domingo, 6 de junho de 2010

EDUCAÇÃO ESPECIAL, ELEGIBILIDADE E CIF; ALGUMAS NOTAS SOLTAS

O trabalho de hoje do Público obriga-me a retornar à questão da utilização da CIF - Classificação Internacional de Funcionalidade para determinar a elegibilidade para apoio educativo especializado. Algumas notas de textos aqui colocados em que abordei esta matéria.
Em 02/04/2009 dizia, "O trabalho de monitorização da aplicação do DL 3/2008 utiliza como referência para a existência de problemas 1.8% (até 2.2%). Conheço circunstâncias em que a linguagem utilizada foi “limpeza” na lista de apoios ou em que os nomes dos meninos foram pura e simplesmente riscados. Estes indicadores são, obviamente, incompatíveis com a realidade. Apenas no mundo virtual do Dr. Lemos estes números têm credibilidade.
O Dr. Lemos deveria saber que, mesmo quando existe alguma legislação ao abrigo da qual se apoiam crianças, não é a legislação que as apoia, é a existência de professores e técnicos competentes e em número suficiente que as pode ajudar. Tal situação não se verifica."
Em 21/01/2009 afirmei, "Mas também interessante é organização da avaliação externa anunciada. O dispositivo de avaliação da utilização da CIF é da responsabilidade do Professor Rune Simeonsson, o autor da … adivinharam, da CIF. Que avaliação resultará? Um doce a quem acertar. A coordenação da avaliação é da responsabilidade da Professora Manuela Sanches Ferreira que num Congresso Internacional sobre Funcionalidade Humana realizado em Lisboa, em Novembro de 2008, apresentou uma comunicação intitulada “A CIF como novo paradigma de intervenção e avaliação” integrado num painel sobre a temática educação. Adivinhem qual será o resultado da “avaliação” da utilização da CIF em educação? Mais um doce a quem acertar (vou esgotar os doces). Não quero duvidar da integridade ética e científica das pessoas em causa, mas dos critérios de escolha do ME, esses sim, de duvidosa integridade.
O Dr. Lemos deveria saber que não é sério entregar um estudo sobre o impacto da CIF aos seus autores e seguidores tal como anunciou há algum tempo. Não precisa de divulgar resultados, já se antecipam."
Mais recentemente, em 16/02/2010 escrevi, "Sobretudo desde a entrada em vigor de uma criminosa e incompetente legislação, o DL 3/2008, que retomou a questão da elegibilidade, (como se uma criança com dificuldades possa não ser elegível para ter qualquer forma de apoio), era previsível a situação agora descrita. Por decisão de um delinquente ético, Valter Lemos, de 50 000 crianças apoiadas passámos, através da criminosa utilização do conceito de elegibilidade, para 34 000 o que corresponde a 2.85% do universo dos alunos. As orientações do Dr. Lemos, ainda não se conhece o pensamento da actual equipa sobre esta questão, iam no sentido de apoiar apenas 1,8% dos alunos pelo que será de esperar ainda menos alunos em apoio. Sabe-se que internacionalmente se aceita que existirão entre 8 e 12% de alunos com necessidades educativas especiais mas o Dr. Lemos entendeu que em Portugal, porque ele assim decretava, só teríamos cerca de 1,8%. O resultado que sempre denunciámos é este, milhares de crianças com necessidades e sem apoios."
Em 28/02/2010 escrevi, "Acresce a esta situação o cenário hoje referido no Público, bem conhecido por quem conhece as escolas, insuficiência de recursos, a falta de formação de muitos dos profissionais que desempenham funções no âmbito do poio educativo, inadequação da rede das escolas de referência. Agora aguardamos o que dirá a nova equipa do ME sobre esta realidade esperando que não seja mais um mero ajuste como se vislumbra na reorganização curricular."
Hoje, apenas me parece de sublinhar que a generalidade dos resultados encontrados pelo trabalho orientado pelo Professor L. Miranda Correia vão ao encontro de outros trabalhos realizados em Lisboa e nos quais estive envolvido.
No entanto, continuo à espera do que a actual equipa do ME possa dizer sobre esta matéria e, apesar das reservas manifestadas por questões de princípio, dos resultados da avaliação "oficial".

O PODER DA PARTIDOCRACIA

Fernando Nobre afirma desde que assumiu a candidatura presidencial, que a sua marca distintiva dos outros candidatos é o não fazer parte do sistema, entenda-se da partidocracia instalada no país nas últimas décadas. Do ponto de vista formal assim é, mas em termos pragmáticos esta circunstância que o Dr. Fernando Nobre e muita gente, eu por exemplo, vêem como uma potencial vantagem será, não temos grandes dúvidas, o seu maior obstáculo.
O sistema político de que fala Fernando Nobre alimenta-se e sobrevive impedindo, legal e informalmente, a emergência de intervenção cívica significativa fora da tutela dos aparelhos partidários, veja-se o sobressalto causado pela candidatura de Manuel Alegre nas últimas eleições e como agora já está devidamente enquadrado pelos aparelhos partidários, para já do PS e do BE e, caso participe na segunda volta, contará ainda com o PC.
Não quer isto dizer que não veja sentido e potencial político na candidatura de Fernando Nobre que, enquanto presidente da AMI é, seguramente, uma das figuras mais estimadas e apreciadas pelos portugueses que o conhecem, mas que enquanto cidadão candidato à presidência levanta uma nuvem significativa de anticorpos. Pelo contrário, creio que esta candidatura pode, sobretudo considerando a fase difícil que atravessamos, contribuir decisivamente para que se possam abanar os pilares da partidocracia, para que os cidadãos cansados duma luta política que coloca os interesses partidários acima do bem comum possam afirmar uma vontade e um empenho de mudança que, a desencadear-se, já dará sentido, um enorme sentido à candidatura de Fernando Nobre.
Quanto à cadeira presidencial do Palácio de Belém, meu caro Fernando Nobre, ela não está ao seu alcance.

sábado, 5 de junho de 2010

E PORQUE NÃO RETIRAR AS FAMÍLIAS?

O relatório anual da Avaliação das Actividade das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, hoje divulgado, evidencia que em 2009 se atingiu o maior número de sempre de processos desencadeados, 66896, sendo que os casos de negligência, exposição a comportamentos inadequados, maus tratos psicológicos e emocionais, absentismo escolar e abusos são os casos com maior prevalência. Surgem ainda dois dados particularmente significativos. O primeiro é o facto de cerca de 20% dos casos envolverem crianças estrangeiras. Este número é de facto significativo da qualidade de vida das crianças em famílias estrangeiras, tanto mais quando sabemos que os estrangeiros são cerca de 4% da população residente o que sobredimensiona o número de crianças em risco nestas famílias.
O outro dado é o facto de ter sido retiradas às famílias 2724 crianças contra as 701 em 2008. Este número dá qualquer coisa como sete crianças retiradas às suas famílias em dia do ano.
É evidente que esta medida, a mais pesada, tem que ser aplicada em nome do bem-estar e da protecção da criança, mas deixa-me sempre algo incomodado.
Na sua grande maioria, as famílias maltratantes e negligentes têm no seu seio crianças indesejadas, não amadas, por vezes sem condições económicas e de saúde, e com um sistema de valores desajustado, no mínimo. Neste quadro, as crianças serão uma espécie de fardo em quem se cobra, são fracas, o desconforto e a miséria, física ou psicológica. Assim, retirar as crianças é uma acção que acaba por “premiar” as famílias, vêem-se livres daquela criança que não desejaram, de quem não gostam e que é um peso. É certo, insisto, que a retirada se destina a proteger a crianças mas, perversamente, “premeia” e alivia a família, ou seja, o crime compensa.
Esta situação ocorre também, por vezes, em casos de violência doméstica, em que se retira a vítima e se mantém o agressor no aconchego do lar.
Deve ser do calor aqui do meu Alentejo que me afecta as sinapses, mas gostava de tentar descobrir uma maneira de, em vez de retirar a criança da família e institucionalizá-la, fazer ao contrário, retirar a família à criança e institucionalizar a família, assim como, nos casos de violência doméstica conseguir, por princípio, manter a vítima em casa e retirar o agressor. Poderíamos criar aqui no meu Alentejo, é grande e está deserto, umas instituições fechadas para acolher famílias maltratantes. Mas isto é, obviamente, um disparate.

UMA FIGURA IMPORTANTE

Naquela família era a figura mais importante, desde há muitos anos. Talvez fosse do hábito ou da idade mas todas as pessoas da casa a respeitavam e tratavam de forma simpática.
Sempre que falava e fazia-o o tempo todo, as pessoas guardavam um silêncio respeitoso e ficavam muito tempo a admirar aquela figura.
Davam-lhe uma importância enorme. Acreditavam em tudo o que a figura afirmava e sabiam o que aprendiam com ela que, aliás, ensinava imensas coisas e sobre as mais variadas matérias.
Os mais pequenos da família eram completamente absorvidos pela figura, adoravam-na, ficavam horas a ouvi-la, às vezes até adormeciam.
Os mais velhos também não dispensavam porque aquela figura era tão preocupada que tinha algumas conversas mais adequadas à sua idade.
Enfim, quase se podia dizer que a vida da família se organizava em torno daquela figura.
Digo quase, por que uma das pessoas da casa, o Miguel, rapaz de uns quinze anos, não podia com aquela figura. Precisava de alguma atenção e ninguém parecia disponível para conversar com ele. Assim, fechava-se no quarto e só lhe dava vontade de se ver livre daquela figura, de dar cabo dela, da televisão.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

DO 8º PARA O 10º

O I, num exemplo de jornalismo atento e oportuno titula hoje, “Polémica; Alunos com 15 anos vão poder saltar do 8º para o 10º ano”. Esta notícia radica numa decisão do ME tomada já no início do ano e que, no âmbito do processo de alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos, vem possibilitar que, apenas este ano, alunos com mais de 15 anos e que estejam no 8º ano possam candidatar-se a prestar as provas de 9º ano, as de escola e as provas nacionais de Língua Portuguesa e Matemática. Na altura a medida passou relativamente despercebida mas agora instala-se o alarido.
Em política educativa, como noutras áreas, os problemas gerem-se em três planos, o da prevenção, o da qualidade dos processos e o da remediação quando algo não correu bem.
Esta medida inscreve-se numa perspectiva de remediação numa situação excepcional e como tal pode ser encarada. Em princípio, não é grave que para situações excepcionais se possam definir medidas excepcionais, podemos ter como exemplo o facto de uma criança hospitalizada por algum tempo poder ter apoio escolar ou o caso de miúdos de famílias sem residência fixa, actividades circenses ou feirantes por exemplo, poderem usufruir de apoio escolar. A questão é que a medida excepcional mantenha qualidade e rigor. É neste quadro que se podem colocar algumas reservas face ao que tem sido a prática do ME nos últimos anos, a deriva da fabricação do sucesso, a tentação de confundir estatística simpáticas com ganhos de qualidade. Neste sentido é bom estar atento ao que se passará em matéria de exames de escola e exames nacionais do 9º e, já agora, do 12º.
Por outro lado, conhecendo-se a realidade das escolas, dificilmente se vislumbra que alunos no 8º ano, já com história de “chumbos (têm mais de 15 anos) possam vir a ter desempenhos bem sucedidos em provas de escola e nacionais que envolvem o 9º ano que não frequentaram. Isto quer dizer, que em condições normais, exames e provas bem construídos, estes alunos muito provavelmente continuarão numa situação de insucesso pelo que não deposito grandes expectativas nos resultados, a não ser que ...
Parece-me ainda importante, que as questões levantadas de sobre potenciais situações de injustiça, ainda que compreensíveis devem ser relativizadas. Se se mantiver a exigência e o rigor estas situações acautelam-se. É curioso que alguns dos elementos ouvidos e que referem o risco da injustiça são professores, justamente os que melhor sabem que a escola não é justa, nunca foi e, provavelmente, nunca será.
Finalmente, como sempre afirmo e reafirmo, é fundamental retirar a educação da agenda política da partidocracia e colocá-la na política, ponto, ou seja, na promoção do bem-estar comum e da qualidade de vida dos cidadãos.

MAIS UM DIÁLOGO IMPROVÁVEL

Não precisas de estar com essa agitação toda, eu não posso estar sempre pronto para as tuas brincadeiras.
…
Já te disse, não sejas teimoso e não adiante estares a rebolares-te no chão porque eu estou a ler o jornal e só quando acabar é que vamos.
…
Porque será que és assim, tão impaciente e chato? Não te devo ter ensinado bem. Mas és mesmo irritante.
…
Outra vez! Vai para o teu canto brincar um bocado sozinho, estão lá os teus brinquedos.
…
Não há pachorra para te aturar. Logo havia de me calhar um assim, é preciso azar. Bolas!
…
Será que não posso acabar de ler o jornal descansado, que seca. Ainda levas uma palmada. Pára de andares à minha volta e espera.
…
Bom Faísca, ganhaste, como sempre, vamos lá à rua. Anda pôr a trela e porta-te bem. Livra-te de arranjares outra vez confusão com o Formiga que o dono também costuma trazer à rua a esta hora.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

CUSQUICES

Creio que se pode aceitar a ideia de que um dos atributos das relações de vizinhança, em desaparecimento dos nossos estilos de vida, sobretudo nas comunidades urbanas, é uma esforçada vontade saber o que se passa com toda a gente, ou seja, o velho alcovitar, coscuvilhar ou a mais recente fórmula, a “cusquice”. Todos reconhecemos aquela vizinha que, atrás da persiana, controla quem entra e quem sai da casa da frente e comenta na mercearia os visitantes “estranhos” que a D. Maria recebe.
Vem esta introdução a propósito de uma trágica notícia que apareceu na imprensa nos últimos dias. Duas irmãs com deficiência auditiva severa e mutismo terão sido vítimas de abuso continuado por parte de pai que, ao que parece, fomentava o abuso da rapariga mais velha por parte de outros indivíduos. A rapariga tem dois filhos, um recém-nascido, que serão consequência deste quadro de miséria humana. O caso foi conhecido porque a moça mais nova falou na escola do que se passava. No entanto, é aqui que se justifica a introdução que fiz, a moça mais velha ter-se-á queixado a vizinhas dos tratos que sofria. As vizinhas confirmaram que sabiam do que se passavam mas que não se quiseram meter.
Este “lavar de mãos” negligente que posso entender,mas custa a aceitar, é quase um paradigma da “normalidade” e da indiferença com que sem um sobressalto assistimos ou sabemos de situações em que pessoas, crescidas ou pequenas, são vítimas de sofrimento da mais variada natureza.
Um outro exemplo desta atitude e que hoje volta a ser notícia, é o facto de muitos portugueses serem “aliciados” para trabalhos agrícolas em Espanha, o exemplo de hoje é o das vinhas de La Rioja citado no DN, e que acabam em situação de escravatura. Custa a acreditar que ninguém, do lado de cá ou do lado de lá, saiba do que se passa. O mais provável é que, como no primeiro exemplo, sabe-se, mas “é melhor não se meter nisso”.
É por isso que, apesar de tudo, gosto das atentas vizinhas “cuscas” que contam tudo na mercearia.

A HISTÓRIA DO MÁRIO, ALIÁS, DO TERROR

Era uma vez um rapaz chamado Terror. Na verdade ele não se chamava Terror, chamava-se Mário, mas a partir de certa altura, aí pelos onze anos, começaram a chamar-lhe Terror. Lá na escola onde andava as coisas não corriam nada bem, o Mário arranjava com frequência complicações com os colegas, com os professores, com os funcionários. Não era mau miúdo mas respondia a qualquer coisa que lhe dissessem numa linguagem que muitas vezes não era a mais adequada, era, por assim dizer, pouco avesso a cumprir as regras e volta e meia andava engalfinhado com os colegas. Foi a partir dessa altura que o Mário passou a ser o Terror. E toda a gente já só falava do Terror.
Até os pais dos outros miúdos foram ouvindo as histórias do Terror e ficavam muito preocupados com a má influência do Terror nos seus filhos. Muitos tentavam proibir que os seus filhos se dessem com o Terror que, por sua vez, cobrava nos colegas e nos professores o Terror que tinha aprendido a ser.
Mesmo na sua casa, os pais também achavam que ele era um Terror com a rebeldia e a sua enorme facilidade em não cumprir ordens e regras.
Com o tempo, a presença do Terror na escola era considerada um autêntico pesadelo, era assim que o consideravam.
Ninguém sabia que o Terror também tinha regularmente pesadelos. Muitas noites sonhava consigo e com a sua vida.
Acordava cansado, confuso e lá partia para a sua vida, a de um Terror.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

UMA QUESTÃO DE PRIORIDADES

O DN de hoje aborda uma questão muito interessante, que aliás, vem a público com alguma frequência e que vista ainda na proximidade do Dia Mundial da Criança parece mais pertinente.
Trata-se da forma como decorrem os processos que envolvem o abuso sexual de crianças. O número de casos investigados está a aumentar, verificaram-se mais 13.91% no ano passado que no ano anterior e representa mais de metade dos casos de crime sexual.
No processo de investigação as crianças vítimas são ouvidas em média oito vezes o que é um assombro. Quase parece dispensável a necessidade de referir como é violento e capaz de deixar marcas profundíssimas solicitar a uma criança que repetidas vezes relate, relembre e "viva" a situação dramática porque passou.
Embora na fase de julgamento a criança vítima esteja dispensada de declarações, evitando o confronto com o agressor, na fase de inquérito e como diz o Procurador-geral da República, a criança será ouvida as vezes que o Procurador do Ministério Público entender por bem.
Este cenário não deveria manter-se, torna-se urgente a sua alteração. O problema é que, provavelmente, esta questão, o bem estar de miúdos vítimas de abusos, não passa de irrelevante pormenor no mundo dos problemas que nos afligem. Como tudo na vida trata-se de uma questão de prioridades.

OS (DIS)MIÚDOS

O trabalho hoje divulgado no I leva-me a retomar um texto que aqui deixei há tempos e que falava assim.
Estranharão certamente o título mas vou tentar explicar. De há uns tempos para, cá uma boa parte dos miúdos e adolescentes ganharam uma espécie de prefixo na sua condição, o "dis".
Se bem repararem a diversidade é enorme, ao correr da lembrança temos os meninos que são disléxicos em gama variada, disgráficos, discalcúlicos, disortográficos ou até distraídos.
Temos também as crianças e adolescentes que têm (dis)túrbios. Estes também são das mais diferenciadas naturezas, distúrbios do comportamento, distúrbios da atenção e concentração, distúrbios da memória, distúrbios da cognição, distúrbios emocionais, distúrbios da personalidade, distúrbios da actividade, distúrbios da comunicação, distúrbios da audição e da visão, distúrbios da aprendizagem ou distúrbios alimentares.
Como é evidente existem ainda os que só fazem (dis)parates e aqueles cujo ambiente de vida é completamente (dis)funcional.
Pois é, há sempre um "dis" à espera de qualquer miúdo e senão, inventa-se, "ele tem que ter qualquer coisa".
Agora um pouco mais a sério, sabemos todos que existem um conjunto de problemas que podem afectar crianças e adolescentes mas, felizmente, não tantos como por vezes parece. Inquieta-me muito a ligeireza com que frequentemente são produzidos "diagnósticos" e rótulos que se colam aos miúdos e dos quais eles dificilmente se libertarão.
Esta matéria, avaliar e explicar o que passa com os miúdos e adolescentes, exige um elevadíssimo padrão ético e deontológico além da óbvia competência técnica e científica. Não se pode aligeirar, é "dis"masiado grave.

O QUILO DE CHUMBO E O QUILO DE ALGODÃO

Quando era miúdo acontecia com alguma frequência os adultos quererem colocar-nos questões que nos deveriam embaraçar ou, o maior desejo, levar-nos ao engano para então se rirem da ingenuidade e ou do erro, coisas de adultos, como sabem.
Uma das perguntas mais usadas neste contexto era a conhecidíssima “O que pesa mais, um quilo de chumbo ou um quilo de algodão?”. Já não me lembro mas, provavelmente, como todos, durante algum tempo, respondi errado e posteriormente, com um ar de puto inteligente que não se deixa apanhar na curva, já respondia que era uma pergunta um bocado estúpida para se fazer a gente tão sabedora e esclarecida.
Passados estes anos, sem vislumbrar porque me lembrei disto, chego à conclusão de que, embora não fosse certamente a intenção dos adultos a pergunta faz todo o sentido, um quilo não pesa sempre um quilo. Vou tentar explicar esta ideia, no mínimo, disparatada.
Se pegarmos na vida de muitas pessoas que andam à nossa beira, um quilo de vida não pesa o mesmo para todos. Há gente para quem um quilo da sua vida é um fardo insuportável de tanto peso. Por outro lado, também existem pessoas para quem uma tonelada da sua vida é de uma enorme leveza que se carrega sem esforço.
Se olharmos para os mais pequenos a situação ainda fica mais óbvia. Temos miúdos que desde de que nasceram, cada quilo da sua vida tem um peso que não conseguem carregar de tanto sofrimento e que os deixa amachucados debaixo de tamanha dimensão. Outros miúdos, felizmente a maioria, carregam cada quilo da sua vida com a leveza de um berlinde no bolso.
Com o tempo das pessoas a questão põe-se da mesma forma disparatada, uma hora não é sempre uma hora. Todos nós já tivemos horas que duraram uma eternidade e, noutras circunstâncias, tivemos horas que passaram num segundo.
Pois é, agora, que já não me fazem a pergunta, é que eu era capaz de dar a resposta que certamente embaraçaria o perguntador, ou seja, depende do algodão e depende do chumbo.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O DIA DOS MIÚDOS

A agenda das consciências determina que hoje se pense nos miúdos, é o Dia Mundial da Criança. As iniciativas e os discursos, muitos, vão suceder-se dirigindo-se à criança. Nestas alturas, lembro-me do Mestre Almada que na Cena do Ódio falava sobre, "a Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões". De facto, muitos enchem os discursos e as intenções com a preocupação sobre os miúdos mas, todos sabemos, muitos passam mal, muito mal. Não cabem no Dia da Criança.
Não cabem os que diariamente são vítimas de crimes e maus-tratos.
Não cabem muitos os que vivem numa instituição esperando por uma família que nunca virá.
Não cabem os que são alvo de discriminação e a quem são negados direitos básicos.
Não cabem os que vivem em famílias que os não desejam e mal os suportam.
Não cabem os que apenas comem o que refeição única na escola lhes possibilita.
Não cabem os que vivem em famílias a quem roubaram a dignidade do trabalho e que, por isso, sobrevivem envergonhadamente.
Não cabem os que a escola não consegue ajudar a construir um futuro a que valha a pena aceder.
Não cabem os que sofrem de solidão e isolamento sem que se perceba como não estão bem.
Na verdade, estes miúdos quase não existem. Por isso, comemoremos o Dia Mundial da Criança com a convicção de que, como dizia Pessoa, "o melhor do mundo são as crianças" e elas são felizes, todas.

CRESÇAM DEVAGARINHO

Durante a tarde de ontem ia a passar numa rua aqui perto e tive de parar pois uma carrinha de transporte de crianças recolhia um grupo de umas dez de um Jardim de Infância para proceder à entrega ao domicílio. Fiquei a ver a miudagem em fila a entrar para a carrinha e achei que iam felizes. Provavelmente, para além de se sentirem felizes, antecipavam que durante o dia de hoje vão ser o alvo das iniciativa e dos discursos conforme a agenda das consciências, Dia Mundial da Criança.
Naquele tempo de espera comecei a pensar no que esperará aquela gente pequena. No que andamos nós a fazer para os receber à medida que crescem.
Daqui a pouco tempo começam a ser intoxicados com escola, oito ou dez horas por dia, e começa o tempo em que acabou a brincadeira, é o tempo da escola "a sério".
Rapidamente começam a ser pressionados para a excelência, o mundo não é para gente sem sucesso. Vão ter que adquirir competências, muitas competências, em montes de coisas, porque é preciso ser bom em tudo.
Vão começar a perceber como anda confusa a cabeça dos adultos, como estamos sem perceber o nosso presente e com dificuldade de antecipar o futuro, que será o presente deles.
Vão, parte deles, desaprender de rir, de se sentir bem e de brincar, a coisa mais séria que sempre fizeram.
Vão ouvir cada vez mais frequentemente qualquer coisa como "não podes fazer isso, já és uma mulherzinha", como se as mulherzinhas e os homenzinhos já crescidos não fizessem asneiras.
Vão conhecer tempos em que se sentem sós e perdidos com um mundo demasiado grande pela frente.
Mais cedo ou mais tarde, alguns deles, vão sentir uma dor branda que faz parte do crescer mas que, às vezes, não passa com o crescer.
Também quero acreditar que alguns deles vão continuar a ser sentir-se bem, por dentro e para fora.
Antes que a carrinha se pusesse em andamento, ainda consegui chegar à porta e dizer-lhes, "Cresçam devagarinho, não tenham pressa".

segunda-feira, 31 de maio de 2010

CULPA E RESPONSABILIDADE

Na altura da morte trágica do Leandro em Mirandela e depois de concluído o inquérito da Inspecção-geral de Educação escrevi o seguinte.
"Segundo a conclusão da Inspecção-geral de Educação a escola e os colegas estão isentos de responsabilidades na morte do Leandro, o miúdo de Mirandela que morreu no rio Tua.
Não seria necessário fazer um grande esforço para antecipar os resultados do inquérito. Seria completamente improvável que ele viesse a estabelecer um nexo de causalidade entre os factos, mais conhecidos ou menos conhecidos, e a morte do Leandro. Por aqui nada de novo num país de brandos costumes que não saberia o que fazer se não fossem estas as conclusões, não saberíamos como lidar com tal culpa.
Também nada de novo no que respeita a um dos equívocos mais frequentes entre nós, a confusão entre culpa e responsabilidade que não são de todo a mesma coisa.
Nesta tragédia, com a criança encontrada e a família em luto, sou capaz de entender que não seja possível encontrar culpados, também não o faço. No entanto, tenho uma enorme convicção, a morte de uma criança naquelas condições tem certamente responsáveis, todos os que fazemos parte da comunidade."
Face às conclusões agora conhecidas do inquérito sobre a morte do professor Luís na Escola de Fitares apenas é necessário alterar os protagonistas para que o texto se adapte, tragicamente, a esta situação.
Não se comprova nexo de causalidade, não se comprova negligência ou incompetência das estruturas da escola face a sucessivos alertas que terão sido feitos pelo professor Luís. Como disse e repito, neste drama também acredito que não seja possível encontrar culpados, mas a morte de um professor nas circunstâncias em que ocorreu tem responsáveis, nós os que fazemos parte de comunidades desatentas aos sinais de sofrimento de miúdos e graúdos.

OS CICLOS DE ENSINO E AS DISCIPLINAS

O Conselho Nacional de Escolas discutirá hoje uma proposta de reorganização da estrutura curricular considerando já o cenário de 12 anos de escolaridade obrigatória. Por diversas vezes aqui tenho referido a necessidade imperiosa de introduzir alterações nesta matéria. A proposta de considerar a existência de 3 ciclos de igual duração parece uma boa base de trabalho. Do que é conhecido, parece também importante que no 3º ciclo a criar, que envolverá o actual 9º ano e ensino secundário, se considere um primeiro ano comum, organizador das escolhas dos alunos e os três anos seguintes que diversifiquem a oferta educativa possibilitando diferentes vias de formação de modo a que seja possível proporcionar formação, quer de natureza profissionalizante, quer preparatória para a entrada no ensino superior.
No entanto, a proposta deixa de fora a organização disciplinar em cada ciclo e, naturalmente, os conteúdos curriculares a leccionar. Do meu ponto de vista e em matéria de currículo, esta é verdadeiramente a questão central. Considero aliás, que o número de disciplinas e a extensão e natureza dos conteúdos curriculares se associam às questões mais frágeis do sistema educativo, designadamente no 3º ciclo, insucesso, absentismo e indisciplina, tudo dimensões fortemente ligadas aos níveis de motivação e funcionalidade percebida dos conteúdos curriculares. O ME desencadeou, o que aplaudi, um processo de reflexão sobre esta questão. No entanto, a Ministra veio logo a seguir assegurar que se tratará de "mero ajuste", deixando, provavelmente, o essencial por fazer.
Também importa considerar as diferentes reacções que, com base no que poderemos chamar de corporativismo científico, produzem discursos ambíguos sobre a necessidade de alterar as disciplinas "desde que não seja a minha", alimentando a pressão para que não se altere um modelo excessivamente disciplinarizado. Esta lógica tem informado o sistema educativo mas também o sistema de formação de professores durante demasiado tempo, o que suporta esta disciplinarização sem sentido, 14 disciplinas para 25,5 horas de aulas no 3º ciclo. É curioso notar, se bem estivermos atentos, a frequência com que a propósito de qualquer saber, se defende a existência de mais uma disciplina.
Deixar que a discussão se enrede neste corporativismo disciplinar é comprometer a imprescindível mudança.
É por isso que embora a proposta do Conselho Nacional de Escolas me pareça uma boa base de trabalho, o essencial continuará por analisar.

A HISTÓRIA DO DESAJEITADO

Era uma vez um rapaz chamado Desajeitado, um nome um bocado estranho. Toda a gente o chamava assim.
Na escola, os professores achavam-no mesmo um Desajeitado. Quase nunca realizava as tarefas do modo que lhe era pedido. Quase nunca dava as respostas que eram solicitadas, arranjava sempre umas conversas assim um pouco ao lado, como se costuma dizer. A maioria dos seus colegas também achavam que o Desajeitado não era muito habilidoso considerando-o um desastrado nas brincadeiras pelo que não era uma companhia muito apreciada. A sua estrada, desde que entrara para a escola, tinha sido sempre percorrida desta forma.
Em casa a situação não era, nem nunca tinha sido, muito diferente. Os pais também achavam que o Desajeitado poucas coisas, ou nenhumas, fazia bem feitas. Estavam sempre a criticá-lo pela forma pouco cuidada como fazia o que lhe era pedido. Os pais, para tentarem que o Desajeitado fosse um pouco melhor, comparavam-no muitas vezes à sua irmã Desejada que era um modelo, tudo fazia bem feito, era perfeita, nunca errava. Estranhamente, tal discurso não fazia o Desajeitado sentir-se melhor e funcionar de uma forma que agradasse mais às pessoas.
Na verdade, Desajeitado foi nome que lhe começaram a chamar desde pequeno, o seu nome verdadeiro era Enjeitado.
Como sabem os Enjeitados não têm jeito para quase nada, apenas para se sentir mal o que produz muita falta de jeito, ficam Desajeitados.

domingo, 30 de maio de 2010

TAL PAI, TAL FILHO, OU COMO NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES

Desde sempre que os estudos, designadamente no âmbito da sociologia da educação, associam a carreira escolar e o estatuto profissional dos filhos ao nível de escolaridade e estatuto económico dos pais. Também sabemos que isto é tanto mais evidente quanto maiores são os níveis de desigualdade. Em Portugal verifica-se um dos maiores fossos entre ricos e pobres da União Europeia pelo que a relação entre os níveis escolar e salarial dos pais e os dos filhos é ainda mais forte. O Relatório da OCDE hoje citado pelo Público vem, mais uma vez, confirmar a realidade que conhecemos. O nível de escolaridade média dos portugueses é o segundo mais baixo da OCDE, apenas a Turquia está pior, situação que em 1960 já se verificava, ou seja, aumentámos o nível de escolaridade mas menos que todos os outros países, à excepção da Turquia. O Relatório sublinha de novo a incapacidade da escola de promover mobilidade social, ou seja, o nível de escolaridade dos pais marca de forma excessiva o nível atingido pelos filhos. A situação sempre assim foi, ainda me lembro de quando era pequeno, haver quem se admirasse do meu pai, um serralheiro, ter decidido que eu continuaria a estudar. Tal constatação que, insisto, todos conhecemos, não autoriza, portanto, o discurso irresponsável e ignorante, mas muitas vezes tolerado sem discussão na comunicação social, de que vivemos num país de doutores. Não, definitivamente, vivemos num dos países do mundo desenvolvido com uma das mais baixas taxas de escolarização.
Deste quadro, resulta uma complexa situação que poderemos de forma simplista colocar nestes termos, a escola ao acabar por reproduzir a desigualdade social à entrada, compromete o papel fundamental que lhe cabe na promoção da mobilidade social, ou seja, a escola que deveria ser parte da solução, na prática, corre o risco de continuar a ser parte do problema. No entanto e apesar disto, creio que muito poderá e deverá ser feito no sentido da promoção efectiva da chamada e distante igualdade de oportunidades.
Do meu ponto de vista, muitas vezes aqui afirmado, a questão central é a qualidade na escola pública. Esta qualidade deverá assentar em três eixos fundamentais, a qualidade considerando resultados, processos e gestão optimizada de recursos, segundo eixo, qualidade para todos, a melhor forma de combater os mecanismos de exclusão e a desigualdade de entrada e, terceiro eixo, diversificação dos percursos de educação e formação. Esta diversificação deve passar, e temos registado progressos nesta área, por uma oferta bastante mais variada ao nível do secundário possibilitando a muitas jovens completar este nível de ensino com competências profissionais, isto é que é fundamental. Também ao nível do ensino superior, com o trabalho no âmbito do ensino politécnico se criam condições para processos de qualificação mais curtos e mais diversificados.
Finalmente, volto ao que sempre aqui tenho repetidamente referido, urge a definição de uma política educativa para o médio prazo, estabelecida com base no interesse de todos, com definição clara de metas, recursos, processos e avaliação. A continuar na deriva a que nas última décadas nos entregamos, daqui a algum tempo a OCDE virá dizer exactamente o mesmo.

sábado, 29 de maio de 2010

OS DESPERDÍCIOS

A partir da constatação dos efeitos devastadores da crise que se instalou, começaram a emergir alguns discursos no sentido de que estes efeitos poderiam ter um efeito positivo no sentido de alterações nos modelos de desenvolvimento e organização das instituições e e no comportamento das pessoas, isto é combater o desperdício e a ineficácia e promover racionalidade e poupança nos gastos. Agora, pressionados pelo PEC, parece finalmente que se percebe os custos incomportáveis que o funcionamento da administração comporta e de que toda a gente conhece os excessos. Agora parece reconhecer-se a existência de uma teia de entidades e organismos inúteis e dispensáveis que apenas existem para alimentar as clientelas partidárias, de todos os partidos que chegaram ao governo. Sempre que se verificam auditorias e inspecções a diferentes serviços e organismos da administração local ou central, emergem níveis assustadores de ineficácia e desperdício no funcionamento e gestão dessas estruturas. Lamentavelmente, como todos sabemos, não é um problema novo nem conjuntural, é velho e estrutural. A grande questão é a irresponsabilidade e a impunidade negligente com que as sucessivas lideranças políticas têm lidado com esta questão. Os interesses partidários, a distribuição de jobs pelos diferentes boys prevalecem em detrimento do bem comum.
No actual quadro de crise pode acontecer, vou ser optimista, que finalmente se verifique um empenho verdadeiro no combate ao desperdício que é um dos mais gigantescos sugadouros de recursos, praticamente um poço sem fundo. Chamo, no entanto, a atenção para as diferentes áreas de desperdício. A título de exemplo, considere-se o tempo, um bem de primeira necessidade, que se desperdiça em inutilidades, por má gestão ou organização, que se dedica a discussões estéreis e ruidosas seja em reuniões improdutivas ou em debates inconclusivos por incompetência, demagogia ou intenção.
Considere-se ainda o desperdício de competências e de pessoas que, por falta de oportunidade ou de políticas ajustadas, públicas ou privadas, são completamente subaproveitadas.
Lembro-me também de algo a que costumo chamar de “agitação improdutiva” que envolve muitíssimas situações de pessoas que aos mais diversos níveis e em diferentes circunstâncias se empenham, se esforçam, mas com baixos níveis de qualidade e rentabilidade por má gestão ou organização penalizadora das pessoas e das instituições.
Enfim, são múltiplos os exemplos de desperdício e são ainda mais e mais graves as consequências desta espécie de cultura instalada.

OS BRINQUEDOS QUE NÃO SÃO PARA BRINCAR

Hoje passei num espaço onde vi um miúdo a brincar com um daqueles carros telecomandados. Na verdade, o miúdo não brincava, vi o pai em grande agitação e entusiasmo a tentar conduzir o carro ainda que sem bom resultado aparente.
Fiquei a pensar a quem teria sido oferecido ou para quem teria sido comprado aquele brinquedo, para o miúdo não parecia.
A cena lembrou-me uma situação que acontecia na minha infância e a que a distância dá a tranquilidade que substitui a enorme zanga que na altura sentia.
Sou da geração que teve acesso aos primeiros brinquedos a pilhas que vinham substituir os ultrapassadíssimos brinquedos de corda. Acontece que os primeiros brinquedos a pilhas tinham como forma única de interacção, de brincadeira com eles, ligar e desligar, o que apesar de tudo nos introduzia na língua inglesa, com a aprendizagem do "on" e do "off".
Com estes brinquedos apenas havia uma coisa de inteligente a fazer, desmanchá-los, pois outra coisa não era possível. Ainda me lembro de os meus tios me oferecerem uma locomotiva enorme de chapa, cheia de cores e com muitas luzes. No entanto, brincar com tal máquina era uma decepção. Pegava na locomotiva, colocava o botão no "on" e ela brincava sozinha. Andava, apitava, acendia luzes intermitentes e quando tropeçava num obstáculo, andava para trás até tropeçar de novo e voltar a andar para a frente, mais nada. Claro que a vontade de mexer era tanta que comecei mesmo a desmanchar a locomotiva e então é que foi gozar. Resultado, na minha casa e noutras, havia uns brinquedos que estavam em cima do guarda-fatos porque nós não podíamos brincar com eles, estragávamo-los. Assim, apenas serviam para adorar. A tentação de subir e pegar neles para os desmanchar era grande mas não podia ser.
Eram brinquedos que não prestavam. Hoje também há brinquedos que não prestam para coisa alguma.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O FECHAMENTO DAS ESCOLAS

Muitas das questões que se colocam em educação, como noutras áreas, independentemente da reflexão actual, solicitam algum enquadramento histórico que nos ajudem a melhor entender o quadro temos no momento. Durante décadas de Estado Novo, tivemos um país ruralizado e subdesenvolvido. Em termos educativos e com escolaridade obrigatória a ideia foi “levar uma escola onde houvesse uma criança”. Tal entendimento minimizava a mobilidade e a abertura sempre evitadas. No entanto, como é sabido, os movimentos migratórios e emigratórios explodiram e o interior entrou em processo de desertificação o que, em conjunto com a decisão de política educativa referida acima, criou um universo de milhares de escolas, sobretudo no 1º ciclo, pouquíssimos alunos. Como se torna evidente e nem discutindo os custos de funcionamento e manutenção de um sistema que admite escolas com 2, 3 ou 5 alunos, deve colocar-se a questão se tal sistema favorece a função e papel social e formativo da escola. Creio que não e a experiência e os estudos revelam isso mesmo. Neste quadro emerge a necessidade de redimensionar a rede de escolas.
É também verdade que muitas vezes se afirma que a “morte da escola é a morte da aldeia”. No entanto, creio que será, pelo menos de considerar, que os modelos de desenvolvimento económico e social possam começar a matar as aldeias e, em consequência, liquidam os equipamentos sociais, e não afirmar sem dúvidas o contrário.
Por outro lado, a concentração excessiva de alunos não ocorre sem riscos. Para além de aspectos como distância a percorrer, tipo de percurso e apoio logístico importa não esquecer que escolas demasiado grandes são mais permeáveis a insucesso escolar, absentismo, problemas de indisciplina e outros problemas de natureza comportamental.
Neste cenário, a decisão de encerrar escolas não deve ser vista exclusivamente do ponto de vista administrativo e económico, não pode assentar em critérios cegos e generalizados esquecendo particularidades contextuais e, sobretudo, não servir como tudo parece servir em educação, para o jogo político.
O bem-estar educativo dos miúdos é demasiado importante.

MAIS UM EPISÓDIO DE INDISCIPLINA

Numa escola pública da periferia de Lisboa, um aluno do 9º ano envolveu-se numa discussão com um colega durante um trabalho de grupo na aula da Inglês e acabou por dizer um palavrão. A cena foi, como de costume, registada num telemóvel e rapidamente apareceu no Youtube. Procurámos alguns comentários a mais este grave incidente que afectou o espaço escolar português. Começámos pelos grupos parlamentares.
Um deputado do PS referiu que graças à eficácia e à bondade das políticas educativas do governo do PS a situação estava incomparavelmente melhor pois na semana anterior o mesmo aluno tinha dito dois palavrões na aula de Matemática.
Ouvimos um deputado do CDS-PP que, depois de um "Oiça", disse que, tal como o CDS-PP sempre tem afirmado, o PS transformou o espaço escolar num espaço de delinquência e insegurança frequentado por imigrantes e filhos de utentes do Rendimento Social de Inserção, pelo que problemas desta natureza são frequentes e, também num frémito de pálpebras, citou Paulo Portas, "se não prendem esta gente, nada será como antigamente".
O deputado do PCP que ouvimos referiu-nos que até a própria juventude começa a dar sinais de contestação tomando posições firmes contra a ditadura das políticas de direita da 5 de Outubro. Um membro do grupo parlamentar dos Verdes que ia a passar disse não ter mais nada a acrescentar. Entretanto, um deputado do Bloco manifestou a sua satisfação pela atitude não conformista do adolescente e a capacidade de erguer a sua voz minoritária para dizer o palavrão que mais ninguém disse.
Finalmente, ouvimos um deputado do PSD que nos referiu a falta de credibilidade do Primeiro-ministro como causa para incidente tão grave.
Ainda conseguimos obter um comentário de alguém da Fenprof que, em contacto telefónico, afirmou que tal incidente se deveu ao facto da docente envolvida já ter duas horas de aula nesse dia e estar fragilizada pelos ataques do ME aos professores. Acrescentou que a Fenprof já apresentou ao ME uma proposta no sentido de que ao quinto palavrão ouvido, os docentes ascendam automaticamente ao patamar acima na carreira.
Uma representante de um pensamento educativo conhecido por "eduquês", seja lá isso o que for, afirmou que se tratou de uma expressão positiva de desconforto por parte do adolescente, na afirmação da sua autonomia e competências interpessoais no quadro de uma sala de aula interactiva. Pois.
Conseguimos ainda a opinião de três especialistas, Medina Carreira, Nuno Crato e Mário Crespo. Em simultâneo, Medina Carreira e Nuno Crato afirmaram que isto é o sinal de que o país está afundado, de como é necessário muito mais rigor e, pelo menos, mais 35 exames até ao 9º ano para que se saiba verdadeiramente quem deve estar na escola e quem deve ir fazer outra coisa qualquer, logo se vê o quê. O terceiro especialista, Mário Crespo, abanava embevecido a cabeça e quis oferecer-nos uma t-shirt. O conhecido opinador Santana Castilho, que ia a passar, disse também qualquer coisa que não se percebeu muito bem, mas clamava que estava contra e que tinha saudades do tempo em que foi Secretário de Estado e a educação em Portugal era um paraíso.
Desistimos do trabalho.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

MENOS ALUNOS E MENOS PROFESSORES

Está em decurso, por iniciativa do Movimento Escola Pública, uma petição no sentido de se estabelecer que na constituição das turmas do pré-escolar e 1º ciclo, o número máximo de alunos passe de 24 para 19 e no 2º, 3º ciclo e ensino secundário diminua de 28 para 22. É ainda solicitado que cada professor não leccione para mais do que 110 alunos, ou seja, 5 turmas com o máximo de alunos que a petição propõe.
Não são conhecidas as disponibilidades físicas do parque escolar no sentido de suportarem o acréscimo de turmas que a medida proposta implicaria, nem, como refere o CDS-PP, o impacto financeiro da medida, mas alguma notas soltas sobre esta questão que está permanentemente em cima da mesa.
Por princípio óbvio, turmas com menos alunos favorecem a qualidade do trabalho dos professores e dos alunos com naturais consequências nos resultados escolares e no comportamento. No entanto, é também necessário considerar as diferenças de contexto, isto é, a população servida por cada escola, as característica da escola, a constituição do corpo docente, etc.. Tal significa que, apesar da concordância genérica com princípio de reduzir o número de alunos, pode admitir-se alguma flexibilidade.
Já a ideia de reduzir o número máximo de alunos com que cada professor trabalha só peca por tardia. Parece óbvio que menos alunos permite melhor conhecimento de cada um, menos turmas permitiria, por exemplo, que um professor no seu horário pudesse assegurar duas disciplinas do seu grupo científico na mesma turma (existem casos em que é possível e muitas escolas já praticam) aumentando o tempo de contacto do professor com os mesmos alunos com naturais reflexos positivos.
O actual modelo de organização das escolas e do trabalho dos professores leva a que um número extraordinário de horas de trabalho docente seja dedicado a tarefas sem fim na escola, em inúmeras tarefas de natureza quase administrativa, para além das reduções inerentes à progressão na carreira e de outras funções não lectivas. Tudo isto contribui para que em termos práticos tenhamos um modelo menos eficiente e facilitador do trabalho dos alunos e os próprios professores, cujo empenho e profissionalismo esbarra muitas vezes com modelos inadequados de organização e funcionamento das escolas.

OS HABITANTES DE SEVER, MOIMENTA

Ao iniciar um olhar pelo mundo através da imprensa a expectativa era bem negativa. Pensava ir agarrar a pouco sustentável decisão de incluir no controle da despesa pública a retirada de medidas de apoio aos desempregados. Não se entende, quando todos os dias sabemos e constatamos os elevados níveis de desperdício que se verificam na administração, central e local, e nas centenas ou milhares de organismos inúteis que apenas servem de emprego às clientelas do costume. Estava a pensar como me referir a isto mais uma vez e meio deprimido com o que ia encontrando, quando vi na capa do JN algo de positivo e bonito, do meu ponto de vista, é claro.
Os habitantes da aldeia de Sever, Moimenta da Beira, precisavam de ter caminhos arranjados que lhes permitissem, de forma mais rápida e em melhores condições, trazer a fruta dos seus pomares para a Cooperativa. Para os recursos da Junta de Freguesia tal empreendimento era impossível. Assim, organizaram-se e com os seus tractores e esforço, contando com o apoio possível da Junta andam a colocar os caminhos da aldeia em bom estado. Ao que o JN refere o trabalho tem sido duro e contínuo.
Esta atitude esteve em voga há umas décadas e foi-se perdendo. O sentimento de comunidade e de entreajuda é um bem em vias de extinção. Espera-se que alguém tudo resolva e tudo faça. Esse alguém é, quase sempre, aquela entidade indefinida que designamos genericamente por "eles", "eles" os que têm de fazer e não fazem nada, "eles" os que têm de resolver e não resolvem nada, sempre eles. O "nós" está a perder-se. Talvez um dos caminhos que teremos de percorrer seja o da recuperação da noção e sentimento de comunidade. Eu sei que apesar de pouco divulgado e estimulado ele existe. Provavelmente, se não fosse o espírito de comunidade que se vai mantendo muitas famílias estariam em pior situação do que estão.
Os habitantes de Sever salvaram-me o dia.

EM FAMÍLIA, OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL

Estavam na sala e como um tom de voz já estava um pouco alterado dava para ir apanhando.
...
És a pessoa mais estúpida que conheço. Cada vez sou menos capaz de perceber como alguma vez gostei de ti.
Não sejas idiota, o enganado fui eu. Deixei-me arrastar pela tua conversa de menina fina e com estudos. Longe estava de imaginar como alguém pode ser tão desagradável e egoísta.
Algumas amigas avisaram-me de que não prestavas, demorei a entender, mas ao fim de doze anos de casamento, se é que pode chamar casamento a este inferno, já não tenho dúvidas, odeio-te.
Não fosse o que a família acharia de tudo isto não aguentava nem mais um minuto nesta casa. A tua presença e proximidade é insustentável.
Olha, vê se te calas que a Andreia vem aí.
...
Quando é que jantamos, tenho o TPC para acabar.
Vamos já jantar, estávamos mesmo a falar sobre ti e como estamos contentes contigo. Daqui a cinco minutos podes vir para a mesa. E depois, enquanto jantamos aproveitamos para conversar. Não gosto daquelas famílias que mal falam uns com os outros.
Então vou ao quarto mandar uma mensagem à Carla.
...
Devem pensar que sou parva. Já não posso mais. Nunca mais cresço para não ter que estar em casa a aturá-los, sempre a fingir. Ganda seca.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

JÁ NÃO AGUENTO

Há poucos dias, coloquei um texto aqui no Atenta Inquietude a propósito dos comportamentos autodestrutivos em adolescentes e jovens, sobretudo dos casos de suicídio. Referi na altura que na consulta de prevenção do suicídio dos Hospitais Universitários de Coimbra, metade dos atendidos tem menos de 24 e cerca de 20% repetem a consulta. Em 2007 ocorreram 8 casos de suicídio entre os 11 e os 20 anos e nos primeiros 6 meses de 2008 também se verificaram 8 casos.
Segundo os elementos do departamento de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria os comportamentos autodestrutivos em adolescentes são mais frequentes do que se pensa, estudos internacionais apontam para cerca de 10% da população em idade escolar com comportamentos de auto-mutilação.
Este quadro é um indicador do mal-estar que muitos adolescentes e jovens sentem. Em muitas situações não conseguimos estar suficientemente atentos. Acontecem com alguma frequência situações de sofrimento com as mais diversas origens, relações entre colegas, bullying por exemplo, ou relações degradadas em família que facilitam a instalação de sentimentos de rejeição, ausência de suporte social, facilitadoras de comportamentos autodestrutivos. Começa também a emergir como causa deste mal estar a dificuldade que algumas crianças e adolescentes sentem em lidar com situações de insucesso escolar. Esta dificuldades são frequentemente potenciadas pela pressão das famílias e pelo nível de competição que por vezes se instala.
Neste quadro não é surpreendente o facto de em dois dias, dois adolescentes, em Torres Vedras e Guimarães, terem tentado o suicídio, resultando na morte de um deles e na situação grave do outro.
Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas é necessário insistir. Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia a dia sinais de mal-estar a que, por vezes não damos atenção, seja em casa, ou na escola espaço onde passam a muito tempo. De facto e na maior parte dos casos, designadamente, nas tentativas de suicídio, pode ser possível perceber sinais e comportamentos indiciadores de mal-estar. Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados.
O resultado pode ser trágico.

A HISTÓRIA DO RAPAZ CHAMADO PUZZLE

Era uma vez um rapaz chamado Puzzle. É um nome um bocado estranho para um rapaz ter, mas era mesmo o nome dele.
Quando nasceu, através de um exercício frequente nas famílias, descobriram que ele tinha os olhos da mãe Maria, a testa e o nariz do pai João, o cabelo do avô paterno Manuel e a boca da avó materna Leonor.
À medida que crescia o Puzzle ficava mais complexo, tinha o andar e o feitio do pai João, a maneira doce de falar da mãe Maria e um ar esperto e atento do avô materno António. Na escola a esperteza era a da mãe Maria e o comportamento era o do pai João e tinha ainda a vontade de despachar tudo bem depressa, mesmo se não estivesse muito perfeito, que era tal e qual o avô Manuel.
O Puzzle foi crescendo e um dia, um sobressalto daqueles muito grandes, que por vezes a vida proporciona sem se esperar, fê-lo dar um tombo, um tombo muito sério que deixou o Puzzle quase desfeito. Com a energia que a vontade de continuar vivo lhe emprestava, tentou erguer-se de novo mas sentiu a maior das dificuldades para juntar aquelas peças todas de que era feito.
Após muitos esforços e recaídas, decidiu que ficaria só com aquilo que era seu e até mudou o nome, agora chama-se Eu.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O SHOT É COOL

Um estudo promovido pela Deco vem evidenciar algo de que todos temos consciência, mesmo contra as disposições legais os menores de 16 anos conseguem comprar bebidas alcoólicas. De facto, em mais de metade dos estabelecimentos visitados foram vendidas bebidas a adolescentes. Algumas reflexões breves retomando uma temática que já aqui tenho abordado.
Uma primeira nota é o facto de os adolescentes comprarem cerveja e outras bebidas, as litrosas como lhes chamam, no comércio mais habitual, lojas de conveniência ou pequenos estabelecimentos de bairro, a um preço bem mais acessível que nos estabelecimentos que frequentam na noite e recorrendo à “toma” simples ou com misturas ao longo da noite, comprida aliás. Esta venda processa-se com a maior das facilidades e sem qualquer controlo da idade dos compradores, tal como o estudo da Deco comprovou. Muitos adolescentes evidenciam e quando inquiridos referem-no, a ausência de regulação dos pais sobre os gastos, sobre os consumos ou sobre as horas de entrada em casa, que muitas vezes tem que ser discreta e directa ao quarto devido ao “mau estado” do protagonista. Também, sobretudo nos tempos que correm, não podemos confiar no cumprimento das disposições legais que impedem a venda de álcool a adolescentes.
Como é evidente, já muitas vezes aqui o tenho referido com base na minha experiência de contacto com pais de adolescentes, não estamos a falar, sempre, de pais negligentes. Pode haver negligência mas, na maioria dos casos, trata-se de pais, que sabem o que se passa, “apenas fingem” não perceber, desejando que o tempo “cure” porque se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e como lidar com a questão. De fora parece fácil produzir discursos sobre soluções, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é muitas vezes sentida como maior que eles.
É preciso que a comunidade esteja atenta a estes adolescentes de 13 ou 14 anos que, ilegalmente” compram as litrosas e aos seus pais que estão tão perdidos quanto eles.

CRECHES, JARDINS DE INFÂNCIA, EDUCADORES, MIÚDOS, FAMÍLIAS, FENPROF E SEUS INTERESSES

Já aqui tenho referido que uma das medidas em matéria de políticas de família mais impacto pode ter é a garantia de disponibilidade e acesso a creches e jardins de infância por parte das famílias. É sabido que nas zonas urbanas a oferta é claramente abaixo da procura. O DN de hoje refere que existem muitas instituições que já nem em lista de espera aceitam novas inscrições. Como também não se estranha, esta situação é mais evidente no chamado sector social, Instituições Privadas de Solidariedade Social, pois a mensalidade é decorrente do rendimento familiar. O facto de as famílias, ao construir dos seus projectos de vida conhecerem a dificuldade e os custos para assegurar a estadia dos filhos após as licenças de parto, é um sério obstáculo ao à natalidade.
Por coincidência, a Fenprof vem defender que os calendários de funcionamento do pré-escolar sejam semelhantes ao do ensino básico. A justificação remete para a necessidade de participação da(o)s educadoras de infância nas reuniões de avaliação e planeamento dos respectivos estabelecimentos e agrupamentos.
Do ponto de vista profissional e corporativo entendo, o discurso dos representantes sindicais habituou-nos a uma defesa quase exclusiva dos interesses profissionais e corporativos dos professores, muitas vezes com razão, e menos dirigida para os interesses da comunidade educativa, miúdos e pais, por exemplo. Não se discute a necessidade de reuniões de avaliação e planeamento na educação pré-escolar, mas equiparar o calendário dos jardins de infância ao ensino básico, considerando as especificidades curriculares, pedagógicas, idade dos miúdos e impacto social, parece-me apenas sustentável à luz de uma posição meramente corporativa e destinada a manter em aberto a conflitualidade imprescindível às agendas políticas que tomaram conta da educação em Portugal.

A HISTÓRIA DA PALAVRA COM PROBLEMAS DE IDENTIDADE

Um dia destes, com algum tempo de espera pela frente, sentei-me num café, ainda não perdi o hábito antigo de marcar encontros num café. Enquanto tomava a bica entrou uma Palavra que estranhamente, pois o café tinha mesas vagas, perguntou se podia sentar-se. A Palavra estava com um ar de quem queria falar, eu gosto de conversar e tinha algum tempo, acedi.
Como imaginava a Palavra começou logo.
O mundo dá comigo em maluca, está tudo desorganizado ninguém se entende. Às tantas nem eu me entendo, nem eu sei o que ou, quem sou.
Com esta entrada achei por bem ficar-me por um prudente, "É?"
É verdade. Para algumas pessoas sou uma Palavra normal e usam-me sem problemas em diferentes circunstâncias. Por outro lado, algumas pessoas, felizmente menos, pensam que sou uma Palavra vulgar, assim um pouco sem nível, pelo que deveria ser evitado o meu uso. Existem até pessoas que entendem que sou uma Palavra completamente desqualificada, sem o mínimo de competência para aparecer nas suas conversas, por vezes chamam-me asneira, presunçosos.
Realmente não fica assim muito fácil, comentei a medo.
Apesar de tudo e ainda bem, algumas pessoas, sobretudo crianças e adolescentes, dizem que sou engraçada, que gostam de mim e usam-me muitas vezes nas conversas deles. Aborrece-me um bocado que quando me escrevem, não o fazem como deve ser, usam uma abreviatura, mas no fundo não me importo, é para escrever mais depressa e o que me interessa é que gostam de mim. De qualquer forma já estou farta desta confusão, gostava de ser uma Palavra que toda a gente entendesse da mesma forma. Olhe, tenho que me ir embora entraram dois miúdos, acho que faço falta n a conversa deles. Agradeço a companhia.
Com a pressa e a surpresa esqueci-me de perguntar que nome tinha aquela Palavra.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

VIDA DE ESTUDANTE

A imprensa de hoje aborda três questões respeitantes à vida dos alunos que merecem alguma reflexão.
O DN refere que cerca de um terço dos estudantes, à volta de 500 000 alunos, recebem apoios da Acção Social Escolar. Este apoios incidem sobre o acesso a refeições, muitos alunos dependem das refeições na escola para satisfazerem o mínimo das suas necessidades, e no apoio para manuais e material escolar. Ainda assim, muitas famílias experimentam sérias dificuldades, acrescidas com um ensino, sobretudo no 3º ciclo, com excesso de disciplinas e que está altamente dependente dos manuais e respectivos livros de fichas, estes sem apoios na sua maioria mas considerados imprescindíveis pela generalidade dos professores que se acomodaram a um ensino altamente manualizado. Este cenário, dificuldades na Acção Social Escolar, requer a maior das atenções quando se fala de redução nas políticas sociais. É mais difícil aprender e ter sucesso quando se passa mal.
A segunda questão prende-se com um estudo divulgado no Público referindo que 13% dos adolescentes inquiridos terão sido vítimas de violência e 16% vítimas de abuso emocional. Para além do facto dos dados terem sido recolhidos em 2000 e de, aparentemente, o estudo conter outras fragilidades, importa sempre sublinhar que os maus-tratos são uma realidade a que não podemos deixar de estar atentos e que alguns comportamentos não podem ser envolvidos num perigosa ideia de "normalidade" desculpabilizante.
Finalmente, a terceira nota sobre a vida de estudante. As escolas de ensino superior estabelecem acordos com os bancos no sentido da produção dos cartões dos estudantes. Como é óbvio, a banca não brinca em serviço nem tem vocação altruísta, pelo que usa esses acordos para através de um marketing agressivo e, provavelmente, nos limites dos quadros legais, fidelizar e "impor" serviços indesejados pelos alunos, muitos milhares de alunos, aos quais estes não sabem como resistir. Às escolas de ensino superior também interessa o envolvimento nestes processos com as entidades bancárias porque, naturalmente, beneficiam, delegando, por exemplo, a produção dos cartões ou obtendo outro tipo de vantagens nas suas próprias operações.
Durante muito tempo era comum afirmar-se que a vida dos mais novos é que era boa e fácil, as dificuldades chegavam com a idade. Os tempos estão em mudança, a cruz pesa logo de início.

A MINHA CASA

Eu acho que é difícil escrever sobre a minha casa, mas vou tentar.
A minha casa em alguns dias é uma casa grande, noutros dias é uma casa pequena. Às vezes nem consigo perceber muito bem se é pequena ou grande. A minha casa tem muita gente, os meus pais, a minha irmã Maria e o Daniel, o meu irmão, e às vezes vem mais família e amigos e então parece pequena. Muitos dias a minha casa está muito vazia, não aparece ninguém, é quando ela parece muito grande.
Eu quase sempre gosto de estar na minha casa, tenho as coisas de que gosto e preciso, mas às vezes sinto-me um bocado só. Olho à volta e não vejo ninguém. Quando minha casa me faz sentir mais só fico com algum medo, não sei bem de quê, falo com os meus amigos e eles, quase todos, também dizem isso.
A minha casa é bonita, eu acho, embora nos dias mais escuros, quando está vazia e me parece grande eu não gosto assim muito dela e acho-a feia. Até tenho vontade de mudar de casa mas sei que não posso.
Eu e os meus amigos encontramo-nos na minha casa e umas vezes ficamos contentes, outras vezes falamos das coisas mais aborrecidas e já não fica tão bem, até parece que não gostamos das nossas casas.
Professora, não diga à Diana, mas eu gostava que ela também estivesse mais tempo na minha casa. Acho que ela ia gostar e a minha casa ficava melhor.
E é assim a minha cabeça. É a minha casa.

Francisco, nº 5, 8º B

domingo, 23 de maio de 2010

O AUTOMÓVEL É UMA ARMA

O DN dedica um trabalho ao comportamento que muitos condutores assumem ao volante. É referido um quadro, "road rage", "raiva ao volante", que evocando variadíssimas razões, umas mais sofisticadas que outras, procura explicar o irresponsável e agressivo comportamento ao volante de algum pessoal. Apareceram os sociólogos e os psicólogos e o tão incontornável quanto verdadeiro "o automóvel é uma arma" que por vezes transforma pacatos cidadãos em perigosos delinquentes.
Não tenho nada a opor a esta conceptualização, mas creio que teremos de reflectir em alguns outros aspectos, o quadro de valores e a sua formação, estou a falar de educação.
Se bem atentarmos, além da "road rage", também conhecemos a "school rage", a "street rage", a "night rage", a "work rage", a "home rage", etc. De facto, os tempos, por muitas razões, são tempos de raiva. Também são tempos em que, por causas diferentes, se instalou um sentimento de impunidade que favorece a desregulação dos comportamentos.
Como é obvio, os comportamentos inadequados e criminosos devem ser combatido e punidos. No entanto, a forma mais eficaz de construção de valores é a educação. Assim sendo e como sempre digo, tenho a maior das dificuldades em entender os destratos que são dados à educação e aos miúdos. O carro será apenas uma das armas que terão à mão, depois da própria mão, é claro.

sábado, 22 de maio de 2010

A EDUCAÇÃO EM TRIBUNAL

Depois da partidocracia e dos seus interesses terem tomado conta do universo educativo, tornando qualquer reflexão fora das agendas partidárias quase clandestina, entrámos na fase da judicialização. Começámos com as famosas providências cautelares a propósito de variadíssimas situações, processos judiciais sobre a aplicação das leis e agora, mais recentemente, até o nó central do trabalho do professor, a relação com o aluno e com os pais, chegou ao tribunal. Primeiro a condenação de um pai que insultou um professor e, notícia de hoje, a condenação de um professor que insultou o aluno.
É interessante ver os comentários produzidos sobre este caso do professor que chamou “preto” ao miúdo de 12 anos cuja mãe apresentou a queixa que motivou a condenação. A grande maioria dos comentários é, pode dizer-se, a preto e branco, ou seja, é insulto racista condena-se, obviamente ou, afirmam outros, é uma irrelevância que não justifica nenhuma actuação.
Do meu ponto de vista e dando como adquirido que insulto é sempre condenável, fico mais preocupado com esta deriva dos fenómenos e processos educativos para fora da escola, aumentando a crispação e fomentando discursos populistas, demagógicos ou irrealistas sobre a educação.
Quem conhece as escolas sabe muito bem que todos os dias se verificam, tal como em qualquer estrutura humana, incidentes indesejáveis e negativos. As escolas devem ter dispositivos, por exemplo, a avaliação de professores e um quadro normativo eficaz e desburocratizado que lhes permita lidar com a generalidade das situações. Deveria existir uma figura pela qual me bato há muitos anos, um Provedor da Educação, que caso necessário, pudesse dirimir situações de maior complexidade e que transcendessem a escola.
Este caminho, deslocar os problemas da educação para os tribunais, embora legítimo, naturalmente, parece-me uma má escolha.

SÓ ME FALTA A HISTÓRIA

Chama-se Tiago e tem 12 anos. Frequenta a escola pública da zona onde habita, um bairro tranquilo de uma cidade de média dimensão e é o melhor aluno da sua turma, mesmo um dos melhores da escola. Durante a sua ainda curta vida escolar foi sempre bom aluno.
É uma criança simpática, com ar feliz e que gosta de brincar como qualquer um na sua idade tendo um grupo de amigos alargado. Pratica basquetebol num clube pequeno da cidade e, não sendo um jogador notável, empenha-se dando um bom contributo à equipa.
O Tiago vive numa família que gosta dele que sente isso e também gosta da família, dando-se muito bem com a irmã Andreia dois anos mais velha.
É um miúdo falador embora não excessivo, interessa-se pelo que acontece à sua volta e gosta de ajudar os outros, seja em tarefas em casa, seja em tarefas na escola em que está sempre disposto a colaborar, quer com colegas, quer com professores.
O Tiago é um rapaz tranquilo, cumpridor das regras definidas em casa ou na escola não gostando de se envolver em situações que possam ser mais complicadas.
O Tiago gosta particularmente do avô Luís em casa de quem passa sempre algum tempo nas férias.
Quando tem algum tempo em casa, depois de cumprir os trabalhos da escola gosta de estar no computador ou jogar com a Playstation, sem exagerar no tempo, e ouve alguma música enquanto lê livros de aventuras, os seus preferidos.

Bom, já tenho o personagem ideal, só me falta inventar a história.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

UM DIA ACABO COM TUDO

A propósito da realização do XXI Encontro Nacional de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, o DN aborda a questão dos comportamentos autodestrutivos em adolescentes e jovens. São divulgados alguns dados que justificam umas notas simples. Na consulta de prevenção do suicídio dos Hospitais Universitários de Coimbra, metade dos atendidos tem menos de 24 e cerca de 20% repetem a consulta. Em 2007 ocorreram 8 casos de suicídio entre os 11 e os 20 anos e nos primeiros 6 meses de 2008 também se verificaram 8 casos.
Segundo os elementos do departamento de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria os comportamentos autodestrutivos em adolescentes são mais frequentes do que se pensa, estudos internacionais apontam para cerca de 10% da população em idade escolar com comportamentos de auto-mutilação.
Este quadro é um indicador do mal-estar que muitos adolescentes e jovens sentem. Em muitas situações não conseguimos estar suficientemente atentos. Acontecem com alguma frequência situações de sofrimento com as mais diversas origens, relações entre colegas, bullying por exemplo, ou relações degradadas em família que facilitam a instalação de sentimentos de rejeição, ausência de suporte social, facilitadoras de comportamentos autodestrutivos.
Curiosamente, em muitas circunstância este mal-estar é drenado para comportamentos com carácter mais social e que são percepcionados como “cool”, estimulando a “pica”, a adrenalina. O Público de hoje refere a preocupação que em França se sente com a realização de concentrações de jovens, convocadas através das redes sociais, num determinado local de uma cidade com o único fim de beber, muito. Ao que a notícia refere já se verificaram acidentes fatais.
É por questões desta natureza que tenho sempre alguma reserva face aos discursos sobre a juventude de hoje “a quem não falta nada”, que “tem tudo”. Por vezes tendo “tudo”, apenas não tem atenção, um dos imprescindíveis bens de primeira necessidade.

OS MIÚDOS, ESSES RESPIGADORES

Já não é a primeira vez aqui no Atenta Inquietude que algo me faz lembrar e citar o lindíssimo "Os Respigadores e a Respigadora" de Agnès Varda. Hoje faço-o de novo a propósito da vida de alguns miúdos.
É verdade, um número demasiado elevado de crianças e adolescentes são uma espécie de respigadores, ou seja, a sua vida depende muito das sobras da vida dos adultos.
Existem crianças que apenas têm pais e mães no tempo que a estes sobre, pouco, dos estilos de vida a que estão obrigados ou escolhem.
Em muitas circunstâncias os miúdos têm apenas a voz que os silêncios dos adultos, curtos, lhes concede.
Existe muita gente miúda que na escola tem a atenção que sobra do cansaço e do esforço mal compreendido de muitos professores.
Todos conhecemos miúdos, mais pequenos e mais grandes, que se confortam com as sobras dos afectos que os adultos têm para distribuir.
Existem muitos miúdos que para brincar, a actividade mais séria que se faz quando se é pequeno, apenas têm o tempo que sobra da quantidade enorme de actividades com que são intoxicados em nome da excelência e do desenvolvimento.
Curiosamente e de forma paradoxal, muitos destes respigadores pequenos têm muitas coisas em excesso, que lhes não fazem falta alguma. Mas isso é outra história.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

DE PEQUENINO É QUE ...

De vez em quando, mesmo no meio dos problemas aparece algo de positivo que vale pena sublinhar e divulgar.
O Público informa que o Programa de Intervenção Precoce na Infância no Alentejo, que apoia cerca de 2400 crianças com deficiência ou problemas de desenvolvimento e respectivas famílias, recebe hoje, em Genebra, um prémio da Organização Mundial de Saúde (OMS).
É consensual que em crianças com sérios problemas, deficiência ou alterações no seu desenvolvimento, a intervenção precoce pode fazer a diferença entre um projecto de vida mais positivo e um destino sem oportunidades que envolve de forma dramática as famílias.
É interessante que mesmo numa região em que habitualmente são apontadas carências e dificuldades, o Alentejo, é possível promover bom trabalho e eficaz.
O que me parece também de sublinhar, sobretudo porque vivemos num país quintalizado, em que os donos dos quintais, ciosos das suas competências e pequenos poderes, dificultam a cooperação e a conjugação de esforços, o Programa de Intervenção Precoce envolve os Ministérios da Saúde, da Educação e da Segurança Social.
Curiosamente e espelhando a cultura que nos envolve, esta notícia quase não é objecto de comentários. Sinais dos tempos, já não somos capazes de ver coisas positivas.

QUANDO É QUE SE FICA CRESCIDO

Um dia destes, o João encontrou no recreio o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, e ficaram uns minutos à conversa, poucos que o intervalo é curto. O João vinha em animada conversa com o Pedro e pelos vistos a discussão estava empatada pelo que pediram arbitragem ao Professor Velho.
Velho, quando é que achas que a gente acaba de crescer? Eu acho que é quando o corpo já não fica maior e o Pedro diz que se pode dizer que é quando as pessoas têm de tomar conta da vida delas.
Não sei se sou capaz de vos ajudar, porque a resposta não é fácil. É verdade que pode dizer-se que quando o corpo já não fica mais alto, parámos de crescer. Mas também podemos dizer que, de uma forma geral, os mais crescidos, a partir de certa altura começam a ter de tomar conta da sua vida e por isso também se pode dizer que acabaram de crescer. Sabem, no entanto, que as pessoas podem continuar a aprender coisas ao longo da vida toda e por isso pode dizer-se que nunca se acaba de crescer. Há também pessoas que têm qualidades que vão ficando sempre melhores em alguma coisa pelo que também se poderá dizer que não acabam de crescer. Por outro lado, existe gente que ...
Chega Velho. Pedro, se calhar ficar crescido é isto, complicar, complicar. É melhor crescer devagar.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

GORDURA NÃO É FORMOSURA

Há uns meses atrás, a propósito de um estudo realizado em Portugal mostrando como a obesidade infantil é já um problema de saúde pública implicando, por exemplo, o disparar de casos de diabete tipo II em crianças, relatei aqui no Atenta Inquietude a cena de um extremoso pai que, ao meu lado, proporcionava a uma criancinha com 8 ou 9 anos um pequeno almoço composto de três salgados e uma lata de cola. Curiosamente esse texto despertou algumas reacções vindas, creio, de algumas pessoas que entendem que qualquer discurso ou iniciativa no âmbito dos comportamentos configuram uma intromissão e desrespeito dos direitos individuais. Insisto na necessidade de iniciativas e discursos que promovam comportamentos mais saudáveis sobretudo quando se trata de crianças que são obviamente mais vulneráveis e desinformadas.
Um estudo hoje divulgado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade revela indicadores preocupantes. Entre os 2 e os 5 anos, 27,4 dos rapazes e 30,8% das raparigas estão em situação de pré-obesidade ou obesidade. Na faixa etária entre os 11 e os 15 anos a percentagem é de 28,6 para os rapazes e 27,8 para as raparigas. Em adultos e sem surpresa os números pioram, 50% dos homens e 30% das mulheres estarão em situação de pré-obesidade ou obesidade.
As consequências potenciais deste quadro em termos de saúde e qualidade de vida são muito significativas, quer em termos individuais, quer em termos sociais. Assim, e como já tenho referido no Atenta Inquietude, um problema de saúde pública desta dimensão e impacto justifica a definição de programas de prevenção, educação e remediação que o combatam.
Provavelmente, teremos algumas reacções contra o chamado “fundamentalismo nos hábitos individuais” mas creio que são também de ponderar as implicações colectivas e sociais do problema. Além de que todos nós sabemos que o excesso de peso não será, para a esmagadora maioria das pessoas nessa situação, uma escolha individual, é algo de que não gostam e sofrem, de diferentes formas, com isso.

DESESPERANÇA

A capa do JN de hoje é assustadora, "730 000 portugueses desempregados". Embora, o Primeiro-ministro tenha referido alguns sinais positivos, em Abril baixou pela primeira vez o número de pessoas inscritas nos Centros de Emprego, o desemprego é a consequência mais grave da crise económica, importando também considerar a existência de cerca de dois milhões em risco de pobreza. Este quadro é arrasador e dificilmente permite algum optimismo a curto e médio prazo.
Neste contexto e obrigado pela ditadura de Bruxelas a contrariar os efeitos de décadas de políticas públicas despesistas e desreguladas, o Governo opta pelo mais fácil e de rentabilidade imediata, o aumento de impostos o que parece, creio, agravar a situação de vulnerabilidade em que aquelas pessoas se encontram.
É muito difícil entender e aceitar, por exemplo, que se aumente o IVA envolvendo bens essenciais, que tanto atinge os mais pobres como os mais ricos e que não se vá mais longe no corte de despesas como aquisição de bens ou serviços por parte da administração pública, central, local ou de instituições com tutela pública. A título de exemplo, sabe-se que existem centenas de institutos e organismos de duvidosa eficácia e desconhecidas competências que são um sorvedouro de dinheiro em termos de salários para a administração, custos de funcionamento, manutenção, etc.
Este cenário torna possível a incubação de dois tipos de atitude que podem coexistir mas que são sempre de efeitos sociais muito complicados. A desesperança, que promove a desistência e a entrega ou, do outro lado, a revolta com desenvolvimentos e dimensões imprevisíveis.
A desesperança e a revolta, juntas, podem ser pólvora.