Por aqui no Alentejo está um dia
verdadeiramente cabaneiro, vento forte e chuva. Lamentam-se evidentemente os
estragos mas a chuva fazia falta, é a vida para esta terra. Não dando para a
lida restam as lérias. O Mestre Zé Marrafa apareceu ao fim da manhã e ficámos perto da
salamandra de conversa.
Às tantas, as voltas da memória foram parar aos fornos de carvão. Foi uma das muitas coisas que o Mestre Zé fez
nestes quase oitenta anos de estrada, construir os fornos para produzir carvão
depois da limpeza das árvores.
Trabalho duro, sobretudo “terrar”
os fornos, tapá-los com terra pois eram grandes. Tinha que se cavar à volta do “moitão”
de lenha com um enxadão, bem pesado diga-se pois já tenho trabalhado com tal “caneta”,
e com uma pá tapar com terra todo o monte. Deixa-se a uma abertura, a “porta”, por onde
se põe a lenha a arder, uma outra abertura no lado oposto e depois, conforme o
vento, regulam-se os buracos que se fazem na terra que cobre o forno e que
permitirão a queima adequada da lenha.
Com madeira de azinho ou de sobro,
a melhor, ficava um carvão de qualidade cuja produção dava de comer a
muitas famílias.
A conversa encaminhou-se então
para as dificuldades de muitas pessoas e o fardo pesado que carregam. O Velho
Marrafa dizia que as pessoas do Alentejo, sobretudo os mais velhos, estão
habituadas a fardos pesados, a vida sempre lhes foi dura. Para exemplificar, falou,
mais uma vez, da longa estrada que tem vindo a percorrer. Começou a guardar
porcos aos nove anos, ao trabalho de sol a sol, muitas vezes até sete dias na
semana, conheceu o ter e ganhar os feriados e, finalmente, passar a trabalhar só
as oito horas e a riqueza de ter férias pagas.
No fim desta viagem o Mestre Zé
conclui com a tranquilidade que nele parece um ser e não um estar, que a culpa de
muitos problemas, de hoje e de sempre, é dos atravessadiços. Provavelmente, tal
como eu fiquei pela primeira vez que a ouvir, ficarão intrigados com a
referência.
Pois o Velho Marrafa esclareceu
que os atravessadiços são aquelas pessoas que sendo assim
"atravessadas" só pensam nelas, nunca pensam nos outros. Fazem tudo
para sair beneficiadas mesmo que isso possa prejudicar os outros. Depois, à
medida que têm mais coisas e mandam mais, ainda mais querem ter e mandar e como
são atravessadiços, causam muitos problemas aos outros sem se preocuparem com
isso. O Velho Marrafa rematava sem a menor dúvida, "Veja-me lá Senhor Zé
se os que mandam, os que são grandes, se importam alguma coisa com os pequenos?
Nada, mesmo nada".
Não é assim uma teoria muito
sofisticada mas o Velho Marrafa é capaz de ter alguma razão. Anda por aí muito
atravessadiço em lugar de mando.
São também assim os dias do
Alentejo.
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