sexta-feira, 11 de março de 2011

ILITERACIA?

Depois do forte alarido causado pelo discurso que Cavaco Silva proferiu no comício, perdão, na tomada de posse, devido a um alegado excesso na forma com referiu a acção governativa e o estado de país, o Presidente veio através da sua página do Facebook, sinais dos tempos, colocar água na fervura com o argumentário do costume, “má interpretação das suas palavras”.
Esta questão parece-me interessante. Em primeiro lugar se considerarmos que os estudos sobre o desempenho escolar da população portuguesa, sobretudo dos mais novos, evidencia sistematicamente baixos níveis de literacia com reflexos particulares nas dificuldades de interpretação e sabendo também que os mais velhos são ainda menos qualificados, ninguém obviamente estranharia as dificuldades em interpretar as palavras do Presidente.
No entanto, a questão não é essa, os discursos políticos, habitualmente não precisam de legenda ou glossário que facilitem a interpretação. Creio que é muito óbvio para toda a gente que as palavras do Professor Cavaco Silva foram de uma clareza transparente, todos entendemos muito bem o que o foi dito, os recados e os destinatários, sendo ainda que se há político em Portugal cuidadoso com as palavras é precisamente Cavaco Silva.
A questão central decorre, do meu ponto de vista, da falta de qualidade genérica do discurso político em Portugal que tende a considerar o cidadão comum como alguém que vota nos momentos certos nos nomes certos e não alguém com capacidade crítica e de reflexão. Na prática, este entendimento leva a que, sistematicamente, os políticos achem absolutamente natural fazer as afirmações que melhor julgam servir os seus interesses imediatos e, quando confrontados com o impacto das suas palavras, respondam em regra qualquer coisa como “eu não quis dizer isso, é a sua interpretação”.
Não, na maior parte das vezes, as lideranças políticas querem dizer exactamente o que disseram mas, na hora de assumir a responsabilidade pelo que dizem ou fazem, são fracos.
Esse é que é o grande problema, fraqueza, falta de espinha, ou de uma forma mais simples como dizia a minha avó Leonor “são uns troca-tintas”.

VIVER SITIADO

Existem pessoas que vivem sitiadas. Provavelmente, muito mais pessoas do que imaginamos vivem nessa condição.
Algumas pessoas vivem sitiadas pela falta de esperança e confiança no futuro. Algumas outras vivem sitiadas pelo medo de perder, por exemplo, a segurança de um emprego, o conforto de uma relação mesmo quando esse emprego não é tão seguro assim ou a relação tão confortável como se desejaria, mas estão sitiadas pelo medo de perder o pouco que ainda têm.
Existem também pessoas, pessoas velhas, que vivem sitiadas pela solidão e isolamento, não esperam nada nem dão danos a ninguém, como se diz no Alentejo.
Alguma gente nova vive sitiada pelas dificuldades em construir um projecto de vida que começou por ser sonhado, depois antecipado e entretanto adiado.
Alguns miúdos vivem sitiados pela falta de tempo para ser miúdos e pela pressão de crescer depressa e ser excelentes.
Algumas pessoas vivem sitiadas pelo roubo que sofreram do seu bem mais precioso, a dignidade.
Outras pessoas vivem sitiadas pela personagem que criaram para si próprias e sem a qual não sabem viver, deixaram de o que eram, passaram a ser a personagem que criaram.
Provavelmente, todos vivemos sitiados por algo, percebido e reconhecido, ou, muitas vezes, de fingido desconhecimento.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O MAL E A CARAMUNHA

Eu sei, sou estúpido, é a economia, mas já não há saco. Neste tempo em que a crise económica e as suas consequências mais graves, sobretudo o desemprego, se abatem sobre as classes menos favorecidas economicamente, aparecem de todo o lado as vozes a clamar pelos sacrifícios e a identificar as medidas redentoras. A crise resultou, parece, de modelos errados e desregulados de desenvolvimento, do endeusamento do mercado, da ganância especulativa dos mercados financeiros com a complacência negligente, cúmplice ou incompetente das diversas entidades de supervisão, nacionais ou internacionais.
Neste contexto, acho de um atrevimento despudorado as opiniões de economistas, ex-ministros das finanças, empresários de "visão" e outros iluminados que tendo sido parte do problema durante décadas vêm agora para a praça pública diariamente exigir sacrifícios e propor medidas que, obviamente, não os atingirão. Se bem se lembram o dinheiro dos contribuintes, em muitos países e também entre nós, tem sido usado para salvar a banca que continua a registar lucros não devidamente taxados.
Os empresários e gestores ouvidos pelo PSD já apresentaram o caderno de encargos, perdão um esboço de programa de governo que, naturalmente, entendem como O modelo, A visão que o país precisa para resolver os seus problemas, deles.
Como diz o povo, o que paga a crise, fazem o mal e a caramunha.

TESTES DE STRESS? SIM, A VIDA DE MUITOS MIÚDOS

O I de hoje faz uma referência ao Relatório de 2010 da Acção de Saúde para Crianças e Jovens em Risco da Direcção-Geral de Saúde informando que foram detectados 3551 casos de maus-tratos, cerca de 10 por dia, considerando apenas os casos identificados.
Este dados recordaram-me algumas notas aqui deixadas há algum tempo sobre a vida dos miúdos utilizando uma terminologia que entrou recentemente no nosso quotidiano. os testes de stress realizados à banca que, ao que parece, resistiu positivamente.
Se a realização de testes de stress à banca é algo de pouco conhecido a vida de muita gente, em particular dos miúdos e adolescentes, é um contínuo teste de stress.
Muitos miúdos passam o dia a saltitar entre actividades e a correr de espaço para espaço sem tempo para respirar.
Muitos miúdos vivem em famílias que experimentam tremendas dificuldades em assegurar patamares mínimos de bem-estar e qualidade de vida.
Muitas crianças são vítimas de maus-tratos e negligência que transforma a sua vida num inferno inaceitável.
Muitos miúdos e adolescentes são fortemente pressionados pelas famílias para a excelência do desempenho vivendo angustiadas perante o risco do fracasso e de se sentirem responsáveis por expectativas familiares defraudadas.
Muitos miúdos e adolescentes vivem em ambientes afectivamente hostis, ameaçadores da sua auto-estima e confiança quando não vitimizados pela fragilidade que demonstram.
Muitos adolescentes sentem-se perdidos e incapazes de construir um projecto de vida viável capaz de os rebocar até ao futuro.
Os exemplos poderiam crescer mas parecem suficientes para mostrar o nível de especialização que muitas crianças, adolescentes e jovens já atingiram em testes de stress.
E só falei dos mais novos. Por outro lado e regressando à banca, creio que estas instituições, de uma forma geral, sempre viveram, vivem e viverão sem stress.

OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL - O professor mas que sim e o aluno mas que não

Diogo, temos que ter uma conversa muito séria.
Tudo bem Setor, tudo o que eu faço é a sério mesmo quando estou a brincar.
Bom, quando te observo na aula acho que muitas vezes não está concentrado no que eu digo ou na tarefa que estás a realizar.
Setor, estou concentrado em várias coisas, o Setor diz muitas vezes que é preciso estar atento a tudo.
Diogo, preciso também de te dizer que te sinto teimoso, insistes sempre no que na tua cabeça achas que está certo. Não podemos ser assim.
Mas o Setor diz muitas vezes que temos de ser persistentes, não podemos desistir à primeira.
Acho também que andas um pouco negligente, pouco empenhado nas coisas da escola.
Não Setor, procuro apenas não ter stress, estão sempre a dizer-me que é preciso ter calma.
Quando discutimos alguma coisa na sala arranjas sempre maneira de ter opiniões diferentes dos teus colegas o que acaba sempre por levar a discussões que não levam a lado algum.
Não percebo Setor, o Setor está sempre a dizer que temos de pensar pela nossa cabeça e não pela cabeça dos outros e também que devemos aprender a defender as nossas ideias.
Gostava também de perceber como muitas vezes entendes que não deves fazer o trabalho como vos digo para fazer e como os teus colegas fazem.
Setor, sempre tenho ouvido os setores dizerem para sermos criativos e evitarmos copiar os outros.
Estás a ver Diogo, esta conversa mostra como é difícil que nos possamos entender.
O Setor tem muita experiência, sabe que muita gente não se entende e o mundo continua a andar.
Desisto.
Não devia, o Setor diz sempre que não devemos desistir.

quarta-feira, 9 de março de 2011

A ESCOLA AINDA NÃO CONTRARIA O DESTINO, ALGUNS DESTINOS

No I de hoje os resultados já conhecidos e produzidos pelo Observatório dos Trajectos dos Estudantes do Ensino Secundário e Gabinete de Estatísticas e Planeamento da Educação são comentados e enfatiza-se algo que desde sempre tem sido constatado no âmbito da sociologia da educação e da análise dos resultados escolares, a relação fortíssima entre o sucesso escolar dos filhos e o nível de escolaridade dos pais.
Mais uma vez se comprova que ao nível, neste caso, do 12º ano, os filhos de pais com maior nível de qualificação escolar são os que, de uma maneira muito evidente, apresentam notas mais altas. Sabe-se ainda que as notas mais baixas e os "chumbos" também evidenciam uma marca de classe muito significativa, atingem de forma mais nítida os agregados familiares com nível de escolaridade mais baixo. Nada de novo, portanto.
De qualquer forma creio que se justificam três notas telegráficas.
Em primeiro lugar sublinhar algo que por vezes se esquece, esta forte associação entre o sucesso e o insucesso escolar dos filhos não determina uma relação de causa e efeito, apenas mostra uma relação estreita mas não obrigatória. Aliás, o título da trabalho no I ao afirmar que as melhores notas "dependem" dos pais refere essa inexistente relação de causa e efeito.
Desta óbvia constatação decorre uma segunda nota e que já aqui tenho referido, a escola não está a conseguir ser eficaz na tentativa de ser a mais eficaz ferramenta de mobilidade social, ou seja, os que alunos oriundos de famílias menos escolarizadas são os que tendencialmente obtêm resultados mais baixos, chumbam ou abandonam dificultando a sua mobilidade para patamares de maior qualificação e, por isso, o acesso melhores níveis de bem-estar.
Finalmente, esta relação entre a qualificação dos pais e o sucesso escolar dos filhos é, do meu ponto de vista, mais uma razão para que, como recorrentemente aqui defendo, se promova a qualificação escolar das pessoas e se combatam mensagens e discursos, implícitos ou explícitos, de que estudar "não vale a pena", os "licenciados não têm futuro", "são a geração à rasca", etc. Os mais jovens de hoje vão ser os "pais" de amanhã e, naturalmente, é melhor ter pais mais qualificados.
A qualificação que se obtém, através dos percursos escolares continua a ser uma alavanca, a melhor alavanca, de desenvolvimento e construção de projectos de vida viáveis e positivos.

AFINAL, MUDOU O QUÊ?

Havia um tempo em que alguns miúdos eram "irrequietos", "com pilhas até dizer basta", tinham "bicho carpinteiro" ou outra apreciação deste tipo. Actualmente, alguns miúdos são hiperactivos, com desordem da atenção ou fazem parte de outra qualquer categoria começada por "dis".
Havia um tempo em que alguns miúdos adolescentes eram mal educados. Actualmente, alguns miúdos e adolescentes são grandes indisciplinados ou pré-delinquentes.
Havia um tempo em que alguns miúdos e adolescentes se envolviam à estalada e trocavam insultos, umas vezes perdia-se, outras ganhava-se, uns ganhavam mais vezes, outros perdiam mais vezes. Actualmente, alguns miúdos e adolescentes são vítimas e alguns outros miúdos são agressores, papéis que fazem parte de um novelo chamado bullying.
Havia um tempo em que alguns miúdos e adolescentes eram mais calados e às vezes estavam tristes. Actualmente, alguns miúdos e adolescentes estão deprimidos.
Havia um tempo em que alguns miúdos e adolescentes se baldavam às aulas e alguns chumbavam. Actualmente, alguns miúdos e adolescentes são absentistas e alguns ficam retidos.
Havia um tempo em que alguns miúdos e adolescentes conseguiam dar a volta quando alguma coisa não tinha corrido bem. Actualmente, alguns miúdos e adolescentes são resilientes.
Havia um tempo em que alguns miúdos e adolescentes eram mais criativos que outros. Actualmente, alguns miúdos e adolescentes são alternativos e os outros são maistream.
Havia um tempo em que alguns adolescentes eram rebeldes. Actualmente, alguns adolescentes são desviantes.
Havia um tempo em que cada adolescente tinha o seu grupo. Actualmente, cada adolescente tem o seu gang.
Havia um tempo em que alguns miúdos e adolescentes se desmotivavam. Actualmente, alguns miúdos e adolescentes fazem parte de uma "geração sem futuro".
Havia um tempo em que a generalidade dos miúdos e adolescentes tinham coisas boas e más na sua vida. Actualmente, a generalidade dos miúdos e adolescentes tem coisas boas e más na sua vida.
Afinal, mudou o quê?

terça-feira, 8 de março de 2011

MULHERES

Não há volta a dar, 8 de Março, o calendário das consciências manda reparar nas mulheres. Reparemos então.
Reparem como tem aumentado a violência doméstica incluindo homicídios ou, pelo menos, o conhecimento público desses episódios.
Reparem como se mantém a diferença de oportunidades e equidade salarial apesar das mudanças legislativas.
Reparem na dificuldade que muitas mulheres em Portugal têm em conciliar maternidade com carreira, adiando ou inibindo uma ou outra.
Reparem em como as mulheres portuguesas são das que na Europa mais horas trabalham fora de casa.
Reparem na necessidade de imposição legal de quotas para garantia de equidade.
Reparem na desigualdade no que respeita à ocupação de postos de chefia.
Reparem nos números do tráfico de mulheres que também passa por Portugal.
Reparem na criminosa mutilação genital feminina, também realizada em Portugal.
Reparem como a igreja continua a discriminar as mulheres.
Reparem na quantidade de mulheres idosas que vivem sós, sobrevivem isoladas e acabam por morrer de sozinhismo sem que ninguém, quase, se dê conta.
Reparem, finalmente, no que ainda está por fazer.
Até para o ano, portanto.

O EQUÍVOCO DA LEALDADE

Duas notícias notáveis hoje no Público sobre o universo da educação. A primeira que justificou um texto específico remete para o resultado de uma avaliação "externa" que conclui que o ensino especial está melhor.
A segunda, de outra natureza mas igualmente grave, remete para a demissão pela Comissária, perdão pela Directora Regional de Educação do Centro, do Coordenador das Equipas de Apoio às Escolas. A razão da demissão prende-se com o ter assinado, na sua condição de professor da Escola Secundária de Infanta D. Maria, um documento contra o modelo de avaliação de professores. A decisão, lembrando o estilo da Comissária Moreira, de serviço há algum tempo na DREN é fundamentada por uma suposta quebra de lealdade.
Mais uma vez estamos em presença de um enorme equívoco, lealdade institucional é algo de definível no plano ético e não no plano da fidelidade canina a His Master´s Voice que inibe a opinião e o pensamento crítico. O professor demitido tem tido, reconhecidamente, um desempenho de excelência no apoio às escolas. Tal desempenho nunca poderia ser avaliado como excelente se eticamente não fosse leal à política educativa em curso. No entanto e com é óbvio, tal lealdade não invalida, não pode e não deve invalidar, uma pensamento crítico que, lealmente é conhecido e assumido.
A demissão por delito de opinião por parte da Comissária responsável pela DREC, mostra como o controlo politico do sistema educativo é de uma apetência que faz esquecer princípios éticos fundamentais.

O ENSINO ESPECIAL ESTÁ MELHOR? NÃO, NÃO ESTÁ

Foi ontem divulgado pelo ME o resultado da "avaliação externa" do impacto e práticas decorrentes do DL 3/2008 que, assentando na Classificação Internacional de Funcionalidade, reintroduz o conceito de elegibilidade e regula a organização dos dispositivos de apoio a alunos com dificuldades. Muitas vezes já aqui me tenho referido a esta matéria.
Antes de ir ao que ontem foi divulgado, um excerto de um texto aqui deixado em Janeiro de 2009, repito Janeiro de 2009, quando o ME anunciou a avaliação cujos resultados ontem divulgou.
"Mas também interessante é organização da avaliação anunciada. O dispositivo de avaliação da utilização da CIF é da responsabilidade do Professor Rune Simeonsson, o autor da … adivinharam, da CIF. Que avaliação resultará? Um doce a quem acertar. A coordenação da avaliação é da responsabilidade da Professora Manuela Sanches Ferreira que num Congresso Internacional sobre Funcionalidade Humana realizado em Lisboa, em Novembro de 2008, apresentou uma comunicação intitulada “A CIF como novo paradigma de intervenção e avaliação” integrado num painel sobre a temática educação. Adivinhem qual será o resultado da “avaliação” da utilização da CIF em educação? Mais um doce a quem acertar (vou esgotar os doces). Não quero duvidar da integridade ética e científica das pessoas em causa, mas dos critérios de escolha do ME, esses sim, de duvidosa integridade."
Como esperava os resultados aí estão para comprovar a minha previsão. Gostava de ter de me retratar pelo pessimismo e desconfiança, mas não o faço.
Não o faço porque, é sabido e reconhecido que milhares de crianças, bem como os seus professores e pais, estão sem apoio ou com apoios inadequados às suas dificuldades porque não são elegíveis e, ou, não existem recursos e dispositivos de apoio ajustados.
Não o faço porque a delinquente fixação de "quotas" de alunos por escola susceptíveis de apoio, fixadas à revelia de todas as taxas de prevalência internacionalmente aceites, e que as "equipas de monitorização" se encarregam de zelosamente de verificar, deixam muitas crianças e adolescentes sem apoio.
Não o faço, enfim, porque, apesar do empenho e investimento de muitos dos profissionais envolvidos, do empenho e investimento da direcção de muitas escolas e agrupamentos, sucessivas referências na imprensa e estudos desenvolvidos em várias zonas do país demonstram que a concepção e aplicação do DL 3/2008 está longe de ser o sucesso agora anunciado. De sublinhar ainda que a avaliação traz uma cereja em cima do bolo, recomenda aos professores que "sempre que existam condições integrem o aluno na elaboração do seu programa educativo individual". Como se sabe, em muitas circunstâncias, por razões de ordem vária que aqui não cabem, nem o próprio professor do ensino regular está muito envolvido na elaboração do Programa Individual do Aluno com NEE, pelo que vir recomendar o envolvimento do próprio aluno é de uma ingenuidade patética ou de uma demagogia sem nome.
Por estas razões, do meu ponto de vista, não se pode afirmar que o ensino especial está melhor. No limite poderemos dizer que algumas crianças, professores e pais estão envolvidos em processos educativos que correm bem. Apesar do DL 3/2008.

UM CONTO DE CARNAVAL

Era uma vez um miúdo, o Manel, com nove anos que ia participar num desfile de Carnaval preparado lá na escola. Tinha mesmo de participar, os desfiles são obrigatórios por ordem do Ministério, disse a professora dele.
O Manel ficou um bocado atrapalhado porque tinha de ir mascarado e não tinha pensado que máscara escolher. Começou a imaginar as máscaras do costume, cowboy, pirata, astronauta, Zorro, polícia, Batman, Super-homem, Homem-aranha, etc., mas nenhuma destas possibilidades o convencia. Muitos miúdos de muitas escolas escolhiam máscaras daquelas e o Manel gostava de fazer coisas um bocadinho diferentes dos outros. Às vezes, a professora dele até se aborrecia, “Mas porque queres sempre fazer diferente, Manel?”. Mas o Manel era assim. No meio dos seus pensamentos, de repente, surgiu-lhe a ideia, “Já sei, vou mascarar-me de Homem Perfeito”.
Dirigiu-se à professora e disse, “Vou mascarar-me de Homem Perfeito”, “Lá estás tu Manel, como é que uma pessoa se mascara de Homem Perfeito?”, “Vou descobrir”, disse o Manel convictamente.
No dia do desfile, apareceu com uma máscara de homem invisível. Ninguém o via, mas ouvia-se o Manel a dizer que estava mascarado de Homem Perfeito.

segunda-feira, 7 de março de 2011

SE CUIDAR SAI CARO, FAÇAM AS CONTAS AO DESCUIDAR

Nas situações em que se torna necessário proceder a redução de despesas coloca-se obviamente a questão dos critérios ou prioridades a seguir nesse esforço de redução. Não se trata de uma situação fácil, mas na verdade a qualidade das lideranças e das suas decisões aferem-se melhor em contextos de maior dificuldade.
Serve esta introdução para referir o facto de que em virtude dos limites orçamentais o Instituto da Droga e da Toxicodependência irá prescindir dos serviços de algumas centenas de técnicos, psicólogos e assistentes sociais, que integravam as unidades de tratamento de proximidade com resultados conhecidos. O IDT irá ainda proceder ao encerramento de unidades de atendimento ao nível concelhio em vários locais do país.
O presidente do IDT embora reconhecendo o impacto negativo procura desvalorizar a situação. Por outro lado, sem o peso da hierarquia a condicionar opiniões, os especialistas referem as consequências negativas de tal decisão que, aliás, começou a ser conhecida há já uns meses.
Existem áreas de problemas que afectam as comunidades em que os custos da intervenção são claramente sustentados pelas consequências da não intervenção, ou seja, não intervir ou intervir mal é sempre bastante mais caro que a intervenção correcta em tempo oportuno. A toxicodependência é uma dessas áreas. Um quadro de toxicodependência não tratado desenvolve-se habitualmente, embora possam verificar-se excepções, numa espiral de consumo que exige cada vez mais meios e promove mais dependência. Este trajecto potencia comportamentos de delinquência, alimenta o tráfico, reflecte-se nas estruturas familiares e de vizinhança, inibe desempenho profissional, promove exclusão e “guetização”. Este cenário implica por sua vez custos sociais altíssimos, persistentes e difíceis de contabilizar.
Como, costumo dizer em muitas ocasiões, se cuidar é caro façam as contas aos resultados do descuidar. Assim sendo, dificilmente se entendem algumas opções.

MAIS UM DIÁLOGO IMPROVÁVEL - Cúmplices

Precisas de estar com atenção. Mal aparece um disparas.
Está bem, vou ver se consigo.
Atenção, estão quase a passar. Agora. Atira.
Falhei, é difícil.
Pois é, eu agora já consigo matar muitos, mas ao princípio era custoso.
Vou tentar outra vez.
Tens que fazer bem pontaria, senão não consegues matar nenhum.
Agora vou conseguir.
Tens que estar mesmo com atenção, eles correm e a gente não consegue matá-los. Prepara-te que vão aparecer outra vez. Olha, dispara.
Fixe, agora consegui matar dois.
Já estás a disparar melhor.
Já matei dois.
Ainda não disparas tão bem como eu, tens de treinar mais.
Vou ver se sou capaz. Este jogo é mesmo fixe.
Gosto bué, deu-me o meu tio pelo Natal. Amanhã, se quiseres, podemos jogar outra vez. Se jogares mais vezes já és capaz de matar mais.

domingo, 6 de março de 2011

A RESPONSABILIDADE IMATERIAL

No Público de hoje relata-se o extraordinário caso de um grupo de trabalho, da responsabilidade conjunta do Ministério das Finanças e do Ministério da Cultura, que tendo por objectivo proceder ao levantamento dos bens culturais imateriais reuniu uma única vez entre a sua criação em Janeiro de 2010 e a sua exoneração em Dezembro passado sem que tenha elaborado sequer, a introdução do seu trabalho. Os custos com os honorários dos elementos do grupo ascenderam a 209 000€. Na notícia aparecem as referências habituais a falta de condições de trabalho, o enjeitar de responsabilidades ou a negligência dos envolvidos, o costume.
Muito provavelmente este episódio, um de muitos, que ilustra o mundo escondido dos grupos de trabalho, comissões, missões, etc. cairá rapidamente no esquecimento até uma próxima notícia da mesma natureza.
Lamentavelmente, estas notícias já só desencadeiam em nós um sorriso amarelo, já quase não nos causam sobressaltos dada a habituação que causa imunidade.
O que parece tão inaceitável quanto também habitual é que ninguém seja verdadeiramente responsabilizado pela incompetência, pelo desperdício e pela negligência com que a coisa pública é tratada.
Costuma-se dizer que em Portugal a culpa morre solteira, não seria mau de todo, significaria que existia.
Não, a culpa tal como figurava na missão deste grupo de trabalho, é algo de imaterial.

NÃO FUI EU, FOSTE TU. NÃO, FOSTE TU, NÃO FUI EU

A recente discussão ente o PSD e o Governo (PS), em torno da responsabilidade sobre o pagamento das chamadas SCUTs é apenas mais um exemplo do nível muito rasteiro da política portuguesa, envolvendo particularmente os partidos que alternadamente ocupam o poder.
A irresponsabilidade demagógica e populista da auto-estradização do país com boa parte dessas vias a não terem custos para os utilizadores teria, cedo ou tarde, de se reflectir em custos que, naturalmente, não sendo dos utilizadores, cairiam em cima de todos nós. A agudização da crise levou a que a cobrança se iniciasse mais cedo do que provavelmente o governo, de qualquer partido, quereria. Surgiram entretanto os protestos, normais, de quem passa a pagar um serviço até aí gratuito, afirmando sempre que não deveria ser pago por ausência de alternativa o que, aliás, nem sempre parece ser verdadeiro. Curiosamente, raramente oiço referências à exigência desde sempre verificada de pagamento de portagens nas duas pontes sobre o Tejo, sem que exista aqui sem qualquer alternativa de atravessamento do rio.
Claro que os protestos assustam sempre quem está no poder e oferecem uma boa onda para quem está na oposição.
No caso das SCUTs, PS e PSD entenderam-se num acordo extremamente complexo entre descontos, isenções, injustiças e desvarios que não parecem servir a ninguém. A atribuição recíproca de responsabilidades é um exemplo da política do Portugal dos pequeninos. Ambos os partidos sabem que este serviço tem de ser pago, é insustentável que o não seja, aliás o PSD já veio dizer que se for governo mantém o pagamento de portagens.
Continuo convencido que apesar de tudo e de uma forma geral, nós cidadãos preferíamos lideranças com sentido de responsabilidade, capazes de assumir decisões, fáceis ou difíceis e, sobretudo, que transmitam a confiança num rumo e numa visão do país que ultrapasse a decisão imediata com critérios de táctica e oportunidade políticas visando o acesso ou a manutenção do poder.

sábado, 5 de março de 2011

AS MUDANÇAS NAS FAMÍLIAS E A EDUCAÇÃO FAMILIAR

O Público de hoje traz um excelente trabalho sobre a percepção que os portugueses, os portugueses inquiridos na pesquisa, têm da família e das mudanças significativas que esta instituição tem vindo a sofrer.
O trabalho é bastante completo e mostra alguns dados muito interessantes sobre a forma com são percebidas as mudanças e as suas implicações no funcionamento das famílias, no plural como já são também entendidas. Recomendo vivamente a sua leitura.
No entanto, do meu ponto de vista ficou por abordar um aspecto que me parece extraordinariamente relevante e que considero dos mais complexos desafios sociais que actualmente enfrentamos, a educação familiar.
De facto, as enormes mudanças que temos vindo a constatar no universo das famílias implicam uma séria reflexão sobre as suas implicações na educação familiar. O paradigma clássico, a família educativa e a escola instrutiva, mudou substantivamente o que não significa, obviamente, a alienação do papel educativo da família mas sim atentar nas novas qualidades que esse papel vai assumindo, parafraseando Camões.
Desde logo porque, por questões de logística e funcionalidade, o tempo familiar para as crianças encolheu de forma dramática, os miúdos passam tempos infindos na escola sob um princípio a que até o ME se lembrou de chamar de forma infeliz “Escola a tempo inteiro”. As famílias expressam uma enorme dificuldade em compatibilizar o que ainda entendem ser o seu papel educativo com a pressa e o pouco tempo que assumem ter para o realizar. Tenho conhecido dezenas de pais que se sentem culpados e fragilizados por entenderem que não têm para os filhos a disponibilidade de tempo e atitude que julgam necessária. Esta culpa e fragilidade é, com frequência, a base inconsciente que impede alguns pais de serem consistentes e firmes na definição de regras e limites imprescindíveis às crianças, pois “temem estragar” o pouco tempo que têm com elas devido a um eventual conflito.
Uma outra questão prende-se com o modo e a dificuldade que muitos pais me referem sentir quando lidam com as crianças em situação de “duas famílias”. Mais uma vez, as inseguranças e algum sentimento de culpa estão presentes e contribuem para embaraços que levam os pais a pedir alguma ajuda. Como sempre digo, é preferível uma boa separação a uma má família, mas alguns pais sentem-se inseguros para construir cenários de educação familiar com qualidade quando têm a guarda das crianças repartida.
A experiência mostra, como referi acima, que a educação familiar se constitui como uma área extremamente complexa, não existem dois contextos familiares iguais e trata-se, como o trabalho do Público evidencia, de um universo extremamente sensível a valores e convicções.
Assim sendo, importa estarmos atentos e procurar disponibilizar apoios e orientações nas situações em que os pais revelam e exprimem mais insegurança e dificuldades. Estas situações são bem mais frequentes do que julgamos ser.

IMAGENS - O meu Alentejo

Foto de João Morgado - http://olhares.aeiou.pt/jgmorgado

sexta-feira, 4 de março de 2011

OS FELIZES DESFILES DOS MENINOS E PROFESSORES FELIZES

Hoje é dia de desfiles de Carnaval para as escolas portuguesas. Devo dizer, como registo de interesses, que não sou particular adepto da quadra, o que, eventualmente poderá contaminar estas notas.
Ao olhar para os participantes, à excepção de uma residual minoria de alunos e professores que se sente obrigada a participar, os desfiles organizados pelas escolas são autênticos passaportes para a felicidade mesmo que transitória, o que em tempos de crise não é coisa de somenos. Já me cruzei hoje com dois desses desfiles e é enternecedor o ar feliz que os cowboys, as bruxas, os super-homens, os homens aranha, os polícias, as fadas, as enfermeiras, as borboletas e flores, etc. etc. compõem na rua. Parece mesmo que estão felizes, até emociona. E os seus professores, o ar risonho, contente com que, depois do desgaste de vários dias a preparar os fatos, acompanham as criancinhas numa visita ao meio, é importante, o Estudo do Meio ainda integra o currículo. Os desfiles acabam por ser contagiados pelo clima de empatia e boa-disposição que se vive nas escolas, os meninos armazenados muitas horas por dia, os papás a temer pelo desemprego e sem aparecerem na escola e os professores com uma estabilidade profissional e com um clima nunca antes sentido face à genial política do ME. Até os professores contratados parecem contentes. Não consegui verificar, mas é natural que durante os desfiles alguns professores relatores estejam atentos às performances dançantes dos professores, às coreografias, às cantigas, aos fatos que os meninos carregam. Sendo que as aulas só são avaliadas se os professores quiserem ser excelentes ou muito bons, provavelmente o desfile também será objecto de avaliação. Tão bonito.
E os fotógrafos das autarquias sempre em cima do desfile, para aquelas fotos que colocadas no Boletim Municipal, farão as delícias do Vereador responsável e do Presidente, relembrando que a Autarquia apoia, sempre mas sempre, a Educação. Lindo.
Estão a ver porque raio não simpatizo com o Carnaval?

O EXAME PRÉVIO AOS COMENTÁRIOS ON-LINE

O Público decidiu criar um dispositivo de leitura prévia dos comentários on-line na sua página. Este dispositivo constituído por um grupo de pessoas decidirá sobre a publicação, ou não, do documentário.
Propositadamente, estou a escrever estas notas sem ter lido qualquer comentário on-line a esta decisão do jornal.
Em primeiro lugar e como é óbvio, fazer um exame prévio e decidir sobre a divulgação é a instituição de censura. Deste ponto de vista é, no mínimo, discutível se a censura a um comentário não colide com um direito, a liberdade de opinião. Entendo que o risco pode estar presente e que temos que ser cautelosos na gestão e transparência dos critérios a utilizar no exame.
Por outro lado, como frequentador habitual da imprensa on-line e participante na emissão de opiniões e comentários que me parecem enriquecedores da participação e reflexão cívicas, sinto-me diariamente embaraçado com a alarvidade, a boçalidade e a ausência de qualquer conjunto de princípios básicos de tolerância e capacidade de discussão evidenciadas em muitas das participações em todos os órgãos de comunicação. O insulto eticamente obsceno, a ignorância, o sectarismo cego mostram o lado pior de alguns nós. A utilização sistemática do anonimato e do “nick” que mascaram identidades, tornam “corajosos” meia dúzia, um pouco mais, de terroristas verbais que nas mais das vezes nem resposta merecem.
Neste contexto, entendo a decisão agora tomada pelo Público. No entanto, precisamos de estar atentos aos critérios de decisão sobre a publicação ou não dos comentários e, sobretudo, que esses critérios não se coloquem ao serviço de outras agendas.
Finalmente, talvez fosse de considerar, sou um optimista, que o exame prévio possa contribuir de forma pedagógica para um incremento da maturidade cívica e das formas de relação entre as pessoas, pelo que se deveria admitir que a prazo voltasse a desaparecer a censura agora instituída.

O CRIME DA DECLARAÇÃO DE AMOR

Hoje, quase por acaso de tão despercebida que estava, vi uma notícia que me deixou a pensar. É daquelas notícias que nem se pode dizer que são uma notícia, são, por assim dizer, uma história, mesmo uma historiazinha, no caso uma história com amor.
Um jovem de Peniche, o Nuno, em 2008, certamente por enamoramento como diria Alberoni, escreveu uma declaração de amor à sua amada. Como vêem começa bonita a história.
Mas as histórias bonitas também têm percalços. O Nuno entendeu por bem escrever o seu afecto na parede da escola secundária.
Levanta-se a complicação, nas escolas as mensagens escritas devem ser realizadas nos cadernos, no quadro das salas ou convertidas em SMS e não devem ser de amor, não consta dos programas. Mas o Nuno, a paixão empolga e dá uma felicidade que é demais para ser vivida só, quis, num gesto de partilha, comunicar a toda gente o seu enamoramento. Sem outdoor por perto a parede da escola foi uma tentação. Como sabem o mural tem uma forte tradição enquanto forma de comunicação.
Mas este gesto heróico, só possível nos toldados pelo bem querer, foi considerado uma grave delinquência. O Nuno cometeu um crime, disseram os que por despeito e inveja se apressaram a condenar. Só se podem pintar paredes e poluir visualmente os equipamentos urbanos quando se tem algo de importante para dizer, mensagens de política partidária, por exemplo.
O criminoso por afecto que escreveu uma mensagem de amor na escola no único sítio onde não o deveria fazer, foi punido com 312€ de multa ou, em alternativa, com trabalho comunitário que compensasse a gravidade do crime. De novo, certamente apoiado pela força que o amor empresta, dá, recusou-se a cumprir uma pena que o amor não consentiria.
Começou agora, em 2011, dizia a notícia na sua parte final, a cumprir a pena de prisão que o seu crime terá merecido dos zelosos administradores de lei que desconhecem ou invejam o amor e a sua força.
E Peniche dormiu em paz. Os bons ganharam e os maus foram castigados, como nas boas histórias.

PS - Nuno, por favor, não escrevas outra mensagem de amor nas paredes da prisão, também não se pode.

quinta-feira, 3 de março de 2011

UMA ESPÉCIE DE REVISÃO CURRICULAR

Não se conhece ainda o desenlace da apreciação no Parlamento do diploma de reorganização curricular do ensino básico que o Ministério das Finanças, perdão, o Ministério da Educação produziu e que mereceu uma opinião negativa da maioria do universo da educação, incluindo o Conselho Nacional de Educação.
Se como é expectável, o CDS-PP optar pela abstenção ou pelo alinhamento com a restante oposição, aquilo a que o ME chamou uma reorganização curricular não entrará em vigor.
Apesar de muita desta discussão decorrer das agendas partidárias e menos da reflexão e propostas sobre, no caso, as questões curriculares, é importante que legislação aprovada seja travada.
Independentemente dos conteúdos particulares mais referidos, o fim do par pedagógico em Educação Visual e Tecnológica ou o fim da Área Projecto, por exemplo, a razão fundamental é que, do meu ponto de vista não se trata da reforma curricular imprescindível e urgente pelo que, ao entrar em vigor, iria provavelmente inibir um processo verdadeiro e necessário de reforma curricular. Alterações com critérios de natureza economicista que não incidam sobre a questão central, a organização e os conteúdos curriculares, aumentam o ruído e os problemas e dificultam a solução.
É de facto fundamental que se discuta, com serenidade e em profundidade a organização curricular e os respectivos conteúdos. Este processo tem que ser desencadeado com o envolvimento das associações científicas e com os diversos actores do cenário educativo liderado, naturalmente, pelo ME.
A forma como foi feita aquilo a que chama erradamente reorganização curricular é mais um exemplo da deriva do ME.

Nota - Foi agora conhecido que, como se esperava, o CDS-PP contribuiu para anular a entrada em vigor da espécie de reorganização curricular decidida pelo ME. Espero que a oportunidade seja aproveitada para proceder a uma verdadeira, urgente e imprescindível revisão curricular que, como disse, envolva, a organiação e os conteúdos.

JOGAR ÀS ESCONDIDAS

No tempo em que se brincava na rua jogar às escondidas era uma das actividades preferidas. Um ficava no "coito" (era assim mesmo que lhe chamávamos) de olhos tapados, contava até 31, os outros escondiam-se e depois da contagem começava a procura. Cada um dos escondidos tentava chegar ao "coito" sem ser apanhado pelo procurador. O último que fosse descoberto ficava a "amochar".
Hoje de formas bem mais sofisticadas e com outros contornos ainda temos miúdos que continuam o jogar às escondidas. Como muitos substituíram a rua pelas actividades extracurriculares e mais os ATLs e mais as oficinas e mais o banco de trás dos carros dos pais ou as carrinhas dos transportes escolares, os esconderijos mudaram muito.
Alguns, os mais dados às novas tecnologias escondem-se, por exemplo, dentro dos ecrãs que fazem parte da sua vida, dentro de uns fones com o som bem alto ou agarrados a um telemóvel que os ligue a outros escondidos e ficam à espera que ninguém os encontre.
Um outro grupo esconde-se, submerso pela onda das muitas actividades que são importantíssimas para o seu desenvolvimento e nas quais se vêem envolvidos ao longo de dias que não têm fim de tão compridos. É árduo o caminho para a excelência que lhes exigem.
Existe também alguma miudagem que se esconde no meio do grupo, diferentes grupos, que constitui uma excelente forma de camuflagem e protecção.
Há ainda um grupo pequeno e nem sempre discreto de miúdos, mais ou menos crescidos se escondem em comportamentos de que muitos verdadeiramente não gostam mas que os mascaram de figuras que eles não são mas atrás das quais tentam sobreviver. Estes miúdos são, normalmente muito conhecidos por fora mas, por vezes, completamente desconhecidos por dentro, estão escondidos.
Reparem quantos miúdos estão escondidos em instituições, tão escondidos que não existe família que os encontre.
Reparem finalmente quantos miúdos escondem e se escondem em vidas de sofrimento e negligência.
De vez em quando nós, os mais crescidos, podíamos entrar no jogo e ir à procura deles, dos escondidos. Era melhor descobri-los.

quarta-feira, 2 de março de 2011

OS CABELOS BRANCOS

O JN de hoje titula em primeira página "Violência contra idosos dispara nos primeiros meses do ano". O trabalho revela um aumento exponencial de queixas, ainda que as queixas apresentadas sejam aparentemente a ponta do icebergue. É também afirmado que, de acordo com um estudo europeu, os idosos portugueses são os que mais são vítimas de abusos financeiros.
Sabemos como o mundo é composto de mudança tomando sempre novas qualidades, Camões disse-o no séc. XVI. No entanto, as novas qualidades que o mundo toma nem sempre parecem qualidades. É o caso deste aumento exponencial de casos de violência e abusos dirigida a idosos que emerge nas sociedades actuais.
Uma das alterações mais significativas dos últimos anos, na minha opinião, é a percepção social dos traços de autoridade, ou seja, a forma como a generalidade das pessoas encara a autoridade através de diferentes traços. A título de exemplo, uma farda era percebida como um traço de autoridade, algumas profissões eram percebidas como um traço de autoridade, por exemplo, os professores, médicos, funcionários da administração pública, etc. eram percebidos com autoridade, a idade, é este o meu ponto, era também percebida como um traço de autoridade. Deste quadro resultava que, para a generalidade das pessoas, a presença destes traços era suficiente para inibir comportamentos menos ajustados. Só para dar um exemplo, quando eu era pequeno, bastava a entrada do professor para que nos calássemos. No que respeita aos velhos ainda me lembro de expressões como “tenho respeito pelos seus cabelos brancos” ou “respeito-o pela sua idade”.
Hoje em dia, com a alteração da percepção dos traços de autoridade, já não basta a sua presença para regular comportamentos pelo que, também por aqui, se pode perceber este aumento da violência contra os velhos. Isto significa que, mais do que nunca, os processos educativos precisam de entender e adaptar-se a estas mudanças para que os valores embora, volto a Camões, tomando sempre novas qualidades, se mantenham como qualidades.
Como sempre afirmo quando me refiro a questões de valores e educação, sublinho que uma educação para os valores e com valores não significa uma educação para a santidade.

FILHO DE COLEGA

Um dia, um pai foi a uma escola pública do 1º ciclo proceder à matrícula do filho no primeiro ano de escolaridade. O interlocutor do pai para este procedimento era o próprio director da escola.
Durante o processo de matrícula o pai foi interrogado sobre a profissão que desempenhava tendo respondido que trabalhava como psicólogo. O tipo de diálogo mudou um pouco entre o director da escola e o pai que deixou de ser "o senhor" e passou a ser "Sotôr", ou seja, aumentou a disponibilidade e simpatia que estavam presentes e nem sequer em falta, deve dizer-se. O pai foi ainda inquirido sobre o local de trabalho e ao informar que trabalhava no Ministério da Educação o diálogo sofreu novo sobressalto e até se verificou um espaço lateral com troca de opiniões e entendimentos sobre estas coisas da escola, dos miúdos, etc., sempre, naturalmente, num excelente clima.
Passou-se entretanto às informações sobre a mãe do catraio que assistia tranquilamente ao prefácio da sua entrada na escolaridade obrigatória.
À inevitável pergunta sobre a profissão da mãe, "o ex-senhor", agora "Sotôr" no Ministério, respondeu que era professora do 1 ciclo. Aí o clima do dialogo ficou completamente risonho e empático, ainda mais. O director da escola fechou o processo do miúdo e escreveu no canto superior direito da capa, "Filho de colega", ou seja, a mãe passou a "colega".
Aquele gaiato entrou naquele minuto na estrada educativa que conduz ao sucesso, só algo de muito complicado o impediria. E na verdade, o miúdo que naquele dia deixou de ser um miúdo para passar a ser um "filho de colega", cumpriu de forma bem sucedida a sua narrativa escolar. Não foi certamente uma coincidência o fim feliz desta história. No entanto nem todas acabam assim.
Por isso, continuarei a defender que na informação escolar sobre as profissões dos pais deveria apenas inscrever-se Pai ou Mãe, a única informação verdadeiramente relevante em termos educativos, como aliás aqui referi há dias ao contar uma história menos feliz que a de hoje.

terça-feira, 1 de março de 2011

AS HORAS MESMO EXTRAORDINÁRIAS NÃO CABEM NUMA GREVE

A mais recente fonte de crispação no universo da educação prende-se com a alteração do modelo de entendimento do que são horas extraordinárias no trabalho dos professores e o início de uma greve à realização dessas horas como reacção às decisões do ME. De acordo com o Estatuto da Carreira Docente a razão parece estar do lado dos professores o que não significa que as disposições nesse Estatuto sejam as mais ajustadas o que remeteria para outra conversa.
A minha nota é de outra natureza, não acredito numa greve às horas extraordinárias.
Os bons professores, a esmagadora maioria, tal como os pais, dificilmente escapa às horas extraordinárias mesmo que se decrete em greve. Os bons professores, tal como os pais, têm sempre os alunos, os filhos, “perto” de si, ou seja, não lhes é fácil libertarem-se da inquietação que sentem com o bem-estar dos miúdos e com a qualidade do trabalho.
Em situações informais em que algum ou alguns professores estejam presentes é muito frequente que a conversa, mais ou menos rapidamente, se direccione para as questões da vida dos miúdos e da escola.
Não raramente, este envolvimento de muitos professores, horas extraordinárias por assim dizer, tem implicações na sua vida pessoal e familiar que muitos entendem ser “ossos do ofício”.
Por isso, não acredito quando os professores dizem estar em greve às horas extraordinárias. É provável que deixem de realizar algumas tarefas que lhes exijam mas, no fundo, no fundo, as horas dos bons professores são sempre extraordinárias. E não estão sujeitas a greve.

TEM DIAS

Tem dias em que pensamos que é desta.
Tem dias em que tudo parece correr bem.
Tem dias em que as pessoas se riem.
Tem dias em que os velhos contam histórias com miúdos a ouvir.
Tem dias em que o supremo interesse da criança é levado a sério.
Tem dias em que se olha, ouve e gosta.
Tem dias em que acreditamos.
Tem dias que são mesmo bonitos.
Tem dias em que descansamos e nos sentimos felizes com as memórias do que já vivemos.
Tem dias em que as pessoas que gostam e se gostam, se encontram.
Tem dias em que ...

O problema é mesmo ...
Os outros dias.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CRIANÇAS DESAPARECIDAS QUE ESTÃO À VISTA

A propósito da acusação de rapto agora deduzida contra um indivíduo relativamente ao desaparecimento de Rui Pedro ocorrida há 13 anos algumas notas.
Do ponto de vista jurídico, sem conhecimento de pormenores e sem formação na área, limito-me a estranhar a morosidade do processo e que apenas agora se produza uma decisão, quando a própria responsável do DCIAP vem afirmar que não existem novas provas. Nada que nos surpreenda no estado calamitoso da nossa justiça.
A minha abordagem remete mais para a própria questão das crianças desaparecidas que reentrou na agenda. Uma situação desta natureza é uma tragédia absolutamente devastadora numa família. Nós pais, não estamos "programados" para sobreviver aos nossos filhos, é quase "contra-natura". Se a este cenário acresce a ausência física de um corpo que, por um lado, testemunhe a tragédia da morte mas, simultaneamente, permita o desenvolvimento de um processo de luto, a elaboração da perda como referem os especialistas, que, tanto quanto possível, sustente alguma reparação e equilíbrio psicológico e afectivo na vida familiar a situação é de uma violência inimaginável.
No entanto e a este propósito, creio que vale a pena não esquecer a existência de muitas crianças que estão desaparecidas mas à vista, situações que por desatenção e menos carga dramática passam mais despercebidas.
Muitas crianças vivem quase abandonadas dentro das famílias, sós e sem a atenção que necessitam para crescer. Vão sobrevivendo fechadas em ecrãs e em companhia de outra gente tão desaparecida quanto eles. Nestas situações só quando algo de mais complicado acontece é que se nota como estavam desaparecidas da atenção dos adultos, desaparecidas da preocupação dos adultos.
Com mais atenção teríamos, certamente, menos crianças desaparecidas.

DOIS TELEMÓVEIS

Um dia destes, assustado com os diversos e coloridos alertas da Protecção Civil e do Instituto de Meteorologia troquei a mota, o meu meio de transporte habitual para a travessia do Tejo, pelo comboio. Provavelmente devido à crise, o comboio estava mesmo aconchegado de gente, por assim dizer. À minha frente sentou-se uma mocinha de uns 18 ou 20 anos que logo sacou de um telemóvel e começou uma conversa que se prolongou durante muito tempo. Nada de estranho, àquela hora uns dormem outros fecham-se nos fones e nos telemóveis sempre com um ar meio adormecido. Mas a rapariga destoava, para minha perplexidade, puxou de um outro telemóvel e enquanto continuava a falar por um, escrevia freneticamente mensagens no outro com uma habilidade que me fez suspeitar que seria já ser um produto da reprogramação genética que nos fará vir equipados com polegares funcionalmente adaptados aos teclados dos telemóveis.
Fiquei a pensar e, a partir da ideia dos dois telemóveis, comecei a imaginar que nesta reprogramação genética poderíamos também ter duas cabeças, uma que se especializaria no racional e no trabalho, ou seja, na gestão do dia a dia e outra dirigida para o sonho e para a imaginação. Funcionariam independentes e sem atropelos.
Imaginei também que poderíamos vir equipados com dois corações, um que asseguraria o lado funcional e outro disponível para os afectos e para as emoções, sem a concorrência de coisas simples e rotineiras como manter o corpo a funcionar que seria o trabalho do outro coração.
Quando pensei em corpo, imaginei uma coisa ainda mais estranha. Poderíamos vir com dois corpos, inteiros, assim mesmo, uma pessoa, dois corpos. Utilizaríamos um para as tarefas do “tem que ser” e o outro para as tarefas que decorrem do “querer”. Claro que teríamos a capacidade de alternar a função dos corpos.
Quando começava imaginar uma outra mudança fui acordado por uma voz metálica feminina que me informava qual a próxima estação, o meu destino.
A menina da frente continuava ao telemóvel ao mesmo tempo que furiosamente enviava mensagens noutro telemóvel.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O UNIVERSO DA EDUCAÇÃO, O CAOS ORGANIZADO

O Secretário-geral da Fenprof, em declarações hoje divulgadas, entende que não existe Ministério da Educação. Existe o Ministério das Finanças que impõe medidas que o ME traduz em política educativa.
Desta vez, o que acontece poucas vezes, estou de acordo com Mário Nogueira, mas não exactamente pelas mesmas razões. Há algum tempo atrás intitulei um texto "Apesar do ME" aqui colocado referindo-me a alguns bons resultados conseguidos, por exemplo no PISA, ou seja, muitas escolas, muitos professores, muitos funcionários e técnicos, muitos alunos e muitas famílias continuam a empenhar-se e a investir no que fazem, de forma a que, no fim, o trabalho dos miúdos seja bem sucedido, apesar da incompetência e desacerto de muito do que se tem decidido em matéria de educação.
Voltando então à "não existência do ME" consideremos alguns aspectos que me parecem caracterizar a situação.
Em primeiro lugar, o ME é apenas uma parte do universo da educação que, do meu ponto de vista, se parece com uma espécie de caos organizado. Considero ainda este caos está organizado em torno da agenda de interesses que os grandes actores desse universo definem.
Centrando-nos no ME, a definição de medidas de política parece relevar quase que exclusivamente de critérios de natureza económica e financeira, do controle político do sistema educativo e de uma deriva informada pela obsessão em mostrar resultados que a realidade não autoriza. Os discursos da oposição política candidata ao poder são obviamente informados por aquilo que, em cada momento, melhor possa servir os seus interesses.
Por outro lado, boa parte dos discursos produzidos pelos representantes dos professores ou dos funcionários, são quase que exclusivamente centrados numa visão corporativa de questões profissionais, o que não se estranha, naturalmente, é a sua vocação. No entanto, esses discursos surgem, excessivas vezes, capturados pelos interesses das agendas dos interesses da partidocracia subjacente, ficando pouco clara a preocupação com a qualidade dos processos educativos.
Num país em que a literacia e a maturidade cívica que sustentam a solidez e a força de posições de crítica e exigência são deficitárias, a maioria dos pais está demitida do envolvimento nos movimentos representativos dos pais pelo que as minorias mais activas assumiram essa posição que sendo legítima não é eficaz e representativa obedecendo, por vezes nitidamente, a agendas outras. Os outros pais, a maioria e, sobretudo, os mais preocupados com os seus miúdos relacionam-se com a escola em função, obviamente, das particularidades individuais dos seus educandos.
Finalmente e no que respeita aos alunos, parece-me importante sublinhar que o quadro que descrevi anteriormente, as consequências dos modelos de desenvolvimento que têm sido seguidos, os sistemas de valores que temos vindo a definir, não podem deixar de se reflectir na relação que estabelecem com a escola, ou, melhor dizendo com parte da vida da escola.
É por esta ordem de razões que, a não alterarmos modelos e valores de participação cívica, discursos e práticas políticas, mais centradas no bem comum e menos centradas nos interesses da luta pelo poder, dificilmente imagino que tenhamos, mesmo, um Ministério da Educação centrado no que é essencial, orientação e regulação, com um aparelho leve e eficaz, e o trabalho educativo centrado em escolas autónomas, responsáveis e responsabilizadas perante as comunidades locais.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

ÉS O QUE TENS

O Expresso divulgou mais uma peça fornecida à Wikileaks em que o embaixador americano em Lisboa, em trabalho dirigido para Washington a propósito da compra de material militar, afirma a nossa apetência pela compra de "brinquedos caros e inúteis” e que o fazemos por “orgulho”. Aparecem ainda algumas referências às chefias militares e à liderança política do Ministério da Defesa.
Em primeiro lugar, a leitura do material divulgado permite admitir que se, eventualmente, a compra do material militar fosse realizada a fabricantes americanos, talvez o discurso do embaixador americano fosse diferente.
Em segundo lugar, consideremos a compra de brinquedos caros e inúteis. Creio que é verdade, parece algo de inscrito no nosso funcionamento embora não simpatize com a apreciação vinda de um embaixador americano. Gostamos de gastar, de viver acima das nossas posse e de mostrar que “também temos o que os outros têm, até mais”. A política portuguesa nos últimos anos, não só no Ministério da Defesa, obedece ao mesmo estilo, rotundas, betão, auto-estradas, estádios do Euro, TGV, etc., etc.
No entanto, este modelo não é um exclusivo da liderança política. De uma forma geral, as famílias e os indivíduos seguem o mesmo estilo de vida, é apenas uma questão de escala.
Se bem repararmos, até os mais novos vão crescendo envolvidos no entendimento de que “és o que tens” pelo que, não importa como, temos de ter se não, não somos. Independentemente das disponibilidades materiais temos de ter “aquele” carro, “aquela” roupa”, “aquele” plasma, “aquele” telemóvel, “aquela” viagem, “aquela” mobília, etc.
As fragatas e os submarinos são só mais caros mas a prática é de todos, não vale a pena fingir que só os militares é que gostam de “brinquedos caros e inúteis” por “orgulho”.
Antes fosse, porque então não o fariam da mesma forma, a comunidade não deixaria que tal acontecesse impunemente.

IMAGENS - Fim de tarde no Guincho

Foto de João Morgado - http://olhares.aeiou.pt/jgmorgado

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

MENINOS PARA UM LADO, MENINAS PARA O OUTRO. Assim, está bem

A propósito da notícia de hoje no I sobre a educação separada por géneros assumida pelos Colégios Fomento em parceria com a Opus Dei em que o Presidente dos Colégios vem sustentar a evidência científica das vantagens do modelo, recordei-me que há uns temos atrás esteve em Lisboa o Professor Cornelius Riordan, sociólogo, proferindo uma conferência sobre as vantagens das escolas só para rapazes ou só para raparigas. Na altura escrevi aqui algumas notas que hoje retomo.
Como nota prévia, importa esclarecer que não discuto a legitimidade que informa a decisão de pais e encarregados de educação sobre as escolas que desejam para os seus filhos. Sendo certo que a liberdade de escolha é condicionada por múltiplos factores, também é certo que essa escolha pode assentar em critérios como público ou privado, dimensão, estatuto social predominante, laica ou religiosa, com farda obrigatória ou não, com formação de natureza militar ou não, com co-educação ou com separação de géneros, estabelecimentos em moda, etc. Num esforço de alargamento de opções poderá colocar-se até a possibilidade de se desejarem escolas para alunos com excesso de peso que terão, naturalmente, um plano curricular reforçado no âmbito da actividade física e cuidados redobrados na alimentação ou escolas para qualquer forma de minoria para que, ideia peregrina, fiquem mais protegidas dos excessos das maiorias, etc. Estas escolhas assentarão, necessariamente, no conjunto de valores, cultura, representações, expectativas, etc. dos pais. Trata-se de uma opção que lhes assiste.
A questão mais substantiva e que justifica o comentário é a afirmação de que escolas separadas por género são melhores e alguma da sustentação aduzida. O Professor Riordan referia que mais de metade dos estudos não são conclusivos sobre os efeitos positivos, mas crê nas vantagens das escolas separadas. Uma outra justificação prende-se com a questão do assédio sexual !!! Para demagogia não está mal. Parece também que as políticas educativas promotoras da equidade nos géneros faliram porque o Eminente Professor acha que o facto de as raparigas terem actualmente um maior acesso por exemplo ao ensino superior e, frequentemente, melhor rendimento académico, implicou a transformação dos rapazes “num grupo claramente em desvantagem” o que só se resolve se forem para escolas separadas. Não lhe ocorre um momento pensar nos processos educativos e na sua qualidade, certamente um pormenor irrelevante. Parece ainda que a Senhora Hillary Clinton deve a sua bem-sucedida carreira à frequência de uma escola só para raparigas. Fantástico.
O Presidente dos Colégios Fomento parte de um elenco de características próprias a cada género para sustentar a bondade da separação, argumento ridículo, no mínimo, numa sociedade em que ninguém é igual a ninguém e sem nenhuma base científica que as relacione com as questões da educação e as capacidades para serem bem sucedidos ou sucedidas. Uma outra questão interessante e não abordada pelo Eminente Professor Riordan nem pelo Presidente dos Colégios Fomento, remete para os limites da educação separada. Será desejável até ao fim do secundário ou será melhor prolongar também durante o ensino superior e, entretanto, começar o processo de separação do mercado de trabalho também por géneros uma vez que em adultos também homens e mulheres têm características diferentes?
Termino como comecei, entendo como totalmente legítima a existência de valores e opiniões que sustentem a opção pela educação separada mas, por uma questão de honestidade intelectual, não os mascarem de ciência.

ERUDITAR

Há uns anos atrás numa tertúlia com muita gente reunida à volta do Mestre Malangatana, estava presente Rui Mário Gonçalves, uma das figuras da arte em Portugal, fundamentalmente na análise, história e crítica.
Durante a conversa e após uma intervenção de Malangatana, o Professor Rui Mário Gonçalves pega na palavra e no seu jeito culto, o dos que verdadeiramente o são, começa a desenvolver umas ideias em torno da pintura do Mestre.
Quando acabou, Malangatana, com a voz grossa e arrastada que nos encantava, responde, "não te ponhas a eruditar" e tenta mostrar-nos a todos como o trabalho que faz é uma coisa simples, é "apenas" fruto da alma que carrega ligada à terra que o gerou.
Nunca mais me esqueci do "eruditar" e muitas vezes vejo gente a falar, por exemplo na comunicação social, como quem "mostra a biblioteca" o que, devo dizer, nem era o caso do Professor Rui Mário Gonçalves.
São pessoas que usam falas herméticas, próprias do jargão da tribo a que pertencem, cheias de sofisticadas palavras e ideias que, com alguma frequência, permanecem indecifráveis para muitos dos interlocutores o que, aliás, não parece constituir problema para os eruditados pois falam para si, não para o outro, para os outros.
Como dizia, outra figura enorme da cultura portuguesa, o Dr. João dos Santos, difícil mesmo é fazer simples.
E fazer simples só os grandes Mestres o conseguem, como Malangatana, de quem hoje me lembrei, de novo. E sempre.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

ÉS EXCELENTE MAS JÁ NÃO CABES

Retorno a algum discurso que já aqui tenho afirmado sobre a questão da avaliação de professores e dos equívocos gerados. Em primeiro lugar deve sublinhar-se a imprescindível existência de avaliação, ferramenta insubstituível na promoção da qualidade.
Desde o seu início e como é habitual em matéria de educação os discursos e opiniões em presença, para além de expressarem uma eventual, natural e desejável diferença de entendimentos, são contaminados por agendas de outra natureza que impossibilitam a a serenidade imprescindível à acção educativa, levando a que esta acção seja permanentemente acompanhada por um ruído de fundo e uma crispação de efeitos profundamente negativos.
Hoje volta à mesa a questão das quotas na avaliação de professores, que do meu ponto de vista, torna difícil promover o mérito se, simultaneamente, se definem quotas para a excelência. Mais uma vez vejamos. Se um qualquer profissional, à luz dos critérios, sejam quais forem, que avaliam a qualidade do seu desempenho, merecer uma avaliação de excelente, tem, necessariamente, de obter esse patamar, dizer-lhe que é excelente mas já não cabe na quota de excelência é atacar o mérito e incentivar a desmotivação.
O problema, como é óbvio, deve-se ao facto do ME ter desde sempre, com o aparente assentimento dos representantes dos professores, colado, erradamente, a avaliação à progressão na carreira. Já disse e repito, que a progressão na carreira me parece mais ajustada se for realizada através de concursos com critérios transparentes, entre os quais, obviamente a avaliação de desempenho ou seja, quando vários professores concorrerem a patamares acima na carreira, os que melhor desempenho tiverem, terão, naturalmente, mais probabilidades de progredirem.
Parece simples. A questão é que esta matéria é olhada com muita demagogia, manhosice política e alguma incompetência.

PROFISSÃO:TOXICODEPENDENTE

Um dia destes, em conversa com gente grande ligada ao trabalho com gente pequena alguém contou uma história curiosa. Num jardim-de-infância ao consultar as fichas dos gaiatos no que respeita ao agregado familiar, reparou que na informação sobre a mãe, na janela destinada à Profissão, estava escrito “Toxicodependente”. Devo dizer que acho notável embora, já dificilmente me surpreenda, é verdade, Profissão: Toxicodependente.
Apesar de tudo fiquei a pensar.
E imaginei uma daquelas conversas frequentes entre educadores e crianças sobre as actividades dos papás e mamãs e a menina, provavelmente, não sabendo a profissão da mãe, ser informada que, de acordo com os registos da instituição, a mãe desempenha a profissão de toxicodependente. E mais imaginei que quando os meninos se referem orgulhosamente à excelência dos desempenhos dos papás, como sabem os nossos pais são sempre os melhores do mundo, a menina expressar o seu orgulho por ter uma mãe que deve ser uma das melhores toxicodependentes do mundo, “a minha mãe é assim para que saibam” para que saibam, pensará a menina. E imagino também quando, como às vezes acontece, os senhores educadores convidarem os papás e mamãs dos meninos para falar sobre as suas profissões ao grupo de crianças, a mãe da menina virá com muita satisfação falar das particularidades, satisfações e dificuldades da sua profissão, toxicodependente.
Agora a sério. Sempre me pareceu fundamental, eu diria obrigatório que, do ponto de vista da educação a única profissão que deveria constar no que respeita ao pai era, adivinhem, isso mesmo, pai e, naturalmente, na profissão da mãe deveria constar simplesmente mãe.
O resto é acessório e motivo de ruído e enviesamentos no olhar sobre as crianças.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A ESCOLA CONTINUA A ENGORDAR

A OCDE decidiu que o Programme for International Student Assessment passará a incluir a partir de 2013, ainda em fase experimental, a avaliação dos conhecimentos dos alunos em matéria de literacia financeira, para além da óbvia literacia matemática. Sou um defensor da realização de estudos internacionais que, acautelando contextos e metodologias, nos fornecerão indicadores comparativos que são boas ferramentas de regulação da qualidade nos sistemas educativos. No entanto, devo dizer que não encontro justificação para autonomizar a chamada "literacia financeira" como matéria de avaliação. A educação matemática passa, fundamentalmente, pela aquisição e domínio de um conjunto de conceitos, competências e capacidades instrumentais que se operacionalizam na resolução de problemas ou na construção de outros conhecimentos. Assim sendo, citando um texto no Público, “testar os jovens de 15 anos em termos dos seus conhecimentos de finanças pessoais e capacidade de os aplicar a problemas financeiros ” poderia, do meu ponto de vistas, ser realizado no âmbito da aplicação dos seus conhecimentos resultantes da educação matemática. Por outro lado, entender que matérias como, cito de novo, "lidar com contas bancárias, cartões de débito e de crédito, planear e gerir o dinheiro, perceber os impostos e as poupanças, os riscos e benefícios e os direitos e responsabilidades do consumidor" serão matéria de avaliação dos alunos de 15 anos, além de alguma estranheza, pode levar a que se entenda que também estas questões devam ser objecto de "ensino escolar" o que, na linha do que se passa em Portugal, implicaria certamente mais uma disciplina e mais um manual.
Curiosamente, referi-o há tempos aqui no Atenta Inquietude, a propósito da realização do I Fórum da Poupança e do Investimento organizado pela Associação das Instituições de Crédito Especializado, ouvi um elemento da Comissão Organizadora informar que já tinha sido proposta ao ME a criação no currículo escolar de uma disciplina de “Educação Financeira” para promover literacia financeira informando ainda que estaria pronto um manual, com o acordo do ME, que seguramente chegaria em breve às escolas.
Se agora a OCDE se propõe avaliar a "literacia financeira", devo confessar a minha inquietação, temendo a retoma da ideia de mais disciplinas e manuais. Não podemos ter como lógica que tudo o que se possa transformar em área de saber se deverá transformar numa disciplina escolar.
A ver vamos, sobretudo se, depois da fase experimental desta avaliação do PISA de que Portugal estará arredado, for confirmada a avaliação nesta área e os resultados por nós obtidos.

QUE SE MULTEM OS PAIS "MAUS" DOS MIÚDOS "MAUS"

Agora vem dos Açores. A Secretaria Regional da Educação avançou a ideia de que poderiam ser aplicadas coimas aos pais que "não se envolvam na educação dos filhos". A ideia não é nova, o presidente da CONFAP, o Dr. Albino Almeida, há algum tempo atrás sustentou a mesma proposta que na altura comentei, discordando. Como aparece de novo na agenda, retomo algumas notas em estilo telegráfico ultrapassando uma primeira questão que remete para o que se deve entender por "envolvimento" na educação dos filhos.
1 - A maioria dos pais não gosta que os seus filhos sejam "maus". A maioria não sabe como fazê-los "bons". Estes precisam de apoio não de multas. Ponto.
2 - Uma minoria, muito pequena, de pais de miúdos "maus" são pais maus não estão interessados ou preocupados em ser bons, nem se preocupam com os filhos, são "negligentes". Nestes casos, o problema é, no limite, retirar a guarda dos filhos, a multa não mexe seguramente com a negligência destes pais. Ponto.
3 - Um miúdo "mau" levanta problemas numa escola, qualquer escola, onde existem umas dezenas largas de especialistas em educação que não conseguem "resolver" os problemas criados por esse miúdo "mau". Será que alguém que conheça estes cenários acredita que os pais serão capazes de resolverão mesmo se lhes retirarem parte do abono de família ou de qualquer outra prestação social? Não acredito. Ponto.
Dito isto, se de facto se quiser caminhar no sentido de envolver e responsabilizar a famílias dos miúdos "maus", o percurso será a criação de estruturas de mediação entre a escola e a família que permitam apoiar os pais dos miúdos maus que querem ter miúdos bons e identificar as situações para as quais, a comprovada negligência dos pais exigirá outra colocação para os miúdos.
O resto, do meu ponto de visa, é populismo, demagogia e desconhecimento que levará a que muita gente, lamentavelmente, aplauda a ideia. Os filhos dos outros são sempre o problema.

O ACORDO ENTRE PAI E FILHO - Outro diálogo improvável

Bom Tiago, então fica assim. Se tu corresponderes, eu ...
Pai, mas pode acontecer que ...
Não, mas tínhamos visto que ...
No caso de ...
Mas nesse caso então eu ...
Não era assim. Eu teria sempre ...
Tiago, assim não me parece o que vimos.
Não pai, foi exactamente isso que vimos.
Mas se assim for não adianta que eu ...
Mas pai, repara que eu tenho sempre de ...
Bom, assim já me parece melhor.
Então fica mesmo combinado?
Está combinado. Como te estou sempre a dizer e tu por vezes te esqueces, a falar é que nós nos entendemos.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O PAI É MAU? E A MÃE? E A DECISÃO DO TRIBUNAL? Não se esqueçam da criança

Antes de ontem, numa leitura rápida pela imprensa on-line dei com uma notícia que, em síntese, informava que numa aldeia do Minho umas dezenas de habitantes tinham organizado uma vigília para impedir que uma criança com sete anos fosse, por decisão do Tribunal, entregue ao pai. Desde os 3 anos da criança que existe uma disputa entre os progenitores sobre a custódia da gaiata agora resolvida pelo Tribunal. Acontece que existe por parte da mãe a denúncia da alegada prática de abusos por parte do pai, e também alegadamente se verificam comportamentos reactivos por parte da criança à estadia com o pai. Neste contexto, tendo a criança até aqui permanecido com a mãe, os habitantes opõem-se à entrega da criança ao pai, agora decidida.
Não conheço mais dados do que estes e, portanto, não estou em condições de avaliar a bondade da decisão do tribunal.
No entanto, acho que vale a pena algumas notas breves. Em primeiro lugar, registar o facto de que esta situação dura desde os três anos sendo que a criança tem agora sete. É absolutamente inaceitável tal morosidade, considerando particularmente a idade da criança. Em segundo lugar, pensando nos contornos da situação, uma de duas coisas se pode verificar, ou o comportamento imputado ao pai não existe e estamos em presença de um caso de Síndrome de Alienação Parental de uma violência inimaginável e destruidor da relação da criança com os pais ou, segundo cenário, os comportamentos imputados são verdadeiros e a criança estará à beira do precipício com a decisão do Tribunal.
O que tenho dificuldade em entender é a resolução definitiva, com decisão em matéria de guarda parental, sem que se esclareça devidamente a situação à luz do sempre citado “supremo interesse da criança”.
Como ontem referia no Atenta Inquietude, há crianças que vivem em mundos assombrados e que, por isso, crescem com a alma assombrada. A responsabilidade também é nossa.

Nota - Posteriormente à elaboração deste texto li na edição em papel do Público de hoje que a decisão do Tribunal foi fundamentada pela existência da Síndrome de Alienação Parental desenvolvida pela mãe, instrumentalizando a criança e induzindo nesta as queixas sobre os supostos abusos realizados pelo pai. Continuo preocupado com a criança.

O MIÚDO COM A ALMA ASSOMBRADA

O Mário era provavelmente o miúdo mais conhecido na escola, lamentavelmente por razões negativas. Tinha doze anos, nem sequer era muito crescido, era até meio franzino mas sempre de uma agitação imparável. Nas aulas pouca atenção dava ao que se passava e as tarefas solicitadas ficavam invariavelmente por realizar. Quase diariamente arranjava problemas que nas mais das vezes acabavam com a saída da sala e uma conversa, mais uma, no gabinete da direcção da escola. Desconhecia regras e limites e nos intervalos eram frequentes os episódios de agressividade. A escola já tinha recorrido a suspensões sem efeitos visíveis.
Um dia destes na sala de professores comentava-se novo episódio que em que o Mário se tinha envolvido e alguém rematou "Este miúdo é o diabo". O Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, estava por perto e comentou naquele jeito tranquilo, "não é o diabo mas tem a alma assombrada".
E acrescentou, "Eu conheço o Mário há alguns anos e a narrativa dele tem vindo a escrever-se num mundo estranho. A violência é a regra e o tudo é o limite. Desconhece o bem-querer e sobra-lhe o mal haver. A família dele é um grupo de pessoas que por vezes coexistem na mesma casa onde se destratam entre si e cada um trata de si. Os vários irmãos carregam uma história igual à do Mário e os pais, isto é as pessoas que o fizeram, já não vivem, sobrevivem. Tudo aquilo é na verdade um mundo assombrado, cheio de sombras, sem sol.
Como sabem, é dos mundos assombrados que quase sempre vêm as almas assombradas, como a do Mário, cheia de sombras, em sol".