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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

BRINCAR É PERIGOSO - OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL

 Mãe, posso ir brincar para aquela árvore?

Não Miguel, que ideia! Sabes que é perigoso subir as árvores.

Mãe, posso ir jogar à bola com aqueles miúdos?

Miguel, não vês como eles andam aos encontrões e caem, podes magoar-te.

Mãe, posso ir dar cambalhotas na relva?

Miguel, tens cada lembrança, dar cambalhotas na relva. Não vês que está suja das pessoas passarem e podes apanhar doenças.

Mãe, posso ir ali ao bebedouro beber água?

Espera mais um pouco. Estão lá uns miúdos, podem meter-se contigo. É preciso ter muito cuidado com quem a gente não conhece.

Mãe, posso ir para ali correr para assustar os pássaros?

Miguel, já devias saber que quando te metes em corridas podes cair e magoas-te.

Mãe, posso fazer o quê?

Olha Miguel, deixas-te estar aqui sentado no banco ao pé da mãe que está a ler. Quando passar o senhor dos gelados compro-te um dos que gostas. Se te portares bem, é claro.

Mais uma vez. É preciso escutar os miúdos. Se lhes perguntarem, (das diferentes formas de fazer perguntas e ouvir respostas), vão ficar a saber que brincar é a actividade mais séria que realizam, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que virão a ser e a saber.

Já em 2018 a Academia Americana de Pediatria recomendou aos pediatras que na sua prática clínica prescrevam “tempo para brincar”, um bem de primeira necessidade para o bem-estar dos mais novos com impacto em diferentes dimensões.

Insistem que não se trata de uma ideia “frívola” e os actuais estilos de vida de muitas famílias, por diferentes razões, tornam ainda mais importante que se reafirme a importância de brincar.

No caso mais particular, mas também essencial do brincar na rua sabemos que as questões da segurança e, sobretudo dos estilos de vida e a mudança verificada nos valores e nos equipamentos, brinquedos e actividades dos miúdos, o brincar na rua começa a ser raro.

Embora consciente das questões como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua, talvez com a supervisão de velhos que estão sozinhos, as comunidades e as famílias conseguissem alguns tempos e formas de ter as crianças por algum tempo fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã.

Como muitas vezes tenho escrito e afirmado, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a autonomia, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como falava Almada Negreiros. A brincadeira, a rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente), os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.

Curiosamente, se olharmos às nossas condições climatéricas, Portugal é um dos países com valores mais baixos no tempo dedicado a actividades de ar livre, situação com implicações menos positivas na qualidade de vida, nas suas várias dimensões, de miúdos e crescidos.

Talvez, devagarinho e com os riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por pouco tempo e não todos os dias.

É, pois, importante que todos os que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam o brincar como uma das “guide lines” para a sua intervenção.

Os mais novos vão gostar e faz-lhes bem.

sábado, 26 de setembro de 2026

ANDAR DE BINA

 Para fugir a um quotidiano que, inpirado nas notáveis e criativas palavras do MECI, continua a densificar-se e a assustar, uma nota diferente.

Há uns dias lia-se no Público que o Governo irá aprovar em breve a Estratégia Nacional para a Mobilidade Activa 2026-2036. Um dos objectivos finais da sua aplicação é que 20% das deslocações pendulares sejam realizadas a pé e 2% de bicicleta. No entanto, não está prevista a atribuição de recursos financeiros ou técnicos para a sua execução.

É, certamente, mais uma medida que pretende densificar a utilização da bicicleta e do andar a pé. Trata-se de uma decisão oportuna dada a densificação do preço dos combustíveis que não sabemos como e quando se alterará.

Mais a sério, seria desejável caminhar neste sentido, a utilização da bicicleta, mas para que a segurança e adequação das vias de circulação estejam minimamente asseguradas é necessário ainda um longo caminho.

Ao pensar nisto acabei por viajar no tempo, e não de bicicleta, e recordar com ternura e nostalgia a minha bicicleta de adolescente, lá muito para trás no tempo numa estória que já por aqui passou.

Tive a sorte de ter uma bicicleta desde gaiato pequeno, oferta de tios generosos, por isso sempre me habituei a bicicletas até porque foi o veículo de transporte familiar até à adolescência, altura em que o orçamento lá de casa possibilitou a aquisição de uma motorizada para a família e na qual todos nos revíamos embevecidos, continuávamos em duas rodas é certo, mas sempre tinha motor.

Já mais crescido, a economia familiar tinha limites apertados e não chegava para uma bicicleta nova de roda 28 pelo que desenvolvi um empreendedor plano. Recolhia cobre de fios velhos de instalações eléctricas e latão, sobretudo dos casquilhos das lâmpadas, que trocava no ferro-velho do Gato Bravo por peças para a minha bicicleta. O quadro, as rodas, selim, o guiador, os travões, o dispositivo de iluminação com o dínamo na roda e a minha bicicleta foi crescendo, linda, através do que se poderia designar por um modelo pioneiro de “assembling”, com a ajuda sabedora e companheira do meu pai, um conhecedor de bicicletas e, sobretudo, um especialista em gente miúda. Não vos posso dizer a cor da minha bicicleta porque teve várias, era uma bicicleta personalizada.

De vez em quando, conseguia outro guiador, outro selim e a minha amada e invejada bicicleta sofria um “restyling”, até mudanças ganhou. Grandes voltas percorremos nós, quase sempre com o Zé Padiola e outros companheiros, tantas idas à Costa da Caparica e à Fonte da Telha, sempre por estradas que há sessenta anos ainda nos permitiam andar de bicicleta sem os riscos actuais.

É certo que eu e ela também testámos o chão, mas éramos solidários e amigos, quando eu caía, ela acompanhava-me sem um queixume ou ponta de revolta.

Era uma diversão a sério. Que saudades da minha bicicleta.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

PARTIU JORGE PALMA

 Partiu Jorge Palma. É mais uma perda, um fazedor de canções que fazem parte da banda sonora da minha, da nossa, vida. Ficam as memórias e os registos, aqui da incontornável "Encosta-te a mim".




sexta-feira, 11 de setembro de 2026

DA AGITAÇÃO

 A agitada discussão a que se vai assistindo em debates, na imprensa ou nas redes sociais sobre os resultados do PISA 25, fez-me recordar uma afirmação que ouvi pela primeira vez no início dos anos 90 produzida por a Michel Gilly, professor na Universidade de Provence, nas aulas do mestrado em Psicologia Educacional que então frequentava.

Dizia o Professor Gilly qualquer coisa como, a investigação não pode cair na ideia de que se torturarmos os dados com paciência eles acabarão por confessar e dizer o que queremos ouvir. Era um homem exagerado, certamente,

Já agora, uma outra ideia que ao longo de décadas no universo da educação escolar e familiar e da psicologia me foi acompanhando, nenhuma criança/aluno(a) cabe inteirinho(a) num teste, por melhor e robusto que este seja. Outra ideia estranha, tudo se compara e se mede.

Era só isto.

domingo, 6 de setembro de 2026

07/02/2007 - "Eles andam aí ... Os TUDÓLOGOS"

 Por uma qualquer razão, lembrei-me de que já escrevia por aqui desde 7 de Fevereiro de 2007. Por curiosidade fui ver o que tinha escrito há quase 20 anos e deu-me vontade de rir, um dos dois textos desse dia tinha como título “Eles andam aí … Os TUDÓLOGOS”. Achei que seria curioso voltar a ele.

“É velha na comunidade científica a dificuldade de estabelecer um equilíbrio entre um conhecimento de natureza "especialista" e o conhecimento de natureza "generalista". Não é tarefa fácil se considerarmos o volume enorme e virtualmente inesgotável de informação disponível e em construção sobre a totalidade dos temas que, por qualquer razão, possam ser objecto de estudo.

Daí o sempre presente desafio epistemológico da formação e desenvolvimento do conhecimento buscando o inatingível compromisso entre "saber muito sobre pouca coisa" e "saber pouco sobre muita coisa".

No entanto, de há algum tempo para cá emergiram na "medioesfera" um grupo de opinadores de origens diversas que parecem ter resolvido o tal imbróglio epistemológico. Refiro-me à seita dos TUDÓLOGOS, isso mesmo, os que sabem de tudo. É vê-los a emitir os seus "ACHISMOS" ou numa variante semântica também frequente os seus "PARA MIM..." por todo o lado onde apareça um microfone, uma câmara ou uma página de jornal ou revista.

O espectáculo é, por vezes, arrasador para a auto-estima de um cidadão que ao longo de uma laboriosa vida de estudo e reflexão procura conhecer uma qualquer área do saber. Eles, sempre os mesmos, falam, "acham", sobre não importa o quê, saúde, política (externa ou interna), educação, i & d, economia, arte, etc (uff!!). Estranhamente, por vezes, aparecem também acompanhados por pessoas de facto conhecedoras das áreas em discussão e de quem esperam, ou arrogantemente exigem, a caução da sua óbvia ignorância mascarada de "opinião esclarecida".

Curiosamente, a comunicação social ou, para ser justo, boa parte dela também mal preparada deleitando-se com a exibição despudorada de um umbigo tão grande quanto a ignorância, subscreve e amplia as maiores banalidades ou disparates que, diletantemente, os TUDÓLOGOS emitem.

Atentem nessas figuras e vejam se conseguem identificá-las. Voltaremos então a conversar.”

 É, retomando a conversa, o mundo da tudologia e do achismo alargou-se e invadiu os espaços de comunicação, a imprensa e, naturalmente, as múltiplas redes sociais. A este cenário acresce a gigantesca produção “fake” sem pudor, rigor ou ética, valores revistos em baixa. Há vinte anos, com alguma ingenuidade, não antecipava este mundo.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O MUNDO DAS PENAS

 Existem coisas tão bonitas e serenas que nos parecem leves como uma pena.

Existem vidas sobrevividas com tantas penas que dói a alma. Muitas destas vidas sobrevividas são de miúdos que carregam penas maiores do que eles e que, por isso, vivem penando.

Também existem penas que são suspensas e que nunca cairão. Muita gente sabe como evitar que elas caiam. Existem os que administram as penas e que nos merecem a desconfiança pelas penas que distribuem, ou não.

Existem as penas que fabricam um manto de aconchego e calor.

Existe a pena que compõe o sobressalto exclamativo traduzido no tão recorrente quanto inútil, "que pena" ou "é uma pena".

Até já existiram as penas que escreviam as letras do nosso encantamento.

Existem as penas carregadas pelas almas perdidas e que por perdidas e condenadas acabam penadas.

E claro, existem as penas que vestem os pássaros com formas e cores que ninguém seria capaz de imaginar.

Agora reparo, que texto mais sem jeito. É pena.

sábado, 29 de agosto de 2026

A HISTÓRIA DO ESCUTADOR

 Um dia destes para ocupar a espera por alguém, sentei-me num banco a ver passar o mundo. Quase sem dar por isso sentou-se ao meu lado um Velho que, depois de cumprimentar, compôs um ar que não sou capaz de descrever, mas parecia assim um convite para conversar. Como é costume começámos com as banalidades do tempo, bom por acaso, e passámos à vida da gente. Quando lhe perguntei se ainda trabalhava, riu-se e disse-me que tinha um trabalho de que não havia reforma, era, disse com a maior serenidade, Escutador. Perante a minha perplexidade, repetiu devagar, sou um Escutador, não me falta trabalho, acrescentou. Não resisti à curiosidade de saber que escutava um Escutador.

O Velho começou, sempre num jeito manso, a explicar-me o que escuta. Escuta pessoas, muitas pessoas. Escuta miúdos que passam muito tempo sós e que, por vezes, gritam desesperadamente por alguém que os oiça. Escuta adolescentes que vivem perdidos falando para outros tão perdidos quanto eles que também só falam, não ouvem. Escuta gente, muita gente, mulheres e homens que não se escutam ou porque vivem sós, ou porque se sentem sós no meio de uma vida maior que eles, que grita tão alto que torna impossível escutar o que quer que seja. Escuta velhos, silenciosos, isolados, que apenas têm por companhia uma televisão que não os escuta, mas que eles também não ouvem, o som é um ruído de fundo a disfarçar a solidão. Durante ainda mais uns minutos foi falando de quem escutava. Pois é este o meu trabalho amigo, escutar, resumiu por fim o Escutador.

Nessa altura, esgotou-se a minha espera e ainda meio perplexo despedi-me do Escutador com um banal, gostei de o ouvir. De escutar, disse o Velho acrescentando, olhe amigo, um dia ainda vai gostar e aprender a ser um Escutador, é que há poucos.

Ele tem razão, cada vez escutamos menos ... apesar de ouvirmos muito.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

FAZER PERGUNTAS À CONTA, "A HISTÓRIA DO ALGORITMO"

 Ao procurar uma referência no blogue tropecei com este texto já com algum tempo que me pareceu interessante retomar, "Fazer perguntas à conta, a história do algoritmo".

“Com alguma regularidade acompanho os meus netos na realização dos TPC. Felizmente, não me parecem excessivos, mas não é o que agora está em causa.

Num dos últimos dias, perguntei ao Tomás, 3º ano, se tinha TPC e queria que os realizássemos juntos.

Concordou e disse que havia TPC de Matemática. Pega na mochila e no caderno e diz-me que tinha contas para fazer com o algoritmo. Fiquei curioso e ainda mais atento.

O trabalho era resolver quatro operações, soma, subtracção, multiplicação e divisão. Uns dias antes tinha-me dito que já tinha aprendido a divisão, a que faltava no arsenal do conhecimento matemático.

Fui acompanhando o trabalho atento ao algoritmo.

Com rapidez e sucesso, atestado pela calculadora do meu telemóvel, as três primeiras operações rapidamente estavam feitas.

Então começou a magia da divisão feita com o algoritmo que espero conseguir explicar.

“Montou” a conta da forma clássica, quatro ou cinco algarismos no dividendo e um no divisor, creio que o primeiro algarismo era 6, depois um 5 e o divisor era 4.

Então começa realização da conta. Com ar sério pergunta à conta, “Qual é o número que na tua tábua (a do 4), que dá 6 ou próximo?”. E, é notável, inclina a cabeça e “ouve“ a resposta da conta. Escreveu o 1 no quociente que multiplicou pelo divisor e subtraiu ao 6, deu 2. Em seguida, diz, agora o 5 (o número no dividendo a seguir ao 6) vai entrar na conta, e “baixou” o 5 para o lado do 2 e voltou a perguntar, inclinando a cabeça para a conta “qual é o número na tua tábua que dá 25 ou próximo?”, o 24. Escreveu 6 no quociente, multiplicou pelo divisor e subtraiu ao 25. E convidou o número seguinte no dividendo a entrar na conta. E assim continuou até a completar de forma acertada.

Face à minha estranheza relativa ao método, o diálogo com a conta e com os algarismos, quis fazer mais algumas e, naturalmente, as últimas já as realizava sem inclinar a cabeça para “perguntar à conta”, perguntava a si próprio.

Tantos anos no mundo da educação ainda me consigo surpreender com a magia de professores e alunos, ou seja, a magia do ensinar e do aprender.

Protejam e valorizem este mundo mágico com políticas públicas adequadas, com valorização dos profissionais e numa perspectiva de equidade e oportunidade para o sucesso educativo de todos os alunos.

É, “só” o futuro que está em jogo, com algoritmo ou sem algoritmo.

O Tomás, como todos os outros, estão a caminho.”

Talvez a forma como se tem promovido o deslumbramento digital e o mundo dos algoritmos mereça reflexão e se entenda que a valorização dos professores é um eixo crítico de construção do futuro.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A PRIMEIRA ÁGUA

 Durante a noite e manhã caiu a primeira água de final do Verão aqui no meu Alentejo.

Sem grande intensidade, ainda assim foi o suficiente para libertar o perfume da terra que sempre me lembra Mestre Almada Negreiros na Invenção do Dia Claro, “Depois, o cheiro da terra molhada é que me faz de novo animar.”. É retemperador depois da secura e da terra quente.

A primeira água anuncia outro ciclo, outra vida, outro verde, outra terra, outro frio lá mais para a frente. Esperemos para ver como será o ano.

Era bom que este recomeço trouxesse algo de novo, mas, lamentavelmente, o meu optimismo anda revisto em baixa. Tudo parece estar velho e tudo o que nasce já vem velho e assusta.

É verdade, lamentavelmente, os dias já começam velhos, velhos como os que neles actuam, velhos como as promessas ou as falas que neles se ouvem, velhos como a desconfiança e a indiferença que nos pesam e a desesperança que nos inquieta.

Pensando nos meus netos e em todos os netos do mundo, precisamos de outros dias, animados com o cheiro da terra molhada.

Dias com futuro, como a chegada da chuva assinala.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

OS TEMPOS QUE NOS FALTAM

 Ainda umas notas a propósito do tempo. Estamos num tempo de férias que nos pode possibilitar algum tempo para pensar … no tempo.  Já tenho referido aqui no Atenta Inquietude que uma das questões mais associadas aos estilos de vida actuais é o envolvimento dos pais no processo educativo escolar dos filhos. Com as circunstâncias de vida diária actuais a presença dos pais na escola  não é fácil, sobretudo em zonas urbanas e com consequências óbvias. É certo que se verificarão algumas situações de negligência, mas muitas das ausências decorrem da dificuldade de conciliar com a vida profissional.

Considerando este cenário, defendo há muito a pertinência de, em sede de Concertação Social, avançar com propostas de alteração legislativa, sobretudo, na organização horária do trabalho que poderia, essa sim, ter impacto na disponibilidade dos pais. Não me parece impossível que em muitas profissões os tempos de trabalho pudessem ter outra distribuição permitindo mais tempo com os filhos e menos tempo destes na escola. Também poderíamos potenciar o recurso ao trabalho não presencial.

Alunos, crianças e pais iriam ganhar.

Ainda a propósito da dificuldade de conciliar trabalho e vida pessoal deixo uma estória que há tempos poisou no Atenta Inquietude.

Bom dia, venho apresentar uma queixa.

Com certeza, contra quem?

Contra muita gente.

Será, portanto, contra incertos. E apresenta queixa porquê?

Por roubo, roubaram-me tempo.

Muito bem, então roubaram-lhe tempo. Por favor, pode explicar um pouco melhor para eu poder registar a situação.

Eu já não tinha muito tempo porque nunca fui uma pessoa muito rica de tempo, mas o pouco que tinha roubaram-me. Fiquei sem tempo para estar com os meus filhos e brincar com eles. Este tempo faz-me muita falta, os miúdos andam tristes porque desde que me roubaram o tempo não consigo mesmo. Já não tenho tempo para descansar ou ler qualquer coisa como gostava de fazer. Não tenho tempo descansado para a minha mulher que também precisava do tempo que eu tinha e que partilhava com ela. No meu trabalho não tenho tempo para parar um minuto sem que alguém venho logo chamar a atenção. Fiquei sem o tempo que tinha para beber um copo com os meus amigos e trocar umas lérias que serviam para aliviar das coisas da vida.

Eu percebo o seu problema, mas como deve calcular não tenho tempo para queixas como as que apresenta.

Não tem tempo? Não me diga que também lhe roubaram o tempo. Até às autoridades, é demais.

sábado, 15 de agosto de 2026

TEMPOS DA VIDA

 Acho que é inevitável. Sempre que mais um ano passa por nós, pensamos no tempo e nas alterações que se vão verificando na relação com ele. Sendo agora o tempo de um aposentado, mais orientado para a lida do monte e do acompanhamento dos netos, até há mais tempo para pensar no tempo.

Quando era miúdo, jovem, há já muitos anos, tinha a sensação de que o tempo demorava muito tempo, demasiado tempo, a passar. Era um tempo de pressa, de cres-ser.  Lembro-me, por exemplo, do desejo de chegar rapidamente aos dois dígitos na idade, já não seria um “puto”, pensava eu.

Quando comecei a minha vida profissional e vida familiar própria, emergiu a dificuldade de transformar, organizar o tempo, tanto sobrava como faltava.

A partir de certa altura, não sei dizer qual, a gente sente, a relação com o tempo muda significativamente e fica algo entre o ambíguo e o paradoxo. Por um lado, sentimos que a velocidade do tempo é bem superior à do relógio, o amanhã é ontem, com tanto ainda por fazer. Quando trabalhava e sempre com uma enorme paixão pela educação, que continua, ainda sente mais o quanto está sempre por fazer. Por outro lado, creio que começamos a ser capazes de assumir uma atitude de serenidade face às coisas da vida, ao tempo, que retira pressa e, apesar da Atenta Inquietude, nos dá brandura como se diz no meu Alentejo.

Este tempo velho também nos faz olhar para dentro ao olhar para trás e perceber o gozo de começarmos a atingir, do ponto de vista social, alguma inimputabilidade. Não se assustem, é que quando dizia ou fazia certas coisas aos vinte e poucos recolhia, frequentemente e no mínimo, um olhar reprovador. Actualmente, as mesmas afirmações ou comportamentos garantem-me um sorriso de condescendência e empatia, “já velho e como ele se porta ou fala”.

Outra enorme conquista do tempo velho é a possibilidade de contar histórias, histórias nossas, vividas, convividas ou … inventadas. No fundo acho que é isso que se espera e, talvez por essa razão, cada vez gosto mais de histórias.

Finalmente, chegando a este tempo velho, sabe bem uma viagem assim grande à beira de quem gostamos.

Pois então … que venham mais uns quantos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O ECLIPSE DO SOL. E OS OUTROS ECLIPSES?

 E pronto, já observámos o eclipse do Sol, a luz aqui no Alentejo ficou estranha e a visão do Sol eclipsado é, de facto, algo de bonito. 

Ao que parece, o próximo em Portugal será em 2144. Enquanto aguardamos talvez se justificasse alguma atenção a outros eclipses que diariamente podem ser observados. Curiosamente e ao contrário do eclipse do Sol, que precisa de protecção para ser visto, estes parecem ter uma protecção para não serem vistos.

Sem hierarquizar identificamos alguns eclipses que podem ser observados de um qualquer cantinho desta terra onde acontecem coisas.

O eclipse da ética.

O eclipse da justiça.

O eclipse da verdade.

O eclipse dos direitos humanos.

O eclipse da solidariedade.

O eclipse da inclusão.

O eclipse da competência.

O eclipse da democracia.

O eclipse do outro.

O eclipse da … completem.

Nota - A pensar nos meus netos e em todos os netos do mundo quero acreditar que, tal como o eclipse do Sol, também estes eclipses irão terminando.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

EM PLENA "SILLY SEASON" (antes fosse)

 Ao que parece e antes assim fosse, porque seria transitório, estamos na “silly season”.

Leio no Expresso que o MECI determinou a “abertura de um inquérito às escolas que enviaram para classificação exames nacionais já depois da recolha formal por parte das forças de segurança, bem como aos pedidos de reapreciação submetidos tardiamente.”

Está muito bem, este afirmado atraso terá manchado gravemente a época de exames e é, evidentemente, inadmissível. Para mais, todo o processo de exames finais do secundário foi um exemplo de competência, eficiência, rigor, responsabilidade, comunicação aberta e clara.

Esta falha que em algumas escolas terá acontecido, o justo inquérito esclarecerá, e como é hábito no MECI será certamente tratada com toda a clareza.

Na verdade, estamos bem habituados à assumpção de responsabilidades por parte do MECI pelo que se percebe a diligência.

Não é aceitável que um processo tanto impacto possa ser objecto de eventuais falhas por parte das escolas.

Só por parte do MECI, mas aí não acontece nada.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A PONTE

 Depois da pausa do almoço na lida do Monte, que com a abafura do Alentejo sabe ainda melhor, é quase sempre o tempo para estas notas. Reparei na imprensa que se assinalam hoje os 60 anos da Ponte 25 de Abril e a memória sobrepôs-se ao hoje.

Fui até lá trás, ao tempo que não havia ponte entre Almada e Lisboa pelo que pessoas e veículos circulavam pelos barcos, os cacilheiros, os "pequenos" só para passageiros que iam de Cacilhas para Terreiro do Paço, e os "grandes" que levavam também veículos e atracavam no Cais do Sodré. Existiam ainda outras carreiras fluviais para Lisboa como as do Barreiro ou do Porto Brandão. 

Sou de uma geração de gente da margem sul que para realizar estudos liceais em escolas públicas precisou de o fazer em Lisboa, no Passos Manuel, Gil Vicente, D. João de Castro como eu, algumas raparigas no D. Amélia, entre outros.

Lembro-me dos barcos "grandes", o Eborense, o Alentejense, alguns com 1ª classe, um luxo a que poucos se davam, um suplemento de 20 centavos era caro e nós estudantes, cujo passe não dava acesso à primeira classe, apenas quando iludíamos os cobradores conseguíamos viajar de penetra nas poltronas de verga. Até sermos corridos.

O Tejo lindíssimo como sempre era uma estrada de água sem os engarrafamentos que a Ponte veio a conhecer. Ainda tenho na memória imagens da construção da Ponte registadas a partir da travessia diária do rio.

Lembro-me dos pilares a serem erguidos, a colocação dos cabos e posteriormente do tabuleiro

É certo que em alguns dias o Tejo ficava bravo e a viagem era atribulada, sobretudo o processo de atracar pois os marinheiros experimentavam sérias dificuldades em amarrar o cacilheiro. Era a altura em que com mais frequência os "heróis" que saltavam do barco para o cais ainda com o barco em movimento iam, por vezes, parar à água, com um fim trágico em algumas situações. Também me recordo dos dias de nevoeiro, com o Farol de Cacilhas a apitar com regularidade e viajarmos no exterior com um marinheiro encostado à proa do navio com toda a atenção para ouvir algum barco que se aproximasse. Com nevoeiro cerrado era um bocado assustador.

Um espectáculo sempre animado era a entrada nos barcos das galeras, umas carroças compridas com quatro rodas, puxadas por dois animais que se assustavam com a água e que resistiam à entrada. Estas galeras carregavam cortiça ou produtos de cortiça das fábricas da Cova da Piedade para a margem norte poupando uma longuíssima volta por Vila Franca de Xira.

Na verdade, aquelas viagens nos cacilheiros do Tejo, no exterior, com os primeiros cigarros que nos faziam crescer, eram mesmo de outro tempo.

Com a Ponte e com paixão pelas motas, logo que tive idade e as finanças permitiram passeia a usar mota pelo que raras vezes voltei à travessia fluvial e também não me exaspero com os diários quilómetros de fila. É verdade que o vento me pregou uns sustos em cima do tabuleiro, mas… não se pode ter tudo.

Na verdade e apesar do que de diferente poderíamos ter, ainda assim, Lisboa, vista do Tejo, de cima da Ponte 25 de Abril, continua linda. Tal como a Ponte.

domingo, 26 de julho de 2026

DOS AVÓS

 O calendário das consciências determina para hoje o Dia Mundial dos Avós, pessoas normalmente discretas. Uma lembrança à minha Avó Leonor, uma Mulher notável com uns olhos claros, uma fala e um estar que eram um ninho de aconchego.

A avozice é um mundo mágico no qual entrei há algum tempo com a abençoada chegada do Simão há treze anos e do Tomás há dez. Acho que ainda não consegui acomodar os sentimentos e a magia de acompanhar de perto, tão de perto quanto possível sem o excesso da intrusão inibidora de autonomia, o crescimento destes gaiatos que têm uma geração pelo meio.

Tem sido um divertimento, uma descoberta permanente e a percepção de um outro sentido para uma vida que já vai comprida e também, desculpem a confissão, cumprida.

Neste entendimento e como tem acontecido aqui no Atenta Inquietude a cada 26 de Julho, retomo a minha proposta no sentido de ser legislado o direito aos avós. Isto quer dizer, simplesmente, que todos os miúdos deveriam, obrigatoriamente, ter avós e que todos os velhos deveriam ter netos.

Num tempo em que milhares de miúdos passam muito tempo sós, mesmo quando, por estranho que pareça, têm pessoas à beira, e muitos velhos vão morrendo devagar de sozinhismo, a doença que ataca os que vivem sós, isolados, qualquer partido verdadeiramente interessado nas pessoas, sentir-se ia obrigado a inscrever tal medida no seu programa ou, porque não, inscrevê-la nos direitos fundamentais.

Com tantas crianças abandonadas dentro de casa, institucionalizadas, mergulhadas na escola tempos infindos ou escondidas em ecrãs, ao mesmo tempo em que os velhos estão emprateleirados em lares ou também abandonados em casa, isolados de tal forma que morrem sem que ninguém se dê conta, trata-se apenas de os juntar, seria um “dois em um”. Creio que os benefícios para miúdos e velhos seriam extraordinários.

Um avô ou uma avó, de preferência os dois, são bens de primeira necessidade para qualquer miúdo e, deixem-me que vos diga e insista, os avós não estragam os netos até porque gostam deles. Cuidam deles com outro tempo, com outro olhar.

Já agora recupero uma história com avô dentro. Como sabem contar histórias é mesmo coisa de avós e às vezes repetem-nas, é o caso desta, já aqui a contei.

De há uns tempos para cá apareceu uma moda que “impede” as pessoas de falarem em brincar nas escolas da terra, é proibido brincar nas escolas.

A moda foi fabricada por uma gente ignorante de miúdos, obcecada com trabalho e produtividade, mesmo infantil, uns infelizes escravos convencidos de que são livres e que também querem escravizar os outros.

Mas naquela terra ainda existem uns professores, muitos, que não se deixam enganar, sabem ler os miúdos e percebem que eles aprendem porque também brincam e brincam porque também aprendem. Aliás, brincar e aprender são as coisas mais sérias que os miúdos fazem, sorte a deles, a de alguns, felizmente muitos.

Um dia, um desses professores lembrou-se, que sacrilégio, de dizer aos seus alunos para trazerem para a escola o seu brinquedo preferido. A Maria trouxe uma boneca. O João apareceu com a consola nova. A Sara vinha vaidosa com umas bonecas que o pai tinha mandado vir estrangeiro. A Irina trazia o Noddy. O Carlos vinha com uns olhos quase tão grandes como a bola de futebol que trazia debaixo do braço. O David, sempre pronto para as lutas, trazia uns bonecos lutadores de wrestling. A Joana não ligava a ninguém com o seu dispositivo com as músicas de que gosta. Enfim, por um dia, toda gente veio para a escola com um brinquedo, o seu preferido.

O último a chegar foi o Tomás.

Feliz e sorridente entrou na sala de aula com a avó pela mão.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

PARTIU UM HOMEM BOM

 Os caminhos e descaminhos da vida fazem-nos encontrar pessoas e lugares que vão ficando connosco, sempre.

Como os que me conhecem ou por aqui vão passando sabem, o Alentejo, em particular, o Monte é o meu lugar desde o princípio dos anos 90. Tendo nascido e sempre vivido na margem certa do Tejo, Almada, as partidas da vida fizeram com que encontrasse uma terra para ir sempre que podia. Desde aí passou a ser a minha terra, a nossa terra.

Também sabemos que as terras têm pessoas, e a minha terra sempre tem tido pessoas, na vila para umas lérias, no monte para a lida e, claro, umas lérias, nos encontros com petiscos e sempre com lérias, no cante, aqui com o silêncio que o evidencia.

No entanto, o tempo passa e também traz partidas e partidas sofridas. Partiu o Mestre Zé Marrafa, connosco desde o início e guia para tudo, a horta e os seus tempos e modos, as alfaias e o tractor, apanha da azeitona e limpeza das árvores e nos deixou um legado de saberes e afecto que faz com que tantas vezes o lembremos.

Com alguma surpresa apesar de estar doente, recebemos a notícia de que mais um homem bom, um Amigo, tinha partido, o Sr. Manel Ilhéu. Fizemo-nos à estrada para a despedida, o Sr. Manel não podia partir sem nos despedirmos.

Doeu, doeu muito. Conhecemos o Sr. Manel desde as obras de recuperação do monte, e sempre esteve disponível para ajuda e muitas vezes ficávamos de conversa. A sua oficina cheia de tudo e mais alguma coisa onde, por exemplo, amanhava as bicicletas da sua paixão, era algo de extraordinário e fazia o encanto e espanto dos meus netos quando lá íamos com as binas ou buscar uma bilha de gás.

 Tinha uma outra dimensão que nos tornava a vida mais doce e saborosa. A sua paixão pelas abelhas e pela produção do mel contribuiu para que durantes estes anos o nosso chá tivesse um sabor inigualável.

Pois é, o Manel Ilhéu partiu. E agora? Quem me vai chamar Dr. Zé António só para me arreliar e se rir?

Ainda nos vamos encontrar Manel, e pomos as lérias em dia, com todo o tempo do mundo.

domingo, 19 de julho de 2026

ROUPA ESTENDIDA

 Depois da lida da manhã aqui no Monte, como dizia o Mestre Zé Marrafa num monte há sempre trabalho, sentei-me e abro computador começo a olhar para imprensa e … disse para comigo, hoje não, fico por aqui, neste mundo pequeno. Sorte a minha que o tenho.

Quase sempre, quando a lida não é muito pesada, os meus dias por aqui começam por uma caminhada pelos caminhos do monte, gosto de ir vendo as oliveiras, que já estão carregadas com azeitona, oxalá se crie bem e não caia, os sobreiros pequenos que estão bonitos e a crescer ...

Às tantas, fiquei a olhar para uma roupa que tínhamos estendida numa corda entre duas oliveiras. Pode parecer assim um bocadinho estranho, mas gosto de ver um estendal numa casa no meio do campo. É uma prova de vida, um sinal de humanidade. Por coincidência, quando passei pelo lado de cima do monte também reparei que se via roupa a secar ao pé da casa da herdade que está mais perto. Outro sinal de vida, são casas habitadas, com gente.

A certa altura, certamente para me fazer sentir melhor, veio acompanhar-me uma das gatas residentes aqui no monte e caminhou à minha beira algum tempo. Trocámos umas palavras por umas miadelas e concordámos, sabe bem passear no monte. Somos amigos, algum comer a troco de alguns ratos caçados e da guarda quando não estamos.

Bom, agora, já depois da volta, de umas limpezas erva com a roçadora  e de excelente petisco, beringela panada e salada de tomate, tudo cá da horta, um tempinho para esta escrita. Talvez seja um pouco estranha num tempo de nuvens negras que nos inquietam, mas não podemos esquecer. Trata-se de agradecer as graças que a vida ainda nos dá, como os 71 anos da minha companheira de estrada há quase cinquenta anos que hoje se cumprem.

E são assim os dias do Alentejo.

domingo, 12 de julho de 2026

COMO É QUE TE CORREU? - Outro diálogo improvável

 Então como é que te correu? A mim não correu mal de todo.

A mim nem por isso. O tempo não me deu para fazer tudo. Acho também que algumas coisas não me saíram muito bem.

Pois é, às vezes não estamos bem preparados.

Para alguns dos problemas até acho que estava preparado, outros não sabia mesmo como deveria ter feito.

Sabes que às vezes aparecem algumas questões com que nem estamos a contar e depois fica mais difícil resolver, mesmo quando já temos alguma experiência e achamos que sabemos.

Também apareceram umas fáceis e que se resolveram bem. Algumas até gostei mesmo de fazer.

É sempre assim, acho eu. Umas coisas mais difíceis, outras mais fáceis, mas temos que aguentar com o que aparece pela frente. Sabes qual é o problema maior?

Qual é?

Quando acabamos uma vida é que estamos preparados para viver outra.

Claro, muito provavelmente já correria melhor.

Bom, até à próxima.

Próxima, que próxima?

Tens razão, é o hábito.

 Quando de manhã espreitei o mundo que se vê daqui do Monte pareceu-me bonito. Agora que o espreitei através do ecrã pareceu-me feio, muito feio.

sábado, 4 de julho de 2026

OS DIAS MÁGICOS DA AVOZICE

 É inevitável e desculpar-me-ão. Cá estou de novo a recordar a perplexidade e o gozo da última grande descoberta nesta minha viagem que já vai longa, a avozice. É sempre assim a cada 4 de Julho ou 5 de Abril.

Cumprem-se hoje treze anos desde que, com o Simão, entrei pela primeira vez no mundo encantado, no mundo mágico da avozice que se alargou com a chegada do Tomás, há dez anos. O tempo voa e o tempo dos velhos parece que voa ainda mais depressa.

Esta mudança de geração tem sido uma bênção em cada dia que passa e contribui decisivamente para cumprir a narrativa de um Homem de sorte, eu.

Às vezes, quando brincam ou quando fazemos trabalhos e “projectos” que sempre inventam, por cá ou pelo Alentejo de que tanto gostam, fico assim a olhar para eles, para os meus netos, o grande neto Grande, o Simão, e o grande neto Pequeno, o Tomás, fico a imaginar que viagens irão fazer. Nessas alturas sinto-me assim …  desculpem o atrevimento... um anjo da guarda.

Na verdade, que mais deve ser um avô que não um anjo da guarda.

Às vezes, não sabemos, não percebemos, não queremos ou não podemos.

Mas é bonito.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A TERRA ESTÁ ZANGADA

 Está zangada a Terra, queima, alaga, destrói, treme …

Imagino que a Terra comece a ficar cansada da irresponsabilidade delinquente desta gente que a povoa, sobretudo dos que lideram. Depois de tanta asneira, insistem nos maus-tratos e não se entendem sobre a forma de mudar de rumo.

Dão-lhe cabo das entranhas, alteram-lhe o clima, mudam paisagens, esgotam-na, deixam-na estéril e sem sustento.

A minha avó Leonor, mulher de sabedoria, costumava dizer que não era bom a gente meter-se com a Terra, com a natureza, e maltratá-la. A natureza vai ser sempre maior que a gente e não aceita que mandem nela.