No Público encontra-se uma peça sobre o desenvolvimento de um projecto da Fundação Gulbenkian na área da educação, o Gulbenkian Aprender.
Recordo que o projecto investirá 3,4 milhões de euros no apoio a cerca de 400 alunos de 38 agrupamentos dos 11 concelhosda região do Tâmega e Sousa. Nesta fase, depois de se iniciar com 150 alunos, envolve agora mais 150 até ao objectivo dos 400.
Estes alunos são apoiados através
de múltiplas intervenções e acompanhados do 5.º ao 12.º ano.
Os alunos participantes são beneficiários
de um dos escalões do da Acção Social Escolar e compete às escolas definir quem
integra o Projecto.
Pretende-se criar a oportunidade
que as condições sociais e económicas destes alunos dificultam de construir um
trajecto educativo bem-sucedido.
Sempre recordo José Afonso, “seja
bem-vindo quem vier por bem”, e registo e saúdo todas as iniciativas que possam
contribuir para minimizar ou erradicar problemas ou dificuldades, mas já me
falta convicção no impacto do modelo frequentemente seguido.
Para cada constrangimento ou
dificuldade percebida nas e pelas escolas e com regularidade, aparece vindo de
fora ou gerido de fora, um Plano, um Projecto, um Programa, uma Iniciativa, as
combinações são múltiplas, destinado a essa problemática.
Durante as últimas décadas, perco
a conta a planos, projectos, programas, experiências inovadoras que chegaram às
escolas para combater o insucesso ou, pela positiva, promover o sucesso,
promover a leitura e escrita, promover a matemática, promover a educação
científica, promover a educação inclusiva, erradicar ou minimizar o bullying, a
relação entre escola e pais e encarregados de educação, promover a expressão
artística e a criatividade, promover comportamentos saudáveis, a cidadania, o
ambiente, actividades desportivas, literacia financeira e outras, promover a
inovação e as novas tecnologias, para não falar de iniciativas mais
"alternativas", por assim dizer, e que têm poderes mágicos, parece. A
lista enunciada é apenas exemplificativa.
Com demasiada frequência muitos
destes projectos vêm de fora das escolas, as origens são variadas, não chegam a
envolver a gente das escolas, esmagada pelo trabalho, burocracia e outros
constrangimentos como, por exemplo, assegurar da melhor forma possível o
dia-a-dia do trabalho educativo que tem de ser realizado.
Aliás, Pedro Cunha, coordenador
do Gulbenkian Aprender sublinhou no início do Projecto a ideia de que
"Temos de assumir frontalmente que a escola não pode tudo".
Também com demasiada frequência
muitos destes projectos morrem de “morte matada” ou de “morte morrida”, não são
avaliados de forma robusta e dão umas fotografias ou vídeos que compõem o
portfólio dos organizadores e proporcionam uma experiência que se deseja
positiva aos intervenientes no tempo que durou, mas sem impacto significativo
na comunidade.
Todavia, preciso de afirmar que
muitos destes Planos, Projectos, Inovações, etc. dão origem a trabalhos
notáveis que, também com frequência, não têm a divulgação e reconhecimento que
todos os envolvidos mereceriam.
Não tenho dúvidas que também este
projecto da Gulbenkian, como a peça sugere, terá bons resultados e umas
centenas de crianças e jovens chegarão a um patamar que sem estas condições
seria extremamente difícil. Fico satisfeito com isto, mas …e os outros?
Também demasiadas vezes estas
iniciativas consomem recursos com baixo retorno e ao serviço de múltiplas
agendas.
Ponto.
Na linha da afirmação de Pedro
Cunha, tenho para mim, que não podendo a escola responder a todas as questões
que afectam quem nelas passa o dia poderia, ainda assim, fazer mais se os
investimentos feitos no mundo à volta da escola e que lhe vem bater à porta com
propostas fossem canalizados para as escolas. Sim, não esqueço a questão
crítica da falta de professores, mas também ela surge por incompetência das
políticas públicas de educação que os responsáveis teimam em branquear
Com real autonomia, com mais
recursos e com modelos organizativos mais adequados as escolas poderiam fazer
certamente mais e melhor que quem vem de fora numa passagem transitória, mais
ou menos longa, mas transitória. Sim, tudo isto deveria ser objecto de escrutínio,
regulação e avaliação também externa, naturalmente.
Escolas com mais auxiliares,
auxiliares informados e formados podem ter um papel importante em diferentes
domínios.
Directores de turma com mais
tempo para os alunos e menos burocracia poderiam desenvolver trabalho útil em
múltiplos aspectos do comportamento e da aprendizagem.
Psicólogos e outros técnicos em
número mais adequado, o que se verifica é inaceitável, poderiam acompanhar,
promover e desenvolver múltiplas acções de apoio a alunos, professores,
técnicos e pais.
Mediadores que promovessem
iniciativas no âmbito da relação entre escola, pais e comunidade seriam, a
experiência mostra-o, um investimento com retorno.
São apenas alguns exemplos de
respostas com resultados potenciais com um custo que talvez não seja superior
aos custos de tantos Projectos, Planos, Programas ou Iniciativas Inovadoras
destinadas a múltiplas matérias e com custos associados de “produção” que já me
têm embaraçado, mas a verdade é que as agendas e o marketing têm custos.
Na verdade, a “Projectite”,
sobretudo vinda de fora, é uma opção com pouco potencial apesar, insisto, das
boas experiências que felizmente também existem e que também desejo que seja o
Gulbenkian Aprender.
A escola não consegue fazer tudo,
mas as políticas públicas não são só escola e os projectos de vida
bem-sucedidos para cada criança desenvolvem-se e assentam na diversidade,
competência e coerência das políticas públicas de diversas áreas e dos objectivos
que pretendem atingir.
É “só” isso que falta e fazer
melhor não é uma impossibilidade.
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