Esse mesmo lavrador para castigar os homens determinava tarefas “sujas” logo no início da semana levando a que a roupa de trabalho das pessoas ficasse em mísero estado para o resto da semana. Naquele tempo era assim, não seria só assim, mas era também assim.

Às vezes, coisas de velho já se vê, parece-me não haver memória.

Mas o Velho Marrafa não esqueceu. E eu acho que é bom recordar.

Amanhã será a vez de colher azeitona para retalhar e conserva, mal posso esperar pelo sabor das azeitonas novas.

E são assim os dias do Alentejo

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

UM OLHAR POR DENTRO DA ESCOLA

 O texto de Paulo Prudêncio no Público, “A escola, os certificados e o monstro burocrático” merece leitura atenta. Talvez se possa considerar uma reflexão sobre um outro lado da escola quase que unicamente acessível aos profissionais que nela diariamente prestam funções, o peso do excesso de burocracia. Tal excesso é esbanjador de esforços, empenho e competências dos professores sem ganhos significativos para a qualidade dos processos educativos escolares.

A sua leitura fez recordar-me de como em múltiplos contactos e conversas com professores são recorrentes as referências à burocracia que continua a inquinar o trabalho de toda a gente. O recurso exaustivo às novas tecnologias, através de múltiplas plataformas parece ter-se integrado no problema e não representa um contributo sólido para agilização de processos e eficiência

Já há algum tempo aqui escrevi como seria desejável que o trabalho a desenvolver, os conteúdos envolvidos, os dispositivos em utilização, a organização de tempos e rotinas, etc., tivessem como preocupação a simplificação. Professores, técnicos. alunos e famílias ganhariam. Esta simplificação deveria incluir a avaliação e registos. Seria positivo que, tanto quanto possível, se aliviasse a pressão “grelhadora” a que habitualmente escolas e professores estão sujeitos.

Não é por registar, muito, registar tudo, aliás, nunca se regista tudo pelo que não vale a pena insistir, que o trabalho melhora e o desperdício é grande.

Como é evidente, este apelo à simplificação não tem a ver com menos rigor, qualidade, intencionalidade educativa ou não proporcionar tempo de efectiva aprendizagem para todos. Antes pelo contrário, se conseguirmos simplificar processos e recursos, alunos, professores e famílias beneficiarão mais do esforço enorme que todos têm que realizar e estão a realizar.

Sempre que falo desta questão recordo-me do Mestre João dos Santos, quando dizia, cito de memória pelo privilégio de ainda o ter conhecido e ouvido, que em educação o difícil é trabalhar de forma simples, é mais fácil complicar, mas, obviamente, menos eficaz, menos produtivo e muito mais desgastante.

Talvez valesse a pena tentarmos esta via de mais simplificação. As circunstâncias já são suficientemente complicadas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

COMBATE À CORRUPÇÃO? ENTRE O NÃO QUERER E O NÃO PODER

 Nos últimos dias tem estado na agenda mais um episódio que, apesar de lamentavelmente já não estranharmos e talvez por isso, nos faz sentir algures entre a indiferença alimentada pela regularidade de situações desta natureza e uma raiva a crescer nos dentes alimentada pela indignação. A fuga de João Rendeiro estava escrita nas estrelas, talvez com menos despudor, mas este despudor é ele próprio mais um sinal.

Os indicadores produzidos regularmente pelo Barómetro Global da Corrupção, da responsabilidade da Transparency International, a rede global de Organizações Não-Governamentais que em Portugal é representada pela Transparência e Integridade mostraram que Portugal permanece sistematicamente numa posição pouco digna, antes pelo contrário, na tabela do índice de percepção da corrupção tendo praticamente estagnado o que segundo a Transparência e Integridade evidencia a inexistência de uma estratégia de combate à corrupção e aos designados crimes de "colarinho branco".

Sabe-se ainda que numa parte muito significativa dos casos conhecidos, registados  e investigados não resulta condenação. São também regulares as referências à falta de meios e recursos humanos no sistema judicial, mas a coisa não se altera significativamente.

Lembro também que já em Fevereiro de 2016 a Comissão Europeia afirmava num relatório que em Portugal “não existe uma estratégia nacional de luta contra a corrupção em vigor”. Não sei se já temos uma estratégia nacional de combate à corrupção, somos bons a definir estratégias nacionais e até admito que sim, mas os resultados …

No entanto, sobretudo à entrada de cada novo governo ou em períodos pré-eleitorais, está sempre presente nos discursos partidários a retórica que sustenta o fingimento da luta contra a corrupção e a promoção da transparência na vida política portuguesa e, regularmente, emergem umas tímidas propostas que mascaram essa retórica, entram na agenda, por vezes até se dá mais um "jeitinho" nas leis (nada de substantivo) e rapidamente tudo se apaga até ao próximo fingimento.

Do meu ponto de vista, nenhum dos partidos do chamado “arco do poder” ou que a ele pretendem aceder, está verdadeiramente interessado na alteração da situação actual, o que, aliás, pode ser comprovado pelas práticas desenvolvidas enquanto poder nos diversos patamares. A questão, do meu ponto de vista, é mais grave. Os partidos, insisto no plural, mais do que não querer mexer seriamente na questão da corrupção e do seu financiamento, não podem e vejamos porque não podem.

Nas últimas décadas, temos vindo a assistir à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos uma partidocracia instalada que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do estado. Esta teia associa-se à intervenção privada sobretudo nos domínios, e são muitos, em que existem interesses em ligação com o estado, a banca, as obras públicas ou os grandes escritórios de advogados verdadeiramente os autores da legislação que depois irão aplicar ou sobre a qual darão, venderão, pareceres criteriosos, são apenas exemplos. Acresce o intenso tráfego de dirigentes entre entidades públicas e privadas sem qualquer sobressalto. Os últimos anos, meses, semanas, dias, foram particularmente estimulantes nesta matéria.

A manutenção deste quadro, que nenhum partido estará verdadeiramente interessado em alterar, exige um quadro legislativo adequadamente preparado no parlamento e uma actividade reguladora e fiscalizadora pouco eficaz ou, utilizando um eufemismo, “flexível”. Assim, a sobrevivência dos partidos, tal como estão e da praxis que desenvolvem, exigem a manutenção da situação existente pelo que, de facto, não podem alterar. Quando muito e para nos convencer de que estão interessados, introduzem algumas mudanças irrelevantes e acessórias sem, obviamente, mexer no essencial. Seria um suicídio para muita da nossa classe política e para os milhares de amigos de diferentes cores que se têm alimentado, e alimentam do sistema.

O combate à corrupção, parece, assim, um problema complicado e fortemente dependente da inadiável criação de uma pressão cívica que obrigue à mudança. De quem faz parte do problema, não podemos esperar a solução.

E assim se cumpre a pantanosa pátria nossa amada.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

INCLUSÃO E SOLIDARIEDADE

 É recorrente a referência a inclusão em qualquer discurso em matéria de políticas públicas o que poderia significar uma preocupação real, genuína com a inclusão e a solidariedade bens de primeira necessidade nos tempos que vivemos.

Apesar de algum cansaço da retórica sobre inclusão, ainda quero acreditar nessa genuinidade, mas, de vez quando leio, oiço, conheço situações que, recorrendo ao discurso de Almada Negreiros a propósito de Camões e que de vez quando aqui refiro, me levam a pensar nesta estranha pátria em que tanta gente enche a barriga de inclusão e outra tanta gente continua excluída e vulnerável.

Vem esta introdução a propósito da divulgação de que em consequência de uma mudança, necessária sublinhe-se, no quadro normativo relativo à atribuição de bonificações no abono de família de crianças com deficiência realizada em 2019 e apenas regulamentada em Maio deste ano, em final de Agosto ainda se encontravam 7961 crianças sem acesso a essa bonificação.

Soubemos agora desta situação, a voz das minorias é sempre uma voz mais baixa e os seus problemas são evidentemente … minoritários.

Lamentavelmente não é nada de novo, as crianças com necessidades especiais, as suas famílias e muitos dos professores e técnicos sabem, sobretudo sentem, um conjunto enorme de dificuldades para, no fundo, aceder a algo básico e garantido constitucionalmente, os seus direitos. É assim que as comunidades estão organizadas, pelo que não representa nada de extraordinário e muito menos um privilégio.

Como também é evidente, as minorias são sempre mais vulneráveis, falta-lhes voz.

Como sempre afirmo, os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como cuidam das minorias. Lamentavelmente, estamos num tempo que em que desenvolvimento se confunde com mercados bem-sucedidos.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

DIA MUNDIAL DO PROFESSOR

 De acordo com o calendário das consciências, o 5 de Outubro é também o Dia Mundial do Professor e como habitualmente algumas notas e peço desculpa pela repetição, mas a realidade não é a projecção dos nossos desejos contrariamente ao que muita gente parece acreditar.

Não me lembro de nos últimos anos a classe docente estar tão presente na agenda. Os seus problemas e as consequências a curto e médio prazo são agora mais conhecidos e reconhecidos, sendo recorrentes a referência à preocupante falta de professores, o envelhecimento da classe, os níveis de cansaço e de exaustão emocional, a menor atracção dos mais jovens pela profissão associada modelos de carreira e valorização pouco motivadores. Também é de registar que de uma forma geral continuam a merecer a confiança das comunidades.

Este quadro de um mal-estar reconhecido, não pode deixar de ter impacto, Como muitas vezes afirmo, crianças, enquanto grupo social, e professores, enquanto grupo profissional, constituem dois grupos nucleares nas sociedades contemporâneas. Os mais novos porque são o futuro e os professores porque, naturalmente, o preparam, tudo (quase) passa pela escola e pela educação. Hoje em dia e em Portugal, este entendimento ainda me parece mais justificado porque, devido a ajustamentos na organização social e familiar e, é minha convicção, devido a políticas públicas sociais e educativas inadequadas, os miúdos passam tempo excessivo na escola, alterando a dinâmica educativa familiar o que sobrevaloriza o papel da escola através dos professores.

Raramente a profissão professor tem estado tanto em foco como nos últimos anos bem como a necessidade de defender a qualidade da escola pública. Os tempos que vivemos sublinham uma questão e outra de forma crítica.

Múltiplas acções e decisões políticas, bem como alguma imprensa e "opinion makers" têm contribuído para degradar a sua função, fragilizar a sua imagem social e comprometer o clima e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas apesar dos professores continuarem a ser uma das classes profissionais em que os portugueses mais confiam.

A atenção que tem estado centrada nos professores advém de boas e más razões. Não cabe aqui um balanço, e entendo que, tal como os miúdos, os professores não têm sempre razão, os discursos dos seus representantes são, por vezes parte do problema e não parte da solução e também sei que existem alguns professores que o não deviam ser. No entanto, a verdade é que a esmagadora maioria dos docentes são ... Professores, muito bons Professores.

Ser professor no ensino básico e secundário por razões conhecidas e por vezes esquecidas, é hoje uma tarefa de extrema dificuldade e exigência que social e politicamente justifica um reconhecimento e valorização frequentemente negligenciados. Acresce que é uma tarefa desempenhada por uma classe extremamente envelhecida e cansada como tem sido amplamente estudado e divulgado.

Por um momento, pensemos no que é ser professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística, nas políticas sociais e consequente guetização social produziram.

Pensemos ainda na forma como milhares de professores cumprem a sua carreira, muitos deles sem a possibilidade de desenharem projectos de vida para si quando são os principais responsáveis por lançar projectos de vida para os miúdos com quem trabalham. Aliás, nos últimos anos, milhares de professores, de bons professores e professores necessários, foram constrangidos à reforma e muitos ao desemprego por uma política de contabilidade inimiga da educação pública e da qualidade.

Pensemos em como os professores são injustiçados nas apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma qualquer ignorante barbaridade, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.

Pensemos como é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.

Pensemos que a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem.

Pensemos finalmente nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.

A valorização social e profissional dos professores em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. A valorização e reconhecimento passa também pela necessidade de modelos de avaliação justos e transparentes que sustentem, reconheçam e promovam competência e empenho.

Gostava ainda de deixar uma ideia do enorme João dos Santos, “O Professor João, foi meu professor porque foi meu amigo” e uma convicção pessoal que a idade cada vez mais cimenta, qualquer professor ou educador, tanto ou mais do que aquilo que sabe, ensina aquilo que é. É da relação que tudo nasce numa sala de aula, qualquer que seja a configuração.

A verdade é que de todos os professores que connosco se cruzaram os que mais nos marcaram positivamente foi sobretudo pelo que eram e menos pelo que nos ensinaram por importante que seja.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

ACESSO UNIVERSAL OU ALARGAMENTO DA ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA?

 Na imprensa foi divulgada a aprovação em Conselho de Ministros da versão preliminar da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 que entrará em discussão pública.

Entre as iniciativas ou medidas previstas que teremos oportunidade de abordar encontra-se a proposta de alargamento da escolaridade obrigatória para quinze anos iniciando-se aos três anos.

O objectivo será que através da frequência universal da educação pré-escolar se combatam desigualdades que afectam as crianças e dificultam o seu trajecto de desenvolvimento e educação de forma bem-sucedida.

Embora compreenda a necessidade e a importância da educação no combate às desigualdades, nenhuma dúvida sobre isso, a obrigatoriedade da frequência a partir dos três anos merece alguma reflexão. Algumas notas considerando o pressuposto de que garantir o acesso universal à educação pré-escolar, que ainda não existe e é imprescindível, não é o mesmo que tornar a escolaridade obrigatória a partir dos 3 anos.

Em 2020 foi divulgado um relatório da rede Eurydice, “Key Data on Early Childhood Education and Care in Europe 2019” com alguns dados interessantes.

A garantia do acesso à educação pré-escolar em Portugal é aos 3,5 anos, uma posição intermédia no contexto europeu. No entanto, a escolaridade obrigatória inicia-se aos seis anos tal como na maioria dos países europeus.

Parece ainda verificar-se uma procura maior que a oferta embora aos 4 anos já estejamos perto do objectivo de 95% das crianças de quatro ou mais anos a frequentar educação pré-escolar, em 2020 tínhamos 94.2%, mas se englobarmos as crianças com 3 anos a percentagem seria 90.9%. Sabe-se que foi definido como objectivo das políticas públicas de educação a garantia do acesso universal das crianças de 3 anos em 2020 ainda que o processo esteja a decorrer com algumas dificuldades dada a inexistência de respostas suficientes para a procura designadamente em áreas geográficas de demografia mais densa. Aliás, ainda recentemente foi anunciada a criação de lugares para creches e jardim-de-infância.

No que respeita à creche, com dados de 2017, temos 47.5% das crianças em estruturas de acesso a esta resposta. A dificuldade de encontrar respostas e os custos elevados do acesso aos equipamentos, boa parte privada ou da rede social, dos mais altos no contexto europeu, veja-se o relatório "Starting Strong 2017", divulgado pela OCDE que já aqui citei, é reconhecidamente um dos factores associados à baixa natalidade e que, aliás, o relatório sublinha.

É recorrente também a divulgação de informação referindo a existência de muitas crianças em lista de espera de creches e jardins-de-infância no chamado sector social em que as mensalidades são indexadas aos rendimentos familiares. Esta situação afecta sobretudo zonas mais urbanas e a alternativa da resposta privada é inacessível para muitas famílias. Também é reconhecido por múltiplas análises o impacto positivo do acesso de respostas educativas de qualidade em creche e jardim-de-infância.

Aliás, recordo que a partir de 2019 em França a escolaridade obrigatória em França começou a iniciar-se aos 3 anos. Na altura, em França estimava-se que 97% das crianças de 3 anos frequentem a “escola maternal” sendo que a maioria das que não frequentam vivem em agregados familiares com menores recursos económicos. É justamente esta situação que a medida de obrigatoriedade visa combater alicerçando os percursos educativos numa base de maior equidade.

Sabe-se que o processo tem decorrido com algumas dificuldades dada a inexistência de respostas suficientes para a procura designadamente em áreas geográficas de demografia mais densa.

Como tenho afirmado, não tenho certezas sobre a obrigatoriedade da frequência, mas tenho a maior convicção no sentido de que garantir a universalidade do acesso à educação pré-escolar aos três anos e criar respostas de qualidade, acessíveis, logística e economicamente, às famílias para as crianças dos zero aos três anos é imprescindível e urgente. Acentuo também a ideia de que este período, até aos três anos, deveria também estar sob tutela do Ministério da Educação e não da Segurança Social pois o acolhimento das crianças deve estar abrangido por um forte princípio de intencionalidade educativa e integrada nas políticas públicas de educação.

Sabemos todos como o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos é fortemente influenciado pela qualidade das experiências educativas nos primeiros anos de vida, de pequenino é que ...

Assim, existem áreas na vida das pessoas que exigem uma resposta e uma atenção que sendo insuficiente ou não existindo, se tornam uma ameaça muito séria ao futuro, a educação de qualidade para os mais pequenos é uma delas.

No entanto e mais uma vez, a educação pré-escolar é bastante mais que a “preparação” para a escola, não deve ser entendida como uma etapa na qual os meninos se preparam para entrar na escola embora se saiba do impacto positivo que assume no seu trajecto escolar.

Na verdade, as crianças estão a preparar-se para o que será a sua vida, para crescer, para ser. A educação pré-escolar num tempo em que as crianças estão menos tempo com as famílias tem um papel fundamental no seu desenvolvimento global, em todas as áreas do seu funcionamento e na aquisição de competências e promoção de capacidades que tem um valor por si só e não entendido como uma etapa preparatória para uma parte da vida futura dos miúdos, a vida escola.

Este período, a educação pré-escolar, educação de infância numa formulação mais alargada, cumprido com qualidade e acessível a todas as crianças, será, de facto, um excelente começo da formação  institucional das pessoas, dos cidadãos. Esta formação é global e essencial para tudo o que virão a ser, a saber e a fazer no resto da sua vida.

domingo, 3 de outubro de 2021

A EDUCAÇÃO EM ALERTA VERMELHO

 No Público encontra-se um conjunto de trabalhos sobre o universo dos professores que, recorrendo a uma expressão recorrente, é motivo para estabelecer um alerta vermelho no mundo da educação. São abordados aspectos como o envelhecimento da classe e o seu não rejuvenescimento, o modelo de carreira com implicações devastadoras nos projectos de vida muitos professores quando deveria constituir um projecto de realização, falta de docentes em muitas escolas e em diferentes grupos disciplinares, incapacidade de para atrair estudantes para a formação nas áreas da docência, etc.

Lamentavelmente não é nada de novo, há anos que sucessivos relatórios nacionais e internacionais têm alertado para gravidade do envelhecimento da classe docente, dos efeitos associados, e da certeza da falta de docentes a curto prazo que, aliás, já se faz sentir em alguns grupos como este arranque de lectivo tem demonstrado. Algumas notas.

O envelhecimento da classe docente não é um problema exclusivo do nosso sistema, mas é particularmente grave sendo que alguns países também afectados têm iniciativas já em desenvolvimento no sentido de o minimizar.

Acresce que recordando um trabalho do CNE por solicitação da Parlamento, até 2030 mais de metade do corpo docente, 57,8%, sairá para a aposentação. Para além da elevada idade média, considerando os modelos de selecção e recrutamento, é ainda significativo que, como também já era conhecido, em cinco anos a inscrição de alunos em cursos de formação para a docência baixou para metade, os cursos de formação de professores, de uma forma geral, perderam atractividade, menos 70% desde o início do século.

Ao perfil dos docentes em termos de idade acresce que como é reconhecido em qualquer país, a profissão docente é altamente permeável a situações de burnout, estado de esgotamento físico e mental provocado pela vida profissional, associado a níveis pouco positivos de satisfação profissional a que se soma os riscos acrescidos da situação que atravessamos

Na verdade, este cenário só pode surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam na comunicação social perorando sobre educação e sobre os professores.

Também se sabe que as oscilações da demografia discente não explicam a saída de milhares de professores do sistema, novos e velhos, como também não explicam a insuficiente renovação, contratação de docentes novos. Sem estranheza, no universo do ensino privado é bastante superior a presença de docentes mais jovens.

Não esqueçamos ainda a deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. Acresce que sucessivas equipas ministeriais têm desenvolvido políticas que contribuem para a desvalorização dos professores com impacto evidente no clima das escolas e nas relações que a comunidade estabelece com estes profissionais. Os últimos tempos têm sido particularmente elucidativos.

Sabemos que os velhos não sabem tudo e os novos nem sempre trazem novidade. Mas também sabemos que qualquer grupo profissional exige renovação por diferentes razões incluindo emocionais, de suporte, partilha de experiência ou pela diversidade.

Com a previsível aposentação de milhares de professores num prazo relativamente curto teremos uma significativa falta de docentes. O problema é que, como já referi, muito pelo contributo de opinadores e por efeitos de algumas das políticas públicas em matéria de educação a profissão de professor perdeu capacidade de atracção como o trabalho do CNE também sublinha.

Parece clara a necessidade urgente de definir uma resposta oportuna e consistente a este trajecto. Pode passar por um programa de acesso voluntário a reformas antecipadas, mas obrigatoriamente terá de considerar a valorização da função docente.

Sabemos que os sistemas educativos com melhor desempenho são também os sistemas em que os professores são mais valorizados, reconhecidos e apoiados.

Não parece difícil perceber porquê.

sábado, 2 de outubro de 2021

LINGUAGENS

Este fim-de-semana o Monte ficou mais animado com a presença dos netos. Qualquer deles, o Simão e Tomás, com oito e cinco anos, são grandes empreendedores e disponíveis para colaborar na lida o que dá sempre muito jeito.

Esta manhã combinámos que íamos no tractor buscar terra para compor uma sebe de alecrineiros que estava a precisar.

A terra estava boa de mexer, já tinha sido fabricada depois da chuva e aguarda a sementeira. Foi um instante que nós os três carregámos a caixa.

Depois foi despejar junto aos alecrineiros e compor, ficou tudo mais bonito.

No fim da lida o Simão afirma que os alecrineiros lhe disseram que gostaram de ter mais terra à volta do pé.

Perguntei-lhe como tinha sido a “conversa” com os alecrineiros e o Simão esclareceu tranquilamente, “eu falo “plantês”, avô”.

Não tenho dúvidas, os miúdos falam muitas linguagens.

Tantas que, por vezes, sentimos algumas dificuldades em os entendermos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

OS "ALÇAPÕES DA NET". DE NOVO

 Foi ontem divulgada a realização pela PJ de uma operação de grande dimensão de combate à pornografia de menores na net.

Da informação disponibilizada releva que um expediente utilizado com frequência é a utilização dos jogos online para estabelecer o contacto com menores que poderá ter consequências devastadoras.

Num tempo em que a presença na net é substantiva para adultos e mais novos é crítico que estejamos atentos ao que costumo designar por “alçapões da net” e que frequentemente abordo em conversas com pais, ficando por vezes surpreendido com o desconhecimento revelado sobre os riscos. Como é evidente, não está em causa qualquer diabolização destas ferramentas, apenas a regulação e os riscos que também comportam.

Atravessámos períodos de confinamento em que aumentou exponencialmente o tempo que crianças, adolescentes e jovens, tal como muitos adultos, estão em frente do ecrã. Naturalmente os riscos também aumentaram, não só os de natureza sexual, mas também os de cyberbullying, de chantagem e roubo, de exposição a conteúdos inadequados às idades, etc.

Trata-se de mais um factor de pressão para a supervisão imprescindível, mas muito difícil dos mais novos na sua relação com a net.

É de sublinhar que dados do Estudo Internacional de Alfabetização em Informática e Informação (ICILS) envolvendo 11 países e divulgados em 2020 sugerem que os alunos portugueses são os mais bem preparados para usar a internet de forma responsável. No entanto, os dados relativos aos riscos são, de facto, inquietantes.

No âmbito do Projecto Kids Online que envolve 30 países e analisa a utilização da net e das redes sociais por crianças e adolescentes os dados de 2018, cerca de 2000 alunos entre os 9 e os 17 anos mostraram comparativamente a 2014 se verifica uma subida da frequência das situações de risco a que parece também estar a associada a maior operacionalidade e o tempo de contacto permitido pela migração da utilização dos pc para os mais “operacionais” smartphones”.

Para além dos dados do EU Kids Online recordo um trabalho da OCDE de 2018 "Curriculum Flexibility and Autonomy in Portugal – na OECDreview” em que considerando dados de 2012 e 2015 (recolhidos no âmbito do PISA), oito em cada dez adolescentes portugueses afirmam "sentir-se mal" se não estiverem ligados à internet. Apenas os adolescentes franceses e suecos de entre os 31 países envolvidos evidenciam uma taxa superior.

Podemos considerar mais um sinal dos tempos as múltiplas referências ao tempo excessivo e dos riscos associados que que muitas crianças e adolescentes despendem com a ligação à net nas suas múltiplas possibilidades designadamente as redes sociais e os riscos associados. Os indicadores relativos ao cyberbullying e dados como os que agora foram revelados pela PJ são inquietantes.

Nesta perspectiva e tal como noutras áreas o recurso privilegiado a estratégias proibicionistas não funciona.

São mais eficientes a promoção da utilização auto-regulada e informada. A net e o mundo de oportunidades, benefícios e riscos que está presente em todas as suas potencialidades é uma matéria que deve merecer a reflexão de todos os que lidam com crianças e jovens embora não lhes diga exclusivamente respeito. É o nosso trabalho.

Mesmo em tempos “normais”, seja lá isso o que for, a que parece estarmos a voltar, em casa, muitas crianças têm um ecrã como companhia durante o pouco tempo que a escola "a tempo inteiro" e as mudanças e constrangimentos nos estilos de vida das famílias lhes deixam "livre". Também é verdade que a crescente "filiação" em redes sociais virtuais pode “disfarçar” o fechamento, juntando quem “sofre” do mesmo mal e o tempo remanescente para estar em família, frequentemente ainda é passado à sombra de uma televisão.

Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos e os riscos potenciais, por estranho que pareça, são problemas menos conhecidos para muitos pais. Aliás, as dificuldades sentidas por muitas famílias na ajuda aos filhos em tempo de ensino não presencial, mostrou isso mesmo, baixos níveis de literacia digital. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para que a utilização imprescindível e útil seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes minimizando os riscos existentes nos “alçapões da net”. Existem demasiadas situações em que desde muito cedo os “smartphones” ou outros dispositivos funcionam como “babysitters”.

Por outro lado, a experiência mostra-me que muitos pais desejam e mostram necessidade de alguma ajuda ou orientação nestas matérias. Sabemos que estratégias proibicionistas tendem a perder eficácia com a idade.

Creio que o caminho terá de passar por autonomia, supervisão, diálogo e muita atenção aos sinais que crianças e adolescentes nos dão sobre o que se passa com elas.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

UMA FAMÍLIA, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE

 Foi divulgado o Relatório CASA – Caracterização Anual da Situação do Acolhimento de 2020. Alguns dos muitos dados conhecidos e que merecem atenção.

Em 2020 estiveram acolhidas 6706 crianças e jovens, menos 340, que em igual data do ano anterior. No entanto das 2022 novas situações, para 1240 precisaram de protecção imediata através da activação do procedimento de urgência previsto para as situações de perigo iminente para a vida ou integridade física ou psicológica da criança.

Durante o período em análise 182 crianças foram integradas em famílias adoptantes ainda na fase de pré-adopção, menos que em 2019, e 534 crianças têm um projecto de vida para adopção, mas ainda aguardam que se concretize. Continua particularmente difícil a adopção de crianças mais velhas, mais vulneráveis por alguma condição de saúde, crianças com necessidades especiais ou adolescentes e jovens.

Estima-se que as circunstâncias associadas à pandemia tenham tido impacto na saúde mental de 61% das crianças e jovens em situação de acolhimento.

Apesar de alguma evolução temos ainda um cenário complexo e excessivo em matéria de institucionalização de crianças e jovens. É consensual que em nome do bem-estar das crianças e jovens seria desejável que se conseguisse até ao limite promover a desinstitucionalização das crianças por múltiplas e bem diversificadas razões.

Uma entrevista de Robbie Gilligan, Professor de Serviço Social e Política Social no Trinity College, em Dublin, dada ao Público em 2018 ainda merece leitura.

Um estudo de Paulo Delgado do Instituto Politécnico do Porto, creio que divulgado em 2018, refere que as crianças evidenciam uma percepção de bem-estar significativamente diferente consoante estejam em família tradicional, 9.05 numa escala de 0 a 10, em famílias de acolhimento, 8.69 e em instituições, 7.61.

Recordo um estudo de há alguns anos da Universidade do Minho mostrando que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.

A conclusão não questiona, evidentemente, a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção ou outros dispositivos como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos. Também deve acentuar-se o trabalho de grande qualidade que muitas instituições procuram desenvolver. Além disso, sabemos todos, que existem contextos familiares que por razões de ordem variada não devem ter crianças no seu seio, fazem-lhes mal, pelo que a retirada pode ser uma necessidade que o superior interesse da criança justifica sendo um princípio estruturante das decisões neste universo.

Uma família é, de facto, um bem de primeira necessidade.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

O MAL-EDUCADO. Outro diálogo improvável

 És um cabeça no ar.

Antes no ar que enterrada no chão como a avestruz.

Estás sempre na Lua.

Quero ser astronauta.

Não vais ser ninguém na vida.

Óptimo, quero ser alguém, não quero ser ninguém.

Não passas de um “cabeça de vento”.

Estou numa de energias alternativas.

Só fazes coisas sem jeito.

Para isso tenho jeito.

Como é que queres que alguém goste de ti?

Gostando.

Estás sempre distraído.

Não, estou concentrado noutra coisa.

Fazes tudo ao contrário dos outros.

Sou original.

Dessa maneira não vais a lugar nenhum.

Melhor, assim vou a algum lugar em vez de nenhum.

Afinal, que vida vai ser a tua? Esta, a minha.

Não sei mais o que te diga.

Será melhor pensar um pouco mais.

Definitivamente, és um mal-educado.

Finalmente, considerando que não me educo sozinho, de quem é a responsabilidade?

terça-feira, 28 de setembro de 2021

BOAS RESPOSTAS PARA BOAS PERGUNTAS

 Foram divulgados os resultados das provas de aferição realizadas em 2021, por amostra, no 5º e 8º ano nas áreas de Matemática, Português e Inglês e e no 2º ano em Matemática, Estudo do Meio e Português.

As provas não se realizaram em 202º e comparativamente a 2028 e 2019 os resultados foram mais baixos na generalidade das disciplinas e domínios avaliados sendo ainda de registar que em 2021 apenas uma amostra de alunos participou. Também a avaliação em Inglês não é comparável, mas os resultados são também baixos.

Um outro dado relevante, mas expectável os resultados dos alunos que não têm apoios sociais escolares “são sempre superiores aos dos alunos com Acção Social Escolar em todas as literacias, em todos os anos de escolaridade e em todos os níveis de proficiência”.

Esta diferença verifica-se mesmo quando os alunos mais com poio da ASE têm acesso a recursos digitais.

Muitas vezes afirmo que para produzirmos boas respostas importa que façamos boas perguntas. As provas de aferição realizadas por amostra produzem alguns indicadores que serão relevantes, mas as boas respostas só podem ser dadas a partir das perguntas realizadas por cada professor, em cada escola a cada grupo de alunos, a cada aluno.

Depois e quanto ao providenciar das respostas vem a questão central, recursos humanos e materiais e dispositivos de apoio competentes e suficientes. 

Desculpem a insistência, mas recupero algumas notas.

Sabemos que está em desenvolvimento em implementação o Plano 21/23 Escola + justamente com esse objectivo.

Sabemos ainda que o maior ou menor impacto nas aprendizagens, por múltiplas razões, é extremamente diversificado em cada aluno. Parece razoavelmente claro que a diversidade de situações, o seu número, os anos de escolaridade dos alunos, as variáveis contextuais relativas a cada comunidade escolar, recursos disponíveis em cada comunidade, as necessidades específicas de muitos alunos, etc. etc. sugerem que devem ser as escolas a avaliar as necessidades, identificar os recursos necessários, estabelecer objectivos, definir metodologias e dispositivos de regulação e avaliação.

Os professores sabem como avaliar e identificar as dificuldades dos alunos. O que verdadeiramente é imprescindível é dotar as escolas dos recursos necessários para minimizar tanto e tão rápido quanto possível as dificuldades que identificam. Recursos suficientes para recorrer a apoios tutoriais ou ao trabalho com grupos de alunos de menor dimensão, apoios específicos a alunos mais vulneráveis, técnicos, psicólogos, por exemplo, num rácio que possibilite um trabalho multidimensionado como é exigido, etc., são essenciais. Torna-se também necessária a existência de dispositivos de regulação que sustentem o trabalho desenvolvido, de processos desburocratizados.

Para além das narrativas institucionais mais “simpáticas”, por assim dizer, o que se vai sabendo das escolas mostra, sem surpresa, o conjunto de dificuldades que se continuam a sentir.

Por outro lado, considerando os indicadores relativos ao impacto das variáveis relativas ao contexto sociofamiliar e económico dos alunos nos seus trajectos de aprendizagem é preciso considerar que não é uma questão compatível com um Plano de curto prazo por melhor que seja.

Como há pouco aqui recordei, num trabalho divulgado em Maio pela Human Rignts Watch sobre os efeitos da pandemia na população escolar e com dados da ONU afirmava-se que “Uma em cada cinco crianças estava fora da escola antes mesmo da covid-19”.

Num cenário de desigualdades que a pandemia potenciou e que o pós-pandemia continuará a revelar ainda mais relevantes se tornam as políticas públicas.

É neste contexto que emerge a razão destas notas. Do meu ponto de vista, a questão central não deve ser definida em torno da recuperação dos efeitos da pandemia nas aprendizagens ou no bem-estar através de planos de recuperação finitos, mas sim, na mudança ao nível das políticas públicas dos diferentes países, incluindo Portugal, que, para além de forma mais imediata “recuperarem aprendizagens”, tenham impacto a prazo através de recursos suficientes e competentes, definição de dispositivos de apoio eficientes e de acordo com as necessidades, apoios sociais que minimizem vulnerabilidades que a escola não suprime, valorização da educação e dos professores, diferenciação e autonomia nas respostas das instituições educativas, etc.

Sintetizando, para além da conjuntura próxima, cuidar dos danos da pandemia, importa considerar o que é estrutural e imprescindível em nome do futuro, a qualidade da educação e uma educação de qualidade para todos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

AGORA NO SUPERIOR. BOA VIAGEM

 Foram conhecidos os resultados do acesso ao ensino superior num ano em que aumentou significativamente o número de candidatos o que merece registo.

A maioria dos alunos terá sido colocada nos cursos que escolheram o que também é importante. alguma recuperação na escolha de cursos de formação de professores. A colocação e as escolhas de curso assentam, naturalmente, nas motivações dos candidatos e das suas expectativas face ao futuro e nos constrangimentos e enviesamentos da oferta. Para os alunos não colocados nas primeiras escolhas teremos um risco acrescido de frustração e desmotivação que pode levar à desistência e desmotivação, esperemos que corra bem.

Umas notas breves na linha como que aqui já tenho escrito.

Sou dos que entendem que cada um de nós deve poder escrever, tanto quanto as circunstâncias o permitirem, a sua narrativa, cumprir o seu sonho. Por outro lado, a vida também nos ensina que é preciso estar atento aos contextos e às condições que os influenciam, sabendo ainda a volatilidade e rapidez com que hoje em dia a vida acontece.

Nesta perspectiva, parece-me importante que um jovem, sabendo o que a sua escolha representa. ou pode representar nas actuais, sublinho actuais, condições do mercado de trabalho, faça a sua escolha assente na sua motivação ou no projecto de vida que gostava de viver e, então, informar-se sobre opções, sobre as escolas e respectivos níveis de qualidade.

Por outro lado, é esta questão que quero sublinhar, boa parte da questão da empregabilidade, mesmo em situações de maior constrangimento, relativiza-se à competência, este é o ponto fulcral e não não pode, não deve, ser esquecido.

Na verdade, o que frequentemente me inquieta é a ligeireza com que algumas pessoas parecem encarar a sua formação superior, assumindo uma atitude pouco "profissional", cumprem-se os serviços mínimos e depois logo se vê. Têm sido mediatizados casos que elucidam deforma nítida este entendimento, a formação não é um conjunto de saberes e competências, é um título que se cola ao nome. A experiência faz-me contactar regularmente com atitudes desta natureza.

Mesmo em áreas de mais baixa empregabilidade, ou assim entendida, continuo a acreditar que, apesar dos maus exemplos que todos conhecemos, a competência e a qualidade da formação e preparação para o desempenho profissional, são a melhor ferramenta para entrar nesse "longínquo" mercado de trabalho. Dito de outra maneira, maus profissionais terão sempre mais dificuldades, esteja o mercado mais aberto ou mais fechado.

Assim sendo, importa que o investimento, a preocupação com a aprendizagem e a aquisição de conhecimentos, competências e de princípios éticos e deontológicos se estabeleçam como desígnio. Este entendimento pode e deve coexistir com o desenvolvimento de uma vida académica socialmente rica, divertida e fonte de bem-estar e satisfação. É desejável resistir à tentação do facilitismo, do passar não importa como, da fraude académica que constitui actualmente uma preocupação, da competição desenfreada que inibem partilha, cooperação e apoio para momentos menos bons.

O futuro vai começar dentro de momentos.

Boa sorte e boa viagem para todos os que vão iniciar agora esta fase fundamental nas suas vidas.

domingo, 26 de setembro de 2021

CIDADANIA

 Como tantas vezes verificamos. os miúdos estão mais atentos ao mundo que os rodeia do que nós acreditamos.

Um dia destes, o meu neto Simão, 8 anos, perguntava ao pai se já sabia em quem ia votar ouvindo uma resposta afirmativa.

Então comentou:

Eu ainda não posso votar, mas quando puder já sei.

Então?

Vejo se as ruas estão limpas, se estiverem voto nas pessoas que estão a mandar. Se não estiverem escolho outras.

Está certo, pensei eu hoje quando ouvi a história. E assim se constrói a cidadania. Esperemos que mais participada e atenta quando o Simão e o Tomás puderem votar.

sábado, 25 de setembro de 2021

DIA DE REFLEXÃO

 Manda a liturgia e o quadro legal dos processos eleitorais que o dia anterior à votação se dedique à reflexão. Como em outras ocasiões tenho afirmado, não estou muito de acordo com este cenário e enquanto existir aqui me manifesto.

Do meu ponto de vista e ainda que pareça estranho, a haver um dia de reflexão deveria ser o dia seguinte.

A decisão em matéria de voto não exige um dia de reflexão. Aliás, gostaria de saber se existe algum estudo sobre o peso que o dia de reflexão terá na decisão relativa ao voto.

Em primeiro lugar não julgo necessário o dia de reflexão antes do acto eleitoral porque não entendo que essa reflexão influencie significativamente os resultados eleitorais pois, se por um lado a abstenção tem crescido, deixando cada vez mais o voto no eleitorado fidelizado, por outro lado, o eleitorado flutuante não decide na véspera, decide, creio, face a contextos e circunstâncias.

Acresce que, e esta campanha eleitoral foi particularmente elucidativa, o que ocupa tempo de campanha tem menos a ver com os problemas reais das pessoas e mais com a luta pelo poder interno ou pela poder em termos nacionais o que, considerando que se trata de eleições para as autarquias é sintomático.

Em segundo lugar, porque na verdade, em termos de futuro parece ser mais significativo reflectir nos resultados eleitorais que se verificarem. Estas eleições são um claro exemplo disso mesmo, por exemplo a partir da votação que receberá a extrema-direita ou o que indiciarão sobre acordos em autarquias ou de âmbito nacional.

No entanto e desde já, aproveito o dia de reflexão para deixar um apelo muito sentido.

Apelo vivamente aos senhores integrantes da classe política, em particular a uma figura notável, o Ministro Eduardo Cabrita um estudo de caso em matéria de sobrevivência como ministro, que a propósito das eleições de amanhã se inibam de elaborar comentários como “queria felicitar o povo português pela forma tranquila como está a decorrer, ou decorreu, o acto eleitoral”, “quero registar a normalidade que o povo português evidencia no cumprimento do seu dever cívico”, “os cidadãos mais uma vez mostram a sua maturidade democrática” ou ainda “o acto eleitoral está a decorrer, ou decorreu, com toda a normalidade em todo o território”. Considero afirmações desta natureza um insulto à esmagadora maioria dos cidadãos eleitores em Portugal. Que diabo pensam de nós, para se surpreenderem com a “normalidade” do nosso comportamento?

Então não é de esperar que participar num acto eleitoral, das diferentes formas possíveis, seja algo de normal e tranquilo?

Lembro-me daqueles pais e professores que ao falarem de miúdos acrescentam de imediato “e até se portam bem”, como se o comportamento adequado seja uma surpresa e a excepção. Como se dizia no PREC, “repudio veementemente tais afirmações”.

Já agora, nós, os cidadãos que votamos, ou não, com normalidade democrática, gostávamos de poder comentar as campanhas dos políticos dizendo que tudo decorreu com a elevação, sentido ético e de esclarecimento normais. Mas não, existem sempre os insultos, a demagogia, a trafulhice nas ideias e nas promessas, a falta de esclarecimento e debate sério, etc.

A campanha que ontem terminou constituiu um autêntico manual. Aliás, achei até curioso que ouvindo ou lendo muitas das intervenções dos candidatos, mais parecia que que se trata de eleições legislativas

A actividade política das lideranças é que, demasiadas vezes, não decorre com normalidade e tranquilidade democráticas.

Não tratem os cidadãos como gente incapaz e de quem sempre se espera o pior.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

DEMASIADO PERTO OS OLHOS NÃO VÊEM

 Era uma vez uma Mãe de um Rapaz. Era o seu primeiro filho e toda a vida sonhara ser mãe. Não havia no mundo mãe que gostasse mais de um filho que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais preocupada que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais atenta que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais presente que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais disponível que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais próxima do filho que esta Mãe.

Só que o Rapaz parecia desconfortável e às vezes, cada vez mais vezes, reagia mal a tanta mãe. A Mãe começou a ficar perplexa e perdida, e com o tempo, ainda mais perplexa e perdida. Um dia encontrou no parque aquele Velho que sabia ler as pessoas que, quando a ouviu, pensou alto.

"Por mais que a gente goste dos filhos, eles não podem ser usados e guardados só no coração. Também têm de ser usados e guardados na cabeça e nos olhos e também é preciso olhá-los um pouco mais afastados. Demasiado perto os olhos não conseguem ver bem e, por isso, a cabeça não entende”.

Naquela noite ao jantar, a Mãe, ao ver o Rapaz do outro lado da mesa, reparou como ele estava crescido e tinha uns olhos bonitos. Como os dela, que já viam.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

DAS NARRATIVAS NA EDUCAÇÃO

 O arranque de cada ano lectivo é marcado regulamente por diferentes narrativas sobre a (a)normalidade com que acontece. Por razões de diferente natureza parece já tarefa quase impossível esperar que alguma vez essa normalidade seja um consenso.

Num ano ainda marcado por diferentes efeitos da pandemia a que se juntam os efeitos de algumas dimensões das políticas públicas de diferentes áreas também não seriam de esperar os entendimentos sobre a “normalidade” do começo. Algumas notas.

Socorrendo-me apenas de referências do Expresso encontramos algumas narrativas elucidativas.

Uma primeira nota relativa a um artigo do Secretário de Estado Adjunto e da Educação em que se lê, “O ano letivo 2021/2022 arranca com a certeza de que, pelo segundo ano consecutivo, estamos não apenas a cumprir a missão natural da escola, mas também a mitigar os efeitos da maior crise que assolou o nosso sistema educativo. A pandemia afetou os alunos nas suas aprendizagens, aumentou desigualdades e gerou ansiedade, perdas e instabilidade.

O texto ilustra em seguida todas as iniciativas e dispositivos que sustentam uma visão das escolas e das suas condições que todos desejaríamos reais e universais. No entanto, muitas escolas e por diferentes razões não cabem no retrato desenhado, conheço algumas e regularmente recebo informações de outras.

Aliás, acontece que num outro texto do Expresso se refere a existência de cerca de 3 mil turmas com falta de professores e a falta de profissionais de psicologia apesar de alguma evolução. A insuficiência de docentes em muitas escolas, em particular de alguns grupos disciplinares tem, aliás, sido referência na comunicação social nestes dias.

Ao fim de mais de quatro décadas de trabalho nesta área já me cansam sucessivas narrativas assentes numa espécie de pensamento mágico que mostram uma realidade virtual, que seria a dos nossos desejos, mas que ainda não é a … realidade.

O futuro que hoje está a começar para cada criança ou jovem vai ser amanhã.

É verdade que muitos amanhãs cantarão e ainda bem que assim será.

Mas é também verdade que outros amanhãs não conseguirão cantar ou cantarão de forma desafinada.

Não, não está tudo bem e para que todos consigamos avançar é imprescindível que o reconheçamos.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

EXPLICAÇÕES, UM NICHO DE MERCADO

 No DN encontra-se um trabalho extenso e muito interessante sobre o universo das chamadas “explicações”, ajudas particulares ao estudo que também aqui abordo com regularidade. Trata-se de um nicho de mercado que apesar da pandemia, ou por causa da pandemia, parece em franco florescimento.

A peça recorre a indicadores de um estudo realizado 2019 pelo grupo “Ginásios da Educação Da Vinci”, um franchising que gere em Portugal 42 centros respondendo a 5400 alunos num universo estimado em 244 mil que recorrem a estes “serviços”. Destes, cerca de 70% têm “explicadores” particulares, maioritariamente professores que dão explicação num “cantinho” da sua casa num volume de facturação estimado em 200 milhões de euros e que passa, por assim dizer ao lado, das obrigações fiscais. Ainda segundo os mesmos dados, existirão à volta de doze mil explicadores e de mil centros de estudo e apoio escolar.

Trata-se de facto de um mercado em expansão e fomentador do empreendedorismo individual e que também contribui para acentuar as desigualdades sociais pré-existentes sem qualquer sobressalto por parte de quem é responsável por políticas públicas.

É um mercado que envolve alunos de todos os anos de escolaridade, mas tem maior procura em anos de exame e no ensino secundário quando está em jogo o acesso ao ensino superior.

Na verdade, é um mercado generalizado como se pode verificar com um passeio pelas proximidades das escolas abundando a oferta de ajudas fora da escola, antes conhecidas por “explicações”, mas agora com designações mais sofisticadas como “Centro de Estudos”, “Ginásios”, etc., que, provavelmente, terão mais efeito “catch” no sentido de atingir o “target”. Ainda temos a oferta mais personalizada, as “explicações” no aconchego caseiro dos explicadores, numa espécie de atendimento personalizado. O mercado está sempre atento e como se refere na peça do DN o marketing desempenha um papel importante.

Apesar de nada ter contra a iniciativa privada desde que com enquadramento legal e regulação, o que está longe de existir, várias vezes tenho insistido no sentido de entender como desejável que os apoios e ajudas de que os alunos necessitam fossem encontrados dentro das escolas e agrupamentos. O impacto no sucesso dos alunos minimizaria, certamente, eventuais custos em recursos que, aliás, em alguns casos já existem dentro do sistema.

Esta minha posição radica no entendimento de que a procura “externa” de apoios, legítima por parte das famílias, tem também como efeito o alimentar da desigualdade de oportunidades e da falta de equidade como tem sido regularmente sublinhado em múltiplos estudos.

Neste contexto, recordo que no Relatório do CNE, "Estado da Educação 2016", constava um dado interessante relativo a Portugal que na altura comentei e extraído do TIMSS de 2015. Referindo apenas o secundário, 61% dos estudantes do secundário afirmam ter aulas particulares de Matemática no sentido de melhorar o desempenho nos exames. A comparação com outros países é elucidativa tanto mais se considerarmos o respectivo nível de vida, sendo a Noruega um exemplo extremo.

Também trabalhos realizados pelo CNE e pela Fundação Francisco Manuel dos Santos que evidenciam algo de muito significativo apesar de bem conhecido e reconhecido, nove em cada dez alunos com insucesso escolar são de famílias pobres.

A ajuda externa ao estudo como ferramenta promotora do sucesso não está ao alcance de todas as famílias pelo que é fundamental que as escolas possam dispor dos dispositivos de apoio suficientes e qualificados para que se possa garantir, tanto quanto possível, a equidade de oportunidades e a protecção dos direitos dos miúdos, de todos os miúdos.

As necessidades dos alunos poderiam ser atenuadas com o recurso a professores que já estão no quadro, em situação precária por demasiado tempo ou mesmos dispensados quando seriam necessários. Também por estas razões a narrativa dos professores a mais é ... isso mesmo, uma narrativa que, aliás, começa a ficar evidente com a dificuldade contratação de docentes em diferentes escolas durante os primeiros meses do ano lectivo.

De uma vez por todas, é necessário contenção e combate ao desperdício, mas em educação não há despesa há investimento.

Uma nota final.

Com alguma regularidade desloco-me a um local perto de uma escola de 2º 2 3º ciclo integrada de dimensão significativa. Como não podia deixar de ser, nas proximidades existe uma oferta razoável de espaços para “explicações”.

Um deles divulga numa enorme montra um impressionante conjunto de serviços. Começa por afirmar que recorre a metodologias divertidas para aprender melhor o que evidentemente é um bom começo, estamos todos cansados do trabalho sério que se realiza nas salas de aula.

Depois temos o elenco de respostas:

Explicações de todos os níveis

Centro de alto rendimento escolar

Preparação para exames

Estratégias educativas

Motivação e auto-estima

Gestão de ansiedade

Stresse nos exames

Mindfulness terapia

Actividades de férias

Confesso que fiquei esmagado. Escola e professores para quê?

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

ESTAVA ESCRITO NAS ESTRELAS

 Em Maio de 2019 ao comentar a investigação ao grupo de colégios GPS no âmbito da qual foi notícia que a PJ terá encontrado perto de um milhão de euros em ouro e notas bem arrumadinhos na banheira de hidromassagem da casa do presidente do grupo de colégios privados GPS, escrevi no Atenta Inquietude:

(…) Poder-se-á tratar de um caso de lavagem de dinheiro com massagem incluída, mas será sempre um caso de polícia que se espera resolvido com celeridade e transparência.

No entanto, a questão central é a natureza das políticas públicas.

Parece ser claro que que ao longo de décadas os dispositivos de apoios estatal a estruturas privadas tem assentado em modelos de regulação ineficazes que, evidentemente, sai cara aos contribuintes, mas, por outro lado, alimenta uma política amigável para os interesses privados. Boa parte da a história das PPP é elucidativa. E lamentável, acrescente-se.

Por estas e muitas outras razões é de uma enorme desfaçatez mascarar os negócios da educação, legais ou ilegais, com referências à liberdade de educação.

Parece-me tudo bastante mais claro se falarmos em liberdade de mercado, mas prescindindo do dinheiro público para o financiamento de negócios privados a não ser, obviamente, quando é prestado efectivamente serviço público de educação. 

No fim, ainda restará a delinquência como parece ser o caso em investigação. A ver vamos como acaba. Confesso que acho que sairá mais um rato da montanha.

(…)

Como dizíamos quando éramos miúdos … bruxo! Começam a surgir os ratos e o julgamento ainda nem acabou.

Importa acrescentar que sendo a existência de um subsistema de ensino privado próprio de sociedades abertas é também importante como forma de pressão reguladora sobre a qualidade da resposta pública. Por outro lado, também me parece de recordar que nem o ensino privado é garantia de qualidade nem o ensino público é o inferno. A excelência não é um exclusivo da escola pública nem do ensino privado e todo o sistema deve ser regulado.

domingo, 19 de setembro de 2021

DO CYBERBULLYING

 No Expresso encontra-se um trabalho sobre o bullying, em particular o cyberbullying, que merece séria reflexão e, sobretudo, acção.

Face a resultados obtidos centrados no primeiro confinamento em que 61,4% dos jovens inquiridos se afirmaram vítimas de cyberbullying, o trabalho realizado por investigadores do ISPA – Instituto Universitário e do ISCTE durante o segundo período de confinamento mostra que são agora 71% os adolescentes e jovens que admitiram ter passado por algum tipo de assédio, humilhação ou ameaça online pelos pares através de mensagens ou partilha de imagens íntimas não consentidas. Participaram 952 alunos com mais de 13 anos do ensino básico, secundário e superior.

Dos dados releva que 8 em cada 10 alunos assistiram a episódios sendo que 60% tentaram intervir e 40% não o fizeram.

Quanto aos agressores, 39% dos inquiridos 52% afirma agir por brincadeira, sem, aparentemente considerar a gravidade ou as consequências do comportamento. A vingança foi a justificação referida por 31%, a “necessidade de afirmação” por 10,2% e 7,8% refere que a vítima é o tipo de pessoa com é habitual “gozar”.

Tal como referi a propósito do estudo anterior, os dados são de facto preocupantes e ainda é de considerar que pela idade dos inquiridos, muitos serão adultos teremos certamente alunos do ensino superior.

Algumas notas direccionadas sobretudo para os alunos que ainda frequentam a escolaridade obrigatória e que aqui frequentemente refiro.

Desde logo parece-me de chamar a atenção que também por questões desta natureza se percebe a necessidade de uma área disciplinar trabalhada na escola, que chegue a todos os alunos e que promova a qualidade das relações interpessoais, cidadania, etc. emocional, etc.

O cyberbullying parece ser actualmente a variante de bullying mais preocupante, não só num tempo de confinamento, por razões óbvias, mas mesmo em situação de ensino presencial.

Contrariamente ao bullying presencial o cyberbullying não tem “intervalos”, normalmente os fins-de-semana pois ocorrem predominantemente nos espaços escolares. Não sendo presencial o(s) agressor(es) não tem, ou não têm, uma percepção clara do nível de sofrimento infringido o que em algumas circunstâncias pode funcionar como “travão” e inibir o comportamento agressivo. Esta situação é potenciada quando se junta a um menor nível de empatia pelo outro o que transparece no estudo agora divulgado.

Também por estas razões é fundamental uma atitude ajustada face a este tipo de comportamentos.

Em termos globais, sabe-se também que a ocorrência de situações de bullying é bem superior ao número de casos que são relatados. Uma das características do fenómeno, nas suas diferentes formas, incluindo o cyberbullying, é justamente o medo e a ameaça de represálias a vítimas e assistentes que, evidentemente, inibem a queixa pelo que ainda mais se justifica a atenção proactiva e preventiva de adultos, pais, professores, técnicos ou funcionários.

Este cenário determinaria, só por si, um empenhado investimento em recursos e dispositivos que procurassem minimizar o volume de incidências, algumas das quais de gravidade severa.

Recordo um estudo com uma escala significativa divulgado na Lancet Psychiatry há já algum tempo que sugeria que o bullying pode assumir impactos negativos mais significativos no bem-estar psicológico dos adolescentes aos 18 anos que maus-tratos de adultos sofridos na infância. Mostra ainda que crianças maltratadas na infância são vítimas potenciais de bullying em adolescentes.

Neste contexto e dada a gravidade e frequência com que ocorrem estes episódios, é imprescindível que lhes dediquemos atenção ajustada, nem sobrevalorizando, nem tudo é bullying, o que promove insegurança e ansiedade, nem desvalorizando, o que pode negligenciar riscos e sofrimento.

Neste universo e mais uma vez importa considerar dois eixos fundamentais de intervenção por demais conhecidos, a prevenção e a intervenção depois dos problemas ocorrerem. Esta intervenção pode, por sua vez e de forma simplista, assumir uma componente mais de apoio e correcção ou repressão e punição, sendo que podem coexistir. Com alguma demagogia e ligeireza a propósito do bullying, as vozes a clamar por castigo têm do meu ponto de vista falado mais alto que as vozes que reclamam por dispositivos de prevenção, intervenção e apoio para além da óbvia punição, quando for caso disso.

Esta utilização mostra a necessidade de dispositivos de apoio e orientação absolutamente fundamentais para que pais, professores e alunos possam obter informação e apoio. Entretanto estão criados vários portais e disponíveis alguns canais de denúncia e procura de orientação e suporte dirigido a pais, professores, técnicos e, naturalmente, alunos.

Lamentavelmente, parte importante das entidades e iniciativas de apoio e suporte é exterior às escolas e ilustra a falta de resposta estruturada e global do sistema educativo, para além das insuficiências de recursos e na formação de técnicos e de professores sobre esta complexa questão, desde logo para o seu reconhecimento e identificação.

A existência de dispositivos de apoio sediados nas escolas, com recursos qualificados e suficientes, designadamente no que respeita aos assistentes operacionais com funções de supervisão dos espaços escolares, é uma tarefa urgente.

Do meu ponto de vista, o argumento custos não é aceitável porque as consequências de não mudar ou não fazer são incomparavelmente mais caras. Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa, mas é necessário. Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos ou não conseguimos dar atenção, seja em casa, ou na escola.

Estes sinais não devem ser ignorados ou desvalorizados. O resultado pode ser trágico.