segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

OS CUSTOS DE ESTUDAR

Ao que parece, as propinas no ensino superior poderão aumentar até cerca de 30 euros para 1066 euros, admitindo-se que dadas as dificuldades actuais do ensino superior, muitos estabelecimentos possam cobrar a propina máxima.
Contrariamente ao que creio ser um dado adquirido por muita gente, Portugal tem um dos mais altos custos de propinas da Europa, ocupa o 10º lugar nos países com propinas mais caras, embora em vários destes países com propinas mais altas, muitos dos alunos não sejam abrangidos por esses valores.
Também há pouco tempo foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior particular o esforço é ainda maior.
Tem vindo a ser regularmente noticiada a desistência da frequência dos cursos por muitos alunos que, por si, ou os respectivos agregados familiares não suportam os encargos com o estudo. Sabe-se também dos constrangimentos na atribuição de bolsas de estudo.
Segundo um estudo da Universidade do Porto, quase um quarto dos seus alunos abandona o curso durante os três primeiros anos. Os números dos diferentes cursos têm variações acima ou abaixo do valor médio, mas são muito elevados. Embora existam outros factores contributivos, as dificuldades económicas parecem constituir a razão fundamental para esta enorme taxa de abandono.
Também um inquérito envolvendo estudantes de todo o país coordenado pela Associação Académica da UTAD, apurou que 48% dos inquiridos já passaram por dificuldades económicas e cerca de 65% temem abandonar o curso em consequência das dificuldades.
Recordo ainda um trabalho de há meses realizado pelo Público junto de um grupo significativo de estabelecimentos de ensino superior, em que se constatou que, face a igual período do ano passado, aumentou 6% o número de desistências do ensino superior por efeitos da crise. Esta percentagem corresponde a cerca de 3300 estudantes o que é significativo. As dificuldades económicas, a dificuldade no acesso a bolsas e o aumento de propinas são os motivos identificados.
As dificuldades pelas quais passam muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado, são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Neste quadro, a redução significativa das bolsas e apoios, as dificuldades enormes que muitas famílias atravessam e o desemprego mais elevado entre os jovens, que poderia constituir uma pressão para continuar os estudos, as elevadas propinas, designadamente no 2º ciclo, tornam ainda mais difícil a realização de percursos escolares que promovam mobilidade social e que se traduzem, por exemplo, no aumento das desistências.
Quando se espera e entende que a minimização das assimetrias possa, também, depender da educação e qualificação, o seu preço e as dificuldades actuais, longe de as combater, alimenta-as.
É preocupante.

OS TRABALHOS DAS MULHERES

No Relatório da Comissão Europeia,  Análise Trimestral do Emprego e da Situação Social na União Europeia, hoje divulgado, constata-se que a disparidade salarial entre homens e mulheres. considerando o período de 2008 a 2010 baixou, o que aparentemente é um passo no caminho da não discriminação de género. No entanto, este abaixamento não resulta de melhorias nas condições do mercado de trabalho, mas, pelo contrário, na degradação das condições e na qualidade do trabalho em sectores com mão-de-obra predominantemente masculina, ou seja, é uma situação conjuntural e não estrutural como refere, aliás, a Comissão.
Na verdade penso que existe um longo caminho a percorrer em matéria de discriminação de género que, creio, a actual situação económica tenderá a agravar.
Um estudo da CGTP divulgado há algum tempo, elaborado a partir dos dados do INE, mostrava que as mulheres portuguesas recebem, em média, menos 18 % de salário que os homens, cerca de 181 €. Segundo o Relatório Society at a Glance 2011 da OCDE, Portugal é o quarto país dos 29 considerados com maior diferença entre homens e mulheres, no que se refere a trabalho não pago, sobretudo a tão portuguesa “lida da casa”, cozinhar, limpar, cuidar dos filhos, etc. Entre nós a diferença é de quase quatro horas.
No mesmo sentido, um trabalho também realizado pela CGTP com dados do INE e do Ministério do Trabalho, informava que as mulheres portuguesas trabalham em média 39 horas semanais e realizam mais 16 horas de trabalho não remunerado relacionado com a família e um trabalho internacional revelava que as mulheres portuguesas são das que mais tempo trabalham fora de casa. Existem ainda indicadores sustentando que as mulheres portuguesas são, de entre as europeias, as que mais valorizam a carreira profissional e a família, a maternidade.
Para além dos baixos salários e da discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo, também a regulação da legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. Regista-se um aumento do recurso à prostituição para sobreviver a condições económicas muito complicadas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc. Pode também referir-se que apesar das alterações legislativas o uso partilhado da licença por nascimento de filhos ainda é significativamente baixo.
Importa, evidentemente, combater a discriminação salarial e de condições de trabalho através de qualificação e fiscalização adequadas.
Na verdade, a metade do céu, que as mulheres representam, carrega um fardo pesado.

A INDOMESTICÁVEL VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A violência doméstica é uma das matérias que solicita permanente reflexão pelo que mais uma vez aqui trago umas notas.
No âmbito do período experimental de um novo modelo de avaliação de risco desenvolvido por uma equipa da Direcção-geral da Administração Interna, entre 15 de Novembro e 31 de Dezembro registaram-se nos distritos de Lisboa e Porto mais de 800 denúncias à PSP e à GNR de casos de violência doméstica.
Tal volume de ocorrências e ainda o facto conhecido de que nem todos os episódios são denunciados obriga, de facto, a medidas proactivas de combate a este tipo de situações.
Relembro que no âmbito do Dia Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Violência Contra as Mulheres em Novembro, se sublinhava os efeitos que os episódios de violência doméstica podem ter nos filhos, pois cerca de 41.5% das situações reportadas ocorrem na presença dos miúdos, com consequências negativas óbvias e que apenas acentuam a necessidade de se minimizar ou eliminar este tipo de ocorrências.
Segundo o Relatório do Observatório de Mulheres Assassinadas relativo a 2011 registaram-se 27 mortes em contextos de violência doméstica, um número menor que o de 2010, 43 casos, e contabilizam-se 4 queixas de violência doméstica por hora apresentadas às autoridades.
Também o Relatório da Direcção-Geral da Administração Interna refere em 2011 um decréscimo de participações de casos de violência doméstica embora na UMAR, União das Mulheres Alternativa e Resposta, os pedidos de apoio tenham subido 20%. Parece acentuar-se a desconfiança face ao sistema de justiça, apenas 10 a 15 % recorrem ao apoio e muitas pessoas afirmam que queixas anteriores foram inconsequentes. Do total de inquéritos instaurados, 83 % acabam arquivados, apenas 15 % chegam a julgamento que, com frequência, terminam com condenações. Quando se verificam condenações a maioria, 82 %, é com pena suspensa, veja-se que de 58 sentenças em processos-crime por violência doméstica relatadas à DGAI no primeiro trimestre de 2011, 52 por cento foram absolvições e 48 por cento condenações. Das condenações, apenas 6% merecem pena de prisão efectiva.
No entanto, de acordo ainda com o Relatório da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima sobre 2011, o número de casos reportados de violência doméstica continua aumentar sendo ainda de registar um aumento muito significativo mais de 50% de denúncias realizadas por homens.
Por diferentes ordens de razões e embora a realidade se vá modificando lentamente, veja-se o aumento de denúncias por parte dos homens, parece assumir-se ainda uma espécie de fatalidade face à tolerância do crime de violência doméstica dirigida às mulheres, mas não só, provavelmente. Esta tolerância relativiza-se à dificuldade de prova, ao sistema de valores e situação de dependência emocional e económica de muitas das vítimas, à atitude conservadora de alguns juízes, etc. Permanece ainda com alguma frequência a dificuldade de promover a retirada do agressor do ambiente doméstico, procedendo-se à saída da vítima numa espécie de dupla violência que, aliás, também se verifica em situações de maus tratos a crianças, em que o agressor fica em casa e a criança é “expulsa”.
Importa ainda combater de forma mais eficaz o sentimento de impunidade instalado e ainda, como referi, alguma “resignação” ou “tolerância” das vítimas face à percepção de eventual vazio de alternativas ou a uma falsa ideia de protecção dos filhos em caso de separação do agressor. Nesta perspectiva, torna-se fundamental a existência de dispositivos de avaliação de risco e de apoio como instituições de acolhimento e, naturalmente, um sistema de justiça eficaz e célere. 

domingo, 13 de janeiro de 2013

O ESCRAVO PERFEITO

"O português é inteligentíssimo, aprende com enorme facilidade, tem grande capacidade de trabalho. A única coisa que precisa é de orientação", (Soares dos Santos, o Presidente do Conselho de Administração da Jerónimo Martins, ao Expresso de ontem).
Na verdade, somos os escravos perfeitos.

REFORMAS E REFORMADOS, PENSÕES E PENSIONISTAS

A condição de reformado, a idade de passagem à reforma e os rendimentos dos reformados entraram na agenda por variadíssimas razões, desde a sustentabilidade dos sistemas de segurança social, à demagogia insensata e insensível do Primeiro-ministro sobre a relação entre descontos e reformas, a mais antiga e disparatada referência de Cavaco Silva ao seu insuficiente rendimento de reformado, que, aliás, o fez, inaceitavelmente, preferir o rendimento das suas reformas ao miserável vencimento de Presidente ou ainda às normas do OGE para 2013 relativas à suspensão do pagamento do subsídio de férias de aposentados e reformados e à contribuição extraordinária de solidariedade dos mesmos grupos.
No Público de hoje o Provedor de Justiça chama a atenção para esta matéria. Creio que se justifica retomar algumas notas antigas sobre o universo dos pensionistas e reformados onde, de forma coerente com o que é habitual entre nós as assimetrias são gritantes.
Apesar de sabermos de um reduzido número de pessoas com pensões ou reformas milionárias e de como algumas dessas figuras acumulam despudoradamente vencimentos e reformas ou pensões a grande maioria das pessoas nesta condição estão longe desses patamares de rendimento e condições de vida.
Há poucas semanas foi divulgado um relatório de uma agência europeia mostrando que os preguiçosos portugueses são os que mais trabalham depois dos 65 anos em toda a União Europeia. Tal situação decorre do desejo de se manterem activos, contrariando a tese da preguiça, mas, sobretudo, pela insuficiência da maioria das reformas, perda de rendimentos provocada pela política em curso, ou seja, continuam a lutar pela sobrevivência. Estava a escrever isto e a lembrar-me do Velho Zé Marrafa lá do Meu Alentejo que começou aos nove anos a guardar porcos, já está reformado, mas precisa de continuar na lida seis dias por semana e vai nos 72.
Recordo que em 2009, segundo dados da Segurança Social, existiriam em Portugal cerca de 1,8 milhões de pobres, hoje estão bem acima dos dois milhões, ou seja, com rendimento inferior a 360 €, o limiar de pobreza, e, curiosamente, o mesmo número de pensionistas. Relativamente a estes, o valor médio das pensões era de 385 € e só Lisboa e Setúbal apresentavam valores médios acima do salário mínimo nacional, 450 €, em 2009. A assimetria era fortemente evidenciada pelo facto de a pensão média mais a baixa, a de Bragança, ser de 272 € e a mais alta, a de Lisboa, ser de 504 €. Só quatro concelhos, Lisboa, Setúbal, Porto e Aveiro apresentam valores médios das pensões acima do limiar de pobreza.
A situação actual ter-se-á obviamente agravado para muitos milhares de pessoas sendo que aqueles, poucos, que não viram as pensões ou reformas alteradas as têm com valores baixíssimos e insuficientes para os retirar da situação de pobreza. Trata-se, ao que parece, do início da refundação do estado social.
Provavelmente apelando à responsabilidade social dos reformados, não tardará um apelo a um movimento de voluntariado no sentido de continuarem a trabalhar, mas com o actual salário substituído pela reforma, bem mais baixa, é claro.
As comunidades, de uma forma geral, não estão preparadas com equipamentos para seniores e os melhores são inacessíveis. O equipamento social mais utilizado por muitos seniores é a sala de espera dos Centros de Saúde onde também se consome grande parte dos seus rendimentos.
Lamentavelmente, boa parte dos velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice.
Não é um fim bonito para nenhuma narrativa.

A LICENÇA PARA VOTAR

É a segunda vez em poucos dias que no Público se reflecte sobre o acesso ao voto por parte de crianças e adolescentes. Primeiro surgiu um texto interessante do Professor Mário Cordeiro e hoje surge um trabalho jornalístico sobre a mesma questão, embora mais centrado na possibilidade do voto aos 16 anos.
A questão não está na agenda politica, mas justifica a abordagem. Na verdade, em Portugal e aos 16 anos, as pessoas têm a possibilidade legal de casar, trabalhar ou serem responsabilizados criminalmente. Porque não a acessibilidade ao voto?
Dizem alguns que estes adolescentes não terão maturidade para o uso "responsável" do voto. Provavelmente, algumas das pessoas que entendem que as pessoas com 16 anos não têm maturidade, ficarão indiferentes ao espectáculo indecorosos de "manipulação" e "compra" dos votos a que assistimos em todos as campanhas eleitorais, que envolvem desde as ofertas, os passeios, as promessas que não se vão cumprir, até às recompensas com lugares aos mais empenhados e melhor colocados nos aparelhos. Parece-me fraco o argumento se considerarmos o que socialmente e pessoalmente as pessoas com 16 anos são capazes e como tal consideradas pela comunidade e pela lei, relembro casar e trabalhar, por exemplo.
O voto sem restrições a partir dos 16 anos apenas  se verifica na Áustria, registando-se menor abstenção que no escalão 18-20 anos, o que sugere o interesse dos mais jovens pela participação cívica.
Do meu ponto de vista esta é a questão central, a participação cívica. O modelo e cultura política instalados há décadas na nossa comunidade, a partidocracia, fomentam, explicita ou implicitamente, o afastamento de grande parte dos cidadãos da participação cívica activa pois, basicamente, ela corre por dentro ou sob tutela dos aparelhos partidários. Aliás os níveis crescentes e muito altos da abstenção em sucessivas eleições espelham isso mesmo.
Tal cenário alimenta um significativo e comprovado desinteresse dos jovens, mas não só, pela coisa pública e pelo envolvimento activo. A participação dos jovens na coisa política é conformada, quase que exclusivamente, às juventudes partidárias, que servem, com excessiva frequência de trampolim para os lugares políticos, Passos Coelho e António José Seguro, são dois actuais e excelentes exemplos desta carreira.
Por outro lado, esse desinteresse pela participação cívica, alinhada nos aparelhos, alia-se a um outro entendimento de consequências extremamente importantes, a falta de esperança e confiança em que as coisas possam tornar-se diferentes, ou seja, isto não muda, não adianta.
Neste cenário, parece-me, por um lado, que o voto aos 16 anos é sustentável pelas características e competências das pessoas nesta idade e por aquilo de que já são responsáveis e autónomos. Por outro lado, talvez o alargamento do voto possa ser um contributo para o rejuvenescimento e melhoria da saúde da nossa democracia minimizando as consequências da captura pela partidocracia da participação cívica dos cidadãos.
Gente mais nova, pode trazer comportamentos e  ideias mais novas.

sábado, 12 de janeiro de 2013

VIVER SEM DINHEIRO. Cuidado!

No DN, com chamada a primeira página, refere-se um indivíduo de Portimão que "conseguiu viver um ano sem qualquer dinheiro".
Por favor, escondam-no, convidem-no a emigrar rapidamente e para bem longe, mas não o deixem chegar perto de Passos Coelho, Vítor Gaspar e Carlos Moedas.
Este homem é um perigo público e um exemplo profundamente ameaçador. Aqueles três ainda se convencem que é mesmo possível viver sem dinheiro e lá se vai o que resta dos salários e pensões.
Estamos entroikados, mais ainda.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

CONVITE

Um banco de jardim é, creio, para além e mais do que o próprio jardim, um bem de primeira necessidade.
Um banco de jardim é um convite irrecusável para parar.
Um banco de jardim é um convite irrecusável para observar.
Um banco de jardim é um convite irrecusável para pensar.
Um banco de jardim é um convite irrecusável para ler.
Um banco de jardim é um convite irrecusável para conversar.
Um banco de jardim é um convite irrecusável para enamorar.
Um banco de jardim é um convite irrecusável.
Lamentavelmente, apenas os velhos, alguns, aceitam o convite.

AS REFORMAS DOS ARTISTAS

Ao que consta, a Senhora Presidente da Câmara de Palmela, em final do terceiro mandato, o que a impede de continuar em Palmela, vai reformar-se. Embora à semelhança de outras figuras, pudesse tomar-se de amores por outro município opta por se retirar. Nada de extraordinário, a reforma é um direito, ainda que seja melhor falar baixinho porque os do FMI e o Moedas andam aí.
Acontece que a Senhora Presidente tem apenas 47 primaveras o que pode levantar algumas interrogações sobre a decisão. Aliás, a colocação desta informação na imprensa é só mesmo para criar ruído.
Como é evidente e como sempre, a Senhora Presidente limita-se a cumprir a lei. Esta lei foi, naturalmente e também como sempre, pensada e estabelecida pelos artistas que dela iriam beneficiar ou pelos seus amigos. Estes artistas sabem que a sua profissão é uma profissão de desgaste rápido dado o esforço e a exigência sendo ainda que os benefícios, como se sabe, Isaltino dixit, não chegam para acautelar o futuro. 
Anda pois bem a Senhora Presidente da Câmara de Palmela em reformar-se, apesar de de tanto ainda poder dar ao país, mas não se lhe pode exigir mais. Nós não temos esse direito e a senhora está no seu direito.
Se a Senhora Presidente me permitir um conselho, pode ainda ser útil num cargozinho de assessora ou adjunta na direcção de uma instituição ou entidade gerida por companheiros ou amigos que queira beneficiar da sua larga experiência na arte.
Ainda assim, cuidado com a reforma, andam atrás delas.

O DIREITO À FELICIDADE. Da Pepa e dos outros

De vez quando levantam-se umas tempestades que tenho alguma dificuldade em perceber.
Só a título de exemplo, lembram-se da Tempestade da Licenciatura em que um rapaz, sem tempo para estudar mas que queria ser doutor. Com umas cumplicidades no meio universitário e com umas manhas de base legal, os amigos são para as ocasiões, lá encontrou quem lhe oferecesse baratinha e rapidinha uma licenciatura. Cumpriu-se o sonho de ser feliz, o Sr. Miguel Relvas passou a Dr. Miguel Relvas.
Aparece, entretanto, um outro senhor de apagado currículo mas que gostava de brilhar, perseguia, por assim dizer, os seus minutos de fama, de felicidade. Num país crédulo e disposto a reverenciar figuras, o Sr. Baptista da Silva transformou-se em conselheiro da ONU, doutorado e professor universitário e embaraçou um pessoal que lestamente o convidou para entrevistas e conferências. O Professor Doutor Baptista da Silva foi feliz. Ainda bem.
Agora, ainda não percebi muito bem, parece que uma rapariga, uma tal Pepa, que não tenho o privilégio de conhecer, expressou como desejo para 2013 ter uma mala preta Chanel. Presumo que isto deve ser algo de muito importante, pois desencadeou uma onda de inquietação. Confesso que não compreendo, por mim a menina pode ter a mala preta Chanel e ser feliz.
Na verdade, não entendo o alarido, a busca pela felicidade é algo que parece de sublinhar e incentivar.
A questão é que o entusiasmo pela busca da felicidade não é contagioso. Assistimos a milhões de pessoas que diariamente percorrem uma estrada de infelicidade e que acabam por criar mau ambiente. Gente nova, gente velha, por várias razões, insistem em ser infelizes e em sentir-se tremendamente mal numa espécie de resignada aceitação e continuam infelizes, pois claro. Isto é que é inaceitável.
Lutem por ser felizes, inspirem-se em Miguel Relvas, Baptista da Silva ou Pepa.
A eles o meu obrigado por nos mostrarem um caminho para o direito à felicidade.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

POLÍTICAS DE FAMÍLIA. Outro diálogo improvável

...
Pois é Francisco, sempre pensei em ter a família junta, gosto muito de vocês.
Eu sei Pai, eu, a Laura e os miúdos também gostamos muito de si e da mãe, mas preferíamos estar na nossa casa. Esta maldita crise obrigou-nos a perdê-la.
Tem calma, vamos conseguir arranjar-nos, tu e a Laura ficam com o teu quarto antigo e os miúdos ficam na sala.
Eles estavam habituados a ter um quarto só para eles, vão estranhar.
Os miúdos adaptam-se a tudo, olha eu passei muito e cá me aguentei.
Os tempos são outros Pai.
É preciso calma, já te disse, a gente ajuda, vou levar o Fábio e o Tiago à escola, dou-lhes uma ajuda, até me vou sentir melhor com alguma coisa para fazer. Estava para aqui com a tua mãe sem nada para fazer. Vamos ter tempo para conversar.
É verdade, quando eu e a Laura tínhamos trabalho o tempo faltava e vínhamos poucas vezes.
A gente aguenta-se, vais ver.
Eu e a Laura andamos todos os dias à procura de trabalho mas está difícil. Estou com medo Pai.
Olha, nos tempos em que passámos muito, o meu pai dizia sempre, onde come um, comem dois, melhores tempos virão, com a minha reforma e a pensão da tua mãe a gente não se vai abaixo, espero que não as cortem como já fizeram e dizem que vão continuar.
Espero bem, mas não tenho muita esperança. A gente ouve as notícias, é só desgraças, cada dia está pior.
Mas não te esqueças que estamos juntos. A gente somos uma família, a gente vai aguentar-se.
...

E É ESCREVER ASSIM DESACORDADAMENTE (Continuação)

Depois da confirmação por parte do Governo brasileiro do adiamento da obrigatoriedade do Acordo Ortográfico para 2016, surge agora a tomada de posição da Sociedade Portuguesa de Autores no sentido de manter a norma ortográfica antiga e uma carta aberta ao Ministro Nuno Crato pedindo a revogação do AO com base num conjunto de argumentos absolutamente pertinentes.
Felizmente, a questão do Acordo Ortográfico permanece viva e enquanto assim for continuarei a afirmar a minha discordância. Gostava de acreditar que esta decisão do Brasil fosse um contributo para que se pudesse reconsiderar este processo incompreensível e para muita gente insustentável.
Neste quadro, enquanto a questão não estiver definitivamente encerrada retomo, e retomarei, a minha breve e não técnica reflexão sobre o que me parece estar em causa e expresso teimosamente o meu profundo desacordo com o Acordo. Embora já o tenha feito várias vezes, entendo que a defesa da Língua Portuguesa, nas suas várias e importantes variações, o justifica.
Do que tenho lido e ouvido, nada me tem convencido da sua bondade ou necessidade. Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. Neste cenário, é clara a necessidade de ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma. Já estou cansado do argumento da “pharmácia”quando se pode verificar que em todos os países, e são muitos, em que o termo tem a mesma raiz, a grafia é com “ph” e nada de muito grave acontece. A introdução ou mudança na grafia tem acontecido em todas as latitudes e não tem sido necessário um Acordo com os conteúdos bizarros, alguns, que este contém.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto não tenho conhecimento da perturbação e do drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas. O mesmo se passa entre a comunidade dos países com o castelhano como língua oficial.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual, longe disso, temos regularmente exemplos disso mesmo, e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe. Aliás, é interessante analisar a natureza da argumentação dos especialistas favoráveis ao Acordo. Algumas vezes assenta, sobretudo, no porque sim, porque é novo. É pobre.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Não é grave, errar é humano.
No entanto, como toda gente, não gosto de errar, pelo que preferia continuar a escrever desacordadamente.

SEXUALIDADE E DEFICIÊNCIA

O Público de hoje, a propósito da situação de um cidadão francês com deficiência significativa, aborda uma questão que para a maioria de nós passa despercebida mas que, no entanto, é de extrema importância para muitas pessoas com deficiência. Trata-se das questões relativas à sexualidade.
Este cidadão reclama algo que se pode designar por reconhecimento do direito a “assistência sexual” e que se pode traduzir pela aceitação de uma “prostituição voluntária”, ou seja, a existência de voluntários e voluntárias que proporcionassem assistência sexual a pessoas que dada a sua condição de deficiência e por razões muito variadas não encontram parceiros sexuais.
Como muitas vezes aqui tenho referido, algumas das questões que respeitam às condições de vida das pessoas com deficiência envolvem mais os valores das comunidades que questões de natureza técnica ou funcional. No caso mais particular da sexualidade, a situação é ainda mais permeável a valores devido, obviamente, à forma como é percebida esta dimensão da nossa vida e a multiplicidade de ideias e valores de que é objecto.
São conhecidas as situações, aliás, já abordadas na comunicação social, de recurso por parte de deficientes à prostituição como forma de aceder a algo que naturalmente faz parte da globalidade do ser humano, a actividade sexual. Este recurso à prostituição, alvo de forte discussão, é ainda visto de forma diferenciada e mais discutida, consoante se trate de homens ou mulheres. Estas questões, tal como agora em França, suscitam sempre um forte debate decorrente do entendimento da prostituição e dos valores morais e éticos envolvidos. Este cidadão francês que também acusado de fomentar a prostituição introduz como dado novo a ideia de voluntariado.
É minha convicção de que o debate agora na agenda não será conclusivo. Apenas me parece de sublinhar que algumas das posições podem ser informadas por alguma hipocrisia com que, frequentemente as questões da prostituição e da sexualidade são encaradas e, sobretudo, a necessidade de estarmos atentos a um enorme equívoco que com muita frequência enuncio, sexualidade e deficiência não significa de todo deficiência na sexualidade.
Como sempre afirmo, um dos mais fortes indicadores de desenvolvimento das comunidades é a forma como percebem e lidam com os problemas das minorias.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

OS MIÚDOS E OS CASTIGOS

O Tribunal do Trabalho de Coimbra emitiu uma sentença considerando "que o facto de uma funcionária da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Coimbra (APPACDM), ter desferido uma palmada no rabo de um rapaz de 14 anos e de ter apertado o nariz a outro para o forçar a comer um iogurte não constituem motivos válidos para o seu despedimento". No acórdão, segundo o Público, a juíza considera que a palmada no rabo “não foi totalmente gratuita, desproporcionada ou excessiva” e que a força física “utilizada por alguém que, de alguma forma, até por ser mais velho, disciplina e orienta em termos educacionais um adolescente "que se está a portar mal”, configura uma medida de cariz correctivo e educativo.
Devo confessar que não me surpreende este episódio. Lamentavelmente, são demasiado frequentes as decisões judiciais que atentam contra o "superior interesse da criança", princípio fundador e estruturante do edifício legal em matéria de direitos dos menores.
É verdade que a questão da administração de castigos é sempre algo em aberto, designadamente em contexto institucional, no qual se espera que os técnicos, justamente porque são técnicos, intervenham de forma mais racional, informada e menos reactiva emocional que os pais que em algumas circunstâncias também recorrem a comportamentos deste tipo.
Neste contexto, a administração dos chamados castigos é sempre algo em aberto e em que com muita dificuldade se obtêm posições fechadas e indiscutíveis. Assim sendo, mais do discutir a utilização, ou não, de alguma forma de castigo, fará sentido alguma reflexão sobre a natureza e limites do que poderá ser um castigo.
Do meu ponto de vista e por princípio, privar ou dificultar o acesso a necessidades básicas ou ferir direitos como o uso institucional da violência física não parecem o caminho mais ajustado. Parece-me também que o recurso que alguns adultos fazem de castigos que envolvem uma forte dimensão emocional, sobretudo em miúdos pequenos, deve ser evitado pelas implicações eventuais na segurança e confiança dos miúdos em si e nos adultos.
Estou à espera de que muitos comentários surjam a apoiar a decisão do Tribunal ao entender que a palmada dada por um técnico configura uma "medida correctiva", também não estranho embora não aceite.
A este propósito, os castigos e o bater,  lembro-me quando era miúdo, também me tocou, mais do que a dor física da reguada, me sentir tremendamente humilhado por estender a mão a alguém, um adulto e professor, que friamente me batia tantas vezes quantos os erros no ditado ou em consequência de ter falado com meu colega quando era suposto estar calado. Lembro-me ainda do especial requinte de um professor que em vez de ser ele a bater, encarregava um de nós de o fazer levando do professor se batesse devagar no colega.
É verdade que muitas pessoas assustadas com as grandes dificuldades que sentimos com os comportamentos das crianças sentir-se-ão tentadas por estas abordagens mas talvez seja de recordar que o comportamento gera comportamento, ou seja, a violência gera e alimenta a violência.
Finalmente, antecipando alguns comentários, sublinhar que este entendimento não tem nada a ver com laxismo ou com a ausência de regras, limites e punições, são fundamentais e imprescindíveis na formação dos miúdos Tem exclusivamente a ver com a natureza dos processos utilizados e a sua eficácia e com o respeito pelos direitos dos miúdos.

ATÉ À SOLUÇÃO FINAL

As entidades que em nome dos mercados se apoderaram dos nossos destinos e que nos transformaram numa feitoria administrada por uns feitores obedientes e sem mandato para tal, insistem no nosso empobrecimento.
Com a cumplicidade e fidelidade canina que embaraçam, os feitores e os donos dos destinos concebem mais uma etapa num caminho já anunciado, despedir gente, muita gente, sobretudo em áreas nucleares do chamado estado social, a educação e a saúde, cortar nos apoios sociais e nos salários. Tudo isto deve decorrer sem sobressalto até à solução final.
Pelo meio, falam no combate a algumas mordomias que todos reconhecemos existirem sem justificação, mas que no contexto do relatório agora conhecido, não passam de uma hipócrita manobra de diversão.
Não consigo entender, no devastador cenário já existente, releva o aumento brutal de situações de pobreza, bem acima das estatísticas oficiais, o aumento fortíssimo do desemprego e do número de pessoas desempregadas sem subsídio de desemprego, o abaixamento dos apoios sociais, a pobreza a afectar crianças e idosos, sempre os grupos mais vulneráveis, a manutenção de simetrias gritantes na distribuição da riqueza, enfim, um inferno para milhões de portugueses.
Este é o resultado de uma persistência cega e surda no “custe o que custar", no cumprimento dos objectivos do negócio com a troika e dos objectivos de uma política "over troika", atingindo claramente o limite do suportável e afectando gravemente as condições de vida de milhões. Estamos a falar de pessoas, não de políticas, ou melhor estamos a falar do efeito das políticas na vida das pessoas.
Creio que já ninguém consegue sustentar que este trajecto nos possa levar a bom porto, está à vista o quanto é insustentável a insistência neste caminho e no apregoar de que existe equidade na repartição dos sacrifícios, entendimento que, creio, ninguém na sociedade portuguesa consegue honestamente sustentar.
Na verdade, o caminho decidido, por escolha de quem o faz, é bom registar que existem alternativas, está a aumentar assimetrias sociais e obviamente a produzir mais exclusão e pobreza mas, insisto, mais preocupante é a insensibilidade da persistência neste caminho.
Os protestos decorrentes da pobreza, do desemprego, da desesperança e da indignação prenunciam uma instabilidade que é resultante deste caminho. Para cada vez mais gente, o abismo está mais perto, não está mais longe, como Passos Coelho sustentava há algum tempo.
Contrariamente ao que nos querem fazer acreditar a maioria das famílias portuguesas não viviam ou vivem acima das suas possibilidades, mas cada vez mais famílias estão a viver abaixo das suas necessidades, pobres, sem apoio e em risco de exclusão. Os sucessivos Governos, desta e de outras terras, é que subscreveram políticas públicas que assentes em modelos económicos sem alma nem ética produziram o inferno em que vivemos, não foram as famílias, na sua maioria que o produziram.
Com este terramoto social e económico ainda insistem em que temos de empobrecer, expressão que indigna até à raiva, e apresentam novas propostas que não passam de um  terrorista. NÓS JÁ ESTAMOS POBRES, NÃO PODEMOS FICAR MAIS POBRES, entendam isto de uma vez por todas.
Nós não precisamos de empobrecer, falar de empobrecer é insulto e terrorismo social como já afirmei. Nós precisamos de combater a assimetria da distribuição da riqueza e produzir mais riqueza, precisamos de combater mordomias e desperdício de recursos e meios ineficientes e muitas vezes injustificados que alimentam clientelas e interesses outros. Nós precisamos de combater a teia de protecção legal e política aos interesses dos mercados e dos seus empregados que conflituam com os interesses das pessoas.
Nós não precisamos de empobrecer, nós já somos um dos países mais pobres e assimétricos da Europa com perto de um terço da sua população pobre ou em risco de pobreza, com miúdos a chegar às escolas com fome, com gente sem trabalho e sem apoio social.
O que precisamos é de coragem e visão sem subserviência ao ditado dos mercados e dos seus agentes para definir modelos económicos, sociais e políticos destinados a pessoas e não a mercados ou a grupos minoritários de interesses mesmo que mascarados em malditos planos de "ajustamento", de "resgate" ou ainda e de forma ofensiva de "ajuda".

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

MAR PORTUGUÊS

Os dias de chumbo que vamos passando fazem-me recordar um tempo que julgava passado, um país de gente triste, de desânimo, de desesperança e de sofrimento.
Só mesmo o génio de Pessoa para antecipar quanto do sal do mar que nos rodeia são lágrimas de Portugal.

UNS COPOS A MAIS ... UMAS CADEIRAS A MENOS

Uma deputada encontrada ao volante com uns copitos a mais ... um Dr. Ministro encontrado com uma licenciatura com umas cadeiras a menos ... um médico encontrado a exercer há 20 anos sem ser médico ... relvices (para não citar Catroga) do Portugal dos Pequeninos.
Podemos voltar à crise. Já se sabe alguma coisa do Tribunal Constitucional sobre as inconstitucionalidades do OGE de 2013? E que pensar e fazer com o novo Plano do FMI sobre despedimentos e cortes nos salários?

OS CARROSSÉIS DA DESESPERANÇA

A Associação Portuguesa de Empresas de Diversão que representa os empresários de um sector que certamente contribuíram para algumas das boas memórias da nossa infância, carrosséis, carrinhos de choque e outros divertimentos das feiras, protestam contra a subida do IVA de 6 para 23% o que, do seu ponto de vista, compromete seriamente a sobrevivência da sua actividade.
Esta gente não percebe como vivem em contraciclo e estão condenados. O tempo não está para diversões, o tempo está para trabalho e produtividade. Quem não cabe no trabalho e não produz, transforma-se  em desempregado e reformado, na maioria sem apoios ou com pensões miseráveis.
A diversão de que esta gente vive é uma diversão de pobre e como se sabe são os pobres que pagam, sofrem, a crise. Estes empresários querem a sua actividade considerada como actividade cultural e daí resultar um IVA de 13%. Mas cultura é só para perder tempo e não produz nada, ainda por cima cultura para pobres. Se fosse, por exemplo, cultura como a que Joana Vasconcelos produz que rende e muito, ainda vá que não vá.
Não feirantes das diversões, mudem de ramo, passem a desempregados ou a pensionistas sem dignidade.
Se por acaso alguns de vós resistirem ainda vos irei procurar para mostrar ao meu neto que está para chegar o que era um carrossel da minha infância.

OS PAIS, AS MÃES E A LICENÇA PARENTAL

A propósito de, segundo parece, a Ministra Assunção Cristas esperar um quarto filho, o que merece felicitação, o Público aborda a situação da licença parental partilhada, mãe e pai, a que poucos casais recorrem. Em 2011 cerca de 20.5% dos casais recorreram à licença partilhada um número baixo mas já superior a outros países europeus.
A esta questão acresce um ainda mais baixo recurso à possibilidade existente desde 2009 de extensão da licença parental e a ainda mais rara situação de serem os pais a utilizá-la. Na verdade, são raros e por vezes percebidos de forma estranha os pais que ficam em casa alguns meses a cuidar dos filhos e ronda os 2,5 % o número de casais com filhos que estão a recorrer à possibilidade de aceder ao prolongamento por seis meses, três por progenitor, da licença parental, sendo que nos casais que a usam é a mãe que fica mais tempo. Importa dizer que este prolongamento da licença parental coloca o salário em 25% do vencimento bruto.
Considerando os tempos que atravessamos, o abaixamento dos rendimentos familiares, a insegurança e a precariedade no emprego, não é estranho o facto de apenas um número muito reduzido de famílias recorrer a este "incentivo" ao aumento da natalidade.
Estes dados e esta situação fizeram-me recordar que em Julho, a imprensa referiu-o, o DN colocou em 1ª página, que o FMI propunha apoiar as mães que voltem mais cedo ao trabalho.
O FMI pretendia que mais mulheres estivessem a trabalhar mais tempo, não perdendo horas de trabalho com essa coisa estúpida e desnecessária de cuidar dos filhos uns meses depois do nascimento. Nesse sentido, defendia que em vez de apoio às famílias se atribuam apoios às mães trabalhadoras.
Como escrevi na altura, os dados de hoje comprovam-no, não acreditava que os burocratas do FMI não soubessem, que Portugal já é o país onde as mulheres com filhos mais trabalham, a tempo inteiro, além de que é também o país em que existem mais casais empregados e com filhos.
Os burocratas do FMI insistem no mais trabalho quando, certamente, também sabiam, que os países mais ricos, com menos desemprego são justamente os que têm menor rácio de horas de trabalho, é caso de Alemanha e Holanda. Paralelamente, nos países mais desenvolvidos e com menos desemprego também se assiste ao aumento do trabalho parcial.
Por outro lado, como se sabe, em toda a Europa mas em particular entre nós, os nascimentos estão em níveis perigosamente baixos sendo que o índice de fertilidade nas mulheres portuguesas nos últimos anos não é suficiente para assegurar a renovação das gerações.
É fundamental para o nosso desenvolvimento e futuro a definição de políticas de família que incentivem a natalidade e não o caminho inverso agora proposto por burocratas ignorantes que propõem medidas que os seus países não subscrevem, mas que para os pobres devem ser boas, trabalhar, trabalhar, como se trabalhar mais fosse igual a trabalhar melhor. A questão é que, tal como os dados do Instituto de Segurança Social mostram, os incentivos definidos num país pobre e a empobrecer são ineficazes.
Numa nota final, espero o dia em que os burocratas iluminados do FMI sugiram o retorno legal do trabalho infantil. O problema é que nessa altura teremos ainda menos miúdos para trabalhar.

UMA HISTÓRIA DA CRISE

Era uma vez um Homem. Tratava-se de uma pessoa para além dos cinquenta anos, tinha a vida que quis construir, dentro do que podia construir, tinha uma mulher com quem, costumava dizer, ainda namorava, tinha os filhos já orientados, algo que deixa qualquer pai tranquilo, tinha um trabalho de que gostava, tinha-o aprendido com o pai, tinha um pequeno mas sólido grupo de amigos, enfim, o Homem estava feliz com a estrada que tinha andado e confiante na estrada que tinha para andar.
A certa altura, começou a ouvir que a empresa não estava muito bem e que poderiam surgir alguns problemas. Como todos os companheiros ficou preocupado mas também acreditava que a sua história o ajudaria a ficar protegido desses problemas.
Um dia, foi chamado e um jovem desconhecido, bem falante, apresentou-se como elemento de uma consultora que estava proceder à reestruturação da empresa, com a mesma frieza com que o cumprimentou, disse-lhe que a empresa iria prescindir dos seus serviços com base, sobretudo, na idade. De facto, o Homem ficou a saber que a sua idade o impediria de se “reciclar”, de se “readaptar funcionalmente”, de se envolver em “processos de modernização”, ou seja, tinha terminado o seu prazo de validade.
O Homem saiu e, contrariamente ao que era habitual, não foi logo para casa. Passeou um pouco ao acaso e com uma frase a martelar constantemente na sua cabeça “não me podiam roubá-la, não me podiam roubá-la, não me podiam roubá-la.
Quando entrou em casa, sentou-se no seu canto do sofá e nunca mais se levantou. Era a dignidade que mantinha o Homem de pé, roubaram-lha.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

OS MEDOS DOS PAIS E OS MEDOS DOS FILHOS

Um destes dias participei numa conversa com pais de gente ainda miúda,  passageiros de creche e jardim de infância.
De uma forma geral e apesar das preocupações que sempre emergem, as falas dos pais dos gaiatos mais pequenos parecem um pouco mais serenas que as que oiço a pais de gente um pouco mais velha, adolescentes, por exemplo. Na verdade, por várias razões, os pais dos adolescentes, parecem, quase sempre, um pouco mais assustados, por assim dizer.
No entanto, esta última conversa deixou-me algumas inquietações. Vários pais expressaram forte inquietação com os medos que acham que os seus filhos revelam e, logo de seguida, dos muitos medos que eles próprios parecem sentir, seja pelos medos dos filhos seja pelos seus próprios medos.
Costumo dizer que os que de nós, e somos muitos, lidamos com miúdos e o seu universo, quer como "amadores", quer como "profissionais, temos a responsabilidade de manter o optimismo necessário e suficiente para acreditar que somos capazes de com eles construir um mundo onde caibam os seus, nossos, projectos, apesar de saber, aprendi há muito, que muitos percorrerão uma estrada difícil, cheia de curvas e de riscos a que alguns, esperemos que poucos, não resistirão.
Apesar de sentir nas falas daqueles pais os medos, muitos medos, dos dias de chumbo que vivemos também me pareceu que não querem desistir do futuro dos miúdos.
Vão chegar lá, tenho a certeza.

 

MÃES E BEBÉS

No I encontra-se hoje um trabalho sobre o universo da maternidade em Portugal de que relevam duas notícias de sinal contrário.
Em primeiro lugar, com registo negativo, a preocupação com o aumento dos casos de mortalidade infantil que em 2011 regressaram a indicadores de há dez anos em nove das regiões do país. Alguns especialistas remetem para a possibilidade destes dados se ligarem a um aumento dos casos de prematuridade que potenciam o risco da mortalidade. De qualquer forma, em 44 dos 67 agrupamentos de saúde com dados tratados, 44 pioraram a sua situação face a 2010.
A baixa taxa de mortalidade infantil, uma das mais baixas a nível mundial, representou uma enorme conquista que importa preservar.
Apesar das reservas que a interpretação dos dados merecem, é também verdade que os cortes no SNS e a perspectiva de que estes cortem se acentuem no âmbito da manifesta intenção repetidamente enunciada de diminuir os custos na saúde ao abrigo de uma proclamada "refundação" do estado.
Ainda com registo de preocupação com os mais pequenos, releva a informação de que alguns dos quadros graves de meningite estão a diminuir mas, segundo os especialistas, as dificuldades económicas das famílias estão a inibir a compra da vacina, 280 euros, que contrariamente ao que se passa noutros países não está integrada no Plano Nacional de Vacinação, como defendem os técnicos.
Oxalá, não estejamos já a pagar um elevadíssimo preço por políticas contabilísticas e não por políticas de pessoas e para pessoas, embora com a necessária contenção e combate ao desperdício.
Uma segunda nota, mais positiva, referida no trabalho do I, remete para o abaixamento para metade da maternidade antes dos vinte anos que se traduz, certamente, na minimização de um grave problema em Portugal nos últimos anos, uma muito alta taxa de gravidez em adolescentes. Parece oportuno relembrar que segundo os especialistas a diminuição do número de partos de adolescentes decorre da prevenção. Embora nestas matérias, como em todas as que dizem respeito à vida das pessoas, se deva considerar o universo de valores em presença, bem diferentes, é fundamental não esquecer as consequências devastadoras e dramáticas que a maternidade adolescente pode implicar, para a mães e para os bebés. A gravidez surge para muitas adolescentes e jovens como "um projecto de vida na ausência de outros" e num quadro de insucesso educativo.
Sabemos, a experiência mostra, que uma adolescente pode revelar-se uma excelente mãe, tanto quanto uma mulher madura pode ser uma péssima mãe ou, como hoje se referia, abandonar o bebé. Não podemos, nem devemos, promover avaliações prévias de competências maternais, a ética e a moral impedi-lo-iam, mas podemos combater discursos hipócritas sobre a educação em matéria de sexualidade e comportamentos de risco. Estes discursos alimentam a manutenção de situações que promovem em adolescentes, muitas vezes sem projecto de vida, um caminho e uma experiência para a qual não estão preparadas nem desejam, e promotora de sofrimento para todas as pessoas envolvidas, a começar, obviamente por uma criança, que sem ser ouvida, entra a sofrer neste mundo.
Mais uma vez, torna-se necessário que os dispositivos de apoio e prevenção neste universo não se alterem de forma a comprometer a evolução agora registada.

CARTEIRISMO FISCAL

Segundo um estudo divulgado hoje pelo Diário Económico, Portugal terá em 2013 a maior carga fiscal da Europa acentuando-se a sobrecarga sobre o grupo dos reformados.
Para compensar e como é óbvio, todos, quase todos, o sentimos, o rendimento disponível continua comparativamente baixo e a baixar.
Estamos perante uma espécie de carteirismo fiscal. Para utilizar a terminologia do mundo dos pequenos carteiristas, a todo o momento e circunstância, alguém está meter os dedinhos, os "baios" nas nossas carteiras, as "chatas", num verdadeiro assalto legal.
No entanto, a linguagem deste carteirismo fiscal é também diferente e bem menos interessante que a dos pilha galinhas, usa termos como, sacrifícios, défice, austeridade, recuperação, recessão, impostos, restrição orçamental, cortes, despesa, rigor, exigência, troika, etc., etc.
Uma outra diferença para o mundo artesanal dos carteiristas de rua e dos transportes públicos é ao nível da escala e dos recursos, o carteirismo fiscal trabalha com modelos bem mais actuais e com recursos bastante mais sofisticados. Tudo se transforma e como se sabe as actividades artesanais estão em desaparecimento e a atrair menos pessoas, são pouco rentáveis.
O carteirismo fiscal ou de outra natureza mas a uma escala maior, é na verdade muito mais rentável permitindo ainda ganhos colaterais, sempre do lado certo da lei e o lado errado da ética e da moral.

domingo, 6 de janeiro de 2013

O HOMEM QUE QUERIA SER VENDEDOR, MAS NÃO SABIA DE QUÊ

Naquela terra onde acontecem coisas, a vida ia complicada, as pessoas sentiam muita dificuldade em encontrar emprego e sentir-se bem. Os governantes insistiam que era preciso ser empreendedor, criativo, fazer das dificuldades uma oportunidade, ter uma visão, enfim, como dizia o povo daquela terra, desenrascar-se.
Um Homem, cansado de tanta luta para viver, começou a pensar como dar andamento ao que sugeriam os governantes. Achou que uma ideia poderia ser vender algo, aliás, sempre julgou que teria algum jeito para vender. A dificuldade era decidir o que vender para que a iniciativa pudesse ser bem sucedida.
Teria de ser algo que toda gente quisesse ou precisasse. Os mais novos, os mais velhos, os mais ricos, os mais pobres, os homens, as mulheres, os mais letrados, os menos letrados, ou seja, toda a gente. Não vai ser fácil, pensou.
Teria de ser algo que fosse necessário ou utilizado em qualquer circunstância de qualquer natureza. No trabalho das pessoas, na escola dos miúdos, nas relações da gente, mais formais ou mais informais, nos negócios de qualquer área, no universo da política ou da cultura, ou seja, em tudo o que envolvesse pessoas. Não vai ser fácil, pensou.
Deve dizer-se que o Homem pensou muito tempo e não vislumbrava o que poderia ser o seu caminho.
Um dia, absorto na busca pela ideia, a sua atenção dirigiu-se para um debate que passava na televisão onde uma série de gente importante discutia como resolver os problemas das pessoas, todos os problemas.
De repente, num sobressalto, gritou, "já sei", vai ser um sucesso. Decidiu vender mentiras. Ninguém, mesmo ninguém, passa sem elas.

A AJUDA EXTERNA QUE VEM DE DENTRO

As remessas dos emigrantes registaram a maior subida desde 1997 tendo aumentado 12,6% face a 2011 e considerando apenas dados até Outubro.
Creio que uma das causas para tal situação pode admitir-se o facto de que desde 1998 mais de um milhão de portugueses emigrou sendo que em 2011 se estima, fonte da Secretaria de Estado das Comunidades, que mais de 100 000 portugueses tenham partido, esperando-se que em 2012 o número suba. Acresce que a par da Irlanda, somos o país de onde sai gente com maior qualificação.
Este aumento das remessas, uma versão lusa e solidária da "ajuda externa" sendo importante recorda um país triste, pobre, rural de há décadas em que as remessas eram um enorme apoio para as nossas contas e para as famílias.
Já o tenho referido, somos um país de emigrantes de há séculos pelo que este movimento, só por si, não será de estranhar. No entanto, creio que é preocupante constatarmos que durante muitos anos a emigração se realizava na busca de melhores condições de vida, a agora a emigração realiza-se à procura da própria vida, muita gente, sobretudo jovens não tem condições de vida, tem nada e parte à procura, não de melhor, mas de qualquer coisa.
Este vazio que aqui se sente é angustiante, sobretudo para quem está começar, se sente qualificado e com o desejo de construção de um projecto de vida viável e bem sucedido.
Alguns inquéritos junto de estudantes universitários mostram como muitos, a maioria, admite emigrar em busca de melhores condições de realização pessoal e profissional apesar de muitos afirmarem que pretendem voltar.
Lembramo-nos ainda da intervenção do Ministro Miguel Relvas, que certamente não precisaria de emigrar, tem o seu futuro garantido dentro de portas por efeitos do alpinismo partidário, ao afirmar, dirigindo-se a jovens qualificados, "ide procurar fora de portas o vosso futuro”.
Parece-me relativamente claro que quando se fala de emigração, a questão central nesta matéria não é o movimento que desde há muito os portugueses realizam de procurar trabalho fora do país, trata-se também da construção de um projecto de vida auto-determinado. Sabemos, aliás, que é desejável em diferentes perspectivas, que estes fluxos se realizem.
O que me parece fortemente significativo é o que representa de descrença de tanta gente, de que seja possível desenvolver um projecto de vida viável e com potencial de realização pessoal e profissional no nosso país.
Podemos sempre esperar que depois de se instalarem no país de acolhimento, as saudades, as famílias que ficaram e a vontade de voltar expressa por muitos, os portugueses se sintam motivados para continuar a fazer chegar a este jardim as "remessas".

NUNCA MAIS ME SAI O EUROMILHÕES

O JN de hoje apresenta um trabalho interessante, com chamada a primeira página, sobre o nível de envolvimento dos portugueses nos jogos sociais. Em 2012, os portugueses investiram 1727 milhões de euros nos jogos, o valor mais alto de sempre.
Este investimento e a tentativa de através da sorte conseguir os rendimentos que o quotidiano recusa, sugerem umas notas.
Em muitos lares portugueses, e não só, e hoje mais do que nunca, uma das frases mais ouvidas é “nunca mais me sai o euromilhões, para deixar de trabalhar”. Cada um de nós já ouviu, pensou ou disse esta expressão alguma vez ou vezes. Creio também que não é usada apenas pelos cidadãos com maiores dificuldades.
Acho curiosa a sua utilização. Entendo, naturalmente, a ideia subjacente à primeira parte. Um prémio de valor substantivo representaria, seguramente, a hipótese de acesso a um patamar superior de bem-estar económico, desejado, naturalmente, por toda a gente.
O que de facto me parece mais interessante é o complemento “para deixar de trabalhar”. É certo que nem todas as expressões devem ser entendidas no seu valor “facial”, mas é também verdade que a recorrente afirmação deste desejo acaba por ilustrar a relação que muitos de nós estabelecemos com o lado profissional da nossa vida, isto é, “quero livrar-me dele o mais depressa possível”. Não será grave, mas é um indicador que possibilita várias leituras.
Sabem qual é a minha inquietação? É se os miúdos, considerando a agitação que vai pelo seu mundo “laboral”, desatam a pedir um aumento de mesada que lhes permita apostar no euromilhões para … deixar de ir à escola.
Já estivemos mais longe.

sábado, 5 de janeiro de 2013

BOM POVO PORTUGUÊS

Já se torna difícil descrever a situação gravíssima que o país atravessa, sobretudo, os níveis de desemprego, pobreza e desesperança.
Neste quadro, causam-me sempre um enorme embaraço os discursos produzidos por muitas figuras nacionais e internacionais com fortíssimas responsabilidades na situação que vivemos.
Um bom exemplo disto é a entrevista de Christine Lagarde, directora do FMI, ao Expresso.
Ao longo da entrevista, uma das responsáveis pelo programa de “ajustamento” que transformou Portugal numa feitoria administrada em nome dos mercados, referiu a “coragem dos portugueses”, a enorme “determinação colectiva” ou “a execução do programa está a correr bem”.
Na verdade, quase milhão e meio de desempregados são corajosos e determinados, perto de 3 milhões de portugueses em risco de pobreza sentem a execução do programa a correr bem. Miúdos com fome nas escolas exemplificam a determinação e coragem exigidas pelos sacrifícios, etc., etc.
Este tipo de afirmações cola-se aos famosos e nacionais “ai aguenta, aguenta” de Fernando Ulrich, ao “melhor povo do mundo” de Vítor Gaspar, ao “nada me pesa na consciência” de Miguel Relvas, ou a mítica referência de Cavaco Silva à insuficiência das suas reformas.
Eu sei que discursos como o que estou a escrever conterão sempre alguma ponta de demagogia mas, o despudor e a ligeireza com que esta gente abre a boca, fere a sensibilidade e solidariedade devida a gente que está a passar mal, muito mal, em nome, dizem, de um futuro que muitos não terão nem vislumbram.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

METADOS DOS ALUNOS A PRECISAR DE APOIO. E TERÃO?

O Ministro Nuno Crato afirmou ontem em entrevista à RTP que o MEC estima em cerca de metade o número de alunos do ensino básico que poderão precisar de alguma forma de apoio dadas as suas dificuldades.
Assim sendo, o Ministério vai disponibilizar cerca de 47 000 horas de trabalho docente para providenciar este apoio.
Como é sabido, o MEC decidiu eliminar os chamados Planos de Recuperação que serão substituídos por dispositivos de acompanhamento pedagógico logo que se detectem dificuldades nos alunos.
É certo que os Planos de Recuperação em larga medida não "recuperavam" os alunos "recuperando", sim, uma enorme burocracia, falta de recursos adequados e dificuldades de organização.
Uma primeira nota para registar a estranheza pelo número avançado pelo MEC, metade, metade repito, dos alunos a necessitar de apoio.
Partindo do pressuposto, discutível, de que estes números se aproximarão da realidade fica por perceber como as 47 000 horas anunciadas poderão ter resultados significativos.
Por outro lado, do meu ponto de vista, as medidas da PEC, Política Educativa em Curso, aumento das turmas, mega-agrupamentos, cortes nos recursos humanos, normalização das respostas com uma estrutura rígida de metas de aprendizagem em número inacreditável, etc., etc. não parecendo o melhor caminho para a qualidade e para assegurar a qualidade e quantidade dos recursos para apoio pedagógico, contribuirão para novas dificuldades que se candidatarão a esta estratégia remediativa agora enunciada por Nuno Crato.
O apoio pedagógico, ou acompanhamento como é designado, tem de passar por uma correcta avaliação das dificuldades dos alunos permitindo assim que o apoio seja dirigido para essas dificuldades, o que torna necessária formação acrescida. Em sala de aula, a utilização de parcerias pedagógicas parece uma medida potencialmente eficaz. Deveria aligeirar-se a burocracia envolvida, com custos razoáveis de tempo, e, finalmente, criar dispositivos de regulação e avaliação das intervenções que permitam a sua correcção e eficácia.
A questão é que não vislumbro que a generalidade das escolas tenham os recursos adequados. Por mais que nos esforcemos, a realidade não é a projecção dos nossos desejos.

A AVALIAÇÃO EXTERNA DAS ESCOLAS, UM PASSO POSITIVO

O Público de hoje refere o facto do  MEC, através da Direcção-geral de Estatísticas da Educação e Ciência, ter definido para o 2º ciclo de avaliação externa das escolas um modelo de análise multi-dimensionado para aplicar a cada escola que contemplará, cito:
Ficheiro A - Dados globais de contexto por Unidade Orgânica que inclui:
• Informação sobre localização geográfica;
• Número total de alunos em modalidades de ensino orientadas para jovens;
• Informação sobre a habilitação escolar das mães e dos pais desses alunos;
• Informação sobre a profissão das mães e dos pais;
• Percentagem de alunos que beneficiam, em cada escalão, de Ação Social Escolar (ASE);
• Distribuição dos alunos entre o ensino básico e o ensino secundário;
• Distribuição dos alunos por tipologias de ensino;
• Percentagem de docentes do Quadro.
Ficheiro B - Dados de contexto e indicador de resultados escolares, específicos para os anos de final de ciclo (4.º, 6.º, 9.º e 12.º anos), que inclui:
• Informação sobre a idade, dimensão das turmas, distribuição por sexo e percentagem
de alunos que não beneficiam de ASE, em cada um dos anos referidos;
• Taxa de conclusão de ciclo e indicadores de resultados nas provas de aferição e
exames nacionais para cada um dos anos referidos;
• Habilitação das mães e dos pais.
• Percentagem de Professores do Quadro de 1.º ciclo e de 2.ºciclo/3.º ciclo/Secundário.
Este modelo permitirá definir um valor esperado para cada escola que será cruzado com os resultados dos exames nacionais, contribuindo desta forma para a avaliação das escolas e facilitando, entende-se, comparações mais razoáveis entre escolas envolvendo as questões contextuais.
Do meu ponto de vista este modelo representa um avanço na medida em que valoriza e contempla um conjunto de variáveis que devem ser necessariamente consideradas ao avaliar o trabalho das escolas. Creio que com a experiência poderá ser simplificado e agilizada a sua utilização mas é um passo positivo.
No entanto, considero também importante que as escolas tenham os recursos adequados para responder às necessidades dos alunos e dos professores. E nesta matéria creio que as expectativas são baixas.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

QUEM PARTE E REPARTE E NÃO FICA COM A MELHOR PARTE ...

Um Relatório do Tribunal de Contas conclui que os gastos dos gabinetes ministeriais não baixaram de valor de forma evidente. Mais afirma que "no actual dispositivo legal, à semelhança do anterior, não constam critérios sobre a atribuição de regalias como o cartão de crédito, uso de viatura e despesas de telefone".
Lamentavelmente não estranhamos. A austeridade e os sacrifícios quando nascem não são para todos e a retórica da equidade e justiça na repartição desses sacrifícios não passa disso mesmo, retórica.
O povo costuma afirmar que "quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte".
Na verdade, boa parte deste pessoal que vive à boleia do aparelhismo e do alpinismo social, de tolo  tem nada e muitos são uns verdadeiros artistas.
Palavras para quê? 

DESEMPREGO, ESTRADA SEM RETORNO?

É difícil ficar imune às sucessivas notícias sobre os problemas que atravessamos pelo que com muita frequência aqui retomo algumas questões. Eu sei que não adianta falar muito delas porque não se resolvem assim, mas também penso que não é fácil não as abordarmos, por isso, insisto.
A imprensa de hoje refere a existência de 483 000 pessoas desempregadas há mais de um ano. Esta tragédia envolve sobretudo pessoas de meia idade e muitos jovens e as referências acentuam as dificuldades e falta de confiança das pessoas na alteração na situação.
O desemprego é reconhecidamente o mais devastador efeito das dificuldades que atravessamos.
Em Outubro e segundo dados da Segurança Social existiam cerca de 375 000 pessoas com subsídio de desemprego, menos de metade dos 870 000 desempregados registados no INE, uma taxa de 15.8 %, embora o EUROSTAT indicasse para o mesmo mês uma taxa de 16.3 % de desemprego o que agudiza a situação. Por outro lado, existem cerca de 285 000 pessoas com o RSI, número que tem vindo a baixar regularmente.
Recordo ainda que há poucas semanas, com base nos dados disponíveis do INE e da Segurança Social, cerca de 465 000 desempregados, 56 %, não tinham protecção social há nove meses. Este número, que na realidade será mais alto, é absolutamente devastador e dramático, representando o mais alto valor alguma vez atingido de pessoas em situação de desprotecção social.
O problema vai, provavelmente agravar-se, pois começa a esgotar-se o período em que se usufrui de subsídio, entretanto encurtado, envolvendo as pessoas que caíram no desemprego a partir de 2009, o ano em que os aspectos mais gravosos da crise nos começaram a atingir. e quando começaram as políticas de cortes na protecção social e que se têm acentuado de uma forma que ameaça a sobrevivência de muita gente. Mesmo entre pessoas com trabalho, existem cerca de 153 000 portugueses que recebem menos de 310 € de salário líquido e cada mais gente com o salário mínimo.
A este cenário acresce, ainda de acordo com o IEFP, que, no último ano, o número de casais com ambos os elementos no desemprego mais do que duplicou e o valor médio dos subsídios de desemprego tem vindo a baixar.
Há tempos foram divulgados alguns dados referindo que cerca de 200 000 pessoas já terão desistido de procurar emprego, não constando sequer dos números do desemprego. Este quadro impressionante levanta uma terrível e angustiante questão. Os milhares, muitos, de pessoas envolvidas vão (sobre)viver de quê?
Sendo de esperar a continuação de um período recessivo e, portanto, sem crescimento, torna-se impossível criar a riqueza necessária e redistribuí-la de forma socialmente mais justa para minimizar esta tragédia.
É certo que em Portugal a chamada economia paralela corresponde a cerca de 25% do PIB e muita gente e muitas actividades estão envolvidas neste universo, de qualquer forma o potencial impacto social destes números é, no mínimo, inquietante.
Afirmo com frequência que uma das consequências menos quantificável das dificuldades económicas, sobretudo do desemprego, em particular o de longa duração e de situações em que o tempo obriga a perder o subsídio, é o roubo da dignidade às pessoas envolvidas. Sabemos que se verifica oportunismo e fraude no acesso aos apoios sociais, mas a esmagadora maioria das pessoas sentem a sua dignidade ameaçada quando está em causa a sobrevivência a que só se acede pela “mão estendida” que envergonha, exactamente por uma questão de dignidade roubada.
A questão da pobreza é um terreno que se presta a discursos fáceis de natureza populista e ou demagógica, sem dúvida. Mas também não tenho dúvidas de que os problemas gravíssimos de pobreza que mais de dois milhões de portugueses conhecem, exigem uma recentração de prioridades e políticas que não se vislumbra. Na verdade, apesar da retórica oficial de que existe justiça social nas medidas de austeridade, o que é verdadeiramente insustentável é que as políticas assumidas, por escolha de quem decide, estão a aumentar as assimetrias sociais, a produzir mais exclusão e pobreza. Mais preocupante a insensibilidade da persistência neste caminho.
Quando nos dizem que não há alternativa, é interessante registar que alguns analistas, incluindo ironicamente o próprio FMI, atribuem a rápida recuperação da Islândia à manutenção do estado social e dos apoios sociais, ou seja, privilegiou-se as pessoas e não os mercados, a banca, o contrário do diktat que nos é imposto.
A pobreza e a exclusão deveriam envergonhar-nos a todos, a começar por quem lidera, representam o maior falhanço das sociedades actuais. 

MANIFESTO DE CIDADÃOS EM IDADE ESCOLAR

Ao encontro do texto de opinião do Professor Mário Cordeiro, hoje no Público, sobre a estimulante e complexa questão do eventual direito de voto de crianças e adolescentes, deixo-vos um Manifesto de cidadãos em idade escolar.
 
Companheiros e companheiras em idade escolar,
 
Muitos de vós já terão notado que se celebra em quase todo o mundo o dia 1 de Maio como o Dia do Trabalhador. No entanto, talvez poucos saibam que o dia 1 de Maio foi escolhido para homenagear os trabalhadores de Chicago, nos Estados Unidos, que em 1886 começaram a reivindicar que o dia de trabalho tivesse apenas oito horas o que veio a ser aceite e passou a verificar-se em muitos países.
Mas não para nós, companheiros e companheiras em idade escolar. Nós que andamos nas escolas temos cargas horárias que podem ir até às onze horas por dia, se juntarmos as horas no Atelier de Tempos Livres, as horas curriculares, as actividades de enriquecimento curricular e a componente de apoio à família. Não podemos aceitar esta situação. Dizem os adultos que, fora da escola, não há quem tome conta de nós quando estão a trabalhar. Mudem a organização do trabalho e a gestão dos horários deles. Não sendo nossa a responsabilidade pela situação profissional dos adultos, não temos que sofrer nós as consequências. Muitos de nós, companheiros e companheiras, acabamos por estabelecer péssimas relações com os nossos locais de trabalho, as escolas, com tanto tempo lá vivido.
Além disso, quando chegamos a casa já quase não temos tempo e disponibilidade para a vida familiar, para a relação, para a brincadeira, como os nossos pais e irmãos que, como sabem é fundamental para a qualidade de vida dos seres humanos. É também isto que faz parte do estado social de que os adultos tanto falam a pensar sobretudo nos problemas deles que sendo importantes não devem fazer esquecer os nossos.
Os adultos lutaram por mudanças na natureza do trabalho, com preocupações de ergonomia e criatividade nas tarefas. E nós? O equipamento é, frequentemente, de má qualidade, tarefas muitas vezes repetitivas geridas por profissionais com formação inadequada, horas e horas sentados em mobiliário desconfortável. Ninguém pensa no risco de desenvolvermos doenças profissionais e nas consequências ao nível da motivação para progredirmos nas nossas carreiras. Os adultos sempre cuidaram primeiro de si e dos seus direitos e só depois, de nós e dos nossos direitos. Não existem estruturas representativas dos nossos interesses e nossa voz é pouco ouvida, por isso, muitos de nós tanto gritam. Se já tivéssemos a capacidade de votar talvez nos prestassem mais atenção, mas temos que ser exigentes.
É chegada a hora de nos ouvirem. Assim, proclamamos:
“As crianças e jovens em idade escolar exigem que lhes seja reconhecido e estabelecido o direito a que o seu dia de trabalho não ultrapasse as sete horas, como já acontece para muitos adultos”.

 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

ELE NÃO VAI LÁ

Vai agora iniciar-se o segundo período escolar, o período das decisões. Na verdade, embora falte o terceiro período este que agora se inicia acaba por ser muito importante, ainda me lembro dos avisos dos meus professores a que se juntava a "seca" dos pais.
Quando o primeiro corre bem e segundo acontece sem sobressaltos, estávamos "passados". Se o primeiro não correu grande coisa e este período também não correr bem, dificilmente recuperaríamos no terceiro período, estávamos "chumbados", agora dir-se-ia retidos.
Assim, o segundo período é um tempo em aberto, um tempo que permitirá manter bons resultados, recuperar de algumas dificuldades ou certificar o insucesso.
É neste aspecto que centro estas notas. De facto, alguns alunos devido aos seus resultados no primeiro trimestre, à sua história ou pelo "retrato" que deles foi tirado, são alunos que "não vão lá", ou seja, a escola, os professores, algumas vezes sem se dar conta, outras por ausência de meios ou disponibilidade e outras ainda pela convicção de que é "normal" que nem todos aprendam mesmo que tenham capacidades para isso e, portanto, não há nada a fazer, têm a sua frente alunos para os quais a expectativa de sucesso é baixa ou nula, dito de outra maneira, "eles não vão lá". A escola desiste deles e eles desistem da escola.
Curiosamente, muitos destes alunos são reconhecidos como miúdos espertos, dotados, de tal maneira que "se eles quisessem" teriam sucesso. O problema é que com alguma frequência, sem nos darmos conta e, ou por falta de recursos, nós a escola é que "não queremos" que eles tenham sucesso. Eu sei que a afirmação é forte e pode ser injusta em muitas situações, mas existem muitos miúdos de quem a escola desistiu por variadíssimas ordens de razões.
Ou seja, eles poderiam "ir lá",mas a escola também "não vai lá".

MENINAS PARA UM LADO, MENINOS PARA O OUTRO

O Público de hoje retoma uma matéria que regularmente emerge, o ensino discriminado, a que num enorme equívoco se chama ensino diferenciado, ou seja e no caso, escolas para rapazes e escolas para raparigas. No trabalho do jornal são ouvidos alguns alunos e alunas e o director e directora dos Colégios Planalto (para rapazes) e Mira Rio (para raparigas) que se referem às virtudes do ensino discriminado face à co-educação.
Recordo que em 2011 esteve em Portugal David Chadwell, apresentado como  especialista em ensino diferenciado, em formação para o corpo docente do Colégio Planalto e numa conferência na U. Católica, para  explicar como se devem ensinar os rapazes que, por serem rapazes, devem frequentar escolas, claro, só para rapazes. Uma nota breve sobre a designação, o equívoco a que me referi. Ensino diferenciado significa a mobilização de metodologias de trabalho educativo que procurem responder à diversidade dos alunos na sala de aula, ou seja, sendo as salas de aula constituídas por grupos heterogéneos em diferentes critérios, torna-se necessário encontrar respostas diferenciadas para as diferentes características mantendo as crianças juntas. Não existem grupos homogéneos, nem constituídos por gémeos. David Chadwell será especialista em ensino discriminado, o que representa exactamente o contrário de diferenciação educativa.
Parece ainda de relembrar que também sob a Cooperativa Fomento, ligada à Opus Dei que integra os Colégios Planalto e Mira Rio bem como dois outros estabelecimentos no Porto com ensino discriminado, em 2007 esteve em Lisboa o Professor Cornelius Riordan, sociólogo, que proferiu também uma conferência sobre as vantagens das escolas só para rapazes ou só para raparigas.
Como afirmação prévia, importa esclarecer que não discuto a legitimidade que informa a decisão de pais e encarregados de educação sobre as escolas que desejam para os seus filhos. Sendo certo que a liberdade de escolha é condicionada por múltiplos factores, também é certo que essa escolha pode assentar em critérios como público ou privado, dimensão, estatuto social predominante, laica ou religiosa, com farda obrigatória ou não, com formação de natureza militar ou não, com co-educação ou com separação de géneros, estabelecimentos em moda, etc. Num esforço de alargamento de opções poderá colocar-se até a possibilidade de se desejarem escolas para alunos com excesso de peso que terão, naturalmente, um plano curricular reforçado no âmbito da actividade física e cuidados redobrados na alimentação ou escolas para qualquer forma de minoria para que, ideia peregrina, fiquem mais protegidas dos excessos das maiorias, etc. Estas escolhas assentarão, necessariamente, no conjunto de valores, cultura, representações, expectativas, etc. dos pais. Trata-se de uma opção que lhes assiste.
A questão mais substantiva e que justifica o comentário é a afirmação de que escolas separadas por género são melhores e alguma da sustentação aduzida. Nem Riordan, Chadwel ou os directores dos Colégios apresentam evidência consistente sobre a superioridade do ensino discriminado por géneros assente nas diferenças entre rapazes e raparigas. A defesa do modelo é um enunciado de convicções e de referências pedagógicas sem qualquer solidez no que respeita ao que entendem ser as necessidades escolares diferentes dos rapazes e das raparigas, algumas de uma ingenuidade bonita, os rapazes acham que se distraem menos por não ter raparigas na sala. É pouco, muito pouco. Curiosamente, o Professor Riordan afirmou na altura que mais de metade dos estudos não são conclusivos sobre os efeitos positivos, mas crê nas vantagens das escolas separadas. Porque sim.
Justificou, por exemplo, com a questão do assédio sexual que, segundo ele, terá estado na base da tragédia na Universidade Virgínia Tech !!! Para demagogia não está mal. Defendeu também que as políticas educativas promotoras da equidade nos géneros faliram porque, afirmou Riordan,  o facto de as raparigas terem actualmente um maior acesso por exemplo ao ensino superior e, frequentemente, melhor rendimento académico, implicou a transformação dos rapazes “num grupo claramente em desvantagem” o que só se resolve se forem para escolas separadas. Não lhe ocorre um momento pensar na organização, qualidade e modelos dos processos educativos, certamente um pormenor.
Uma outra questão interessante e não habitualmente abordada, remete para os limites da educação separada. Será desejável até ao fim do secundário ou será melhor prolongar também durante o ensino superior e, entretanto, começar o processo de separação do mercado de trabalho também por géneros, uma vez que em adultos também homens e mulheres têm características diferentes?
Termino como comecei, entendo como totalmente legítima a existência de valores e convicções que sustentem a opção pela educação separada mas, por uma questão de honestidade intelectual, não os mascarem de ciência.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

FORÇA DE BLOQUEIO

Tu quoque, Cavaco, terá pensado Passos Coelho,  ao ouvir a mensagem de Ano Novo do Presidente da República. Na verdade, até mesmo Cavaco Silva, surge como força de bloqueio face ao conjunto de políticas assumido pelo Governo.
Remete o Orçamento Geral do Estado para fiscalização sucessiva do Tribunal Constitucional por sentir sérias dúvidas sobre a "justiça da repartição de sacrifícios" e sublinha o círculo vicioso produzido por políticas de austeridade e empobrecimento com claros e fortes efeitos recessivos. A pouco e pouco o Governo parece transformar-se numa aldeia de irredutíveis persistentes num caminho que não parece levar-nos à terra prometida, antes pelo contrário, continuamos na terra endividada e vamos perdendo o que temos.
Falta-me engenho e arte para concorrer com os inúmeros politólogos que esmiuçarão a comunicação do Presidente. Apenas uma última nota para registar que, para quem habitualmente é comedido nas apreciações, remetendo para uma mística e intangível "magistatura de influência" o seu papel institucional, os efeitos são manifestamente curtos.
Vamos seguir os desenvolvimentos, corrijo, vamos sofrer os desenvolvimentos.

CARTA AO ANO NOVO

Meu caro Ano Novo,

Em nome da hospitalidade e do bem receber que caracteriza os portugueses e em primeiro lugar, é com a maior satisfação que, como de costume, te dou as boas vindas ainda que, devo confessar, desta vez com alguma apreensão.
O prazo de validade do Ano Velho tinha terminado, a coisa não estava a correr nada bem e, por isso, precisávamos desesperadamente de um substituto. Não te conheço e portanto não sei exactamente a experiência que possuis, mas creio que como todos os novos não será muita. Não te quero assustar mas não vais ter tarefa fácil, antes pelo contrário, e parece-me útil que possas conhecer um pouco da realidade que te espera, pelo menos aqui em Portugal, para que te possas organizar no sentido de fazeres o melhor possível.
Logo de início, é bom que saibas que, devido à devastadora situação económica que atravessamos, fruto do mau trabalho de uma rapaziada que por aí, e por cá, tem andado e dos maus hábitos que adquirimos, alguns de nós é claro, as expectativas sobre ti são, lamento dizê-lo, fracas, muito fracas. Aliás, é voz corrente nas ruas e não estou a inventar a ideia de “que para o ano vai ser pior”. Estás a ver o que te espera, bom mas tu és novo, vais estar cá para o que der e vier e eu queria confiar em ti, e confio.
Em termos genéricos posso dizer-te que, de acordo com os estudos, somos um povo triste, desconfiado e sem grande esperança no futuro, o que também é animador como vês. No entanto, para compensar, gostamos de parecer uns “gajos porreiros” e bem-dispostos e adoramos, como vês por esta carta, dizer mal de nós. Um dos nossos mais populares ministros, o inteligentíssimo e muito bem formado, Vítor Gaspar, acha mesmo que somos o melhor povo do mundo e recompensa-nos, a quase todos bem entendido, com uma brutal carga fiscal que os atordoa.
Temos uma especial inclinação pelo “esquema” ou, como também se diz, “dar um jeitinho”, vais ver a quantidade de jeitinhos que te vão pedir à chegada e a quantidade de “esquemas” a que vais assistir ao longo da tua estadia por cá.
Temos um governo que, tal como qualquer outro que temos tido, acha que faz tudo bem e é incompreendido por toda a gente e temos uma oposição que acha que o governo faz tudo mal, mas não percebemos muito bem o que faria se fosse governo, porque quando é governo a situação é mais ou menos a mesma. Na verdade, vais perceber que não temos, por assim dizer, um Governo. Temos uma espécie de Comissão Administrativa que nos governa por delegação de uma entidade, não sei se já tiveste oportunidade de ouvir falar, chamada Troika, basicamente um sindicato de interesses dos chamados mercados.
Adoramos auto-estradas, rotundas e centros comerciais. Temos três pessoas que se acham os melhores do mundo mas duas emigraram, o Cristiano Ronaldo e o José Mourinho e o terceiro anda por aí, chama-se Professor Marcelo e diz que adivinha o futuro, não vais conseguir surpreendê-lo. Vais ficar surpreendido com algumas figuras que ao longo da tua estadia conhecerás, recomendo-te especial atenção a um rapaz sobredotado que por justiça e mérito é ministro, Miguel Relvas, também conhecido por "Dr.". Notarás logo quem é pois em qalquer trapalhada da grandes que acontecerem ele estará envolvido. Vais apreciar a figura.
No entanto, meu caro Ano Novo, se estiveres atento, vais perceber que somos um país de poetas que, como sabes, são uns fingidores. Por isso, deves ter reparado que à tua chegada encontraste o povo aos pulos e com ar de contente, apesar da situação que te descrevi sinteticamente.
Renovo os votos de boas vindas e de bom trabalho. Se precisares de alguma coisa, estás à vontade, dispõe.
Um abraço deste velho que sempre espera que o novo venha melhor.