quarta-feira, 20 de maio de 2026

POBREZA E DESENVOLVIMENTO

 No Público divulga-se a apresentação do relatório “Portugal, Balanço Social 2025, da Nova School of Business & Economics” realizada hoje.

Alguns dos dados mais relevantes. Apesar da diminuição (1,2%) global do risco de pobreza, das cerca de 301000 crianças em Portugal, 5%, uma em cada vinte, sentiu fome e metade não consegue participar numa actividade extracurricular ou de lazer por dificuldades económicas  

É ainda relevante considerar que, com base no Inquérito às Condições de Vida e Rendimentos do INE, Carlos Farinha mostrou no estudo “Portugal Desigual” que “a taxa de pobreza é quase quatro vezes superior quando os pais têm apenas o ensino básico”, ou seja, no caso de filhos de pais com escassa escolaridade a pobreza atinge os 34,3% enquanto nos filhos de pais com o ensino superior, o valor baixa drasticamente para os 8,9%.

A verdade é que continuam preocupantes os dados sobre as circunstâncias sociais e económicas em que vivem muitas, demasiadas, crianças em Portugal. Apesar de frequentemente aqui abordar estas questões, é preciso insistir.

Sabemos que a educação tem um papel crítico neste processo. Retomando notas que aqui recentemente deixei, recupero o relatório, “Portugal, Balanço Social 2023”, realizado pela Nova SBE Economics for Policy. De acordo com o trabalho, 82% das crianças pobres com três anos ou menos não frequentam pelo menos 30h de creche. Também no intervalo entre 4 e 7 anos são também as crianças mais pobres que não frequentam educação pré-escolar.

Está bem estudada a relação entre a situação económica, laboral e nível de literacia familiar no trajecto pessoal. E também sabemos que situações de "guetização da pobreza" são um obstáculo à sua minimização.

Também sabemos que a pobreza tem claramente uma dimensão estrutural e intergeracional, as crianças de famílias pobres demorarão até cinco gerações a aceder a rendimentos médios, um indicador acima da média europeia. Estas matérias deveriam constituir o núcleo das políticas públicas juntamente com a saúde e a educação.

A escola é certamente uma ferramenta poderosa de promoção de mobilidade social, mas, por si só, dificilmente funciona como elevador social. Muito menos o fará em circunstâncias em que boa parte dos alunos vive em más condições.

O impacto das circunstâncias de vida no bem-estar das crianças e em aspectos mais particulares como o rendimento escolar ou o comportamento é por demais conhecido e essas circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências significativas ao nível das necessidades básicas.

Algumas vezes, quando penso nestas matérias não resisto a recuperar uma história que conto muitas vezes, coisas de velho como sabem, e que foi umas das maiores e mais bonitas lições sobre educação que já recebi. E mais uma vez.

Aconteceu há já uns anos em Inhambane, Moçambique, também conhecida por Terra da Boa Gente. Num início de manhã, eu o Velho Carlos Bata, um homem velho e sem cursos, meu anjo da guarda durante as semanas que lá estive em trabalho, íamos a passar por uma escola para gaiatos pequenos e o Velho Bata, parou a olhar. Não estranhei, era um homem que não conhecia o significado de pressa.

Um tempinho depois disse-me que se tivesse “poderes de mandar” traria um camião de batata-doce para aquela escola. Perante a minha estranheza, explicou que aqueles miúdos teriam de comer até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.

Pois é Velho, miúdos com fome e que passam mal não aprendem e vão continuar pobres. E infelizes, não se riem.

Ontem, hoje e amanhã. Não podemos falhar.

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