A violência doméstica continua indomesticável. Lê-se no Público que de acordo com informação no Portal de Violência Doméstica da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), a PSP e a GNR registaram desde o início do ano 14820 ocorrências, 70 ocorrências por dia em média. Registaram-se mais 92 casos que no primeiro semestre de 2025.
A Polícia Judiciária registou
seis vítimas mortais, todas do sexo feminino, no primeiro trimestre e sete
vítimas, número provisório, no segundo trimestre.
Estão detidos 1643 reclusos por
violência doméstica, 415 em prisão preventiva e 1228 em prisão efectiva. Face
a igual período de 2025, verifica-se um aumento de 12,4%.
Também no mesmo período
Neste período, 3118 pessoas, 210 nos
estabelecimentos prisionais e 2908 na comunidade, estavam integradas em
programas de tratamento de agressores.
Também se contabilizavam havia
6522 vítimas de violência doméstica com medida de teleassistência e 1390
acolhidas na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica, 681
mulheres, 688 crianças e 21 homens
Na verdade, os dados relativos à
violência doméstica continuam inquietantes e os tempos que vivemos não permitem
grande optimismo. Acresce que, para além de sabermos que a violência doméstica
está habitualmente no topo das participações, este mundo é bem mais denso e grave
que a realidade que conhecemos, ou seja, aquilo que se conhece, apesar de
recorrentemente termos notícias de casos extremos, é "apenas" a parte
que fica visível de um mundo escuro que esconde muitas mais situações que
diariamente ocorrem numa casa perto de nós.
Por outro lado, para além da
gravidade e frequência com que continuam a acontecer episódios trágicos de
violência doméstica e como recorrentemente aqui refiro, é ainda inquietante o
facto de que alguns estudos realizados em Portugal evidenciam um elevado índice
de violência presente nas relações amorosas entre gente mais nova mesmo quando
mais qualificada. Muitos dos intervenientes remetem para um perturbador
entendimento de normalidade o recurso a comportamentos que claramente
configuram agressividade e abuso ou mesmo violência.
Importa ainda combater de forma
mais eficaz o sentimento de impunidade instalado, as condenações são bastante
menos que os casos reportados e comprovados, bem como alguma “resignação” ou
“tolerância” das vítimas face à situação de dependência que sentem relativamente
ao parceiro, à percepção de eventual vazio de alternativas à separação ou a uma
falsa ideia de protecção dos filhos que as mantém num espaço de tortura e
sofrimento. Felizmente este cenário parece estar em mudança, mas demasiado
lentamente. Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais
lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores
sociais presentes em cada época.
Torna-se criticamente necessário
que nos processos de educação e formação dos mais novos possamos desenvolver
esforços que ajustem quadros de valores, de cultura e de comportamentos nas
relações interpessoais que minimizem o cenário negro de violência doméstica em
que vivemos. A educação, a cidadania e o desenvolvimento que sustentam
constituem a ferramenta de mudança mais potente de que dispomos.
É uma aposta que urge e tão
importante como os conhecimentos curriculares. Percebe-se, também por estas
questões, a importância da abordagem do universo da “Cidadania e
Desenvolvimento” na educação escolar e para todos os alunos. Seria ainda
desejável que a ignorância e o preconceito não inquinassem a discussão.
Entretanto, torna-se fundamental
a existência de dispositivos de avaliação de risco e de apoio como instituições
de acolhimento suficientes e acessíveis para casos mais graves, um sistema de
protecção e apoio eficiente aos menores envolvidos ou testemunhas destes
episódios, e, naturalmente, um sistema de justiça eficaz e célere.
A omissão ou desvalorização
destas mudanças é a alimentação de um sistema de valores que ainda “legitima” a
violência nas relações amorosas, que a entende como “normal”. Tudo isto tem
como efeito a continuidade dos graves episódios de violência que regularmente
se conhecem, muitos deles com fim trágico.
Apesar da natureza estranha, dura
e complexa dos dias que vivemos, é fundamental não esquecer que questões como
estas devastam o quotidiano ou a vida de muita gente. Pode estar a acontecer
numa casa ao nosso lado.
Neste contexto, é também de
registar a iniciativa há tempo divulgada de criar um primeiro instrumento legal
de âmbito europeu para combater a violência doméstica e contra as mulheres.
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