terça-feira, 4 de maio de 2021

DO "FALHANÇO" DO ENSINO A DISTÂNCIA

 O Público divulga um trabalho da Universidade do Minho sobre o chamado ensino a distância realizado em Janeiro deste ano considerando, portanto, o primeiro período de confinamento em 19/20.

Foram inquiridos 280 docentes e entre vários outros dados que merecem atenção, 80% entende que se verificou uma redução efectiva no nível das aprendizagens sendo que 70.3% afirma que os alunos abrangidos pelas medidas definidas no regime jurídico para educação inclusiva sofreram maior impacto.

Nada de novo, desde o início do primeiro desconfinamento que muitas vezes aqui tenho referido questões desta natureza, os impactos do ensino não presencial.

Talvez por isso, me sinta à vontade pars umas notas breves sobre algo que me parece desajustado, a referência ao falhanço do “ensino a distância”.

Em primeiro lugar não devemos falar de ensino a distância, mas sim em ensino não presencial com apoio de recursos digitais.

Importa recordar que em Março de 2020 é decidido o encerramento das escolas e, praticamente, num fim-de-semana, escolas e professores realizaram um esforço gigantesco para manter mais de um milhão de alunos ligados às suas escolas e professores.

Sabe-se dos inúmeros constrangimentos ao nível de recursos, nas famílias e nas escolas, na formação, das condições de desigualdade nos contextos familiares considerando espaços, equipamentos, disponibilidade, literacia digital, etc.

Foi reconhecido que alunos em situações mais vulneráveis sofreram maior impacto dos constrangimentos verificados, sempre assim é e assim será.

Apesar deste cenário começa aqui o que me parece ser o verdadeiro falhanço, a crença mágica de que o “ensino a distância” seria o “novo paradigma”, o novo ensino.

Perto do final do ano lectivo passado foi anunciado que em Setembro de 2020 todos os alunos teriam portátil e kit de acesso a dados, assim com as escolas teriam o seu parque informático actualizado.

Como se sabe nada disto aconteceu, ainda hoje não chegaram às escolas e aos alunos os equipamentos necessários e aqui sim, temos um falhanço, independentemente das razões apresentadas, resposta dos mercados, por exemplo, que, talvez, se minimizassem com encomendas atempadas.

Acontece que em Janeiro de 2021 o ensino voltou ao modo não presencial, não ao “ensino a distância”. Apesar da experiência do ano anterior que escolas e professores acumularam, da formação que muitos docentes obtiveram, de alguma evolução nos recursos e equipamentos, as vulnerabilidades de muitos alunos e contextos continuaram de forma muito significativa pelo que, de novo, emerge a conclusão dos impactos nas aprendizagens.

Com dois confinamentos na mochila surge então um discurso, algumas vezes assustador, incluindo do Ministro da Educação, sobre a “geração perdida”, perdas irreversíveis e levantam-se ideias, algumas delas, estranhíssimas sobre a “recuperação das aprendizagens”, objectivo que aliás, já vinha do início do ano lectivo devido ao primeiro confinamento.

Entretanto, ainda aguardamos o Plano de Recuperação em preparação por um grupo de especialistas. Esperemos pelo Plano embora me parecesse mais adequado que a grande aposta fosse em planos das escolas, são quem conhece os alunos e o “estado da arte” das suas aprendizagens e que estas fossem dotadas dos recursos necessários e competentes.

Em síntese, sublinhar o “falhanço” do ensino a distância parece-me um olhar enviesado. Globalmente, não tivemos ensino a distância apesar de muito boas experiências. Existiram sim, constrangimentos emergentes das desigualdades sociais, falhanços nas respostas ao nível do planeamento, dos equipamentos e apoios às escolas, professores, alunos e famílias.

Como já disse, o que me parece que falhou claramente foi a ideia que a certa altura se instalou de que tínhamos chegado ao futuro através do ensino não presencial, do novo paradigma digital, sobretudo quando consideramos os primeiros anos de escolaridade.

Não, que se dotem as escolas, os professores e os alunos dos melhores recursos digitais e das competências para a sua utilização a partir do espaço de onde ainda emerge a escola, a sala de aula, com alunos e professores próximos.

PS - Foi actualizada a promessa de dotar todos os alunos e professores com cumputadores. Passou de Setembro de 2020 para o final de 2022, um ligeiro atraso. Ao que parece, o tiro de pressão de ar não funcionou pelo que será necessário aguardar por um tiro de "bazuca". Bom, vamos esperar.

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