Com cada vez maior regularidade
surgem notícias sobre espaços de diferente natureza que em nome do sossego e da
tranquilidade proíbem ou, para ser mais simpático, condicionam o acesso a
crianças. Agora no Expresso encontra-se uma peça elucidativa relativa à
proibição de frequência de crianças em unidades de hotelaria, restaurantes ou
outros espaços. Também em Portugal se vai verificando este tipo de decisões que, de acordo com o trabalho do Expresso, não tem cobertura legal. No entanto, como
sabem, boa parte do nosso quadro legal é de natureza indicativa, não
imperativa.
Começa por se praticar de forma
discreta o condicionamento, corrige-se se despertar algum alarido até melhor
oportunidade, volta a insistir-se e alargam-se de mansinho as práticas de
“limpeza etária”.
Há uns atrás, creio que em 2011,
a Ryannair anunciou a intenção de voos proibidos a crianças que creio não ter
avançado.
No entanto existem unidades
hoteleiras ou de restauração que têm essa interessante atitude de proibir a
entrada a crianças.
Recordo que há uns tempos o
conhecido tudólogo Miguel Sousa Tavares também sustentou que as crianças nos
restaurantes podiam ser tão incomodativas como o fumo dos seus cigarros.
Estas posições parecem-me
interessantes. É de notar que logo surgem apoiantes e existe certamente um
nicho de mercado, já identificado evidentemente, quer viver longe das crianças
estando, por isso, disposto até a pagar um pouco mais só para não correr o
risco de levar com uns putos mal-educados a estragar a viagem, a estadia no
hotel ou spa, ou a refeição.
Talvez nas companhias aéreas se
possa pensar na hipótese de as crianças poderem viajar em condições especiais
como os animais de companhia.
Com é evidente, todos temos
histórias destas, não é uma experiência particularmente agradável ter como
companhia de viagem ou de refeição miúdos que se comportam como ditadores,
miúdos desregulados no comportamento e muitas vezes acompanhados dos respectivos
papás que por incompetência ou negligência são incapazes de manter os miúdos
tranquilos. Como é óbvio, temos o direito à tranquilidade.
Só que a questão é a natureza da
educação que os miúdos têm e não a proibição da sua presença, os miúdos não são
todos assim e, por outro lado, todos já fomos miúdos.
Existem muitos adultos que me
incomodam e não vejo como proibir a presença de adultos a bordo dos aviões ou
noutro qualquer espaço. Um dia destes pode pensar-se em proibir a presença de
velhos, são chatos, sempre a contar histórias, as mesmas histórias. Também pode
proibir-se a presença de gente obesa, torna o espaço mais apertado para as
outras pessoas. Também se poderia proibir a presença de profissionais da
política, incomodam demasiada gente. Não têm limite os exemplos que poderemos
antecipar.
Este tipo de discurso mostra, também,
de que são feitos alguns dos tempos que vivemos, desregulação, intolerância e
estabelecimento de guetos sucessivos e cada vez mais exclusivos.
Vão acabar sós.
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