O Público divulga dados de um inquérito realizado pela Federação Nacional de Educação sobre condições de trabalho dos professores.
Responderam ao inquérito 817 professores e 93% refere um
excesso de burocracia, 62,9% passa cinco ou mais horas semanais em tarefas
administrativas. Aliás, 26% refere gastar mais de sete horas por semana em
tarefas que nada têm que ver com dar aulas.
Muitas vezes aqui tenho abordado o peso excessivo e injustificado
da burocracia associada à função docente. Trata-se de uma questão velha, com
efeitos negativos de diferente natureza e de que não se vislumbra alterações significativas. Trocar papéis
por plataformas não produz efeitos, “moderniza” os problemas e potencia o
cansaço e insatisfação de que também se alimenta a falta de professores.
Continuo a insistir na necessidade de uma medida
imprescindível e inadiável, a simplificação. Importa sublinhar que estou a
falar de simplificação e não facilitação, seja em que área for.
É imperiosa a necessidade de diminuir a burocracia
asfixiante que obriga as escolas, professores, técnicos e directores, a uma
espécie de "agitação improdutiva" consumindo esforço e recursos que,
basicamente, apenas alimenta o cansaço e a ineficácia promovendo mais problemas
que contributos para soluções.
A experiência mostrará certamente o impacto que medidas
neste sentido terão na realidade escolar, qualquer passo no sentido de devolver
tempo e tranquilidade aos professores e de economizar processos será positivo.
O quotidiano das escolas, dos professores está mergulhado
numa complexa teia de procedimentos, situações, medidas, iniciativas,
designações, acções, preenchimentos, actividades, relatórios, grelhas,
indicadores, etc., na qual se enredam os processos educativos, a essência do
trabalho que envolve alunos, professore e técnicos.
A esta dimensão do trabalho das escolas e agrupamentos
acresce a gama sem fim de Planos, Projectos, Programas, Iniciativas, as
combinações são múltiplas, destinados a tudo e mais alguma coisa, certamente
relevantes e, sobretudo, inovadores.
Assim, em linha com o que por aqui já tenho
sugerido, desejado, que alguma vez e de forma bem vincada, a tutela estabeleça
a simplificação como orientação central nas diferentes dimensões das políticas
públicas de educação.
Seria desejável e necessário que o trabalho a desenvolver,
os conteúdos envolvidos, os dispositivos em utilização, a organização de tempos
e rotinas, etc., tivessem como preocupação a simplificação, professores,
técnicos, alunos e famílias ganhariam. Esta simplificação deve incluir a
avaliação e registos. Seria positivo que, tanto quanto possível, se aliviasse a
pressão “grelhadora” e a carga burocrática, manualizada ou informatizada, a que
habitualmente escolas e professores estão sujeitos e que agora parece ser
objecto de “emagrecimento”.
Como é evidente, sublinho, este apelo à simplificação não
tem a ver com menos rigor, qualidade, intencionalidade educativa ou não
proporcionar tempo de efectiva aprendizagem para todos. Antes pelo contrário,
se conseguirmos simplificar processos e recursos, alunos, professores e
famílias beneficiarão mais do esforço enorme que todos têm de realizar e estão
a realizar.
Sempre que falo desta questão recordo-me do Mestre João dos
Santos, a quem tarda uma homenagem com significado nacional, quando dizia, cito
de memória pelo privilégio de ainda o ter conhecido e ouvido, que em educação o
difícil é trabalhar de forma simples, é mais fácil complicar, mas, obviamente,
menos eficaz, menos produtivo e muito mais desgastante.
Talvez valesse a pena tentarmos esta via de mais
simplificação. As circunstâncias já são suficientemente complicadas.
Como costumamos dizer por aqui, deixem lá ver.
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