sexta-feira, 20 de maio de 2022

OS ERRANTES

 Nas escolas, em todas as escolas, existe um grupo de miúdos, sobretudo na fase da adolescência, a que podemos chamar de Errantes, não são, naturalmente, os miúdos que erram no que fazem, são aqueles miúdos que erram pela vida e pela escola numa espécie de deriva sem destino sonhado e, muito menos, com destino desejado.

Parece relativamente fácil identificar os errantes, quase sempre não têm boas notas, embora alguns, poucos, as consigam, quase sempre nos mostram o seu Errante estado com comportamentos que nos incomodam e embaraçam, de que muitos deles também não gostam, mas que fazem questão de assumir, numa tentativa, perante si próprios, de esconder a condição de Errante e de ganharem uma identidade. Existem também alguns Errantes que parecem transparentes, transparecem tristeza, mal damos por eles de tão invisíveis.

Estes Errantes estragam as estatísticas do sucesso e da qualidade, contribuem para as estatísticas dos problemas e, por isso, não são desejados, sobretudo nas escolas muito boas, que não gostam de Errantes, preferem os Destinados, ou seja, os miúdos que já no presente carregam o destino que lhes sonharam e que eles assumem, desejando ou não.

Os Errantes que agora estão na escola, tal como aconteceu com a maioria dos Errantes que já por lá andaram, serão os Errantes da vida, seja lá o que for a vida que os espera, porque eles não esperam a vida. Imaginam apenas o amanhã, que ainda assim e como se costuma dizer, já é longe demais. E esse amanhã imaginado é rigorosamente igual ao hoje vivido.

Se nos abeirarmos dos Errantes, o que nem sempre conseguimos, sabemos, podemos ou queremos, fazer talvez possamos perceber como é difícil a história dos Errantes.

Ninguém gosta de andar perdido.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

AS CAUSAS DA FALTA DE PROFESSORES. A SÉRIO?

 No contexto grave que atravessamos com a falta de docentes levando a que, nesta altura do ano lectivo ainda tenhamos alunos sem professor a algumas disciplinas, a realização do Seminário, “Faltam Professores! E Agora?”, organizado pelo Conselho Nacional de Educação suscitou múltiplas referências na imprensa.

Ainda me consigo surpreender neste universo que julgo conhecer melhor. Na abordagem ao que serão as causas ou motivos da falta de docentes e em linha com o que habitualmente se vai ouvindo e lendo, afirma-se que uma das causas será o envelhecimento e consequente aposentação de um número muito significativo de professores, outra será a baixa atractividade da profissão e encontram-se ainda referências ao abandono da profissão também por um número elevado de docentes.

Estas afirmações são produzidas por gente com responsabilidades em matéria de educação ao longo de diferentes períodos, bem como por actores de há muito presentes no mundo da educação.

A sério?!

O envelhecimento é uma causa da falta de professores? Não, o envelhecimento é um processo natural que nos toca a todos. A causa é a incompetência de decisões em matéria de políticas públicas de educação quando há muitos anos se conhecem estudos sobre a demografia dos professores e se sabia … que os anos passam e chega a idade da reforma. As causas remetem para a irresponsabilidade da narrativa dos “professores a mais”, do “convite à emigração”, da condução de políticas que inibem a óbvia necessidade de renovação de qualquer grupo profissional.

Fala-se da baixa atractividade da carreira como causa. Como? A carreira de professor deixou de ser atractiva, mais uma vez, em consequência da gestão incompetente que sucessivas equipas ministeriais fizeram desta matéria. Maria de Lourdes Rodrigues ou Nuno Crato foram bons exemplos desta incompetência com resultados desastrosos em matéria de carreira docente. Aliás, há pouco tempo Maria de Lourdes Rodrigues a propósito desta matéria afirmou despudoradamente, “Não sei como chegámos aqui assim. Não sei e não quero saber.” Mas nós sabemos as consequências na desvalorização dos professores, na definição de modelos de carreira inadequados (incluindo o estatuto salarial), de modelos de avaliação injustos e incompetentes.

É isto e o que aqui não refiro que tem tornado a profissão menos atractiva. Existem responsáveis.

A terceira nota relativa ao abandono da profissão, seja por mudança profissional, seja pela aposentação precoce com perdas, mais uma vez  esta situação é também uma consequência do que referi no ponto anterior e não uma das causa da falta de professores.

O que é que não se percebe?

quarta-feira, 18 de maio de 2022

A MIRAGEM DA RASPADINHA

 Na imprensa de hoje lê-se que o Conselho Económico e Social irá desencadear um estudo sobre a população que aposta na popular “raspadinha”. O trabalho envolve a colaboração de Pedro Morgado e Luís Aguiar-Conraria da Universidade do Minho e quatro outras entidades.

A raspadinha é um dos mais populares jogos sociais da “oferta” da Santa Casa da Misericórdia e de estudos anteriores sabe-se que perto de 80% dos jogadores pertence às classes mais desfavorecidas, D e E, 61% jogam regular ou frequentemente e 37.5% dos apostadores estão acima dos 55 anos.

Antes de mais uma nota prévia já aqui sublinhada. Neste cenário parece completamente despropositado o lançamento de uma nova “raspadinha do Património Cultural” cuja receita se destina a financiar a valorização e recuperação do património cultural. Como? O reforço do financiamento da valorização e recuperação do património é suportado pelas classes sociais mais desfavorecidas que, também por isso, são as mais susceptíveis de ser atraídas pela miragem de um ganho imediato e, aparentemente, de baixo investimento, mas na verdade com um enorme risco de adição. Aliás a percepção e estudo deste risco é um dos objectivos da investigação agora anunciada.

É de recordar um trabalho desenvolvido por Pedro Morgado (um dos responsáveis do trabalho a desenvolver) e Daniela Vilaverde da Escola de Medicina da Universidade do Minho e divulgado em 2020 na The Lancet Psychiatry que mostra como a relação de muitos apostadores portugueses com a vulgar “Raspadinha” tem vindo configurar um comportamento aditivo, indutor de sofrimento e mal-estar social e familiar. Dados de 2018 mostram que os gastos nestas apostas foram de 1594 milhões de euros, 160€ por ano em média por apostador o que é superior ao que se verifica em muitos países, 14€ por em Espanha, por exemplo.

A verdade é que para além do caso particular da Raspadinha tem aumentado de forma geral o investimento dos portugueses nos “jogos sociais” da Santa Casa e nas apostas online. De facto, o Totobola e depois o Euromilhões, o Totoloto, posteriormente a Raspadinha, fortemente apelativa pela possibilidade de retorno imediato e grande acessibilidade, e mais recentemente as apostas online estabeleceram-se firmemente na vida de muitos de nós e criaram mesmo uma imagem criadora de futuro que nos move. Provavelmente e para muitas pessoas, será a única imagem criadora de futuro.

Importa reconhecer que as imagens criadoras de futuro são imprescindíveis, tanto mais quando atravessamos tempos duros em que a esperança também tem sido revista em baixa e dificilmente vislumbramos a recuperação.

Creio que esta perspectiva é parte importante desta equação e apesar de sabermos que a decisão de apostar é sempre de natureza individual, o contexto em que muita gente vive, os estilos de vida e quadro de valores são variáveis que também devem ser consideradas.

Por outro lado e em termos culturais, também encontramos algumas pistas para entendimento. Julgo poder afirmar-se que em muitos lares portugueses e em muitas conversas e talvez mais do que nunca, uma das frases mais ouvidas é “nunca mais me sai o Euromilhões, (ou a raspadinha) para deixar de trabalhar”. Muito provavelmente, cada um de nós já ouviu, pensou ou disse esta expressão alguma vez ou vezes e que não será usada apenas pelos cidadãos com maiores dificuldades.

Acho curiosa a sua utilização. Entendo, naturalmente, a ideia subjacente à primeira parte. Um prémio de valor substantivo representaria, seguramente, a hipótese de acesso a um patamar superior de bem-estar económico, desejado, naturalmente, por toda a gente. O que de facto me parece mais interessante é o complemento “para deixar de trabalhar”. É certo que nem todas as expressões devem ser entendidas no seu valor “facial”, mas é também verdade que a recorrente afirmação deste desejo acaba por ilustrar a relação que muitos de nós estabelecemos com o lado profissional da nossa vida, isto é, “quero livrar-me dele o mais depressa possível”. Não será grave, mas é um indicador que possibilita várias leituras.

Neste contexto e cultura sabem qual é a minha inquietação para além dos riscos associados a comportamentos aditivos? É se os miúdos, considerando a agitação que vai pelo seu mundo “laboral” e os discursos dos adultos, desatam a pedir, se puderem, um aumento de mesada que lhes permita apostar no Euromilhões para … deixar de ir à escola.

Já estivemos mais longe. Talvez, também por questões desta natureza, a abordagem deste tipo de questões nos contextos educativos num quadro desenvolvimento e cidadania faça sentido sem que daqui resulte, evidentemente, mais uma disciplina ou mais um projecto.

terça-feira, 17 de maio de 2022

DIVERSIDADE E INCLUSÃO

 No Público encontra-se uma peça que divulga um trabalho da Universidade do Porto sobre a situação de adolescentes e jovens entre os 14 e os 19 anos que fazem parte de minorias sexuais e de género (LGBTQ).

Os dados conhecidos são elucidativos do caminho que está por fazer no âmbito da inclusão e na protecção dos direitos e bem-estar de todas as pessoas.

Estes adolescentes e jovens são bastante mais vitimizados em situações de bullying que os seus colegas da mesma idade, quatro em cada cinco alunos nesta situação não o revelam a professores ou funcionários da escola. Na relação com os colegas e amigos parece haver um pouco mais abertura, 37% dos jovens afirmou que tinha dito a toda a turma ou à maior parte, mas apenas 13% admite ter assumido que era LGBTQ a colegas de outras maior parte ou a todos os estudantes de outras turmas. Relativamente aos amigos, 43,8% dos adolescentes e jovens LGBTQ afirmaram que todos sabiam, mas 27,4% contou a apenas alguns ou a nenhum amigo.

Estes indicadores evidenciam uma “experiência de invisibilidade” na escola e na família referida por Jorge Gato, um dos autores do estudo.

Estes indicadores não surpreendem e tornam necessário reafirmar mais uma vez que os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como lidam com os grupos mais vulneráveis e com as suas problemáticas. Este entendimento é tanto mais importante quanto mais difíceis são os contextos em que se vivem e os tempos actuais parecem bem duros.

É também por razões desta natureza que entendo que "Educação para a Cidadania" deve obrigatoriamente integrar o trabalho desenvolvido na educação em contexto escolar. Aliás, de acordo com o estudo referido, três em cada cinco alunos referem nunca ter sido tratados em contexto escolar matérias relativas à aceitação de minorias sexuais e de género.

Precisamos e devemos discutir como fazer a abordagem destas questões sempre considerando a autonomia das escolas. Não acredito na imprescindibilidade de disciplinarização destes conteúdos, julgo mais interessantes iniciativas integradas, simplificadas e desburocratizadas em matéria de organização e operacionalização.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A HISTÓRIA DO ACOSTUMADO

 Era uma vez um rapaz chamado Acostumado, um nome deveras estranho. Como provavelmente acontece a todas as pessoas com um nome estranho foi ficando Acostumado desde que lhe puseram esse nome. Tinha uns catorze anos e nada na sua vida o tinha surpreendido, era um Acostumado.

Sentia-se um bocado só, não falava muito e lá em casa pouca atenção lhe davam. O pouco tempo que aos pais sobrava da lida de fora, era quase todo utilizado com a irmã pequena. Ele já era um Acostumado.

Nunca teve notas que o fizessem sobressair. De vez em quando pensava que gostava de ter, assim um Bom num trabalho, ou um 90% num teste, mas nunca conseguiu. Tinha pena, mas estava Acostumado.

Não tinha muitos amigos. Aliás, podia mesmo dizer-se que não tinha amigos. Às vezes, olhava para os colegas que jogavam e estavam em grupos, tentava chegar perto, mas como não tinha muito jeito e os outros também não o chamavam, acabava por ficar de lado. Aborrecido, mas Acostumado como sempre.

Um dia, o Acostumado estava num canto a olhar para os colegas, aproximou-se a Filipa que ele conhecia do 8º B e veio falar com ele. Ficou embaraçado e sem saber muito bem o que dizer. Mais estranho achou o facto de a Filipa começar a vir ter com ele todos os dias e a todos os intervalos. Num deles, deu-lhe a mão e disse-lhe baixinho ao ouvido "Gosto mesmo de ti".

Pela primeira vez sentiu que não estava Acostumado e gostou, gostou mesmo. Nunca alguém lhe tinha dito tal coisa.

domingo, 15 de maio de 2022

OS EFEITOS TERAPÊUTICOS

 De há uns anos para cá têm surgido referências ao bem-estar, ao efeito terapêutico, até quase ao nível do milagre, que muitíssimas fontes nos podem proporcionar e aos mais variados níveis. Muitas vezes estas referências são sustentadas por uma afirmada base científica.

Multiplicam-se as chamadas de atenção para múltiplas actividades de natureza mais ou menos sofisticada ou com proveniência mais ou menos exótica que fazem bem a tudo e mais alguma coisa. 

Descobrem-se e publicitam-se as inúmeras propriedades terapêuticas ou, mais simplesmente, promotoras de bem-estar de mil e uma plantas ou produtos mais ou menos sofisticados e com as mais diversas origens.

Apregoam-se a os efeitos extraordinários de aromas e objectos.

Todos os dias conhecemos novas propostas à nossa disposição em requintados espaços que criam um menu infindável de cuidados com lamas e águas e uma combinação inesgotável de soluções que nos transformam noutros seres.

Dizem-nos que os animais têm uma enorme capacidade de nos fazer sentir melhor em múltiplos aspectos e a escola é variada.

Uma primeira nota que ao ir constatando tamanha oferta sempre me ocorre e me faz pensar, é sobre o que temos vindo a fazer dos nossos estilos de vida que nos tornou permeáveis e instalou em nós a necessidade de nos envolvermos e nos convencermos de que tudo isto, no todo ou em parte, é A solução, seja para o que for. Importa que, para além de eventuais efeitos terapêuticos, se considere o efeito placebo e o peso do marketing.

Uma outra nota que me parece importante, independentemente do recurso a tal oferta, é não esquecer o papel das pessoas no nosso bem-estar. Tendemos a viver cada vez mais isolados ainda que escondidos na imensidade das redes sociais com inúmeros amigos. Parece importante não esquecer que o essencial do nosso bem-estar advém das relações com os outros, gostar e ser gostado, respeitar e ser respeitado, ser conhecido e reconhecido, conhecer e reconhecer, ajudar e ser ajudado, falar e escutar, estar atento e receber atenção, manter a dignidade e proteger a dignidade dos outros, etc.

O resto, desculpem lá, em boa parte tratar-se-á de ocupação de tempos livres, com melhor ou pior qualidade.

sábado, 14 de maio de 2022

OS DESATINOS DOS MIÚDOS

 Há poucos dias, numa conversa com gente da educação, profissionais e amadores, ou seja, educadores e pais, dizia-se que os miúdos andam muito “indisciplinados”, logo no jardim-de-infância, acrescentavam preocupados com os desatinos dos miúdos.

Não tenho nenhuma convicção em que os miúdos estejam a vir com mais dificuldades de origem do que é habitual. Além de que não se podem trocar, uma vez que são fornecidos sem garantia e também sem manual de instruções. Pode acontecer, naturalmente, que o “desatino” venha de dentro deles, mas talvez não tenham nascido com ele. Talvez para os perceber a eles tenhamos que olhar para nós.

Pode ser que eles gritem tanto e em qualquer circunstância porque nós estamos a ficar mais surdos, ou seja, ouvimo-los pouco, falamos para eles, mas não os ouvimos. Pode até acontecer que eles aprendam também a ficar surdos e depois também já não nos ouvem.

Pode ser que eles pareçam não aceitar regras e se comportem de forma desregulada porque nós, pelas mais variadas razões, começámos, de mansinho, a ter medo de dizer Não. Eles aprenderam que tudo, ou quase tudo, pode ser sim e mesmo que digamos não, com uma birrazinha bem feita, esse não transforma-se em sim, é uma questão de tempo.

Pode ser que os miúdos façam asneiras grossas porque nós nem reparámos muito bem quando eles começaram a fazer asneiras pequenas e agora já estamos tão aflitos que nem sabemos o que fazer.

Pode ser que muitos miúdos tenham coisas e actividades de mais e atenção de menos, servindo-se então do que fazem e como fazem, para solicitar a atenção que é um bem de primeira necessidade e não substituível por “montes” de coisas e actividades “fantásticas”.

Pode até acontecer que os desatinos dos miúdos façam parte do kit de sobrevivência com que todos nascemos, e que os faz emitir sinais alertando para que alguma coisa não vai bem.

Finalmente, talvez esta conversa seja ela própria um desatino. A gente aprende com os miúdos o que eles aprendem connosco.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

IDEOLOGIA E EDUCAÇÃO

 Umas notas repescadas que uma discussão recente me parece tornar oportunas.

Acho sempre curiosas as discussões em torno das “questões ideológicas” designadamente no universo da educação. Tenho para mim que não existem políticas públicas de educação, ou de outra área, que sejam neutras, assépticas, imunes, etc. em matéria de valores sociais ou ideologia, seja tudo isto o que for.

Ao defender, por exemplo, princípios de educação inclusiva, já me tem acontecido ser “acusado” de produzir um discurso ideológico. Muito provavelmente os meus interlocutores esperariam que me procurasse “defender” através da evidência científica. No entanto, a minha resposta começa habitualmente com algo como, “ainda bem que fui claro, o meu discurso corresponde a uma visão de sociedade e, de educação e de escola. Agora vamos à evidência científica que a sustenta". Provavelmente, nas mais das vezes, ficamos na mesma, cada qual com a sua visão ideológica, pois claro.

Acontece ainda que, com frequência se confunde ideologia com partidarismo. Como já afirmei, tenho uma visão ideológica o mundo que me rodeia, mas não consigo encaixar-me numa visão partidária o que, naturalmente, será uma limitação da minha parte.

A verdade é que já cansa a forma habilidosa como muitas questões são abordadas em função da “ideologia”.

Boa parte das pessoas que contestam o que afirmam constituir uma visão ideológica entende que o que defendem não tem carga ideológica, é asséptico, sendo que as ideias contrárias, essas sim, são sustentadas pela ideologia e devem ser combatidas.

Tantas e tantas vezes tropeço com este entendimento. Tantos interlocutores me dizem com a maior tranquilidade que quando os estudos ou a experiência não vão ao encontro das suas ideias, certas e pragmáticas, os estudos são mal feios e contaminados pela ideologia ou que a experiência não serve de argumento. Quando discordo, o meu discurso é ideológico e o do interlocutor é correcto, asséptico do ponto de vista ideológico, obviamente, suportado com a evidência científica que ao meu é negado porque os estudos … são ideológicos. Sim, como disse, o que penso tem uma carga ideológica, é assim que entendo o mundo.

Na verdade, não acredito em visões de sociedade sem arquitectura ideológica. Isso não existe, só por desonestidade intelectual se pode afirmar tal.

Como disse e reafirmo, há décadas que não tenho qualquer espécie de filiação partidária, não me orgulho nem me queixo, é assim que penso. No entanto, tenho posições que são de natureza ideológica sobre o que me rodeia e o que respeita à vida da gente.

Não as entendo como únicas, imutáveis ou exclusivas, aliás, gosto mais de discutir e aprender com alguém que também assim se posiciona, sem manha, sem a falsidade do “não tenho ideologia” como se isso fosse uma fonte de autoridade.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

DO ABANDONO ESCOLAR

 O INE divulgou os dados relativos ao abandono escolar precoce no primeiro trimestre deste ano que se situou em 5,1%, a mais baixa taxa de sempre. Trata-se de um indicador estatístico do Eurostat, que é usado por todos os países europeus para medir a percentagem de jovens entre os 18 anos e os 24 anos que chegam ao mercado de trabalho sem o ensino secundário completo e que não estão a frequentar um programa de formação. Continua, pois a verificar-se tendência de descida que está abaixo da média europeia, 10%. Algumas notas e alguma prudência.

Recordo que no final de 2021 a Direcção-Geral de Estatística da Educação divulgou que estava a desenvolver uma ferramenta com o objectivo de avaliar e construir uma informação mais robusta sobre o abandono escolar. Em linha com o que já e feito noutros países pretende-se construir informação que permita o acompanhamento próximo do aluno e das escolas, identificando perfis de risco ou preditores de abandono que possibilitarão o desenvolvimento de intervenções oportunas prevenido e combatendo o abandono escolar. Já agora é de desejar que o dispositivo a estruturar não seja mais um contributo para a burocracia platafórmica. Se assim for não ficará do lado da solução, mas do problema.

No mesmo sentido, importa ainda recuperar que em 2020 o Tribunal de Contas divulgou um relatório defendendo que no sistema educativo nacional não existem indicadores ajustados para medir o abandono escolar, o que não permite conhecer "os reais números do Abandono em Portugal, frustrando quer a implementação eficiente das medidas preventivas e de recuperação dos alunos em Abandono ou em risco de Abandono, quer o direcionamento adequado do financiamento".

Relativamente aos dados agora conhecidos, uma primeira nota para realçar o trabalho de alunos, professores, escolas e famílias.

Para além dos efeitos do prolongamento para 12 anos da escolaridade obrigatória nos resultados dos últimos anos, o ME tem vindo associar esta evolução ao sucesso de programas como as escolas TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária), ao Programa de Promoção do Sucesso Escolar, ao Apoio Tutorial Específico, à aposta no Ensino Profissional, e Autonomia e Flexibilidade Curricular e, obviamente, à revolução na educação inclusiva.

A segunda nota para relembrar que apesar do abaixamento do abandono escolar precoce, o caderno de encargos que ainda continuamos a ter pela frente é pesado, pois sendo importante que os alunos não abandonem ainda precisamos de assegurar que a sua continuidade tenha sucesso. Os dados conhecidos de escolas e agrupamentos para construção dos rankings evidencia isso mesmo. Aliás, à semelhança do que tem sido o caminho da designada educação inclusiva, não basta que tenhamos os alunos com necessidades especiais “entregados” nas escolas regulares para que possamos falar de educação inclusiva.

Temos indicadores que mostram que muitos alunos, estando “ligados” à máquina educativa, ainda lutam, por razões diversas, por uma trajectória bem-sucedida e importa que cumprir a escolaridade signifique mesmo carreiras escolares promotoras de competências e capacidades.

Só assim se promove a construção de projectos de vida viáveis, que proporcionem realização pessoal e base do desenvolvimento das comunidades.

Neste caminho é fundamental que a qualidade dos processos educativos e que a existência de dispositivos de apoio competentes e suficientes às dificuldades de alunos e professores na generalidade das comunidades educativas seja uma opção clara pois é uma ferramenta imprescindível à minimização do insucesso.

Por outro lado, importa não perder de vista a população que abandona e que está em alto risco de que tal aconteça. Neste sentido é fundamental que a oferta de trajectos diferenciados de formação e qualificação ou iniciativas em desenvolvimento como o programa Qualifica, sucessor do Novas Oportunidades, ou os anunciados no âmbito do ensino superior tenha os meios necessários e se resista à tentação do trabalho para a “estatística”, confundindo certificar com qualificar.

Apesar dos indicadores de progresso é necessário insistir, merecemos e precisamos de mais e melhor sucesso e qualificação e menos abandono e exclusão.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

TAL PAI, TAL FILHO

 O Banco de Portugal divulgou no seu Boletim Económico um trabalho sobre a relação entre o trajecto escolar dos filhos e o estatuto económico e nível de escolarização dos pais. O trabalho foi realizado com dados do Instituto nacional de Estatística de 2019 e do “EU Statistics on Income and Living Conditions”, do Eurostat, de 2021.

Apesar do aumento significativo do nível de escolarização nos últimos anos os indicadores mostram que apenas cerca de 10% dos filhos de famílias pobres e com pais com escolaridade até ao 9º chegam ao ensino superior. O conjunto dos dados apurados sustenta a forte associação entre estatuto económico e escolarização das famílias e o percurso escolar dos filhos. Nada de novo, desde que se realizam este tipo de estudos esta relação é evidenciada.

Também sabemos que isto é tanto mais evidente quanto maiores são os níveis de desigualdade nas comunidades. Em Portugal verifica-se ainda um dos maiores fossos entre ricos e pobres da União Europeia pelo que a relação entre os níveis escolar e salarial dos pais e os dos filhos é ainda mais forte. O trabalho agora apresentado vem, mais uma vez, confirmar a realidade que conhecemos, a enorme dificuldade da escola de promover mobilidade social, ou seja, o nível de escolaridade dos pais marca de forma excessiva o nível atingido pelos filhos. Apesar de alguma evolução, a situação sempre assim foi, ainda me lembro de quando era pequeno, haver quem se admirasse dos meus pais, um serralheiro e uma costureira, terem decidido que eu continuaria a estudar após a escolaridade obrigatória, na época a 4ª classe.

Acresce que as circunstâncias conjunturais e estruturais das políticas educativas, apesar de alguma recuperação não garantem equidade nas oportunidades, dificilmente sustentam que a educação e a qualificação também com equidade.

Deste quadro, resulta uma complexa situação que poderemos de forma simplista colocar nestes termos, a escola ao acabar por reproduzir a desigualdade social à entrada, compromete o papel fundamental que lhe cabe na promoção da mobilidade social, ou seja, a escola que deveria ser parte da solução, na prática, corre o risco de continuar a ser parte do problema. No entanto e apesar disto, creio que muito poderá e deverá ser feito no sentido da promoção efectiva da chamada e distante equidade e igualdade de oportunidades. No entanto, não teremos alternativa, é a escola pode e deve, de facto, fazer a diferença.

Assim, mais uma vez, a questão central será a qualidade na escola pública. Esta qualidade deverá assentar em três eixos fundamentais, a qualidade considerando resultados, processos, autonomia e gestão optimizada de recursos, segundo eixo, qualidade para todos, a melhor forma de combater os mecanismos de exclusão e a desigualdade de entrada e, terceiro eixo, diferenciação de metodologias, diferenciação progressiva e não prematura dos percursos de educação e formação.

No actual cenário, quando se entende e espera que a educação e qualificação possam ter um papel decisivo na minimização de assimetrias, as políticas, os custos e a dificuldade de acesso podem, pelo contrário, alimentar essas assimetrias e manter a narrativa, "tal pai, tal filho", pai (mãe) letrado, filho letrado e pai (mãe) pouco letrado, filho pouco letrado.

Assim sendo, são necessárias políticas públicas para o médio prazo, estabelecidas com base no interesse de todos, com definição clara de metas, recursos, processos e avaliação. Apesar de algumas melhorias que se registam, a continuidade de alguns aspectos levará a que daqui a algum tempo um novo estudo de dentro ou de fora venha dizer ... provavelmente o mesmo.

terça-feira, 10 de maio de 2022

DA ONDA DE CAPACITAÇÃO

 Peço desculpa pela insistência. Continuo a dar conta da frequência com que recorremos à mudança de terminologia como instrumento de mudança acreditando que esta ocorre apenas porque a designação se altera.

Parece também ser verdade que cada novo termo é divulgado para ser, só por si, uma inovação e não existe área que em não se afirme a narrativa da inovação. Também é certo que os conhecedores de estratégias de comunicação, também conhecidas por marketing, sabem que alterando a designação de um “produto” pode impulsionar-se uma nova “vida” para esse produto.

Vem esta introdução a propósito da onda de “capacitação” que nos está a atingir, o mantra passou a ser capacitar. Em múltiplas iniciativas, institucionais ou privadas, há que capacitar tudo o que mexe, pois, aparentemente, mexe mal. Sem estranheza, nesta onda  navegam inúmeros surfistas que espalham a boa nova, em qualquer lugar e para qualquer bolsa

Vai daí, e só para me situar no universo que melhor conheço, a educação, desatamos a capacitar em todas as direcções.

Há algum tempo promovia-se formação de professores, uma das áreas em me tenho movido, mas, certamente devido aos maus caminhos seguidos, mea culpa, agora promove-se capacitação de professores em áreas sem fim e todas certamente da maior necessidade e pertinência.

Umas das áreas em alta na onda de capacitação é a área das “emoções”. Ao que parece e sem que nos déssemos conta durante décadas, as escolas são também geladas emocionalmente, a generalidade dos professores não sabe lidar com emoções, tal como alunos, os técnicos que estão nas escolas incluindo os funcionários. Dito da maneira actual, não estão capacitados.

Percebe-se, assim, que nos últimos tempos se tenha desencadeado uma onda de promoção, perdão, capacitação, nas escolas com a mobilização de imensos projectos e iniciativas de escala variável visando o desenvolvimento da inteligência emocional, da empatia, da Social-Emotional Learning (SEL) e outras designações. 

É obviamente importante registar o esforço no âmbito da formação, aliás, capacitação, dos profissionais da educação, mas, certamente por incompetência ou desconhecimento vou sentindo algumas reservas face a esta onda, que pela visão mágica com que parece ser informada, quer pela regular apresentação de um receituário ou programa que garante que se vai aprender a fazer o que nunca foi feito nas escolas, “lidar com as emoções” por exemplo, independentemente da formulação. Dito isto, sublinho que em muitas circunstâncias nos confrontamos com dificuldades neste domínio.

Estávamos habituados a dar aulas, a ensinar, a leccionar, mas agora capacitamos os alunos, ah, e já agora também é preciso capacitar os pais.

Aproveitando o “tsunami” de capacitação, também será importante capacitar as lideranças das escolas e todos os técnicos que nelas trabalham e, evidentemente, tal como os professores, promover essa capacitação em múltiplas áreas.

Sendo optimista, em pouco tempo teremos um sistema educativo totalmente capacitado

Só ficará mesmo a faltar, acho eu, a capacitação na promoção de diferentes dimensões das políticas públicas de educação.

Bom, agora vou voltar para um trabalho de auto-capacitação que estava a realizar, ler uns artigos sobre trabalhos recentes na minha área.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

DA EVIDÊNCIA

 De há uns tempos para cá instalou-se de forma mais generalizada o recurso a “Segundo um estudo …”, “De acordo com um estudo …”, “Foi divulgado um estudo que …” ou a outras variações do mesmo tema, para afirmar e sustentar ideias ou opiniões. A educação não escapa a este tipo de funcionamento.

Neste espaço faço-o com alguma frequência, também.

Mais recentemente, importa ir actualizando, deixámos de referir os estudos e passamos a usar a “evidência”, ou seja, “Segundo a evidência ...”, “De acordo com a evidência …”, “A evidência mostra …, etc.

O que me parece curioso é que se mantém a tentação de com alguma frequência se construir, interpretar e divulgar os estudos para mostrar … a evidência desejada.

Na educação, também.

domingo, 8 de maio de 2022

A HISTÓRIA DO JAIME

 Era uma vez um rapaz chamado Jaime que não gostava muito de si.

O Jaime olhava para os seus colegas e pensava que nunca seria tão bom nem tão conhecido na escola pelas notas altas como a Joana, uma excelente aluna.

O Jaime olhava para os seus colegas e pensava que nunca seria tão bom jogador de futebol e até de basquetebol como o Mário que era o melhor da escola a praticar desporto.

O Jaime olhava para os seus colegas e pensava que nunca seria tão bom a tocar guitarra como o Fábio que até estava a pensar ter uma banda quando ficasse mais velho.

O Jaime olhava para os seus colegas e pensava que nunca as raparigas gostariam tanto de si como do João.

Quanto mais olhava para os seus colegas mais pensava que não gostava de si, não era bom a fazer nada.

O Jaime ia andando com estes pensamentos na cabeça e de mansinho começou a tentar resolver estas inquietações. Quase sem se dar conta algumas coisas foram mudando, e muito, achavam as pessoas.

Um dia, ao olhar para os seus colegas pensava que nenhum deles se portava pior nas aulas do que ele, era mesmo bom nisso.

O Jaime, ao olhar para os seus colegas, pensava que nenhum deles aborrecia tanto os professores como ele, era mesmo bom nisso.

O Jaime, ao olhar para os seus colegas, pensava que nenhum era tantas vezes chamado ao director da escola como ele, era mesmo bom nisso.

O Jaime, ao olhar para os seus colegas, pensava que nenhum deles tinha tantas faltas, de atraso, de material, de indisciplina, como ele, era mesmo bom nisso.

Assim, finalmente, o Jaime pensou, "Já sou bom, um dos melhores".

E continuou infeliz, como sempre foi.

sábado, 7 de maio de 2022

E SE SIMPLIFICAR FOSSE UMA ORIENTAÇÃO

 No Público encontra-se um trabalho sobre o relatório da primeira monitorização feita pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência ao Plano de Recuperação das Aprendizagens 21/23 Escola+.

A leitura da peça, ainda não tive oportunidade de ler o relatório, deixou-me alguma perplexidade. É impressionante a multiplicidade de processos, situações, medidas, iniciativas, designações, acções, actividades, em que se enredam os processos educativos escolares.

A esta dimensão do trabalho das escolas e agrupamentos cresce a gama sem fim de, Planos, Projectos, Programas, Iniciativas, as combinações são múltiplas, destinados a tudo e mais alguma coisa, certamente relevantes e, sobretudo, inovadores.

Já por aqui tenho sugerido, desejado, que alguma vez e de forma bem vincada, o ME estabeleça a simplificação como orientação central nas diferenres dimensões das políticas públicas de educação.

Seria desejável e necessário que o trabalho a desenvolver, os conteúdos envolvidos, os dispositivos em utilização, a organização de tempos e rotinas, etc., tivessem como preocupação a simplificação, professores alunos e famílias ganhariam. Esta simplificação deve incluir a avaliação e registos. Seria positivo que, tanto quanto possível, se aliviasse a pressão “grelhadora” e a burocracia asfixiante a que habitualmente escolas e professores estão sujeitos

Como é evidente, este apelo à simplificação não tem a ver com menos rigor, qualidade, intencionalidade educativa ou não proporcionar tempo de efectiva aprendizagem para todos. Antes pelo contrário, se conseguirmos simplificar processos e recursos, alunos, professores e famílias beneficiarão mais do esforço enorme que todos têm que realizar e estão a realizar.

Sempre que falo desta questão recordo-me do Mestre João dos Santos, a quem tarda uma homenagem com significado nacional, quando dizia, cito de memória pelo privilégio de ainda o ter conhecido e ouvido, que em educação o difícil é trabalhar de forma simples, é mais fácil complicar, mas, obviamente, menos eficaz, menos produtivo e muito mais desgastante.

Talvez valesse a pena tentarmos esta via de mais simplificação. As circunstâncias já são suficientemente complicadas.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

DOS PROFESSORES

 Foram divulgadas as listas para os concursos externos dos quadros de professores que se realizam no meio da anunciada tempestade da falta de docentes. Para 3259 vagas contabilizam-se cerca de 55 000 candidaturas sendo que existem dezenas de professores contratados com mais de 62 anos que ainda concorrem a um lugar de quadro. Este é um dos indicadores que traduzem as políticas que sucessivas equipas ministeriais desenvolveram  e que têm contribuído para a crítica falta de professores. A tão "vendida" narrativa dos professores a mais traduz-se nos resultados que estão à vista.

Verifica-se o abaixamento do número de inscrições nos cursos que habilitam para o ensino, os níveis de (in)satisfação com a carreira, de stresse, de desmotivação, de arrependimento pela escolha da profissão, etc.

Acresce o também muito conhecido envelhecimento da classe que justificará o agravamento a curto prazo da já significativa falta de professores com a entrada na reforma de alguns milhares e insuficiência dos inscritos nos cursos de formação para a sua substituição.

A questão, é preciso insistir, é que nada disto é novo. Sucessivos estudos nacionais e internacionais têm de há vários anos referido estas matérias e a mudança mais substantiva é o agravamento da situação com o passar do tempo. Curiosamente registam-se demasiadas intervenções sobre eventuais soluções de muitos actores com responsabilidade na situação actual.

Como já referi, são conhecidos os problemas e sabemos que não é responder de forma imediata à falta actual e futura de professores, teria sido mais fácil não negar a realidade e tomar decisões proactivas.

Em todo o caso, também sabemos que continua a ser necessário, entre outros aspectos, proceder à integração de milhares de professores contratados e já com anos de experiência, a necessidade de adequar a carreira e os requisitos de entrada na carreira, o modelo de progressão e avaliação, o ajustamento e valorização do estatuto salarial dos docentes, a promoção da sua valorização profissional e social ou a desburocratização do trabalho dos professores.

Finalmente, importa sublinhar que também sabemos que os sistemas educativos com melhor desempenho são também os sistemas em que os professores são mais valorizados, reconhecidos e apoiados.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA

 Hoje assinala-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. É falada por cerca de 260 milhões e parece ter um significativo potencial de crescimento, será utilizada por 400 milhões de pessoas em 2050.

Lamentavelmente, esta comemoração decorre em pleno período da transformação do Português em “acordês”.

Será porventura uma tarefa sem sucesso, mas enquanto for possível reverter a situação criada pelo AO90, ou, pelo menos, atenuar danos, vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. É uma questão de cidadania, de defesa da Cultura e da Língua Portuguesa.

É importante recordar que apenas Portugal, S. Tomé e Príncipe, Brasil e Cabo Verde procederam à ratificação. Em 2018 a Academia Angolana de Letras solicitou ao Governo angolano que o Acordo Ortográfico de 1990 não seja ratificado e há algum tempo a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados do Parlamento do Brasil aprovou um requerimento de audiência pública para que seja debatida a revogação do AO ao que parece por indicação do Presidente Bolsonaro o que será porventura umas raríssimas ideias positivas vindas da sinistra figura. Não conheço desenvolvimentos relativa a esta situação.

Como tantas vezes tenho escrito, desculpem a insistência e não inovar, entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma. O argumento da uniformização é disparatado, basta atentar no exemplo do inglês e do castelhano ou da mixórdia resultante no português escrito e falado nos diferentes países da comunidade.

O resultado foi transformar a Língua Portuguesa numa confusão impossível de concertar dadas as diferenças entre o Português falado e escrito pelos diferentes países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Era importante que fossem revertidos alguns dos maus-tratos dados à Língua Portuguesa com o AO90.

Enquanto o corrector me permitir e eu conseguir tentarei evitar o “acordês”, birra de velho, evidentemente.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

UMA FIGURA IMPORTANTE

 Naquela família era a figura mais importante, desde há muitos anos. Talvez fosse do hábito ou da idade, mas todas as pessoas da casa a respeitavam e tratavam de forma simpática.

Sempre que falava e fazia-o o tempo todo, as pessoas guardavam um silêncio respeitoso e ficavam muito tempo a admirar aquela figura.

Davam-lhe uma importância enorme. Acreditavam em tudo o que a figura afirmava e o que sabiam aprendiam com ela que, aliás, ensinava imensas coisas e sobre as mais variadas matérias.

Os mais pequenos da família eram completamente absorvidos pela figura, adoravam-na, ficavam horas a ouvi-la, às vezes até adormeciam.

Os mais velhos também não dispensavam porque aquela figura era tão preocupada que tinha algumas conversas mais adequadas à sua idade.

Enfim, quase se podia dizer que a vida da família se organizava em torno daquela figura.

Digo quase, por que uma das pessoas da casa, o Miguel, rapaz de uns catorze anos, não podia com aquela figura. Precisava de alguma atenção e ninguém parecia disponível para conversar com ele. Assim, fechava-se no quarto e só lhe dava vontade de se ver livre daquela figura, de dar cabo dela, daquele ecrã que enchia a casa.

terça-feira, 3 de maio de 2022

UMA BOA NOTÍCIA, MAS ...

 De acordo com dados da Direcção-Geral de Estatísticas do Ensino Superior e da Ciência ontem divulgados, neste ano lectivo estão matriculados no ensino superior 416 652, o efectivo mais elevado de sempre. Este indicador associa-se a um aumento de 20% do total de aluno no superior nos últimos seis anos.

Trata-se de uma boa notícia, a qualificação é um bem de primeira necessidade no nosso país. Contra o que muitas vezes se ouve, não somos um país de doutores. Não temos qualificação a mais, temos desenvolvimento a menos.

No entanto, temos um ensino superior caro, com custos elevados para as famílias. O desafio que agora se coloca, sobretudo em tempos tão exigentes e no meio de um período de aumento do custo de vida, é evitar o abandono dos jovens que agora começam a carreira no superior, assim como, dos que já o frequentam.

No ano lectivo anterior candidataram-se a bolsa mais de 100 000 estudantes, o mais elevado de sempre. É verdade que também se tinha verificado um aumento do número de alunos, verificaram-se alterações no regulamento de atribuição de bolsas, mas também se sabe da perda de rendimento de muitas famílias em consequência do impacto económico e social da pandemia.

Algumas notas que já aqui tenho colocado começando por alguns dados.

De acordo com Relatório do CNE, "Estado da Educação 2019", a percentagem de alunos que em Portugal acede a bolsas de estudo para o 1º ciclo está no segundo escalão mais baixo da análise, entre 10 e 24,9%. Para comparação, Irlanda, Países Baixos estão no intervalo entre 25% e 49,9% e a Suécia no superior a 75%. Países como Espanha, França, Reino Unido e muitos outros têm percentagens de alunos com apoio superiores a nós e, sem estranheza, também maior nível de qualificação.

Em 2018 foi divulgado um estudo já aqui citado, “O Custo dos Estudantes no Ensino Superior Português” da responsabilidade do Instituto de Educação da U. de Lisboa, relativo ao ano lectivo de 2015/2016 mostrando que cada estudante universitário gastou em média 6445€ em despesas como propinas, material escolar, alojamento ou alimentação. Os alunos de instituições universitárias privadas têm uma despesa perto dos 10000€ e nos politécnicos privados o custo será de 8296€. De facto, sendo a qualificação superior um bem de primeira necessidade para os cidadãos e para o país, é um bem muito caro, demasiado caro para muitas famílias e indivíduos.

Também dados de um trabalho conhecido em 2018 realizado pelo Projecto Eurostudent “Social and Economic Conditions of Student Life in Europe” mostra um extenso quadro das condições de frequência do ensino superior em muitos países da Europa com base em dados de 2016 a 2018.

Da imensidade de dados disponíveis releva que Portugal é o quarto país em que as famílias assumem maior fatia dos gastos com a frequência do ensino superior. Verifica-se ainda uma forte associação entre a frequência do ensino superior e nível de escolarização e estatuto económico das famílias.

São conhecidas as dificuldades de promoção de mobilidade social que o sistema educativo português, e não só, atravessa registando ainda níveis baixos de qualificação e perto de 160 000 jovens que não estudam nem trabalham.

Recordo que também em 2014 um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos, mas não tem meios para os pagar. Espero que a actual realidade seja mais positiva apesar das dificuldades.

De acordo com o Relatório da OCDE, “Education at a Glance 2015”, os custos da frequência de ensino superior em Portugal suportados pelo universo privado, sobretudo as famílias, era o mais alto da União Europeia, 45.7%.

Segundo o relatório "Sistemas Nacionais de Propinas e Sistemas de Apoio no Ensino Superior 2015-16", da rede Eurydice da União Europeia apenas Portugal e a Holanda cobram propinas a todos os alunos do ensino superior, sendo também Portugal um dos países com valores de propina mais altos, mas como a vimos a percentagem de alunos dos Países Baixos com bolsa é superior à nossa.

Acresce que as dificuldades sentidas por muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado com valores mais altos de propinas, são, do meu ponto de vista, consideradas frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.

A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade o que exige torná-la acessível para a generalidade das famílias.

domingo, 1 de maio de 2022

MANIFESTO DOS CIDADÃOS E CIDADÃS EM IDADE ESCOLAR

 Porque hoje é 1 de Maio e é preciso insistir.

 Companheiros e Companheiras em idade escolar,

 Celebra-se hoje, 1 de Maio, o Dia do Trabalhador. Muitos de vós não saberão que o dia 1 de Maio foi escolhido para homenagear os trabalhadores de Chicago, nos Estados Unidos, que em 1886 começaram uma greve para reivindicar o dia de trabalho com oito horas, o que veio a ser constituído como regra em muitos países.

Mas não para nós, companheiros e companheiras. Nós que andamos nas escolas temos cargas horárias que podem ir até às onze horas por dia, se juntarmos as horas curriculares, as actividades de enriquecimento curricular e a componente de apoio à família, a que acresce o trabalho de casa que muitas vezes, sobretudo para os mais novos, é excessivo. Muitos de nós ainda desempenhamos outras actividades de diferentes naturezas. Acontece ainda que somos cada vez mais pressionados para a produtividade, para a excelência, criando para muitos de companheiros níveis de pressão difíceis de sustentar.

Não podemos aceitar que esta situação continue e que como sempre foi decida sem nos ouvir.

Dizem os adultos que fora da escola não há quem tome conta de nós quando estão a trabalhar. Mudem a organização do trabalho e a gestão dos horários deles. Não sendo nossa a responsabilidade pela situação profissional dos adultos, não temos que sofrer nós as consequências. Muitos de nós, companheiros e companheiras, acabamos por estabelecer péssimas relações com os nossos locais de trabalho, as escolas, com tanto tempo lá vivido e, por vezes, mal vivido.

Além disso, quando chegamos a casa já quase não temos tempo e disponibilidade para a vida familiar, para a relação, para a brincadeira, com os nossos pais e irmãos que, como sabem, é fundamental para a qualidade de vida dos seres humanos. Aliás, muitos de nós ainda somos obrigados a levar trabalho para realizar em casa ou continuar a trabalhar em centros de explicações. É também isto que faz parte do estado social de que os adultos tanto falam, a pensar sobretudo nos problemas deles que sendo importantes não devem fazer esquecer os nossos.

Os adultos lutaram por mudanças nas condições do trabalho, com preocupações de ergonomia e criatividade nas tarefas. E nós? Carregamos mochilas demasiado pesadas, o equipamento escolar é frequentemente de má qualidade bem como algumas das instalações, as tarefas são muitas vezes repetitivas, algumas de que dificilmente percebemos o sentido, geridas por profissionais eles próprios a funcionar em más condições, passamos horas e horas sentados em mobiliário desconfortável. Ninguém pensa no risco de desenvolvermos doenças profissionais e nas consequências ao nível da motivação para progredirmos nas nossas carreiras.

Alguns de nós que experimentamos algumas dificuldades não temos acesso aos apoios e suporte que nos são devidos enquanto cidadãos com direitos.

Nos últimos anos temos ainda sofrido vários processos de deslocalização, com alteração nos nossos locais de trabalho, sem que alguém tivesse a mínima preocupação em ouvir-nos.

Os adultos sempre cuidaram primeiro de si e dos seus direitos e só depois, de nós e dos nossos direitos. Não existem estruturas representativas dos nossos interesses e a nossa voz é pouco ouvida, por isso, muitos de nós tanto gritam e assumem comportamentos de indignação e revolta.

Se já tivéssemos a capacidade de votar talvez nos prestassem mais atenção, mas temos que ser exigentes.

É chegada a hora de nos ouvirem. Assim, proclamamos e exigimos:

 As crianças e jovens em idade escolar exigem que lhes seja reconhecido e estabelecido o direito a que o seu dia de trabalho não ultrapasse as sete horas, como já acontece para muitos adultos”.

 

Portugal, 1 de Maio de 2022

sábado, 30 de abril de 2022

PELAS RUAS DA INCLUSÃO

 Não vale a pena tentar tapar o sol com uma peneira ou acreditar que a realidade é a projecção dos nossos desejos. O relatório da Inspecção-Geral de Educação e Ciência, Organização do ano lectivo 2020-2021 mostra que os anunciados amanhãs que cantam talvez fossem prematuros no que respeita à resposta educativa à diversidade dos alunos, também conhecida por educação inclusiva, termo tão desgastado que até dá cobertura à … exclusão

Alguns indicadores constantes no trabalho da IGEC que merecem referência.

Considerando um universo de 97 escolas ou agrupamentos avaliados existiriam 498 alunos beneficiários da Acção Social Escolar que deveriam usufruir de aulas presenciais nas escolas em período de confinamento. No entanto, 60,6% destes alunos não tiveram acesso a esta situação.

O mesmo aconteceu a alunos com necessidades educativas especiais e a alunos referenciados pela Comissões de Protecção de Menores.

Considerando os alunos referenciados para medidas de apoio às aprendizagens através de “apoio tutorial específico”, apenas cerca de 60% acedeu a este dispositivo de apoio.

Nas situações em que as turmas integram alunos com necessidades educativas especiais não devem ter um efectivo superior a 20 alunos e não mais do que dois com necessidades especiais. A avaliação mostrou que em 30,8% das turmas de 5º ano com alunos com relatório técnico-pedagógico as disposições não eram cumpridas. Também 12,4% das escolas avaliadas não conseguem operacionalizar todas as medidas de apoio definidas nos relatórios técnico-pedagógicos. As direcções referem a insuficiência de recursos humanos adequados.

Por último, um dado relativo aos professores. Em 14426, 4,1% leccionam oito ou mais turmas, algo como 173 alunos por professor.

Volto ao que muitas vezes aqui escrevi e tenho afirmado.

Quando em Maio de 2015 li no Programa do PS que seria realizada “A aposta educativa numa escola inclusiva de 2ª geração que deverá intervir no âmbito da educação especial e da organização dos apoios educativos às crianças e aos jovens que deles necessitam” tentei perceber o que seria uma escola inclusiva de 2º geração. mas não consegui entender.

Acompanhei com esperança e expectativa a mais do que necessária, reafirmo, mudança legislativa desencadeada no âmbito da Educação Inclusiva que se traduziu no DL 54/2018 ele próprio associado a todo um quadro de mudança envolvendo, designadamente a definição do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, das Aprendizagens Essenciais ou o Decreto-Lei n.º 55/2018 relativamente ao currículo. Todo este edifício potenciaria a inovação, a mudança de paradigma, de vários paradigmas aliás, e alguns falavam mesmo da revolução que estava em marcha.

Com confiança em algumas virtudes do novo quadro aguardei expectante pela revelação da escola inclusiva de 2ª geração. No entanto, para meu desconforto e cansaço, o que fui conhecendo e vai sendo divulgado não me ajudou a perceber o que seria.

Continuo a verificar que tal como aconteceu com o velho 319/91 (nesta altura eu já trabalhava neste universo há 15 anos), quer com o 3/2008 e agora com o 54/2018 existiam e existem professores e escolas a realizar trabalhos notáveis que devem ser conhecidos e reconhecidos.

A avaliação das crianças, a definição dos apoios nas diferentes tipologias (já usadas como categorização uma vez que a outra categorização já não existe), o funcionamento das Equipas, os recursos disponíveis, a organização da intervenção, os papéis ou a articulação dos intervenientes está a criar nas escolas inúmeros sobressaltos. Recebo muitos testemunhos e dados mais robustos conhecidos não são particularmente animadores. O relatório da IGEC é mais uma peça elucidativa.

A tudo isto não terá sido alheio o discutível processo de operacionalização da mudança como também disse na altura.

Como já escrevi há algum tempo, o cansaço é muito embora sempre me anime quando conheço situações muito positivas que felizmente acontecem todos os dias em tantas escolas.

Não quero fazer o papel do miúdo que diz que o “rei vai nu”, primeiro porque já não tenho idade para isso e, segundo, porque não seria de todo justo.

Também não gosto de me sentir o Waldorf ou o Statler, os velhos dos Marretas que estão sempre na crítica, até porque, de novo, muita coisa de bom acontece, mas … a verdade é que julgo que só mudar, ainda que num caminho ajustado não significa … mudar.

Não queria repetir, sei existem muitas coisas muito bonitas, mas … nem tudo vai bem. Não torturem a realidade que ela não vai confessar.

Aliás, devo acrescentar que não acredito em escolas inclusivas. Não me batam, tento explicar.

Como disse Biesta, a história da inclusão é a história da democracia. Olhando para os tempos actuais e apesar de confiar no poder transformador da escola, a inevitável ligação entre a sociedade e a escola e sociedade leva a que também nesta se reflictam estes tempos e Portugal não é excepção.

Acredito sim em escolas e professores, a maioria, que com visão, competência e esforço assentes em princípios de educação inclusiva procuram diariamente combater os riscos e as situações de exclusão que muitas crianças pelas mais variadas razões correm ou vivem.

Quadros legislativos mais adequados são essenciais ... mas não são mágicos por mais que num exercício de "wishful thinking" os queiramos entender e vender como tal. As políticas públicas de educação exigem mais do que isto.

Daí este meu cansaço.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

EDUCAÇÃO E CIDADANIA, PORQUE SIM.

 Foi divulgado o trabalhoJovens e educação sexual: conhecimentos, fontes e recursos” realizado, desenvolvido pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa em colaboração com a Associação para o Planeamento da Família e o  Centro Lusíada de Investigação em Serviço Social e Investigação Social.

O estudo envolveu 2319 alunos do 10.º e 12.º anos e foi realizado entre Fevereiro e Junho de 2021. Os dados sugerem que apesar do conhecimento e informação revelados por muitos jovens ainda muito há por fazer em matéria de informação sobre sexualidade.

Esta conclusão e o que se passa noutras áreas do comportamento dos jovens leva-me a insistir em duas ou três notas que me parecem relativamente claras e simples que retomo de reflexões anteriores.

Os estilos de vida, as exigências de qualificação têm tornado gradualmente a escola mais presente e durante mais tempo na vida de crianças e adolescentes e, consequentemente, com reflexos na educação em contexto familiar.

Creio que já dificilmente se entende que a “família educa e a escola instrói”.

Creio que já dificilmente se entende que a escola forma “técnicos” e não cidadãos, pessoas, com qualificações ao nível dos conhecimentos em múltiplas áreas. Aliás, se bem repararem sempre falamos de sistemas de educação e não de sistemas de ensino e ainda bem que assim é.

Creio que já dificilmente se entende que o conhecimento é asséptico. O conhecimento, a sua produção e a sua divulgação, tem, deve ter, sempre um enquadramento ético e não é imune a valores.

Creio que os tempos mais recentes são elucidativos de como a abordagem de matérias como Direitos Humanos; Igualdade de Género; Interculturalidade; Desenvolvimento Sustentável; Educação Ambiental; Saúde; Sexualidade; Media; Instituições e Participação Democrática; Literacia Financeira e Educação para o Consumo; Segurança Rodoviária; Risco, Empreendedorismo; Mundo do Trabalho, Segurança defesa e paz, Bem-estar animal e Voluntariado são fundamentais ao longo do processo de formação de crianças, jovens e adultos. O estudo agora divulgado ilustra a situação com campo da sexualidade.

Nas sociedades contemporâneas um sistema público de educação com qualidade, desde há muito de frequência obrigatória e progressivamente mais extenso, é uma ferramenta fundamental para a promoção de igualdade de oportunidades, de equidade e de inclusão. É através de uma educação global de qualidade que se minimiza o impacto de condições sociais, económicas e familiares mais vulneráveis.

Já agora, uns indicadores que, do meu ponto de vista, justificam com clareza a ideia de que “Educação e Cidadania para todos, porque sim”.

Considerando a violência nas relações de namoro, dados de 2019 Um trabalho que envolveu 4598 jovens, do 7.º ao 12.º com idade média de 15 anos, mostra que para 67% é normal algum tipo de violência e 58% já terá sofrido pelo menos um comportamento de agressão.

Relativamente ao bullying, os estudos em Portugal sugerem uma prevalência entre 10 e 25% e a OMS indica que 1 em cada 3 crianças ou adolescentes será vítima de bullying. No caso mais particular do bullying homofóbico, um trabalho da Associação ILGA Portugal (2018) envolvendo 700 jovens dos 14 e aos 20 anos, refere que 73,6% já sentiu alguma forma de exclusão intencional por parte dos colegas.

Consumo de drogas, dados de 2019. Entre os 13 e os 18 anos aumentou o consumo de drogas não canábis e no grupo de 18 anos aumentou o consumo de canábis. O número de overdoses aumenta há três anos.

O consumo de álcool por jovens está a aumentar desde 2017 e a delinquência juvenil, entre os 12 e os 16 anos, em 2019 aumentou 5,6% e a criminalidade grupal (gangues) aumentou 15,9%.

Assim, por estas razões simples entendo que "Educação para a Cidadania" deve obrigatoriamente integrar o trabalho desenvolvido na educação em contexto escolar.

Precisamos e devemos discutir como fazer sempre considerando a autonomia das escolas, não acredito na disciplinarização destas matérias, julgo mais interessantes iniciativas integradas, simplificadas e desburocratizadas em matéria de organização e operacionalização.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

BOM, VALE MAIS TARDE QUE NUNCA

 Bom, vale mais tarde que nunca. Depois da narrativa dos professores a mais que sucessivos estudos sobre a demografia docente e discente não sustentavam, depois de sucessivas decisões em matéria de políticas públicas de educação que afastaram inúmeros de professores e inúmeros potenciais professores pela falta de qualidade e adequação da carreira que tinham à sua frente, parece que … faltam mesmo professores nas nossas escolas.

O ME tomou algumas decisões com impacto imediato, permitir que professores que recusaram horários incompletos para não “pagarem” para trabalhar possam agora ser “repescados” e conseguir um horário completo desenvolvendo actividades de apoio a alunos mais vulneráveis. Para além de poder, esperemos, ter algum impacto nos horários em falta, é uma questão de justiça.

Como já aqui referimos existem outras medidas constantes no programa do Governo que veremos como se irão, ou não, concretizar.

É verdade que não é fácil a resposta imediata à falta actual e futura de professores, teria sido mais fácil não negar a realidade e tomar decisões proactivas.

Em todo o caso, continua a ser necessário, entre outros aspectos, proceder à integração de milhares de professores contratados e já com anos de experiência, a necessidade de adequar a carreira e os requisitos de entrada na carreira, o modelo de progressão e avaliação, o ajustamento e valorização do estatuto salarial dos docentes, a promoção da sua valorização profissional e social ou a desburocratização do trabalho dos professores. 

Estes aspectos parecem-me consensuais e urgentes.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

DO ACESSO AO ENSINO SUPERIOR. DE NOVO

 No DN encontra-se uma peça em que se discute a necessidade de alterar o modelo de acesso ao ensino superior sendo que alguns actores da comunidade educativa se mostram favoráveis a essa alteração. Recordo que em 2020 o Conselho nacional de Educação produziu uma recomendação no mesmo sentido, a redução do peso dos exames nacionais do ensino secundário na seriação dos candidatos ao superior e atribuindo às instituições de acesso maior responsabilidade na definição das formas de acesso. Não foi, aliás, a primeira vez que o CNE se pronuncia nesta perspectiva. Também no programa do Governo consta a intenção de reavaliar este processo.

Felizmente, começa a parecer cada vez mais evidente a necessidade de repensar o modelo de acesso ao ensino superior em que os candidatos são ordenados fundamentalmente com base nas notas finais do ensino secundário nas quais os exames têm uma ponderação significativa.

Entre outras questões e como tantas vezes tenho escrito coloca-se desde logo a desvalorização do próprio ensino secundário que deveria ser valorizado e percebido com a finalização de um ciclo de estudos e não como a antecâmara do superior e a sala de explicações para preparação para os exames. Aliás ouve-se com frequência o desconforto de docentes de ensino secundário como este quadro pois sentem o seu trabalho com os alunos hipotecado ao peso dos exames e não à formação a adquirir no ensino secundário nas diferentes disciplinas.

Por outro lado, a situação actual favorece, como sabido e reconhecido, a iniquidade assente na "simpatia generosa" de algumas escolas, maioritariamente privadas, que inflacionam a avaliação interna dos alunos ou o florescimento de um nicho de mercado, as explicações ou centros de estudo, dirigidos à preparação para os exames com custos não acessíveis a boa parte das famílias.

Assim, parece-me ser adequado entender que a conclusão e certificação de conclusão do ensino secundário e a candidatura ao ensino superior deveriam ser processos separados.

Os exames nacionais destinam-se, conjugados com a avaliação realizada nas escolas, a avaliar e certificar o trabalho escolar produzido pelos alunos do ensino secundário e que, obviamente, está sediado no ensino secundário.

O acesso ao ensino superior será um outro processo que deveria ser da responsabilidade do ensino superior e estar sob a sua tutela com também a recente recomendação do CNE assume.

Parecer-me-ia mais ajustado que as classificações, internas e externas no ensino secundário deveriam constituir apenas um factor de ponderação a contemplar com outros critérios nos processos de admissão com o envolvimento das instituições de ensino superior como, aliás, acontece em muitos países.

Sublinho minimizando equívocos que a questão não está na existência ou importância dos exames finais do secundário que não me parece colocar grandes dúvidas.

Enquanto não se verificar a separação da conclusão do secundário da entrada no superior não valorizamos o ensino secundário no que lhe é próprio e ainda corremos o risco de lidar com situações e negócios que sendo úteis a alguém não o serão, obviamente, para a maioria das famílias.

terça-feira, 26 de abril de 2022

A LER

 O texto de Paulo Prudêncio no Público, “Da falta estrutural de professores: avisos, culpas e soluções”, sobre a incontornável e séria questão da falta de professores merece leitura e reflexão.

Trata-se, como disse, de uma questão complexa e de difícil resposta imediata, mas algo pode e deve ser feito como, aliás, sugere Paulo Prudêncio.

A gravidade da situação que há muitos anos se antecipava e foi evidenciada em múltiplos trabalhos assenta, como já aqui tenho abordado, num conjunto alargado e desajustado de dimensões das políticas públicas em matéria de educação com impacto nos professores e na percepção social do trabalho e das condições de trabalho dos professores que se traduziu numa baixa capacidade de atracção para a profissão.

É crítica e urgente a necessidade de iniciativas que minimizem ou possam reverter o cenário actual.

O futuro não espera.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

DO 25 DE ABRIL. A ESCOLA

 Não pode deixar de ser, é dia 25 de Abril. É o dia em que toda a gente, quase, fala daquele 25 de Abril, o de 74.

Quase sem nos darmos conta os anos passam, já lá vão 48 anos. Actualmente, boa parte da população portuguesa não viveu o 25 de Abril de 1974, nem o 24 de Abril com tudo o que continha. Talvez por isso e sem esquecer tudo o que aconteceu nestes 48 anos de bom e de menos bom, valha a pena olhar um pouco para o 24 de Abril de 74 e que sustentou o desencadear da mudança.

É verdade que a história tende a ser uma espécie de adereço, tal como a generalidade das ciências sociais e não uma potente ferramenta de desenvolvimento das comunidades. Estamos num tempo em que à história se dá pouca atenção e o futuro é percebido como muito longe, vive-se a urgência do hoje. No entanto, perceber e conhecer o que foi a estrada que percorremos é fundamental para viver e conhecer o presente e querer construir um futuro com uma visão escolhida por nós.

É verdade que temos vivido tempos difíceis, mas também é verdade que não é sequer possível comparar o país de hoje com o país de 1973. Já passaram 48 anos, para refrescar algumas memórias ou contar alguma história aos mais novos, deixem que vos fale um pouco da escola do meu tempo, o tempo dos anos cinquenta e sessenta. Escolho voltar a  falar da escola porque é um universo que conheço um pouco melhor, mas poderia fazer o mesmo exercício em muitas outras áreas de funcionamento da nossa sociedade. Não me esqueço, antes pelo contrário, que a nossa educação, a escola, como tudo o resto, também tem atravessado, atravessa e provavelmente sempre viverá dificuldades e problemas sérios, mas só a falta de memória, uma qualquer agenda ou o desconhecimento sustentam o “antigamente era melhor” e inquietam-me discursos que emergem defendendo “aquela” escola, “aquela” educação, a de “antigamente”. Já não é a primeira vez que falo disto e não será certamente a última. Vejamos, pois, um pouco da escola do meu tempo, conversa de velho, já se vê.

A escola que havia lá para trás no tempo não era grande, nem pequena, era triste. A maioria das pessoas que por lá andavam era, naturalmente, triste. É claro que nós miúdos também nos divertíamos e ríamos, os miúdos são resilientes e … são miúdos.

As pessoas que mandavam na escola estabeleciam o que toda a gente tinha de aprender, fazer, dizer e pensar. Quem pensasse, dissesse ou fizesse diferente podia até sofrer algum castigo, mesmo os professores, não eram só os alunos. Não se podia inventar histórias, as pessoas contavam só histórias já inventadas. Às vezes, os miúdos e os professores, às escondidas, inventavam histórias novas.

Eu andei nesta escola lá para trás no tempo.

E na escola do meu tempo nem todos lá entravam e muitos dos que o conseguiam saíam ao fim de pouco tempo, ficando com a segunda ou terceira classe, como então se chamava, outros completavam a quarta classe, a escolaridade obrigatória naquela altura. Chegava.

Alguns outros, nem se entendia que deveriam estar na escola, eram pessoas com deficiência, ainda não sabíamos falar de necessidades educativas especiais nem de inclusão, que iriam fazer para a escola.

E na escola do meu tempo os rapazes estavam separados das raparigas.

E na escola do meu tempo havia um só livro e toda a gente aprendia apenas o que aquele livro trazia.

E na escola do meu tempo levavam-se muitas reguadas, basicamente por dois motivos, por tudo e por nada.

E na escola do meu tempo ensinavam-nos a ser pequeninos, acríticos e a não discutir, o que quer que fosse.

E na escola do meu tempo eu era “obrigado” a ter catequese, religiosa e política.

E na escola do meu tempo aprendia-se que os homens trabalham fora de casa e as mulheres cuidam do lar e dos filhos.

E na escola do meu tempo não aprender não era um problema, quem não “tinha jeito para a escola, ia para o campo”. Quanto menos estudassem, menos perguntas e dúvidas teriam.

E na escola do meu tempo não se falava do lado de fora de Portugal. Do lado de dentro só se falava do Portugal cinzento e pequenino.

Na escola do meu tempo eu era avisado em casa para não falar de certas coisas na escola, era perigoso.

Quem mandava no país achava que muita escola não fazia bem às pessoas, só a algumas. Ao meu pai perguntaram porque me tinha posto a estudar depois da quarta classe, não era frequente naquele meio, para ser serralheiro como ele não precisava de estudar mais.

Sim, eu sei, não precisam de me dizer que a escola deste tempo tem muitas coisas, embora com outras vestes e discursos, que nos recordam a escola do meu tempo. Nem tudo está bem, longe disso e algumas questões não mudaram na substância, apenas se actualizaram. No entanto, o caminho é melhorar a escola deste tempo não é, não pode ser, querer a escola do meu tempo.

Eu andei naquela escola lá para trás no tempo.

Por isso, quando falam da escola hoje, penso, nunca mais voltarei a andar naquela escola. E não quero que os meus netos e os outros miúdos andem numa escola como aquela, a minha escola, lá para trás no tempo.

Também por isso hoje falamos do 25 de Abril de 1974 e do que os tempos nos trouxeram.

domingo, 24 de abril de 2022

HISTÓRIA

 Uma história da História. Tive oportunidade de ver o registo da conversa sobre o 25 de Abril realizada na sala do Jardim-de-infância do meu neto. Foi bonita a conversa pá. Curiosamente e um pouco contra o que esperaria, muitas crianças participaram activamente e com informação sobre a data e o seu significado. Também achei a conversa muito bem conduzida pela educadora.

Não pude deixar de recordar que há uns anos tive uma aluna que também era educadora de infância numa terra lá do meu Alentejo e que perto do dia 25 de Abril também conversou com a miudagem sobre a data, perguntando quem sabia o que “era o 25 de Abril”.

Um dos gaiatos, cinco anos de vivacidade e experiência de vida, sempre o mais participativo e falador do grupo, explicou com toda a convicção, “foi quando a tropa matou o Salazar, um velho d’um cabrão que havia aí e era ruim c´mas cobras”. 

É apenas uma visão da história, há tantas.


sábado, 23 de abril de 2022

DOS LIVROS

 Hoje, dia 23 de Abril, de acordo com o calendário que organiza as nossas inquietações cumpre-se o Dia Mundial do Livro.

Os dias de chumbo que que temos vivido têm múltiplos impactos, no sector dos livros, por exemplo. A peça no Público é elucidativa. Os apoios neste sector, como noutras áreas, serão insuficientes.

No entanto, é imprescindível sublinhar e afirmar sempre que os livros e a leitura são bens de primeira necessidade para gente de todas as idades donde a insistência.

Recordo sempre Marguerite Yourcenar que em “As Memórias de Adriano” escrevia “A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana.

São múltiplos os estudos que sublinham o impacto dos livros e da leitura no trajecto escolar e no trajecto pessoal, como também são muitos trabalhos que mostram que os hábitos de leitura são pouco consistentes entre as crianças, adolescentes e jovens como, sem surpresa, também o são entre a população em geral.

Os livros têm uma concorrência fortíssima com outro tipo de materiais, jogos ou consolas por exemplo, e que nem sempre é fácil levar as crianças, jovens ou adultos a outras opções, designadamente aos livros.

Apesar de tudo isto também sabemos que é possível fazer diferente, mesmo que pouco e com mudanças lentas.

Como várias vezes tenho afirmado e julgo consensual, a questão central é o leitor, ou seja, o essencial é criar leitores que, quando o forem, procurarão o que ler, livros por exemplo, em que espaços, biblioteca, casa ou escola e em que suportes, papel ou digital.

Um leitor constrói-se desde o início do processo educativo. Desde logo assume especial importância o ambiente de literacia familiar e o envolvimento das famílias neste tipo de situações, através de actividades que desde a educação pré-escolar e 1º ciclo deveriam ser estimuladas, muitas vezes são, e para as quais poderiam ser disponibilizadas aos pais algumas orientações. Talvez tivéssemos perdido uma oportunidade enquanto os alunos estiveram em casa tanto tempo.

Apesar dos esforços de muitos docentes, a relação de muitas crianças, adolescentes e jovens com os materiais de leitura e escrita assentará, provavelmente de forma excessiva, nos manuais ou na realização de trabalhos através da milagrosa “net” proliferando o apressado “copy, paste” ou resumos de leituras necessárias.

Neste contexto, embora desejasse muito estar enganado, não é fácil construir miúdos ou adolescentes leitores que procurem livros em casa, em bibliotecas escolares ou outras e que usem o "tablet" também para ler e não apenas para uma outra qualquer actividade da oferta sem fim que está disponível.

No entanto, felizmente, realizam-se com regularidade experiências muito interessantes em contextos escolares, os professores bibliotecários têm desenvolvido um trabalho essencial, ou em iniciativas mais alargadas a outras entidades como autarquias e instituições culturais.

Temos que criar leitores, eles irão à procura dos livros ou da leitura, mesmo em tempos menos favoráveis.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

OLÁ

 Finalmente. As máscaras vão deixar de estar presentes nas escolas, estou a falar das que nos protegem do vírus, é claro. Esperemos que não voltem.

Sobretudo a pensar nos mais pequenos, mas não só, as máscaras são um obstáculo à comunicação, à percepção do outro, à proximidade, ingredientes básicos nos processos educativos incluindo a sala de aula. Um “olá” vai ser ouvido, visto e sentido. Vai ser bom.

O meu neto mais pequeno verá pela primeira vez a cara da sua educadora e o mais velho vai voltar a ver a da sua professora passados dois anos. É notável.

Talvez agora sem máscara possamos, sou um optimista, sentir um ambiente com mais aconchego e próximo.

Por outro lado, talvez sem as máscaras também se possa perceber o melhor o cansaço e desânimo que muitos dos professores sentem e se perceba melhor a urgência das respostas para os problemas nos quais estão envolvidos e que, naturalmente, também são problemas nossos.

O futuro não espera.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

A HISTÓRIA DO LESMA

 Em miúdo, mais miúdo é claro, o hábito de criar alcunhas era bastante frequente e acontecia a propósito das mais variadas razões. Muitas vezes a alcunha, seja pelo som, pela graça ou pela apropriada designação, entranhava-se na relação, substituía o nome e acontecia até que algum tempo depois já nem o recordamos. Foi o caso do Lesma, um colega de escola de quem já não lembro o nome, passou a ser o Lesma. A elegante designação foi-lhe pela primeira vez atribuída por um dos professores e dela nunca mais se livrou.

O Lesma foi a pessoa mais vagarosa, mais tranquila, mais sem pressa que alguma vez conheci. Era o último a chegar a qualquer lado, sempre com ar de quem era o primeiro e a tempo. Em qualquer tarefa ou jogo, coisas da escola ou brincadeiras fora da escola o Lesma era exasperante, sempre sem pressa, sempre o último.

Até a falar o Lesma era vagaroso, demorava um tempo que nos parecia infindo a acabar uma frase que todos já adivinhávamos.

Hoje em dia, a vida acelerou-se, inventámos o stresse, o para ontem, o temos que fazer tudo e rápido, não podemos perder tempo, etc., o tempo tornou-se um bem de primeiríssima necessidade que quase ninguém tem. Quase ninguém está, vai ou vem com tempo. Como reacção a este estilo de vida têm vindo a surgir movimentos e ideias que direccionados para diferentes áreas de funcionamento têm de comum a intenção de abrandar o ritmo. A palavra-chave emergente é "slow", na alimentação, nas actividades de lazer, nos locais de trabalho. Multiplicam-se as ofertas mais ou menos exóticas, mais ou menos criativas, mas todas apostando nas milagrosas virtudes do "slow".

Neste contexto, tenho-me lembrado frequentemente do Lesma, era um visionário, o primeiro que conheci e que só mais tarde reconheci.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

"É OU NÃO É?" É ... DE UM ENORME DESPUDOR

 Apesar de não ter grandes expectativas sobre as conclusões, decidi assistir ao “É ou não é?”, programa de informação e debate dedicado ao “futuro da educação”, mas centrado sobretudo na questão da falta de professores.

Parece clara a enorme dificuldade de resposta imediata à complexidade do problema ainda que tenham sido referidas, entre outras iniciativas, a necessidade e justiça de proceder à integração de milhares de professores contratados e já com anos de experiência, a necessidade de adequar a carreira, o modelo de progressão e avaliação, o ajustamento e valorização do estatuto salarial dos docentes, a promoção da sua valorização profissional e social ou a desburocratização do trabalho dos professores. Estes aspectos parecem consensuais e a natureza do programa também não permitia ir muito mais longe.

No entanto, creio que o debate ficou marcado por duas intervenções. A primeira envolveu o peso fortíssimo do testemunho de uma professora sobre a sua situação profissional e as implicações pessoais, profissionais e familiares duríssimas, injustas e incompreensíveis.

A segunda remete para a intervenção e postura da antiga Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, cujo desempenho enquanto ministra ficou fortemente associado a alguns dos problemas que afectam os professores e o sistema educativo e que já eram conhecidos na altura. Das suas afirmações releva algo de um despudor ético que indigna, mas, lamentavelmente, não surpreende e que se traduziu num assertivo, ”Não sei como chegámos aqui assim. Não sei e não quero saber.

É verdade que é uma situação habitual nos discursos de pessoas que ocuparam cargos políticos de relevo e que depois de o deixarem defendem o que não fizeram, esquecem ou negam o que fizeram ou defendem o que de errado, muito errado, fizeram.

No entanto, sendo frequente não deixa de ser uma indignidade e desrespeito pela comunidade.