domingo, 4 de janeiro de 2026

O PROVEDOR DO LEITOR DO PÚBLICO E A DEFESA DO "ACORDÊS"

 Li com alguma perplexidade a primeira peça do novo Provedor do Leitor do Público, João Garcia, um jornalista cuja carreira acompanhei, designadamente, no Expresso e na Visão, e que creio ser uma excelente escolha, mas com um infeliz começo.

O Provedor desenvolve uma dura crítica ao Público por não recorrer ao Acordês, a mixórdia em que se tornou a língua portuguesa após o Acordo Ortográfico de 1990.

Na sua argumentação, dentro do que é habitual pelos defensores, deveria dispensar o recurso aos esfarrapados exemplos de minudências de confusão que todas as línguas têm.

Algumas notas.

O Provedor do Leitor justifica a peça por não ter ainda questões levantadas pelos leitores e então … defende o acordês.

Li com atenção as funções do Provedor do Leitor e, talvez por algum viés de interpretação, nem sequer me parece que esta questão se enquadre na sua função central, a “missão de garantir a defesa dos direitos dos leitores” e as suas competências.

O facto de estar em utilização não implica que não possa ser contestado e recusado como faz e bem o Público.

Será porventura uma tarefa sem sucesso, mas enquanto for possível reverter a situação criada pelo AO90, ou, pelo menos, atenuar danos, vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. É uma questão de cidadania, de defesa da Cultura e da Língua Portuguesa. Aliás, os que por aqui passam notarão a manutenção do Português e a recusa do “acordês”.

É importante recordar que Portugal, S. Tomé e Príncipe, Brasil, Cabo Verde e Timor-Leste procederam à ratificação o que não aconteceu com Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

Como tantas vezes tenho escrito, desculpem a insistência e não inovar, entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.

Não sou, evidentemente, um especialista, mas parece-me que o cerne da questão reside, de facto, no entendimento, cito o presidente da Academia das Ciências de Lisboa, de que “Qualquer tentativa de uniformização ortográfica nos diversos países que usam a língua portuguesa como oficial é utópica” e que “o normal é o respeito pelas ortografias nacionais".

É esta perspectiva que informa o que se passa, por exemplo, com o inglês ou o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas ou na linguagem oral nos diferentes países em que são língua oficial, sem que daí advenha qualquer perturbação ou drama, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas ou com língua oficial castelhano/espanhol.

Acresce que as explicações que os defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade, antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até "incongruências" no AO, o que, aliás, me parece curioso, para ser simpático. Dito de outra maneira, desencadeamos um acordo com esta amplitude e implicações para manter "incongruências e imperfeições" que abastardam a ortografia da Língua Portuguesa.

Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence. Voltando ao exemplo do inglês e do castelhano/espanhol que têm diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, não parece sejam conhecidas particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for.

O que na verdade conhecemos com exemplos extraordinários é a transformação da Língua Portuguesa numa mixórdia abastardada, numa confusão impossível de concertar dadas as diferenças entre o Português falado e escrito pelos diferentes países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Na verdade, o desejável seria reverter alguns dos maus-tratos dados à Língua Portuguesa com o AO90.

Estarei sempre em (DES)Acordo com o Acordo. Enquanto o corrector me permitir e eu conseguir tentarei evitar o “acordês”, birra de velho, evidentemente.

A intervenção do Provedor do Leitor do Público começa mal. Aliás, é o que transparece dos muitos comentários que o texto suscitou. Não era necessário.

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