Partiu António Lobo Antunes, um dos que, citando Camões, “por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Recordo os primeiros livros, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, que iniciaram uma longa estrada na literatura em português.
A propósito de António Lobo
Antunes recordo uma história que já aqui deixei.
Era uma vez um Rapaz que quando
começou a descobrir as letras pensava que havia letras bonitas e letras feias
que serviam, justamente, para escrever palavras bonitas e palavras feias.
Algum tempo depois e com alguma
perplexidade percebeu que era com as mesmas letras que se escreviam todas as
palavras, as grandes e as pequenas, as bonitas e as feias, as boas e as más, as
que soam bem e as que soam mal, as fáceis e as difíceis, as que se dizem e as
que se guardam, enfim, todas as palavras.
Depois, compreendeu ainda que
toda a gente lhe dizia quais as palavras que devia escrever, que palavras devia
usar, toda a gente lhe fazia ditados, por assim dizer. Sempre que o Rapaz não
escrevia ou usava as palavras que lhe ditavam, as pessoas olhavam com ar
reprovador e sério e assinalavam um erro. O Rapaz dava muitos erros, muitas
vezes não escrevia ou usava as palavras que lhe ditavam.
Depois de muito pensar e de
sofrer com os erros que lhe diziam que dava, decidiu então que seria um
escritor. Era, pensava, a única forma de escrever e usar as palavras que queria
e só essas.
Um dia, partiu rodeado de
palavras de palavras bonitas, finalmente. É quase sempre assim com os
escritores, ficam rodeados de palavras bonitas. Depois de partirem.
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