Depois da pausa do almoço na lida do Monte, que com a abafura do Alentejo sabe ainda melhor, é quase sempre o tempo para estas notas. Reparei na imprensa que se assinalam hoje os 60 anos da Ponte 25 de Abril e a memória sobrepôs-se ao hoje.
Fui até lá trás, ao tempo que não
havia ponte entre Almada e Lisboa pelo que pessoas e veículos
circulavam pelos barcos, os cacilheiros, os "pequenos" só para
passageiros que iam de Cacilhas para Terreiro do Paço, e os "grandes" que levavam também veículos e atracavam no Cais do Sodré. Existiam ainda outras carreiras fluviais para Lisboa como as do Barreiro ou do Porto Brandão.
Sou de uma geração de gente da
margem sul que para realizar estudos liceais em escolas públicas precisou de o
fazer em Lisboa, no Passos Manuel, Gil Vicente, D. João de Castro como eu,
algumas raparigas no D. Amélia, entre outros.
Lembro-me dos barcos
"grandes", o Eborense, o Alentejense, alguns com 1ª classe, um luxo a
que poucos se davam, um suplemento de 20 centavos era caro e nós estudantes,
cujo passe não dava acesso à primeira classe, apenas quando iludíamos os cobradores
conseguíamos viajar de penetra nas poltronas de verga. Até sermos corridos.
O Tejo lindíssimo como sempre era
uma estrada de água sem os engarrafamentos que a Ponte veio a conhecer. Ainda
tenho na memória imagens da construção da Ponte registadas a partir da
travessia diária do rio.
Lembro-me dos pilares a serem
erguidos, a colocação dos cabos e posteriormente do tabuleiro
É certo que em alguns dias o Tejo
ficava bravo e a viagem era atribulada, sobretudo o processo de atracar pois os
marinheiros experimentavam sérias dificuldades em amarrar o cacilheiro. Era a
altura em que com mais frequência os "heróis" que saltavam do barco
para o cais ainda com o barco em movimento iam, por vezes, parar à água, com um
fim trágico em algumas situações. Também me recordo dos dias de nevoeiro, com o
Farol de Cacilhas a apitar com regularidade e viajarmos no exterior com um marinheiro
encostado à proa do navio com toda a atenção para ouvir algum barco que se
aproximasse. Com nevoeiro cerrado era um bocado assustador.
Um espectáculo sempre animado era
a entrada nos barcos das galeras, umas carroças compridas com quatro rodas,
puxadas por dois animais que se assustavam com a água e que resistiam à
entrada. Estas galeras carregavam cortiça ou produtos de cortiça das fábricas
da Cova da Piedade para a margem norte poupando uma longuíssima volta por Vila
Franca de Xira.
Na verdade, aquelas viagens nos
cacilheiros do Tejo, no exterior, com os primeiros cigarros que nos faziam
crescer, eram mesmo de outro tempo.
Com a Ponte e com paixão pelas
motas, logo que tive idade e as finanças permitiram passeia a usar mota pelo que
raras vezes voltei à travessia fluvial e também não me exaspero com os diários quilómetros
de fila. É verdade que o vento me pregou uns sustos em cima do tabuleiro, mas…
não se pode ter tudo.
Na verdade e apesar do que de
diferente poderíamos ter, ainda assim, Lisboa, vista do Tejo, de cima da Ponte
25 de Abril, continua linda. Tal como a Ponte.
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