quarta-feira, 23 de setembro de 2026

REPISANDO O PISA

 Os resultados do PISA 2025 continuam a alimentar discussão e visões que, sendo próprias de sociedades abertas e democráticas, também assentam na definição da certeza ou agenda de cada um ou de cada grupo. Nada de novo, somos bons a repisar.

Talvez para finalizar a referência ao PISA 2025 aqui no Atenta Inquietude, ficam mais cinco textos que julgo merecerem leitura e reflexão.

No Expresso, “O triunfo do 'achismo', ou como transformar ideologia em evidência” de António Teodoro, no Público, “O PISA depois da espuma dos dias” de Paulo Prudêncio, “Onde estão, afinal, os “alunos de Crato”?, de Nuno Serra e "PISA 2025, um retrato fiel: mudar as mentalidades é urgente”, de António Carlos Cortez. Finalmente, na Visão, “A desculpa perfeita. Opinião de um professor”, de André Monteiro Pires.

Aguardemos pela divulgação do próximo PISA.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

PARTIU JORGE PALMA

 Partiu Jorge Palma. É mais uma perda, um fazedor de canções que fazem parte da banda sonora da minha, da nossa, vida. Ficam as memórias e os registos, aqui da incontornável "Encosta-te a mim".




segunda-feira, 21 de setembro de 2026

PROIBIDO A CRIANÇAS. DEPOIS, PROIBIDO A ...

Com cada vez maior regularidade surgem notícias sobre espaços de diferente natureza que em nome do sossego e da tranquilidade proíbem ou, para ser mais simpático, condicionam o acesso a crianças. Agora no Expresso encontra-se uma peça elucidativa relativa à proibição de frequência de crianças em unidades de hotelaria, restaurantes ou outros espaços. Também em Portugal se vai verificando este tipo de decisões que, de acordo com o trabalho do Expresso, não tem cobertura legal. No entanto, como sabem, boa parte do nosso quadro legal é de natureza indicativa, não imperativa.

Começa por se praticar de forma discreta o condicionamento, corrige-se se despertar algum alarido até melhor oportunidade, volta a insistir-se e alargam-se de mansinho as práticas de “limpeza etária”.

Há uns atrás, creio que em 2011, a Ryannair anunciou a intenção de voos proibidos a crianças que creio não ter avançado.

No entanto existem unidades hoteleiras ou de restauração que têm essa interessante atitude de proibir a entrada a crianças.

Recordo que há uns tempos o conhecido tudólogo Miguel Sousa Tavares também sustentou que as crianças nos restaurantes podiam ser tão incomodativas como o fumo dos seus cigarros.

Estas posições parecem-me interessantes. É de notar que logo surgem apoiantes e existe certamente um nicho de mercado, já identificado evidentemente, quer viver longe das crianças estando, por isso, disposto até a pagar um pouco mais só para não correr o risco de levar com uns putos mal-educados a estragar a viagem, a estadia no hotel ou spa, ou a refeição.

Talvez nas companhias aéreas se possa pensar na hipótese de as crianças poderem viajar em condições especiais como os animais de companhia.

Com é evidente, todos temos histórias destas, não é uma experiência particularmente agradável ter como companhia de viagem ou de refeição miúdos que se comportam como ditadores, miúdos desregulados no comportamento e muitas vezes acompanhados dos respectivos papás que por incompetência ou negligência são incapazes de manter os miúdos tranquilos. Como é óbvio, temos o direito à tranquilidade.

Só que a questão é a natureza da educação que os miúdos têm e não a proibição da sua presença, os miúdos não são todos assim e, por outro lado, todos já fomos miúdos.

Existem muitos adultos que me incomodam e não vejo como proibir a presença de adultos a bordo dos aviões ou noutro qualquer espaço. Um dia destes pode pensar-se em proibir a presença de velhos, são chatos, sempre a contar histórias, as mesmas histórias. Também pode proibir-se a presença de gente obesa, torna o espaço mais apertado para as outras pessoas. Também se poderia proibir a presença de profissionais da política, incomodam demasiada gente. Não têm limite os exemplos que poderemos antecipar.

Este tipo de discurso mostra, também, de que são feitos alguns dos tempos que vivemos, desregulação, intolerância e estabelecimento de guetos sucessivos e cada vez mais exclusivos.

Vão acabar sós.

domingo, 20 de setembro de 2026

PROFESSOR, PROFISSÃO DE RISCO

 O MECI, sem surpresa, tem vindo a criar “factos” ou “notícias” que ajudem a desviar o foco para a sucessão de decisões e problemas que a irresponsabilidade e incompetência tem sustentado.

Uma das “questões” levantadas prende-se com o número de docentes em baixa médica, sugerindo, a existência de um número particularmente elevado que, como habitualmente, os dados não sustentam em termos comparativos.

A questão que importa sublinhar é que o exercício da profissão docente é algo de difícil e pesado que talvez não fosse má ideia que alguns dos responsáveis e opinadores experimentassem a pesar do risco de danos aos alunos por manifesta incompetência.

De facto, múltiplos estudos, realizados em Portugal e noutras paragens mostram níveis altíssimos de stress e risco de burnout no grupo profissional dos professores portugueses que estão em linha com a realidade de outros países, sobretudo no que concerne ao burnout.

Os factores identificados como mais contributivos para este quadro são a indisciplina, desmotivação dos alunos e a pressão para o sucesso e depois insatisfação com as condições de desempenho, carga horária e burocrática, falta de trabalho em equipa, falta de apoio e suporte das lideranças da escola. O cenário agrava-se no ensino secundário.

Na verdade, os dados só podem surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam pelos media perorando sobre educação.

É fácil avaliar a importância e consequências das situações de mal-estar envolvendo os professores. Alguns dos discursos que de forma ligeira e muitas vezes ignorante ocupam tempo de antena na imprensa, parecem esquecer a importância deste trabalho e das circunstâncias em que se desenvolve.

É complicada a tarefa de professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.

Os valores, padrões e estilos e vida das famílias alteraram-se significativamente fazendo derivar para a escola, para os professores, parte do papel que competia(e) à família. Este trabalho é realizado, muitas vezes, sem qualquer tipo de apoio ou suporte, com cada professor entregue a si mesmo.

Importa ainda considerar as variáveis relativas à estabilidade e segurança profissional com milhares de professores a cumprir a sua carreira de poiso em poiso, sem poiso e sem condições e com milhares em mudanças inesperadas ou mesmo perda de segurança na relação laboral. E não nos esqueçamos também da imprescindível necessidade de que o seu trabalho seja avaliado através de dispositivos sólidos, eficazes e justos de forma a proteger a própria classe, os miúdos e as famílias.

Também deve ser ponderada a deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. O arranque e funcionamento deste ano lectivo tem sido particularmente elucidativo.

Com muita frequência os professores são injustiçados nas apreciações de muita gente que no minuto a seguir à afirmação de uma qualquer ignorante barbaridade, vai, numa espécie de exercício sadomasoquista, entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas. Também são conhecidos os casos sucessivos de agressão e insulto por parte de alunos e famílias.

A forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem e isto contamina a serenidade do processo de trabalho.

É também é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.

Na verdade, ser professor é uma das funções mais bonitas do mundo, ver e ajudar os miúdos a ser gente, mas é seguramente uma das mais difíceis e que mais respeito deveria merecer.

sábado, 19 de setembro de 2026

A LER, "O PISA COMO RELIGIÃO"

 Merece leitura o texto de António Guerreiro no Público, “O PISA como religião”. Curiosamente e também a propósito dos resultados do PISA 2025, no dia 8 escrevi umas notas no Atenta Inquietude no mesmo  sentido e de que recupero uma parte.

(…) Quando a poeira assentar volto a deixar um convite para gastar uns minutos de leitura de uma carta que me parece de recuperar e que foi publicada no The Guardian em 6 de Maio de 2014 dirigida a Andreas Schleicher, director do PISA, por um grupo alargado, significativo e de vários países de académicos e especialistas em educação ou representantes de entidades a operar neste universo. No documento é apresentada uma leitura muito interessante do PISA e também avançadas algumas sugestões de desenvolvimento.

Um pequeno excerto para apelar à leitura e, sobretudo, à reflexão.

"(…) By emphasising a narrow range of measurable aspects of education, Pisa takes attention away from the less measurable or immeasurable educational objectives like physical, moral, civic and artistic development, thereby dangerously narrowing our collective imagination regarding what education is and ought to be about. (…)"

Precisamos de não esquecer que existe educação para além do PISA. (…)

António Guerreiro foi também recuperar esta tomada de posição em 2014 e que me parece muito pertinente.

Entretanto, continua em aberto a animada procura pela melhor e mais ajustada leitura dos resultados.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

30 ALUNOS POR TURMA

 O MECI, Ministro dos Enleios, Caliqueiras e Irresponsabilidade (em alentejano) entendeu por bem  minimizar a falta de lugares nas escolas para um número significativo de alunos recorrendo ao aumento do efectivo de turma.

Considerando que o problema, não sendo desconhecido nem repentino, não tem solução imediata entende-se a decisão. O que não se entende, ou melhor, não é aceitável é a argumentação do Ministro afirmando que a "Evidência científica diz que até aos 30 alunos a qualidade do ensino não sai prejudicada”, sempre a evidência para sustentar o que quer que seja. Compreendendo o recurso ao alargamento de turmas nestas circunstâncias, temo que possa tornar-se uma poção mágica para minimizar a falta de docentes.

A revisão de estudos sobre o número de alunos por turma e o seu impacto mostra o que também conhecemos, existem vantagens em turmas de menor dimensão que podem ser mais ou menos significativas em função das variáveis em análise.

Parece-me de acentuar que os estudos sugerem com clareza a existência de impacto positivo no clima e comunicação na sala de aula, na maior facilidade de práticas educativas mais diferenciadas, no comportamento dos alunos, etc., o que, evidentemente deve ser considerado.

Alguns estudos, apenas centrados em resultados, não encontram diferenças significativas, mas também me parece que nem sempre são consideradas variáveis importantes, de contexto por exemplo, o que frequentemente também não é tido em conta nos discursos de alguns “economistas” da educação.

É também fundamental considerar as diferentes características dos diversos territórios educativos independentemente da sua classificação como TEIP. Na verdade, é necessário considerar as diferenças de contexto, isto é, a população servida por cada escola, as características e dimensão da escola, a constituição do corpo docente, os recursos disponíveis, etc.

Importa ainda sublinhar que a qualidade e sucesso do trabalho de professores e alunos depende de múltiplos factores, sendo que a dimensão do grupo é apenas um, ou seja, importa considerar, vejam-se relatórios e estudos nesta área, as práticas pedagógicas, os processos de organização e funcionamento da sala de aula e da escola, recursos e dispositivos de apoios, bem como o nível de autonomia de cada escola ou agrupamento, entre outros.

Acresce nesta matéria a importância da qualidade do trabalho em turmas com alunos com necessidades educativas especiais o que, evidentemente, deve ser considerado na análise do efectivo de turma, desde logo cumprindo o que esteja legislado e acautelando a tentação de “inclusões administrativas” em que os alunos ficam “entregados” e não “integrados”.

É dispensável referir a diferença entre trabalhar com 30 alunos num estabelecimento privado de acesso “protegido” ou com o mesmo número de alunos num mega-agrupamento de uma escola pública em que um professor lida com várias turmas, centenas de alunos ou se desloca entre escolas para trabalhar.

Por outro lado, não só por esta razão, dimensão das turmas e qualidade do trabalho dos alunos, de todos os alunos, e dos professores, também me parece urgente a promoção de uma verdadeira desburocratização do trabalho nas escolas e promovido algum ajustamento na sua organização e funcionamento o que certamente libertaria tempo de professores para trabalho em turma ou em apoios que promovessem qualidade.

Sei que mudanças neste sentido são politicamente difíceis e terão custos. No entanto, são imprescindíveis e os custos do insucesso e da exclusão são incomparavelmente mais caros.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

EVIDENTEMENTE

 Os tempos vão estranhos. As políticas públicas de educação e não só, giram em torno do português “cada cavadela, cada minhoca” ou da internacional lei de Murphy, “tudo o que pode correr mal, corre mal”.

Há uns anos, poucos, sem atentar na evidência, vendia-se a narrativa dos professores a mais. Parece agora claro que a falta de professores é uma … evidência. Responsabilidades? Nenhuma, evidentemente.

Como se não bastasse a falta de docentes, apesar do abaixamento do número de alunos a frequentar o ensino básico e secundário, temos agora a falta de vagas nas escolas para muitos alunos.

O Ministro da Inovação, evidentemente, inova, ou seja, aumenta o número de alunos por turma porque, lá está, a evidência diz que 30 alunos por turma é tranquilo. Também me parece evidente, as escolas têm recursos suficientes para lidar com isto. Ainda bem.

No meio, apesar da evidência resultante do teste à (chamemos-lhe assim) digitalização dos exames finais realizado no ano passado, o processo este ano correu mal, outra evidência, mas que, mais uma evidência, responsabilidades assumidas, nenhuma evidentemente.

Acresce ainda que, com a divulgação dos resultados do PISA 2025, se desencadeou uma animada controvérsia sobre as evidências e a sua leitura, com a evidente divergência de pontos de vista que, como se sabe, são uma vista a partir de um ponto, o de cada um.

E como alguém dizia, assim se cumpre Portugal, uns vão bem … outros mal.

Temos só um pequeno problema, o futuro, mas recuperando o mantra da pandemia, “vai correr bem”.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

HÁBITOS DE LEITURA

 No âmbito da conferência "BOOK 2.0 - O Futuro da Leitura”, a decorrer em Lisboa, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) apresentou um estudo sobre leitura. Vejamos alguns indicadores.

Começando por um dado bastante positivo, em 2025 foram vendidos em Portugal quase 15 milhões de livros, o mais alto desde 2019, com um crescimento sustentado pelo consumo dos leitores entre os 15 e os 24 anos.

No entanto, precisamos de ir mais longe nos hábitos de leitura, estão a ser comprados menos livros por pessoa e 18% são "leitores que não compram", comportamento associado à pirataria do formato digital.

Relativamente a actividades de tempos livres, a leitura é a quinta mais referenciada, 62%, depois do convívio com amigos, 91%, as redes sociais, 85%, cinema e audiovisual por "streaming", 75%, e desporto a seguir, 66%.

Relativamente aos não leitores, "a falta de interesse” é o principal obstáculo, 43%, seguida pela “falta de tempo”, 38%, e pela preferência por outras atividades, 33%.

Perante este cenário parece necessário continuar a insistir na promoção de hábitos de leitura e no consumo de livros nos diferentes suportes.

Como já tenho escrito por aqui, é imprescindível sublinhar e afirmar sempre que os livros e a leitura são bens de primeira necessidade para gente de todas as idades, daí a insistência. Recordo sempre Marguerite Yourcenar que no imperdível “As Memórias de Adriano” escrevia “A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana.”

São múltiplos os estudos e referências que sublinham o impacto dos livros e da leitura no trajecto escolar e no trajecto pessoal. Lamentavelmente, são também muitos os trabalhos que mostram que os hábitos de leitura são pouco consistentes entre as crianças, adolescentes e jovens como, sem surpresa, também o são entre a população em geral. Nos últimos tempos parece estar a despertar um maior interesse pelos livros, sobretudo entre os mais novos, associado a um fenómeno das redes sociais, os booktokers que lêem e divulgam livros no TikToK. Esperemos que se mantenha e fortaleça.

Os livros têm uma concorrência fortíssima com outro tipo de materiais, jogos ou consolas por exemplo, e que nem sempre é fácil levar as crianças, jovens ou adultos a outras opções, designadamente aos livros.

Apesar de tudo isto também sabemos que é possível fazer diferente, mesmo que pouco e com mudanças lentas.

Como várias vezes tenho afirmado e julgo consensual, a questão central é o leitor, ou seja, o essencial é criar leitores que, quando o forem, procurarão o que ler, livros por exemplo, em que espaços, biblioteca, casa ou escola e em que suportes, papel ou digital.

Um leitor constrói-se desde o início do processo educativo. Desde logo assume especial importância o ambiente de literacia familiar e o envolvimento das famílias neste tipo de situações, através de actividades que desde a educação pré-escolar e 1º ciclo deveriam ser estimuladas, muitas vezes são, e para as quais poderiam ser disponibilizadas aos pais algumas orientações. 

Apesar dos esforços de muitos docentes, a relação de muitas crianças, adolescentes e jovens com os materiais de leitura e escrita assentará, provavelmente de forma excessiva, nos manuais ou na realização de trabalhos através da milagrosa “net” proliferando o apressado “copy, paste” ou resumos disponíveis das obras que são de leitura obrigatória ou recomendada.

Neste contexto, embora desejasse muito estar enganado, não é fácil construir miúdos ou adolescentes leitores que procurem livros em casa, em bibliotecas escolares ou outras e que usem o "tablet" também para ler e não apenas para uma outra qualquer actividade da oferta sem fim que está disponível. A iniciativa dos booktokers que referi acima pode ser um bom sinal.

Felizmente e apesar das dificuldades também importa sublinhar que se realizam com regularidade experiências muito interessantes em contextos escolares, os professores bibliotecários têm desenvolvido um trabalho essencial, ou em iniciativas mais alargadas a outras entidades como autarquias e instituições culturais.

Precisamos de criar leitores, eles irão à procura dos livros ou da leitura, mesmo em tempos menos favoráveis.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E INOVAÇÃO

 O MECI continua a fazer jus à sua designação, Ministério da Educação, Ciência e Inovação.

Ao que se lê no JN numa peça sobre sobre a dificuldade que muitos alunos estão a sentir para ter lugar numa escola, um aluno foi colocado numa escola a 40 km da residência.

Depois da experiência em curso há já algum tempo de testar o desempenho académico dos alunos sem professor, surge mais um inovador desafio, um ajustamento no modelo ensino à distância.

Estudam-se os efeitos na aprendizagem e a resiliência de alunos e famílias.

Temo que as experiências se possam generalizar.

Desculpem, a ligeireza desta abordagem, mas … para onde estamos a caminhar?

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

SERENIDADE, PRECISA-SE

 O início de um ano lectivo deveria ser a ocasião de regresso à escola para a grande maioria de professores, funcionários, técnicos e alunos, para além, naturalmente do retorno das rotinas familiares relativas à frequência escolar. Para um infelizmente pequeno número de alunos e professores, será, por assim dizer, a sua estreia” que deveria decorrer apenas com a “ansiedade” de uma estreia.

Lamentavelmente, assim não acontece. A serenidade é um bem de primeira necessidade no trabalho educativo. No entanto, continua a ser um bem escasso.

É tempo demais sem que nada mude substancialmente.

Da gestão das políticas públicas espera-se, exige-se, as decisões que criam as condições de serenidade e normalidade do trabalho de alunos e professores.

Sabemos que ensinar e aprender têm sobressaltos, são naturais nestes processos. No entanto, o que nos preocupa, não parecem ser esses sobressaltos esperados.

Estamos num mundo às avessas.

O que temos são decisões ou falta delas que alimentam problemas e pouco impacto têm nas soluções. Sabemos que muitos problemas não são de fácil ou imediata resolução, cresceram de mais por negligência ou incompetência, mas importa definição de um rumo consistente e sustentado.

O que temos é uma carga de burocracia que promove ineficiência e desgaste sem que o retorno justifique minimamente o esforço e o tempo despendidos.

O que temos em muitas escolas são climas institucionais pouco amigáveis para o trabalho educativo da comunidade escolar.

O que temos em muitas escola e agrupamentos são problemas sérios de governança que alimentam mal-estar e cansaço dos profissionais.

O que temos, aliás, não temos, são professores suficientes para as exigências e necessidades da população discente.

O que temos são discursos patéticos, ardilosos, que “martelam” a realidade desconsiderando o conhecimento e a experiência que tanta gente possui.

O que temos são fingimentos de “soluções” que, mais uma vez, alimentam os problemas.

Não, não está tudo mal, nem vai correr tudo mal.

Os professores, na sua esmagadora maioria vão “dar o litro” sustentados no seu sentido ético, deontológico e competência. Os alunos vão tentar, na sua maioria, fazer o melhor possível e, felizmente, serão bem-sucedidos, esperando que sucesso corresponda, de facto, a aquisição de conhecimentos e competências.

No entanto, a realidade não poderá ser esta, a que vivemos, mesmo que do MECI venham retratos mais simpáticos.

Daí este meu cansaço e desabafo.

E … vai correr bem. Ou não.

domingo, 13 de setembro de 2026

AOS VOSSOS LUGARES - 2026/2027

 Até à próxima terça-feira iniciam-se as aulas, mas não todas as que deveriam. Vivemos uma espécie de novo normal, por negligência ou incompetência das políticas públicas, faltarão professores para algumas disciplinas o que condicionará a actividade escolar para muitos alunos.

Mas este ano, temos uma surpresa, para além de alunos sem professor, temos alunos sem escola. Na zona da Lisboa e Setúbal existem alunos, incluindo alunos com necessidades especiais, que não encontram vagas nas escolas da área em que residem. Alguns pais têm a informação de “não colocado” para os seus filhos no Portal das Matrículas e sentem-se perdidos e impotentes. Como se sabe, face ao chamado “ímpeto reformista”, foi extinta a Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE) que tinha atendimento presencial. A que se lê no Público, a Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE) que substituiu a DGEstE não tem atendimento presencial e, queixas dos pais, não responde a emails, nem a telefonemas.

Estamos perante situações inadmissíveis que ferem um direito básico e estrutural, o direito à educação. Muito provavelmente continuaremos no reino da irresponsabilidade.

As comunidades escolares já mereciam que o lectivo se iniciasse e decorresse com alguma serenidade. Ainda não será este, o universo da educação parece estar condenado ao sobressalto, os discursos não se centram no trabalho em sala de aula de alunos e professores, mas noutras dimensões da “escola” cujo relevo quase faz esquecer o que é central, aprender e ensinar num clima positivo e tranquilo.

Tanto está a ser dito, tanto deveria ser decidido que dificilmente serei capaz de acrescentar algo que não seja reforçar um apelo à serenidade e à competência.

Assim e pensando sobretudo nos que estão ou vão iniciar a o seu percurso na escolaridade obrigatória, umas notas recorrentes relativas ao que se espera e deseja que aconteça nos próximos tempos, o trabalho de professores e alunos em sala de aula, as aulas, o que menos me parece ser objecto de reflexão.

Para a maioria das crianças e apesar da sua experiência na educação pré-escolar, a "entrada" na escola, ou melhor, o processo de início da escolaridade obrigatória, continua a ser uma experiência fundamental para o lançamento de um percurso educativo e formativo com sucesso.

Em muitíssimas circunstâncias da nossa vida, quando alguma coisa não correu bem, é possível recomeçar e tentar de novo esperando ser mais bem-sucedido. Todos experimentámos episódios deste tipo.

Pois bem, o processo de início da escolaridade envolve na verdade um conjunto de circunstâncias irreversíveis, ou seja, quando corre mal já não é possível voltar atrás e recomeçar com a esperança de que a situação vá correr melhor. Por isso se torna imprescindível que o começo seja positivo. Para isso, importa que seja pensado e orientado, que crie as rotinas, a adaptação e a confiança em miúdos e em pais indispensáveis à aprendizagem e ao desenvolvimento bem-sucedidos.

Os tempos actuais tornam bastante mais difícil que assim seja, mas esse é o nosso grande desafio e obrigação.

 É fundamental não esquecer que por variadas razões, os miúdos à "entrada" na escola não estão todos nas mesmas condições, ambiente, experiências e recursos familiares, percurso anterior, características individuais, etc. o que exige desde o início uma atenção diferenciada que combata a cultura de que devem ser todos tratados da mesma maneira, normalizando o diferente, que alguma opinião publicada e ignorante defende. Muitas vezes os lugares da escola não conseguem acomodar a diversidade dos alunos, a escola ainda não chega a todos com a mesma qualidade.

Antes de, com voluntarismo e empenho, se tentar ensinar aos miúdos as coisas da escola é preciso, como sempre afirmo, dar tempo, oportunidade e espaço para que os miúdos aprendam a escola. Depois de aprenderem a escola estarão mais disponíveis para então aprender as coisas da escola.

Vai começar o tempo do trabalho "a sério" e muitas crianças irão rapidamente sentir-se pressionados para a excelência, o mundo não é para gente sem sucesso. Vão ter que adquirir competências, muitas competências, em variadíssimas áreas, porque é preciso ser bom em tudo e é preciso preparar para o futuro, curiosamente, descuidando, por vezes, o presente.

E vão também começar a perceber como anda confusa a cabeça dos adultos, como estamos sem perceber o nosso próprio presente e com dificuldade em antecipar o futuro, que será o presente deles.

Bom ano e bom trabalho para todos que fazem da escola os seus dias.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

DA AGITAÇÃO

 A agitada discussão a que se vai assistindo em debates, na imprensa ou nas redes sociais sobre os resultados do PISA 25, fez-me recordar uma afirmação que ouvi pela primeira vez no início dos anos 90 produzida por a Michel Gilly, professor na Universidade de Provence, nas aulas do mestrado em Psicologia Educacional que então frequentava.

Dizia o Professor Gilly qualquer coisa como, a investigação não pode cair na ideia de que se torturarmos os dados com paciência eles acabarão por confessar e dizer o que queremos ouvir. Era um homem exagerado, certamente,

Já agora, uma outra ideia que ao longo de décadas no universo da educação escolar e familiar e da psicologia me foi acompanhando, nenhuma criança/aluno(a) cabe inteirinho(a) num teste, por melhor e robusto que este seja. Outra ideia estranha, tudo se compara e se mede.

Era só isto.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

INQUIETAÇÃO, INQUIETAÇÃO

 Estamos numa agitada contenda sobre a leitura e interpretação dos resultados do PISA. Esta contenda é, obviamente, sustentada pela incontornável evidência, mas também é razoavelmente claro que as diferentes agendas dão o seu contributo para olhar para os resultados e para a … evidência. Nada de novo.

Neste contexto o MECI entende por bem e oportuno avançar com a fusão do 1.º e 2.º ciclo e alterar a carga lectiva dos docentes do 1.º ciclo que se integram nas mudanças que estão em curso, o novo regime da educação inclusiva, a direcção das escolas ou a carreira e formação dos docentes, por exemplo, e, mais um pormenor, a falta de professores que, evidentemente, está quase ultrapassada. Aliás, ao que parece, agora é mesmo a sério, vamos conseguir saber exactamente o número de docentes em falta. Ainda bem, será certamente uma conquista do investimento de muitos milhares de euros.

Para início de um novo ano lectivo parece bastante animado e com uma perspectiva segura de tranquilidade, variável crítica nos processos educativos.

A ver vamos, mas a inquietação é grande.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

DA IRRESPONSABILIDADE

 Estamos à beira do início do ano lectivo e, lê-se no Expresso, é muito provável que venham a existir mais turmas sem professores a todas as disciplinas que no ano passado. A agenda da educação está agora entretida com a definição de responsabilidades pelos resultados do PISA 25 pelo que o “pormenor” de muitos alunos não terem professores a todas as disciplinas já não parece ser “notícia” que inquiete, é um novo normal.

A verdade é que há décadas que a falta de docentes estava escrita nas estrelas e sucessivas equipas ministeriais, para além de más políticas públicas que afastaram milhares de professores das escolas e ainda negavam a evidência e ouvimos o mantra dos “professores a mais”. O então Primeiro-ministro Passos Coelho convidava os “professores a mais” a emigrar (entrevista ao CM em 18/12/11) e Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato foram dois exemplos de incompetência e irresponsabilidade nesta matéria e nem um rasgo de seriedade na assunção do que é óbvio, falharam. Nuno Crato, com a devida autoridade, entretém-se ainda a distribuir responsabilidades, por exemplo, relativamente aos resultados do PISA 25. Nada de novo, é gente com muito “jogo de cintura” e pouca espinha.

O resultado está à vista, o atropelo a um direito fundamental, o direito à educação, e o desempenho escolar de muitos alunos prejudicado pala falta de docentes.

As famílias com mais recursos recorrem ao ensino privado ou a explicações externas, as outras … lamentam.

A questão é que cada vez se torna mais difícil falar de responsabilidade. Entrámos no mundo da irresponsabilidade.

Com que preço? Pago por quem?

E não acontece nada?

É uma questão muito séria, mas lembrei-me de uma anedota que se contava quando eu era miúdo. Na inauguração de uma ponte esta desabou. Seguiu-se o normal inquérito no qual foram interrogados muitos intervenientes e também os materiais, quando perguntaram ao ferro se sabia de algum problema, a resposta foi "eu?!!, nem sequer lá estava".

É verdade, esta gente nunca lá esteve.


terça-feira, 8 de setembro de 2026

A PROPÓSITO DO PISA 2025

A existência de avaliação externa nos sistemas educativos é uma ferramenta imprescindível de regulação e promoção da sua qualidade embora, só por si, não a garanta. Esta avaliação externa pode ser realizada em diferentes patamares e dispositivos de que exames, provas de aferição ou estudos comparativos internacionais de desempenho dos alunos como o PISA ou o TIMSS são exemplos.

Nesta perspectiva, é sempre com interesse que se aguardam resultados destes dispositivos.

Vem esta introdução a propósito da divulgação dos resultados do PISA 2025. Em síntese telegráfica, globalmente um abaixamento dos níveis de desempenho nas áreas em avaliação que também acontece nos países da OCDE fazendo com que as médias dos alunos portugueses estejam próximas das médias da UE

Mais preocupante é a manutenção do peso da “mochila” sociodemográfica dos alunos no seu desempenho, ou seja, os alunos de famílias com menos recursos e qualificação continuam com desempenho médio muito baixo.

Como também é habitual quando se divulgam resultados e no âmbito da sempre presente conflitualidade de interesses da partidocracia na educação verifica-se uma corrida na tentativa de explicação ou justificação dos resultados e uma atribuição de responsabilidade que nunca é própria nos menos positivos. Emergem também comentadores, especialistas ou não que, por vezes, e em função de agendas mais ou menos explícitas “vêem” relações de causa/efeito onde apenas se poderão encontrar associações ou correlações. Nada de novo, lamentavelmente, a discussão estará condenada à esterilidade e à retórica inconsequente.

É verdade que o volume de resultados permitirá análises úteis e importantes em termo de acção mas não nos termos em que mais frequentemente se desenrola a discussão.

Do que se conhece e de outros sistemas educativos, nada autoriza a sustentar a existência de uma relação de causa-efeito isolando variáveis como o número de exames ou mudanças curriculares a definição de Aprendizagens Essenciais numa perspectiva mais aberta ou as metas curriculares numa abordagem mais prescritiva, com a definição, por exemplo, de 998 metas curriculares em Português no Ensino Básico.

Por outro lado, também importa considerar ainda sem relação de causa-efeito, variáveis como clima de escola, qualidade da direcção escolar, falta e formação de docentes, falta de técnicos e recursos humanos ou materiais, envolvimento familiar, etc.

Estas notas não servem para um exercício gratuito de “contrismo”, estar contra tudo o que foi feito, designadamente, por Maria de Lurdes Rodrigues, Nuno Crato ou Tiago Brandão Rodrigues, não se trata disso. Trata-se se sublinhar que como muitas vezes afirmo, os professores e os alunos vão cumprindo a sua parte, apesar de muitos aspectos negativos das políticas educativas cujos responsáveis se querem tornar donos de resultados positivos e enjeitar responsabilidades no que de menos bom acontece.

Quando a poeira assentar volto a deixar um convite para gastar uns minutos de leitura de uma carta que me parece de recuperar e que foi publicada no The Guardian em 6 de Maio de 2014 dirigida a Andreas Schleicher, director do PISA, por um grupo alargado, significativo e de vários países de académicos e especialistas em educação ou representantes de entidades a operar neste universo. No documento é apresentada uma leitura muito interessante do PISA e também avançadas algumas sugestões de desenvolvimento.

Um pequeno excerto para apelar à leitura e, sobretudo, à reflexão.

"(…) By emphasising a narrow range of measurable aspects of education, Pisa takes attention away from the less measurable or immeasurable educational objectives like physical, moral, civic and artistic development, thereby dangerously narrowing our collective imagination regarding what education is and ought to be about. (…)"

Precisamos de não esquecer que existe educação para além do PISA.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A LER, "PISA 2025: A PRIMEIRA PROVA ÀS APRENDIZAGENS ESSENCIAIS"

 O trabalho de João Marôco, “PISA 2025: a primeira prova às aprendizagens essenciais”, no Expresso, merece leitura e será um contributo para análise dos dados do PISA 2025 que serão divulgados amanhã.

Os dados do PISA 2025 contribuirão para analisar o desempenho dos alunos portugueses que experienciaram ao longo seu trajecto ajustamentos no domínio dos currículos e nos dispositivos de avaliação externa.

No entanto, são múltiplas as variáveis que estão associadas à avaliação do desempenho dos alunos, desde logo, a natureza do instrumento utilizado, por exemplo.

domingo, 6 de setembro de 2026

07/02/2007 - "Eles andam aí ... Os TUDÓLOGOS"

 Por uma qualquer razão, lembrei-me de que já escrevia por aqui desde 7 de Fevereiro de 2007. Por curiosidade fui ver o que tinha escrito há quase 20 anos e deu-me vontade de rir, um dos dois textos desse dia tinha como título “Eles andam aí … Os TUDÓLOGOS”. Achei que seria curioso voltar a ele.

É velha na comunidade científica a dificuldade de estabelecer um equilíbrio entre um conhecimento de natureza "especialista" e o conhecimento de natureza "generalista". Não é tarefa fácil se considerarmos o volume enorme e virtualmente inesgotável de informação disponível e em construção sobre a totalidade dos temas que, por qualquer razão, possam ser objecto de estudo.

Daí o sempre presente desafio epistemológico da formação e desenvolvimento do conhecimento buscando o inatingível compromisso entre "saber muito sobre pouca coisa" e "saber pouco sobre muita coisa".

No entanto, de há algum tempo para cá emergiram na "medioesfera" um grupo de opinadores de origens diversas que parecem ter resolvido o tal imbróglio epistemológico. Refiro-me à seita dos TUDÓLOGOS, isso mesmo, os que sabem de tudo. É vê-los a emitir os seus "ACHISMOS" ou numa variante semântica também frequente os seus "PARA MIM..." por todo o lado onde apareça um microfone, uma câmara ou uma página de jornal ou revista.

O espectáculo é, por vezes, arrasador para a auto-estima de um cidadão que ao longo de uma laboriosa vida de estudo e reflexão procura conhecer uma qualquer área do saber. Eles, sempre os mesmos, falam, "acham", sobre não importa o quê, saúde, política (externa ou interna), educação, i & d, economia, arte, etc (uff!!). Estranhamente, por vezes, aparecem também acompanhados por pessoas de facto conhecedoras das áreas em discussão e de quem esperam, ou arrogantemente exigem, a caução da sua óbvia ignorância mascarada de "opinião esclarecida".

Curiosamente, a comunicação social ou, para ser justo, boa parte dela também mal preparada deleitando-se com a exibição despudorada de um umbigo tão grande quanto a ignorância, subscreve e amplia as maiores banalidades ou disparates que, diletantemente, os TUDÓLOGOS emitem.

Atentem nessas figuras e vejam se conseguem identificá-las. Voltaremos então a conversar.

 É, retomando a conversa, o mundo da tudologia e do achismo alargou-se e invadiu os espaços de comunicação, a imprensa e, naturalmente, as múltiplas redes sociais. A este cenário acresce a gigantesca produção “fake” sem pudor, rigor ou ética, valores revistos em baixa. Há vinte anos, com alguma ingenuidade, não antecipava este mundo.

sábado, 5 de setembro de 2026

A LER, "AUTOCRACIA E FINS LUCRATIVOS COMO PADRÕES"

 Merece leitura o texto de Paulo Prudêncio no Público, “Autocracia e fins lucrativos como padrões”. Um retrato sintético do estado do nosso sistema educativo e dos caminhos que parecem estar em desenvolvimento. 

A propósito, o MECI disponibilizou mais  600000€ para o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (Eduqa) para, cito, assumir despesas "com locação e aquisição de bens móveis e aquisição de serviços, até ao montante de 600.000,00 euros", associados ao "apoio técnico às soluções tecnológicas de suporte aos processos de digitalização e classificação das provas". Se necessário (claro que é necessário), podem ser adquiridos "serviços ao sector privado, cujo objecto sejam estudos, pareceres, projectos e serviços de consultoria ou outros trabalhos especializados".

Os destinatários agradecem reconhecidos. É este o estado da arte em matéria de políticas públicas de educação.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

OS SOBRESSALTOS DA CHAMADA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

 Numa peça do Público regista-se a preocupação de Vera Bonvalot coordenadora do Mecanismo Nacional de Monitorização dos Direitos das Pessoas com Deficiência com as inúmeras dificuldades que alunos com necessidades especiais e respectivas famílias continuam a sentir.

Os problemas são de múltipla natureza, insuficiência preocupante dos recursos humanos, professores e técnicos, designadamente psicólogos e terapeutas, auxiliares educativos bem como o crescimento significativo do número de alunos sinalizados com algum tipo de dificuldade.

Ainda de acordo com Vera Bonvalot, representantes das pessoas com deficiência ouvidos pelo mecanismo alertaram para a inexistência de currículos adaptados produzidos estruturalmente pelo Estado para alunos cegos ou surdos, nomeadamente conteúdos curriculares em braille ou materiais adequados às necessidades dos alunos surdos.

O relatório do Mecanismo Nacional de Monitorização dos Direitos das Pessoas com Deficiência aborda ainda outro tipo de dificuldades incluindo no ensino superior que também aqui tenho abordado com regularidade.

 Deste quadro resulta a impossibilidade de assegurar a muitos alunos aquilo que é “apenas” um direito e não um privilégio, uma resposta educativa de acordo com as suas necessidades. Sim, eu sei que não é fácil, e também sei que existem responsáveis pelas políticas públicas de diversos sectores envolvidas nestas questões.

A verdade é que torturar a realidade não a obriga a confessar. Muitos alunos não estão incluídos nem sequer integrados, estão “entregados” com as consequências que professores, técnicos e pais bem conhecem.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

ESCOLA A TEMPO INTEIRO OU EDUCAÇÃO A TEMPO INTEIRO

 Lê-se no JN que está a aumentar o número de escolas do 1.º ciclo que estão abertas para além do horário definido pelo Ministério da Educação. Cerca de metade dos municípios nacionais já assume a resposta até ao final do dia para alunos do pré-escolar e 1.º ciclo e quase todos têm funcionários que recebem as crianças a partir das 7.30 da manhã, hora e meia antes do início das aulas.

No mesmo sentido recordo dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência divulgados em Maio deste ano relativos às Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC).

Considerando os 335 220 alunos do 1.º ciclo, 18,8%, 62858 não têm estas actividades, um aumento de 5,7% face ao ano passado. Acresce que apenas 25 das 3291 escolas não oferecem AEC o que significa a insuficiência da resposta em muitas escolas.

A percentagem de alunos sem AEC por regiões do país expressa as habituais assimetrias, no Algarve que 28,7% não têm atividades, no Alentejo, 23,3%, no Norte e Centro, 20,2% em ambos e Lisboa e Vale do Tejo, 14,8%. O desporto com 246 027 alunos, 73,7% do total, é a atividade mais frequentada, seguida pelo domínio artístico, 228 876 alunos, 68,5%.

É também relevante que 43% das escolas do 1º ciclo não têm a Componente de Apoio à Família (CAF) destina ao acolhimento de crianças que entram ou saiam mais tarde da escola, por necessidade das famílias. Esta a questão tratada na notícia do JN

A propósito retomo algumas notas em linha com o que de há muito venho a afirmar.

De acordo com o Relatório da OCDE “Education at a Glance, 2023”, os alunos portugueses entre o 1.º e o 6.º ano têm um número médio de horas lectivas um pouco mais alto que a média da UE, 874 horas obrigatórias face a 738 na média da EU.

No entanto, considerando o horário curricular, as Actividades de Enriquecimento Curricular e a Componente de Apoio à Família, a estadia dos alunos na escola pode atingir bem mais de 40 horas semanais se os pais necessitarem. Muitos alunos estão mesmo nas escolas 50h ou mais por semana.

Este cenário inscreve-se no âmbito de uma iniciativa, a “Escola a Tempo Inteiro”.

Sabemos como os estilos e modelos da vida actual, a organização do trabalho, colocam graves dificuldades às famílias para assegurarem a guarda das crianças em horários não escolares. A resposta tem sido prolongar a estadia dos miúdos nas instituições escolares alimentando o que considero um dos vários equívocos no universo da educação, a afirmação de uma visão de “Escola a Tempo Inteiro” em vez de “Educação a Tempo Inteiro”. O modelo é bem recebido por muitos pais e tolerado por muitos outros por falta de alternativas. No entanto e tal como o faço desde 2006, algumas notas a pensar, sobretudo, nos miúdos e nas respostas necessárias.

Para além da reflexão sobre o que acontece nesse tempo de permanência na escola e tal como se verifica noutros sistemas educativos, seria imperioso que se alterassem aspectos como a organização do trabalho, verificada em muitos países, que minimizassem as reais dificuldades das famílias recorrendo, por exemplo e quando possível, a teletrabalho ou à diferenciação nos horários de trabalho que em alguns sectores e profissões é possível.

É preciso um esforço enorme, equipamentos e recursos humanos suficientes e qualificados para que não se corra o risco de transformar a escola numa “overdose” pouco amigável para muitos miúdos. As dúvidas relativamente a esta questão são muitas.

É verdade que existem boas práticas neste universo, mas também todos conhecemos situações em que existe a dificuldade óbvia e esperada de encontrar recursos humanos com experiência e formação em trabalho não curricular.

Acresce que boa parte das escolas, como é natural, têm os seus espaços estruturados (e por vezes saturados) sobretudo para salas de aula. Espaços para prática de actividades desportivas ou de ar livre, expressivas, biblioteca, auditórios, etc., etc., a existirem, dificilmente poderão ser suficientes para uma ocupação da população escolar alternativa à sala de aula.

Esta questão é também relevante no que respeita à qualidade e adequação da resposta a alunos com necessidades especiais.

Este obstáculo acaba por resultar com demasiada frequência na réplica de actividades de natureza escolar com baixo ou nulo benefício e um risco a prazo de desmotivação, no mínimo.

Por outro lado, tanto quanto o tempo excessivo de estadia na escola merece reflexão o risco e as implicações da natureza muitas vezes “disciplinarizada” desse trabalho, ou seja, organizado por tempos, de forma rígida próxima do currículo escolar.

A enorme latitude de práticas que se encontra actualmente, desde o muito bom ao muito mau, sustenta que também neste aspecto os dispositivos de regulação devam ser robustos e eficientes. Recordo ainda que em muitas circunstâncias as AEC são desenvolvidas por entidades externas à escola envolvendo, por exemplo, autarquias ou associações de pais, pelo que importa assegurar a competência e responsabilidade da escola bem como a sua autonomia.

Na verdade, embora compreendendo a necessidade da resposta seria desejável que, tanto quanto possível se minimizasse o risco de em vez de tentarmos estruturar um espaço que seja educativo a tempo inteiro com qualidade, preenchido na escola ou em espaços e equipamentos da comunidade, e aqui sim, importante o envolvimento das autarquias, assistirmos à definição de uma pesada agenda de actividades que pode motivar situações de relação turbulenta e reactiva com a escola.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

ROTINAS, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE

 A partir da próxima semana iniciar-se-ão as aulas. Seria normal que tal acontecesse para todos os alunos. Lamentavelmente, muitos não terão professores que leccionem todas as disciplinas também não estranharemos que não saibamos quantos alunos estarão nestas condições. É inadmissível continuar a ouvir gente com responsabilidades neste cenário enjeitá-las sem um sobressalto. Como diria o meu pai, é gente sem espinha.

Bom, falemos então do que deveria ser normal, o regresso às aulas e o iniciar ou retomar de rotinas. Algumas notas a propósito de rotinas e comportamentos que muitas vezes abordei no trabalho com pais, educadores e professores e que aqui abordo com regularidade.

Sabemos e é preocupante que em muitos contextos familiares, as crianças cresçam com alguma dificuldade de regulação e, sobretudo, auto-regulação dos seus comportamentos. Esta situação traduz-se na forma como se comportam nos diferentes espaços nos quais passam os dias, sobretudo em casa e na escola.

Como também já tenho partilhado e em muitos diálogos com pais transparece alguma dificuldade, por várias razões, na definição de regras e limites que com bom senso e flexibilidade são imprescindíveis como organizadores do comportamento dos miúdos.

Para além disso, de há uns tempos para cá começou a registar-se em muitos pais um discurso crítico das rotinas que, naturalmente, é decorrente da forma como olham para a sua vida e das suas crenças e representações. Começaram a ouvir-se afirmações no sentido de combater a instalação de rotinas por oposição à importância da criatividade, da inovação, da não repetição sistemática de comportamentos ou procedimentos, etc.

A questão é que, do meu ponto de vista este entendimento, assenta no enorme equívoco de entender que dimensões que estes pais e, creio, a maioria de nós, considera importantes como criatividade e inovação, por exemplo, seriam incompatíveis com a instalação de rotinas, elas próprias também essenciais ao desenvolvimento e funcionamento das crianças devido, fundamentalmente, à sua função reguladora e organizativa. O resultado em muitas circunstâncias e contextos educativos, familiares ou mais formais era, é, um funcionamento desregulado, desorganizado e sem regras.

Entre os adultos o equívoco está ainda presente de forma mais nítida. Ouve-se com alguma frequência a afirmação de se ser contra as rotinas como forma de emancipação intelectual e social pelo que, “detestam rotinas”.

Para todos e em particular para os mais novos, as rotinas cumprem funções fundamentais na nossa organização e funcionamento. A sua existência organiza-nos e, curiosamente, até acontece com frequência que é sua existência que nos permite “libertar” disponibilidade para outras direcções. Como é óbvio, nada desta conversa contraria a importância que na nossa vida tem o lado do imprevisto, da mudança, da criatividade ou da quebra das rotinas. Também não tem a ver com a defesa de um funcionamento obsessivamente estruturado, que corre o sério risco de se desorganizar quando algum pormenor de rotina se altera.

Mas é preciso insistir, os mais novos precisam desde o início de ter o seu dia a dia com rotinas estabilizadas e reguladoras como sono, refeições, banho, comunicação/relação com os pais ou irmãos, tarefas de natureza escolar ou outras, etc.. Este princípio é válido em diferentes idades, incluindo adultos, devidamente adaptado

São um bem de primeira necessidade.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O MUNDO DAS PENAS

 Existem coisas tão bonitas e serenas que nos parecem leves como uma pena.

Existem vidas sobrevividas com tantas penas que dói a alma. Muitas destas vidas sobrevividas são de miúdos que carregam penas maiores do que eles e que, por isso, vivem penando.

Também existem penas que são suspensas e que nunca cairão. Muita gente sabe como evitar que elas caiam. Existem os que administram as penas e que nos merecem a desconfiança pelas penas que distribuem, ou não.

Existem as penas que fabricam um manto de aconchego e calor.

Existe a pena que compõe o sobressalto exclamativo traduzido no tão recorrente quanto inútil, "que pena" ou "é uma pena".

Até já existiram as penas que escreviam as letras do nosso encantamento.

Existem as penas carregadas pelas almas perdidas e que por perdidas e condenadas acabam penadas.

E claro, existem as penas que vestem os pássaros com formas e cores que ninguém seria capaz de imaginar.

Agora reparo, que texto mais sem jeito. É pena.