terça-feira, 19 de abril de 2011

A HISTÓRIA DO BOM TIPO

Era uma vez um rapaz chamado Bom Tipo, na verdade um nome assim um bocado estranho. O Bom Tipo, não sendo um aluno de excelência, tem notas elevadas o que lhe permite cumprir o seu trajecto escolar sem qualquer espécie de sobressalto.
É um pouco falador, circunstância que por vezes lhe causa alguns embaraços nas aulas mas que se resolvem com tranquilidade, o Bom Tipo é um rapaz genericamente cumpridor das regras.
O Bom Tipo é um apaixonado pelo futebol o que o leva a jogar nas equipas de jovens do clube lá do bairro. Não tendo as qualidades futebolísticas de um Cristiano Ronaldo é um tipo apreciado, lutador e um excelente jogador de equipa.
Logo cedinho, sendo um rapaz simpático, começou com os namoros que o fazem crescer e agora anda mesmo perdido pela Sara com quem de vez em quando sonha poder um dia viver, quando for o tempo, é claro.
Tem um grupo de amigos, companheiros de brincadeira e de algumas idas a concertos. O Bom Tipo gosta imenso de música, a sua ocupação dos tempos livres.
Ainda não referi mas o Bom Tipo tem uns pais que gostam imenso dele e cuidam para que ele seja ele. E ele é ele, o Bom Tipo que também gosta mesmo deles e da irmã, dois anos mais nova.
Ninguém sabe mas os pais dele, pessoas com modestos rendimentos andam a ser investigados por apresentarem sinais exteriores de riqueza.
Ter um filho como o Bom Tipo é um luxo que importa perceber como se adquire.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

OS PARALELOS DO RITMO

Uma visita rápida à imprensa de hoje permite ficar a saber que o "FMI ataca reformas e subsídios", CM, que "Portas aceitou pagar 30 milhões a mais pelos submarinos", JN, ou que o TGV sem um metro de linha construído e com o projecto suspenso já custou 300 milhões de euros", no I.
Somos também informados no DN que Zeinal Bava é o mais bem pago dos gestores com 1,4 milhões ganhos em 2010 e no I que se verifica o abaixamento de 3,5 % do número de desempregados inscritos nos centros de emprego face a Março de 2010, mantendo-se ainda em cerca de 550 000.
O Público informa ainda que os hospitais devem cerca de mil milhões de euros às farmácias.
Mais informação deste tipo poderíamos encontrar.
Curiosamente, as notícias sobre a classe que dirige ou pretende dirigir os destinos do país em que tudo isto se passa, estão centradas na dança das cadeiras, chamam-lhe listas para as legislativas, também conhecidas por "arranja-me um luarzinho que eu voto no que for necessário sem arranjar ondas". Deste universo destaca-se o degradante e deprimente espectáculo da candidatura de Fernando Nobre pelo PSD. Considero que este episódio deveria ser proibido a menores de 18 anos pelos efeitos negativos que pode ter na sua formação cívica.
Quando se atenta neste cenário ocorre-me uma expressão da minha juventude quando nos referíamos a um imaginário conjunto musical chamado "Paralelos do ritmo" tão mau, tão mau que os seus elementos por mais que tocassem nunca se encontrariam.
De facto, boa parte dos discursos políticos quando comparados com a realidade, parecem os "Paralelos do ritmo", por mais que toquem nunca se encontram.
Sofre o país, isto é, a vida das pessoas.

A HISTÓRIA DO HOMEM QUE MUDOU

Era uma vez um Homem. Como acontece com todos os homens, os sonhos e desejos do Homem na maior parte das vezes e em várias áreas da sua vida não se realizavam.
Umas vezes, muitas vezes, o Homem pensava que essa não realização era fruto da intervenção das outras pessoas. Outras vezes pensava que as circunstâncias, o acaso ou o destino, como também lhe chamam, determinavam o seu insucesso. Havia também momentos, poucos por faziam doer, que o Homem achava que não era suficientemente bom e competente para conseguir realizar os seus sonhos e desejos.
As decepções a amargura que dele foram tomando conta levaram-no a voltar-se mais dentro com a companhia de um ecrã, situação nada rara na vida de muitos homens, grandes e pequenos.
De tanto tempo só e à procura da sobrevivência começou de mansinho a descobrir que a sua vida poderia não continuar assim.
Foi descobrindo que afinal era capaz de cumprir todos os sonhos e todos os desejos, ou quase. Tudo o que sempre quisera ser ou ter e ficava inalcançável, de repente, estava ali perto, mesmo à mão.
A sua dificuldade era escolher, o mundo estava aberto à sua frente, por vezes já não era capaz de decidir, tudo parecia possível.
Desde que passou a viver na realidade virtual que todos os dias e a todas as horas construía no ecrã, sentia-se um homem completamente diferente, sentia-se mesmo outro homem. De tal maneira se sentia outro que até mudou de nome.
Agora chamava-se Nick, Nickname.

domingo, 17 de abril de 2011

HÁ VIDA PARA LÁ DOS PARTIDOS

Ao que parece e a história mostra, falar de negociação a propósito da intervenção do FMI, ainda que numa co-produção com o FEEF, não passará de um eufemismo. Na verdade, estas duas instituições definirão o caderno de encargos mediante o qual injectam o dinheiro necessário, restando às autoridades portuguesas a assinatura do memorando e a utilização de uma retórica que mascare a sua falta de autonomia e a transformação de Portugal num protectorado nos próximos anos, como ontem Nicolau Santos bem referia no Expresso.
Neste quadro, resta às lideranças políticas que aspiram ao poder, designadamente PS e PSD, entreterem-se numa espécie de jogos florais de troca de opiniões vazias de conteúdo e assentes nas minudências pessoais ou partidárias, que pretende convencer o eleitorado de que sempre seremos nós, eles os que ocuparem o poder, a decidir.
Este caminho, fora da realidade, parece-me pouco desejável e com riscos.
São cada vez mais as vozes que se mobilizam contra a exclusiva concentração nos partidos dos destinos e dos conteúdos da vida política portuguesa que, aliás, bem se esforça por afugentar as pessoas sérias, veja-se o recente episódio da triste figura de Fernando Nobre contratado de forma oportunista pelo PSD.
O movimento iniciado a 12 de Março, discursos como o de Marinho Pinto apelando a "uma greve à democracia", a referência de Otelo Saraiva de Carvalho, "o dono do 25 de Abril", à democracia directa, fora do controlo partidário e o exemplo dos referendos na Islândia pode prenunciar a instalação de um sentimento de "revolta" que tanto pode encaminhar-se numa saudável reforma dos modelos de organização e participação cívica como, pelo contrário, traduzir-se em fenómenos de radicalização e protesto social com contornos e consequências imprevisíveis.
Os partidos continuam centrados nos seus umbigos e interesses de poder correndo o risco de se ver ultrapassados pelas circunstâncias históricas e perceber um dia, finalmente, que haverá vida política para lá dos partidos.

sábado, 16 de abril de 2011

O NOBRE PROPÓSITO E A TRISTE FIGURA

Parecem cada vez mais claros os Nobres propósitos, o poder, isso mesmo, o poder e só o poder. Quando me refiro a este assunto, acho por bem esclarecer que na altura da eleição para a Presidência da República me pareceu saudável a emergência de uma candidatura fora do controlo dos aparelhos partidários e os resultados vieram a confirmar a disponibilidade do eleitorado para esse não alinhamento.
Assente a poeira, a candidatura de Fernando Nobre como cabeça de lista do PSD por Lisboa com a “missão” de ser Presidente da Assembleia da República, representa o atropelo aos discursos e comportamentos que tinha vindo a assumir reiteradamente. Não é grave, ninguém é perfeito, a carne é fraca e não é o primeiro, nem será o último actor da cena portuguesa dar tão grande cambalhota, antes pelo contrário a maioria dos actores políticos mostram-se autênticos troca-tintas.
Em entrevista ao Expresso de hoje o Dr. Nobre mostra ainda de forma mais despudorada como é possível tamanho contorcionismo cívico. Apenas duas referências particularmente significativas. Em primeiro lugar, reconhece não conhecer o programa político do PSD o que para o cabeça de lista ao mais importante círculo eleitoral, Lisboa, seria anedótico se não fosse patético e elucidativo do nobre propósito, querer e aceitar o poder em nome seja do que for. A segunda referência ao facto de Fernando Nobre afirmar que apenas lhe interessa o lugar de Presidente da Assembleia, se não ficar com ele renuncia imediatamente ao lugar de deputado. Para democrata não está mal, ou ganha ou sai do jogo. Mais uma vez se percebe que o que move o Dr. Nobre não é a democracia, a cidadania, como lhe chama num abastardamento do termo, é o poder, sempre o poder.
Sempre me lembro do meu pai. A espinha direita e a dignidade são uma reserva que um homem não pode perder, nunca. Nobre ficou, em termos políticos, sem ambas, perdeu a espinha direita e a dignidade.
Ficaram claros os Nobres propósitos. Triste figura.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

UM EQUÍVOCO POUCO COMPREENSÍVEL

Segundo o Público, a Maternidade Alfredo da Costa pede aos utentes donativos que possam minorar os efeitos da contenção orçamental.
O director do hospital justifica a medida com as necessidades, naturalmente, e com o facto de em algumas instituições estrangeiras da mesma natureza também se fazer um apelo aos donativos dos utentes.
Poderíamos tentar ver uma medida pedagógica e preventiva nesta iniciativa. Isto é, destinando-se esta unidade a prestar cuidados envolvendo bebés o apelo a donativos estimula precocemente a solidariedade ou mesmo o hábito das contribuições para o estado, por vezes chamadas impostos. Pode ser essa a intenção.
A questão é, no entanto, grave e envolve um equívoco. As dádivas que algumas instituições estrangeiras solicitam não são destinadas a minimizar cortes orçamentais mas a criar folgas orçamentais que permitam benefícios à instituição e ao bem estar e à comodidade de quem a utiliza e não aos custos do cumprimento eficaz da missão, esses não podem estar sujeitos a donativos.
Para além disso, um serviço público de natureza gratuita não pode deixar instalar a dúvida de que a qualidade dos cuidados de saúde que se vão solicitar pode de alguma forma estar associada ao donativo que é sugerido no acto da marcação da consulta.
Há situações que apesar de bem intencionadas não podem, não devem, acontecer.

O SOBRESSALTO CÍVICO (continuação)

A imprensa de hoje refere que os promotores da manifestação de 12 de Março registaram a expressão bandeira “Geração à rasca” no sentido de evitarem aproveitamentos partidários, comerciais ou de outra natureza. Decidiram ainda a institucionalização de um Movimento 12 de Março com o objectivo de manter uma intervenção cívica e política activas na promoção da democracia fora dos limites estreitos dos aparelhos partidários.
A manifestação de 12 de Março mostrou, entre outras coisas, que existe clima e disponibilidade para o envolvimento e participação cívica e política dos cidadãos de diferentes gerações fora do quadro partidário.
Durante a preparação da manifestação e nos dias seguintes assistimos a algumas intervenções oriundas das esferas partidárias que, de forma mais ou menos explícita, procuravam “apanhar boleia” neste movimento com a óbvia intenção de o capturarem e manter sob controlo.
Esta decisão de formalizar o M12M, que me parece interessante e que acredito genuína no sentido da defesa da democracia e dos direitos de cidadania, pode vir a constituir um instrumento fundamental de mudança pois, se suscitar níveis de envolvimento e mobilização significativos, obrigará a uma reflexão profunda dos partidos e da sua praxis.
Neste cenário pode acontecer que, ou os partidos promovem mudanças e modernizam organização, práticas e valores e continuam como pilares fundamentais da vida democrática associados a outras formas de organização cívica, ou continuam a fechar-se sobre si próprios e os respectivos aparelhos, vivendo de grupo do fiéis que face ao abstencionismo progressivo vão mantendo o poder, ainda que rotativo, até que impludam ou até que movimentos sociais de natureza mais radical e reactiva às formas de poder imponham mudanças.
No fundo, trata-se de perceber se a nossa democracia evoluirá com os partidos, apesar dos partidos ou, perigosamente, contra os partidos.

OS DONOS DAS CONSCIÊNCIAS

O episódio agora revelado por Pacheco Pereira sobre uma mensagem da liderança a inibir os deputados da bancada do PSD de expressarem ideias pois poderiam beneficiar o PS é apenas mais um que ilustra o funcionamento da partidocracia e de como os partidos se entendem e se assumem como os donos das consciências dos seus militantes. Aliás, o próprio Pacheco Pereira deixa de integrar as listas do PSD para as legislativas porque não tem uma consciência de aluguer, virtude que lhe reconheço independentemente de eu discordar frequentemente das suas posições.
Ninguém minimamente atento à vida política portuguesa estranhará tal episódio numa renovada direcção de Pedro Passos Coelho o novo mais velho da política portuguesa e este comportamento mostra como a tradição ainda é o que era.
Este tipo de incidentes, em que os últimos tempos, têm sido férteis alimenta o afastamento e desconfiança dos cidadãos face a políticos e a partidos. No actual quadro político administrativo é muito difícil a intervenção cívica, no sentido político, fora da tutela dos aparelhos partidários. Verifica-se também que a capacidade de mobilização dos partidos se dirige a uma minoria de pessoas que emerge dos respectivos aparelhos que, assim, podem aceder a alguma forma de poder e a uma maioria que enche autocarros, recebe uns brindes e tem um almocinho de borla. A partidocracia não atrai porque os partidos se tornam donos da consciência política das pessoas, veja-se o espectáculo deprimente da Assembleia da República, salvo honrosas excepções vota-se o que o partido manda, independentemente da consciência.
Reconhece-se hoje que as camadas mais novas, sobretudo mas não só, atravessam uma complexa situação envolvendo os valores, a confiança nos projectos de vida, os estilos de vida, etc. Neste quadro, a adesão à intervenção política, tal como se verifica genericamente em Portugal, parece mais uma parte do problema, é velha a partidocracia para responder a problemas novos, que um caminho para a solução.
De tudo isto resulta, como muitas vezes refiro, o afastamento das pessoas pelo que a construção de outras formas de participação cívica parece ser a única forma possível de reformar o quadro político que temos, ou seja, os partidos ou definham ou mudam, pela pressão do exterior.

UM MUNDO COMPOSTO DE MUDANÇA

As novas qualidades, se o forem, que um mundo composto de mudança vai tomando assumem as mais variadas formas e revelam-se em múltiplos campos.
A linguagem, algo de dinâmico por natureza e condição, não podia deixar de reflectir também as mudanças. Por curiosidade, deixo aqui alguns exemplos que me parecem curiosos.
Há uns tempos atrás tínhamos um namoro, um casamento ou, mais simplesmente, juntávamo-nos. Actualmente toda a gente tem “uma relação”.
Há algum tempo trabalhávamos, estudávamos ou fazíamos qualquer coisa. Actualmente, de forma mais sofisticada, temos um “projecto”.
Há algum tempo as pessoas que trabalhavam por conta de outrem eram trabalhadores mas agora são “colaboradores” ou “activos”.
Há algum tempo, alguém que não saldasse uma dívida, tinha um calote ou era, claro, caloteiro. Requintou-se a designação e passou a ser alguém que entrou em “incumprimento”.
Há algum tempo fugir à verdade era mentir mas hoje é produzir uma “inverdade” ou cair num “equívoco”.
Há algum tempo falávamos de regiões mais pobres, hoje, não percebo porquê, falamos de regiões “deprimidas”.
Um outro exemplo saído de um noticiário televisivo, às pessoas de quem se dizia viverem com dificuldades chamaram pessoas que vivem “sob pressão”.
Há algum tempo a alguém que comentava, mal ou bem, a vida política chamava-se comentador, hoje é um “politólogo”.
Há algum tempo falava-se de ideias novas, hoje são “emergentes”.
Há algum tempo a nossa relação com os donos do dinheiro era impessoal e distante. Hoje chamam-se “mercados” com quem temos uma relação muito personalizada e cautelosa, “não se pode irritar os mercados”, “é preciso dar sinais positivos aos mercados”, “temos que nos portar bem com os mercados”, “os mercados não gostam”, etc.
Há algum tempo isto seria umas notas avulsas para divulgar, hoje é um “post” para “postar” num “blogue”.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

OS CAMINHOS DO PODER

O dirigente da Federação Nacional de Educação, João Dias da Silva, lança publicamente aos partidos políticos um apelo no sentido de acabarem com o "ziguezaguear das políticas educativas". Não é certamente o primeiro apelo desta natureza que se ouve na sociedade portuguesa.
No entanto, a cultura e praxis política que temos tido nas últimas décadas torna tal cenário algo de improvável. A partidocracia instalada leva a que, na generalidade das matérias, os interesses partidários se sobreponham aos interesses gerais, a conflitualidade que sendo importante e muitas vezes estimulante e promotora de mudança, é assente em corporações de interesses e clientelas que inibem a definição de rumos e de perspectivas que visem o interesse geral.
No universo mais particular da educação, devido ao peso e impacto social do sector, é ainda mais óbvio a presença de interesses antagónicos que decorrem bem mais dos interesses da partidocracia do que da verdadeira preocupação com a qualidade dos processos educativos. Veja-se o espectáculo deplorável proporcionado nos últimos dias da curta legislatura que agora termina, quando todos os partidos da oposição rejeitaram o modelo de avaliação dos professores. O modelo era mau, não deveria ter entrado em vigor e foi tolerado há tempos mas nessa altura ainda não se vislumbrava a proximidade de eleições. Logo aí deveria ter sido chumbado e não agora porque se pretende contar com os votos dos professores nas eleições que se seguem. Esta atitude, decorrente da agenda de interesses partidários permitiu que as escolas se envolvessem tempo demais em processos de avaliação de má qualidade, burocratizados e com efeitos para os envolvidos que ainda se desconhecem e com óbvias consequências no clima das escolas.
Gostava de poder ter um discurso mais optimista, mas muito provavelmente continuaremos a assistir à continuidade da deriva e do digladiar de interesses partidários, promovendo política pequena onde era imprescindível política grande.

JÁ NÃO AGUENTO

Hoje são divulgados os dados do estudo sobre a saúde dos adolescentes portugueses coordenado pela Professora Margarida Gaspar de Matos realizado no âmbito da OMS. Para além da relevância genérica do trabalho, o Público acentua a referência ao facto de 15.6 % dos adolescentes inquiridos, com catorze anos de idade média, se terem magoado de propósito mais do que uma vez nos últimos doze meses à data do estudo. Os comportamentos autodestrutivos em adolescentes são mais frequentes do que muitas vezes pensamos. Alguns estudo internacionais apontam para cerca de 10% da população em idade escolar com comportamentos de auto-mutilação pelo que os dados encontrados agora em Portugal são, de facto, preocupantes.
Este quadro é um indicador do mal-estar que muitos adolescentes e jovens sentem. Em muitas situações não conseguimos estar suficientemente atentos. Acontecem com alguma frequência situações de sofrimento com as mais diversas origens, relações entre colegas, bullying por exemplo, ou relações degradadas em família que facilitam a instalação de sentimentos de rejeição, ausência de suporte social, facilitadoras de comportamentos autodestrutivos. Começa também a emergir como causa deste mal estar a dificuldade que algumas crianças e adolescentes sentem em lida com situações de insucesso escolar. Esta dificuldades são frequentemente potenciadas pela pressão das famílias e pelo nível de competição que por vezes se instala.
Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas é necessário. Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia a dia sinais de mal-estar a que, por vezes não damos atenção, seja em casa, ou na escola espaço onde passam a muito tempo. De facto e na maior parte dos casos, designadamente, em comportamentos de auto-destruição, pode ser possível perceber sinais e comportamentos indiciadores de mal-estar. Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados.
O resultado pode ser trágico.

YA - Outro diálogo improvável

Bom, Tiago acho melhor termos uma conversa.
Ya.
As notas do 2º período estão longe de ser satisfatórias.
Ya.
Continuo a achar que trabalhas pouco.
Ya.
Preocupa-me ainda porque não me pareces muito interessado em mudar. És um rapaz com capacidades, és esperto, se quisesses poderias ter resultados bastante melhores.
Ya.
Falei com a tua mãe e se achares por bem, durante o 3º período poderíamos encontrar uma explicação que te ajudasse a melhorar as notas e a tentar salvar o ano.
Ya.
Já várias vezes te disse que é muito importante que estudes de modo a poder ficar com uma profissão qualificada e melhor vida no futuro.
Ya.
Por isso acho que devias pensar de uma vez por todas que é preciso fazer algum esforço que nos permita obter resultados. Sem fazer esforço, não vamos a lado nenhum. Como o meu pai dizia, as coisas não caem do céu, temos que por lutar por elas. Penso que concordas comigo.
Ya.
Então, conto com a tua vontade de passar o ano.
Ya.
Ainda bem Tiago. É sempre bom conversar, é assim que as pessoas se entendem.
Ya.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

OS DONOS DA HISTÓRIA

Na nossa sociedade, estou a pensar sobretudo entre nós portugueses, embora seja um fenómeno universal, existem umas figuras de maior ou menor relevo que quando olham para si e falam de si se colocam numa posição de extraordinária importância e imprescindibilidade, são os donos da história, julgam-se os donos da história.
Dito de outra maneira entendem e acreditam que determinam, determinaram ou podem determinar o rumo do mundo.
Na verdade, em todas as épocas existiram figuras que efectivamente marcaram a história, para o melhor ou para o pior mas, de uma forma geral essa figuras têm o pudor de não o referir e deixar isso para o julgamento do tempo.
Vem esta introdução a propósito da entrevista de um dono da história em Portugal, Otelo Saraiva de Carvalho, figura associada ao papel, importante sublinhe-se, desempenhado no processo desencadeado com o 25 de Abril de 1974 e nos anos seguintes. Entre outras afirmações sobre a actual situação refere que "se soubesse como o Pais ia ficar, não fazia a revolução". Notável.
Ele, Otelo, a quem só faltam dotes de adivinhador teria decidido um dia ao acordar "É pá, assim não faço a revolução, não insistam que para isto não faço a revolução pá, vou antes tomar uma bica, se quiserem a revolução peçam a outro que a faça pá" e pronto pá, a história era outra.
O auto-centrismo de Otelo não o deixa perceber que apesar de todas as dificuldades que atravessamos, algumas muito graves e a atingir muita gente, o país de 1973 é, sem sombra de dúvida, um país pior que o de 2011. Se olharmos para todos os indicadores de desenvolvimento as mudanças são claras embora, repito, não invalidem nem façam esquecer as dramáticas condições que hoje afectam muitos milhares de portugueses.
Este tipo de discursos lembra-me aquela história do megalómano que tinha como último sonho de poder ser Deus, para ser o único a afirmar com propriedade, "até amanhã se eu quiser".
O velho e saudoso Mário Sénico, companheiro de viagens já desaparecido, diria de forma mais simples, "Ai de mim se não for eu".

O IRMÃO DA MARTA - Outro diálogo improvável

No último dia de aulas à saída da escola o Miguel encontrou o Professor Velho, aquele que está na biblioteca e fala com os livros.

Olá Miguel tudo bem contigo?
Sim Velho e a Marta, a minha irmã, também está bem.
E a escola como é que correu este período?
Mais ou menos. À Marta, a minha irmã, correu bem.
E o teu comportamento já foi um bocadinho melhor?
Nem por isso. A Marta, a minha irmã, portou-se bem. Ela comporta-se sempre bem.
Mas achas que vais passar de ano?
Não sei Velho. Vamos ver se no terceiro período consigo ter mais notas positivas. A Marta, a minha irmã, vai passar. Ela passa sempre, tem notas muito altas.
Mas Miguel deixa que te diga, continuas um miúdo simpático, quase todos os professores, gostam de ti.
Mas gostam mais da Marta, a minha irmã.
Olha lá Miguel, estou a falar contigo e de ti e tu só me falas da Marta.
É assim Velho, para toda a gente eu não sou o Miguel, sou o irmão da Marta. Já me habituei.

terça-feira, 12 de abril de 2011

OS TRABALHOS DAS MULHERES

Hoje prometi a mim mesmo que não falaria da “ajuda” do FMI nem da cambalhota do Dr. Fernando Nobre.
O Público de hoje cita o Relatório Society at a Glance 2011 da OCDE para referir que Portugal é o quarto país dos 29 considerados com maior diferença entre homens e mulheres, no que se refere a trabalho não pago, sobretudo a tão portuguesa “lida da casa”, cozinhar, limpar, cuidar dos filhos, etc. Entre nós a diferença é de quase quatro horas.
No mesmo sentido, foi conhecido há algumas semanas um estudo realizado pela Intersindical com base em dados do INE e do Ministério do Trabalho segundo o qual as mulheres portuguesas trabalham média 39 horas semanais e realizam mais 16 horas de trabalho não remunerado relacionado com a família o que me leva retomar algumas reflexões já aqui deixadas. Também há algum tempo um trabalho internacional revelava que as mulheres portuguesas são das que mais tempo trabalham fora de casa. Existem também indicadores sustentando que as mulheres portuguesas são de entre as europeias as que mais valorizam a carreira profissional e a família, a maternidade.
Este conjunto de indicadores ilustram as dinâmicas familiares actuais e ajudam, também a entender as dificuldades e inibição que muitas famílias sentem em integrar filhos nos seus projectos de vida e o consequente envelhecimento e ausência de renovação geracional.
É evidente que as questões não são exclusivamente de natureza económica, os valores e a condição da mulher nas diferentes comunidades desempenham um papel crucial e interagem com as questões económicas. Os salários são genericamente baixos e baixos e não podemos esquecer a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc. Pode também referir-se que apesar das alterações legislativas o uso partilhado da licença por nascimento de filhos ainda é significativamente baixo.
Acresce que Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que, naturalmente, é igualmente um obstáculo para projectos de vida que envolvam filhos. Tudo isto contribui para que são uma das razões que “obrigam” a que as famílias revejam em baixa, como agora se diz, os projectos relativos a filhos.
Este cenário complexo torna urgente a definição de políticas de apoio à família com impactos a curto e médio prazo como, por exemplo, a acessibilidade aos equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida. Combater a discriminação salarial e de condições de trabalho através de qualificação e fiscalização adequadas. Pode parecer disparate mas acho que se poderia investir na construção de redes comunitárias de apoio e guarda das crianças, aproveitando, por exemplo, os seniores que estão sós, desocupados e cheios de vontade de ser úteis a “filhos” e a “netos” que deles precisem. É uma ideia em que sistematicamente insisto.

TENHO OS MIÚDOS DE FÉRIAS. E AGORA?

O início de cada período de férias escolares recoloca na agenda como resolver o problema dos miúdos. Em tempo de dificuldades a coisa complica-se, para os pais é claro, mas também para os miúdos. Algumas notas repescadas de textos que já por aqui passaram.
Uma opção possível é manter os miúdos na escola. Conheço circunstâncias em que os meninos continuam na escola, na sala do costume, com as fichas do costume, no trabalho do costume. Mesmo admitindo a impossibilidade de que, por ausência de alternativa, as crianças não continuem a habitar no espaço escolar, é tempo de férias, existem tantas coisas que habitualmente não cabem no tempo da escola, mas cabem no tempo das férias. Claro que podem ler e escrever nas férias, é bom ler e escrever, mas numa sala de aula? Nas fichas do costume? Porquê? Será que alguém de nós, os privilegiados que temos férias, achamos interessante, passá-las, mesmo que apenas uma parte, no local de trabalho?
Uma outra grande e emergente alternativa menos acessível mas mais variada tem vindo de um mercado atento às necessidades dos consumidores. Temos as oficinas, os ateliers, os playcenters, os workshops, os espaços lúdicos, etc. destinados à música, do jazz à clássica, à dança ou à literatura, contos e histórias, às actividades expressivas, plásticas ou artísticas, a designação também varia, em toda a sua gama e diversidade. Temos a filosofia para crianças destinada, eventualmente, aos mais reflexivos. Temos as actividades desportivas, várias modalidades, indoor ou de ar livre em diferentes versões e natureza, quintas pedagógicas, contacto com animais e espaços de aventura, campos de férias, etc. As referências poderiam continuar dada a criatividade e capacidade de inovação dos proponentes disponibilizando, enfim, uma oferta para todas as bolsas, ou quase.
Sei bem que neste universo existem iniciativas de excelente qualidade, no entanto, creio que devemos adoptar uma atitude de alguma cautela. Instalou-se um pouco a convicção de que é fundamental para o desenvolvimento e bem-estar das crianças a sua participação em inúmeras actividade, todas imprescindíveis à excelência, porque os miúdos devem ser educados para ser excelentes. Entende-se, muitos pais o afirmam, que a realização de todas, mesmo todas, estas actividades são imprescindíveis aos miúdos, pois promovem níveis fantásticos de desenvolvimento intelectual e da linguagem, desenvolvimento motor, maturidade emocional, criatividade, interacção social, autonomia e certamente de mais alguns aspectos que agora não recordo.
Este entendimento, que por vezes já se verifica em tempo de aulas, cria o que costumo designar por "criança agenda", isto é, a criança que está sempre envolvida em qualquer actividade, a quase todas as horas.
Os pais, alguns pais, seduzidos pela sofisticação desta oferta, pressionados pelos estilos de vida que não conseguem ou podem ajustar e com a culpa que carregam pela falta de tempo para os filhos, aceitam, por vezes para não ser injusto, que os miúdos sejam fechados dentro destes “espaços de liberdade”, comprando, assim, mais um serviço educativo.
Não esqueço, sublinho, que nestas iniciativas algo de interessante e importante pode acontecer para as crianças, também não duvido da seriedade e competência dos responsáveis, mas inquieta-me um pouco a pressão criada sobre os pais que corre o sério risco de transformar as férias do miúdos em algo de cansativo, cheias de "tempos livres" que de livres muitas vezes têm pouco.
Talvez seja ingenuidade, mas gosto de pensar que para ajudar nas férias dos miúdos de forma menos sofisticada e mais aberta, poderíamos também recorrer a equipamentos que muitas vezes existem nas comunidades e a avós que vivem nos lares, sem netos a quem contar histórias e com quem passear, estimular as relações de vizinhança integrando o acompanhamento das crianças do prédio nas funções do condomínio e que rotativamente pode ser assegurada, etc.
Era bom que as férias fossem, isso mesmo, férias, tranquilas mas isto nos tempos que correm até parece utopia. E é.
Boas férias.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A VIDA MAIS DURA DAS FAMÍLIAS

Dados hoje divulgados no DN de um trabalho do Centro de Estudos e Sondagem de Opinião da Universidade Católica, realizado já em Abril mostra, sem surpresa, que os portugueses estão a reconhecer dificuldades crescentes no pagamento de encargos em áreas básicas como habitação, energia, alimentação ou custos com a educação dos filhos e o acompanhamento a idosos.
Como dizia, não é, lamentavelmente, surpresa mas representa sim o avolumar de uma enorme preocupação. Estes indicadores fazem subir seriamente a população em risco de pobreza e de insolvência familiar. As implicações no bem-estar de muitos milhares de famílias pode ser devastador.
A esta quadro acresce um previsível aumento de dificuldades advindas da aplicação das receitas do FMI e FEEF que apesar de designadas "programa de ajuda", de ajuda aos cidadãos terão muito pouco. Aliás, é curioso referir que, segundo o DN, a operação de "ajuda" a Portugal renderá cerca de 520 milhões ao FMI e 1060 milhões aos países europeus. Como se vê a "ajuda" parece ser um, mais um, excelente negócio para essa entidade abstracta chamada "mercados".
As dificuldades crescente das famílias portuguesas poderão nos tempos mais próximos tornar-se algo de insustentável do ponto de vista social com reflexos significativos no nível de coesão social o que pode ter reflexos de gravidade imprevisível.
Vão começar as negociações que definirão os montantes e os contornos de utilização da "ajuda". Gostava de ser optimista e acreditar que entre os critérios a ponderar se coloque a vida das pessoas, o bem-estar das pessoas, e não a protecção dos interesses dos mercados as suas várias expressões sustentados nos discursos e praxis política que também deles se alimenta.

OS OLHOS DA MINHA FILHA

Numa loja pequena de bairro, estavam duas clientes que quando o escrevinhador entra desenrolavam uma conversa, que agora se reconstrói com a memória e com a desculpa de quem não podia deixar de ouvir pela razão simples de estar presente e o espaço ser pequeno. As clientes são duas mulheres novas que parecem conhecer-se.
Pois não te tenho visto, está tudo bem contigo e com a família?
Sim, vamos indo como podemos.
Claro, a vida não está fácil.
O meu marido está a trabalhar no norte. Estou com a minha filha em casa da minha mãe. Há umas semanas até tinha encontrado um serviço para fazer a seguir ao emprego. Não era muito mas sempre ajudava, sabes como é. Ia das sete até às onze mas quando chegava a casa via a minha filha triste até que há uns dias ela disse-me, "Podias ganhar menos e estar mais tempo aqui em casa". Olha, deu-me cá uma tristeza, no dia a seguir já não fui. E já não vou mais, só para não morrer de fome e mesmo assim. Não quero voltar a ver os olhos da minha filha olharem assim.
Acho que fizeste bem.

O escrevinhador ficou a pensar que quando as mães querem e sabem olhar para os olhos dos filhos não precisam de manuais.
E os filhos têm pais, a sério, um bem de primeira necessidade.

domingo, 10 de abril de 2011

O CANTO DA SEREIA

Não resistiu. Há uns meses atrás quando emergiu a candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República e, sobretudo, considerando os resultados que obteve pensei que poderíamos estar a assistir ao início de uma mudança no âmbito da vida cívica portuguesa a que acrescentei a manifestação de 12 de Março.
Também na altura, tal como após a manifestação me referi ao risco da partidocracia querer, por razões óbvias, capturar Fernando Nobre e o movimento "Geração à rasca". Lembro-me de Fernando Nobre ter sempre rejeitado a ideia de um partido exactamente porque teria uma visão outra para o nosso cenário cívico e político, fora da viscosidade inabalável dos aparelhos partidários e diferente da partidocracia instalada.
Pois é, nem foi preciso muito tempo. Cabeça de lista por Lisboa e putativo candidato a Presidente da Assembleia da República agora por dentro do PSD. É uma bela cambalhota, sim senhor.
O Dr. Fernando Nobre não ficará certamente incomodado, mas o respeito que me mereceu a coragem da candidatura e o discurso da cidadania esfumou-se. Compreendo-o, aliás, como médico saberá como a carne é fraca e, isto sabemos todos, o poder é uma enorme tentação.

AJUDA A QUEM, RESGATE DE QUÊ

Nos últimos tempos a linguagem do quotidiano tem ido enriquecida com um vocabulário que por razões diferentes nos vai causando alguma perplexidade e pode justificar umas notas próprias de uma manhã de Domingo.
Já cansados das referências obsessivas aos mercados, quase sempre entendidos como uma entidade algures entre um deus que nos regula a vida e a quem não se pode desagradar e um pai que nos sustenta, fomos conhecendo umas tais agências de rating que inexplicavelmente conseguem influenciar as taxas a que se pede dinheiro emprestado quando são sustentadas pelos grupos financeiros que emprestam dinheiro e que, portanto, beneficiam criminosamente com a alta das taxas de juro determinadas pelas agências por si controladas.
Nos últimos dias fomos bombardeados com o pedido de ajuda externa e o resgate a que fomos obrigados a recorrer. Para além do indecoroso espectáculo proporcionado pelos actores políticos portugueses, algo que não estranhamos, parece-me interessante esta coisa do pedido de ajuda e do resgate.
Desde sempre nos habituámos a entender um pedido de ajuda como algo a que procedemos quando atravessamos alguma dificuldade. Sendo verdade que atravessamos muitas, é certo que uns mais do que outros, parece claro que se faz um pedido de ajuda para aliviar, já não digo resolver, essas dificuldades. Acontece que segundo a experiência de outros países e o discurso dos donos do mundo a ajuda é, estranhamente, para aumentar as nossas dificuldades. É verdade, vamos receber ajuda para pagarmos mais impostos, vamos receber ajuda para aumentar o desemprego, vamos receber ajuda para baixar salários, vamos receber ajuda para baixar os apoios sociais disponíveis.
É no mínimo estranho. Não se trata de um discurso demagógico trata-se de perceber porque raio se chama ajuda à injecção de dinheiro que entrando no sistema económico e financeiro não parece ficar o serviço do bem-estar de todos mas servir, como sempre, os mercados. Uma sugestão, não lhe chamem ajuda, chamem-lhe investimento, quem manda para cá o dinheiro da "ajuda" não é propriamente uma IPSS sem fins lucrativos.
Uma nota sobre o resgate. Também nos habituámos a que o termo resgate se utiliza habitualmente para designar uma operação de salvamento. O resgate que se propõem fazer connosco vai manter-nos nas mãos dos "resgatadores", obriga-nos a obedecer às suas regras e às condições que entendem por bem, em função dos seu interesses, fixar como preço para o resgate.
No fundo estão a resgatar o investimento que fazem na "ajuda" e que não estão, obviamente, interessados em perder.
Porque não se fala claro?

sábado, 9 de abril de 2011

O IMPROVÁVEL COMPROMISSO

O Expresso de hoje faz-se eco do apelo de umas dezenas de personalidades para a construção de um compromisso em torno do interesse nacional. As personalidades, gosto imenso desta designação, solicitam que os partidos e as lideranças políticas se entendam em torno do interesse nacional e das graves dificuldades que enfrentamos.
É sempre importante o pensamento das personalidades e a expressão dos seus entendimentos mas certamente as personalidades saberão que estão a pedir o que no nosso país parece impossível, ou pelo menos tem sido, a colocação por parte dos partidos do interesse nacional acima da agenda dos seus interesses. Aliás, algumas das personalidades são ou têm sido actores nesta narrativa e, portanto, conhecem o interior do cenário político em que vivemos.
De facto, a partidocracia instalada nas últimas décadas leva a que, na generalidade das matérias, os interesses partidários se sobreponham aos interesses gerais, a conflitualidade que sendo importante e muitas vezes estimulante e promotora de mudança, é assente em corporações de interesses e clientelas que inibem a definição de rumos e de perspectivas que visem o interesse geral. Nos últimos tempos, já a enfrentar problemas mais graves têm sido muitos os exemplos do funcionamento da partidocracia, reparemos como os discursos continuam centrados nos dividendos político e eleitorais e menos no que parece ser o verdadeiro interesse do país, ou seja, da generalidade dos cidadãos.
Mesmo se por vezes emerge alguma retórica política com apelos aos entendimentos, estes, a acontecerem, correm o risco de sucumbirem atropelados pela natureza actual dos partidos, tal como a natureza do escorpião o condiciona na conhecida metáfora.
Gostava de poder ter um discurso mais optimista, mas muito provavelmente continuaremos a assistir à continuidade da deriva e do digladiar de interesses partidários, promovendo política pequena onde era imprescindível política grande.
Pode ser que as personalidades promovam o milagre.

UM HOMEM MAU, MESMO MAU

Era uma vez naquela terra onde acontecem coisas apareceu um homem que com o tempo se transformou num Homem Mau, mesmo mau e que todos temiam.
Roubava sempre que podia e a quem podia. Sempre que tinha oportunidade assaltava as pessoas e roubava-as. Mesmo aos miúdos que ainda não tinham grandes bens ou a alguns velhos que também já não os tinham, alguns nunca os tiveram, o Homem Mau, mesmo mau, não perdia oportunidade de os espoliar. Quem resistia melhor aos roubos do Homem Mau, mesmo mau, é sempre assim, eram aquelas pessoas que tinham mais bens e formas de se proteger, ainda assim o Homem Mau, mesmo mau, tentava as suas malfeitorias.
Curiosamente, de início quando começou a ser conhecido as pessoas, de uma forma geral, não vislumbravam como este homem viria ser tão ameaçador para as suas vidas, até o achavam interessante e interessado.
Só mesmo quando perceberam que o Homem Mau, lhes roubava os sonhos tomaram consciência de como era perigoso e mesmo mau.
Roubava sonhos ricos e sonhos pobres, quase sempre roubava os mais bonitos e a quem não tinha muitos. Como sabem, é mais fácil roubar os sonhos a quem não tem muitos.
Era, na verdade, um Homem Mau, mesmo mau. Só alguém assim rouba sonhos, um bem de primeira necessidade.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

PARECE QUE NÃO TEM A VER COM CRISE, MAS TEM

Continuamos a aguardar os desenvolvimentos que nos permitam perceber os termos em que os escuteiros do FMI e do FEEF nos vêm ajudar a atravessar a estrada embora já se saiba que uma das condições é que temos que ser amiguinhos, isto é, darmo-nos bem, ter bom comportamento e não andarmos sempre zangados e a dizer que os outros é que fazem as asneiras.
Entretanto, o país continua a andar meio perdido, à rasca e precisar desesperadamente de um GPS enquanto, simultaneamente acontecem coisas que, do meu ponto de vista, aprecem absolutamente delirantes e ajudam muito a perceber o estado a que chegámos.
Estava a ouvir despreocupadamente um jornal televisivo quando começo a ouvir uma notícia que de início nem estava a perceber muito bem mas que despertou a minha atenção. A administração do BPN, sim a quinta de Oliveira Costa and Friends que custará aos nossos bolsos qualquer coisa como 5 000 milhões de euros, decidiu que cerca de 300 carros ao serviço de muitos quadros do banco deveriam ser devolvidos. Estava a dirigir a informação quando percebi que os funcionários protestaram contra o “atentado aos seus direitos” e apresentaram uma inevitável providência cautelar para suspender a decisão. Em seguida ouvi um representante do Sindicato dos Bancários do Norte e um funcionário do BPN indignadíssimos com mais este cerrado ataque aos direitos adquiridos e constantes dos contratos de trabalho estabelecidos com o BPN.
Devo confessar que fiquei perplexo. Nas actuais circunstâncias, com tudo o que tem acontecido em torno do BPN que o estado entendeu apoiar com o nosso dinheiro em vez de deixar cair por ser uma fraude e um crime económico, com responsáveis conhecidos mas nunca condenados, aparece uma rapaziada a protestar porque lhes tiram o carrinho e conseguem falar disto sem um sobressalto e um pedido de desculpas ao cidadão que paga que impostos.
Somos um país de despudor, de cima até abaixo. É só uma questão de escala.

UM HOMEM CHAMADO SÓ

Era uma vez um homem que se chamava Só. Na verdade, chamavam-lhe Só, ninguém sabia o seu verdadeiro nome.
É que o Homem estava sempre só, por isso lhe chamarem o Só, mais respeitosamente alguns até o tratavam por Sr. Só.
Embora fosse pessoa de andar na rua a fazer a sua lida e cumprimentar simpaticamente com quem se cruzava nunca se detinha a conversar. às pessoas que se lhe dirigiam a oferecer companhia respondia delicadamente com "Muito obrigado mas tenho a minha gente à espera".
As pessoas estranhavam a resposta pois não se lhe conhecia companhia na casa onde habitava.
Mas o homem Só insistia sempre que tinha de regressar para junto da sua gente. Como seria de esperar face algo que não se entende, este tipo de comportamento fazia com que as pessoas que o conheciam achassem que o homem Só, era um bocado esquisito, ou, até, que pudesse ter algum problema de saúde mental e, por isso, com mais boa vontade ainda tentavam que convivesse um pouco. Tal atitude não teve o menor resultado, o homem Só continuava logo que podia a voltar "para a sua gente".
Na verdade, o homem Só tinha um segredo. Todos os dias escrevia histórias onde se encontrava com sua gente.
Nunca se sentia Só.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

UM SURTO EPIDÉMICO DE ÀRRASQUISMO

Em comunicado difundido há minutos a Organização Mundial de Saúde alerta para um fortíssimo surto de àrrasquismo que se desencadeou em Portugal e que afecta uma parte muito significativa da sua população. Este grave surto, já considerado de natureza epidémica, decorre, muito provavelmente, de uma mutação genética do vírus responsável pelo àrrasquismo na medida em que, contrariamente ao que é mais frequente, mesmo algumas franjas da população habitualmente imunes a tal quadro clínico aparecem fortemente contaminadas.
Os mais vulneráveis são os mais atingidos pelo actual surto pelo que velhos, jovens, desempregados, pequenos comerciantes e empresários e a maioria dos empregados com salários baixos e têm manifestado sintomas muito pesados e preocupantes de àrrasquismo.
Como a OMS sublinhou, a provável mutação genética do vírus tem levado a que grupos como os banqueiros, habitualmente com sistemas imunitários eficientes contra o àrrasquismo, estejam a ser atacados e clamem por apoio clínico com a maior das urgências.
A situação é de tal modo grave que as autoridades portuguesas decidiram proceder a um pedido formal de ajuda externa aos especialistas em àrrasquismo vindos dos organismos FEEF e FMI no sentido se desenvolver uma terapia de choque que combata eficazmente a epidemia.
Ao que parece e finalmente, boa parte da população que ainda não foi atacada pelo àrrasquismo está à rasca para sair do país mas, simultaneamente, à rasca em saber para onde, pois parece estar emergir uma pandemia que deixa poucas hipóteses de escolha.
Aguardam-se desenvolvimentos mas a situação parece grave e de prognóstico reservado.

A FORÇA DO AFECTO

Cenário – Corredor de uma instituição de ensino superior
Personagens – Jovem furiosa ao telemóvel sentada num banco e o escrevinhador que passa

Cena – No momento em que o escrevinhador passa, a jovem furiosa ao telemóvel quase que grita, “Não me interessa, sou a tua namorada. Combinaste uma hora tens que vir. Nem que tenhas que dar a volta ao mundo”. O escrevinhador, em movimento, já não ouviu mais.

O escrevinhador afasta-se impressionado com a força do afecto que tudo sustenta e a tudo obriga. Impressionado com a urgência de um encontro combinado e o vazio devastador de um atraso. Impressionado com a exigência ciclópica que um encontro pode conter traduzido na imensidão de “nem que tenhas que dar a volta ao mundo".
O escrevinhador ainda pensou que, às vezes, o afecto não resiste a tanta força. A esta força, uns chamam-lhe paixão, outros chamam-lhe posse.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

AJUDE COM QUALQUER COISINHA

Era assim que quando eu era miúdo os "pobrezinhos" (sempre o diminutivo que alivia consciências) nos interpelavam depois de bater à porta. É assim que os "pobrezinhos" hoje se dirigem na rua a quem passa. É assim que os banqueiros hoje se dirigem a quem é dono do mundo, perdão, do dinheiro.
A situação entrou em estado desesperado. Parece finalmente estabelecer-se um consenso sobre a situação clínica do país.
A coisa está mesmo complicada, a banca que se tem mantido saudável e resistente aos famosos "testes de stress" já vem também dizer que é melhor recorrer aos especialistas em situações terminais, uma entidade com profundos conhecimentos em matéria recuperação e cuidados intensivos. Essa entidade, também conhecida por FMI, é sustentada e animada pela vontade de servir uma outra nebulosa e difusa entidade conhecida vulgarmente por "mercados" que, quando começam mesmo ficar aflitos, nervosos, irritados, desconfiados entre outras coisas, se agitam e solicitam as receitas que entendem como necessárias para recuperarem o seu bem-estar.
Se por acaso o bem-estar dos mercados coincide com o bem-estar das pessoas, bom, isso é uma minudência completamente irrelevante. Como é óbvio a economia mundial, ler os mercados, não se podem ater a pequenos problemas de natureza pessoal como a pobreza ou o desemprego. Como há semanas Ricardo Salgado, um representante dessa entidade, os mercados, afirmava, os mercados não têm moral. Claro, há muito que damos por isso.
Com o país à beira de entrar num estado terminal e esperando a tentativa de reanimação a cargo dos especialistas do FMI ou de outros funcionários dos mercados, não será por acaso que a imprensa noticia hoje que Portugal é um dos países da Europa com maior consumo de antibióticos. Pudera, estamos mesmo mal.

HÁ TESTE AMANHÃ - Outro diálogo improvável

Tenho que ir estudar um bocado, amanhã há teste de Matemática.
Pois há, eu acho que não vou estudar nada.
Mas assim não ficas preparado.
Não me interessa. Vou ter negativa na mesma.
Como é que sabes? Se tiveres positiva no teste a Setora pode dar-te positiva no período.
Não dá. Não a ouves estar sempre a dizer-me que eu vou chumbar, que não sei as coisas e que não acredita que eu seja capaz de passar.
É verdade, já ouvi. Se calhar diz isso para ver se tu estudas.
Ela acha que eu sou mau aluno e que já estou arrumado. Logo no primeiro período disse-me isso.
Eu percebo, mas se calhar era melhor tentares.
Ninguém acredita que eu estudo nem acreditam que eu seja capaz. O meu pai passa o tempo a dizer que a minha irmã é que é boa aluna e que eu devia ser como ela.
A tua irmã é boa aluna mas tu és fixe.
Mas ser fixe não serve para ter notas boas. Se os outros acham que não somos capazes já não consegues porque estão sempre a achar que não sabes. A Setora diz a mesma coisa à Ana e vê lá se ela consegue ter notas melhores, e eu sei que ela estuda e até tem explicações, ela mora no meu prédio. Achas que a Ana não é esperta?
Não, a Ana também é fixe e é muito boa em música, toca bué da bem guitarra.
Então porque é que a Setora de matemática está sempre a dizer que ela e eu não somos capazes de passar? É porque acha mesmo.
Pois, isso é verdade.
Estás a ver. Não vou estudar para o teste de amanhã e a Setora vai achar, como sempre, que eu não sou capaz. Não adianta.

terça-feira, 5 de abril de 2011

UM PAÍS À BEIRA DO APAGÃO

O apagão voltou a entrar na agenda depois da inenarrável, delinquente e ridícula decisão de apagar a luz do estádio do meu glorioso após o jogo que marcou a entrega do título.
No entanto, temo que tenhamos que continuar a utilizar o termo em circunstâncias bem mais complicadas e estranhas, o apagão do país.
Devo dizer que cada vez mais tenho dificuldade em entender os discursos e comportamentos das lideranças políticas e económicas nos dias que vão correndo. Como o povo costuma dizer, cada cavadela, cada minhoca. Sempre que alguém, do governo, da oposição, do mundo económico, etc. os discursos são invariavelmente dirigidos aos seus interesses imediatos, ao cálculo sobre o rendimento político ou em espécie que daí possam advir e menos dirigidos aos problemas das pessoas e como encará-los com um mínimo de apoio e confiança.
A grande preocupação é com os mercados, a confiança dos mercados, a dívida, o défice, etc. É óbvio que tudo isto é fundamental mas e a confiança das pessoas, as dívidas e a sobrevivência das pessoas, e o défice de ética e valores sociais? Apagam-se?
Estamos à espera que o país entre em implosão, se apague e que das cinzas e do nevoeiro surja um redentor que anuncie um mundo novo? Já não existem amanhãs que cantem.
Será que é mesmo impossível criar uma plataforma que restaure um mínimo de confiança na nossa capacidade de levar a vida, a nossa vida, a um patamar melhor?
Quero acreditar que sim, que é possível, talvez com um outro sobressalto cívico que obrigasse a partidocracia à reflexão sobre modelos esgotados.
A continuarmos assim só faltará saber que irá desligar o interruptor e apagar o país. Acho que ainda estamos a tempo de o evitar. Resta saber se queremos, ou merecemos.

A HISTÓRIA DO COLECCIONADOR

Era uma vez um Rapaz que era coleccionador. Nada de estranho, como sabem a partir de uma certa idade os rapazes gostam de coleccionar as mais variadas coisas.
No entanto, o Rapaz fazia uma colecção que não era muito habitual embora outros rapazes também se dedicassem à mesma colecção.
O Rapaz nem se lembrava muito bem quando e porquê a tinha começado. Quando se deu conta já tinha vários exemplares.
Como não havia muita gente a fazer a mesma colecção não era muito fácil encontrar forma de a aumentar pelo que o Rapaz tinha se esforçar. No entanto, como é normal nas colecções, ganha-se uma vontade e um empenho que fazem com que cada vez mais queiramos que elas aumentem. O Rapaz também era assim com a sua colecção. Todos os dias tinha que lhe acrescentar algo.
O Rapaz com o seu espírito de coleccionador não deixava de aproveitar todas as oportunidades para que a colecção ficasse maior. Curiosamente era na escola que o Rapaz mais conseguia ter sucesso nesta tentativa de fazer uma colecção grande. É verdade que com alguma frequência tinha ajuda dos rapazes que também faziam a mesma colecção, juntavam-se para que todos beneficiassem.
O Rapaz coleccionava sarilhos e tinha bastante orgulho no espólio que já carregava no seu álbum de coleccionador.
Tinha sarilhos para todos os gostos e de todos os tipos. Mas de todos os sarilhos que tinha na sua colecção os que mais satisfação lhe davam era os que arranjava com professores. Eram famosos na escola e o Rapaz, claro, sentia-se muito bem. Ninguém que ele conhecesse tinha conseguido uma tal colecção de sarilhos.
Nada de novo, todos os coleccionadores gostam das suas colecções.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

VIDEOJOGOS E OUTROS ECRÃS

Em conferência hoje realizada no ISCTE, o Professor Bruce D. Bartholow alertou para os efeitos que a exposição intensa, o consumo, dos adolescentes aos videojogos, pode assumir, designadamente potenciando a tolerância à violência. Estamos evidentemente a falar de alguns videojogos.
Há algum tempo, já em 2009, abordei essa questão a propósito de um relatório da União Europeia elaborado pelo Comité do Mercado Interno e de Protecção do Consumidor do Parlamento Europeu, sob a coordenação de Toine Manders, em que se afirmava, curiosamente, que os resultados “contradizem muitos estudos que sublinham a dependência e a violência que os videojogos podem provocar nos mais pequenos, deixando alguns pais mais tranquilos” e, citando o próprio relatório, os videojogos estimulam “a aprendizagem de factos e habilidades como a reflexão estratégica, a criatividade, a cooperação e o sentido de inovação”. O relatório também referia que alguns videojogos podem não ser apropriados. Sobre este relatório na altura escrevi, "Vamos ser sérios, não conheço ninguém, especialista ou não, que diga que os videojogos fazem mal, conheço muita gente, eu próprio, que se inquieta com a falta de qualidade, com os conteúdos violentos e desadequados às crianças de muitos destes produtos que lhes estão acessíveis. Muitos de nós, especialistas ou não, inquietam-nos com o tempo excessivo que muitas crianças e adolescentes passam sós, agarradas a um ecrã, numa espécie de teledependência pouco positiva. Esta preocupação não tem nada a ver com um entendimento definitivo de que os videojogos fazem mal. Existem excelentes videojogos que, naturalmente, serão úteis e positivos na vida dos miúdos, mas não se afirme que os videojogos fazem bem às crianças. É um mau serviço prestado aos miúdos e aos pais".
É nesta perspectiva que devem ser entendidas as questões levantadas por Bartholow. Creio ainda que é bom sublinhar algo também abordado, o impacto na qualidade vida dos adolescentes.
Segundo alguns estudos, perto de 50% das criança até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel. Acontece que durante o período de sono e sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida.
Comer faz bem às crianças, mas comer excessivamente e produtos de má qualidade, provoca sérios problemas de saúde. Que se eduque o consumo, sem se diabolizar ou exaltar disparatadamente o produto.
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais, eles próprios com níveis baixos de alfabetização informática. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais de forma a que a utilização imprescindível seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.

UM AMBIENTE IRRESPIRÁVEL

Num dos raros dias limpos e cheios de sol que nos últimos tempos nos tem sido oferecidos, a minha disposição deveria ter sido, para utilizar a terminologia em moda, revista em alta, mas não.
O meu glorioso perdeu o campeonato em casa e consegue ainda associar-se a um degradante espectáculo de apagar as luzes do estádio logo a seguir ao jogo e à turbulência ocorrida antes do jogo com agressões e detenções. O que se passa em torno de algo normalíssimo, a rivalidade entre clubes de futebol, assume contornos cada vez mais graves com declarações absolutamente irresponsáveis e criminosas dos responsáveis clubistas. Ataques a espaços dos clubes, vandalismo na estrada, ataques e insultos a pessoas são a regra. Quando, esperemos que não, algo de mais grave suceder virão todos com a hipocrisia do costume livrar-se de responsabilidades e assumir o papel de vítimas. Triste espectáculo.
No entanto, e certamente não por acaso, os discursos políticos também não contribuem para a rever a disposição em alta, são noutro estilo, semelhantes aos do futebol. Continuam centrados nos ataques recíprocos, dirigidos para o que pode constituir-se como dividendo eleitoral, no enjeitar de responsabilidades, na incapacidade de perceber que o país se afunda e que seria necessário, mais do que nos últimos tempos alguma vez foi, que se pensasse em política grande e não em política pequena.
A questão, tal como no dirigismo desportivo a que me referia acima, é que os protagonistas em acção são parte do problema, não serão parte da solução.
Está um ambiente irrespirável.

HÁ GENTE COM FOME, MESMO COM FOME

Quando a iniciativa de distribuir a famílias carenciadas as sobras dos estabelecimentos de restauração começou a ser falada há uns meses atrás escrevia aqui que, considerando as enormes dificuldades que muitas pessoas atravessam constitui quase um crime o desperdício de comida confeccionada que vai diariamente parar ao lixo onde, cada vez mais frequentemente, é "recuperada" por pessoas sem alternativas. É de sublinhar que estamos a falar de sobras e não de restos.
Referia-se na altura que muitos restaurantes, num bom exemplo de responsabilidade social, estariam na disposição de providenciar essas sobras a instituições de solidariedade social mas que estavam impedidas de o fazer devido às restrições legais nas condições de transporte e distribuição de alimentos fiscalizadas pela ASAE e entendem, com alguma razão não ser seu dever providenciar também o transporte já que dão a comida confeccionada.
Finalmente, parece que a Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, autarquias e instituições de solidariedade social, salvaguardando as questões de saúde, surgem envolvidas na criação de uma rede que suporte e operacionalize o aproveitamento e a distribuição por quem necessita das sobras de alimentos confeccionados. Iniciam-se hoje em Santa Maria da Feira, Entroncamento e Lisboa as primeiras experiências no âmbito desta campanha. É bom mas é curto.
Não simpatizo particularmente com a ideia de "caridade para com os mais pobres" mas entendo que o combate ao desperdício é um imperativo, tanto mais, considerando os tempos difíceis que atingem milhares de famílias.
Pode também acontecer, sou um optimista, que estes tempos e iniciativas desta natureza possam contribuir para um refrescamento dos padrões éticos e do sistema de valores das nossa comunidades.
Não é que os sinais sejam particularmente animadores, mas como diz o Velho Zé Marrafa lá no meu Alentejo, "Deixe lá ver".

PROIBIDAS AS CRIANÇAS, A SEGUIR PROÍBE-SE ...

A propósito da anunciada intenção da Ryanair de promover voos em que são proibidas crianças a bordo o DN de sábado tratava a questão referindo a existência de unidades hoteleiras ou de restauração que têm essa interessante atitude de proibir a entrada a crianças.
Há uns tempos, o conhecido tudólogo Miguel Sousa Tavares também sustentou que as crianças nos restaurantes podiam ser tão incomodativas como o fumo dos seus cigarros.
Estas posições parecem-me interessantes. É de notar que logo surgem apoiantes e existe certamente um nicho de mercado, já identificado pela Ryanair que quer viver longe das crianças estando, por isso, disposto até a pagar um pouco mais só para não correr o risco de levar com uns putos mal-educados a estragar a viagem ou a refeição. Não cheguei a perceber se as crianças poderiam, apesar de tudo, viajar em condições especiais com os animais de companhia.
Com é evidente todos temos histórias destas, não é uma experiência de que se goste ter como companhia de viagem ou de refeição miúdos que se comportam como ditadores, miúdos desregulados no comportamento e muitas vezes acompanhados dos respectivas papás que por incompetência ou negligência são incapazes de manter os miúdos tranquilos. Como é óbvio, temos o direito à tranquilidade.
Só que a questão é a natureza da educação que os miúdos têm e não a proibição da sua presença, os miúdos não são todos assim.
Existem muitos adultos que me incomodam e não vejo como proibir a presença de adultos a bordo dos voos da Ryanair ou noutro qualquer espaço. Um dia destes pode pensar-se em proibir a presença de velhos, são chatos, sempre a contar histórias, as mesmas histórias. Também pode proibir-se a presença de gente obesa, torna o espaço mais apertado para as outras pessoas. Também se poderia proibir a presença de profissionais da política, incomodam demasiada gente. Não têm limite os exemplos que poderemos antecipar.
Este tipo de discurso mostra, também, de que são feitos alguns dos tempos que vivemos, putos desregulados, a crescer sem regras e gente intolerante, a criar guetos sucessivos e cada vez mais exclusivos.
Vão acabar sós.

domingo, 3 de abril de 2011

CRESCER DE SHOT EM SHOT

O Público de hoje retoma a questão do consumo de álcool entre os mais novos fazendo uma elucidativa viagem à versão portuguesa do "botellon" espanhol, o consumo na rua. O consumo de álcool tem vindo a crescer alterando-se também os padrões de consumo, beber na rua (é bastante mais barato, e o consumo excessivo e rápido (binge drinking). João Goulão, presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência refere que em termos de padrões de consumo, a embriaguez parece deixar de ser uma consequência do consumo excessivo para passar a ser um objectivo em sim mesmo. Este padrão tem vindo a ser sublinhado por diferentes estudos sobre os hábitos dos adolescentes e jovens portugueses, cerca de 80% dos jovens com 15 anos consomem álcool segundo um trabalho da Unidade de Alcoologia de Coimbra do IDT e em 2007, 56% dos jovens com 16 anos inquiridos referiram este tipo de consumos enquanto que em 2003 o indicador era de 25%.
Este quadro e, sobretudo, o significado dos seus potenciais efeitos, merece alguma reflexão, sobretudo no que respeita à facilidade de consumo e aquisição e aos estilos de vida, questão que é, aliás, abordada no trabalho jornalístico.
Uma primeira nota é o facto de os adolescentes poderem facilmente comprar cerveja e outras bebidas, as litrosas ou os shots, como lhes chamam, no comércio mais habitual, lojas de conveniência ou pequenos estabelecimentos de bairro, a um preço bem mais acessível que nos estabelecimentos que frequentam na noite e recorrendo à “toma” simples ou com misturas ao longo da noite, comprida aliás. O consumo em quantidade e em grupos, sobretudo ao fim-de-semana, é muitas vezes entendido e sentido como o factor de pertença ao grupo, potenciando a escalada do consumo, juntos bebemos mais do que sós, como é óbvio e o estado que se atinge é sentido como um "facilitador" relacional. Por outro lado, a venda processa-se com a maior das facilidades e sem qualquer controlo da idade dos compradores. Muitos adolescentes, ouvidos em estudos nesta matéria, referem ainda a ausência de regulação dos pais sobre os gastos, sobre os consumos ou sobre as horas de entrada em casa, que muitas vezes tem que ser discreta e directa ao quarto devido ao “mau estado” do protagonista.
Como é evidente, já muitas vezes aqui o tenho referido com base na minha experiência de contacto com pais de adolescentes, não estamos a falar de pais negligentes. Pode haver alguma negligência mas, na maioria dos casos, trata-se de pais, que sabem o que se passa, “apenas fingem” não perceber desejando que o tempo “cure” porque se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e como lidar com a questão. De fora parece fácil produzir discursos sobre soluções, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é muitas vezes sentida como maior que eles.
É preciso que a comunidade esteja atenta a estes adolescentes de 13 ou 14 anos que, ilegalmente” compram as litrosas e acedem aos shots e aos seus pais que estão tão perdidos quanto eles.
Fala-se com frequência em alterar a legislação no sentido de apenas permitir o consumo aos 18 anos. No entanto, parece-me mais importante a adequada fiscalização e a criação de programas destinados a pais e aos adolescentes que minimizem o risco do consumo excessivo.
A proibição, como sempre, não basta.

sábado, 2 de abril de 2011

PRECÁRIA DE VIDA

Numa trajectória cívica interessante e que parece poder continuar a desenvolver-se fora da tutela da partidocracia, a sua grande virtude, para além da óbvia importância da lutar pelos seus projectos de vida, o movimento que sustentou a manifestação de 12 de Março está a tentar desencadear uma iniciativa no sentido de levar à Assembleia da República uma proposta legislativa que combata a precariedade das relações laborais.
Do meu ponto de vista, parece-me algo de importante, novo e oportuno pois da agenda dos chamados partidos do arco do poder, os que previsivelmente, ditarão as decisões políticas nos próximos tempos, consta a maior flexibilização das relações laborais o que, naturalmente, é coerente com os ventos neo-liberais e o endeusamento do mercado que tudo permite, incluindo roubar a dignidade às pessoas e promover exclusão.
Parece, aliás, oportuno lembrar alguns dados.
A precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Tal quadro de relações laborais, que algumas lideranças políticas querem tornar ainda mais flexíveis, como referi acima, não afecta exclusivamente os jovens, embora quem esteja a entrar no mercado de trabalho se encontre, obviamente, em situação mais vulnerável.
Também merece atenção que de acordo com o INE, dados recentes, 314 000 jovens não estudam nem trabalham, a conhecida fórmula “nem, nem”. Este número, atendendo à dimensão do país é absolutamente dramático. Além disso, a OCDE divulgou há tempos que mais de metade dos jovens empregados até aos 24 anos têm empregos precários. Na mesma linha, também há algum tempo, o Banco de Portugal referia que em cada dez empregos novos, nove são precários.
Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem, obviamente, sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão, os indicadores mostram-no, o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por sua vez se repercutem no inverno demográfico que atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais, a União Europeia já indicia a intenção de colocar a reforma nos 70 anos.
No entanto, um efeito muito significativo mas menos tangível desta precariedade no emprego, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à própria vida no seu todo. Dito de outra maneira, pode instalar-se, melhor, podemos correr o risco de ver instalar-se, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não vislumbra saída motivadora e que recompense. Podemos estar perante as gerações perdidas de que há algum tempo se falava.
Aí ficaremos, todos, bastante mais à rasca.

NÃO TEM NADA QUE ENGANAR

Uma das expressões que correntemente se utilizam entre nós é "não tem nada que enganar".
É utilizada em variadíssimas situações. Temos uma dúvida sobre qual a direcção a seguir e rapidamente alguém solícita e assertivamente nos diz "não tem dada que enganar, é por ali".
Temos um monte de dúvidas sobre a forma de resolver um qualquer problema e logo nos propõem a solução, "não tem nada que enganar, resolve-se assim".
Qualquer dúvida que tenhamos sobre a forma como interpretar ou lidar com uma situação de natureza bem diferenciada é imediatamente esmagada por um "não tem nada que enganar, é assim".
Lembrei-me desta expressão ao sofrer a chuva de comentários produzidos por toda a espécie de comentadores que nos empapam os dias com os seus postulados que magicamente resolvem os nossos problemas, todos os problemas.
Não tem nada que enganar, dizem todos e produz cada um a sua certeza, mesmo que se contradigam pouco tempo depois.
É um cansaço, aguentar tantas soluções inquestionáveis, miraculosas e, sempre, extraordinariamente inteligentes. Tanto que às vezes alguns de nós, eu por exemplo, nem consigo acompanhar tal genialidade.
Não tem nada que enganar, boa parte desta gente devia calar-se durante uns tempos e ouvir os que menos falam. São, naturalmente, os que mais têm para dizer. Não tem nada que enganar.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A FECUNDIDADE REVISTA EM BAIXA

Segundo dados do Eurostat hoje divulgados, as mulheres portuguesas têm uma das mais baixas taxas de fecundidade da Europa comprometendo a renovação geracional, potenciando o envelhecimento populacional e o desequilíbrio demográfico. Contrariamente ao que se verifica noutros países que têm as respectivas taxas a subir, em Portugal o declínio a partir de 2003 tem sido constante.
Creio que a estes dados será interessante acrescentar que trabalhos recentes evidenciam que as mulheres portuguesas são de entre as europeias as que mais valorizam a carreira profissional e a família, a maternidade. Também é sabido de outros estudos que as mulheres portuguesas são das que mais tempo trabalham fora de casa.
Como parece claro este cenário, menos filhos quando se desejava fortemente compatibilizar maternidade e carreira, exige, já o tenho referido, a urgência do repensar das políticas de apoio à família. Os salários baixos são uma das razões que “obrigam” a que as famílias revejam em baixa, como agora se diz, os projectos relativos a filhos. Por outro lado, Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que, naturalmente, é mais um obstáculo para projectos de vida que envolvam filhos.
Não pode ainda esquecer-se a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc.
Toda esta situação torna urgente a definição de políticas de apoio à família com impactos a curto e médio prazo como, por exemplo, a acessibilidade aos equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida. Combater a discriminação salarial e de condições de trabalho através de qualificação e fiscalização adequadas.
Só com uma abordagem global e multi-direccionada me parece possível promover a recuperação demográfica indispensável.

OS DIAS DAS MENTIRAS

Como acontece com quase tudo o que está no nosso mundo, as mentiras também têm o seu dia, o 1 de Abril. Lembro-me que ainda miúdo o dia 1 de Abril era aguardado com alguma excitação. Numa rígida matriz judaico-cristã em que a ideia do pecado desempenha um papel essencial, ter uma dia em que se pode pecar, mentir, era algo de estimulante. Esmerávamo-nos na tentativa de criar a melhor das mentiras.
A imprensa tinha, tem ainda, o hábito de colocar uma mentira e ficaram célebres algumas das que ao longo dos anos fizeram primeiras páginas de jornais ou abertura de noticiários televisivos.
Actualmente, com mais ou menos criatividade, ainda podemos ver algumas dessas ingénuas tentativas de criar uma mentira que sublinhe o Dia das Mentiras.
O problema grande é que nos tempos que atravessamos não temos O Dia das Mentiras. Numa espécie de concorrência desleal vivemos nos dias das mentiras.
Os padrões éticos da nossa vida política, económica e social baixaram e a mentira, as mentiras, são regra, deixaram de ser excepção.
Mente-se para alimentar relações laborais precárias e lesivas dos direitos das pessoas a projectos de vida viáveis e positivos. Mente-se para proteger agendas pessoais ou interesses corporativos. Mente-se para manipular ou alimentar clientelas que sirvam de patamar para o poder, os poderes, pequenos ou grandes e de natureza diferenciada.
Mente-se para fazer ou pedir um “jeitinho”. Mente-se para legitimar decisões incompreensíveis. Mente-se para vender ilusões ou promessas. São mentiras demais.
Um dia destes, alguém se lembrará de instituir um Dia da Verdade. Nessa altura vamos ver como reagimos à verdade a que já não estamos habituados.

A HISTÓRIA DO ALUNO AGITADO

Um dia destes, a Professora Isabel cruzou-se à saída da escola com o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros.
Ainda bem que te encontro Velho, preciso de um conselho.
Esse é um dos problemas dos Velhos, as pessoas estão sempre à espera que os Velhos tenham conselhos.
A sério, tenho lá um miúdo, o Fábio, acho que conheces.
Sim sei, é um miúdo que anda sempre a correr.
Esse mesmo Velho, e é até por isso que e sou inquieta, ele é um miúdo que de facto se mexe e corre embora não ache que faça muito mais que os outros da idade dele. A questão é que os pais vieram falar comigo porque temem que o Fábio seja hiperactivo e querem levá-lo a uma consulta, que achas que diga.
Já tenho muitas vezes conversado sobre isso, parece que estamos a mudar as ideias sobre os miúdos. Cada vez mais se acha que qualquer miúdo tem qualquer coisa, às vezes até digo que só temos os dis-miúdos, todos têm uma dis-função qualquer, quase que já não se encontram miúdos normais, saudáveis. Então no que respeita à chamada hiperactividade é mesmo assustadora a facilidade com que lhes colocam “rótulos” de hiperactivos. Existem naturalmente miúdos que podem ter problemas desta natureza mas é impossível existirem tantos como os que são referenciados e, pior, medicados como tal. Muitos deles, tal como o Fábio, miúdo que conheço bem, são miúdos “em movimento”, miúdos cujos estilos de vida e contexto familiar lhes induzem essa agitação e eles acabam por ficar como aqueles relógios automáticos que precisam de andar no pulso, andar agitados, para funcionar. Esses miúdos já não são capazes de abrandar, “vivem” da agitação.
Acho que precisavam de ambientes mais tranquilos, mais calmos, com menos ruído e caos, com menos pressa e eles certamente sentir-se-iam menos agitados, mais regulados. Experimenta falar com os pais no sentido deles próprios não se sentirem tão agitados e inquietos. Com alguma frequência a hiperactividade “pega-se” aos miúdos, muitas vezes pelos pais, apesar das suas boas intenções.
Acho que percebo, de facto nós todos passamos a vida a correr. A propósito, já estou atrasada, tenho que me apressar para poder passar pelo ginásio antes do jantar.
Pois.