Li com alguma perplexidade a primeira peça do novo Provedor do Leitor do Público, João Garcia, um jornalista cuja carreira acompanhei, designadamente, no Expresso e na Visão, e que creio ser uma excelente escolha, mas com um infeliz começo.
O Provedor desenvolve uma dura
crítica ao Público por não recorrer ao Acordês, a mixórdia em que se tornou a língua
portuguesa após o Acordo Ortográfico de 1990.
Na sua argumentação,
dentro do que é habitual pelos defensores, deveria dispensar o recurso aos esfarrapados
exemplos de minudências de confusão que todas as línguas têm.
Algumas notas.
O Provedor do Leitor justifica a peça por não ter
ainda questões levantadas pelos leitores e então … defende o acordês.
Li com atenção as funções do Provedor do Leitor e, talvez por algum viés de interpretação, nem sequer me parece que
esta questão se enquadre na sua função central, a “missão de garantir a defesa
dos direitos dos leitores” e as suas competências.
O facto de estar em utilização
não implica que não possa ser contestado e recusado como faz e bem o Público.
Será porventura uma tarefa sem
sucesso, mas enquanto for possível reverter a situação criada pelo AO90, ou,
pelo menos, atenuar danos, vale a pena insistir, importa que não nos
resignemos. É uma questão de cidadania, de defesa da Cultura e da Língua Portuguesa.
Aliás, os que por aqui passam notarão a manutenção do Português e a recusa do
“acordês”.
É importante recordar que Portugal,
S. Tomé e Príncipe, Brasil, Cabo Verde e Timor-Leste procederam à ratificação o
que não aconteceu com Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
Como tantas vezes tenho escrito,
desculpem a insistência e não inovar, entendo, evidentemente, que as línguas
são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo,
a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me
parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como
norma.
Não sou, evidentemente, um
especialista, mas parece-me que o cerne da questão reside, de facto, no
entendimento, cito o presidente da Academia das Ciências de Lisboa, de que
“Qualquer tentativa de uniformização ortográfica nos diversos países que usam a
língua portuguesa como oficial é utópica” e que “o normal é o respeito pelas
ortografias nacionais".
É esta perspectiva que informa o
que se passa, por exemplo, com o inglês ou o castelhano/espanhol que têm
algumas diferenças ortográficas ou na linguagem oral nos diferentes países em
que são língua oficial, sem que daí advenha qualquer perturbação ou drama, mas
isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante
daquelas comunidades anglófonas ou com língua oficial castelhano/espanhol.
Acresce que as explicações que os
defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade,
antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a
Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até
"incongruências" no AO, o que, aliás, me parece curioso, para ser
simpático. Dito de outra maneira, desencadeamos um acordo com esta amplitude e
implicações para manter "incongruências e imperfeições" que
abastardam a ortografia da Língua Portuguesa.
Por outro lado, a grande razão, a
afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence. Voltando ao
exemplo do inglês e do castelhano/espanhol que têm diferenças ortográficas nos
diferentes países em que são língua oficial, não parece sejam conhecidas
particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for.
O que na verdade conhecemos com
exemplos extraordinários é a transformação da Língua Portuguesa numa mixórdia
abastardada, numa confusão impossível de concertar dadas as diferenças entre o
Português falado e escrito pelos diferentes países da Comunidade dos Países de
Língua Portuguesa. Na verdade, o desejável seria reverter alguns dos
maus-tratos dados à Língua Portuguesa com o AO90.
Estarei sempre em (DES)Acordo com
o Acordo. Enquanto o corrector me permitir e eu conseguir tentarei evitar o
“acordês”, birra de velho, evidentemente.
A intervenção do Provedor do Leitor do
Público começa mal. Aliás, é o que transparece dos muitos comentários que o texto
suscitou. Não era necessário.
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