Encontra-se no JN uma peça em que se divulga o Projecto Sucesso para Todos desenvolvido em Esposende por iniciativa do Município envolvendo cerca três mil alunos entre Setembro e Dezembro. O Projecto define-se como um complemento ao trabalho das escolas promovendo intervenções especializadas nas áreas da Psicologia e da Informática.
O objectivo é responder a
dificuldades identificadas em contexto escolar, desde problemas de aprendizagem
e regulação emocional até lacunas na literacia digital. Assenta na intervenção precoce
e no acompanhamento continuado dos alunos, envolvendo também famílias, docentes
e assistentes operacionais.
São referidos os bons resultados
obtidos no início do ano lectivo pelo que o Projecto será uma das principais
apostas da autarquia na promoção do sucesso escolar, da inclusão e do bem-estar
das crianças e jovens.
Como é óbvio, registo com
satisfação a iniciativa e os seus resultados, mas …
A questão é que as dificuldades
enormes porque passam as escolas levam demasiadas vezes a que surja um Projecto, uma Iniciativa, um Plano, um … “Qualquer Coisa”, que vem do
exterior de uma escola “obesa”, onde tudo deve caber, é "inclusiva" e
a quem tudo se pede e se exige “fazer o que ainda não foi feito” (espero que o
Pedro Abrunhosa não se incomode com o “plágio”).
Num exercício de crença e boa
vontade afirmo, como o José Afonso, “seja bem-vindo quem vier por bem” e
registo todas as iniciativas que possam contribuir para minimizar ou erradicar
problemas como será o caso do Projecto Sucesso para Todos, mas já me falta
convicção no impacto do procedimento habitual, para cada constrangimento ou
dificuldade percebida nas escolas, pelas escolas ou de fora das escolas,
aparece vindo de fora ou gerido de fora, um Plano, um Projecto, um Programa,
uma Iniciativa, as combinações são múltiplas, destinado a minimizar eliminar as dificuldades identificadas.
Com demasiada frequência muitos
destes projectos ou iniciativas vêm de fora das escolas, as origens são
variadas, como dificuldade em envolver a gente das escolas, esmagada pelo
trabalho, burocracia e outros constrangimentos como, por exemplo, assegurar da
melhor forma possível o dia-a-dia do trabalho educativo que tem de ser
realizado. Não estou a referir-me apenas ao Projecto Sucesso para Todos que
desejo que minimize dificuldades e promova sucesso.
Também sei que existe em cada
comunidade escolar uma multiplicidade de práticas de qualidade variada, mas
tenho para mim, que não podendo a escola responder a todas as questões que
afectam quem nelas passa o dia poderia, ainda assim, fazer mais e melhor se os
investimentos feitos no mundo à volta da escola e que lhe vêm bater à porta com
propostas fossem canalizados para as escolas e geridos pelas escolas.
Com real autonomia, com mais
recursos e com modelos organizativos mais adequados as escolas poderiam
certamente fazer mais e melhor que quem vem de fora numa passagem transitória,
mais ou menos longa, mas transitória. Sim, tudo isto deveria ser objecto de
escrutínio, regulação e avaliação também externa, naturalmente.
Escolas com mais auxiliares,
auxiliares informados e formados podem ter um papel importante em diferentes
domínios.
Directores de turma com mais
tempo para os alunos e professores com menos alunos poderiam desenvolver
trabalho útil em múltiplos aspectos do comportamento e da aprendizagem.
Psicólogos e outros técnicos em
número mais adequado poderiam acompanhar, promover e desenvolver múltiplas
acções de apoio a alunos, professores, técnicos e pais.
Mediadores que promovessem
iniciativas no âmbito da relação entre escola, pais e comunidade seriam, a
experiência mostra-o, um investimento com retorno.
Professores valorizados e
qualificados social e profissionalmente o adequar de dimensões como o
recrutamento, o ajustamento na formação, o modelo de carreira, o modelo de
avaliação e progressão, a valorização do estatuto salarial dos docentes, ou a
desburocratização do trabalho dos professores, entre outros aspectos.
Modelos de governança das escolas
mais adequados, competentes e participados.
Repetindo e sintetizando, os
professores sabem como avaliar e identificar as dificuldades dos alunos. O que
verdadeiramente é imprescindível é dotar as escolas de forma continua e estável
dos recursos necessários para minimizar tanto e tão rápido quanto possível as
dificuldades que identificam. Recursos suficientes para recorrer a apoios
tutoriais ou ao trabalho com grupos de alunos de menor dimensão, apoios
específicos a alunos mais vulneráveis, técnicos, psicólogos, por exemplo, num
rácio que possibilite um trabalho multidimensionado como é exigido, etc., são
essenciais e serão sempre essenciais. Torna-se também necessária a existência
de dispositivos de regulação que sustentem o trabalho desenvolvido e de
processos desburocratizados.
São apenas alguns exemplos de
respostas com resultados potenciais com um custo que talvez não seja superior
aos custos de tantos Projectos, Planos, Programas ou Iniciativas Inovadoras
destinadas a múltiplas matérias e com custos associados de “produção” que já me
têm embaraçado, mas a verdade é que as agendas e o marketing têm custos. Por
outro lado, também acontece que todo este movimento acaba por mascarar a
inadequação ou ausência em matéria de políticas públicas.
Daí este meu cansaço. Desculpem,
deve ser da idade.
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