Merece leitura atenta a última nota do “Livro de recitações” na coluna de António Guerreiro no Público. A nota aborda a paupérrima e errada argumentação do provedor do Público, João Garcia, na defesa do Acordo Ortográfico de 1990 de que é defensor. Curiosamente, é provedor de um jornal que, na sua douta opinião, comete diariamente, um chorrilho de erros ortográficos pois não aderiu ao "acordês".
Também na altura estranhei que o provedor
se tenha apresentado com uma forte crítica e com pobre sustentação à decisão do
Público de, felizmente, não embarcar na mixórdia em que se transformou a Língua
Portuguesa.
Como disse na altura, li com
atenção as funções do Provedor do Leitor e, talvez por algum viés de
interpretação, nem sequer me parece que esta questão se enquadre na sua função
central, a “missão de garantir a defesa dos direitos dos leitores” e as suas
competências.
O facto de estar em utilização
não implica que não possa ser contestado e recusado como faz e bem o Público. Será
porventura uma tarefa sem sucesso, mas enquanto for possível reverter a
situação criada pelo AO90, ou, pelo menos, atenuar danos, vale a pena insistir,
importa que não nos resignemos. É uma questão de cidadania, de defesa da
Cultura e da Língua Portuguesa. Aliás, os que por aqui passam notarão a
manutenção do Português e a recusa do “acordês”.
É importante recordar que
Portugal, S. Tomé e Príncipe, Brasil, Cabo Verde e Timor-Leste procederam à
ratificação o que não aconteceu com Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
Como tantas vezes tenho escrito,
desculpem a insistência e não inovar, entendo, evidentemente, que as línguas
são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo,
a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me
parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como
norma.
Não sou, evidentemente, um
especialista, mas parece-me que o cerne da questão reside, de facto, no
entendimento, cito o presidente da Academia das Ciências de Lisboa, de que
“Qualquer tentativa de uniformização ortográfica nos diversos países que usam a
língua portuguesa como oficial é utópica” e que “o normal é o respeito pelas
ortografias nacionais".
É esta perspectiva que informa o
que se passa, por exemplo, com o inglês ou o castelhano/espanhol que têm
algumas diferenças ortográficas ou na linguagem oral nos diferentes países em
que são língua oficial, sem que daí advenha qualquer perturbação ou drama, mas
isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante
daquelas comunidades anglófonas ou com língua oficial castelhano/espanhol.
Acresce que as explicações que os
defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade,
antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a
Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até
"incongruências" no AO, o que, aliás, me parece curioso, para ser
simpático. Dito de outra maneira, desencadeamos um acordo com esta amplitude e
implicações para manter "incongruências e imperfeições" que
abastardam a ortografia da Língua Portuguesa.
Por outro lado, a grande razão, a
afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence. Voltando ao
exemplo do inglês e do castelhano/espanhol que têm diferenças ortográficas nos
diferentes países em que são língua oficial, não parece que sejam conhecidas
particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for.
O que na verdade conhecemos com
exemplos extraordinários é, como disse acima, a transformação da Língua
Portuguesa numa mixórdia abastardada, numa confusão impossível de concertar
dadas as diferenças entre o Português falado e escrito pelos diferentes países
da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Na verdade, o desejável seria
reverter alguns dos maus-tratos dados à Língua Portuguesa com o AO90.
Estarei sempre em (DES)acordo com
o Acordo. Enquanto o corrector me permitir e eu conseguir, tentarei evitar o
“acordês”, birra de velho, evidentemente.
A intervenção do Provedor do
Leitor do Público começou mal. Aliás, é o que transparece dos muitos
comentários que o texto suscitou. Não era necessário.
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