Mãe, posso ir brincar para aquela árvore?
Não Miguel, que ideia! Sabes que é perigoso subir as
árvores.
Mãe, posso ir jogar à bola com aqueles miúdos?
Miguel, não vês como eles andam aos encontrões e caem, podes
magoar-te.
Mãe, posso ir dar cambalhotas na relva?
Miguel, tens cada lembrança, dar cambalhotas na relva. Não
vês que está suja das pessoas passarem e podes apanhar doenças.
Mãe, posso ir ali ao bebedouro beber água?
Espera mais um pouco. Estão lá uns miúdos, podem meter-se
contigo. É preciso ter muito cuidado com quem a gente não conhece.
Mãe, posso ir para ali correr para assustar os pássaros?
Miguel, já devias saber que quando te metes em corridas podes cair e magoas-te.
Mãe, posso fazer o quê?
Olha Miguel, deixas-te estar aqui sentado no banco ao pé da
mãe que está a ler. Quando passar o senhor dos gelados compro-te um dos que
gostas. Se te portares bem, é claro.
Mais uma vez. É preciso escutar os miúdos. Se lhes perguntarem, (das diferentes formas de fazer perguntas e ouvir respostas), vão ficar a saber que brincar é a actividade mais séria que realizam, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que virão a ser e a saber.
Já em 2018 a Academia Americana
de Pediatria recomendou aos pediatras que na sua prática clínica prescrevam
“tempo para brincar”, um bem de primeira necessidade para o bem-estar dos mais
novos com impacto em diferentes dimensões.
Insistem que não se trata de uma
ideia “frívola” e os actuais estilos de vida de muitas famílias, por diferentes
razões, tornam ainda mais importante que se reafirme a importância de brincar.
No caso mais particular, mas
também essencial do brincar na rua sabemos que as questões da segurança e,
sobretudo dos estilos de vida e a mudança verificada nos valores e nos
equipamentos, brinquedos e actividades dos miúdos, o brincar na rua começa a ser
raro.
Embora consciente das questões
como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível
alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua,
talvez com a supervisão de velhos que estão sozinhos, as comunidades e as
famílias conseguissem alguns tempos e formas de ter as crianças por algum tempo
fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã.
Como muitas vezes tenho escrito e
afirmado, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a
autonomia, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como falava
Almada Negreiros. A brincadeira, a rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado
obviamente), os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas
fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.
Curiosamente, se olharmos às
nossas condições climatéricas, Portugal é um dos países com valores mais baixos
no tempo dedicado a actividades de ar livre, situação com implicações menos
positivas na qualidade de vida, nas suas várias dimensões, de miúdos e
crescidos.
Talvez, devagarinho e com os
riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por
pouco tempo e não todos os dias.
É, pois, importante que todos os
que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de
orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam o brincar como uma
das “guide lines” para a sua intervenção.
Os mais novos vão gostar e
faz-lhes bem.