quinta-feira, 13 de março de 2014

DOIS PAIS, DUAS MÃES. De novo

Amanhã será discutida e votada na Assembleia da República a proposta relativa à co-adopção de crianças por parte de casais homossexuais. O sentido da votação está em aberto pelo que se gera alguma expectativa. Vamos portanto aguardar este novo passo que ainda não envolve a adopção plena.
No entanto, creio que se justifica retomar algumas notas já muitas vezes aqui referidas.
Esta matéria é um bom exemplo do tipo de questões que estarão permanentemente em aberto na medida em que mais do que considerações de natureza científica envolve valores.
Na verdade, para além dos discursos anónimos ou identificados, mais ou menos equilibrados, mais ou menos boçais, mais ou menos ignorantes, mais ou menos sofisticados e assentes, aparentemente, em ciência, ficarão sempre os valores e a forma como se olha o mundo. Não é grave, pelo contrário, parece-me normal e legítimo mas importa assumir que se trata de valores e não de ciência.
Se estão recordados, há alguns meses a Ordem dos Advogados divulgou um parecer contra a proposta de permitir a co-adopção  e adopção fundamentando na ideia de "família natural" o que faz pressupor para a Ordem dos Advogados que numa situação em que uma mãe jovem fique viúva e decida viver com a sua mãe, ficando assim a sua filha ou filho a viver com duas mulheres, teremos uma família "não natural" que, eventualmente, colocará a criança em risco. É fraco o argumento que aliás motivou uma tomada de posição de alguns advogados pouco confortáveis com a pobreza da argumentação e posição da Ordem. Um artigo do Bastonário posteriormente divulgado no JN é uma peça antológica no que respeita a preconceito e desinformação.
Há alguns meses, foi referenciado por alguma imprensa em Portugal uma decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que entendeu que a Áustria violou a Convenção Europeia dos Direitos do Homem por não ter permitido a adopção co-parental a um casal homossexual. Na sua decisão, o Tribunal citou Portugal como um dos países com o mesmo entendimento que a Áustria.
Parece-me de referir que o Tribunal Europeu considerou que o Governo austríaco não apresentou provas sólidas de que seria “prejudicial para uma criança ser adoptada por um casal homossexual ou ter legalmente duas mães ou dois pais”.
Vale a pena retomar o argumentário contra a adopção e que se organiza em torno de três grandes ideias, e que são a eventual dificuldade da criança em lidar com a sua orientação sexual, a vulnerabilidade psicológica e o risco de problemas de comportamento e também o risco acrescido de serem alvo de discriminação, por exemplo, em contextos escolares.
Como foi afirmado há algum tempo numa conferência realizada em Lisboa sobre a homoparentalidade, uma revisão de algumas dezenas de estudos sobre este conjunto de razões realizada pela Associação Americana de Psicologia, motivou uma resolução da Associação, em 2004, que não confirma nenhuma destas preocupações o que também transpareceu em alguns testemunhos expressos num trabalho que o Público realizou na altura. Parece ainda de registar que em 2010, a Associação Americana de Psiquiatria afirmava "apoiar as iniciativas que permitam a casais do mesmo sexo adoptar e co-educar crianças". Também já este ano a Ordem dos Psicólogos de Portugal referiu em parecer que "os resultados das investigações psicológicas apoiam a possibilidade de co-adopção por parte de casais homossexuais, uma vez que não encontram diferenças relativamente ao impacto da orientação sexual no desenvolvimento da criança e nas competências parentais". Na mesma linha foi hoje divulga mais uma revisão de estudos sobre esta matéria mostrando que a homoparentalidade não afecta o desenvolvimento das crianças.
Podemos também lembrar que a maioria das pessoas homossexuais terá sido educada em famílias heterossexuais, que existem muitas crianças com sérios problemas emocionais e vulnerabilidade psicológica, a experimentarem condições de mal-estar devastador integrando situações familiares heterossexuais ou, finalmente, que existem múltiplos casos de crianças discriminadas por variadas razões em contexto escolar o que não nos faz retirar, por princípio, as crianças da escola mas, pelo contrário, combater a discriminação sejam quais forem as circunstâncias.
Do meu ponto de vista e de uma forma propositadamente simples, a questão central é que o que faz com toda a certeza mal às crianças, é serem maltratadas e os maus tratos não decorrem do tipo de famílias, mas da competência humana e educativa, por assim dizer, de quem delas cuida, pais, mães ou educadores. Quando as crianças são bem tratadas e crescem com adultos que gostam delas, as protegem e as ajudam a crescer, elas encontram caminhos para lidar com dois pais ou com duas mães.
Insisto, o que as crianças quase sempre não sabem como resolver é quando têm por perto adultos, heterossexuais ou homossexuais, que não gostam delas, que as maltratam, negligenciam, abandonam, etc. Isso é que faz mal às crianças.
O resto é uma discussão não conclusiva, assente em valores de que não discuto a legitimidade, mas que não podem ser confundidos com um discurso de defesa das crianças de males que estão por provar.
Parece bem mais importante defendê-las dos males comprovados e que todos os dias desfilam aos nossos olhos.

O GOVERNO INSISTE ...

no Programa Empobrecimento a Tempo Inteiro que de forma muito bem sucedida tem vindo a ser posto em prática.
Na verdade, depois de décadas em que a maioria dos portugueses não teve o privilégio de beneficiar das virtudes do estado de pobreza, o Programa de Empobrecimento a Tempo Inteiro tem vindo a devolver aos portugueses a felicidade do empobrecimento e a sua salvífica condição.
Com uma invejável determinação e coragem o Governo tem conseguido transformar milhões de portugueses em pobres, há quem lhes chame, os novos pobres, pelo que o nosso índice de felicidade tem vindo a subir sustentada e estruturalmente.
É verdade que existe uma pequena minoria que tem sido inaceitávelmente discriminada pelo que não tem beneficiado das Actividades de Empobrecimento Familiar, antes pelo contrário, alguns estão mesmo mais ricos. Não é justo que fiquem privados do usufruto da pobreza.
Alguns ingratos, irrealistas, mal agradecidos, ignorantes ou mesmo mal intencionados entendem que que não eram necessárias tantas Actividades de Empobrecimento Familiar. Não passam de vozes de burro que, evidentemente, não chegam ao céu. Como o Primeiro-ministro afirmou há pouco, as pessoas "simples" entendem o seu empobrecimento, é assim o seu destino.
Como se sabe, o céu está guardado para os bem aventurados pobres.
E assim se cumpre Portugal.

UM HOMEM APAGADO

Era uma vez um homem. Chamava-se Apagado. Em toda a sua vida, de tão apagado que era, mal se notava a sua presença. 
Os amigos, sempre poucos, foram-se afastando de tão apagada companhia. 
A falta de brilho do Apagado nunca o ajudou a encontrar alguém com quem partilhar a sua vida. No discreto emprego em que se escondia, os colegas apenas suportavam o seu apagado estar. 
O Apagado, cada vez que olhava à sua volta, menos gente via e mais apagado se sentia. 
Parecia conformadamente apagado.
Um dia, cansado da sua apagada existência, pegou numa borracha grande e, a partir dos pés, meticulosamente, começou a apagar-se em gestos, finalmente, seguros e decididos.

EDUCAÇÃO E ENSINO PÚBLICO, LEMBRAM-SE?


A propósito da iniciativa hoje promovida por um grupo significativo de Associações de Estudantes do Ensino Básico e Secundário realizando em diferentes cidades manifestações em defesa da educação e ensino público de qualidade, algumas notas que começam com a interrogação em título, "Educação e Ensino Público, lembram-se?"
O sentido da resposta parece-me claro. De forma determinada o Ministro Nuno Crato vai cumprindo a sua agenda cada vez mais explícita, o financiamento do ensino privado à custa da degradação e desinvestimento do ensino público sob o princípio da liberdade de escolha, ou seja, um forte apoio ao negócio da educação.
Neste sentido, como já afirmei, compreende-se que para o OGE de 2014 para a Educação as verbas destinadas a financiar sob diferentes formas o ensino privado sejam reforçadas. Para além da inacreditável possibilidade de estabelecer contratos de associação ainda que exista ensino público com oferta educativa disponível na mesma área, teremos o cheque-ensino já com uma dotação de 19.4 milhões de euros e a desenvolver em termos experimentais. Em modo MEC, período experimental quer dizer pré-generalização como se verificou com o ensino vocacional que antes da avaliação entrou em generalização.
A experiência do que têm sido tais práticas de liberalização noutra paragens e o conhecimento dos territórios educativos portugueses sugerem que na verdade percorremos um caminho de privatização da educação transformando-a num serviço que as famílias compram de acordo com as suas possibilidades económicas para os verdadeiros destinatários desse serviço, os seus filhos.
Aliás, parece-me claro que a cultura mais generalizada entende os estabelecimentos de ensino privado como exclusivos e muitos deles são profundamente selectivos na população que acolhem, o que leva, justamente, muitos pais  a escolher "comprar", por assim dizer, essa exclusividade, que só por existir já é um negócio, um bom negócio.
Por outro lado, a PEC – Política Educativa em Curso tem sido e será basicamente um exercício contabilístico, ou seja, muitas mudanças promovidas parecem ter como princípio fundador a contabilidade, ou seja, o corte do investimento, e não a qualidade do trabalho de alunos e professores. Na verdade, temos tido menos escolas, menos professores, mais alunos por turma, menos apoios escolares e sociais aos miúdos e famílias, menos pessoal técnico e auxiliar, menos direcções, menos qualquer coisa que dê para poupar dinheiro. No fundo, menos qualidade na escola pública. 
A maioria das famílias irá, evidentemente, manter os seus filhos nas escolas públicas que sofrendo forte desinvestimento terão menos recursos, apoios e autonomia real e em que os professores serão obrigados a funcionar num registo de "contents delivery" a turmas enormes de alunos que através de sucessivos exames passarão por uma espécie de "darwinismo educativo", sobrevivendo os clientes mais fortes, sendo os mais fracos enviados para o "trabalho manual".
Sopram ventos adversos, são os mercados a funcionar, dizem, também na educação. Os clientes mais "favorecidos", para utilizar um eufemismo frequente, comprarão bons serviços educativos e os menos "favorecidos" ... assim continuarão.
É o destino. Talvez as manifestações dos estudantes possam ajudar a contrariá-lo.

AS FACES OCULTAS


Outra vez e sempre, as vezes que forem necessárias.  
A roda livre de impunidade e incumprimento dos mais elementares princípios éticos quando não da lei, produziu nas últimas décadas uma verdadeira família que, à sombra dos aparelhos partidários e através de percursos políticos, se movimentam num tráfego intenso entre entidades e empresas públicas e entidades privadas, envolvendo-se frequentemente em negócios que insultam os cidadãos. 
Esta família alargada envolve gente de vários quadrantes sociais e políticos com uma característica comum, os negócios obscuros, e tem membros destacados como Oliveira e Costa, Jardim Gonçalves, Dias Loureiro, Duarte Lima, Isaltino Morais, Penedos, Vara e tantas outras faces mais ou menos ocultas, mais ou menos mediatizadas, mais ou menos discretas na função ou no comportamento.
Acontece ainda e isto tem efeitos devastadores, que muitos dos negócios que esta família vai realizando, envolvendo com frequência dinheiros públicos e com pesados encargos para os contribuintes.
Entretanto, do outro lado desta família que se protege e apoia, com a cooperação estratégica de um sistema de justiça forte com os fracos e fraca com os fortes, temos milhões de portugueses em situações de pobreza e exclusão e a esmagadora maioria da população esmagada por políticas de austeridade que sacrificam a dignidade e ameaçam a sobrevivência.
Todos os membros desta família, quando questionados sobre os seus negócios ou envolvimento em algo, afirmam, invariavelmente que tudo é feito tudo dentro da lei, nada de incorrecto e, portanto, estão sempre de consciência tranquila.
Alguém poderia explicar a esta gente que, primeiro, não somos parvos e, segundo, o que quer dizer consciência.
Esta é a pantanosa pátria, nossa amada. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

MENU ESTUDANTE 4€, MENU PROFESSOR 4.60€

Hoje ao passar por uma zona aqui da terra que tem algumas escolas nas redondezas, o olhar parou numa montra do que se chama um "estabelecimento de restauração" no qual estava uma mensagem publicitária que tinha como "target" (estou a aprender) específico, alunos e professores.
A mensagem escrita em letras grandes num toalhete de mesa em papel branco colado na montra, como é costume em muitos estabelecimentos do ramo, anunciava:
Achei particularmente interessante a iniciativa deste empreendedor, como agora se diz.
Em primeiro lugar deve registar-se o equilíbrio nutricional da oferta. Presumo que a bifana para os professores também será acompanhada de batata frita, sendo que os alunos beneficiam do ovo em troca do café. Muito bem.
No entanto, o que achei verdadeiramente estimulante é o produto também ser diversificado no preço, embora ligeiramente mais caro para os professores, 60 cêntimos, certamente o valor a considerar pela bicazinha.
Na verdade parece ajustado o entendimento do atento empresário de restauração.
O custo de 4 € pelo menu para os alunos será provavelmente compatível com as mesadas que os que almoçarão no "estabelecimento de restauração" terão das suas famílias.
Na mesma linha, o preço de 4.60 € pelo almocinho a suportar pelos professores pode também considerar-se compatível com a mesada que o MEC lhes está a oferecer com a designação de "vencimento". 
Talvez possamos considerar esta iniciativa um bom exemplo de equidade e responsabilidade social.

PAÍS DE PIEGAS

Um estudo da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional mostra níveis preocupantes de mal estar em situação de trabalho, designadamente, em funcionários da administração pública.
As situações de stresse e esgotamento aumentaram significativamente nos últimos anos. Cerca de 83% dos inquiridos afirma-se esgotado e 78% expressa a vontade de deixar o emprego a curto prazo, sendo que o absentismo também tem vindo a aumentar.
Estes dados mostram como, de facto, o Primeiro-ministro tem razão com a pieguice dos portugueses, lamentam-se pelos cantos, continuam acantonados na sua "zona de conforto", resignados, sem qualquer sobressalto de empreendedorismo e queixam-se a quem passa sobre as agruras da sua vida com um "it's an injustice, it is".
Pieguices sem sentido.
Estes dados que não surpreendem mostram um outro lado menos tangível dos tempos negros que temos vindo a atravessar e de que não vislumbramos o fim.
A degradação da qualidade de vida quer nas famílias, quer nos espaços profissionais tem sido brutal. Mesmo em pessoas que mantêm o emprego, a alteração de condições, a ameaça permanente do desemprego e dos cortes nos rendimentos que desequilibram os orçamentos familiares é uma fonte de mal-estar muito significativa.
Acresce o impacto de uma outra dimensão cada vez mais presente nos contextos laborais, a pressão e a competição que muitas pessoas suportam com maior dificuldade.
Destas características dos contextos profissionais resulta um cenário extremamente pesado para muita gente traduzido nos níveis de esgotamento demonstrado.
Estes dados também ajudam a perceber porque somos um dos países da Europa com maior consumo de psicofármacos.
Na verdade, contrariamente aos desejos dos feitores que nos administram em nome dos que verdadeiramente governam, ficamos mais pobres mas não ficamos mais felizes.
Enfim, como já disse, continuamos uns piegas.

AEF - Actividades de Empobrecimento Familiar

No âmbito do Programa Empobrecimento a Tempo Inteiro que de forma muito bem sucedida tem vindo a ser posto em prática pelo Governo, o Presidente da República providencia mais um valioso contributo no sentido de eficazmente empobrecer as famílias portuguesas aceitando novos cortes nas pensões.
Na verdade, depois de décadas em que a maioria dos portugueses não teve o privilégio de beneficiar das virtudes do estado de pobreza, o Programa de Empobrecimento a Tempo Inteiro tem vindo a devolver aos portugueses a felicidade do empobrecimento e a sua salvífica condição.
Com uma invejável determinação e coragem o Governo tem conseguido transformar milhões de portugueses em pobres, há quem lhes chame, os novos pobres, pelo que o nosso índice de felicidade tem vindo a subir sustentada e estruturalmente.
É verdade que existe uma pequena minoria que tem sido inaceitávelmente discriminada pelo que não tem beneficiado das Actividades de Empobrecimento Familiar, antes pelo contrário, alguns estão mesmo mais ricos. Não é justo que fiquem privados do usufruto da pobreza.
Alguns ingratos, irrealistas, mal agradecidos, ignorantes ou mesmo mal intencionados entendem que que não eram necessárias tantas Actividades de Empobrecimento Familiar. Não passam de vozes de burro que, evidentemente, não chegam ao céu. Como o Primeiro-ministro hoje afirmou, as pessoas "simples" entendem o seu empobrecimento, é assim o seu destino.
Como se sabe, o céu está guardado para os bem aventurados pobres.
E assim se cumpre Portugal.

terça-feira, 11 de março de 2014

MIÚDOS CALADOS

Era uma vez uma Professora que andava com umas dúvidas sérias. Ela achava que os seus alunos trabalhavam melhor e sentiam-se também melhor quando, por períodos grandes, falavam nas aulas. Tinha lido algumas coisas que lhe pareciam interessantes sobre estas matérias, pelo que organizava debates e muitos trabalhos realizados em grupo e com grandes discussões entre os alunos.
Esta ideia não ia muito ao encontro da sua experiência de pequena e de alguma da formação que lhe deram. Por outro lado, parte significativa dos seus colegas criticavam porque, diziam, fomentava maus hábitos nos alunos e levava a que os alunos deles lhes levantassem problemas porque queriam falar. Além disso, na comunicação social, apareciam uns opinadores, vários,  a afirmar que, na escola, o trabalho dos meninos é ouvir o professor e estudar, de preferência calados. É assim que se aprende, dizem essas pessoas. Tudo isto lhe causava dúvidas sobre o que estava fazer.
Um dia, na biblioteca, encontrou o Professor Velho, o que fala com os livros, e, em jeito de desabafo, comentou as sua inquietações e a dificuldade em explicar a ideia que acreditava ser certa. O Professor Velho riu-se e falou daquele modo baixinho.
Professora, é engraçada essa questão. Que costumam dizer muitos pais quando percebem os seus filhos muito tempo quietos e calados?
Ora Velho não brinques. Os pais costumam dizer que, ou estão doentes, ou estão a fazer asneira, ou já fizeram asneira”.
Pois é Professora, pergunta aos teus colegas se querem os alunos doentes ou a fazer asneira.
É mesmo Velho, acho mesmo que estou certa, vou falar com os alunos sobre isto.

Esta história, tal como a que ontem contei, passou-se num tempo AMC - Antes das Metas Curriculares. Da forma que estas foram definidas, os professores e os alunos ficam sem tempo para ensinar e aprender ... conversando.

BULLYING, FENÓMENO NOSSO DE CADA DIA

A propósito do trabalho do Público sobre o fenómeno do bullying, algumas notas repescadas.
De facto e como e como é referido na peça, a gravidade e a regularidade destes episódios exigem uma atenção e reflexão contínuas, sabe-se que a ocorrência de situações de bullying é bem superior ao número de casos que são relatados. Uma das características do fenómeno, nas suas diferentes formas, incluindo o emergente cyberbullying, é justamente o medo e a ameaça de represálias a vítimas e assistentes que, evidentemente, inibem a queixa pelo que ainda mais se justifica a atenção proactiva e preventiva de adultos, pais, professores ou funcionários.
Estima-se que nos últimos três anos o fenómeno tenha provocado pelo menos 12 suicídios nos Estados Unidos. Recordo ainda que foi anunciado em Setembro que a Direcção-geral de Saúde iria promover em várias escolas do país durante este ano lectivo um projecto de prevenção do suicídio dirigido a adolescentes. Felizmente, a taxa de suicídio adolescente em Portugal não é muito alta, embora um só caso já seja uma tragédia. No entanto, os comportamentos de natureza auto-destrutiva são bem mais prevalentes do que se pensa. Em algumas circunstâncias, mais tarde estes comportamentos podem culminar em suicídio.
Neste contexto e dada a gravidade e frequência com que ocorrem estes episódios é imprescindível que lhes dediquemos atenção ajustada, nem sobrevalorizando o que promove insegurança e ansiedade, nem desvalorizando negligenciando riscos e sofrimento.
Neste universo importa considerar dois eixos fundamentais de intervenção por demais conhecidos, a prevenção e a intervenção depois dos problemas ocorrerem. Esta intervenção pode, por sua vez e de forma simplista, assumir uma componente mais de apoio e correcção ou repressão e punição, sendo que podem coexistir. Com alguma demagogia e ligeireza a propósito do bullying, as vozes a clamar por castigo têm do meu ponto de vista falado mais alto que as vozes que reclamam por dispositivos de prevenção, intervenção e apoio para além da óbvia punição, quando for caso disso.
Relembro que o Portal sobre o bullying teve durante o seu primeiro ano de funcionamento cerca de 650 000 visitas e respondeu a 700 solicitações.
Esta utilização mostra a necessidade de dispositivos de apoio e orientação absolutamente fundamentais para que pais, professores e alunos possam obter informação e apoio. Lamentavelmente, este serviço é exterior às escolas e ilustra a falta de resposta estruturada e global do sistema educativo, para além das insuficiências na formação de técnicos e de professores sobre esta complexa questão, desde logo para o seu reconhecimento. A existência de dispositivos de apoio sediados nas escolas, com recursos qualificados e suficientes é, a par de ajustamentos nos modelos de organização e funcionamento das escolas e de uma séria reestruturação curricular, uma tarefa urgente.
Do meu ponto de vista, o argumento custos não é aceitável porque as consequências de não mudar são incomparavelmente mais caras. Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas é necessário. Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa, ou na escola, espaço onde passam um tempo enorme.
Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. O resultado pode ser trágico. 

INTERESSES E CONSENSOS

Um conjunto significativo de figuras com diferente posicionamento partidário, envolvendo também empresários, patrões, sindicalistas, académicos e constitucionalistas divulgou um manifesto em que se defende a “reestruturação responsável da dívida” como condição imprescindível ao crescimento económico e emprego e constituindo uma alternativa aos modelos assentes na austeridade e no empobrecimento. Este pouco habitual consenso foi estabelecido fora dos aparelhos partidários embora envolva figuras muito significativas de diferentes partidos, do CDS-PP ao BE.
Como seria previsível, o Primeiro-ministro e o genial Ministro Poiares Maduro reagiram firmemente à ideia apelidando-a de “irrealista” e “contrária aos interesses nacionais”, mobilizando uma retórica velha mas que está em retoma, “se não estão de acordo connosco são irrealistas e estão contra os interesses nacionais”.
A questão de fundo é que a partidocracia instalada leva a que, na generalidade das matérias, os interesses partidários imediatos se sobreponham aos interesses gerais, a conflitualidade que sendo importante e muitas vezes estimulante e promotora de mudança, é assente em corporações de interesses e clientelas que inibem a definição de rumos e de perspectivas que visem o interesse geral. O Presidente da República, o Primeiro-ministro, os parceiros sociais, as lideranças partidárias e sociais sabem-no bem, fazem parte do sistema, pelo que os seus discursos se inscrevem no próprio funcionamento do sistema e que conduz ao que temos, sendo que as alternativas prováveis não são particularmente animadoras.
A conflitualidade inerente aos interesses da partidocracia e as visões do que se tem vindo a chamar a reforma do estado, que acabam por se direccionar sobretudo para o chamado estado social e a sua profunda alteração, tornam obviamente impossível o estabelecimento formal do tal entendimento alargado ou consenso.
O que a história a autoriza a considerar como plausível, é a definição de cenários de poder que,  com base numa "negociação" mais ou menos discreta e que não ameace a alternância de governo por parte dos chamados partidos do arco do poder pois, em substância, a questão é justamente o poder. As experiências governativas envolvendo "entendimentos" entre PS e PSD mostram isso mesmo, morrem, pois acabam por não "servir" a nenhum deles.
Assim sendo, os partidos, movimentos ou cidadãos que não têm voz nos corredores do poder, ficarão sempre de fora do entendimento ou do consenso pelo que o poder mesmo que em alternância, é a democracia a funcionar, dirão, acaba por estar basicamente nas mesmas mãos, sendo que estes que não "chegam" a estar representados no poder são a maioria.
Não vale a pena, pois, dar excessiva importância aos apelos a entendimentos e consensos alargados pois, como a reacção ao manifesto evidencia, não servem os interesses imediatos da luta pelo poder e não passam de retórica gasta e, naturalmente, sem consequências.
As implicações de tudo isto na vida das pessoas ... bom, isso é uma outra história bastante mais preocupante e dramática.
Parece-me cada vez mais urgente a reflexão sobre os modelos de organização da actividade política, alimentador da partidocracia instalada, sobretudo na importância de promover a emergência de formas de participação cívica fora dos aparelhos partidários, é o que melhor se adequa à construção de sociedades modernas, abertas, participativas e preocupadas com a vida colectiva. Tal caminho criaria também uma pressão externa para a reforma dos discursos e praxis próprios partidos.

A "desilusão" e "descrença" com a democracia parece-me na verdade algo de preocupante, instalando de mansinho um caldo de cultura favorável à emergência de derivas de natureza não democrática de contornos populistas e demagógicos, produtos altamente perigosos e inflamáveis.

segunda-feira, 10 de março de 2014

HISTÓRIA COM TEMPO

Era uma vez uma Professora. Era ainda nova e uma daquelas professoras que acreditava ter nascido para a profissão. Achava-a a mais bonita de todas. É certo que não gostava de muitas coisas que se passavam na escola e à sua volta, mas, ainda assim, seria a sua vida. 
Naquele ano as coisas não estavam a correr muito bem. Pela primeira vez, tinha um grupo de meninos que estavam na escola pelo primeiro ano. De início ficou muito contente. Ia começar a ajudar os miúdos a ser gente logo desde o princípio de tudo. Preparou-se o melhor possível, com materiais e ideias, mas as dificuldades apareceram. 
Os miúdos falavam o tempo todo, não se aquietavam para trabalhar e a sala, invariavelmente, ficava bastante agitada. Sem se dar conta, percebeu depois, começou a gritar com os alunos como nunca tinha feito e, até, a ameaçá-los com castigos, procurando que se envolvessem nas tarefas que tão empenhadamente tinha preparado. Nada parecia mudar e o desconforto aumentava.
Um dia, quando buscava ajuda ou inspiração na biblioteca, encontrou o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, que a inquiriu sobre o ar desalentado de quem tanto gostava de ser professora. Depois de ouvir a sua história, contada com a cabeça, o coração e os olhos, o Professor Velho falou baixinho.
“Sabes Professora, há um tempo para tudo. Antes do tempo de aprender as coisas da escola, há o tempo de aprender a escola. Os miúdos precisam de um tempo para aprender quem são eles na escola, como é estar na escola. Precisam de te aprender, quem és tu, quem és tu com eles. Precisam de aprender o que é isso da escola, para que serve, como serve, etc. Só depois é que vem o tempo de aprender as coisas da escola, as que tens para lhes mostrar. Nessa altura, já sabem como gostas deles, de os ensinar, mesmo quando gritas e te zangas, e vão devolver-te, mais à frente, o tempo que lhes emprestaste de início. Hoje, queremos que os miúdos andem demasiado depressa, como nós.”
No dia a seguir, a Professora pediu a cada aluno que contasse aos outros a coisa mais bonita que já lhe tinha acontecido. Nunca os tinha visto tão tranquilos. A ouvir-se.

Esta história passou-se num tempo AMC - Antes das Metas Curriculares que, da forma que estas foram definidas, veio roubar ainda mais tempo aos alunos e aos professores.

CUSTOS

Parece claro e indiscutível que a democracia tem custos que devem ser suportados e aceites.
No entanto, pode também afirmar-se que, sobretudo nos tempos que correm, burocracia, despesismo, ineficácia e mordomias injustificadas terão custos bem mais elevados, tangíveis e não tangíveis.

CORRER ATRÁS DE UM FUTURO QUE NÃO MORA AQUI

(Público, 10/03/14)
Na verdade a emigração parece estar a constituir-se como via quase exclusiva para aceder a um futuro onde caiba um projecto de vida positivo e viável, algo que por cá não é fácil vislumbrar.
Aliás, alguns inquéritos junto de estudantes universitários mostram como muitos admitem emigrar em busca de melhores condições de realização pessoal e profissional apesar de muitos afirmarem que pretendem voltar.
Somos um país de emigrantes de há séculos pelo que este movimento de partida, só por si, não será de estranhar. No entanto, creio que é preocupante constatarmos que durante muitos anos a emigração se realizava na busca de melhores condições de vida, a agora a emigração realiza-se à procura da própria vida, muita gente, sobretudo jovens não tem condições de vida, tem nada e parte à procura, não de melhor, mas de qualquer coisa. Este vazio que aqui se sente é angustiante, sobretudo para quem está começar, se sente qualificado e com o desejo de construção de um projecto de vida viável e bem sucedido.
De todo este cenário, resulta o retrato de um país pobre, envelhecido, onde poucos querem fazer nascer crianças, donde muitas pessoas, sobretudo jovens, partem, fogem, à procura de uma vida que aqui lhes parece inacessível.
E o futuro? O futuro não mora aqui.

domingo, 9 de março de 2014

EU SOU ...

Era uma vez um Rapaz. Nasceu numa família que gostava tanto dele, era tão preocupada e tão atenta que, desde início, sabia sempre o que ele precisava, quando precisava e decidia o que o Rapaz devia fazer, ou não, quando fazer e como fazer.
Ele foi-se habituando a viver assim.
Não era necessário pedir algo ou mostrar vontade de aceder a alguma coisa, que a família não antecipasse e determinasse desejos e, ou, necessidades.
Ao entrar na escola, deparou-se com professores tão atentos e preocupados como os pais. Tudo lhe era providenciado sem necessidade de pedir ou desejar. Todos os professores, todos os adultos, de tão atentos e preocupados que eram, sabiam sempre o que dizer, fazer ou definir o que o Rapaz, também ele, deveria pensar, saber, gostar, fazer, etc.
Um dia, já adolescente, lá na escola, uma Rapariga muito bonita aproximou-se do Rapaz para saber dele, conhecê-lo.
O Rapaz ficou perplexo e atrapalhado, não sabia dizer quem era.

PRIMEIRO LEGISLA-SE, DEPOIS LOGO SE VÊ. O MEC às arrecuas

Nada de novo. Como refere o Público, o MEC volta a alterar as regras de realização dos exames nacionais do ensino secundário que envolvem os alunos dos cursos profissionais e do ensino artístico que não cumprirão os procedimentos o que entretanto o MEC tinha definido. Assim, no ano em curso, os alunos do ensino profissional e dos cursos artísticos especializados que finalizem os respectivos cursos e pretendam ingressar no ensino superior apenas realizarão um exame nacional a Português e as provas específicas que os estabelecimentos de ensino superior a que se candidatem possa estabelecer.
Considero absolutamente natural que ao tomar decisões que não se revelam as mais adequadas, exista a inteligência, a responsabilidade e a sensibilidade para mudar de posição, corrigindo decisões ou procedimentos. Sublinho que isto deve ser encarado com normalidade e não como fruto da crítica ou combate embora, quase sempre, a crítica e o combate se tornem necessários para promover mudança.
O que já tenho mais dificuldade em compreender é a deriva e ligeireza com que um Ministério liderado por um homem que faz do rigor, da qualidade e da excelência, o farol da sua actuação, se envolve em sucessivas trapalhadas, avanços e recuos, confusão de processos e orientações de que esta questão é apenas mais um exemplo e nem sequer o mais grave.
Não, definitivamente este tempo na educação não tem nada a ver com tranquilidade e normalidade. A não ser que, dramaticamente, tudo o que temos vindo a assistir seja a normalidade.

SAÍDA LIMPA ?!

Anda por aí um alarido sobre se Portugal deverá, ou não, ter uma saída "limpa" do programa a que chamaram de ajustamento mas que se tratou de empobrecimento.
A discussão envolve sobretudo os economistas e os políticos que ocupam, ou querem ocupar o poder, um grupo de gente que de uma forma geral como os últimos tempos têm mostrado, salvo algumas excepções, sabe pouco de pessoas, sim, de pessoas.
Uns, apoiam-se em modelos teóricos e interesses que, evidentemente, não têm a ver com os interesses da maioria das pessoas e do seu bem-estar, outros produzem elucidativas afirmações como "A vida das pessoas não está melhor, mas a vida do país está muito melhor" ou que o "empobrecimento " é um caminho para o desenvolvimento.
Na verdade, se olharmos para o que tem sido e vai continuar a ser a vida de milhões de portugueses, para o brutal nível de desemprego, com muita gente sem qualquer perspetiva de voltar a conseguir trabalho, para milhares e milhares de jovens com vidas adiadas e precárias com muitos partir de uma terra que deles não cuida, o empobrecimento das famílias, dos velhos, etc., como é que é possível falar de uma "saída" e de uma saída "limpa"?
Não sei se vamos ter uma saída limpa, não sei vamos ter uma saída com "plano cautelar", não sei se vamos ter uma saída "mista". Os administradores, a troika e a Senhora Merkel, dirão e os feitores que nos governam cumprirão.
Sei que vamos continuar com um inferno na vida da gente, com a dignidade roubada ou ameaçada e alguma outra gente continuará com as mãos e a consciência, se a tivesse, bem sujas.

sábado, 8 de março de 2014

MULHERES

Não há volta a dar, 8 de Março, o calendário das consciências manda reparar nas mulheres. Para além das iniciativas que fazem parte da liturgia comemorativa, reparemos então.
Reparemos como tem aumentado a violência doméstica incluindo homicídios ou, pelo menos, o conhecimento público desses episódios, sendo boa parte dos episódios não são sequer objecto de procedimento.
Reparemos como se mantém a diferença de oportunidades e a desigualdade salarial apesar das mudanças legislativas.
Reparemos na dificuldade que muitas mulheres em Portugal têm em conciliar maternidade com carreira, adiando ou inibindo uma ou outra, sendo cada mais preterida a maternidade.
Reparemos em como as mulheres portuguesas são das que na Europa mais horas trabalham fora de casa.
Reparemos na necessidade de imposição legal de quotas para garantia de equidade.
Reparemos na desigualdade no que respeita à ocupação de postos de chefia.
Reparemos nos números do tráfico e abuso de mulheres que também passa por Portugal.
Reparemos na criminosa mutilação genital feminina, também realizada em Portugal.
Reparemos como a igreja continua a discriminar as mulheres.
Reparemos na quantidade de mulheres idosas que vivem sós, sobrevivem isoladas e acabam por morrer de sozinhismo sem que ninguém, quase, se dê conta.
Reparemos, finalmente, no que ainda está por fazer.
Até para o ano, portanto.

sexta-feira, 7 de março de 2014

A DANÇA DAS CADEIRAS


Estando em  preparação mais um episódio do popular jogo "A dança das cadeiras", agora em versão União Europeia, Passos Coelho aponta Durão Barroso para outro cargo europeu onde as suas vastíssimas qualidades e experiência fossem aproveitadas, a Presidência do Conselho Europeu, por exemplo.
Marcelo Rebelo de Sousa, também conhecido por "O Professor", agradece a janela de oportunidade, como agora se diz, para voltar à condição de potencial candidato à Presidência da República apoiado pelo PSD.

OS NEGÓCIOS DA FAMÍLIA. Um filme em pemanente exibição

Outra vez e sempre.
A roda livre de impunidade e incumprimento dos mais elementares princípios éticos quando não da lei, produziu nas últimas décadas uma verdadeira família que, à sombra dos aparelhos partidários e através de percursos políticos, se movimentam num tráfego intenso entre entidades e empresas públicas e entidades privadas, envolvendo-se frequentemente em negócios que insultam os cidadãos. 
Esta família alargada envolve gente de vários quadrantes sociais e políticos com uma característica comum, os negócios obscuros, e tem membros destacados como Oliveira e Costa, Jardim Gonçalves, Dias Loureiro, Duarte Lima, Isaltino Morais entre tantos outros com menos impacto mediático, mais discretos na função ou no comportamento.
Acontece ainda e isto tem efeitos devastadores, que muitos dos negócios que esta família vai realizando, envolvendo com frequência dinheiros públicos ou, caso da SLN/BPN, com consequências pesadíssimas para os contribuintes.
Entretanto, do outro lado desta família que se protege e apoia, com a cooperação estratégica de um sistema de justiça forte com os fracos e fraca com os fortes, temos quase três milhões de portugueses em situações de pobreza e exclusão, um milhão de desempregados e a esmagadora maioria da população esmagada por políticas de austeridade que sacrificam a dignidade e ameaçam a sobrevivência.
Todos os membros desta família, quando questionados sobre os seus negócios ou envolvimento em algo, afirmam, invariavelmente que tudo é feito tudo dentro da lei, nada de incorrecto e, portanto, estão sempre de consciência tranquila.
Alguém poderia explicar a esta gente que, primeiro, não somos parvos e, segundo, o que quer dizer consciência.
Esta é a pantanosa pátria, nossa amada. 

OS DESCARTÁVEIS



As pessoas deixam de ser pessoas, são activos, recursos, coisas, que como tal devem ser geridos em função do mercado, adquirem-se, dispensam-se, descartam-se, gerem-se e, finalmente, abandonam-se, com ou sem umas migalhas nas mãos.
Nem a dignidade lhes deixam. Recordo o José Afonso, "Eles comem tudo". 


quinta-feira, 6 de março de 2014

DANTES BRINCÁVAMOS, LEMBRAM-SE?

A lida profissional trouxe-me hoje até ao Minho a uma casa onde me sinto bem, a Universidade do Minho.
Neste fim de tarde que, finalmente, é de Sol e aconchegado de quentura passei por um Parque onde brincavam alguns miúdos.
De repente fiquei a pensar que já poucas vezes se vêem miúdos a brincar na rua.
Há muitos anos, lembro-me bem, ainda brincávamos na rua, melhor dizendo, ainda brincávamos. É certo que muitos de nós não tiveram muito tempo para brincar, logo de pequenos ficaram grandes. Não tínhamos muitos brinquedos, mas tínhamos um tempo e um espaço onde cabiam todas as brincadeiras.
Entretanto, chegaram outros tempos. Tempos que não são de brincar, são de trabalhar, dizem.
Roubaram aos miúdos o tempo e o espaço que nós tínhamos e empregam-nos horas sem fim numas fábricas de pessoas, escolas, chamam-lhes. 
Aí os miúdos trabalham a sério pois, só assim, serão grandes a sério, acham.
Às vezes, alguns miúdos ainda brincam de forma escondida, é que brincar passou a uma actividade clandestina que só pais ou professores “românticos” e “incompetentes” acham importante, acusam.
Muitos outros miúdos têm um "enriquecimento curricular" ou vão para umas coisas a que chamam “tempos livres” ou outra designação, que de livres têm pouco, onde, frequentemente, se confunde brincar com entreter e, outras vezes, acontece a continuação do trabalho que se faz na fábrica. É importante, entendem.
Se verdade, se perguntassem aos miúdos, coisa que se faz poucas vezes, iriam ficar a saber que brincar é a actividade mais séria que fazem, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que vão ser.

quarta-feira, 5 de março de 2014

A MINHA ESCOLA


A propósito deste trabalho interessante, divulgado no Público e apresentado na Gulbenkian, centrado na visão que os adolescentes têm da escola recordei uma história que aqui tinha contado há uns meses.

Eu gosto muito da minha escola. A minha escola é muito bonita. Também gosto muito da minha professora e ela gosta muito de nós, é nossa amiga.
Na escola aprendo coisas muito importantes para quando crescer saber muito. Já sei ler e escrever muito bem, agora tenho um computador azul muito giro que nos deram, muito obrigado. Também gosto da matemática e dos problemas. Gosto também das brincadeiras que fazemos na escola quando estamos no recreio. Quando estamos na aula a gente porta-se bem e a professora conta uma história. Os meus pais ficam muito contentes quando levo as coisas da escola bem feitas. Gosto muito dos amigos que estão na minha escola.
Eu gosto muito da minha escola.

A minha escola é uma grande ceca. É feia e velha, tem senpre coisas partidas. A professora está senpre a gritar com a jente, diz que está farta e quer ir embora, já não tem pasiência. Ensina umas coisas que já sei e depois fico destraído. Outras coisas que ela ensina não perssebo para que servem e não gosto, fico também destraído. Não gosto de escrever porque dou erros e nas contas também me engano. A professora diz que eu tenho de ir para o apoio porque tenho dificudades, mas que á muitos miúdos como eu e a professora do apoio não xega para todos. A escola tem muito barulho porque a jente está senpre a falar e a professora a gritar. Alguns colegas lá da escola têm um compotador mas eu não tenho, dizem que o meu pai, não sei o quê, e não me deram. Mas parésse que vão dar. Já estou farto de estar na escola. Gosto de andar à porrada nos intervalos.
A minha escola é uma grande ceca.

PS – Setôra, para me dar a nota pode escolher a de cima?

José

A IDADE MUDA TUDO

O povo costuma dizer que a idade tudo muda. Embora nem sempre esteja de acordo com o povo, neste aspecto, creio que existirá algum fundamento.
Um miúdo é teimoso, um adulto é persistente.
Um miúdo é desconcentrado, um adulto é alguém capaz de estar atento a tudo.
Um miúdo é hiperactivo, um adulto é um recurso humano extremamente activo.
Um miúdo é ausente, um adulto é um indivíduo contemplativo e de grande riqueza interior.
Um miúdo é mal-educado, um adulto é irreverente.
Um miúdo é esperto, um adulto é inteligente.
Um miúdo é “uma lesma”, um adulto é um indivíduo imune ao stress.
Um miúdo é arrogante, um adulto é um indivíduo assertivo e seguro.
Um miúdo é habilidoso, um adulto é um indivíduo de grande competência social.
Um miúdo é descuidado na aparência, um adulto é informal.
Um miúdo é o responsável por tudo, um adulto é um líder.
Um miúdo é esquisito, um adulto é peculiar, alternativo ou "out of the box".
Acho que já chega para perceber por que razão os miúdos querem crescer cada vez mais depressa. 

A GENTE VIVE DE QUÊ?




Dado que não se tem verificado qualquer subida nos rendimentos familiares, antes pelo contrário, estes dados, hoje referidos no JN e no DN, o abaixamento do número global de pessoas a beneficiar de apoios sociais não decorre de melhoria das condições de vida das famílias mas obviamente dos cortes no universo dos apoios sociais.
Este cenário impressionante, que pode agravar-se com a sempre anunciada reforma do Estado, isto é, cortes nas suas funções sociais, coloca uma terrível e angustiante questão. Os milhares, muitos, de pessoas envolvidas vão (sobre)viver de quê?
Recordo-me a insustentável leveza da afirmação do líder parlamentar do PSD. Luís Montenegro, "A vida das pessoas não está melhor, mas a vida do país está muito melhor".
Até à solução final.

A INDOMESTICÁVEL VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Um estudo hoje conhecido, realizado sob a responsabilidade da Agência para os Direitos Fundamentais da UE, mostrou que 24% das mulheres portuguesas inquiridas reportou ter sido vítima de violência física ou sexual por parte do parceiro, indicador que está abaixo da média europeia, 33%. No entanto, parece-me de sublinhar pelo seu impacto que 93% das mulheres portuguesas tem a percepção de que a violência é um fenómeno “comum” ou “muito comum”.
Como já tenho referido, por diferentes ordens de razões e embora a realidade se vá modificando lentamente, veja-se o aumento significativo de denúncias por parte dos homens, parece assumir-se ainda uma espécie de fatalidade na qual assenta uma “discreta” tolerância do crime de violência doméstica dirigida às mulheres, que é diferente das reacções quando a vítima é o homem.
Esta aparente tolerância relativizar-se-á à dificuldade de prova, ao sistema de valores e situação de dependência emocional e económica de muitas das vítimas, à atitude conservadora de alguns juízes, etc. Permanece ainda com alguma frequência a dificuldade de promover a retirada do agressor do ambiente doméstico, procedendo-se à saída da vítima numa espécie de dupla violência que, aliás, também se verifica em situações de maus tratos a crianças, em que o agressor fica em casa e a criança é “expulsa”. Por outro lado, os estudos mostram algo que se torna mais inquietante, o elevado índice de violência presente nas relações amorosas entre gente mais nova mesmo quando mais qualificada. Muitos dos intervenientes remetem para um perturbador entendimento de normalidade o recurso a comportamentos que claramente configuram agressividade e abuso ou mesmo violência.
Importa ainda combater de forma mais eficaz o sentimento de impunidade instalado e ainda, como referi, alguma “resignação” ou “tolerância” das vítimas face à percepção de eventual vazio de alternativas ou a uma falsa ideia de protecção dos filhos em caso de separação do agressor.
Nesta perspectiva, torna-se fundamental a existência de dispositivos de avaliação de risco e de apoio como instituições de acolhimento e, naturalmente, um sistema de justiça eficaz e célere.  


terça-feira, 4 de março de 2014

O TROCATINTISMO EM MODO SEMI-AUTOMÁTICO


Afinal, os professores contratados sempre colmatam necessidades permanentes do sistema educativo. Assim sendo, será criada uma "norma-travão" para que, em modo semi-automático(?), professores que sirvam o sistema durante seis anos consecutivos possam vincular-se.
Depois de uma longa deriva em torno do número de professores necessários ao sistema que tem incluído manha política que baste, manipulação e malabarismos com os números e a demografia, medidas de política educativa cujo racional é a dispensa de professores ou a pressão da Comissão Europeia, alguns dos professores descartáveis poderão vir a ser recicláveis.
Tal irá acontecer depois de milhares de professores terem sido amigavelmente empurrados para fora das escolas ou tenham sucumbido aos destratos e clima instalados saindo com penalizações severas, pessoais e materiais. O preço é elevado, muito elevado.
O trocatintismo crático conheceu mais um episódio.

BAILE DE MÁSCARAS

Acabou o Carnaval. Para o ano há mais.
Já podemos desafivelar as divertidíssimas máscaras próprias da época e substituí-las pelas que usamos no nosso quotidiano.
Que siga, portanto, o Baile de Máscaras.

COPY, PASTE. É assim, tipo, vale tudo



A propósito da divulgação da publicação de mais de 100 artigos científicos falsos, produzidos por um programa informático, que terão sido publicados passando pelo filtro do "peer review", algumas notas mas começando um pouco mais atrás.
Há algum tempo, numa iniciativa da Universidade Católica de Braga foi divulgado um estudo envolvendo sete países sobre as questões do plágio, segundo o qual, entre 40 e 60% dos alunos do ensino secundário admitiram ter recorrido a tal procedimento.
De facto, o plágio é um fenómeno em alta também no ensino superior, realidade que conheço melhor, mas não só, a título de exemplo já tive textos do blogue plagiados. Considerando o volume crescente de situações muitas instituições têm vindo a adoptar dispositivos de despiste e regulamentos que minimizem o risco de tais práticas.
É verdade que de há uns tempos para cá, felizmente, tem vindo a emergir e entrar na agenda a questão da utilização da informação disponível, designadamente na net, na produção fraudulenta ou nos limites da ética de trabalhos académicos e científicos da mais variada natureza como é o caso dos artigos científicos falsos agora divulgado e que não constitui, aliás, o primeiro caso.
Neste âmbito, conheceu-se até a primeira situação em Portugal, creio, de uma Tese de Doutoramento apresentada na Universidade do Minho e anulada por motivo de plágio. O Centro de Estudos Sociais da Faculdade Economia da U. de Coimbra tem vindo a desenvolver um estudo nacional sobre a questão da fraude académica cujos dados iniciais apontavam no sentido de que de que 37.6 % dos inquiridos aceita a fraude desde que “não prejudique ninguém”. A estes dados, pode acrescentar-se um estudo da Universidade do Minho há tempos divulgado referindo que as situações de algum tipo de “copianço” envolvem três em cada quatro estudantes.
Este reconhecido aumento das situações de plágio que se verificam em todos os níveis de ensino, do básico à formação pós-graduada, doutoramentos incluídos, bem como artigos científicos, situação hoje bem retratada, elucida o que costumo designar por relação ética que estabelecemos com o conhecimento e que os alunos mais novos replicam. Aliás, no estudo da U. do Minho, dos alunos que admitiam copiar, 90 % afirmavam fazê-lo desde sempre.
O conhecimento será entendido como algo que se deve mostrar para justificar uma nota ou estatuto, não para efectivamente integrar e, ou acrescentar uma mais-valia científica, ou seja, importante mesmo é que a nota dê para passar, que o curso se finalize, que a tese fique feita e se seja doutorado ou que se possa acrescentar mais um artigo à produção científica num mundo altamente competitivo, muitíssimo competitivo. Que tudo isto possa acontecer à custa da manhosice, do desenrasca mais ou menos sofisticado, são minudências com as quais não podemos perder tempo.
É importante termos consciência que esta questão não é um exclusivo nosso, a notícia que serve de mote a este texto mostra isso com clareza. De qualquer forma, não deixa de ser uma preocupação e justifica que as escolas, do básico ao superior, se envolvam nesta tentativa de que todos tenhamos uma relação sólida do ponto de vista ético com o conhecimento, a sua produção e divulgação.
O caminho passa pelo estabelecimento obrigatório de códigos de conduta com implicações sancionatórias severas e com uma atitude formativa e preventiva durante as aulas.
O trabalho será sempre difícil pois o actual contexto ao nível dos valores e da ética dos comportamentos e funcionamento social é, só por si, um caldo de cultura onde o copianço, o plágio ou a fraude científica, por vezes, não passam de "peanuts". É a cultura do desenrascanço, não importa como.

CARNAVAL

Um olhar rápido para as primeiras páginas, as máscaras, da imprensa diária portuguesa é estimulante.



Bom Carnaval.

segunda-feira, 3 de março de 2014

LIVROS, LEITORES, LIVREIROS E CONSUMO CULTURAL

Segundo um estudo hoje divulgado, em 2013 a venda de livros em Portugal caiu 4,6%, o que não surpreende. Algumas notas.
Antes de um reflexão mais centrada nos livros parece-me de sublinhar que nós portugueses apresentamos dos indicadores mais baixos da União Europeia no que respeita ao consumo de bens culturais. Actividades como leitura, cinema e outros espectáculos culturais, visitas a museus e exposição não fazem parte de forma significativa dos nossos hábitos, mais destinados ao consumo de televisão.
Os especialistas sustentam que esta situação, para além dos efeitos da crise na alteração de consumos, remete para aspectos de natureza educativa e para a política relativa à cultura e à sua valorização que tem sido seguida.
No que respeita à leitura e ao mercado livreiro, área que conheço um pouco melhor, e que está também em recessão como os dados hoje divulgados comprovam, importa referir que, de uma forma geral, os bens culturais em Portugal, quando relativizados aos orçamentos familiares médios, são um mercado caro, veja-se o preço dos livros, dos CDs ou dos espectáculos.
O universo da cultura vive e vai viver numa apagada e vil tristeza orçamental. Sabe-se como os museus têm dificuldade em manter portas abertas, para não falar dos problemas com investimentos e manutenção nos respectivos espólios. Muito do que se realiza em Portugal em matéria de cultura está dependente de apoios privados, carolice e mecenato e do que ainda algumas autarquias conseguem promover com orçamentos cada vez mais apertados. A crise instalada, com o abaixamento significativo do rendimento das famílias, agrava, naturalmente, a situação.
Por outro lado, e no que respeita ao mercado livreiro, creio que uma das grandes razões para o preço dos livros será o reduzido volume de consumo desse bem por parte do cidadão comum. De facto, à excepção de alguns, poucos, nomes, edições reduzidas dificultarão, por questões de escala, o abaixamento do preço. Algumas editores ou grupos editoriais têm experimentado o lançamento de colecções com obras a mais baixo custo, mas muitos dos potenciais compradores dessas obras, já as terão adquirido pelo que, mais uma vez será difícil que sejam bem sucedidas essas edições. Se considerarmos o caso particular da poesia a situação pode ser um pouco mais negra, basta atentar nas montras ou nas listas dos mais vendidos num mercado gerido por meia dúzia de pontos de venda que asseguram o grosso do "rendimento" e por uma distribuição que trata, muitas vezes, o livro como apenas um produto e não o distribui como um "bem".
No entanto, penso que a grande aposta deveria ser no leitor e não no livro, ou seja, criando mais leitores, talvez as edições, que poderiam em todo o caso ser menos exigentes em papel e grafismo, ficassem mais acessíveis como se verifica noutros países. Esta batalha ganha-se na escola, na educação, e na comunicação social que, sobretudo a televisão, não valorizam como seria desejável os bens culturais. 
Estaremos certamente de acordo que um leitor se constrói desde o início do processo educativo. Desde logo assume especial importância o ambiente de literacia familiar e o envolvimento das famílias neste tipo de situações, através de actividades que desde a educação pré-escolar e 1º ciclo deveriam, muitas vezes são, estimuladas e para as quais poderiam ser disponibilizadas aos pais algumas orientações.
Nos primeiros anos de escolaridade é fundamental uma relação estreita com a leitura, não só com os aspectos técnicos, por assim dizer, da aprendizagem da leitura e da escrita da língua portuguesa, mas um contacto estreito e regular com a actividade de leitura, seja do que for, considerando motivações e culturas diferenciadas apresentadas pelos alunos. 
Só se aprende a ler, lendo, só se aprende a escrever, escrevendo, etc. Neste contexto, não posso deixar de ficar um pouco preocupado com o rumo da educação escolar, neste caso centrando-me no 1º e 2º ciclos, com a introdução das metas de aprendizagem com os conteúdos e volume que apresentam e que, é minha convicção, pouco espaço deixarão a actividades como leitura livre e de descoberta do prazer de ler.
É certo que existe em actividade o Plano Nacional de Leitura que, parece, estará a dar alguns resultados, mas na comunicação social generalista, por exemplo na televisão, o livro está praticamente ausente, embora exista o "sketch" do conhecido entertainer político, conhecido por Professor, que ao Domingo à noite despeja livros em cima de uma secretária enquanto faz, dizem, comentário político.
Insisto, é um problema de leitores, não de livros, aliás e estranhamente, nunca se publicou tanto como agora, aspecto que seria interessante analisar.


UMA ANÁLISE PATÉTICA

O "Dr." Miguel Relvas considerou "patéticas" as reservas ou críticas que o seu desavergonhado regressso à vida política pública (em privado não deve ter deixado de cumprir a sua tarefa controleira e manipuladora).
A decisão de Passos Coelho de impôr Relvas ao Conselho Nacional do PSD assenta numa estranha relação e cumplicidade forjadas no aparelho partidário, num projecto que levou Passos Coelho à liderança do PSD e, a seguir, do Governo, ou  na vida profissional envolvendo, por exemplo, um interessante programa de formação de técnicos de aeródromos de autarquias que nem sequer tinham tal infra-estrutura e que continua em investigação, resiste de uma forma que a racionalidade dificilmente explica.
A decisão de Passos Coelho, a aceitação de do "Dr." Relvas e os seus discursos mostram o mais profundo desprezo pela ética política, pela inteligência das pessoas e pelo seu próprio partido.
Decididamente, batemos no fundo.
Esta é, evidentemente, mais uma opinião patética.

domingo, 2 de março de 2014

O CORSO

Ao que prevê a metereologia, felizmente, para amanhã e terça o Sol vai aparecer para aquecer e iluminar o Corso. Ainda bem, o Carnaval e o Corso precisam do Sol. Os figurantes irão certamente sentir-se melhor.
O Corso tem andado em preparação de há muito e nos últimos dias parece ter atingido o auge da capacidade de animação das gentes que, com ou sem tolerância, não toleram não ver o Corso.
Os personagens e intervenientes no Corso são de uma variedade e riqueza que deixarão a concorrência internacional roída de inveja.
Podem encontrar malabaristas com números que fazem com que estes digam tudo o querem ouvir. Temos ilusionistas que mostram realidade e truques que nos fazem duvidar dos nossos olhos. Temos pantomineiros que contam histórias e lengalengas que nos fazem rir ou chorar conforme a natureza. Temos vendedores de banha da cobra que todos os problemas prometem resolver.
Temos gigantes que se acham omnipotentes e têm pés de barro e figuras pequeninas que usam andas para se tornar visíveis. Temos inquisidores justiceiros e virgens ofendidas na sua falsa virtude.
Também entram os mascarados com a autoridade que não têm e os fingidores de um saber que não possuem. Não faltam oráculos, adivinhadores do futuro e profetas da desgraça.
No meio do Corso não faltam bobos que ainda mais animação procuram promover. Enfim, ainda bem que o Sol vai aparecer para que o Corso prossiga.
Entretanto, o povo que assiste já sente as mãos a doer.
Não, não é de aplaudir, é de as apertar. De inquietação.

A IRREVOGÁVEL MEDIOCRIDADE


Creio que qualquer de nós consegue perceber que uma classe política, que salvo honrosas excepções é medíocre, vive e mantém-se com base num complexo jogo de interesses e equilíbrios na gestão e distribuição dos poderes, desde logo nos aparelhos partidários, a incubadora ideológica e ética desta gente, e, naturalmente, no aparelho político do país que assim está capturado pela partidocracia. Esta mediocridade é que parece irrevogável.
O que esta gente parece incapaz de compreender é o efeito devastador que o seu comportamento e os seus discursos têm numa população massacrada a viver num mar de dificuldades, a viver um momento de desesperança e insiste nos jogos de gestão dos poderes apesar da retórica das afirmações que são um insulto à inteligência e à ética.
Creio que o descontentamento e desconfiança de muitos dos cidadãos, traduzidos em percentagens de abstenção acima dos 50%, mostram que importa pensar numa participação política para lá dos partidos. Algumas manifestações com grande mobilização que escaparam à lógica da partidocracia, bem como iniciativas de grupos de cidadãos mobilizados por causas, dão sinais nesse sentido.
Existe, tem que existir política para além dos partidos, que se reformam ou tenderão a implodir com riscos para própria democracia cuja saúde já está debilitada.
O drama é que, de quem é parte do problema não podemos esperar que seja parte da solução.
Com muita frequência ouvimos dizer que temos o que merecemos. Não concordo, não merecíamos tal sorte.
O problema é que as alternativas não são animadoras.


PARTIU RESNAIS


Partiu Alain Resnais, deixou alguns dos filmes das nossas vidas.

A GUINÉ EQUATORIAL NA CPLP. Bienvenida


A afirmação do Dr. Rui Machete é um excelente exemplo da hipocrisia no discurso político.
Como pode afirmar com a maior serenidade que não tem razões para duvidar do regime da Guiné Equatorial nos compromissos que diz assumir para comprar a sua entrar na CPLP?
Como é evidente,  a não ser que seja por "honoris causa" de que se não vislumbra a razão, não se percebe muito bem como um país que tem como língua oficial o castelhano, foi uma antiga colónia de Espanha, vai administrativamente mudar a sua língua oficial e passar a falar português para integrar a CPLP. 
É ainda reconhecido o regime ditatorial, cleptocrata e corrupto que a governa, a miséria brutal em que vive a esmagadora maioria do seu povo, desrespeito absoluto por direitos humanos incluindo a pena de morte em vigor, etc. e, sobretudo, como esta adesão, um "final feliz" como lhe chamou  o Secretário de Estado Campos Ferreira, poderá ser um favor ao regime que lave a sua imagem e isolamento na comunidade internacional.
É certo que a CPLP corre também o risco de se transformar em Comunidade dos Países de Língua Acordesa, mas a entrada de um país de língua castelhana ou, uma nova variante transitória, o "conhecido portunhol" é algo de estranho.
Não tem nada a ver com este processo, evidentemente, mas a Guiné Equatorial é o terceiro maior produtor de petróleo da África subsariana.
Talvez Rui Machete quando refere que não tem razões para duvidar do regime da Guiné Equatorial tenha em mente as promessas de injectar dinheiro no Banif ou noutros "negócios" que comprem esta adesão e tentativa de branqueamento internacional.
Uma "semvergonhice".

sábado, 1 de março de 2014

BOM POVO PORTUGUÊS, POBRE, HONESTO, ASSEADO E COM RESPEITINHO


O Bom Povo Português não falha nas grandes ocasiões. Andavam a dizer que éramos ricos, que vivíamos acima das nossas possibilidades, que não produzimos, enfim, um povo de ociosos gastadores.
A coisa começou a correr mal, claro que não foi o Bom Povo Português que fez a coisa correr mal, mas, naturalmente, a desgraça caiu em cima do Bom Povo Português.
Os mercados, gentis, generosos e solidários decidiram entaõ ajudar, desinteressadamente, o Bom Povo Português. Emprestaram algum dinheiro com um retorno interessante, a solidariedade tem os seus custos, passaram a governar o Bom Povo Português através de uns administradores delegados, uma espécie de feitores, que cumpriram escrupulosamente as ordens do Conselho de Administração, também conhecido por Troika e trataram de nós.
E trataram muito bem deve dizer-se, cortaram nos rendimentos da maioria das famílias, passámos a viver abaixo das nossas necessidades, fecharam milhares e milhares de empresas, lançaram muitos milhares de portugueses no desemprego, cortaram na dimensão social do estado e deu-se o milagre, um verdadeiro milagre, ficámos bem, muito melhor do que estávamos.
Retomámos então a verdadeira identidade do Bom Povo Português. Somos Pobres, muito Pobres, Honestos, pagamos as dívidas que em nosso nome foram criadas e, sobretudo, somos Asseados o que nos vai valer, os feitores exultam com a perspectiva uma saída limpa do que chamam o programa de ajuda. Não somos como alguns ingratos e incompetentes que têm uma saída suja.
A cereja em cima do bolo no que respeita à nossa identidade é o respeitinho, o bonito respeitinho. Nada de exageros, as figuras importantes e de estado devem ser respeitadas, nada de se meterem com elas, mesmo no Carnaval em que, dizia-se, ninguém leva a mal. Na verdade, o Presidente Cavaco Silva não é figura que deva servir para folguedos. Uma empresa mais atenta e diligente não permitiu tal afronta. O respeitinho é muito bonito.
Obrigado Troika, obrigado zeloso e diligente Governo, obrigado vigilantes pelo bom comportamento e respeitinho por nos devolverem ao que sempre deveríamos ter sido, Pobres, Honestos, Asseados e com Respeitinho. Que mais haveremos de desejar?