No Público é divulgado um estudo realizado por uma equipa o Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), publicado este mês na Science Direct.
O estudo acompanhou um total de
8647 crianças e famílias desde o nascimento aos 18 anos, com avaliações aos 4,
7, 10, 13 e 18 anos. O trabalho agora publicado considera os dados até aos 13
anos.
Em termos sintéticos analisou-se a relação entre experiências adversas durante a infância e os níveis
de stresse e mal-estar ao longo do desenvolvimento.
Os dados são extensos e merecem
leitura, mas releva uma relação forte entre o divórcio ou separação dos pais e
os níveis de stresse biológico e presente as diversas idades de avaliação.
Algumas notas sobre a questão da
separação ou divórcios dos pais e o bem-estar dos mais novos.
Embora, felizmente, nem sempre
aconteça, são processos que podem criar situações potencialmente causadoras de
enorme sofrimento em todos os envolvidos independentemente das
responsabilidades que cada um dos elementos possa ter, ou não, em todo o
processo.
É uma situação também muito
complexa no que respeita à intervenção e regulação. Recordo que em 2017 o
Instituto de Segurança Social lançou em 2017 dois manuais, “Manual da Audição
da Criança” e o “Manual de Audição Técnica Especializada”, uma ferramenta de
apoio aos técnicos envolvidos em processos conflituosos de separação parental
em que estão crianças e não raras vezes em processo de sofrimento
significativo, tal como, aliás, os adultos.
Como já disse, existem múltiplos
casos de reconstrução bem-sucedida de famílias após situações de divórcio em
que adultos e crianças encontraram forma de viverem situações de bem-estar
depois de quebrar relações anteriores. Seria esta a situação desejável em caso
de separação.
No entanto, existem muitas
circunstâncias em que os processos de separação são de grande tensão e conflito
nos quais crianças e adultos entram em processos de sofrimento muito elevados.
Os riscos que a separação dos
pais pode implicar para os filhos são, naturalmente, alvo de recorrentes estudos e também de abordagens na
imprensa. Considerando a minha experiência, são também objecto de frequentes
pedidos de ajuda, orientação ou apenas inquietação.
Na maioria das situações as
coisas correm bem e é sempre preferível uma boa separação a uma má família, mas
existem separações familiares extremamente conflituosas desencadeando níveis
elevados de sofrimento e o arrastar dos processos de regulação parental com
custos emocionais muito elevados, designadamente para as crianças, mas também
para os adultos.
Neste quadro, podem emergir nos
adultos, ou num deles, situações de sofrimento, dor e/ou raiva, que “exigem”
reparação e ajuda. Muitos pais lidam sós com estes sentimentos pelo que os
filhos surgem frequentemente como “tudo o que ficou” e o que “não posso e tenho
medo de também perder”. Poderemos assistir então a comportamentos de
diabolização da figura do outro progenitor, manipulação das crianças tentando
comprá-las (o seu afecto), ou, mais pesado, a utilização dos filhos como forma
de agredir o outro.
Nestes cenários mais graves podem
emergir quadros do designado Síndrome de Alienação Parental que, apesar de
alguma prudência requerida na sua análise, nem a utilização como conceito
parece consensual em termos clínicos e jurídicos, são susceptíveis de causar
graves transtornos nas crianças, daí, naturalmente, a necessidade de suporte e
ajuda.
É obviamente imprescindível
proteger o bem-estar das crianças em situações de separação, mas não devemos
esquecer que, em muitos casos, existem também adultos em enorme sofrimento e
que a sua eventual condenação, sem mais, não será seguramente a melhor forma de
os ajudar. Ajudando-os, os miúdos serão ajudados.
Assim sendo, importa estar atento
e a experiência diz-me serem frequentes as situações de separação em que os
adultos sentem insegurança e ansiedade e até exprimem a necessidade de ajuda.
Acresce que as questões relativas à família, às novas famílias, são ainda
objecto de discursos muito contaminados pelos sistemas de valores éticos,
morais, religiosos e culturais.
O volume de opiniões sobre estas
situações é extenso, oscilando entre considerações de natureza moral e/ou ética
e um entendimento mais científico sobre a forma como as famílias e sobretudo as
crianças e jovens lidam ou devem lidar com as circunstâncias. Por mim, creio
“apenas” que o(s) ambiente(s) familiar(es) deve ser suficientemente saudável
para que a criança se organize também saudavelmente e faça o seu caminho sem
uma excessiva preocupação geradora de ansiedade e insegurança em todos os
envolvidos, miúdos e crescidos.
No entanto, como sempre afirmo,
há que estar atento e perceber os sinais que sobretudo as crianças mostram e,
na verdade, com alguma frequência, os pais estão tão centrados no seu próprio
processo que podem negligenciar não intencionalmente a atenção aos miúdos e à
forma como estes vivem a situação. Pode ser necessário alguma forma de apoio
externo, mas sempre encarado de uma forma que se deseja serena e não
culpabilizante.
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