quarta-feira, 25 de novembro de 2020

A INDOMESTICÁVEL VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, DE NOVO

 O calendário das consciências assinala hoje o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres que como é habitual merece referências na imprensa e o lançamento de mais uma campanha, #eusobrevivi, com o apoio de várias organizações. Antes de umas notas alguns indicadores que num quadro de pandemia e tempos de confinamento e isolamento em casa têm maior expressão.

Segundo a cooperativa de intervenção social Coolabora a operar na Cova da Beira, Fundão, Covilhã e Belmonte, este ano foram registados até 31 de Outubro 103 novos casos de violência doméstica.

A União das Mulheres Alternativa e Resposta, através do seu Observatório de Mulheres Assassinadas refere que até 15 de Novembro tinham sido assassinadas 16 mulheres em num contexto de relações de intimidade.

De acordo com a dados da plataforma da justiça Citius, os tribunais registaram até Setembro 24709 denúncias, um aumento de 8% relativamente ao mesmo período de 2019.

Acresce que o mundo da violência doméstica é bem mais denso e grave do que a realidade que conhecemos, ou seja, aquilo que se conhece, apesar de recorrentemente termos notícias de casos extremos, é "apenas" a parte que fica visível de um mundo escuro que esconde muitas mais situações que diariamente ocorrem numa casa perto de si.

Por outro lado, para além da gravidade e frequência com que continuam a acontecer episódios trágicos de violência doméstica e como recorrentemente aqui refiro, é ainda inquietante o facto de que alguns estudos realizados em Portugal evidenciam um elevado índice de violência presente nas relações amorosas entre gente mais nova mesmo quando mais qualificada. Muitos dos intervenientes remetem para um perturbador entendimento de normalidade o recurso a comportamentos que claramente configuram agressividade e abuso ou mesmo violência.

Importa ainda combater de forma mais eficaz o sentimento de impunidade instalado, as condenações são bastante menos que os casos reportados e comprovados, bem como alguma “resignação” ou “tolerância” das vítimas face à situação de dependência que sentem relativamente ao parceiro, à percepção de eventual vazio de alternativas à separação ou a uma falsa ideia de protecção dos filhos que as mantém num espaço de tortura e sofrimento. Felizmente este cenário parece estar em mudança, mas demasiado lentamente. Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores sociais presentes em cada época.

Torna-se ainda necessário que nos processos de educação e formação dos mais novos possamos desenvolver esforços que ajustem quadros de valores, de cultura e de comportamentos nas relações interpessoais que minimizem o cenário negro de violência doméstica em que vivemos. A educação e o desenvolvimento que alimenta constitui a ferramenta de mudança mais potente de que dispomos.

É uma aposta que urge e tão importante como os conhecimentos curriculares. Percebe-se também por estas questões a importância da abordagem do universo da “Cidadania e Desenvolvimento” nas escolas e para todos os alunos.

Entretanto, torna-se fundamental a existência de dispositivos de avaliação de risco e de apoio como instituições de acolhimento acessíveis para casos mais graves e, naturalmente, um sistema de justiça eficaz e célere.

A omissão ou desvalorização desta mudança é a alimentação de um sistema de valores que ainda “legitima” a violência nas relações amorosas, que a entende como “normal”.

Tudo isto tem como efeito a continuidade dos graves episódios de violência que regularmente se conhecem, muitos deles com fim trágico.

Apesar  da natureza e gravidade fora do comum dos dias que vivemos e para os quais não estávamos preparados, talvez seja de não esquecer questões como estas que devastam o quotidiano ou a vida de muita gente.

1 comentário:

Rui Ferreira disse...

Uma autêntica POUCA VERGONHA.