A Polícia Judiciária promove hoje uma Conferência, "Ódio online mata offline", centrada na prevenção da radicalização online de crianças e jovens, fenómeno em crescimento em Portugal e na Europa, e na apresentação de uma campanha de esclarecimento e prevenção. De acordo com a direcção da PJ, “a problemática da radicalização de crianças e jovens em ambiente online constitui actualmente um dos maiores desafios para a segurança interna do espaço europeu”.
Nos tempos duros que vivemos, o
clima social, relacional e emocional nas comunidades de que fazemos parte nem
sempre é muito amigável e cria caldos de cultura relacional em que o clima nas
comunidades é ele próprio menos favorável ao bem-estar. É particularmente
preocupante o universo que se esconde nos alçapões da net, designadamente nas
redes sociais é assustador.
De facto, se a net abriu um mundo
inesgotável de oportunidades, também abriu um mundo de alçapões. Ligado desde
sempre ao mundo dos mais novos, muitas vezes aqui tenho falado desses alçapões
e como, apesar da vulgaridade e massificação da sua utilização, muitos pais me
dizem desconhecê-los mesmo sendo eles próprios utilizadores regulares da net.
Como múltiplos estudos revelam
aumentou exponencialmente o tempo que crianças, adolescentes e jovens, tal como
muitos adultos, estão em frente do ecrã. Naturalmente os riscos também aumentaram como o cyberbullying que já referi,
chantagem e roubo, promoção da violência, exposição a conteúdos inadequados às
idades, pornografia infantil, expressão de ódio, extremismo e radicalização, etc.
Apesar de em Portugal estes casos
de violência extrema serem menos frequentes e de menor gravidade que noutros
países, levam-nos a questionar os nossos valores, modelos educativos, códigos e
leis pela perplexidade que nos causam.
Esta perplexidade exige a
necessidade de tentarmos perceber um processo que designo como "incubação
do mal" que se instala nas pessoas, muitas vezes logo na infância e
adolescência, a partir de situações de mal-estar que podem passar relativamente
despercebidas, mas que insidiosamente começam a ganhar um peso interior
insuportável cuja descarga apenas precisa de um gatilho, de uma oportunidade e,
cada vez mais, a net está ali à mão, discreta e potente ferramenta para acções
em múltiplos sentidos, incluindo o pior.
A fase seguinte pode passar por
duas vias, uma mais optimista em que alguma actividade, socialmente positiva,
possa drenar esse mal-estar, nessa altura já desregulação de valores, ódio e
agressividade. Uma outra via em que aumenta exponencialmente o risco de um pico
que pode ser um ataque numa escola ou noutro espaço público ou uma investida
contra alguém arriscando a entrada numa espiral de violência cheia de
"adrenalina", em nome de coisa nenhuma a não ser de um
"mal-estar" que destrói valores e gente.
Um caminho mais difícil de
rastrear, percorre-se à frente de um ecrã, com acesso a um sem fim de
oportunidades para alimentar, criar e desencadear comportamentos incontroláveis
de profunda e múltipla violência.
É evidente que a punição
constitui um importante sinal de combate à sensação de impunidade perigosamente
presente na nossa comunidade, mas é minha forte convicção de que só punir e
prender não basta para minimizar o risco de episódios desta dimensão trágica.
Sabendo que prevenção e programas
comunitários e de integração têm custos, importa ponderar entre o que custa
prevenir e os custos posteriores da violência, de delinquência continuada ou de
insegurança.
Importa ainda estratégias mais
proactivas e eficientes de minimizar, a exclusão, o abandono e insucesso
educativos, o “mal-estar” psicológico e problemáticas de saúde mental, a
guetização e "quase total" e, muitas vezes, a desocupação de quem não
estuda, nem trabalha. Para esta gente, o futuro passa por onde, por quem e
porquê?
Finalmente, a importância de uma
precoce e permanente atenção às pessoas, ao seu bem-estar, tentando detectar,
tanto quanto possível, sinais que indiciem o risco de enveredar por um caminho
que se percebe como começa, mas nunca se sabe como acaba.
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