Manda a liturgia e o quadro legal dos processos eleitorais que o dia anterior à votação seja dedicado à reflexão. Como em outras ocasiões tenho afirmado, não estou muito de acordo com este cenário e enquanto existir aqui me manifesto. Aliás, já se vão conhecendo discursos questionando a sua necessidade considerando também que em muitos países não se reflecte na véspera. Aliás, se a reflexão se realiza na véspera das eleições não parece fazer muito sentido a realização de sondagens que também são para todos os gostos, apesar do prudente, “é apenas uma sondagem”.
Do meu ponto de vista e ainda que
pareça estranho, a haver um dia de reflexão deveria ser o dia seguinte.
A decisão em matéria de voto não
exige um dia de reflexão ainda que, naturalmente, deva ser objecto de reflexão.
Aliás, gostaria de saber se existe algum estudo sobre o peso que o dia de
reflexão terá na decisão relativa ao voto.
Na verdade, não parece necessário
o dia de reflexão antes do acto eleitoral porque não entendo que essa reflexão
influencie significativamente os resultados eleitorais pois, se por um lado a
abstenção tem crescido, deixando cada vez mais o voto no eleitorado fidelizado,
por outro lado, o eleitorado flutuante não decide na véspera, decide, creio,
face a contextos e circunstâncias.
Acresce que esta campanha
eleitoral, também como é regra, foi particularmente turbulenta e pouco centrada
no que está em jogo, o exercício da presidência no nosso quadro constitucional.
Exceptuando alguns dos debates, a gritaria, o soundbite, as alterações de
discursos como se nada tivesse sido dito, marcaram os últimos dias. O
surgimento de uma extrema-direita que insulta, se contradiz e ameaça a
democracia servindo-se do que a democracia permite, veio tornar ainda mais
necessária a reflexão que não é realizada na véspera.
Em segundo lugar, porque na
verdade, em termos de futuro parece ser mais significativo reflectir nos
resultados eleitorais que se verificarem. Estas eleições são um claro exemplo
disso mesmo, por exemplo a partir da votação que receberá a extrema-direita ou
o que indiciarão sobre os acordos que assegurarão a governabilidade.
Configura-se a necessidade de uma
segunda volta face ao equilíbrio que se antecipa. Recordo o ano de 1986 com a
segunda volta para presidenciais entre Mário Soares e Freitas do Amaral e
expectativa face aos resultados. Por coincidência estive numa das mesas de voto
e quando começou a contagem de votos corríamos pelas várias mesas tentando
perceber o sentido da votação. Lamentavelmente, os candidatos de agora fariam corar
qualquer daquelas figuras pela mediocridade e estilo.
Ainda assim, aproveito o dia de reflexão
para deixar um apelo muito sentido. Apelo vivamente aos senhores integrantes das
diferentes candidaturas que se inibam de elaborar comentários como “queria
felicitar o povo português pela forma tranquila como está a decorrer, ou
decorreu, o acto eleitoral”, “quero registar a normalidade que o povo português
evidencia no cumprimento do seu dever cívico”, “os cidadãos mais uma vez
mostram a sua maturidade democrática” ou ainda “o acto eleitoral está a
decorrer, ou decorreu, com toda a normalidade em todo o território”. Considero
afirmações desta natureza um insulto à esmagadora maioria dos cidadãos
eleitores em Portugal. Que diabo pensam de nós, para se surpreenderem com a
“normalidade” do nosso comportamento?
Então não é de esperar que
participar num acto eleitoral, das diferentes formas possíveis, seja algo de
normal e tranquilo?
Lembro-me daqueles pais e
professores que ao falarem de miúdos acrescentam de imediato “e até se portam
bem”, como se o comportamento adequado seja uma surpresa e a excepção. Como se
dizia no PREC, “repudio veementemente tais afirmações”.
Já agora, nós, os cidadãos que
votamos, ou não, com normalidade democrática, gostávamos de poder comentar as
campanhas dos candidatos dizendo que tudo decorreu com a elevação, sentido
ético e de esclarecimento normais. Mas não, existem sempre os insultos, a
demagogia, a trafulhice nas ideias e nas promessas, a desinformação, a falta de esclarecimento e
debate sério, a confusão entre poder presidencial e poder
legislativo, etc. A campanha eleitoral foi particular e inquietantemente
elucidativa.
A campanha que ontem terminou
constituiu um autêntico manual. Aliás, achei até que um povo que vota com
“normalidade democrática” e “maturidade cívica” merecia melhor.
A actividade política das
lideranças é que, demasiadas vezes, não decorre com “tranquilidade e maturidade
democráticas”, é muito mau o que demasiadas vezes se ouve ou lê. Aliás, a candidatura
de extrema-direita aproveita a democracia para a fragilizar.
Não tratem os cidadãos como gente
incapaz a quem se saca o voto, mas de quem sempre parece esperar-se o pior.
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