No Público divulga-se a apresentação do relatório “Portugal, Balanço Social 2025, da Nova School of Business & Economics” realizada hoje.
Alguns dos dados mais relevantes.
Apesar da diminuição (1,2%) global do risco de pobreza, das cerca de 301000
crianças em Portugal, 5%, uma em cada vinte, sentiu fome e metade não consegue
participar numa actividade extracurricular ou de lazer por dificuldades económicas
É ainda relevante considerar que,
com base no Inquérito às Condições de Vida e Rendimentos do INE, Carlos Farinha
mostrou no estudo “Portugal Desigual” que “a taxa de pobreza é quase quatro
vezes superior quando os pais têm apenas o ensino básico”, ou seja, no caso de
filhos de pais com escassa escolaridade a pobreza atinge os 34,3% enquanto nos
filhos de pais com o ensino superior, o valor baixa drasticamente para os 8,9%.
A verdade é que continuam
preocupantes os dados sobre as circunstâncias sociais e económicas em que vivem
muitas, demasiadas, crianças em Portugal. Apesar de frequentemente aqui abordar
estas questões, é preciso insistir.
Sabemos que a educação tem um papel crítico neste processo. Retomando notas que aqui recentemente deixei, recupero o relatório, “Portugal, Balanço Social 2023”, realizado pela Nova SBE Economics for Policy. De acordo com o trabalho, 82% das crianças pobres com três anos ou menos não frequentam pelo menos 30h de creche. Também no intervalo entre 4 e 7 anos são também as crianças mais pobres que não frequentam educação pré-escolar.
Está bem estudada a relação entre a situação económica, laboral e nível de literacia familiar no trajecto pessoal. E também sabemos que situações de "guetização da pobreza" são um obstáculo à sua minimização.
Também sabemos que a pobreza tem
claramente uma dimensão estrutural e intergeracional, as crianças de famílias
pobres demorarão até cinco gerações a aceder a rendimentos médios, um indicador
acima da média europeia. Estas matérias deveriam constituir o núcleo das
políticas públicas juntamente com a saúde e a educação.
A escola é certamente uma
ferramenta poderosa de promoção de mobilidade social, mas, por si só,
dificilmente funciona como elevador social. Muito menos o fará em
circunstâncias em que boa parte dos alunos vive em más condições.
O impacto das circunstâncias de
vida no bem-estar das crianças e em aspectos mais particulares como o
rendimento escolar ou o comportamento é por demais conhecido e essas
circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso
e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências
significativas ao nível das necessidades básicas.
Algumas vezes, quando penso
nestas matérias não resisto a recuperar uma história que conto muitas vezes,
coisas de velho como sabem, e que foi umas das maiores e mais bonitas lições
sobre educação que já recebi. E mais uma vez.
Aconteceu há já uns anos em
Inhambane, Moçambique, também conhecida por Terra da Boa Gente. Num início de
manhã, eu o Velho Carlos Bata, um homem velho e sem cursos, meu anjo da guarda
durante as semanas que lá estive em trabalho, íamos a passar por uma escola
para gaiatos pequenos e o Velho Bata, parou a olhar. Não estranhei, era um
homem que não conhecia o significado de pressa.
Um tempinho depois disse-me que
se tivesse “poderes de mandar” traria um camião de batata-doce para aquela
escola. Perante a minha estranheza, explicou que aqueles miúdos teriam de comer
até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.
Pois é Velho, miúdos com fome e
que passam mal não aprendem e vão continuar pobres. E infelizes, não se riem.
Ontem, hoje e amanhã. Não podemos
falhar.
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