quinta-feira, 28 de maio de 2026

NECESSIDADES ESPECIAIS, ENSINO SUPERIOR E INCLUSÃO

 Há pouco mais de um mês ficámos a saber que, de acordo com os dados do Inquérito às Necessidades Especiais de Educação no Ensino Superior divulgados pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, o número de alunos com necessidades especiais a frequentar este ano o ensino superior é de 6376, um acréscimo de 20% relativamente ao ano passado. De facto, o número tem vindo a subir nos últimos anos e este dado é tanto mais significativo quando coincide com um abaixamento de 10% do número total de alunos que ingressaram no superior, aspecto que também aqui comentei.

Acontece que as mudanças no acesso ao ensino superior agora conhecidas penalizam os alunos com necessidades educativas específicas.

Os alunos que se candidatam e tenham um atestado médico de incapacidade multiuso que avalie incapacidade igual ou superior a 60% são integrados no contingente prioritário com 4% de vagas fixadas na 1ª fase do concurso nacional de acesso.

No entanto, até agora, o regulamento permitia o acesso a estudantes que, não tendo incapacidade igual ou superior a 60%, tinham um grau de deficiência que levava a que tivessem beneficiado de medidas de apoio à aprendizagem no ensino secundário. Esta possibilidade abrangia alunos, por exemplo, com défice de atenção, dislexia ou outra tipologia de necessidades especiais. Estes alunos apresentavam declaração médica, um relatório técnico-pedagógico que comprovava as medidas adicionais de suporte de que beneficiavam na escola e que seriam justificadas pelo seu quadro de problemas. Cada processo era avaliado por uma comissão de peritos, constituída por despacho do diretor-geral do Ensino Superior. Em caso de decisão favorável, estes alunos passavam a concorrer às vagas do contingente prioritário.

No novo modelo esta situação não existe, um aluno com um atestado médico de incapacidade multiuso que avalie uma incapacidade igual ou superior a 60% integra o contingente prioritário, mas um aluno com necessidades específicas que justificaram medidas adicionais de suporte à aprendizagem até final do secundário não “cabe” no contingente prioritário. Faz sentido? Não! A decisão tem alguma coisa ver com a inclusão de que se enchem os discursos? Não!

Nada de novo, apesar do aumento que referi no início, as dificuldades no ensino superior para alunos com necessidades especiais são enormes, para além do acesso.

Dados de 23/34 mostram que apenas 14% das vagas do contingente especial para estes alunos foi ocupada. Também é relevante que a taxa de abandono aumentou ligeiramente, de 10,25% de 23/24 para 11% no ano passado.

Como já aqui tenho escrito, é habitual ouvir-se que, recorrer a quotas ou contingentes especiais para minimizar exclusão ou desigualdade, não sendo o ideal, pode ajudar a minimizar os problemas. No entanto, a questão é mais complexa, nem sempre as vagas definidas no contingente especial são preenchidas. Com esta alteração as dificuldades aumentam. Nada de novo.

Para além da definição de quotas no acesso ao superior e dos seus critérios de aplicação, a promoção da qualificação de cidadãos com necessidades especiais e, portanto, da sua inclusão começa na educação pré-escolar e durante todo o trajecto do ensino básico e secundário. Neste percurso é crítica a necessidade de dispositivos de apoio competentes e suficientes.

A realidade, no âmbito da chamada educação inclusiva, apesar das boas experiências que existem, não é a que muitas vezes se vê referida. A título de exemplo e como aqui muitas vezes referi, nem sempre é cumprido o limite de alunos com necessidades educativas especiais por turma.

São claramente insuficientes os recursos técnicos e humanos, psicólogos, terapeutas e auxiliares e verifica-se a incapacidade de muitas escolas na operacionalização das medidas de apoio definidas nos relatórios técnico-pedagógicos. As direcções escolares referem a insuficiência de recursos humanos adequados que se agudiza com a dramática falta de docentes.

Acresce que, como já referi a propósito do contingente prioritário para alunos carenciados, a decisão de continuar para o ensino superior é construída durante todo o trajecto do básico e secundário. Percursos educativos bem apoiados promovem expectativas mais elevadas de alunos e famílias, valorizam o conhecimento e a qualificação e, portanto, são mais potenciadores da intenção de continuar a estudar. Donde, é imprescindível um forte investimento em recursos e dispositivos de apoio que que sustentem mais sucesso para todos os alunos de todas as escolas.

Também sabemos que, sem estranheza, as famílias em situação mais vulnerável expressam mais frequentemente expectativas mais baixas ou nulas sobre o sucesso escolar dos seus filhos e sobre a importância de estudar. Por outro lado, também sabemos que a entrada no mercado de trabalho de pessoas com deficiência ainda tem mutos obstáculos. Torna-se, assim, necessário um trabalho que envolva as famílias no sentido de construir ou reajustar expectativas sentirem a existência de uma imagem criadora de futuro.

Embora já seja feito em muitas escolas, sobretudo no final e durante o pós-básico, seria desejável que os dispositivos de orientação vocacional tivessem os recursos necessários para de forma alargada providenciarem informação clara sobre a natureza da oferta formativa, das suas características e solicitações, a que áreas de desempenho permitem aceder no mundo profissional, etc. Por outro lado, esse apoio também envolve o trabalho com os alunos no sentido de ajudar a um processo de tomada de decisão que seja base para procurar qualificação, de natureza diversa, no ensino superior.

Já no ensino superior e para todos os alunos é importante que existam dispositivos de apoio institucionais e também formas de mentoria desenvolvidas já por alunos a frequentar os estabelecimentos que contribuam para melhores e mais rápidos processos de adaptação a novas rotinas, métodos de trabalho, dificuldades de adaptação, etc. O nível de desistência da frequência é mais alto nas populações mais vulneráveis.

Uma nota final para o óbvio, as mudanças mais estruturais requerem investimentos e os recursos são finitos, nenhuma dúvida.

No entanto, as políticas públicas exigem opções e, também por isso, são avaliadas.

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