segunda-feira, 30 de novembro de 2020

ATÉ QUANDO?

 Há uns dias comecei aqui um texto referindo a janela de esperança ainda que mais longe do que gostaríamos aberta pelas notícias referentes às vacinas para a Covide-19- Esta janela de esperança, também o disse, surge quando de mansinho mas de forma bem pesada se instala o que tem vindo a ser referido por “fadiga pandémica”, os efeitos devastadores dos tempos que temos vivido e orientei o texto para o universo da saúdem mental.

Uma peça da Lusa ontem divulgada levou-me a retomar a introdução.

O trabalho centra-se no efeito que nas escolas e nas pessoas que trabalham nas escolas, e no grau de exaustão e cansaço bem como o enorme receio com que trabalham e que, naturalmente, também afecta o bem-estar e o desempenho. Não sendo, longe disso, a única área de actividade em que tal se passa, não deixa de ser preocupante o quadro referido na peça.

De Março para cá, incluindo o período de férias, o mundo da escola tem vivido os tempos mais estranhos e exigentes de que me lembro em muitas décadas de ligação a este universo.

Como é óbvio, as exigências diárias da actividade das escolas são sempre pesadas em qualquer cenário. No entanto, as actuais circunstâncias, a manutenção das escolas a funcionar, a gestão dos riscos de saúde de professores, funcionários, técnicos e alunos, o assegurar de actividades lectivas, presenciais, mas também online se a situação dos alunos o exigir, as dificuldades com docentes, técnicos e auxiliares de educação, criam uma tempestade devastadora que não se imagina como se pode aguentar por muito tempo sem efeitos complexos e não totalmente previsíveis.

Lamento, mas contrariamente aos cientistas de múltiplas ciências e aos incontáveis opinadores que diariamente se ouvem e lêem, não tenho nenhuma solução que reverta com rapidez e eficácia esta situação, apenas sei como é dura e difícil.

Não servirá de muito, mas resta-me também em nome dos miúdos cá de casa, registar e agradecer o esforço brutal que os actores envolvidos, professores e direcções, técnicos, auxiliares, alunos e famílias, bem como outras estruturas ou entidades, desenvolvem diariamente para nos assegurar a imprescindível tarefa de construir o futuro.

domingo, 29 de novembro de 2020

BRINCADEIRAS E RISCOS

 No Expresso está um trabalho sobre um tema que muitas vezes aqui abordo, a importância do brincar na vida das crianças. O texto trata fundamentalmente a importância que no contexto das actividades o eventual risco presente pode assumir no desenvolvimento e comportamento dos mais novos.

O texto tem, aliás, um título, sugestivo “Tablet vs canivete” e poderá despertar alguma discussão ou mesmo discordância, mas importa, sobretudo, que se reflicta no essencial.

Antes de retomar umas notas quero sublinhar a intervenção continuada do Professor Carlos Neto, que também é citado na peça, no sentido da defesa e promoção das actividades de ar livre e das brincadeiras das crianças.

De facto e como muitas vezes também tenho escrito e afirmado em múltiplos encontros com pais e técnicos, do meu ponto de vista, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a autonomia, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como fala Almada Negreiros. A brincadeira, a rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente), os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.

Como também me parece claro há que controlar o eventual perigo que é diferente do risco, as crianças também “aprendem” a conhecer e a lidar com o risco.

Talvez, devagarinho e com os perigos e riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por pouco tempo e não todos os dias.

É, pois, importante, volto a insistir, que todos os que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam como “guide line” para a sua intervenção a promoção do brincar.

Os mais novos vão gostar e faz-lhes bem.

sábado, 28 de novembro de 2020

LITERACIA MEDIÁTICA, UMA FERRAMENTA DE DESENVOLVIMENTO

 No âmbito da comemoração da resolução do Conselho da Europa de 27 de Novembro de 2009 sobre Literacia Mediática o Público lançou uma iniciativa “Dia P da Literacia Mediática” a propósito da qual se encontrava ontem uma peça que merece leitura e profundamente actual.

O papel crítico da imprensa nos tempos de pandemia no sentido da informação e conhecimento. Este papel é tanto mais importante quanto se tem acentuado a explosão da utilização das redes sociais e a forma como são geridas e utilizadas.

Na verdade, os tempos vão negros. Esta negrura exige mais do que nunca uma imprensa autónoma e independente que na luta pela verdade combata … a imprensa e todos os que trabalham e se alimentam de “fake news”, “factos alternativos” ou da fabricação da “pós-verdade”. Há uns anos numa entrevista ao Público, Tom Rosenstiel, especialista em comunicação, afirmava que se o jornalismo, (os jornais), deixar de ser rentável e, como tal, corra o risco de desaparecimento, as democracias poderão sofrer um "cataclismo cívico". É este o risco quando falham os “guardiões na luta contra a verdade”.

A questão, do meu ponto de vista, é que terá de ser a imprensa a decidir e mobilizar-se de forma proactiva para cumprir o seu insubstituível papel.

Se analisarmos o cenário actual nesta matéria creio que boa parte da imprensa é, frequentemente complacente com as lideranças económicas e políticas mas também frequentemente esta complacência assenta no seu próprio alinhamento. Em qualquer dos casos um mau serviço prestado à cidadania.
Sublinho que entendo como legítima que qualquer órgão de comunicação social tenha um qualquer alinhamento, mas a linha editorial deve ser perfeitamente transparente o que nem sempre acontece. Independente do eventual alinhamento é essência que que se perceba a diferença entre facto (notícia) e opinião. Demasiado frequentemente, as opiniões são ”vendidas” como factos ou os factos são torturados e passam a notícia.

Entendo como deplorável que muitos profissionais da imprensa aceitem a forma como algumas figuras reagem ao ser abordadas pela imprensa sobre assuntos sobre os quais, por várias razões, não lhes interessa discorrer. Surgem então as afirmações patéticas, “não tenho nada a acrescentar”, “desculpem, não comento”, “não estou aqui para falar dessas matérias,” etc., etc. Desenvolvem assim uma espécie de surdez selectiva, só ouvem o que lhes convém, de mutismo selectivo, só falam do que lhes convém, de cognição selectiva, só conhecem o que lhes convém.

As mesmas figuras que directamente ou através de terceiros, lambem as botas às redacções e aos jornalistas (quanto mais influentes melhor) e pedem, exigem, tempo de antena quando tal serve os seus diferentes interesses.

Algumas dessas figuras quando, quase sempre fruto do alpinismo partidário, ascendem a alguma forma de poder conseguem ainda ir mais longe nessa relação com a imprensa, se não lhes agrada calam-na ou atacam-na como também não é raro. É um método velho e intemporal.

Neste cenário, profundamente irritante e patético, sinto que nos insultam, que nos consideram destituídos, como se por não abordarem as diferentes matérias, elas não existam ou, noutros processos, que somos manipulados de forma nem sempre perceptível pela opacidade das situações.

É grave a existência de uma comunicação social, boa parte dela, passiva e resignada, que não confronte as figuras públicas e os demais poderes, não os denuncie e que acorre solícita quando essas figuras ou poderes entendem que têm algo a dizer ou a vender. Também lhes convém esta subserviência interesseira que alguns mantêm, também têm as suas agendas. Às vezes são recompensados.

Recordo que em 2017 o Sindicato dos Jornalistas apelou a que a classe "boicote" as conferências de imprensa ou declarações em que não sejam permitidas questões. É de num Congresso dos Jornalistas também foi aprovada por unanimidade uma decisão no mesmo sentido, as iniciativas com a proibição de perguntas não seriam noticiadas.

Como é evidente, esta decisão não teve qualquer consequência e recorrentemente assistimos a estas deploráveis situações.

Levada a sério e posta em prática poderia ser um forte contributo para combater o modo como muitas lideranças entendem o papel da imprensa, serve para divulgar apenas a mensagem que lhes interessa mostrando-se indisponíveis para responder a questões. A imprensa é apenas um veículo publicitário dos seus produtos ou “verdades”.

Para além desta atitude seria ainda desejável que quando colocam questões, os jornalistas façam as perguntas adequadas e não uma encenação de diálogo que mais não é que um monólogo a dois, ou seja, independentemente das perguntas, o inquirido fala do que quer sem que isso lhe seja cobrado. É importante o movimento de “fact check” que vai emergindo, mas é preciso mais.

Sei que não é fácil, todavia também tenho a convicção de que seria uma forma de proteger a própria imprensa e o seu papel insubstituível como um dos pilares das sociedades abertas e democráticas.

É, também, por questões desta natureza, que me parece imprescindível a abordagem das questões da cidadania e desenvolvimento nas escolas e para todos os alunos.

A literacia mediática é um bem de primeira necessidade e uma ferramenta de desenvolvimento das comunidades e da democracia.

Os tempos que vivemos bem o demonstram.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

AS CANCELAS

 Quando era miúdo, o meu pai, como todos os pais, ia balizando o que se podia ou não fazer e como. Hoje chamar-se-ia estabelecer regras e limites.

Nesse trabalho diário de pai a expressão que mais utilizava era qualquer coisa como "não saltes a cancela", sendo a cancela, naturalmente, qualquer coisa que não deveria ser feita ou regra que não deveria ser infringida. Como está bem de ver, umas vezes por outras "pulava-se a cancela" e lá vinha, quando se era descoberto, a respectiva consequência, reprimenda, castigo ou, mais raramente, alguma palmada que deixava assim uma espécie de calor que ardia sem se ver.

Hoje, através de um contacto regular com pais e a observação da forma com muitos miúdos funcionam parece que, com demasiada frequência, os pais não identificam e estabelecem com clareza as cancelas da vida dos miúdos que, obviamente, variam com a idade.

O que me parece mais significativo é sentir que muitos pais apesar de perceberem que os comportamentos e atitudes dos miúdos não são os mais desejados, sentem-se incapazes e inseguros e, alguns, negligentes ou desatentos, para com a firmeza necessária definir as cancelas e, manter, com a flexibilidade que o bom senso dita, a consistência das decisões.

É fundamental que se entenda, que os pais entendam, que tanto quanto comer e dormir, os miúdos precisam das cancelas na sua vida. São essas cancelas que lhes regulam os comportamentos, que os ajudam a crescer de forma saudável e a saber tomar conta de si.

De resto e como educar com valores não é a mesma coisa que educar para a santidade, de vez em quando, as cancelas também se podem pular, dá gozo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

A TERRA DOS GÉNIOS

 

Lá naquela terra onde acontecem coisas, de que de vez em quando aqui vos falo, existem costumes e hábitos muito engraçados.

Uma das coisas que me parece mais interessante é a existência e a intervenção dos génios, isso mesmo, dos génios, muitos génios. Em todas as áreas que compõem a vida das pessoas existe um grupo de génios com ideias geniais, claro, que sabem sempre como tudo deve acontecer e tudo se deve passar. Todos os dias, seja qual for o assunto que esteja em discussão, lá aparecem os génios de serviço, nos diferentes meios de comunicação a explicar, sem margem de dúvida ou hesitação, o que as pessoas devem pensar ou saber sobre a matéria em apreço. Há mesmo génios tão geniais que conseguem ser génios em várias áreas, assumindo um estatuto de tudólogo, os que sabem de tudo, que é verdadeiramente impressionante. E quanto mais complexas são as situações, mais os tudólogos se ouvem, vêem e lêem.

O que é mais curioso, embora naquela terra onde acontecem coisas não faltem aspectos curiosos, por assim dizer, é que pouca gente parece levar a sério os génios, ou seja, para tudo e mais alguma coisa se interpelam os génios, estão sempre presentes, mas depois quase ninguém liga ao que eles dizem. Eles, os génios, são os únicos que se levam sempre a sério. É vê-los e ouvi-los com um ar absolutamente compenetrado a debitar genialidades a que ninguém liga, mas que lhes concedem espaço e tempo para expressar.

Os génios daquela terra onde acontecem coisas, aqueles que aparecem como génios, são assim uma espécie de adereço, sem qualquer utilidade, mas que sempre compõe o cenário.

Para completar este retrato, é também curioso, para ser simpático, que às pessoas que verdadeiramente sabem do que está a ser abordado também pouca gente parece ligar.

São, também assim, os dias lá naquela terra onde acontecem coisas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

A INDOMESTICÁVEL VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, DE NOVO

 O calendário das consciências assinala hoje o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres que como é habitual merece referências na imprensa e o lançamento de mais uma campanha, #eusobrevivi, com o apoio de várias organizações. Antes de umas notas alguns indicadores que num quadro de pandemia e tempos de confinamento e isolamento em casa têm maior expressão.

Segundo a cooperativa de intervenção social Coolabora a operar na Cova da Beira, Fundão, Covilhã e Belmonte, este ano foram registados até 31 de Outubro 103 novos casos de violência doméstica.

A União das Mulheres Alternativa e Resposta, através do seu Observatório de Mulheres Assassinadas refere que até 15 de Novembro tinham sido assassinadas 16 mulheres em num contexto de relações de intimidade.

De acordo com a dados da plataforma da justiça Citius, os tribunais registaram até Setembro 24709 denúncias, um aumento de 8% relativamente ao mesmo período de 2019.

Acresce que o mundo da violência doméstica é bem mais denso e grave do que a realidade que conhecemos, ou seja, aquilo que se conhece, apesar de recorrentemente termos notícias de casos extremos, é "apenas" a parte que fica visível de um mundo escuro que esconde muitas mais situações que diariamente ocorrem numa casa perto de si.

Por outro lado, para além da gravidade e frequência com que continuam a acontecer episódios trágicos de violência doméstica e como recorrentemente aqui refiro, é ainda inquietante o facto de que alguns estudos realizados em Portugal evidenciam um elevado índice de violência presente nas relações amorosas entre gente mais nova mesmo quando mais qualificada. Muitos dos intervenientes remetem para um perturbador entendimento de normalidade o recurso a comportamentos que claramente configuram agressividade e abuso ou mesmo violência.

Importa ainda combater de forma mais eficaz o sentimento de impunidade instalado, as condenações são bastante menos que os casos reportados e comprovados, bem como alguma “resignação” ou “tolerância” das vítimas face à situação de dependência que sentem relativamente ao parceiro, à percepção de eventual vazio de alternativas à separação ou a uma falsa ideia de protecção dos filhos que as mantém num espaço de tortura e sofrimento. Felizmente este cenário parece estar em mudança, mas demasiado lentamente. Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores sociais presentes em cada época.

Torna-se ainda necessário que nos processos de educação e formação dos mais novos possamos desenvolver esforços que ajustem quadros de valores, de cultura e de comportamentos nas relações interpessoais que minimizem o cenário negro de violência doméstica em que vivemos. A educação e o desenvolvimento que alimenta constitui a ferramenta de mudança mais potente de que dispomos.

É uma aposta que urge e tão importante como os conhecimentos curriculares. Percebe-se também por estas questões a importância da abordagem do universo da “Cidadania e Desenvolvimento” nas escolas e para todos os alunos.

Entretanto, torna-se fundamental a existência de dispositivos de avaliação de risco e de apoio como instituições de acolhimento acessíveis para casos mais graves e, naturalmente, um sistema de justiça eficaz e célere.

A omissão ou desvalorização desta mudança é a alimentação de um sistema de valores que ainda “legitima” a violência nas relações amorosas, que a entende como “normal”.

Tudo isto tem como efeito a continuidade dos graves episódios de violência que regularmente se conhecem, muitos deles com fim trágico.

Apesar  da natureza e gravidade fora do comum dos dias que vivemos e para os quais não estávamos preparados, talvez seja de não esquecer questões como estas que devastam o quotidiano ou a vida de muita gente.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

CONFINADA(MENTE)

 

A janela de esperança que as notícias relativas ao acesso a vacinas com efeitos credíveis face à Covide-19 coincide com a instalação progressiva nas pessoas, muitas pessoas, de um mal-estar com múltiplas dimensões que tem vindo a ser referido por “fadiga pandémica”.

Uma das dimensões que parece mais inquietante é o peso de viver diariamente confinada(mente), ou de forma mais clara, com a mente confinada. Os riscos na saúde mental e na qualidade de vida podem ser devastadores e com diferentes expressões. Aliás, são regularmente divulgados indicadores neste sentido.

Eu sei que experienciando diariamente dificuldades económicas severas por perda de rendimento ou desemprego, por exemplo, a vida se torna num desespero que confina a mente. Também sei que políticas públicas integradas e adequadas podem minimizar este cenário. É isso que se exige em matéria de opções políticas.

Eu sei que quem experimenta diariamente problemas de saúde e ou dificuldade no acesso a cuidados de saúde, seja no âmbito da Covide-19, seja por outros quadros clínicos, com respostas adiadas ou inexistentes, sente que a vida se torna num desespero que confina a mente. Também sei que políticas públicas integradas e adequadas podem minimizar este cenário. É isso que se exige em matéria de opções políticas.

Eu sei que todos os actores envolvidos no sistema educativo e em todos os patamares, alunos, pais, professores, técnicos, auxiliares ou, direcções, experimentam diariamente situações de dificuldade, de receio e insegurança ou de falta de recursos que podem tornar a vida num desespero que confina a mente. Também sei que políticas públicas integradas e adequadas podem minimizar este cenário. É isso que se exige em matéria de opções políticas.

Também sei com base em indicadores já conhecidos que os riscos de uma mente confinada são significativos, muito significativos, quer em termos individuais, quer em temos comunitários, e com efeitos duradouros. Por outro lado, lá está, também sei que políticas públicas integradas e adequadas podem minimizar este cenário. É isso que se exige em matéria de opções políticas.

No entanto e apesar desta pesada situação, também sei que nós, pessoa a pessoa, mas em estratégias de proximidade, poderemos encontrar e alimentar factores de protecção e resiliência que não nos deixem confinar a mente. Não podemos mesmo viver de mente confinada.

É uma questão de sobrevivência, de futuro. Por uma mente desconfinada.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

DAS HUMANIDADES

 Gostei de ler o texto de Pacheco Pereira na sua habitual página do Público, “O recuo da cultura das humanidades e a democracia” que merece leitura e reflexão

“(…)

Vamos, por isso, usar uma definição comum de vulgar de “humanidades”, para não complicar, que contém a literatura, a arte, a música, o direito, as ciências sociais, a história, num contexto de aproximação ao “homem” que desde a Renascença e o Iluminismo tem traços comuns. Inclui uma ideia da fragilidade da vida humana, do serviço do “bem comum”, dos direitos humanos, da liberdade, a começar pela mais importante historicamente, a liberdade religiosa, do valor da igualdade, do papel da educação na luta contra a servidão, na emancipação e dignificação do trabalho, na recusa da violência, do respeito pelas escolhas de género e da aceitação de que cada um é livre de viver a vida que quer desde que não seja à custa da liberdade de outrem.

(…)”

Pensando mais na realidade portuguesa, neste aspecto também não é muito diferente de outras, já aqui tenho abordado esta questão preocupante, a desvalorização das ciências sociais e das humanidades.

Numa das referências parti de uma peça na imprensa sobre a questão sobre a questão da escolha de formação no ensino superior na área das Ciências Sociais e das Humanidades questionando a sua utilidade e empregabilidade. Foram inquiridos alguns jovens que defenderam com entusiasmo a sua opção pela formação nesta área apesar das dificuldades que sabem existir.

No entanto e na verdade, têm emergido nos últimos anos discursos que de forma mais explícita ou implícita desvalorizam o papel desta área.

Mesmo ao nível da investigação científica e do seu financiamento a área das Ciências Sociais e Humanidades foi arrasada pela crática negrura que se abateu sobre o tecido científico e de investigação em Portugal.

A visão passou a centrar-se quase que exclusivamente na empregabilidade e “utilidade” destas áreas científicas, as Ciências Sociais e as Humanidades.

As Universidades tendem a ser vistas uma escola profissional para as empresas o que assenta num equívoco tremendamente perigoso, confundir desenvolvimento tecnológico com desenvolvimento científico.

Este equívoco esteve claramente presente, embora não se esgote, na política de Crato para a ciência e investigação com o esmagamento das Ciências Sociais e das Humanidades ou em discursos como o do então Ministro da Economia, Pires de Lima quando afirmava com preconceito e ignorância que é preciso que a investigação (maioritariamente desenvolvida enquadrada pelas universidades) "se traduza em produtos, marcas e serviços que possam fazer a diferença no mercado e devolver à sociedade o investimento que fizemos".

Tal entendimento mostra mais uma vez a ignorância sobre a ciência, o seu desenvolvimento e o papel fundamental no desenvolvimento das sociedades, eliminando pura e simplesmente as ciências sociais e humanidades, evidentemente inúteis por não criarem "produtos, marcas e serviços".

É evidente que a empregabilidade e a transferência de conhecimentos para o tecido económico são dimensões a considerar na organização da oferta formativa e na investigação, mas existe um conjunto vasto e imprescindível de formação universitária e de investigação de que não podemos prescindir com o fundamento exclusivo no mercado de emprego. Podemos dar como exemplo formações na área da filosofia, da história ou nichos de investigação que são imprescindíveis num tecido universitário e social moderno e que cumpra o seu papel de construção e divulgação de conhecimento e desenvolvimento em todas as áreas.

As universidades não podem ser o departamento de formação profissional das empresas.

Uma sociedade com gente formada e a investigar nestas áreas, ciências sociais e humanidades, é uma sociedade mais desenvolvida.

Neste sentido, insisto na ideia de que em todos os cursos de ensino superior deveriam existir créditos obrigatórios para áreas como ética, filosofia e história.

domingo, 22 de novembro de 2020

E O FUTURO?

 

Foi divulgado o estudo “Jovens no Pós-Secundário” anualmente elaborado pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência. Em 2018/2019 terminaram o secundário 97150 alunos. Actualmente, cerca de 6% destes alunos (6000), não estudam nem trabalham.

Em termos de caracterização, 53% dos jovens nesta situação, 53% são raparigas, 66% oriundos de famílias com nível básico de escolaridade, 61% concluíram o secundário com média inferior a 14 e 70% realizaram cursos profissionais.

Estes dados são tanto mais significativos se considerarmos que estes jovens não integram totalmente a designada geração “nem, nem" ou, na terminologia em inglês, NEET (Not in Education, Employment or Training), pois ainda desenvolvem esforços no sentido de encontrar emprego.

Aliás, considerando esta geração “nem, nem” e de acordo com o relatório Education at a Glance, da OCDE de 2019, Portugal tinha um dos números mais elevados e cerca do dobro dos países da OCDE, 3% dos jovens entre os 18 e os 24 anos.

Parece importante assinalar que, globalmente esta situação afecta, sobretudo, jovens com menos qualificações e mulheres, o que também não é novo. A exclusão da escola é quase sempre a primeira etapa da exclusão social.

A estes indicadores já profundamente inquietantes deve juntar-se os dados sobre precariedade, abuso do recurso a estágios e outras modalidades de aproveitamento de mão-de-obra barata e a prática de vencimentos que mais parecem subsídios de sobrevivência mesmo para jovens altamente qualificados. O actual quadro terá, muito provavelmente, efeitos significativos que implicarão a subida do número de situações.

Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem obviamente sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão, o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por sua vez se repercutem no inverno demográfico que atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais. As gerações mais novas que experimentam enormes dificuldades na entrada sustentada na vida activa, vão também, muito provavelmente, conhecer sérias dificuldades no fim da sua carreira profissional.

No entanto, um efeito muito significativo, mas menos tangível desta precariedade no emprego e na construção de um projecto de vida autónomo e sustentado, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à própria vida no seu todo e que, com alguma frequência, os discursos das lideranças políticas acentuam. Dito de outra maneira, pode instalar-se, estará a instalar-se em muitos jovens, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não vislumbra um futuro mobilizador e que recompense.

O aconchego da casa dos pais, muitas famílias também enredadas em dificuldades, pode ser a escapatória para a sobrevivência, mas potenciar o risco da desistência o que certamente poderá ter implicações séria.

sábado, 21 de novembro de 2020

VENHO DEVOLVER A CRIANÇA, NÃO É BEM O QUE ESTAVA À ESPERA

 

Ontem encontravam-se na imprensa trabalhos relativos à situação de crianças que estando em situação de pré-adopção ou mesmo de adopção, que vêemo processo interrompido e voltam às estruturas de acolhimento. Não sendo a primeira vez que abordo esta questão e sempre com uma inquietação que me parece bem justificada, algumas notas.

Entre 2016 e 2019 pelo menos 67 crianças passaram por esta situação, quando já estavam em processo de pré-adopção ou mesmo já em adopção voltaram às situações de acolhimento. Este número corresponde a 7.2% das adopções realizadas no mesmo período. Técnicos envolvidos justificam com a falta de acompanhamento dos processos de adopção e está em desenvolvimento um projecto a iniciar-se em 2021 que irá acompanhar 270 famílias adoptantes durante três anos.

Esta situação, crianças com diferentes idades serem devolvidas à estrutura de acolhimento depois de iniciado um processo de adopção, pela qual algumas passam mais do que uma vez é absolutamente devastadora.

Os motivos para esta “devolução” passam por situações que assim podem aconselhar, maus-tratos da família adoptante por exemplo, mas também por justificações como “não correspondem às expectativas”, “'venderam-me gato por lebre” ou que atrapalham as rotinas com os animais de estimação da família.

Também há algum tempo num trabalho sobre o mesmo tema, o DN citava um caso em que uma criança foi devolvida e trocada por outra porque não se adaptava ao cão da família. Outros casos de devolução envolvem dificuldades de adaptação a outros elementos da família ou a questões económicas.

Vejamos com mais atenção. Uma criança que por qualquer razão não tem uma família, está numa instituição, envolve-se num processo de adopção, entra numa família que entende passar a ser a SUA família, deve sentir-se num caminho bonito e prometedor. Passado algum tempo é devolvida, provavelmente, sem perceber porquê e vive uma, certamente mais uma, devastadora experiência de abandono e rejeição com efeitos que não podem deixar de ser significativos. É muito sofrimento.

Como é evidente, admito que em circunstâncias excepcionais o processo possa ser interrompido mas, insisto, só mesmo numa situação limite depois de esgotados os dispositivos de apoio às famílias adoptantes.

A lei permite o período de transição e um período de pré-adopção, uma espécie de contrato à experiência. Há uns anos em conversa sobre esta questão com o então presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, Juiz Armando Leandro, este reconhecia que a devolução não tem de ser baseada em "critérios necessariamente válidos".

Os serviços competentes têm-se esforçado para que estas situações se minimizem quer através da adequação das famílias candidatas, quer nas orientações e apoios para a optimização dos processos de adopção mas, algumas situações continuarão certamente a acontecer.

Voltando ao tão apregoado "superior interesse a criança", é difícil imaginar o que se passará na cabeça de um miúdo que passa anos a construir uma ideia de família, a certa altura entra numa família a que chama sua e de repente dizem-lhe que volta a estar só, na instituição, porque ... não se dá bem com o cão ou não corresponde às expectativas. Que sentirá a criança?

Porquê? Não presta? Não a querem? ...

Mas as crianças, Senhores?

Deixem-me ainda recordar uma expressão que ouvi em tempos a Laborinho Lúcio num dos encontros que tenho tido o privilégio de manter com ele.

Dizia Laborinho Lúcio que "só as crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas pelos seus pais”.

Na verdade, muitas crianças não chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas. No entanto, é melhor criar uma oportunidade para que as crianças "desabrigadas" possam ser adoptadas, possam ser felizes.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

UMA PANDEMIA DE PANDEMIAS

 

Intencionalmente, não tenho abordado neste espaço de partilha a questão do momento, a pandemia. A razão principal prende-se com o facto de não saber de que pandemia falar.

É verdade que existe um velho e muito conhecido ditado popular português que reza, “uma pandemia nunca vem só” e na verdade estamos numa pandemia de pandemias. Vejamos algumas o que talvez possa ajudar a perceber a minha dificuldade.

Desde o início, ainda mal conhecíamos a pandemia e emerge uma pandemia de virologistas, epidemiologistas, infecciologistas, pneumologistas, especialistas em saúde pública e outra gente de ciência que regularmente alimentam uma pandemia de informação impossível de digerir e entender.

A esta soma-se uma outra pandemia a que também chamam de informação, esta produzida por opinadores profissionais ou avençados, carregados de agendas que vendem com um ar convencido opiniões mascaradas de saber que são mais um contributo pandémico, tantas e tantas vezes indigesto e inútil.

Com as pandemias de informação mistura-se a pandemia da desinformação que através da imprensa, das redes sociais ou de outros suportes que confunde e alastra facilmente com efeitos potencialmente devastadores.

Temos a pandemia dos efeitos da pandemia, sejam os dramáticos números de infectados com consequências fatais para muita gente, sejam os efeitos devastadores na perda de rendimentos para muitas pessoas e actividades económicas, sejam os efeitos graves ao nível da saúde mental e qualidade de vida, sejam … enfim, uma pandemia de efeitos.

Temos a pandemia das decisões que vão sendo tomadas e que com frequência não nos parecem claras, pouco concertadas, que vão sendo ajustadas ou alteradas pelas reacções e também sem que nos fique claro o porquê, o como, o para quê que vão minando a nossa confiança e, como consequência alimentando a desconfiança e insegurança.

Uma última referência algo que nunca antecipei, a pandemia dos que negam a pandemia. Mais uma vez se recorre à divulgação ou venda de opinião como ciência, com discursos com base em “é assim, porque dizemos que é assim” e porque a terra é plana e também nos querem convencer que é arredondada, com discursos de “pela verdade” com base na crença e numa ciência que se tortura para confessar o que se deseja ouvir e num enviesamento claro do entendimento do que são sociedades solidárias em que o bem-comum é uma base. Esta pandemia aliada à pandemia da desinformação é inquietante nos efeitos.

Enfim, talvez só com uma pandemia de vacinas a coisa se possa modificar.

Aguardemos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

O SUMO

 

Quando era miúdo, usava-se muito  na escola a expressão "procurar o sumo", no sentido de encontrar o essencial nos textos que nos eram dados a ler e a interpretar. Os professores bem insistiam connosco para nos tornarmos mais competentes na separação entre o essencial e o acessório ou, no jargão da escola, identificar as ideias principais do texto.

Actualmente, uma das referências que recorrentemente se ouvem relativamente ao trabalho dos nossos alunos continua a ser a sua falta de competência na interpretação dos materiais que lêem.

Como é natural temos que trabalhar todos para que essas competências evoluam.

A grande questão é que o ambiente em que vivemos tem, do meu ponto de vista, vindo a dificultar progressivamente este trabalho de encontrar o essencial, o sumo.

Boa parte dos discursos das diferentes lideranças focam-se demasiadas vezes nas dimensões mais acessórias mesmo quando abordam questões essenciais.

Boa parte das políticas desenvolvidas, de uma forma geral, raramente tocam nos aspectos centrais e que carecem de reformas sérias, privilegiam medidas avulsas e de menor impacto

Num mundo aberto e em que tudo está acessível, boa parte da informação é “trabalhada”, quando não “fake”, e manipuladora, fabricando a visão do mundo que se quer vender consoante as agendas dos produtores.

Os comportamentos e valores que de mansinho se vão instalando, mesmo quando veementemente os negamos, traduzem com demasiada frequência a preocupação com o acessório, com o imediato e menos com o essencial.

Não é, pois, tarefa fácil ajudar os mais novos a olhar para o mundo e a perceber o sumo, o essencial. Para além disso, boa parte do sumo que é vendido como tal, é de plástico e de má qualidade, fazendo mal à nossa saúde.

É também por isto que cidadania e desenvolvimento são questões que devem ser abordados com todos os alunos.

Pela educação é que vamos.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

QUERIDA FAMÍLIA, AMIGOS E PROTECTORES

 

Com alguma regularidade continuam a ser conhecidas situações de abusos sexuais sobre crianças e adolescentes, a maioria em situações envolvendo familiares, amigos ou conhecidos da criança ou famílias e também instituições que lidam com menores.

De facto, a maioria dos abusos sexuais sobre crianças ocorre nos contextos familiares e envolve família e amigos, não em instituições que, provavelmente na sequência do caso Casa Pia, até se terão tornado mais atentas e eficazes na prevenção de abusos, embora continuem, evidentemente, a acontecer como tem sido divulgado.  Os indicadores sugerem que entre 70 a 80% das situações de abuso a responsabilidade é de alguém que a criança conhece e em quem confia. Citando Manuel Coutinho do Instituto de Apoio à Crianças, "A família deve ser o local mais seguro que a criança tem e por vezes é lá que corre os maiores perigos".

Apesar das mudanças verificadas em termos legais e processuais, a fragilidade ainda verificada na criação de uma verdadeira cultura de protecção dos miúdos leva a que muitos estejam expostos a sistemas de valores familiares que toleram e mascaram abusos com base num sentimento de posse e usufruto quase medieval.

Muitas crianças em situação de abuso no universo familiar ou por pessoas conhecidas ainda sentem a culpa da denúncia das pessoas da família ou amigos, a dificuldade em gerir o facto de que pessoas que cuidam delas lhes façam mal e a falta de credibilidade eventual das suas queixas bem como das consequências para si próprias, uma vez que se sentem quase sempre abandonadas e sem interlocutores em que possam confiar ou ainda o medo das consequências da denúncia.

A este cenário acrescem os riscos que as novas tecnologias vieram introduzir, sendo conhecidos cada vez mais casos em que a internet é a ferramenta utilizada para construir o crime.

Neste quadro, para além da eficiência do sistema de justiça, continua a ser absolutamente necessário que as pessoas que lidam com crianças, designadamente na área da saúde e da educação, sejam capazes de “ler” os miúdos e os sinais que emitem de que algo de menos positivo se passa com eles. Na verdade, os professores e os técnicos das escolas são muito frequentemente quem se apercebe de situações de mal-estar das crianças, “são os olhos do sistema de protecção”.

Esta atitude de permanente, informada e intencional atenção aos comportamentos e discursos dos miúdos é, do meu ponto de vista, uma peça chave para minimizar a tragédia dos abusos sobre as crianças e o enorme sofrimento provocado.

Neste cenário importa ainda ter em atenção o impacto que manutenção das crianças em casa depois de Março terá tido, preocupação expressa por muitos técnicos.

Como é evidente não se trata de uma situação fácil. Sabe-se que situações de isolamento potenciam o aumento de casos de violência doméstica como de maus tratos a crianças, a possibilidade de denúncia diminui, o medo prevalece e a própria situação, só por si, é geradora de risco.

No entanto, de uma forma alargada e com a colaboração da comunicação social e com os serviços de proximidade, autarquias por exemplo, talvez fosse possível promover a atenção das comunidades próximas, das relações de vizinhança, para o que pode estar a acontecer na casa ao lado e recorrer aos canais de informação disponíveis.

Sabemos que os riscos são grandes e a cada dia podem aumentar as situações de sofrimento e negligência que envolvem milhares de crianças.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

LANÇAR O BARCO À AGUA

 

O DN de hoje dedica uma peça e referência em 1ª página à situação de degradação e falta de perspectiva de futuro do histórico Arsenal do Alfeite, aqui na margem certa do Tejo. Fruto de desinvestimento político e da incompetência nas decisões na gestão da empresa a situação é negativa e a sobrevivência parece em risco num país não pode prescindir da sua relação com mar onde se joga, também, o nosso futuro.

A leitura deixou-me preocupado, pelas consequências ao nível do emprego, por mais uma machadada na indústria naval portuguesa, mas, sobretudo, muito triste e com uma nostalgia que me levou a estas notas.

Numa das maiores rotundas da minha terra, sim também temos muitas rotundas, foi instalado há já alguns anos um conjunto escultórico de grandes dimensões dedicado à construção naval que, a par da indústria corticeira, sempre foi uma das actividades emblemáticas do concelho de Almada, destacando-se o extinto estaleiro da H. Parry & Son, em Cacilhas, o Arsenal do Alfeite e a mais recente Lisnave.

Na minha família, o meu pai como serralheiro, o meu sogro como caldeireiro naval e vários outros membros da família, para além de muita gente conhecida e amigos, uma boa parte já com a narrativa terminada, foram operários da construção naval pelo que aquele monumento que acho bonito e qualquer referência ao Arsenal acordam ressonâncias muito lá para trás no tempo.

Um dos seus elementos de maior dimensão representa um barco no plano, aprendi desde miúdo que o plano é o local seco, não uma doca, inclinado, onde os barcos são construídos ou reparados. Quando prontos, procedia-se ao seu lançamento à água, partiam-se as cordas que seguravam o barco no plano e este deslizava, ganhava velocidade e entrava na água levantando um enorme cachão e ficava a flutuar ganhando ou retomando a sua condição de barco.

Nos idos de 60 o meu pai tentava, por vezes, conseguia, com a conivência dos guardas que eu, miúdo, umas vezes só, outras com o meu primo, passasse o mítico Portão Verde do Arsenal do Alfeite para assistir ao lançamento de um barco à água.

Nem dormia, era algo que me impressionava e ainda hoje está bem vivo na memória, no lado das coisas mais bonitas que carrego na mochila já bem composta pela estrada andada.

Lamentavelmente, hoje estão a acabar com os lançamentos dos barcos à água na nossa costa.

Parece que toda a nossa terra, ela própria, se transformou num enorme barco, à deriva.

Deixem-nos continuar a lançar os barcos à água.

domingo, 15 de novembro de 2020

O UNIVERSO DOS DIMINUTIVOS

 

Neste Domingo recolhido e no meio de pensamentos avulso tropecei de um hábito na nossa expressão que desde há muito me desperta curiosidade. Refiro-me a uma certa forma de utilizar o diminutivo. Se bem repararmos, é frequente a utilização desta fórmula quando aplicada a algo ou alguém a que, ou a quem, imputamos características ou atributos menos positivos. Vejamos alguns exemplos. Falamos dos que têm menos como os “pobrezinhos”, dos que achamos menos dotados como “poucochinhos” ou “tolinhos”, dos infelizes como “coitadinhos”, de algumas pessoas como “ceguinhos”, “maluquinhos” ou “aleijadinhos” e sempre “coitadinhos”, de elementos de minorias como “ciganitos” ou “pretinhos”, dos mais velhos como “velhinhos”, etc.

A eventual explicação (não é que seja fundamental mas gosto de procurar respostas para os muitos porquês em que tropeço) pode remeter para o embaraço ou culpa, em versão mais pesada, que sentimos pela percepção menos positiva que sentimos e que parece atenuar-se pelo “diminuição” do atributo, ou seja, o indivíduo é cigano mas não muito, é só “ciganito” e, no fundo, os diminutivos também contêm uma conotação de carinho e protecção que nos permite sossegar a consciência. Ou será que não? Acho que vou ter que recomeçar.

Para além disto, temos ainda um outro universo cheio de diminutivos, o universo do jeitinho, do favorzinho, da palavrinha, uma espécie de código para “facilitar” qualquer … coisinha, claro.

Finalmente, a referência a uma dimensão da utilização dos enunciados com diminutivos a que talvez possamos chamar de proximidade e simpatia e que sempre acho muito estimulantes e gosto de acreditar na genuinidade. Nesta perspectiva, acho que uma frase como esta, como exemplo, nos soará familiar e próxima de muitas outras em diferentes contextos. “Olá, está boazinha, é só um minutinho, Ora cá está o seu pãozinho ainda vem quentinho e fofinho. Obrigadinho. Notável.

Bom, tive muito gosto por este bocadinho dedicado à linguagem fofinha que gostamos de usar. Cuidadinho com o "bicho".

sábado, 14 de novembro de 2020

DO ACESSO AO SUPERIOR

 

O Público divulga a recomendação recentemente aprovada no Conselho Nacional de Educação no sentido de que seja modificado o modelo de acesso ao ensino superior, designadamente, reduzindo o peso dos exames nacionais do ensino secundário na seriação dos candidatos ao superior e atribuindo às instituições de acesso maior responsabilidade na definição das formas de acesso. Não é a primeira vez que o CNE se pronuncia nesta perspectiva.

Felizmente, começa a parecer cada vez mais evidente a necessidade de repensar o modelo de acesso ao ensino superior em que os candidatos são ordenados fundamentalmente com base nas notas finais do ensino secundário em que os exames ponderam de forma significativa.

Entre outras questões e como tantas vezes tenho escrito coloca-se desde logo a desvalorização do próprio ensino secundário que deveria ser valorizado e percebido com a finalização de um ciclo de estudos e não como a antecâmara do superior e a sala de explicações para preparação para os exames, aliás ouve-se com frequência o desconforto de docentes de ensino secundário como este quadro pois sentem o seu trabalho com os alunos hipotecado ao peso dos exames e não à formação a adquirir no ensino secundário nas diferentes disciplinas.

Por outro lado a situação actual favorece, como sabido e reconhecido, a iniquidade assente na "simpatia generosa" de algumas escolas, maioritariamente privadas, que inflacionam a avaliação interna dos alunos ou o florescimento de um nicho de mercado, as explicações ou centros de estudo, dirigidoa à preparação para os exames com custos não acessíveis a boa parte das famílias.

Assim, parece-me ser adequado entender que a conclusão e certificação de conclusão do ensino secundário e a candidatura ao ensino superior deveriam ser processos separados.

Os exames nacionais destinam-se, conjugados com a avaliação realizada nas escolas, a avaliar e certificar o trabalho escolar produzido pelos alunos do ensino secundário e que, obviamente, está sediado no ensino secundário.

O acesso ao ensino superior será um outro processo que deveria ser da responsabilidade do ensino superior e estar sob a sua tutela com também a recente recomendação do CNE assume.

Parecer-me-ia mais ajustado que as classificações, internas e externas no ensino secundário deveriam constituir apenas um factor de ponderação a contemplar com outros critérios nos processos de admissão organizados pelas instituições de ensino superior como, aliás, acontece em muitos países.

Sublinho minimizando equívocos que a questão não está na existência ou importância dos exames finais do secundário que não me parece colocar grandes dúvidas.

Enquanto não se verificar a separação da conclusão do secundário da entrada no superior não valorizamos o ensino secundário no que lhe é próprio e ainda corremos o risco de lidar com situações e negócios que sendo úteis a alguém não o serão, obviamente para a maioria das famílias.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

OS CONSUMOS DE ADOLESCENTES E JOVENS

 

Foi divulgado o “European School Survey Project on Alcohol and other Drugs (ESPAD)" que analisa os padrões de consumo de álcool e drogas de jovens europeus até aos 16 anos. Os dados referem-se a 2019.

Comparativamente a 2015 e a anos anteriores regista-se que o consumo de tabaco tem decrescido desde 2003, mas regista-se um ligeiro aumento do consumo de álcool contrariando a descida que se verificava desde 2007.

Ainda no que respeita ao consumo de álcool é preocupante o consumo precoce, "a percentagem de jovens portugueses de 16 anos que iniciaram o seu consumo aos 13 anos ou menos é consideravelmente superior à média europeia".

Considerando outros comportamentos de natureza aditiva, apesar do consumo genérico de canábis ser abaixo da média europeia, os jovens portugueses apresentam padrões de consumo mais problemáticos.

O consumo de diferentes substância, em quantidade e em grupo por adolescentes e jovens, sobretudo ao fim-de-semana, é muitas vezes entendido e sentido como o factor de pertença ao grupo, potenciando a escalada desse consumo, juntos bebemos ou fumamos mais do que sós, como é óbvio e o "estado" que se atinge é sentido como um "facilitador" relacional.

Por outro lado, a acessibilidade aos diferentes produtos não é complicada, antes pelo contrário, processa-se com a maior das facilidades. Muitos adolescentes, ouvidos em estudos nesta matéria, referem ainda a ausência de regulação dos pais sobre os gastos, sobre os consumos ou sobre as horas de entrada em casa, que muitas vezes tem que ser discreta e directa ao quarto devido ao “mau estado” do protagonista.

Como é evidente, já muitas vezes aqui o tenho referido com base na minha experiência de contacto com pais de adolescentes, não estamos a falar de pais negligentes. Podem acontecer situações de negligência mas, na maioria dos casos, trata-se de pais, que sabem o que se passa, “apenas fingem” não perceber desejando que o tempo “cure” porque se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e como lidar com a questão.

De fora parece fácil produzir discursos sobre soluções, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é muitas vezes sentida como maior que eles.

É preciso que a comunidade esteja atenta a estes adolescentes que, por vezes ainda antes dos 13 ou 14 anos “acedem” às “litrosas”, aos shots, a qualquer outro produto para fumar ou consumir e também aos seus pais que estão tão perdidos quanto eles.

Para além da legislação de natureza proibicionista, parecem-me imprescindíveis, evidentemente, a adequada fiscalização e, sobretudo a criação de programas destinados a pais e aos adolescentes que minimizem o risco do consumo excessivo das diferentes substâncias.

É mais uma das áreas, comportamentos e saúde, que devem ser abordadas nas escolas e com todos os alunos apesar de manifestos e discursos insustentáveis face a indicadores desta natureza.

Acresce que a proibição, como sempre, não basta e se prevenir e cuidar é caro que se façam as contas aos resultados do descuidar.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

PARTIU UMA ENORME REFERÊNCIA

 

Todas as sociedades precisam de referências entre os seus membros. São imprescindíveis como inspiradores e reguladores do desenvolvimento e dos caminhos das respectivas comunidades. Alguns e algumas tornam-se mesmo referência para outras comunidades ou até para o mundo, tal como o conhecemos e desejamos que evolua.

Partiu uma enorme e incontornável referência, Gonçalo Ribeiro Telles, um Homem.

Esperemos que a visão e o legado perdurem. Todos ficaremos melhor.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

OUTRA HISTÓRIA DE UM NINGUÉM

 

Era uma vez um rapaz chamado Ninguém. Como não será de estranhar no mundo dos Ninguéms, a vida do Ninguém era uma espécie de coisa nenhuma. Bem, na verdade na vida do Ninguém havia uma coisa muito importante, o Avô, as horas que ele passava com o Avô. A família, para além de lhe assegurar a sobrevivência pouca circunstância representava.

Desde que entrou na escola a vida do Ninguém não era assim coisa muito interessante. Não conseguia fazer as coisas que lhe pediam da mesma forma bonita e bem feita que a maioria dos colegas eram capazes. O Ninguém até se esforçava e achava que às vezes os trabalhos até estavam bem. Mas nunca lhe diziam isso, quase sempre falavam que não tinha graça ou que estava errado.

Com o tempo, o Ninguém aprendeu que não era mesmo capaz de fazer alguma coisa que fosse apreciada e deixava-se estar no seu canto, sem grandes sobressaltos, assim como se ninguém por ali estivesse.

Um dia, a Professora Habitual deixou de aparecer e veio uma Professora Nova. Como não conhecia os miúdos da turma pediu a cada um deles que falasse de uma coisa que gostassem da sua vida.

Enquanto ouvia os seus colegas o Ninguém ia ficando aflito, como falar de uma vida que quase não era, e, de repente, mesmo quando chegou à sua vez, lembrou-se, começou a contar a uma história, a última história que o Avô lhe tinha contado. Era uma história grande, como sabem os avós nunca têm pressa, e o Ninguém contava a história tal como o Avô a tinha contado. Ao contrário do habitual, na sala não se ouvia nada a não ser o Ninguém a contar a história que acabou mesmo em cima do fim da aula. Quando o Ninguém acabou, os seus colegas começaram a bater palmas e a Professora Nova disse-lhe que nunca tinha ouvido uma história tão bonita e tão bem contada.

O Ninguém, pela primeira vez pensou que era Alguém. Nessa noite nem dormiu direito, só via os colegas e a professora a ouvir com toda a atenção a história do Avô.

Se o Avô não tivesse partido no ano anterior haveria de ficar mesmo contente.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

NOTÍCIAS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

 

Devido a situações específicas existem muitas crianças e jovens para os quais, após avaliação multidisciplinar, é recomendada a atribuição de apoio por parte de auxiliares de educação em regime permanente. Ao que se lê no Público são múltiplas as situações em que esse apoio não está  acontecer.

De facto, no quadro legal estabelecido pelo “mágico” DL 54/2018, as equipas multidisciplinares que envolvem profissionais da área da saúde e da educação no âmbito  da definição do Relatórios Técnico-Pedagógico e o Plano Educativo Individual definido para cada aluno podem recomendar aquela atribuição a modo permanente.

Esse pedido é realizado em cada início de ano lectivo, mas a sua satisfação tarda levando a que, de acordo com a Associação Todos Pela Escola Pública, algumas centenas de alunos e famílias sintam enormes dificuldades. Muitos alunos estão em casa pois as escolas não têm recursos suficientes. Estas situações tem implicações significativas no desenvolvimento e no trajecto educativo destes alunos será previsível. A peça no Público sobre esta questão é elucidativa.

Por outro lado, apesar das alterações verificadas na portaria que estabelece os rácios de auxiliares nas escolas, estas ainda não têm recursos disponíveis para o apoio específico a estes alunos conforme refere Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas. Acresce que com alguma frequência uma parte destes auxiliares é colocada via Centros de Emprego  e não revela aptidão ou competência para estas funções conforme referem docentes e pais.

Assim como como compreendo as dificuldades das famílias e as dificuldades das escolas no quadro estabelecido que se vive, tenho mais dificuldade em perceber o entendimento do ME sobre a situação.

O tal “mágico” DL 54/2018 estabelece um elenco de medidas selectivas e ou adicionais de apoio à aprendizagem e inclusão a definir para cada aluno nos RTP e PEI.

Ora, segundo o ME na resposta ao Público, “os assistentes operacionais podem constituir um apoio ao trabalho dos docentes e técnicos especializados que apoiam os alunos, mas não constituem um apoio à operacionalização das medidas selectivas e adicionais”. A sério!?

É óbvio que face às dificuldades de algumas crianças e ao tempo que estão nas escolas, que o apoio permanente de um auxiliar de educação é um recurso indispensável à operacionalização de algumas dessas medidas.

E a consequência provável da falta estes recursos será, como o trabalho do Público evidencia, os problemas gerados às famílias e aos alunos.

Qual é a parte que não se compreende?

Assim como o “mágico” DL 54/2018 não é assim tão mágico não tendo realizado o milagre da inclusão, também temo que aquela ideia do ME de caminhar para a escola inclusiva de 2ª geração seja algo prematura pois a escola inclusiva de 1ª geração ainda atravessa grandes sobressaltos.

domingo, 8 de novembro de 2020

DA VITÓRIA DA DECÊNCIA

 

A decência venceu as eleições presidenciais dos Estados Unidos. Não, não é uma apreciação de natureza política. Não porque entenda que não tem significado político, mas porque, claramente e do meu ponto de vista, está para além das diferenças entre Republicanos e Democratas nos EUA.

Trata-se de uma leitura mais associada à ética, à moral, ao respeito pelo direito e pelos direitos, pela diversidade, pela ciência ou pela casa comum, a Terra.

Não é coisa pouca.

sábado, 7 de novembro de 2020

A MENINA QUE NUNCA TEVE UM BOM

 Na interessante entrevista do Professor Rui Correia ao I existe uma afirmação que merece atenção, “Tenho miúdos de dez anos que não têm quem lhes diga que valem alguma coisa". Fez-me também recordar uma história que já aqui contei e que retomo com esperança na vossa paciência, “ A história da menina que nunca teve um bom”.

Era uma vez uma menina chamada Maria. Tinha onze anos e não era muito bonita nem simpática. Há meninos e meninas que assim são.

A Maria também não era muito boa aluna, os colegas tinham sempre melhores notas que ela. E até se esforçava. Às vezes tinha dúvidas, os professores procuravam ajudar mas o tempo não era muito pelo que ainda ficava sem saber algumas coisas. Queria e tentava fazer os trabalhos de casa, mas o pai e a mãe não sabiam ajudar porque tinham andado poucos anos na escola e o irmão era mais novo.

A Maria era uma menina triste.

Um dia a directora de turma perguntou-lhe porque estava assim quase sempre. Escondida atrás de uns olhos grandes, esses sim muito bonitos mas tristes disse baixinho: “Eu nunca tive um bom, nem sequer um bom pequeno. Gostava tanto de ter um”.

Umas aulas depois, a professora avisou que a turma teria novo teste.

A Maria, como sempre, ficou assustada mas depois de o fazer ficou mais tranquila, achou que tinha corrido bem.

Quando a professora devolveu os trabalhos a Maria viu escrito em letras gordas, bom, bom grande. Os olhos que já eram grandes, ficaram maiores, até ela se sentia mais crescida.

Os pais contaram aos vizinhos. A Maria podia não ter sempre notas tão altas como outros colegas mas já tinha tido um bom. Um bom grande, aquele bom grande.

A professora também ficou Grande. Grande e amiga.

Felizmente os professores sabem que avaliar não é apenas classificar e muitos estão atentos às Marias que nunca tiveram um bom e que muitas vezes se perdem na transparência do anonimato, do destino.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

TREPAR AO CAQUIZEIRO

 

O Professor Carlos Neto tem na edição em papel da Visão uma entrevista que merece leitura. A propósito do seu recente livro, “Libertem as crianças”. Carlos Neto retoma a sua ideia de sempre, a importância do brincar no desenvolvimento saudável das crianças e do pouco tempo que muitas crianças têm para brincar, sobretudo ao ar livre.

Também neste espaço e na intervenção profissional com professores, técnicos ou pais tenho defendido a mesma ideia, a importância do brincar e do brincar ao ar livre.

Talvez por isso foi-me solicitada uma pequena colaboração numa peça que acompanha a entrevista.

Desta vez contei com a ajuda do meu neto Grande, o Simão. Com 7 anos é especialista em brincar. Eu, mais uma vez, insisti que brincar é a actividade mais séria que as crianças realizam, na qual põem tudo quanto são e preparam o tudo que virão a ser. Também disse que é urgente, mesmo nos tempos duro que vivemos, ou talvez por isso mesmo, que aumentarmos a brincadeira ao ar livre. É importante ter menos tempo as crianças em casa, muitas vezes com um ecrã por companhia a que acresce o tempo sem fim que passam na escola.

O jornalista lembrou-me que também está inibido o acesso e a utilização dos equipamentos dos parques infantis (quando existem equipamentos e parques) e que existem escolas em que quase não existe tempo de recreio.

Aqui o Simão “pediu-me” para dizer que na escola dele se brinca no recreio e para dizer que se pode brincar na rua sem ser com os equipamentos do parque infantil. Disse-me que adora subir às árvores no Parque da Paz, subir às árvores aqui no Monte e nesta altura do ano trepar pelo caquizeiro grande e apanhar caquis para a sobremesa. Empoleirado nas árvores, acho que ele se sente “dono do mundo” e “dono” dele seguramente. A autonomia e a confiança são justamente alguns dos muitos dividendos do brincar.

Podes ficar descansado Simão, eu disse isso ao jornalista.

Deixem as crianças brincar. A sério.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

SEMENTES DE MAL-ESTAR

Parece-me interessante o texto de João Ruivo, “E há violência na escola?”, divulgado no Ensino Magazine analisando o contexto de emergência de comportamentos anti-sociais em crianças e jovens designadamente, bullying e a sua variante cyberbullying.

(…)

Nesta sociedade que tarda a reencontrar-se e onde até a imbecilidade humana tem direito à globalização; onde, infelizmente, não sobram exemplos de coerência e de ética; onde as famílias se constituem mais com base no “ter” do que no “ser”; onde se permite que todos os dias se destrua um pouco mais deste planeta que é única casa de todos, não é de estranhar que desde muito cedo (92% das mães americanas inquiridas admitiram que os seus filhos, com menos de seis anos de idade, já tinham acesso e brincavam na internet…) se incrementem as tentações totalitárias, desumanas e irracionais e que estas se sobreponham ao prazer de brincar, de conviver e de aprender com o “outro”.

(…)

Na verdade, por alteração dos estilos de vida, do quadro de valores e de muitas outras variáveis existem contextos familiares pouco saudáveis e reguladores do crescimento e desenvolvimento educativo de muitas crianças com evidentes reflexos no seu comportamento em diferentes contextos incluindo a escola.

Acresce que pelo mesmo conjunto de razões crianças e jovens passam um tempo muito significativo no contexto escolar que sem que existam recursos disponíveis para acomodar as questões levantadas pelos comportamentos em sala de aula e em todo o espaço escolar.

A actual situação, com impacto fortíssimo no bem-estar emocional e psicológico, é, naturalmente mais um indesejável contributo para um cenário que levanta inquietações e exige atenção e intervenção.

Sem querer desculpar ou branquear comportamentos creio que o quotidiano de muitas crianças, adolescentes e jovens está inquinado com sementes de mal-estar que por um qualquer "gatilho" ou circunstância, por vezes irrelevantes, se transformam em comportamentos anti-sociais ou mesmo violência dirigida a quem quer que seja, às vezes contra si próprios.

Vai sendo tempo de nos interrogarmos sobre os tempos que vivemos, os valores que os informam, os modelos de discursos e comportamentos que evidenciamos, estou a escrever isto e atento ao que se passa nos EUA, dos anónimos às elites e desde logo com as crianças, os atropelos à dignidade e direitos, a ausência de projectos de futuro que lhes permitam a esperança e substituam o vazio em que muita gente, mais velha ou mais nova, vive. É neste caldo de cultura que nascem e germinam as sementes de mal-estar.

Estas sementes estão “incubadas” muitas vezes desde a infância e adolescência e podem ir passando despercebidas até que o peso interior leva à “necessidade” da sua exteriorização e um qualquer “gatilho” vai detonar um conjunto de comportamentos que podem mesmo ser de extrema violência e de que, frequentemente, temos notícia ou conhecimento.

Sabemos que a prevenção e programas de natureza comunitária, socioeducativa, têm custos, mas importa ponderar entre o que custa prevenir e os custos posteriores da pobreza, exclusão, problemas de saúde mental, delinquência continuada ou da insegurança nas comunidades.

É essencial uma atenção precoce e permanente atenção às pessoas, ao seu bem-estar, tentando detectar, tanto quanto possível, sinais que indiciem o risco de enveredar por um caminho que se percebe como começa, mas nunca se sabe como acaba.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

EXPLICAÇÕES

De acordo com o que se lê no JN, de uma forma geral está a verificar-se um aumento da procura dos centros de estudos e de explicações mais cedo que o habitual.

Este aumento tende a acontecer mais no segundo e terceiro períodos, mas, provavelmente, devido à forma como acabou o ano lectivo passado e o impacto no trajecto escolar de muitos alunos a que acrescem as actuais preocupações, a procura por ajuda fora da escola está já ser significativa.

Como também é claro, o mercado é assim mesmo, a oferta é variada e, certamente, o custo também. Andar na proximidade de muitas escolas ajuda a perceber essa abundância da oferta” recorrendo a múltiplas designações, “Centros de Estudo”, “Sala de Estudos”, “Academias”, “Ginásios”, etc., que provavelmente terão mais efeito “catch” no sentido de atingir o “target”.

O mercado está sempre atento.

Apesar de nada ter contra a iniciativa privada, desde que com enquadramento legal e regulada, várias vezes tenho insistido no sentido de se entender como desejável que os apoios e ajudas de que os alunos necessitam fossem encontrados dentro das escolas e agrupamentos, ou seja, os centros de estudo, deveriam estar nas escolas. O impacto no sucesso dos alunos minimizaria, certamente, eventuais custos em recursos que, aliás, em alguns casos já existem dentro do sistema.

Esta minha posição radica no entendimento de que a procura “externa” de apoios, legítima por parte das famílias, tem também como efeito o alimentar da desigualdade de oportunidades e da falta de equidade como sucessivos relatórios nacionais e internacionais referem e de que aqui já falei.

A ajuda externa ao estudo como ferramenta promotora do sucesso não está ao alcance de todas as famílias pelo que é fundamental que as escolas possam dispor dos dispositivos de apoio suficientes e qualificados para que se possa garantir, tanto quanto possível, a equidade de oportunidades e a protecção dos direitos dos miúdos, de todos os miúdos.

De uma vez por todas, é necessário contenção contenção e combate ao desperdício, mas em educação não há despesa, há investimentos.


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

JUNTA-TE AOS BONS E SERÁS COMO ELES, JUNTA-TE AOS MAUS E SERÁS ...

No Expresso está uma referência a um trabalho de investigadores da Nova School of Business and Economics sobre a constituiçãodas turmas nas escolas públicas. Os dados confirmam uma realidade conhecida e assumida.

Foi analisada a informação relativa à origem socioeconómica (estudantes que recebem apoio da acção social escolar), à naturalidade (aluno ou pai nascidos no estrangeiro) e percurso académico (se já chumbou alguma vez) sobre todos os alunos matriculados no sistema de ensino público 2006/2007 e 2016/2017.

Num número significativo de escolas, um quarto, o trajecto académico dos alunos é um factor determinante para a sua colocação numa turma.

Em média, do 5.º ao 9.º ano, 20% dos alunos com pelo menos um “chumbo” são colocados em turmas de “repetentes” embora a situação varie de escola para escola, em 25% esta decisão é aplicada no máximo a 10% dos alunos com retenções e em 25% envolve um terço dos alunos com repetência.

As dimensões origem socioeconómica e naturalidade têm menor peso que a retenção na decisão sobre a colocação dos alunos.

Muitas vezes aqui tenho referido esta questão, os critérios de constituição das turmas e a sua eventual relação com o desempenho dos alunos, na escolha e nos efeitos.

Começando pelos efeitos.

Como é conhecido está em desenvolvimento o Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar iniciado em 2016 no âmbito do qual 663 agrupamentos definiram planos de redução do insucesso.

Em Fevereiro foi divulgado o relatório “Acção Estratégica das 50 escolas que mais diminuíram o insucesso escolar no ensino básico” elaborado pela equipa do Programa.

Como seria de esperar de um programa de promoção do sucesso escolar o insucesso está em queda nos agrupamentos envolvidos e este relatório analisou as 50 escolas com melhores resultados.

Registando o abaixamento do insucesso temos a questão mais curiosa. A maioria das escolas que mais reduziram o insucesso recorre à criação de Grupos Transitórios de Heterogeneidade Mitigada o que parecendo significar “grupos de nível” não significa, é mesmo um Grupo Transitório de Heterogeneidade Mitigada, uma designação notável e um excelente exemplo de flexibilidade conceptual.

Também registei na altura a defesa que vi fazer deste novo enunciado assentando num estranho entendimento de que a “heterogeneidade mitigada” promove e defende a heterogeneidade natural e óbvia constituindo-se aliás, como uma ferramenta de educação inclusiva, outro exemplo de flexibilidade conceptual.

Por outro lado, o recurso a esta “modalidade” parece ser apresentado como variável explicativa para o maior sucesso o que não consegui encontrar no Relatório. Aliás, como na altura referi, nada no Relatório, como na literatura, sustenta uma relação de causa efeito entre Grupos Transitórios de Heterogeneidade Mitigada e desempenho escolar.

Como disse, creio ser bastante improvável que a variável “homogeneidade” de um grupo de alunos (ainda que mitigada) possa ser a “explicação” dos bons resultados pois é algo que não existe, não se conhecem dois alunos iguais.

Na verdade, se a homogeneidade fosse uma ferramenta de sucesso, todas as turmas que existem em muitas escolas constituídas por alunos “descamisados”, maus alunos, repetentes, malcomportados, desmotivados, etc., teriam de imediato sucesso, seriam homogéneas.

Na altura e partilhando a experiência pessoal, referi que eu próprio, entre o 1º ano do liceu e o 7º ano, frequentei quase sempre turmas de "heterogeneidade mitigada", também conhecidas por "turmas de repetentes e/ou indisciplinados" porque ainda não tinha sido inventada a inovação.

A verdade é que os alunos não têm sucesso significativo só por estar juntos por nível de desempenho, comportamento ou condição socioeconómica. Esta medida já existiu em tempos com as turmas de nível ou com outras designações e quem conhece a realidade sabe que os resultados dos alunos "maus" continuaram, genericamente maus, o povo diz junta-te aos bons e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior do que eles.

Provavelmente ainda alimenta de forma significativa o processo de tomada de decisão agora evidenciado.

Mais uma vez, o que fomenta o sucesso de alunos em situação mais vulnerável não é estar ao lado de alunos as mesmas características.

O que fomenta o sucesso é mais e melhor apoio a alunos e a professores.

O que fomenta o sucesso é um grupo de alunos com uma dimensão razoável que permita mais e melhor diferenciação da intervenção em sala de aula tal como a evidência sustenta.

O que fomenta o sucesso é o recurso a dispositivos como o "par pedagógico" ou outras medidas, apoios de natureza tutorial, por exemplo. Aliás, constam do elenco de metodologias no Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar e que algumas escolas acederam a recursos que lhes permitem ter mais docentes. Outras não, como sabemos.

Que se generalize esta tipologia de medidas através dos Projectos das escolas e menos através de sucessivos e inúmeros Projectos, Programas, Experiências, etc., vindos de fora das escolas e teremos melhor trabalho e mais sucesso de alunos e professores.

Não é sustentável afirmar que a variável que contribuiu para os bons resultados atingidos é a homogeneidade (mitigada ainda assim) das turmas.

É ainda perigoso que esta leitura possa legitimar, tal como trabalho Nova parece comprovar, decisões na constituição das turmas, guetizando alunos sem resultados se as outras variáveis não forem consideradas. Como muitas vezes não são. Aliás, a caixa de comentários da imprensa quando esta questão é abordada é elucidativa.

Quanto ao impacto, parece óbvio que a diversidade é sempre preferível a uma falsa homogeneidade. As atitudes de discriminação negativa não apresentam nenhuma espécie de vantagem pessoal ou social, guetizam, estigmatizam e promovem quer nos bons, quer nos maus, uma relação desconfiada e tensa facilitadora de problemas.

As dificuldades escolares gerem-se com apoios e recursos que terão certamente de ser diferenciados, mas não podem, não devem, implicar a criação de “guetos” para os “maus” ou de "condomínios" para os "bons".

Aliás, não deixa de ser curioso, para ser simpático, que na Conclusão do Relatório se enuncia como uma fragilidade os “Constrangimentos decorrentes da heterogeneidade do público escolar decorrente do alargamento da escolaridade obrigatória para 18 anos e da aplicação de medidas promotoras de equidade e inclusão e educativas;”

Notável. De facto, esta ideia de ter os alunos na escola até aos 18 anos, promover equidade e igualdade de oportunidades e uma educação escolar que acomode a diversidade dos alunos só atrapalha.

Mas é mesmo isto que se diz. Em que ficamos?

Finalmente, o quadro regulador da constituição das turmas aponta “critérios de natureza pedagógica definidos no projecto educativo” da escola, devendo ser “respeitada a heterogeneidade das crianças e jovens, podendo o director, ouvindo o Conselho Pedagógico, atender a outros critérios que sejam determinantes para a promoção do sucesso e redução do abandono escolar”.

Pois, falta a regulação.