segunda-feira, 31 de agosto de 2020

75 ANOS É MUITO TEMPO

 

75 anos é muito tempo. A música e as palavras de Sérgio Godinho entraram na minha vida em 71. Não mais saíram.

Entre tanta e tão diversificada produção a lembrança de uma das primeiras canções e uma das muitas de que não nos esquecemos, “Romance de um dia na estrada”.



 

domingo, 30 de agosto de 2020

NOITE DE VERÃO

 

Há dias assim, bonitos, compridos e cumpridos. Bem menos do que gostávamos.

Ontem à noite, já bem depois do jantar, um dia não são dias e as férias são para isso mesmo, eu e o neto grande, o Simão, disse que queria ir ver o luar como temos feito nas últimas noites aqui no Monte. 

As noites de Lua grande aqui no Alentejo e com céu limpo são particularmente bonitas, proporcionam uma claridade e um ambiente que nas zonas urbanas não é tão observável.

Em vez de ficarmos perto da casa com as luzes apagadas o Simão perguntou se podíamos dar uma volta grande ao Monte, passar pelos pomares, pela horta, ver os pinheiros gigantes que estão lá no alto, enfim, uma volta inteira. O Tomás já tinha recolhido, era viagem para gente mais crescida e partimos.

Para maior surpresa os seis gatos que cá vivem foram caminhando connosco, ora atrás, ora mais à frente.

Tudo era espanto, as sombras que projectávamos apesar de ser de noite, os barulhos dos grilos e das cigarras, um mocho lá ao longe, os cães do Montinho que ladravam de nos ouvir, a tentativa de encontrarmos a Estrela Polar, o rasto e a luz do avião que se percebia lá bem em cima no céu.

A viagem acabou no telheiro.

Avô, gostei mesmo desta volta ao Monte assim de noite.

Neto, eu também.

E dormiu um sono inteiro e grande.

 

sábado, 29 de agosto de 2020

O ANO LECTIVO ESTÁ QUASE A COMEÇAR, RISCOS E RESPOSTAS

 Nas actuais circunstâncias e a três semanas do início das aulas as dúvidas de pais e alunos, professores, direcções e técnicos são muitas. Não é estranho, aliás, o contrário é que surpreenderia.

As tutelas, educação e saúde, vão deixando perceber intenções e orientações que sendo importantes parecem insuficientes.

Hoje foi divulgado que crianças integradas e comprovadamente em situações de risco face à Covid-19 podem beneficiar de apoio educativo em casa e condições especiais de avaliação entre outras medidas estando a ser ultimado um quadro de apoios próximo do que existe para alunos crianças problemas do foro oncológico.

No entanto, muitas outras questões sempre tendo por base o risco, preocupam pais e professores.

Julgo que seria desejável e possível ir, melhor, ter ido mais longe e termos nesta altura mais e melhor informação.

Sei que a questão da evolução da pandemia será de grande imprevisibilidade. Por outro lado creio que estão identificados os riscos, quer para alunos e famílias, quer para profissionais.

Parece claro que até ao limite, as actividades lectivas das crianças mais novas, pré-escolar, 1.º e ciclo e eventualmente 2.º ciclo bem como de alunos com necessidades especiais deveriam ser presenciais.

Tal orientação, envolve o assumir de riscos, sabemos quais, o que não sabemos, eu não sei e creio que a generalidade dos pais não sabe, é o que faremos conforme o que for acontecendo.

Dito de outra maneira, creio que seria importante numa perspectiva de tranquilidade que as escolas soubessem e divulgassem tão cedo quanto possível os planos e as respostas previstas para as situações que poderão vir a ocorrer.

Julgo que será um entendimento consensual que voltar a um dispositivo de confinamento como em Março só numa situação limite, os efeitos podem ser devastadores. Também será consensual que não é possível desenhar respostas de risco zero. Também ainda me parece ser consensual que se conheçam em cada agrupamento ou escola as respostas a mobilizar para os riscos que já estão identificados.

Será pedir muito?


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O CARTEIRO

 

Li na Visão que a Autoridade Nacional de Comunicações decidiu impor aos CTT a redução do preço no serviço postal universal por falhas nos indicadores de qualidade nos serviços.

Também sou dos que sinto que demasiado frequentemente existem atrasos e menor eficiência nos serviços, noto, por exemplo na recepção de assinaturas, sim, ainda tenho assinaturas em papel. A leitura de alguma imprensa em papel é rotina de que não me separo.

É lamentável a perda de qualidade dos serviços a que talvez não seja estranha a nacionalização dos CTT.

Em sucessivos inquéritos realizados em Portugal sobre os níveis de confiança dos portugueses em diferentes classes profissionais mostrava os carteiros eram um dos grupos em quem mais os portugueses confiavam.

É provável que cartas e postais de natureza pessoal estejam, lamentavelmente, em vias de extinção. Parecem-me mais inteligentes e bonitas que os e-mails, não estão tão sujeitas  a infecções virais, a "forwards" tontos e impessoais e à complementar praga de "junke" e-mail. São os carteiros que as trazem e que, em muitos locais, mais do que imaginamos quando vivemos em zonas urbanas, conhecem os destinatários e prestam um serviço que é bem mais do que a entrega de correspondência.

Quando penso nos carteiros sempre recordo com alguma saudade o Sr. Gonçalves, o carteiro da minha zona quando eu era adolescente. O Sr. Gonçalves que já partiu há alguns anos, era um homem de grandes bigodes, forte, tinha que o ser para transportar aquele enorme saco de cabedal castanho, e amigo da gente nova. Era uma figura. Vou partilhar um segredo e peço que mantenham a devida reserva. Durante algum tempo, o Sr. Gonçalves e eu tivemos um acordo. Ele mostrava-me os postais que vinham do liceu dirigidos ao meu pai com as notas e as faltas e eu, quando o encontrava à tarde e de vez em quando, pagava-lhe uma cerveja na tasca do meu tio. Já vos tenho dito que não fui um aluno brilhante, longe disso, e no que respeita ao comportamento, é melhor nem falar. A cumplicidade com o Sr. Gonçalves no sentido de, por amor filial que compreenderão, proteger o meu pai de notícias menos agradáveis, era conseguida, eu acho, porque ele, no fundo, acreditaria que talvez eu não fosse um caso perdido. E não era, ele entendia de miúdos.

E eu gostava do carteiro, do Sr. Gonçalves.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

FAMÍLIA PRECISA-SE. URGENTE!

 

O JN apresenta uma peça que merece atenção. Há dez anos que existe na lei a figura do apadrinhamento civil com o objectivo de proporcionar uma ambiente familiar a crianças institucionalizadas e que não têm projectos de adopção.

Temos ainda mais de 7 000 menores institucionalizados e ao longo destes dez anos o número de apadrinhamentos tem sido baixíssimo. Em 2019 as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens propuseram seis crianças para apadrinhamento estando quatro casos já homologados em tribunal. Este número é o mais baixo dos últimos três anos.

O mentor da lei, Guilherme de Oliveira afirma "Há dez anos, não havia quem tivesse dúvidas sobre a pertinência do apadrinhamento civil" no entanto a situação é bem diferente da esperada.

A situação não surpreende e alguns especialistas explicam a pouca adesão a este modelo pela falta de informação sobre o mesmo, incluindo profissionais que desempenham funções nesta área. Existem várias dezenas de crianças que estão institucionalizadas e que reúnem condições para o apadrinhamento civil.

Por outro lado importa considerar também como obstáculo a inexistência de incentivos às famílias que apadrinhassem crianças.

De facto, desde o início se levantou a dúvida de que o facto da lei não prever incentivos às famílias que apadrinhassem crianças institucionalizadas poderia suscitar fraca adesão. Prevaleceu o entendimento de que não seria desejável "pagar" algo que, entende-se, será da natureza dos afectos e dos valores.

Na verdade a questão é complexa. É certo que já existem famílias de acolhimento que recebem temporariamente crianças durante processos de "reabilitação" das famílias biológicas, verificando-se situações em que o acolhimento dura até ao limite legal, 21 anos. Estas famílias recebem um montante pecuniário pelo "serviço" prestado às crianças.

Embora entenda as posições que recusam incentivos pecuniários às famílias, penso que seria de considerar a sua existência sendo que os "padrinhos" poderiam prescindir desses incentivos. Também é de considerar que o peso das instituições é significativo e tal como noutras áreas apoia-se menos individualmente cidadãos e famílias e canalizam-se recursos paras as instituições, por vezes, muitas vezes com aumento de custos.

A questão é que temos de insistir na desinstitucionalização das crianças por múltiplas e bem diversificadas razões. Como exemplo, um estudo realizado pela Universidade do Minho sugere que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.

A conclusão não questiona, evidentemente, a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção ou outros dispositivos como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos.

Apesar de alguma evolução, ainda temos um elevado número de crianças institucionalizadas, muitas das quais sem projectos de vida viáveis pese o empenho dos técnicos. Neste universo, acresce a dificuldade enorme de algumas crianças em ser adoptadas devido a situações como doença, deficiência, existência de irmãos ou uma idade já elevada. Assim, muitas crianças estarão mesmo condenadas a não ter uma família.

Neste cenário, são altamente desejáveis diferentes modalidades que permitam que crianças, sem possibilidade de vivência nas suas famílias biológicas e sem condições de adopção, cresçam em contextos de natureza familiar mesmo que para tal se fosse necessário considerar a existência de incentivos de natureza económica pois, como há algum tempo referia uma técnica do Centro de Direito da Família e do Observatório Permanente da Adopção, "Se uma criança for desinstitucionalizada à custa do apadrinhamento civil já terá valido a pena".

Como ouvi a Laborinho Lúcio "só as crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas pelos seus pais”. Na verdade, muitas crianças não chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas e outras nem oportunidade têm de ser adoptadas e terem pais, ou padrinhos, à sua beira.

Por outro lado, em muitas circunstâncias, citando Betelheim, "L'amour ne suffit pas".

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

SAUDADES DA ESCOLA

 

Há dias coloquei aqui um texto a propósito de uma referência ao meu neto grande, o Simão, prestes a começar o 2º ano numa escola pública, que quando passámos junto da escola me disse, “tenho tantas saudades da minha escola”.  E é verdade, eu sei que tem, a generalidade dos miúdos terá, é lá o seu mundo nestas idades e a escola em casa, para ele e para muitos, não foi uma experiência muito positiva.

Como também aqui referi, com regularidade e quando falamos de escola ele pergunta se vai haver escola da outra ou ainda é a do ipad. O Simão foi dos miúdos para quem a escola ficou mesmo a distância não gostou, não quer e insiste que a “outra” escola é que é a que ele gosta. E nós percebemos que assim seja e por que razões assim é. Sem nenhuma certeza vamos conversando tendo como cenário a ideia de que em Setembro não terá a escola do ipad “com links” que ele odeia, mas a da sala de aula com a Professora e Colegas que ele adora.

Aliás e como seria previsível no 1º ciclo, dados de um trabalho hoje divulgado realizado pela DECO junto de pais e encarregados de educação sugerem, entre outros indicadores a ter em conta, que, de acordo com os pais, 84% dos miúdos terão sentido saudades da escola e 91% terão manifestado saudades dos colegas.

É ainda de considerar que os pais referiram como particular aspecto negativo as dificuldades nos apoios a alunos com necessidades especiais.

Apesar das dificuldades expressas os pais manifestaram reconhecimento pelo trabalho desenvolvido pelos professores.

Mais uma vez se acentua a necessidade de que dentro dos limites e num quadro de riscos tão controlados quanto possível, não existe risco zero, tenhamos aulas presenciais em Setembro, sobretudo no 1.º e 2.º ciclo e envolvendo os alunos com necessidades específicos com níveis de autonomia e literacias bem menores a situação é verdadeiramente preocupante.

Estamos a poucas semanas do início das aulas e as dúvidas e receios de professores e pais são muitas para além da imprevisibilidade da situação de saúde pública teremos pela frente.

No entanto e como escrevi, as certezas são mais evidentes. Sem mais recursos, digitais e humanos, mas suficientes e colocados nas escolas em tempo oportuno, só o esforço gigantesco que foi realizado no final do ano lectivo para criar a resposta de emergência e que merece sempre reconhecimento, não vai chegar para conduzir esta geração de alunos, sobretudo os mais novos e os alunos com necessidades específicas, num percurso educativo de qualidade e tão bem-sucedido quanto possível.

Nos últimos dias tem sido divulgada alguma apreensão relativamente a recursos humanos, técnicos e auxiliares, mas também de docentes apesar da colocação mais cedo. É ainda pública a inquietação com a disponibilização de recursos informáticos e de acessibilidade a alunos e escolas.

Como tenho afirmado, depois do ano lectivo mais estranho na vida dos alunos teremos o ano lectivo mais importante, não podemos falhar.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

PELA NOSSA SAÚDE

 

O programa solidário Abem, desenvolvido pela Associação Dignitude em articulação com autarquias e instituições sociais implantado em 20 distritos, 155 concelhos e envolvendo mais de 900 farmácias procura disponibilizar os medicamentos necessários a famílias que não conseguem assumir o seu custo.

Actualmente são beneficiadas cerca de 16 000 pessoas, um aumento de 50% face a 2019.

Para além das questões de saúde, a perda de rendimentos das famílias tem sido e continuará ser, e esperemos que não se agrave, a consequência mais pesada da actual situação. Muito provavelmente, este número estará verdadeiramente abaixo do número de pessoas com recursos insuficientes para aceder a medicação imprescindível.

Estamos numa tempestade perfeita, os efeitos sociais e económicos da pandemia, bem como os efeitos na saúde, atingem sobretudo os mais vulneráveis e entre estes os idosos, um grupo numeroso e debilitado e, portanto, mais necessitado de ajuda médica.

Face a indicadores desta natureza, sempre recordo Michael Marmot, reconhecido especialista em saúde pública, que há algum tempo esteve em Portugal e afirmou que todas as políticas podem, ou devem, ser avaliadas ponderando os seus impactos na área da saúde.

Eu diria que também podem, ou devem, ser considerados os impactos em áreas como educação, apoios sociais ou justiça, áreas que, tal como a saúde são cruciais para a vida das pessoas, sobretudo das mais vulneráveis.

Pela nossa saúde.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

NOTÍCIAS DA EDUCAÇÃO

 

Na imprensa de hoje duas notas relativas a matérias do mundo da educação que merecem referência por razões diferentes, o aumento significativo de alunos candidatos ao ensino superior e as preocupações das direcções de escolas e agrupamentos com a insuficiência e qualidade dos recursos digitais para alunos e escolas.

Conforme já se antecipava pelo volume de candidaturas na primeira semana e segundo dados divulgados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior candidataram-se 62 675 estudantes na 1ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior público. Trata-se do número mais alto desde 1996 e significa mais 11 384 alunos que em 2019.

Se forem consideradas todos os mecanismos de acesso e incluindo o ensino privado o MCTES estima que tenhamos cerca de 90 000 alunos no ensino superior no próximo ano lectivo.

Importa agora que tenhamos condições e recursos para minimizar o risco de abandono dados os custo elevados para estudantes e famílias que o ensino superior implica e que se agravaram, designadamente na situação de estudantes deslocados.

Este aumento é na verdade uma boa notícia, a qualificação é um bem de primeira necessidade e a grande ferramenta de construção de projectos de vida bem-sucedidos.

Como há dias escrevia, é fundamental insistir em que não temos licenciados ou qualificação a mais, temos desenvolvimento a menos e daí alguma dificuldade na absorção de mão-de-obra qualificada. Continuamos a ter necessidade de reflectir sobre a rede e a oferta de qualificação, corrigindo assimetrias e ajustando a oferta não só em função da empregabilidade, mas não esquecendo o papel do ensino superior e da investigação na promoção do desenvolvimento em todas as áreas do conhecimento.

Uma segunda referência para a notícia do DN relativa à preocupação dos directores de escolas e agrupamentos face aos prometidos equipamentos informáticos para alunos e escolas, bem como a melhoria dos recursos de acessibilidade.

Sabe-se que o Programa de Estabilização Económica e Social prevê uma dotação de 400 milhões de euros destinados à aquisição de computadores e ligação à Internet para as escolas públicas, a incrementar a transição digital como lhe chamam.

Foi ainda divulgado que a iniciativa Escola Digital, para além da compra de computadores e de serviços de ligação à internet para escolas e alunos, tem ainda como objectivos desenvolver a “capacitação digital dos docentes” e a desmaterialização dos manuais escolares.

Numa primeira fase serão os alunos abrangidos pela Acção Social Escolar.

Numa altura em que as incertezas sobre como se iniciará o próximo ano lectivo, cujo arranque está a menos um mês, são muitas as escolas preparam a possibilidade de recorrer mesmo que parcialmente a ensino não presencial pelo que a aposta em recursos digitais vai no caminho certo.

Não possuo dados que me permitam a avaliar da suficiência da verba, mas considerando que se destina à aquisição de equipamentos e dispositivos de acesso à net para milhares de alunos e, certamente dezenas ou centenas de escolas, à promoção da “capacitação digital dos docentes” e a ainda à desmaterialização dos manuais, me pareça claramente aquém das necessidades para resposta imediata aos milhares de alunos que ficaram mais distantes das escolas no ano lectivo que agora termina.

A desejada e promovida “Escola Digital” exige recursos e em tempo oportuno sob pena de se alimentar desigualdade e risco de exclusão.

Mas ainda falta “imenso tempo” até ao regresso às aulas, não precisamos de ter pressa que, como sabem, é inimiga da perfeição.

Resta esperar que a pandemia nos seja leve.

domingo, 23 de agosto de 2020

A COMICHÃO DO CRESCER

 

Não é raro que a entrada na pré-adolescência e adolescência seja acompanhada pelo aparecimento de uma irritante comichão decorrente das "borbulhas" do crescimento. Ainda menos raramente, os pais dos miúdos que entram nesta fase desenvolvem também uma fortíssima comichão resultante dos comportamentos nem sempre esperados e entendidos dos seus filhos.

A esta fase de comichão em filhos e pais corresponde também com alguma frequência a uma espécie de afastamento e abaixamento dos níveis de comunicação recíprocos o que, naturalmente, acentua a comichão que sendo ela irritante, acaba por deixar todos muito irritados.

Como também é previsível nestas idades, os miúdos tendem a procurar os anti-histamínicos junto dos amigos que, claro, também atravessam um período em que sentem a comichão do crescer e "padecem" das mesmas inquietações.

Por outro lado, os pais, muitas vezes assustados, não sabem como procurar os miúdos e viram-se, na melhor das hipóteses para outros pais com comichão e falam deles, dos filhos, não falando com eles, os filhos. Na pior das hipóteses, os mais assustados escondem, tentam esquecer e não sentir a preocupação com a comichão, esperando que a simples passagem do tempo, que se deseja rápida, a cure.

Talvez fosse de recordar que a comichão do crescer é algo de absolutamente natural, como talvez se lembrem nem sempre é fácil crescer, ficar diferente.

Assim, a gente mais crescida, mais experiente, estando atenta aos sinais, pode contribuir para tranquilizar os miúdos, não se assustando, dando-lhes espaço e tempo para perceber que vão ser capazes de lidar com a comichão do crescer.

Apesar das circunstâncias, este tempo de férias pode ter propriedades anti-histamínicas, é de aproveitar.

sábado, 22 de agosto de 2020

A MÁSCARA

 

A propósito das máscaras do nosso descontentamento.

Era uma vez um homem, chamava-se Feliz. Não havia hora ou circunstância em que não tivesse um sorriso no rosto. Mostrava, invariavelmente, um ar de boa disposição. Tornou-se extremamente popular entre as pessoas.

Por vezes, quem o conhecia melhor julgava perceber uma sombra de tristeza no olhar. Mas era coisa que rapidamente desaparecia e não chegava para tirar o sorriso da cara do Feliz.

É certo que de quando em quando algumas pessoas se sentiam incomodadas com aquele ar de permanente felicidade que lhes lembrava, por oposição, os seus momentos de tristeza. Mas a tudo, o Feliz parecia imune e mantinha-se sempre com o seu imperturbável sorriso nos lábios.

Um dia deixou de aparecer sem que alguém soubesse o motivo. Uma das pessoas, sabendo onde ele morava, tentou saber notícias.

Um vizinho informou. Tinham assaltado o Feliz e roubaram-lhe as máscaras.

Desde então, recusa-se a sair de casa. Não sabe como encarar o mundo.

Na verdade, a máscara sempre foi um adereço essencial para encarar o mundo, agora por razões acrescidas.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O BRINQUEDO PERFEITO

 

Leio no Observador que a Lego tem em produção peças em braille que prevê estarem disponíveis em Portugal em 2021. O material destinado para ser utilizável com mais eficiência e “gozo” por crianças com deficiência visual será produzido em seis línguas incluindo o Português. Parece uma iniciativa interessante porque alarga a mais crianças a utilização de uma material que me parece particularmente positivo como, aliás, já aqui tenho referido.

O meu primeiro contacto com este brinquedo foi há quase 60 anos, uma garagem com dois pequenos “carochas” que um amigo do meu pai me trouxe de uma viagem ao estrangeiro. Naquele dia o LEGO começou a fazer parte da família, até hoje.

Do meu ponto de vista é o brinquedo perfeito. A sua utilização é intuitiva permitindo que o manual de instruções ou a supervisão de alguém só possa ser necessária para réplicas mais sofisticadas. Os bebés com peças LEGO na versão Duplo nas mãos rapidamente entendem a forma como se brinca. Dispensa manual de instruções a não ser para replicar construções.

Contrariamente a muitos outros brinquedos, os LEGO é mesmo interactivo, qualquer de nós, mais pequeno ou mais velho, transforma um monte avulso de peças coloridas naquilo que entender. Por isso uma outra característica, a imaginação, é o limite de uma brincadeira com peças LEGO que a alimentam e estimulam.

É também um brinquedo que permite “trabalhar” em conjunto na construção das mais variadas estruturas.

Uma outra característica muito interessante é o que agora se chama de “amigável”. Quando pegamos em algumas peças LEGO é difícil evitar começar a brincar e experimentar o que aquele conjunto de peças permite fazer.

Os meus netos, cada um de sua forma e capacidade, já estabeleceram uma relação de amizade com os Legos, aliás, boa parte das peças que estão lá por casa já acompanharam o meu filho. Começaram nos Duplos, passaram pelas peças clássicas e o Simão realiza já projectos sem fim como os materiais mais sofisticados desafiando regularmente as minhas capacidades.

Por vezes, os adultos, esquecem este notável brinquedo e deixam-se seduzir por coisas de bem pior qualidade mas que, aparentemente, são muito modernos e atractivos.

Lamento, digo-o aqui muitas vezes e contrariando algumas vozes que por aí andam, que os miúdos brinquem pouco, com o LEGO, por exemplo.

É que as pessoas, algumas pessoas, esquecem que brincar é a coisa mais séria que as crianças fazem.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

BRINCAR NA RUA

 

Recebi uma mensagem por correio electrónico que me levou a retomar uma questão que muitas vezes aqui tenho abordado, a importância do brincar e, em particular, as brincadeiras na rua ou, numa versão mais dentro do jargão da educação, as actividades de ar livre.

Nos tempos que atravessamos, após um longo e penoso período de confinamento e ainda longe de uma situação de tranquilidade talvez ganhe ainda mais sentido reflectir sobre a normalidade a queremos voltar, também nesta matéria.

Somos dos países da Europa em que adultos e crianças menos desenvolvem actividades no exterior contrariamente, por exemplo ao que se verifica nos países nórdicos. É verdade que esses países têm habitualmente climas bastante mais amenos que o nosso mas, ainda assim, poderíamos ter durante mais tempo crianças e adultos a realizar actividades no exterior. Por princípio e sempre que possível, a área curricular Estudo do Meio, mas não só, poderia ser também Estudo no Meio.

Muitas experiências, incluindo em Portugal, sugerem múltiplos benefícios para as crianças, inúmeras vantagens para as crianças, desenvolvem maior autonomia, maior consciência ambiental e competências em dimensões como bem-estar emocional, a partilha de emoções, a autonomia, a autoconfiança, auto-regulação, a criatividade ou o pensamento crítico.

Embora consciente das questões como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua, talvez com a supervisão de velhos que estão sozinhos as comunidades e as famílias conseguissem alguns tempos e formas de ter as crianças por algum tempo fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã.

Como muitas vezes tenho escrito e afirmado, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a autonomia, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como fala Almada Negreiros. A brincadeira, a rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente, os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.

Como li no material que me enviaram há que controlar o eventual perigo que é diferente do risco, as crianças também “aprendem” a lidar com o risco

Talvez, devagarinho e com os perigos e riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por pouco tempo e não todos os dias.

É, pois, importante que todos os que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam como “guide line” para a sua intervenção a promoção do brincar.

Os mais novos vão gostar e faz-lhes bem.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O VELHO QUE LIA DE OLHOS FECHADOS

 

Era uma vez um Velho que passava todas as tardes de sol sentado num banco do jardim a ler. Bom, nas tardes de sol de Inverno pois no Verão sentava-se num outro banco à sombra, mas sempre com um livro de companhia.

Muitas das pessoas que passavam pelo parque já conheciam o Velho leitor. Um dia, dois miúdos aproximaram-se do banco do Velho atrás de uma bola que lhes tinha fugido e quando olharam para ele repararam que tinha o livro bem seguro à sua frente mas estava com os olhos fechados.

Um dos miúdos disse a rir-se, "Está a dormir".

Não, miúdo, não estou a dormir, estou a ler.

A ler Velho?! Mas com os olhos fechados as pessoas não podem ler.

Querem que vos leia a história que comecei mesmo agora a ler?

Está bem Velho, mas que não seja muito grande, temos que ir embora daqui a pouco, para fazer ainda os trabalhos da escola.

Então o Velho pegou no livro, acomodou-se no banco para que os miúdos se sentassem, fechou os olhos e leu a história mais bonita que aqueles miúdos já tinham ouvido, embora deva dizer-se que os miúdos já não ouvem muitas histórias.

Quando acabou, os miúdos, ainda espantados foram à sua narrativa com uma história para contar, a do Velho que lia de olhos fechados.

Talvez venham a aprender que os Velhos felizes lêem histórias mesmo de livros que não sabem ler. Por isso, podem ter os olhos fechados.

 

Temo que possamos estar num tempo em que os Velhos têm mais dificuldades para se sentirem felizes. Não é fácil ser velho.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

DOS AUXILIARES DE EDUCAÇÃO. DE NOVO

 

No contexto de preocupações com o início do próximo ano lectivo são recorrentes as referências às necessidades de auxiliares de educação em número que permita assegurar o melhor possível o cumprimento das regras sanitárias que possibilitem a manutenção das escolas em funcionamento presencial. Importa que até ao limite do possível tal possa acontecer.

Por outro lado, para além das funções acrescidas neste contexto excepcional, nunca é demais sublinhar a importância das funções deste grupo profissional e a necessidade de rácios adequados, qualificação, segurança e carreira que minimizem problemas que têm vindo a ser regularmente colocados por pais, professores e directores.

Seria desejável que a gestão desta matéria considerasse as especificidades das comunidades educativas e não se seguissem critérios cegos de natureza administrativa que são parte do problema e não parte da solução.

Para além da variável óbvia, número de alunos, é necessário que se contemplem critérios como tipologia das escolas, ou seja, o número de pavilhões, a existência de cantinas, bares e bibliotecas e a extensão dos recreios ou a frequência de alunos com necessidades especiais.

Mais uma vez, os auxiliares de educação, insisto na designação, desempenham e devem desempenhar um importante papel educativo para além das funções de outra natureza que também assumem e que exige a adequação do seu efectivo, formação e reconhecimento. No caso mais particular de alunos com necessidades educativas especiais e em algumas situações serão mesmo uma figura central no seu bem-estar educativo, ou seja, são efectivamente auxiliares de acção educativa. A situação que atravessamos e se manterá no próximo ano lectivo potencia a importância do seu trabalho.

A excessiva concentração de alunos em centros educativos ou escolas de maiores dimensões não tem sido acompanhada pelo ajustamento adequado do número de auxiliares de educação. Aliás, é justamente, também por isto, poupança nos recursos humanos, que a reorganização da rede, ainda que necessária, tem sido feita com sobressaltos e com a criação de problemas.

As alterações de natureza funcional que a segurança em termo de saúde exige reflectem-se, naturalmente na necessidade de auxiliares de educação em número suficiente.

Os auxiliares educativos cumprem por várias razões um papel fundamental nas comunidades educativas que nem sempre é valorizado incluindo na estabilidade da sua contratação e formação situação de precariedade descontinuidade na no exercício profissional.

Com frequência são elementos da comunidade próxima das escolas o que lhes permite o desempenho informal de mediação entre famílias e escola, têm uma informação útil nos processos educativos e uma proximidade com os alunos que pode ser capitalizada importando que a sua acção seja orientada, recebam formação e orientação e que se sintam úteis, valorizados e respeitados.

Os estudos mostram também que é nos recreios e noutros espaços fora da sala de aula que se regista um número muito significativo de episódios de bullying e de outros comportamentos socialmente desadequados. Neste contexto, a existência de recursos suficientes para que a supervisão e vigilância destes espaços seja presente e eficaz. Recordo que com muita frequência temos a coexistir nos mesmos espaços educativos alunos com idades bem diferentes o que pode constituir um factor de risco que a proximidade de auxiliares de educação minimizará. No próximo ano lectivo a questão dos intervalos e a proximidade dos alunos com a necessidade de cumprimento de regras de protecção em matéria de saúde potencia a necessidade dos recursos.

Considerando tudo isto parece essencial o contributo dos auxiliares de educação para a qualidade dos processos educativos. Assim, é imprescindível a sua presença em número suficiente, que se mantenham nas escolas com estabilidade e que sejam formados, orientados e valorizados na sua importante acção educativa. Nos tempos que vivemos é ainda mais importante.

Qual será a parte que não se compreende?

A falta de auxiliares de educação, evidentemente.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

VAI ESTAR TUDO BEM, TUDO ESTABILIZADO

Quem vai passando por aqui sabe que tenho referido algumas inquietações sobre o próximo ano lectivo. Primeiro pelo elevado grau de incerteza face à situação de saúde pública que teremos nos primeiros meses e também pela experiência do ano lectivo que acabou.

No entanto, hoje sinto-me bastante mais tranquilo após ter lido o artigo da Secretária de Estado da Educação no DN, “Educação: Os caminhos da estabilidade”.

É evidente que não se pode adivinhar o futuro, lá chegaremos certamente, mas estamos preparados para o que vier.

Os professores já estão colocados e, portanto, não teremos as dificuldades que frequentemente se registam no início das aulas.

As famílias já receberam os vouchers de acesso aos manuais escolares permitindo que alunos o que e professores tenham o material de suporte às aprendizagens.

As escolas, mercê das oportunas orientações da tutela e no âmbito da sua ampla autonomia, desenharão os planos adequados às suas necessidades e dos seus alunos numa lógica de diferenciação que, como se sabe, é uma medida universal. Nesta matéria registo a importância atribuída e sublinhada à consolidação do domínio da escrita por parte dos alunos o que me pareceu bastante oportuno. Os professores, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade, poderiam não ter bem presente que é fundamental aprender a ler e a escrever.

Também registo o esforço que ME realizou para “garantir que as escolas e os agentes educativos disponham dos recursos humanos e das condições adequadas para que a Escola Pública possa cumprir a sua missão indeclinável”.

Certamente por falta de espaço, não existe a referência explícita à dotação das escolas das escolas e agrupamentos de psicólogos e outros técnicos, de auxiliares e assistentes técnicos, competentes, suficientes e presentes desde o início do ano ou ao facto de todos os alunos e escolas já possuírem os recursos em matéria de equipamentos informáticos, software e de acessibilidade necessários ao cumprimento da “missão indeclinável”. 

Existem alguns pormenores como o número previsto de técnicos ser inferior ao número de escolas e agrupamentos, a apresentação dos planos por parte das escolas decorrer quase até final de Agosto e as aulas começarem em Setembro, a tal transição digital ser faseada, a provável falta de docentes em alguns grupos ou outras minudências ou as dificuldades que muitas escolas terão para acomodar as orientações estabelecidas em matéria de segurança sanitária, mas como sabem, “Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce”.

Vamos então aguardar com toda a tranquilidade pelo início das aulas. Tudo estará a postos.

PS - Sei que a comunicação em política sugere a importância de mensagens optimistas, mas a seriedade e a necessidade de confiança sugerem a importância de mensagens realistas.

domingo, 16 de agosto de 2020

MAIS ALUNOS NO ENSINO SUPERIOR

 

Está a decorrer a primeira fase do concurso de acesso ao ensino superior. Considerando igual período do ano passado verifica-se um aumento de cerca de 51% nas candidaturas já realizadas.

No ano que terminou também se verificou uma subida que contrariou o decréscimo do ano anterior e a confirmar-se esta subida no final de todo o processo de candidatura, trata-se, de facto, de um dado muito positivo.

O aumento de número de estudantes que se candidatam ao ensino superior que se tem vindo a verificar dever-se-á segundo alguns especialistas a maior sucesso no ensino secundário e na diversificação das trajectórias de formação com acesso ao ensino superior, a melhoria na condição económica de algumas famílias e ao aumento de confiança e valorização da formação superior.

Espero que estas razões continuem a sustentar a busca de formação de nível superior.

É importante recordar que, contrariamente ao muitas vezes se entende, as famílias portuguesas enfrentam um dos mais caros sistemas de ensino superior da UE e da OCDE.

Por outro lado, de há uns anos para cá tem vindo a instalar-se a perigosa e falsa ideia de que "somos um país de doutores" e de que não compensa estudar. É fundamental insistir que não temos licenciados ou qualificação a mais, temos desenvolvimento a menos e daí alguma dificuldade na absorção de mão-de-obra qualificada. Importa também repensar a rede e a oferta, corrigindo assimetrias e ajustando a oferta não só em função da empregabilidade mas não esquecendo o papel do ensino superior e da investigação na promoção do desenvolvimento em todas as áreas do conhecimento.

Na verdade, apesar da recuperação ao nível do abandono, temos uma das mais baixas taxas de pessoas com formação superior entre os países da OCDE. Aliás, talvez não consigamos cumprir o objectivo de formação superior estabelecido na UE para 2020.

Neste quadro, saber que está a aumentar o número de estudantes, incluindo jovens com situações de maior vulnerabilidade, que pretende frequentar o ensino superior é mesmo uma boa notícia.

sábado, 15 de agosto de 2020

SER PEQUENO

 

Dado o inexorável movimento dos dias cumpro hoje mais um marco de uma estrada que já vai longa. No ano passado passei a integrar a tribo dos “seniores” ou dos “idosos”. Este ano já integro também a tribo dos “reformados”. Vou ter que me habituar.

No entanto e como habitualmente afirmo, prefiro recordar que na minha terra era costume, creio que ainda é muito frequente em Portugal, referir que quando se celebra um aniversário, se é "pequeno". Assim sendo, hoje sou "pequeno", coisa que não é nada fácil imaginar e muito menos conseguir, mas é mais amigável que “idoso” ou “ e “reformado”.

Embalado por essa ideia lembrei-me de quando era mesmo pequeno, tentação que parece inevitável cada vez que ficamos mais velhos. Lembrei-me de como brincava, ao que brincava e com quem brincava, quase sempre na rua. Ainda há dias falava destas brincadeiras com os meus netos e o Simão, do alto dos seus sete anos neste tempo mostrava dificuldade e estranheza face às brincadeiras e aos materiais que tínhamos para brincar. Não eram fáceis aqueles tempos.

Depois lembrei-me de como brincava com o meu filho, quando ele era pequeno, grandes viagens em grandes brincadeiras.

Agora brinco com os meus netos, são eles os pequenos. Muito a gente se diverte. E havemos de nos divertir ainda mais a brincar, é já daqui a pouco, estão cá no Monte e temos muitos “projecto” e “sistemas” para ir fazer. Palavra de avô.

A este propósito e como já vos tenho dito e, certamente, alguns estranharão, acho que por estes dias os miúdos brincam pouco. Não estou falar dos dias da pandemia, são atípicos e esperamos muito o seu fim.

Eu sei que os tempos são diferentes e os estilos de vida mudaram significativamente. No entanto, não me parece que sejam razões suficientes. A questão é, creio, de outra natureza.

As brincadeiras já não brincadeiras, passaram a chamar-se actividades. E os miúdos têm muito pouco tempo para brincar, é quase todo destinado a actividades, muitas actividades, que, dizem, são fantásticas, fazem bem a tudo e mais alguma coisa, promovem competências extraordinárias e é preciso ser excelente.

Deixem os miúdos brincar, faz-lhes bem, é mesmo a coisa mais séria que fazem e, como sabem, é importante lidar desde pequeno com coisas sérias.

Acho que hoje nas brincadeiras com os meus netos ainda nos vamos divertir mais. É que hoje … hoje sou pequeno, ainda melhor nos entendemos.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

ESTEVE BEM

 O Presidente da República vetou a proposta aprovada no Parlamento com votos do “centrão”, PSD e PS, que visava aumentar o número de assinaturas necessário para levar petições a discussão na Assembleia da República.

Esta decisão seguiu-se a um outro veto que parece importante, a redução do número debates no Parlamento com a presença do Primeiro-ministro também aprovada pelo PS e PSD.

As decisões de veto do PR parecem-me tão positivas quanto negativas são as propostas em causa elaboradas com um despudor que não surpreende, mas inquieta. Na altura em que estiveram em debate, as posições de PS e PSD em sua defesa foram patéticas e elucidativas da cultura política e cívica de boa parte daquela gente.

O escrutínio regular das políticas públicas no Parlamento com a presença dos seus responsáveis, sobretudo do chefe do governo, tal como a participação cívica dos cidadãos também através de iniciativas de propostas legislativas são peças próprias e essenciais no funcionamento das democracias representativas das sociedades abertas.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

"TENHO TANTAS SAUDADES DA MINHA ESCOLA"

 

Há dias passava com os netos junto à escola do Simão que começará agora o 2º ano e oiço-o, “tenho tantas saudades da minha escola”.  Eu sei que tem, a generalidade dos miúdos terá, é lá o seu mundo nestas idades e a escola em casa, para ele e para muitos, não foi uma experiência muito positiva.

Por isso me preocupa que escola teremos em Setembro. Como o Simão dizia há algum tempo e aqui contei, ele quer que seja “escola da outra”, não desta dentro do ecrã.

Vem esta introdução a propósito do Relatório divulgado pela Organização Internacional do Trabalho, "Youth and COVID-19: impacts on jobs, education, rights and mental well-being", segundo o qual “65% dos jovens afirmam ter aprendido menos desde o início da pandemia devido à transição da sala de aula para as aulas online durante o confinamento”.

Se considerarmos ainda os efeitos nos alunos mais novos, sobretudo de 1.º e 2.º ciclo e os alunos com necessidades específicos com níveis de autonomia e literacias bem menores a situação é verdadeiramente preocupante.

Estamos a um mês do início das aulas, as dúvidas e receios de professores e pais são muitas para além da imprevisibilidade da situação de saúde pública que teremos em no Outono.

As certezas são mais evidentes. Sem mais recursos, digitais e humanos, mas suficientes e colocados nas escolas em tempo oportuno, só o esforço gigantesco que foi realizado no final do ano lectivo para criar a resposta de emergência e que merece sempre reconhecimento, não vai chegar para conduzir esta geração de alunos, sobretudo os mais novos e os alunos com necessidades específicas, num percurso educativo de qualidade e tão bem-sucedido quanto possível.

E o que nasce torto …

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

QUE DIZEM OS RESULTADOS DO EXAMES (Take 2)

 

Foi divulgada pelo Júri Nacional de Exames a distribuição das classificações por disciplina nos exames nacionais da 1ª fase. Como era de esperar considerando a subida significativa das médias que já era conhecida, também o número de provas com 19 e 20 valores subiu muito significativamente.

De 2557 provas avaliadas com 20 valores e de 5929 avaliadas com 19, 8486 no conjunto em 2019, passámos em 2020 para 3477 provas com 20 e 12073 com 19, um total de 15550 com notas máximas. A subida é mais clara se considerarmos que face ao número total de exames em 2020 tivemos 6.8% com notas máximas e 2.6% em 2019.

Em condições, por assim dizer, normais, estes dados seriam motivo de satisfação. No entanto, são motivo de dúvida face ao que podem significar como é notório na peça do Público sobre estas matéria que apresenta diferentes leituras.

Tal divergência de entendimentos também não se estranha, os exames de há muito constituem matéria de divergência, seja pelo seu número, tipologia, conteúdos e grau de dificuldade percebida, organização e extensão ou outra dimensão que possa advir de uma qualquer agenda.

A verdade é que numa perspectiva de desenvolvimento é sempre importante analisar resultados e procurar ajustamentos.

Como escrevi quando foram divulgadas as médias por disciplina o problema é como poderemos “ler” os resultados mais positivos desta época de exames que podemos considerar atípica.

Os alunos terão mais conhecimentos que em épocas anteriores?

Decorrem da realização de um menor número de provas o que, segundo alguns, dará mais tempo para a preparação?

Decorre de um eventual menor grau de dificuldade?

Decorre da estrutura das provas com a introdução de questões de resposta opcional?

A ordenação dos alunos de acordo com estes resultados tem equidade e robustez fiáveis?

Cumprem de forma adequada a sua função essencial, regulação externa e ordenação dos alunos?

Lamento mas, apesar de também ter alguns "achismos", não tenho resposta definitiva para todas estas questões. No entanto tenho a certeza que na próxima época de exames voltaremos a elas. É o destino, independentemente das circunstâncias.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

O TRANSPORTE PARA A ESCOLA, O TRANSPORTE PARA O FUTURO

Como é sabido modelos de desenvolvimento económico e social centralizados e inadequados têm promovido a litoralização e desertificação do interior. Por outro lado, as políticas públicas não contrariaram este processo, antes pelo contrário, sustentam-no fechando os equipamentos sociais, incluindo as escolas, uma das formas evidentes de fixação das pessoas. Desta forma criou-se assim um ciclo sem fim, as pessoas partem, fecham-se equipamentos, as pessoas não voltam ou continuam a partir. E este processo de definhamento vai-se alastrando

Torna-se fundamental e urgente a coragem e a visão para outros caminhos.

No que respeita ás escolas, tenho-o afirmado com frequência, a concentração excessiva de alunos em centros educativos ou mega-agrupamentos não ocorre sem riscos, tornam-se mega-problemas. Para além de aspectos como distância a percorrer, tipo de percurso e apoio logístico, importa não esquecer que escolas demasiado grandes são mais permeáveis a insucesso escolar e exclusão, absentismo, problemas de indisciplina e outros problemas de natureza comportamental como bullying.

Neste cenário, a decisão de encerrar escolas não deve ser vista exclusivamente do ponto de vista administrativo e económico, não pode assentar em critérios generalizados esquecendo particularidades contextuais e, sobretudo, não servir como tudo parece servir em educação, para o jogo político.

Neste contexto não se estranha a notícia de hoje do JN sobre os custos enormes que as autarquias assumem com os transportes das crianças para as escolas e a probabilidade de que devido às questões de saúde pública os custos aumentem com a necessidade aumento de percursos necessários.

É, tudo tem custos. No entanto e para além do ajustamento que ainda poderia ser realizado nas políticas de desenvolvimento e qualificação do interior, os custos da distância a que os alunos ficar da escola são muito mais significativos.

Os últimos meses mostraram como uma escola à distância pode aumentar a distância para a escola. A verdade é que a distância para a escola está associada à distância para o futuro. É que este passa pela escola.

domingo, 9 de agosto de 2020

ESTES DIAS QUENTES


Estes dias muito quentes levam-me a pensar como seria bom que pudesse existir um Sol que ajudasse alguns miúdos  e jovens que, tal como as suas vidas, se transformaram num bloco de gelo.
De como nesses miúdos ou jovens, quais icebergues, a sua parte mais visível é a agitação, a inquietação, a violência e uma desesperança que leva a lugar nenhum ou, às vezes, a lugares donde se não volta.
Provavelmente, esta agitação, a adrenalina dos limites, transformar o mal sentir no mal fazer é a busca de um calor, o movimento aquece, onde se queimem e exorcizem as bruxas, as fadas más que por negligência, incompetência, destino ou má-sorte, lhes  tecem uma vida, sem vida, de sentido único. Sem sentido.

sábado, 8 de agosto de 2020

EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO

 

Em linha com múltiplos estudos que tem desenvolvido no âmbito da saúde e desenvolvimento dos mais novos, o Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto divulgou recentemente dois novos trabalhos com indicadores que merecem séria atenção ainda que não sejam surpreendentes. As crianças que nascem e vivem em agregados familiares de baixo nível de escolaridade e contextos sociais e económicos mais vulneráveis quando atingem os sete e os dez anos evidenciam alterações de natureza biológica com indicadores de saúde mais fragilizadas potenciando o desenvolvimento posterior de doenças e natureza diversa.

Como disse, os dados não são surpreendentes mas são muito importantes.

Está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação, conhecimento e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.

No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer.

A escola, no seu sentido genérico, não tem responsabilidade directa por décadas de políticas urbanísticas, sociais, educativas, económicas que produzem exclusão e pobreza.

A escola, no seu sentido genérico, não tem responsabilidade directa na manutenção de estereótipos, preconceitos ou representações sociais sobre pessoas ou grupos.

No entanto, é pela escola que também passam as consequências deste cenário e as alterações positivas que desejamos que aconteçam.

Assim, não sendo por milagre, não sendo por acaso, não sendo por mistério, com recursos e visão a escola, cada escola, pode e deve fazer a diferença e contrariar o risco de insucesso e piores condições de vida que afectam sobretudo as crianças nascidas no lado menos confortável da vida.

Apesar de todas as dificuldades são possíveis trajectórias mais positivas e para mais cidadãos se as políticas públicas forem no seu conjunto mais adequadas e apontando mais nas pessoas e na qualidade de vida e menos em mercados desregulados que sustentam pobreza e exclusão.

Neste quadro e do meu ponto de vista, tantas vezes aqui afirmado, a questão central será a valorização da escola pública. Esta valorização deverá assentar em quatro eixos fundamentais, a qualidade considerando resultados, processos, autonomia e gestão optimizada de recursos, segundo eixo, qualidade para todos, a melhor forma de combater os mecanismos de exclusão e a desigualdade de entrada, terceiro eixo, diferenciação de metodologias, diferenciação progressiva e não prematura dos percursos de educação e formação e, quarto eixo, dispositivos de apoio oportunos suficientes e competentes às dificuldades de alunos e professores.

A Educação, o Conhecimento, a Formação são ferramentas de construção e distribuição de riqueza e bem-estar em múltiplas dimensões, incluindo a saúde.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A ESCOLHA DO CURSO

 

Como sempre tenho feito nesta altura ainda que um pouco mais cedo por motivos conhecidos, umas notas sobre a candidatura ao ensino superior. O processo que agora se inicia envolve uma primeira decisão que me parece de sublinhar, aceder a formação de nível superior, é uma decisão importante e positiva. Contrariamente ao que tantas vezes se ouve, não somos “um país de doutores”, antes pelo contrário, temos ainda um nível baixo de cidadãos com formação superior.

Apesar das circunstâncias excepcionais coloca-se a decisão, por muitos jovens já tomada certamente, sobre a escolha do curso e as eventuais dúvidas que daqui resultam.

Para esta escolha a questão mais colocada pode ser assim enunciada, os jovens deverão seguir a sua motivação e interesses ou a escolha deve obedecer ao conhecimento do mercado de trabalho, isto é, nível de empregabilidade, estatuto salarial e saídas profissionais tão abordadas pela imprensa nesta altura?

Para muitos de nós, provavelmente, a resposta será fácil, seja num sentido ou no outro. Alguns dirão que cada jovem deve, obviamente, seguir o seu desejo, o seu gosto, só assim se realizará. Ideia romântica e sem noção da realidade que corre o sério risco de desembocar no desemprego, dirão outros, para os quais a escolha deve ser racional, pragmática, realista, o jovem deve procurar uma formação que lhe garanta, tanto quanto possível, saída profissional e para isso deve "estudar" o mercado e assim proceder à escolha. Os primeiros acharão que este entendimento pode levar a um risco de frustração e desencanto que podem instalar-se em quem "faz o que não gosta".

Na verdade, não será fácil a escolha para muitos jovens a que acresce, frequentemente, a pressão familiar ou de outras pessoas para a "escolha acertada".

Dito isto, sou dos que entendem que cada um de nós deve poder escrever, tanto quanto as circunstâncias o permitirem, a sua narrativa, cumprir o seu sonho. Por outro lado, a vida também nos ensina que é preciso estar atento aos contextos e às condições que os influenciam, sabendo ainda a volatilidade e rapidez com que hoje em dia a vida acontece e rápida variabilidade dos mercados de trabalho.

Nesta perspectiva, parece-me importante que um jovem, sabendo o que a sua escolha representa, ou pode representar, nas actuais, sublinho actuais, condições do mercado de trabalho, faça a sua escolha assente na motivação ou no projecto de vida que gostava de construir e, então, informar-se sobre as opções, sobre as escolas e respectivos níveis de qualidade a que pode aceder para se qualificar. A plataforma Infocursos, entre várias outras fontes, pode ser uma ajuda.

Finalmente, do meu ponto de vista, boa parte da questão da empregabilidade, mesmo em situações de maior constrangimento, relativiza-se à competência, este é o ponto fulcral.

Na verdade, o que frequentemente me inquieta é a ligeireza com que algumas pessoas parecem encarar a sua formação superior, assumindo logo aqui uma atitude pouco "profissional", cumprem-se os serviços mínimos e depois logo se vê. A formação académica é mais do que um título que se cola ao nome, é um imprescindível conjunto de saberes e competências que sustentam um projecto de vida pessoal e profissional com melhores perspectivas de sucesso.

Mesmo em áreas de mais baixa empregabilidade, ou assim entendida, continuo a acreditar que, apesar dos maus exemplos que todos conhecemos, a competência e a qualidade da formação e preparação para o desempenho profissional, são a melhor ferramenta para entrar nesse "longínquo" mercado de trabalho.

Dito de outra maneira, maus profissionais terão sempre mais dificuldades, esteja o mercado mais aberto ou mais fechado.

Boa sorte e boa viagem para todos os que vão iniciar agora esta fase fundamental nas suas vidas.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

OUVIR OU ESCUTAR OS MIÚDOS

Na Visão online Clara Soares assina uma peça sobre uma temática interessante, a importância da escuta, da disponibilidade para ouvir, na qualidade da relação com os outros e na preservação da saúde mental.

A leitura levou-me a pensar no universo dos mais novos, dos seus comportamentos e da forma como os adultos, profissionais ou pais, lidam com eles.

É muito frequente em conversas com pais ouvir “queixas” no sentido de que as crianças falam muito alto, muitas vezes gritam, tornado difícil e cansativa a relação. Também em ambiente escolar se ouvem frequentemente referências a comportamentos da mesma natureza.

Também não é raro observar grupos de crianças em que predomina na relação um excesso de ruído, par além do saudável “barulho” que se espera e entende como natural nos mais novos. Há quem entenda, oiço com muita frequência, que este tipo de comportamento tem por causa a educação que levam, ou da falta dela. Não me parece que o problema seja de educação.

Eu creio que, com muita frequência, os miúdos gritam muito porque, por vezes, muitas vezes, os adultos parecem mais surdos, isto é, ouvem-nos, não podem deixar de os ouvir, mas não os escutam. Por isso, desatam a gritar a ver se alguém os escuta, lhes liga para recorrer um termo muito adequado, ficar ligado e não desligado. Aliás, existem mesmo alguns miúdos cuja voz raramente se escuta por mais alto que tentem falar.

O problema é que, muitas vezes, nem assim e a grande questão é que, do meu ponto de vista, a escuta é uma base para a ligação.

As múltiplas referências às dificuldades experienciadas durante o período mais pesado do confinamento, com toda família em casa, sublinham a importância da escuta como forma de manter ligações saudáveis, reguladas e reguladoras.

Este entendimento não tem rigorosamente a ver com superpais ou superprofessores. Tem apenas a ver com atenção, bom senso e regulação que pressupõe afecto, regras, limites e autonomia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

QUE DIZEM OS RESULTADOS DOS EXAMES NACIONAIS?

Conhecidos os resultados da 1ª fase dos exames nacionais regista-se uma subida significativa da avaliação em quase todas as disciplinas em que se realizou exame. A média subiu 3.3 valores em disciplinas como geologia, Biologia ou Geografia A, como também subiu 3.2 em Físico e Química e 1.8 em matemática A. Em Português a subida foi mais modesta, 0.2 valores
O IAVE já afirmou que procederá a uma análise profunda aprofundada destes resultados que julgo justificarem umas notas.
Em primeiro lugar importa considear que se tratou de uma época de exames atípica devido às circunstâncias que conhecemos. Realizaram-se exames em menos disciplinas e a tipologia dos exames também foi alterada com a introdução de questões opcionais. Esta situação, segundo algumas análises, pode contribuir para a subida das médias e até para resultados mais altos de alunos sem conhecimentos qua as suportem (Sociedade Portuguesa de Matemática).
Mesmo em circunstâncias mais habituais a análise dos exames, por exemplo do seu nível de dificuldade, estrutura ou conteúdos, e dos seus resultados raramente é consensual e também este ano, apesar da excepcionalidade, não foge à regra da diversidade de opiniões.
A existência de exames nacionais tem como função essencial sustentar a avaliação externa, uma ferramenta importante na regulação da qualidade, e ordenar os alunos face ao conhecimento demonstrado.
No caso do secundário esta segunda dimensão é sobrevalorizada pois acresce que a candidatura ao ensino superior é realizada basicamente através da média final do secundário em que a nota dos exames tem um peso importante. Esta nota pode regular o efeito da inflação na avaliação interna que algumas escolas simpáticas realizam, um fenómeno conhecido e inspeccionado.
Nesta perspectiva, como poderemos “ler” os resultados mais positivos desta época de exames.
Os alunos terão mais conhecimentos que em épocas anteriores?
Decorrem da realização de um menor número de provas o que, segundo alguns, dará mais tempo para a preparação?
Decorre de um eventual menor grau de dificuldade?
Decorre da estrutura das provas com a introdução de questões de resposta opcional?
A ordenação dos alunos de acordo com estes resultados tem equidade e robustez fiáveis?
Cumprem de forma adequada a sua função essencial, regulação externa e ordenação dos alunos?
Também não tenho resposta para estas questões, mas na próxima época de exames voltaremos a elas. É o destino.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

DA SÉRIE, SIM, ELES SÃO CAPAZES


No Público encontra-se um trabalho com base na entrevista a Inês Oliveira, estudante do ensino superior, diagnosticada com paralisia cerebral aos três anos. A Inês lançou um livro “Sentires Especiais” cuja narrativa elucida a exigência e constrangimentos de diferente natureza que caracteriza a vida de muitas pessoas com necessidades especiais e do que precisamos de caminhar numa estrada a que chamam inclusão.
Sendo importante que sejam divulgadas as realizações de pessoas, por outro lado, o teor de boa parte destas divulgações mostra um dos aspectos mais gravosos no quotidiano e qualidade de vida destas pessoas, sobretudo quando têm algum tipo de deficiência intelectual. Não acreditamos que sejam capazes, quando se percebe que são … é notícia, hoje trata-se da Inês Oliveira.
Algumas notas repescadas.
A verdade, mais uma vez e sempre, é que sem ser por magia ou mistério quando acreditamos que as pessoas, mais novas ou mais velhas, com algum tipo de necessidade especial, são capazes, não se "normalizam" evidentemente, seja lá isso o que for, mas são, na verdade, mais capazes, vão mais longe do que admitimos ou esperamos, mesmo tão longe como qualquer outra pessoa. Não esqueço a gravidade de algumas situações mas, ainda assim, do meu ponto de vista, o princípio é o mesmo, se acreditarmos que eles progridem, que eles são capazes de ... , o que fazemos, o que todos podemos fazer, provoca progresso, o progresso possível e níveis de realização significativos.
E isto envolve professores do ensino regular, de educação especial, técnicos, pais, lideranças políticas, empregadores e toda a restante comunidade.
No entanto, em algumas circunstâncias o trabalho desenvolvido com e por estes alunos é ele próprio um factor de debilização, ou seja, alimenta a sua incapacidade, numa reformulação do princípio de Shirky.
Tal facto, não decorre da incompetência genérica dos técnicos, julgo que na sua maioria serão empenhados e competentes, mas da sua (nossa) própria representação sobre este grupo de pessoas, isto é, não acreditam(os) que eles realizem ou aprendam. Desta representação resultam situações e contextos de aprendizagem e formação, tarefas e materiais de aprendizagem, expectativas baixas traduzidas na definição de objectivos pouco relevantes, que, obviamente, não conseguem potenciar mudanças significativas o que acaba por fechar o círculo, eles não são, de facto, capazes. É um fenómeno de há muito estudado.
Mais uma vez. A inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade) e Aprender (como qualquer pessoa para potenciar as suas capacidades adquirindo competências, qualificações e saberes). Estas dimensões devem ser operacionalizadas assentes em modelos de diferenciação justamente para que acomodem e respondam à diversidade das pessoas e promovam autonomia e autodeterminação.
É neste sentido que devem ser canalizados os esforços e os recursos que deverão, obrigatoriamente, existir. Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências noutras paragens, mas também por cá, mostram que não é utopia.
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

EDUCAÇÃO EM ALERTA VERMELHO, NÃO DÁ PARA ESPERAR


O último Expresso traz uma peça extensa sobre a questão grave do envelhecimento da classe docente e a urgente necessidade do seu rejuvenescimento que os efeitos múltiplos da pandemia também vieram sublinhar.
De registar e a peça cita que o guru António Costa Silva, convidado pelo Primeiro-ministro a elaborar uma “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030” sugere que se possa “investir num programa de reformas antecipadas negociadas com os professores mais idosos e alargar o recrutamento de novos professores jovens”.
O envelhecimento da classe docente não é um problema exclusivo do nosso sistema, mas é particularmente grave sendo que alguns países também afectados têm iniciativas já em desenvolvimento no sentido de o minimizar.
Recordando alguns dados de um trabalho desenvolvido pelo CNE a solicitação da Parlamento e que o Expresso também refere, até 2030 mais de metade do corpo docente, 57,8%, sairá para a aposentação. Esta previsão decorre do facto de 52,9% dos professores têm 50 ou mais anos de idade e apenas 1,1% tem menos de 35. Para além da elevada idade média, considerando os modelos de selecção e recrutamento, matéria incluída do estudo, é ainda significativo que, como também já era conhecido, em cinco anos a inscrição de alunos em cursos de formação para a docência baixou para metade.
Como escrevi várias vezes a este propósito, num país preocupado com o futuro este cenário faria emitir, como agora se usa, um alerta vermelho e agir em conformidade. Retomo notas que, lamentavelmente, continuam actuais e sobretudo preocupantes considerando o impacto no futuro próximo.
Recordo ainda um trabalho divulgado no final de 2018 pela OCDE, “Reviews of School Resources: Portugal 2018” ou dados divulgados pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência e em estudos do CNE que têm vindo a abordar o envelhecimento significativo da classe docente e as potenciais consequências negativas que se agravam a cada ano que passa.
Ao perfil dos docentes em termos de idade acresce que como é reconhecido em qualquer país, a profissão docente é altamente permeável a situações de burnout, estado de esgotamento físico e mental provocado pela vida profissional, associado a níveis pouco positivos de satisfação profissional. Também o estudo da OCDE refere aspectos desta natureza e numa classe envelhecida o risco é, obviamente, mais elevado.
Na verdade, este cenário só pode surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam na comunicação social perorando sobre educação e sobre os professores.
Também se sabe que as oscilações da demografia discente não explicam a saída de milhares de professores do sistema, novos e velhos, como também não explicam a escassíssima renovação, contratação de docentes novos. Sem estranheza, no universo do ensino privado é bastante superior a presença de docentes mais jovens.
Não esqueçamos ainda a deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. Acresce que sucessivas equipas ministeriais têm desenvolvido políticas que contribuem para a desvalorização dos professores com impacto evidente no clima das escolas e nas relações que a comunidade estabelece com estes profissionais. Os últimos tempos têm sido particularmente elucidativos.
Sabemos que os velhos não sabem tudo e os novos nem sempre trazem novidade. Mas também sabemos que qualquer grupo profissional exige renovação por diferentes razões incluindo emocionais, de suporte, partilha de experiência ou pela diversidade.
Com a previsível aposentação de milhares de professores num prazo relativamente curto teremos uma significativa falta de docentes. O problema é que muito pelo contributo de opinadores e por efeitos de algumas das políticas públicas em matéria de educação a profissão de professor perdeu capacidade de atracção como o trabalho do CNE também sublinha.
Parece clara a necessidade urgente de definir uma resposta oportuna e consistente a este trajecto. Pode passar por um programa de acesso voluntário a reformas antecipadas, mas obrigatoriamente terá de considerar a valorização da função docente.
Sabemos que os sistemas educativos com melhor desempenho são também os sistemas em que os professores são mais valorizados, reconhecidos e apoiados.
Não parece difícil perceber porquê.

domingo, 2 de agosto de 2020

OUVIR A VOZ


Justifica leitura a impressionante entrevista de Sara Rocha no Expresso, “Sou autista. É um alívio”.
(…)
(…)
Como tantas vezes aqui tenho escrito, a voz das minorias é sempre muito baixa, ouve-se mal. Existem variadíssimas áreas em que são significativas as dificuldades sentidas, designadamente saúde, acessibilidades, educação, apoio social, qualificação profissional e emprego. Neste contexto e sem surpresa a vulnerabilidade e o risco de exclusão são enormes.
Importa também sublinhar que os direitos fundamentais não podem ser de geometria variável em função de contextos ou hipotecados às oscilações de conjuntura ainda que tenhamos consciência da excepcionalidade destes tempos.
Parece necessário reafirmar mais uma vez que os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como lidam com os grupos mais vulneráveis e com as suas problemáticas. Este entendimento é tanto mais importante quanto mais difíceis são os contextos que se vivem.

sábado, 1 de agosto de 2020

OS TEMPOS DA EDUCAÇÃO DE INFÂNCIA


No CM encontra-se uma entrevista com Pedro Caldeira da Silva, pedopsiquiatra, chefe de equipa da Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia e subcomissário da Saúde para o Sistema Nacional de Intervenção Precoce da Infância da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, que merece reflexão. A questão abordada é o tempo excessivo que muitas crianças passam em creche ou jardim-de-infância e os riscos que aí podem advir.
Não considerando o actual período de férias, as circunstâncias excepcionais que vivemos levaram, primeiro ao encerramento das instituições e quando reabriram a uma frequência baixa. Não sabendo ainda como será exactamente o próximo ano a questão permanece.
O entrevistado, para além da sua experiência diária socorre-se de dados recentes que também tive oportunidade de aqui abordar e que retomo.
Segundo o estudo do CNE, “Estado da Educação 2018”, divulgado no final de 2019, em Portugal verifica-se um horário de permanência de crianças dos 0 aos 3 anos e dos 3 aos 6 em jardim-de-infância cerca de 10h mais elevado que a média europeia. 
As crianças até aos 3 estão, em média, 39,1 horas por semana, cerca de oito horas por dia, com amas ou em creches. As com três ou mais anos estão 38,5 horas semanais em instituição. No entanto, existem muitas crianças com tempo de permanência em cima das 12 horas diárias.
A média europeia é de 27,4 horas para os 0-3 e 29,5 horas para os 3-6 anos mais velhos.
Um outro dado relevante é que a oferta de creche de em Portugal, 36.7%, é ligeiramente superior à média quer da OCDE, 36.3%, quer da EU, 35.6%.
Este cenário parece-me traduzir uma das consequências da inconsistência das políticas de família, ou seja, baixo tempo de licenças parentais a colocar pressão nas famílias e na existência de respostas e estilos de vida e modelos de organização do trabalho que levam à permanência por tempo excessivo das crianças mais pequenas em instituição ou, caso dos 0 aos 3, também em amas.
Esta situação a que acresce a dificuldade em encontrar respostas e os custos elevados do acesso aos equipamentos, boa parte privada ou da rede social, dos mais altos no contexto europeu, veja-se o relatório "Starting Strong 2017", divulgado pela OCDE que já aqui citei, é reconhecidamente um dos factores associados à baixa natalidade e que, aliás, o relatório sublinha.
É recorrente a divulgação de informação referindo a existência de muitas crianças nas listas de espera de creches e jardins-de-infância no chamado sector social em que as mensalidades são indexadas aos rendimentos familiares. Esta situação afecta sobretudo zonas mais urbanas e a alternativa da resposta privada é inacessível para muitas famílias. Contribuindo para uma oferta clandestina bem conhecida mas não regulada.
Como tenho afirmado, não tenho certezas sobre a obrigatoriedade da frequência mas tenho a maior convicção no sentido de que garantir a universalidade do acesso à educação pré-escolar aos três anos e criar respostas de qualidade, acessíveis, logística e economicamente, às famílias para as crianças dos zero aos três anos é imprescindível e urgente. Acentuo também a ideia de que este período, até aos três anos, deveria também estar sob tutela do Ministério da Educação e não da Segurança Social pois o acolhimento das crianças deve estar abrangido por um forte princípio de intencionalidade educativa.
Sabemos como o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos é fortemente influenciado pela qualidade das experiências educativas nos primeiros anos de vida, quer familiares, quer institucionais, de pequenino é que ...
No entanto e como o Relatório do CNE mostra, começa a ser necessário repensar os tempos da escola, que caminha mesmo para "escola a tempo inteiro" com uma overdose que não é saudável para ninguém, mas uma consequência das dificuldades de concertação entre vida familiar e vida profissional de muitas famílias. Sobra para as crianças e este entendimento não tem qualquer juízo de culpabilização para a maioria das famílias que, evidentemente, não têm alternativa.
A situação que temos vindo a atravessar poderia ser uma oportunidade para reflectir sobre estes ”tempos” e o seu preenchimento, promovendo, por exemplo, um aumento significativo actividades ao ar livre que, obviamente, têm múltiplos benefícios.
Assim, existem áreas na vida das pessoas que exigem uma resposta e uma atenção que sendo insuficiente ou não existindo, se tornam uma ameaça muito séria ao futuro, a educação de qualidade para os mais novos, quer familiar, quer institucional insisto, é uma delas.
No entanto e mais uma vez, a educação pré-escolar é bastante mais que a “preparação” para a escola e não deve ser entendida como uma etapa na qual os meninos se preparam para entrar na escola embora se saiba do impacto positivo que assume no seu trajecto escolar. E ainda menos deve ser experienciada em situações de risco como alerta Pedro Caldeira da Silva.
Na verdade, as crianças estão a preparar-se para entrar na vida, para crescer, para ser. A educação pré-escolar num tempo em que as crianças estão menos tempo com as famílias tem um papel fundamental no seu desenvolvimento global, em todas as áreas do seu funcionamento e na aquisição de competências e promoção de capacidades que têm um valor por si só e não entendidos como uma etapa preparatória para uma parte da vida futura dos miúdos, a vida escola.
Este período, a educação pré-escolar, educação de infância numa formulação mais alargada, cumprido com qualidade e acessível a todas as crianças, será, de facto, um excelente começo da formação institucional das pessoas, dos cidadãos. Esta formação é global e essencial para tudo o que virão a ser, a saber e a fazer no resto da sua vida.