sexta-feira, 2 de outubro de 2026

OS TRATOS DOS VELHOS

 O calendário das consciências assinalou ontem o Dia Internacional de Idoso, universo que me toca de perto.

E a verdade é que muitos idosos, para além da idade, carregam penas que não merecem, ninguém merece.

Vejamos alguns dados divulgados pela PSP envolvendo idosos. Nos últimos três anos foram registados mais de 54 mil crimes contra idosos.

Em 2025, globalmente, foram registadas pela PSP 18230 participações de criminalidade contra pessoas idosos, mais de 13 mil relativas a crimes de natureza patrimonial e 4823 relativas a crimes contra as pessoas.

Foram registados 894 crimes de violência doméstica, 1248 crimes de ofensa à integridade física simples e 825 crimes de ameaça e coacção contra idosos. Considerando em particular a violência doméstica, 44% dos crimes registados são cometidos por filhos.

É um cenário inquietante no meio de mundo em estado inquietante.

Quer no seio das famílias, quer em instituições para onde alguns velhos são enviados compulsivamente como tem sido denunciado pela APAV, algumas encerradas por determinação legal, tal é a gravidade das situações, multiplicam-se as referências à forma inaceitável como os velhos estão a ser tratados.

Começam por ser desconsiderados pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis, transforma os velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência.

Continua com um sistema de saúde que deixa muitos milhares de velhos dependentes de medicação e apoio sem médico de família.

Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades ou alterações nos estilos de vida, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução. As situações muito complicadas em que milhares de famílias estão envolvidas com o retornar de várias gerações à mesma casa e a tentação de aproveitar os baixos rendimentos dos velhos potenciam o risco de maus-tratos.

Finalmente, as instituições, muitas delas, subordinam-se ao lucro e escudam-se numa insuficiente fiscalização além de que, com frequência, os equipamentos de qualidade são inacessíveis aos rendimentos de boa parte dos nossos velhos.

Lamentavelmente, boa parte dos velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice.

Não é um fim bonito para nenhuma narrativa, entende o velho que escreve estas letras.

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