quinta-feira, 5 de março de 2026

PARTIU ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 Partiu António Lobo Antunes, um dos que, citando Camões, “por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Recordo os primeiros livros, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, que iniciaram uma longa estrada na literatura em português.

A propósito de António Lobo Antunes recordo uma história que já aqui deixei.

Era uma vez um Rapaz que quando começou a descobrir as letras pensava que havia letras bonitas e letras feias que serviam, justamente, para escrever palavras bonitas e palavras feias.

Algum tempo depois e com alguma perplexidade percebeu que era com as mesmas letras que se escreviam todas as palavras, as grandes e as pequenas, as bonitas e as feias, as boas e as más, as que soam bem e as que soam mal, as fáceis e as difíceis, as que se dizem e as que se guardam, enfim, todas as palavras.

Depois, compreendeu ainda que toda a gente lhe dizia quais as palavras que devia escrever, que palavras devia usar, toda a gente lhe fazia ditados, por assim dizer. Sempre que o Rapaz não escrevia ou usava as palavras que lhe ditavam, as pessoas olhavam com ar reprovador e sério e assinalavam um erro. O Rapaz dava muitos erros, muitas vezes não escrevia ou usava as palavras que lhe ditavam.

Depois de muito pensar e de sofrer com os erros que lhe diziam que dava, decidiu então que seria um escritor. Era, pensava, a única forma de escrever e usar as palavras que queria e só essas.

Um dia, partiu rodeado de palavras de palavras bonitas, finalmente. É quase sempre assim com os escritores, ficam rodeados de palavras bonitas. Depois de partirem.

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