Está frio, foram divulgados alertas para vários distritos do país.
É incontornável. Quando se anunciam alertas devido à temperatura sempre me lembro do nosso querido Mestre Zé Marrafa.
Quando comentava com ele um dia
mais frio dizendo que havia um alerta amarelo ou vermelho, o Mestre Zé sempre achava
que deveriam avisar era se estivesse calor no Inverno, agora frio é normal.
E muitas vezes contava que tinha
passado muito frio quando era gaiato. É mau um homem ter frio, acrescentava.
Eu sabia, muitas vezes falava
sobre a infância e do que era guardar porcos aos nove anos e o que se passava
no Inverno.
A lembrança das conversas com o
Mestre Zé a propósito do frio que passou em miúdo, sempre me recorda e já aqui referi
a narrativa de Juan José Millás em "O Mundo" quando enuncia, “Quem
teve frio em pequeno, terá frio para o resto da vida, porque o frio da infância
nunca desaparece”.
Na verdade, no Inverno ou até no
Verão existem muitos miúdos que passam frio, às vezes muito frio, e nem sempre
conseguimos dar por isso. Acontece até que alguns deles sentem frio em
ambientes muito aquecidos ou mesmo no Verão, como disse. Não se trata do frio
que vem de fora, daquele de que falam os alertas coloridos que nos fazem no Inverno,
que seria “fácil” minimizar se assim se quisesse. É, antes, o frio que está à
beira, um bloco de gelo disfarçado de família, de escola ou de instituição de
acolhimento, é o frio que vem de dentro e deixa a alma congelada. Do frio que
vem de fora, apesar de incomodar, acho que, quase sempre, nos conseguimos
proteger e proteger os miúdos, mas dos frios que estão à beira e dos que vêm de
dentro nem sempre o conseguimos fazer porque também nem sempre os entendemos e
estamos atentos ao frio que tolhe muitas crianças e adolescentes.
Apesar de sentir confiança na
resiliência dos miúdos, expressa em muitíssimas situações de gente que sofreu e
resistiu a experiências dramáticas, uns mais que outros naturalmente, parece-me
fundamental que estejamos atentos aos frios da infância.
Muitas vezes, como diz Millás,
quem teve frio em pequeno terá mesmo frio no resto da vida.
Quando olhamos para muitos
adultos à nossa volta pode reconhecer-se o frio que terão passado na infância.
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