quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

E SE SIMPLIFICAR FOSSE UMA ORIENTAÇÃO (outra vez)

 O Público divulga dados de um inquérito realizado pela Federação Nacional de Educação sobre condições de trabalho dos professores.

Responderam ao inquérito 817 professores e 93% refere um excesso de burocracia, 62,9% passa cinco ou mais horas semanais em tarefas administrativas. Aliás, 26% refere gastar mais de sete horas por semana em tarefas que nada têm que ver com dar aulas.

Muitas vezes aqui tenho abordado o peso excessivo e injustificado da burocracia associada à função docente. Trata-se de uma questão velha, com efeitos negativos de diferente natureza e de que não se vislumbra alterações significativas. Trocar papéis por plataformas não produz efeitos, “moderniza” os problemas e potencia o cansaço e insatisfação de que também se alimenta a falta de professores.

Continuo a insistir na necessidade de uma medida imprescindível e inadiável, a simplificação. Importa sublinhar que estou a falar de simplificação e não facilitação, seja em que área for.

É imperiosa a necessidade de diminuir a burocracia asfixiante que obriga as escolas, professores, técnicos e directores, a uma espécie de "agitação improdutiva" consumindo esforço e recursos que, basicamente, apenas alimenta o cansaço e a ineficácia promovendo mais problemas que contributos para soluções.

A experiência mostrará certamente o impacto que medidas neste sentido terão na realidade escolar, qualquer passo no sentido de devolver tempo e tranquilidade aos professores e de economizar processos será positivo.

O quotidiano das escolas, dos professores está mergulhado numa complexa teia de procedimentos, situações, medidas, iniciativas, designações, acções, preenchimentos, actividades, relatórios, grelhas, indicadores, etc., na qual se enredam os processos educativos, a essência do trabalho que envolve alunos, professore e técnicos.

A esta dimensão do trabalho das escolas e agrupamentos acresce a gama sem fim de Planos, Projectos, Programas, Iniciativas, as combinações são múltiplas, destinados a tudo e mais alguma coisa, certamente relevantes e, sobretudo, inovadores.

Assim, em linha com o que por aqui já tenho sugerido, desejado, que alguma vez e de forma bem vincada, a tutela estabeleça a simplificação como orientação central nas diferentes dimensões das políticas públicas de educação.

Seria desejável e necessário que o trabalho a desenvolver, os conteúdos envolvidos, os dispositivos em utilização, a organização de tempos e rotinas, etc., tivessem como preocupação a simplificação, professores, técnicos, alunos e famílias ganhariam. Esta simplificação deve incluir a avaliação e registos. Seria positivo que, tanto quanto possível, se aliviasse a pressão “grelhadora” e a carga burocrática, manualizada ou informatizada, a que habitualmente escolas e professores estão sujeitos e que agora parece ser objecto de “emagrecimento”.

Como é evidente, sublinho, este apelo à simplificação não tem a ver com menos rigor, qualidade, intencionalidade educativa ou não proporcionar tempo de efectiva aprendizagem para todos. Antes pelo contrário, se conseguirmos simplificar processos e recursos, alunos, professores e famílias beneficiarão mais do esforço enorme que todos têm de realizar e estão a realizar.

Sempre que falo desta questão recordo-me do Mestre João dos Santos, a quem tarda uma homenagem com significado nacional, quando dizia, cito de memória pelo privilégio de ainda o ter conhecido e ouvido, que em educação o difícil é trabalhar de forma simples, é mais fácil complicar, mas, obviamente, menos eficaz, menos produtivo e muito mais desgastante.

Talvez valesse a pena tentarmos esta via de mais simplificação. As circunstâncias já são suficientemente complicadas.

Como costumamos dizer por aqui, deixem lá ver.

Sem comentários: