Até à próxima terça-feira iniciam-se as aulas, mas não todas as que deveriam. Vivemos uma espécie de novo normal, por negligência ou incompetência das políticas públicas, faltarão professores para algumas disciplinas o que condicionará a actividade escolar para muitos alunos.
Mas este ano, temos uma surpresa,
para além de alunos sem professor, temos alunos sem escola. Na zona da Lisboa e
Setúbal existem alunos, incluindo alunos com necessidades especiais, que não encontram vagas nas escolas da área em que
residem. Alguns pais têm a informação de “não colocado” para os seus filhos no
Portal das Matrículas e sentem-se perdidos e impotentes. Como se sabe, face ao
chamado “ímpeto reformista”, foi extinta a Direcção-Geral dos Estabelecimentos
Escolares (DGEstE) que tinha atendimento presencial. A que se lê no Público, a Agência
para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE) que substituiu a DGEstE não tem atendimento
presencial e, queixas dos pais, não responde a emails, nem a telefonemas.
Estamos perante situações
inadmissíveis que ferem um direito básico e estrutural, o direito à educação.
Muito provavelmente continuaremos no reino da irresponsabilidade.
As comunidades escolares já
mereciam que o lectivo que se iniciasse e decorresse com alguma serenidade.
Ainda não será este, o universo da educação parece estar condenado ao
sobressalto, os discursos não se centram no trabalho em sala de aula de alunos
e professores, mas noutras dimensões da “escola” cujo relevo quase faz esquecer
o que é central, aprender e ensinar num clima positivo e tranquilo.
Tanto está a ser dito, tanto
deveria ser decidido que dificilmente serei capaz de acrescentar algo que não
seja reforçar um apelo à serenidade e à competência.
Assim e pensando sobretudo pensar
nos que estão ou vão iniciar a o seu percurso na escolaridade obrigatória, umas
notas recorrentes relativas ao que se espera e deseja que aconteça nos próximos
tempos, o trabalho de professores e alunos em sala de aula, as aulas, o que
menos me parece ser objecto de reflexão.
Para a maioria das crianças e
apesar da sua experiência na educação pré-escolar, a "entrada" na
escola, ou melhor, o processo de início da escolaridade obrigatória, continua a
ser uma experiência fundamental para o lançamento de um percurso educativo e
formativo com sucesso.
Em muitíssimas circunstâncias da
nossa vida, quando alguma coisa não correu bem, é possível recomeçar e tentar
de novo esperando ser mais bem-sucedido. Todos experimentámos episódios deste
tipo.
Pois bem, o processo de início da
escolaridade envolve na verdade um conjunto de circunstâncias irreversíveis, ou
seja, quando corre mal já não é possível voltar atrás e recomeçar com a
esperança de que a situação vá correr melhor. Por isso se torna imprescindível
que o começo seja positivo. Para isso, importa que seja pensado e orientado,
que crie as rotinas, a adaptação e a confiança em miúdos e em pais
indispensáveis à aprendizagem e ao desenvolvimento bem-sucedidos.
Os tempos actuais tornam bastante
mais difícil que assim seja, mas esse é o nosso grande desafio e obrigação.
É fundamental não esquecer que
por variadas razões, os miúdos à "entrada" na escola não estão todos
nas mesmas condições, ambiente, experiências e recursos familiares, percurso
anterior, características individuais, etc. o que exige desde o início uma atenção
diferenciada que combata a cultura de que devem ser todos tratados da mesma
maneira, normalizando o diferente, que alguma opinião publicada e ignorante
defende. Muitas vezes os lugares da escola não conseguem acomodar a diversidade
dos alunos, a escola ainda não chega a todos com a mesma qualidade.
Antes de, com voluntarismo e
empenho, se tentar ensinar aos miúdos as coisas da escola é preciso, como
sempre afirmo, dar tempo, oportunidade e espaço para que os miúdos aprendam a
escola. Depois de aprenderem a escola estarão mais disponíveis para então
aprender as coisas da escola.
Vai começar o tempo do trabalho
"a sério" e muitas crianças irão rapidamente sentir-se pressionados
para a excelência, o mundo não é para gente sem sucesso. Vão ter que adquirir
competências, muitas competências, em variadíssimas áreas, porque é preciso ser
bom em tudo e é preciso preparar para o futuro, curiosamente, descuidando, por
vezes, o presente.
E vão também começar a perceber
como anda confusa a cabeça dos adultos, como estamos sem perceber o nosso
próprio presente e com dificuldade em antecipar o futuro, que será o presente
deles.
Bom ano e bom trabalho para todos
que fazem da escola os seus dias.
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