É hoje assinalado em Portugal o Dia Nacional do Psicólogo.
Como é habitual, a passagem de um Dia de … envolve a realização de alguns
eventos. A Ordem dos Psicólogos Portugueses teve a gentileza de me convidar a proferir a conferência integrada na sessão realizada no lindíssimo edifício da
Academia das Ciências de Lisboa.
Como não podia deixar de ser falei de psicologia e educação,
“Psicologia da Educação. Os encantos e … alguns desencantos".
Por coincidência esta semana cumpro quarenta anos de
trabalho como profissional da área a que acrescem os cinco anos da formação
inicial. É já uma estrada longa.
Como tantas vezes digo aos mais novos com quem trabalho, hoje percebo
melhor o encanto que sinto com o universo da educação e da psicologia, a
experiência e o conhecimento acumulado assim permitem, antes “sentia” que
gostava hoje “sei” porque gosto.
Assim, num primeira parte abordei os contextos, os
princípios, a natureza da intervenção em psicologia da educação como contributo não
substitutivo nem intrusivo mas cooperativo para o bem-estar educativo e para um
melhor trabalho de crianças, famílias, professores, e outros actores.
Falei na imprescindibilidade de se considerar com
característica inalienável da intervenção em psicologia da educação a dimensão
sistémica, nenhuma criança se educa ou aprende sozinha (embora por vezes
tenhamos a tentação pensar que sim).
No entanto, também falei dos desencantos da psicologia da
educação.
Conheço situações em que existe um psicólogo para um
agrupamento com várias escolas e que envolve um universo com mais de 2000
alunos e a deslocação permanente entre várias escolas numa espécie de
psicologia em trânsito. Não é uma resposta, é um fingimento de resposta que não
serve adequadamente os destinatários como também, evidentemente, compromete os
próprios profissionais.
Temos também inúmeras escolas onde os psicólogos não passam
ou têm “meio psicólogo”, têm uma relação profissional instável ou ao prestam serviços
nas escolas em “outsourcing” e com a duração de 30/45 minutos por semana, uma
situação inaceitável e que é um atentado científico e profissional e,
naturalmente, condenado ao fracasso de que o técnico independentemente do seu
esforço e competência será responsabilizado. No entanto, dir-se-á sempre que
existe apoio de um técnico de psicologia.
Creio que o recurso ao modelo de “outsourcing” ou a
descontinuidade do trabalho é um erro em absoluto, é ineficaz,
independentemente do esforço e competência dos profissionais envolvidos.
Como é que se pode esperar que alguém de fora da escola,
fora da equipa, técnica e docente, fora dos circuitos e processos de
envolvimento, planeamento e intervenção desenvolva um trabalho consistente,
integrado e bem-sucedido com os alunos e demais elementos da escola?
Entendendo que os psicólogos sobretudo, mas não só, os que
possuem formação na área da psicologia da educação podem ser úteis nas escolas
como suporte a dificuldades de alunos, professores e pais em diversos áreas,
não substituindo ninguém, mas providenciando contributos específicos para os
processos educativos então, necessariamente, devem fazer parte das equipas das
escolas, base evidentemente necessária ao sucesso da sua intervenção. É este,
aliás, o sentido dos documentos orientadores subscritos pelo ME mas não o que
acontece apesar de alguma aumento do número de psicólogos mas com contratação
ao abrigo do POCH e com um horizonte finito, 2023.
Acresce que os psicólogos não têm carreira, alguns
desenvolvem trabalho em agrupamentos/escolas mas estão ligados a instituições
ou autarquias em situação de precariedade com vencimentos que são inaceitáveis.
A situação existente parece-me, no mínimo, um enorme
equívoco, que, além de correr sérios riscos de eficácia e ser um, mais um,
desperdício (apesar do empenho e competência que os técnicos possam emprestar à
sua intervenção), tem ainda o efeito colateral de alimentar uma percepção
errada do trabalho dos psicólogos nas escolas.
Na parte final da sessão, a Secretária de Estado Adjunta e
da Educação, traçou um cenário optimista e valorizador dos psicólogos reconhecendo
o muito que está por fazer.
No entanto, é preciso que as políticas públicas traduzam o
que a experiência e o conhecimento da realidade de outros países aconselham e o
discurso que o ME subscreve.
Estando já perto do final da carreira profissional ainda
aguardo que a importância e prioridade sempre atribuídas ao trabalho dos
psicólogos em contextos educativos se concretizem de forma suficiente e
estável.
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