segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

ESTÁ FRIO

 Está frio, foram divulgados alertas para vários distritos do país.

É incontornável. Quando se anunciam alertas devido à temperatura sempre me lembro do nosso querido Mestre Zé Marrafa.

Quando comentava com ele um dia mais frio dizendo que havia um alerta amarelo ou vermelho, o Mestre Zé sempre achava que deveriam avisar era se estivesse calor no Inverno, agora frio é normal.

E muitas vezes contava que tinha passado muito frio quando era gaiato. É mau um homem ter frio, acrescentava.

Eu sabia, muitas vezes falava sobre a infância e do que era guardar porcos aos nove anos e o que se passava no Inverno.

A lembrança das conversas com o Mestre Zé a propósito do frio que passou em miúdo, sempre me recorda e já aqui referi a narrativa de Juan José Millás em "O Mundo" quando enuncia, “Quem teve frio em pequeno, terá frio para o resto da vida, porque o frio da infância nunca desaparece”.

Na verdade, no Inverno ou até no Verão existem muitos miúdos que passam frio, às vezes muito frio, e nem sempre conseguimos dar por isso. Acontece até que alguns deles sentem frio em ambientes muito aquecidos ou mesmo no Verão, como disse. Não se trata do frio que vem de fora, daquele de que falam os alertas coloridos que nos fazem no Inverno, que seria “fácil” minimizar se assim se quisesse. É, antes, o frio que está à beira, um bloco de gelo disfarçado de família, de escola ou de instituição de acolhimento, é o frio que vem de dentro e deixa a alma congelada. Do frio que vem de fora, apesar de incomodar, acho que, quase sempre, nos conseguimos proteger e proteger os miúdos, mas dos frios que estão à beira e dos que vêm de dentro nem sempre o conseguimos fazer porque também nem sempre os entendemos e estamos atentos ao frio que tolhe muitas crianças e adolescentes.

Apesar de sentir confiança na resiliência dos miúdos, expressa em muitíssimas situações de gente que sofreu e resistiu a experiências dramáticas, uns mais que outros naturalmente, parece-me fundamental que estejamos atentos aos frios da infância.

Muitas vezes, como diz Millás, quem teve frio em pequeno terá mesmo frio no resto da vida.

Quando olhamos para muitos adultos à nossa volta pode reconhecer-se o frio que terão passado na infância.

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