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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A PONTE

 Depois da pausa do almoço na lida do Monte, que com a abafura do Alentejo sabe ainda melhor, é quase sempre o tempo para estas notas. Reparei na imprensa que se assinalam hoje os 60 anos da Ponte 25 de Abril e a memória sobrepôs-se ao hoje.

Fui até lá trás, ao tempo que não havia ponte entre Almada e Lisboa pelo que pessoas e veículos circulavam pelos barcos, os cacilheiros, os "pequenos" só para passageiros que iam de Cacilhas para Terreiro do Paço, e os "grandes" que levavam também veículos e atracavam no Cais do Sodré. Existiam ainda outras carreiras fluviais para Lisboa como as do Barreiro ou do Porto Brandão. 

Sou de uma geração de gente da margem sul que para realizar estudos liceais em escolas públicas precisou de o fazer em Lisboa, no Passos Manuel, Gil Vicente, D. João de Castro como eu, algumas raparigas no D. Amélia, entre outros.

Lembro-me dos barcos "grandes", o Eborense, o Alentejense, alguns com 1ª classe, um luxo a que poucos se davam, um suplemento de 20 centavos era caro e nós estudantes, cujo passe não dava acesso à primeira classe, apenas quando iludíamos os cobradores conseguíamos viajar de penetra nas poltronas de verga. Até sermos corridos.

O Tejo lindíssimo como sempre era uma estrada de água sem os engarrafamentos que a Ponte veio a conhecer. Ainda tenho na memória imagens da construção da Ponte registadas a partir da travessia diária do rio.

Lembro-me dos pilares a serem erguidos, a colocação dos cabos e posteriormente do tabuleiro

É certo que em alguns dias o Tejo ficava bravo e a viagem era atribulada, sobretudo o processo de atracar pois os marinheiros experimentavam sérias dificuldades em amarrar o cacilheiro. Era a altura em que com mais frequência os "heróis" que saltavam do barco para o cais ainda com o barco em movimento iam, por vezes, parar à água, com um fim trágico em algumas situações. Também me recordo dos dias de nevoeiro, com o Farol de Cacilhas a apitar com regularidade e viajarmos no exterior com um marinheiro encostado à proa do navio com toda a atenção para ouvir algum barco que se aproximasse. Com nevoeiro cerrado era um bocado assustador.

Um espectáculo sempre animado era a entrada nos barcos das galeras, umas carroças compridas com quatro rodas, puxadas por dois animais que se assustavam com a água e que resistiam à entrada. Estas galeras carregavam cortiça ou produtos de cortiça das fábricas da Cova da Piedade para a margem norte poupando uma longuíssima volta por Vila Franca de Xira.

Na verdade, aquelas viagens nos cacilheiros do Tejo, no exterior, com os primeiros cigarros que nos faziam crescer, eram mesmo de outro tempo.

Com a Ponte e com paixão pelas motas, logo que tive idade e as finanças permitiram passeia a usar mota pelo que raras vezes voltei à travessia fluvial e também não me exaspero com os diários quilómetros de fila. É verdade que o vento me pregou uns sustos em cima do tabuleiro, mas… não se pode ter tudo.

Na verdade e apesar do que de diferente poderíamos ter, ainda assim, Lisboa, vista do Tejo, de cima da Ponte 25 de Abril, continua linda. Tal como a Ponte.

domingo, 26 de julho de 2026

DOS AVÓS

 O calendário das consciências determina para hoje o Dia Mundial dos Avós, pessoas normalmente discretas. Uma lembrança à minha Avó Leonor, uma Mulher notável com uns olhos claros, uma fala e um estar que eram um ninho de aconchego.

A avozice é um mundo mágico no qual entrei há algum tempo com a abençoada chegada do Simão há treze anos e do Tomás há dez. Acho que ainda não consegui acomodar os sentimentos e a magia de acompanhar de perto, tão de perto quanto possível sem o excesso da intrusão inibidora de autonomia, o crescimento destes gaiatos que têm uma geração pelo meio.

Tem sido um divertimento, uma descoberta permanente e a percepção de um outro sentido para uma vida que já vai comprida e também, desculpem a confissão, cumprida.

Neste entendimento e como tem acontecido aqui no Atenta Inquietude a cada 26 de Julho, retomo a minha proposta no sentido de ser legislado o direito aos avós. Isto quer dizer, simplesmente, que todos os miúdos deveriam, obrigatoriamente, ter avós e que todos os velhos deveriam ter netos.

Num tempo em que milhares de miúdos passam muito tempo sós, mesmo quando, por estranho que pareça, têm pessoas à beira, e muitos velhos vão morrendo devagar de sozinhismo, a doença que ataca os que vivem sós, isolados, qualquer partido verdadeiramente interessado nas pessoas, sentir-se ia obrigado a inscrever tal medida no seu programa ou, porque não, inscrevê-la nos direitos fundamentais.

Com tantas crianças abandonadas dentro de casa, institucionalizadas, mergulhadas na escola tempos infindos ou escondidas em ecrãs, ao mesmo tempo em que os velhos estão emprateleirados em lares ou também abandonados em casa, isolados de tal forma que morrem sem que ninguém se dê conta, trata-se apenas de os juntar, seria um “dois em um”. Creio que os benefícios para miúdos e velhos seriam extraordinários.

Um avô ou uma avó, de preferência os dois, são bens de primeira necessidade para qualquer miúdo e, deixem-me que vos diga e insista, os avós não estragam os netos até porque gostam deles. Cuidam deles com outro tempo, com outro olhar.

Já agora recupero uma história com avô dentro. Como sabem contar histórias é mesmo coisa de avós e às vezes repetem-nas, é o caso desta, já aqui a contei.

De há uns tempos para cá apareceu uma moda que “impede” as pessoas de falarem em brincar nas escolas da terra, é proibido brincar nas escolas.

A moda foi fabricada por uma gente ignorante de miúdos, obcecada com trabalho e produtividade, mesmo infantil, uns infelizes escravos convencidos de que são livres e que também querem escravizar os outros.

Mas naquela terra ainda existem uns professores, muitos, que não se deixam enganar, sabem ler os miúdos e percebem que eles aprendem porque também brincam e brincam porque também aprendem. Aliás, brincar e aprender são as coisas mais sérias que os miúdos fazem, sorte a deles, a de alguns, felizmente muitos.

Um dia, um desses professores lembrou-se, que sacrilégio, de dizer aos seus alunos para trazerem para a escola o seu brinquedo preferido. A Maria trouxe uma boneca. O João apareceu com a consola nova. A Sara vinha vaidosa com umas bonecas que o pai tinha mandado vir estrangeiro. A Irina trazia o Noddy. O Carlos vinha com uns olhos quase tão grandes como a bola de futebol que trazia debaixo do braço. O David, sempre pronto para as lutas, trazia uns bonecos lutadores de wrestling. A Joana não ligava a ninguém com o seu dispositivo com as músicas de que gosta. Enfim, por um dia, toda gente veio para a escola com um brinquedo, o seu preferido.

O último a chegar foi o Tomás.

Feliz e sorridente entrou na sala de aula com a avó pela mão.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

PARTIU UM HOMEM BOM

 Os caminhos e descaminhos da vida fazem-nos encontrar pessoas e lugares que vão ficando connosco, sempre.

Como os que me conhecem ou por aqui vão passando sabem, o Alentejo, em particular, o Monte é o meu lugar desde o princípio dos anos 90. Tendo nascido e sempre vivido na margem certa do Tejo, Almada, as partidas da vida fizeram com que encontrasse uma terra para ir sempre que podia. Desde aí passou a ser a minha terra, a nossa terra.

Também sabemos que as terras têm pessoas, e a minha terra sempre tem tido pessoas, na vila para umas lérias, no monte para a lida e, claro, umas lérias, nos encontros com petiscos e sempre com lérias, no cante, aqui com o silêncio que o evidencia.

No entanto, o tempo passa e também traz partidas e partidas sofridas. Partiu o Mestre Zé Marrafa, connosco desde o início e guia para tudo, a horta e os seus tempos e modos, as alfaias e o tractor, apanha da azeitona e limpeza das árvores e nos deixou um legado de saberes e afecto que faz com que tantas vezes o lembremos.

Com alguma surpresa apesar de estar doente, recebemos a notícia de que mais um homem bom, um Amigo, tinha partido, o Sr. Manel Ilhéu. Fizemo-nos à estrada para a despedida, o Sr. Manel não podia partir sem nos despedirmos.

Doeu, doeu muito. Conhecemos o Sr. Manel desde as obras de recuperação do monte, e sempre esteve disponível para ajuda e muitas vezes ficávamos de conversa. A sua oficina cheia de tudo e mais alguma coisa onde, por exemplo, amanhava as bicicletas da sua paixão, era algo de extraordinário e fazia o encanto e espanto dos meus netos quando lá íamos com as binas ou buscar uma bilha de gás.

 Tinha uma outra dimensão que nos tornava a vida mais doce e saborosa. A sua paixão pelas abelhas e pela produção do mel contribuiu para que durantes estes anos o nosso chá tivesse um sabor inigualável.

Pois é, o Manel Ilhéu partiu. E agora? Quem me vai chamar Dr. Zé António só para me arreliar e se rir?

Ainda nos vamos encontrar Manel, e pomos as lérias em dia, com todo o tempo do mundo.

domingo, 19 de julho de 2026

ROUPA ESTENDIDA

 Depois da lida da manhã aqui no Monte, como dizia o Mestre Zé Marrafa num monte há sempre trabalho, sentei-me e abro computador começo a olhar para imprensa e … disse para comigo, hoje não, fico por aqui, neste mundo pequeno. Sorte a minha que o tenho.

Quase sempre, quando a lida não é muito pesada, os meus dias por aqui começam por uma caminhada pelos caminhos do monte, gosto de ir vendo as oliveiras, que já estão carregadas com azeitona, oxalá se crie bem e não caia, os sobreiros pequenos que estão bonitos e a crescer ...

Às tantas, fiquei a olhar para uma roupa que tínhamos estendida numa corda entre duas oliveiras. Pode parecer assim um bocadinho estranho, mas gosto de ver um estendal numa casa no meio do campo. É uma prova de vida, um sinal de humanidade. Por coincidência, quando passei pelo lado de cima do monte também reparei que se via roupa a secar ao pé da casa da herdade que está mais perto. Outro sinal de vida, são casas habitadas, com gente.

A certa altura, certamente para me fazer sentir melhor, veio acompanhar-me uma das gatas residentes aqui no monte e caminhou à minha beira algum tempo. Trocámos umas palavras por umas miadelas e concordámos, sabe bem passear no monte. Somos amigos, algum comer a troco de alguns ratos caçados e da guarda quando não estamos.

Bom, agora, já depois da volta, de umas limpezas erva com a roçadora  e de excelente petisco, beringela panada e salada de tomate, tudo cá da horta, um tempinho para esta escrita. Talvez seja um pouco estranha num tempo de nuvens negras que nos inquietam, mas não podemos esquecer. Trata-se de agradecer as graças que a vida ainda nos dá, como os 71 anos da minha companheira de estrada há quase cinquenta anos que hoje se cumprem.

E são assim os dias do Alentejo.

domingo, 12 de julho de 2026

COMO É QUE TE CORREU? - Outro diálogo improvável

 Então como é que te correu? A mim não correu mal de todo.

A mim nem por isso. O tempo não me deu para fazer tudo. Acho também que algumas coisas não me saíram muito bem.

Pois é, às vezes não estamos bem preparados.

Para alguns dos problemas até acho que estava preparado, outros não sabia mesmo como deveria ter feito.

Sabes que às vezes aparecem algumas questões com que nem estamos a contar e depois fica mais difícil resolver, mesmo quando já temos alguma experiência e achamos que sabemos.

Também apareceram umas fáceis e que se resolveram bem. Algumas até gostei mesmo de fazer.

É sempre assim, acho eu. Umas coisas mais difíceis, outras mais fáceis, mas temos que aguentar com o que aparece pela frente. Sabes qual é o problema maior?

Qual é?

Quando acabamos uma vida é que estamos preparados para viver outra.

Claro, muito provavelmente já correria melhor.

Bom, até à próxima.

Próxima, que próxima?

Tens razão, é o hábito.

 Quando de manhã espreitei o mundo que se vê daqui do Monte pareceu-me bonito. Agora que o espreitei através do ecrã pareceu-me feio, muito feio.

sábado, 4 de julho de 2026

OS DIAS MÁGICOS DA AVOZICE

 É inevitável e desculpar-me-ão. Cá estou de novo a recordar a perplexidade e o gozo da última grande descoberta nesta minha viagem que já vai longa, a avozice. É sempre assim a cada 4 de Julho ou 5 de Abril.

Cumprem-se hoje treze anos desde que, com o Simão, entrei pela primeira vez no mundo encantado, no mundo mágico da avozice que se alargou com a chegada do Tomás, há dez anos. O tempo voa e o tempo dos velhos parece que voa ainda mais depressa.

Esta mudança de geração tem sido uma bênção em cada dia que passa e contribui decisivamente para cumprir a narrativa de um Homem de sorte, eu.

Às vezes, quando brincam ou quando fazemos trabalhos e “projectos” que sempre inventam, por cá ou pelo Alentejo de que tanto gostam, fico assim a olhar para eles, para os meus netos, o grande neto Grande, o Simão, e o grande neto Pequeno, o Tomás, fico a imaginar que viagens irão fazer. Nessas alturas sinto-me assim …  desculpem o atrevimento... um anjo da guarda.

Na verdade, que mais deve ser um avô que não um anjo da guarda.

Às vezes, não sabemos, não percebemos, não queremos ou não podemos.

Mas é bonito.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A TERRA ESTÁ ZANGADA

 Está zangada a Terra, queima, alaga, destrói, treme …

Imagino que a Terra comece a ficar cansada da irresponsabilidade delinquente desta gente que a povoa, sobretudo dos que lideram. Depois de tanta asneira, insistem nos maus-tratos e não se entendem sobre a forma de mudar de rumo.

Dão-lhe cabo das entranhas, alteram-lhe o clima, mudam paisagens, esgotam-na, deixam-na estéril e sem sustento.

A minha avó Leonor, mulher de sabedoria, costumava dizer que não era bom a gente meter-se com a Terra, com a natureza, e maltratá-la. A natureza vai ser sempre maior que a gente e não aceita que mandem nela.


terça-feira, 30 de junho de 2026

NOTÍCIAS DO MECI

 O MECI, Ministério dos Enleios, Caliqueiras e Irresponsabilidade, recorrendo a algum vocabulário aqui do Alentejo, está imparável.

A trapalhada dos exames e da sua correcção de que, afinal, são as escolas e direcções os grandes responsáveis, continua sem fim à vista. Nada de novo, o ímpeto reformista do Governo, aqui na área da educação e, certamente, já como efeito da hiperactividade e hipercompetência, (não existirá o termo, mas fica a ideia) do Ministro Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado, já está a resultar.

O Ministro da Educação, homem sensato e ponderado, regista que a "A digitalização está a ocorrer sem grandes problemas e reconhece que surgiram algumas "dificuldades técnicas" resultantes da "novidade do sistema". Pois.

É ainda de registar que num encontro com professores os encontrou com “boa disposição”. Pois.

Ainda bem que assim é, motivos não faltam e o contrário seria estranho e ingratidão.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

QUANDO OS SANTOS ERAM (MAIS) POPULARES

 Há muitos anos, no tempo em que eu era miúdo, a zona onde nasci e vivia, perto de Almada, era ainda feita de poucas casas e algumas quintas, não havia a ponte com o nome cujo significado era um sonho longe naquela altura, a época dos santos era esperada com alguma excitação por nós, os mais pequenos, mas não só, evidentemente.

O santo que nos pertence é o S. João, é hoje o dia e daí estas notas, mas todos nos serviam, o S. António em Lisboa e o S. Pedro no Seixal também eram populares pretextos para nos divertirmos.

Os adultos organizavam umas festas nas ruas com bailarico e as incontornáveis sardinhas e bifanas, com rega é claro, que vendiam para financiar uma excursão ao estrangeiro, a Badajoz quase sempre, que naquele tempo o “nosso” estrangeiro era perto e o dinheiro sempre curto.

Mas para nós, para além de uns desaparecidos "pirolitos" em garrafas que tinham um berlinde de vidro, os santos eram sobretudo as fogueiras, isso sim, as fogueiras.

Uns dias antes de cada santo, por assim dizer, e por zonas começávamos a juntar lenha. Para tal, fazíamos umas visitas às quintas da terra, ainda havia muitas que agora têm prédios plantados e, sobretudo, organizávamos umas expedições às obras em curso e "recolhíamos" toda a madeira que conseguíssemos e que acumulávamos procurando tê-la sempre debaixo de olho, porque a carne do pessoal das outras zonas era fraca e poderia não resistir à tentação de "levar" a nossa lenha.

Nos dias da celebração a fogueira durava enquanto houvesse lenha e vontade de saltar por cima dela. Tratava-se então de saber quem era mais corajoso e enfrentava as chamas mais altas. À custa destas exibições sempre conseguíamos umas vistosas aterragens falhadas do outro lado ou uma roupa chamuscada.

Também se lançavam foguetes e todos os anos um balão de ar quente feito por nós e cheio de cores que, quando voava sem problemas, era uma festa dentro da festa.

Ainda brincávamos na rua e nestas noites era até tarde.

Havia inevitavelmente sempre o espectáculo extra de alguns dos adultos já com algum lastro alcoólico, digamos assim, tentarem mostrar dotes de saltadores de fogueiras e a coisa não acabar bem.

Com alguma regularidade e como número extra, tínhamos direito a uma cena de lambada, sem grandes consequências porque festa é festa, na qual quase sempre estava envolvida uma figura mítica da minha terra, o meu saudoso amigo Pedro, mais conhecido pelo Sucata. Era homem que andava por um enorme metro e sessenta, mas era a pessoa mais amiga de arranjar uma confusãozinha de onde saía, invariavelmente, com mais umas lambadas e, é verdade, mais uns amigos que lhe pagavam um copito. Tenho saudades do velho Sucata.

Os santos na minha terra já não são tão populares, limitam-se a oferecer feriados e algumas iniciativas. Muitas delas, por assim dizer, são de “plástico”.

domingo, 21 de junho de 2026

CÓPIAS E DITADOS

 Na escola do meu tempo, e não só, existiam duas tarefas que constituíam boa parte do nosso trabalho, as cópias e os ditados, os diversos ditados, não só os das letras. Como é evidente, na acção educativa é necessário recorrer, sem reservas infundadas, às cópias, aos modelos, como forma de ajudar a perceber o como fazer e também aos ditados, dizendo sem problemas, ditando, o que deve ser escrito ou realizado. Já não me parece muito razoável que a educação ou, de forma mais alargada, a relação entre as pessoas, assente quase que exclusivamente nas cópias ou ditados.

Em alguns contextos familiares, nem são solicitadas aos miúdos cópias de bons modelos, nem os ditados, as regras e os limites, são eficazes, deixando-os entregues a si próprios e sem dispositivos de regulação.

Talvez sejam sinais dos tempos. Por um lado, a visibilidade mediática e um sistema de valores enviesado cria modelos cuja cópia é assustadora e com resultados preocupantes. Se bem atentarmos nos discursos e comportamentos de muitas lideranças e figuras públicas e também o que fazemos e afirmamos no dia-a-dia muitas vezes produzimos modelos que não deveriam ser copiados, mas são.

Por outro lado, toda a gente, em diversas escalas vai entendendo que a sua verdade é a verdade, pelo que dita o que os outros devem assumir como a verdade do pensar, do fazer, do sentir, do etc.

Reparem como tantas vezes em supostas trocas de opiniões ou ideias, as frases começam por “é assim”, ou seja, dita-se o que se tem a dizer não para trocar mas para informar o outro.

Reparem como as lideranças políticas, económicas, sociais, culturais, etc., em diferentes níveis, do local ao mundial, impõem um ditado sobre o que devemos fazer, como devemos pensar, como devemos viver, reagindo mal a outros entendimentos. Entende-se a perspectiva, os ditados não são para discutir, são para realizar.

De tudo isto vai resultando um caldo em que é esperado e desejado que a gente copie o que aparece para copiar e vá fazendo o que lhe ditam para fazer. A questão crítica é como resistir às cópias do que querem que copiemos, aos ditados que se esperam que registemos.

Muitas destas cópias e ditados ferem a nossa dignidade e direitos, precisamos de incrementar a autonomia e autodeterminação nos nossos projectos de vida.

E desde novos.

terça-feira, 16 de junho de 2026

AOS ALUNOS E ALUNAS DO SECUNDÁRIO

 Caros alunos e alunas,

  Tinham de chegar. Com a disciplina de Português inicia-se hoje a época de exames nacionais do secundário e durante algum tempo o vosso programa está assegurado, exames, um caderno de encargos bem preenchido. Como é habitual umas notas relativas ao que vos espera.

O trabalho realizado durante os últimos anos vai ser testado. Alguns de vós sentir-se-ão relativamente tranquilos enquanto outros, a maioria, vão começar a sentir a ansiedade a subir. É normal, afinal trata-se de realizar um exame e alguma ansiedade ajuda-nos a estar mais atentos.

Os resultados serão importantes pois permitirão aceder ao ensino superior e na escola e curso que vos interessam, e, desculpem o atrevimento, e espero que tomem a decisão correcta, continuar a estudar. A qualificação superior é uma boa ferramenta para a construção de um projecto de vida mais sustentado e com maior potencial de realização. Os tempos não estão fáceis, mas estudar ainda compensa, acreditem.

Alguns de vós vão sentir-se pressionados para a obtenção de muito bons resultados, porque as médias de acesso nos cursos que desejam frequentar são habitualmente elevadas ou porque vos dizem que para se ser gente tem de se ser excelente. Irão perceber que, felizmente, tal não é verdade, é fundamental tentar fazer o melhor possível, mas não é essencial ser o melhor. Acresce ainda que, muitas vezes, essa pressão não ajuda, antes pelo contrário, atrapalha, … há que ter calma.

Muita gente, pais, professores, psicólogos, psiquiatras, nutricionistas, especialistas em “coaching” em múltiplas áreas, colegas, vos dá conselhos nesta altura, “estuda mais”, “descansa um pouco”, “devias fazer assim”, “era melhor desta maneira”, “não te esqueças de nada”, “toma atenção”, “começa pelas mais fáceis”, “revê no fim”, “cautela com a alimentação”, “é bom espairecer um pouco”, etc., etc. É normal e importa alguma tranquilidade. A presença nas redes sociais e a partilha da experiência com colegas vai certamente ajudar a dissipar o stresse, dividido por muitos pode dar menos para cada um.

A verdade é que não existem receitas infalíveis para o sucesso que não passem por trabalho sério, organização do tempo e das tarefas, percepção das dificuldades e da forma de as minimizar, partilhar dúvidas e pedir ajuda a professores ou colegas, entre outros aspectos que saberão identificar. Cada um de vós encontrará um caminho para lidar com os exames, é normal, somos diferentes.

Como é de prever, alguns acharão os exames mais fáceis e outros mais difíceis, depende sempre do que cada um sabe e dos conteúdos do exame, aquela história clássica de “ainda bem que saiu isto, sabia bem” ou, pior, “logo havia de sair isto que não estava bem preparado”, nada a fazer, são as circunstâncias e em toda a nossa vida iremos deparar com situações mais favoráveis ou menos favoráveis. Todos sabemos que a vossa tarefa não é fácil, mas estou convencido que para muitos de vós as coisas vão correr bem. O vosso trabalho e dos professores e o apoio dos pais merecem.

Como já disse, os próximos exames serão a última etapa antes do ensino superior, mas isso é uma outra narrativa. Um dia destes falaremos disso, cada coisa de sua vez.

Boa sorte e divirtam-se, se possível.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

É PEDIR MUITO?

 Vamos entrar em época de exames. Espero pelo dia em que a época de avaliação escolar no final do ano lectivo não seja notícia diária a não ser a referência à sua realização.

Gostava que um dia a avaliação externa, independentemente das suas modalidades e dispositivos, não fosse o (quase) tudo na vida da escola.

Gostava que um dia os dados das avaliações internas tivessem alguma coerência com os dados da avaliação externa.

Gostava que um dia a avaliação externa, realizada em diversas modalidades e dispositivos ficasse fora da política pequena da partidocracia e dentro da discussão imprescindível sobre as políticas públicas de educação.

Gostava que um dia a avaliação externa decorresse sem perturbações ou ruído como mais uma tarefa a cumprir durante o ano lectivo.

Gostava que um dia se entendesse que mais do que discutir “os exames” talvez fosse de perceber o que se faz com eles, em cada ciclo e no final do secundário.

Gostava que um dia a estabilidade na avaliação fosse a regra e não a excepção.

Gostava que um dia a discussão sobre a dificuldade e a realização dos exames fugisse ao padrão “cada cor, sua sentença”.

...

É pedir muito?

sábado, 13 de junho de 2026

DIAS DE ABAFURA

Vão duros os dias. Não chegam os impactos das incompetentes e pouco amigáveis políticas públicas fruto o trabalho da mediocridade de lideranças que tomou conta do mundo, ainda temos uns dias de abafura como se fala por aqui no Alentejo. Estão dias quentes, muito quentes.

Apesar do calor, o Alentejo está bonito com as cores que o Verão que está a chegar traz. Não adianta pintá-lo de verde com as culturas superintensivas de olival ou amendoal que irresponsavelmente e criminosamente vão aumentando, a terra por baixo vai morrendo e a seguir irá morrer por cima.

Se não atalharmos caminho, ainda estamos a tempo assim queiram os homens, vamos ficar com o deserto, com uma terra nua por cada vez mais tempo. E nessa altura que terão os nossos netos?

Desculpem lá o desabafo pouco optimista, se calhar foi por causa do calor, mas … o Alentejo é sempre lindo, também com o amarelo e castanho do tempo do calor.

Não quero imaginá-lo um deserto.

terça-feira, 9 de junho de 2026

QUE TURMA MAL COMPORTADA

 Isto não anda nada bem. Dizem-nos que embora menos gente beba, os que bebem fazem-no de forma excessiva.

Informam-nos que andamos a comer mal, abusamos das gorduras, economizamos nos legumes, ficamos gordos e estamos em risco.

Ralham porque temos uma das mais altas taxas de prevalência de problemas de saúde mental sendo, aliás, um dos maiores consumidores de psicofármacos.

Sistematicamente afirmam que produzimos pouco, que não poupamos o que devíamos e que gastamos bastante mais do que produzimos criando inúmeras e enormes situações de crédito pessoal e familiar que não conseguimos suportar.

Temos miúdos mal sucedidos na escola e pais pouco produtivos, ou seja, nem pais nem filhos são competitivos como agora se exige.

Os comportamentos cívicos também não são algo de que nos possamos orgulhar, basta olhar para o lixo, a pegada biológica dos cães nos passeios, as beatas para o chão ou os sacos de lixo pela beira das estradas. Acontece ainda que muita gente gosta de registar e divulgar tais cenários nas incontornáveis redes sociais. São gente que aprecia as nossas especificidades culturais e um espaço limpo não é a mesma coisa. Alguns não apreciam, mas não são "influencers".

O diálogo vai desaparecendo sendo substituído por monólogos à vez ou mesmo sobrepostos. O insulto ou a indiferença são recorrentes. O telemóvel sem ninguém do outro lado, apenas "produtos" é a companhia insubstituível.

Passamos o tempo a dizer mal uns dos outros sendo que o outro, seja quem for, nunca tem razão e a culpa, seja do que for, é sempre deles, os gajos, uma entidade indefinida responsável por tudo o que nos acontece.

Parece, que no meio disto tudo, o único que se aproveita, sou eu, o cada um de nós que é sempre perfeito. Juntos é que é um problema, é das companhias, como dizem os pais.

Não há saco para esta turma tão mal comportada que constituímos.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O VELHO QUE LIA DE OLHOS FECHADOS

 Num dia atípico uma história atípica.

Era uma vez um Velho que passava todas as tardes de sol sentado num banco do jardim a ler. Bom, nas tardes de sol de Inverno pois no Verão sentava-se num outro banco à sombra, mas sempre com um livro de companhia.

Muitas das pessoas que passavam pelo parque já conheciam o Velho leitor. Um dia, dois miúdos aproximaram-se do banco do Velho atrás de uma bola que lhes tinha fugido e quando olharam para ele repararam que tinha o livro bem seguro à sua frente, mas estava com os olhos fechados.

Um dos miúdos disse a rir-se, "Está a dormir".

Não, miúdo, não estou a dormir, estou a ler.

A ler Velho?! Mas com os olhos fechados as pessoas não podem ler.

Querem que vos leia a história que comecei mesmo agora a ler?

Está bem Velho, mas que não seja muito grande, temos que ir embora daqui a pouco, para fazer ainda os trabalhos da escola e jogar à bola.

Então o Velho pegou no livro, acomodou-se no banco para que os miúdos se sentassem, fechou os olhos e leu a história mais bonita que aqueles miúdos já tinham ouvido, embora deva dizer-se que os miúdos já não ouvem muitas histórias.

Quando acabou, os miúdos, ainda espantados foram à sua narrativa com uma história para contar, a do Velho que lia de olhos fechados.

Talvez venham a aprender que os Velhos felizes lêem histórias mesmo de livros que não sabem ler. Por isso, podem ter os olhos fechados.

 

Temo que possamos estar num tempo em que os Velhos têm mais dificuldades para se sentirem felizes. Não é fácil ser velho.

terça-feira, 26 de maio de 2026

O RAPAZ QUE VIVIA À SOMBRA

 Era uma vez um Rapaz que sempre viveu à sombra. Quando era pequeno a sua vida decorria entre a sombra dos pais e, depois, a sombra da educadora. O Rapaz, filho único, envolvia-se com ninguém e ninguém se envolvia com ele. Quanto menos se envolvia na relação com os outros miúdos mais à sombra continuava.

 Cresceu e passou para escola dos mais crescidos, sempre andando pela sombra. Na escola, ajeitava-se num canto, só, à sombra. Os pais levavam-no e traziam-no da escola e ficava, claro, à sombra. Continuava a não ter amigos, ninguém gosta de brincar com quem não sabe brincar.

Cresceu para a outra escola, a dos grandes, uma escola cheia de sombras, árvores, muros, professores e outra gente. O Rapaz tinha sempre uma sombra para se acolher. Naquela escola andava uma rapariga que, de mansinho começou a reparar naquele Rapaz, sempre à sombra e com ninguém. Qualquer coisa naquela tristeza sombria e resignada a chamava. Um dia aproximou-se do Rapaz, olhou bem para ele e disse de forma convicta, “Anda”. O Rapaz, meio atordoado, hesitou, mas como sempre fez o que lhe disseram, foi.

A Rapariga falava de tudo, de coisas de que ele nunca falava, mas que sabia que se falavam e passavam, ele lia muito. Foram a muitos lados, perderam-se, voltaram a encontrar-se e, como diz o Sérgio Godinho, a Rapariga mostrou ao Rapaz caminhos onde ele nem atalhos conhecia.

O Rapaz que tinha vivido sempre à sombra tinha acabado de descobrir o Sol.

Esta história, a deste Rapaz que vivia à sombra acabou bem. Há Rapazes que vivem à sombra e nunca descobrem, ou lhes mostram, o Sol.

Talvez os raios de Sol ainda consigam iluminar tantas sobras que parecem crescer.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A HISTÓRIA DO TORTO

 Uma história de miúdos. Era uma vez um rapaz chamado Torto. Desde pequeno que a sua vida foi uma vida difícil. Tinha uma família grande com posses tão pequenas que para ele sobrava pouco, sobretudo bem querer. Quando o Torto esteve no jardim de infância não brincava muito com os outros miúdos, mantinha-se num canto encantado com algum brinquedo que em casa nunca tinha conhecido.

A escola foi desde início algo de complicado, o Torto achava que o mundo dele não era dali, da mesma maneira que as outras pessoas também achavam que aquele mundo não era para o Torto.

Assim foi estando, desesperando, até que a idade o mandou embora da escola sem saberes que o crescessem.

Em grande, o estar não foi muito diferente do que sempre esteve, pequeno. Só, ou acompanhado ao acaso, enganava o fado com sonhos comprados pelo consumo do que calhava.

Aprendeu a viver do que pesava na consciência de uns ou nascia da generosidade de outros.

Cumpre-se assim o destino de quem nasce Torto, tarde ou nunca se endireita.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

DIA DA ESPIGA

 Muito provavelmente, com tantas coisas inquietantes a acontecer nestes tempos ásperos que vamos vivendo, já pouca gente notará que passa o Dia da Espiga, como se dizia quando era pequeno, para referir a Quinta-feira da Ascensão, 40 dias depois da Páscoa. A verdade é que cada vez menos nos iremos lembrando do Dia da Espiga. Os duros dias de hoje deixam pouco espaço e tempo para irrelevâncias ingénuas e poéticas como o Dia da Espiga.

No entanto, inevitavelmente, o Dia da Espiga leva-me umas dezenas de anos lá para trás no tempo.

Na minha casa íamos sempre procurar a sorte prometida no ramo da Espiga. Com o meu pai, pegávamos nas bicicletas, na altura o meio de transporte familiar, e íamos à quinta onde vivia a Avó Leonor apanhar o ramo da Espiga, papoilas, flores silvestres, sobretudo malmequeres amarelos e brancos, o que se encontrasse de espigas de cereais e o ramo de oliveira.

As espigas trariam o sustento, o pão, as papoilas a vida e o amor, os malmequeres a prosperidade, o ramo de oliveira a paz, o alecrim a saúde, a videira a alegria. De tudo isto resultaria o bem-estar e o ser feliz. Era bonita a ideia.

Fazia-se o ramo atado com ráfia, arranjávamos sempre mais do que um para oferecer aos vizinhos e colocava-se pendurado lá em casa por cima da mesa do jantar como chamariz da sorte. Saía apenas quando era substituído por um novo ramo da Espiga. Nunca me lembro de termos conseguido associar a presença do ramo ao que de bom nos ia acontecendo, mas o ramo da Espiga lá estava e a tradição era sempre cumprida.

Nas novas qualidades que o mundo vem tomando, não parece que possam caber minudências como andar no campo, se houver campo, à cata de flores, espigas e um raminho de oliveira. Por estes dias parece ainda menos provável.

Não sei se é bom, ou se é mau, mas eu gostava de ir à Espiga, mesmo se não confiava muito na sorte.

Resta dizer que o ramo da Espiga será construído daqui a pouco com o que encontramos aqui no monte. Cá em casa algumas tradições mantêm-se.

Coisas de velhos, já se vê.

Amanhã, voltamos à agenda e que a espiga nos traga sorte.

terça-feira, 12 de maio de 2026

SER

 Não sou o que gostavam que eu fosse.

Não sou capaz de saber o que gostava de ser.

Se penso em ser, acho que não vou ser mais além do que agora sou, não sou.

Será que se pode ser sem se ser?

Como é que vai ser?

Como é que vou ser?

Ou não ser.

 

A tarefa central na educação familiar e escolar é o contributo para a construção pessoal de um projecto de vida bem-sucedido para todos os indivíduos em termos de qualificação, desenvolvimento global e cidadania e formação pessoal.

Às vezes falhamos.

domingo, 3 de maio de 2026

DIA DA MÃE

 Repetindo-me.

No calendário das consciências assinala-se hoje o Dia da Mãe. Muitas mães recebem uma palavra de afecto e uma prendinha que os mais novos trazem da escola ou algo feito ou comprado com a ajuda do pai ou de alguém. Mas, há sempre um mas, existem muitas vidas, de mulher, de mãe. Algumas palavras.

Uma palavra para as mulheres que não conseguem cumprir, por diferentes razões, incluindo económicas, o sonho da maternidade.

Uma palavra para as mulheres que tragicamente perderam filhos ficando na dramática condição de mães órfãs de filhos.

Uma palavra para as mães que por mais longe que tenham os filhos não deixam de ser mães, não vão de férias e nunca se reformam.

Uma palavra para as crianças que têm mães que não desejavam sê-lo e que, portanto, nunca aprenderam a gostar de ser mães, adoptando os seus filhos.

Uma palavra para as muitas crianças institucionalizadas sem mãe na sua vida.

Uma palavra para as mulheres sós ou em má companhia que em situações muitas vezes difíceis constroem o bem-estar dos seus filhos.

Uma palavra para as mães que por razões profissionais e por pressões de necessidade económica mal têm o tempo de que uma mãe os filhos precisam.

Uma palavra ainda para todas as mulheres a quem a vida e a pobreza fazem correr mundo à procura de um sonho, ajudar a cres(ser)os filhos que lá longe ficaram e a esperam ... se ela conseguir voltar.

Uma palava cantada para todas as mães.