terça-feira, 3 de março de 2026

AINDA O MALFADADO "ACORDÊS"

 Merece leitura atenta a última nota do “Livro de recitações” na coluna de António Guerreiro no Público. A nota aborda a paupérrima e errada argumentação do provedor do Público, João Garcia, na defesa do Acordo Ortográfico de 1990 de que é defensor. Curiosamente, é provedor de um jornal que, na sua douta opinião, comete diariamente, um chorrilho de erros ortográficos pois não aderiu ao "acordês".

Também na altura estranhei que o provedor se tenha apresentado com uma forte crítica e com pobre sustentação à decisão do Público de, felizmente, não embarcar na mixórdia em que se transformou a Língua Portuguesa.

Como disse na altura, li com atenção as funções do Provedor do Leitor e, talvez por algum viés de interpretação, nem sequer me parece que esta questão se enquadre na sua função central, a “missão de garantir a defesa dos direitos dos leitores” e as suas competências.

O facto de estar em utilização não implica que não possa ser contestado e recusado como faz e bem o Público. Será porventura uma tarefa sem sucesso, mas enquanto for possível reverter a situação criada pelo AO90, ou, pelo menos, atenuar danos, vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. É uma questão de cidadania, de defesa da Cultura e da Língua Portuguesa. Aliás, os que por aqui passam notarão a manutenção do Português e a recusa do “acordês”.

É importante recordar que Portugal, S. Tomé e Príncipe, Brasil, Cabo Verde e Timor-Leste procederam à ratificação o que não aconteceu com Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

Como tantas vezes tenho escrito, desculpem a insistência e não inovar, entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.

Não sou, evidentemente, um especialista, mas parece-me que o cerne da questão reside, de facto, no entendimento, cito o presidente da Academia das Ciências de Lisboa, de que “Qualquer tentativa de uniformização ortográfica nos diversos países que usam a língua portuguesa como oficial é utópica” e que “o normal é o respeito pelas ortografias nacionais".

É esta perspectiva que informa o que se passa, por exemplo, com o inglês ou o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas ou na linguagem oral nos diferentes países em que são língua oficial, sem que daí advenha qualquer perturbação ou drama, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas ou com língua oficial castelhano/espanhol.

Acresce que as explicações que os defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade, antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até "incongruências" no AO, o que, aliás, me parece curioso, para ser simpático. Dito de outra maneira, desencadeamos um acordo com esta amplitude e implicações para manter "incongruências e imperfeições" que abastardam a ortografia da Língua Portuguesa.

Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence. Voltando ao exemplo do inglês e do castelhano/espanhol que têm diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, não parece que sejam conhecidas particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for.

O que na verdade conhecemos com exemplos extraordinários é, como disse acima, a transformação da Língua Portuguesa numa mixórdia abastardada, numa confusão impossível de concertar dadas as diferenças entre o Português falado e escrito pelos diferentes países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Na verdade, o desejável seria reverter alguns dos maus-tratos dados à Língua Portuguesa com o AO90.

Estarei sempre em (DES)acordo com o Acordo. Enquanto o corrector me permitir e eu conseguir, tentarei evitar o “acordês”, birra de velho, evidentemente.

A intervenção do Provedor do Leitor do Público começou mal. Aliás, é o que transparece dos muitos comentários que o texto suscitou. Não era necessário.

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