O Ministro da Educação, Ciência e Inovação afirmou ontem no Parlamento que já está em desenvolvimento a “revisão das aprendizagens” que será “mais profunda” do que o inicialmente anunciado. Para além das mudanças nas aprendizagens essenciais será revista a matriz de cada nível de ensino e integrará a reestruturação do 1.º e 2.º ciclos de reestruturar os dois primeiros ciclos do ensino básico num só ciclo de seis anos. Como não podia deixar de ser, será também definida a estratégia de "integração da transformação digital e da inteligência artificial no sistema educativo português".
Ainda de acordo com o Ministro, este novo quadro entrará em vigor em 2027/2028 e a documentação em preparação
será divulgada ainda no primeiro trimestre deste ano para uma primeira consulta
pública.
Como várias vezes tenho dito sou
dos que entendo a necessidade de mudanças em matéria de currículo e também
muitas vezes tenho afirmado as razões para tal entendimento pelo que as deixo
de lado.
A história recente mostra que as dezenas de alterações que em matéria de currículo se foram produzindo sempre aconteceram sem que se assegurasse a avaliação séria do que está em vigor e qual o sentido da mudança. A experiência mostra ainda que sucessivas mudanças foram produzidas sem que se procurasse, não digo um consenso, pois sei que em educação e em Portugal é quase impossível face a agendas e corporações de interesses, mas o envolvimento e participação dos diferentes actores intervenientes nos processos educativos na construção das alterações são imprescindíveis.
Finalmente, mostra ainda que os
calendários e a metodologia das mudanças raramente permitiram que se
processassem sem sobressaltos e com um mínimo de estabilidade.
Este acervo de experiência
deveria ajudar a que um novo processo de mudança contrariasse a fatalidade do
“sempre se fez assim”.
Por outro lado, de há uns anos
para cá as estruturas curriculares têm vindo a engordar, a engordar, e
regularmente continuam a surgir iniciativas e projectos com impacto curricular
para desenvolver, claro, na escola.
É verdade que os alunos, passam, muitos deles, muito tempo na escola cumprindo o equívoco de uma Escola a Tempo Inteiro e não uma Educação a Tempo Inteiro. Em resposta às necessidades das famílias de guarda das crianças em horário laboral parece mais fácil alongar o tempo escolar.
Não está, evidentemente, em
discussão a importância de que a educação de crianças e jovens envolva as
diversas questões e matérias presentes na vida das comunidades, antes pelo contrário. A
questão é que haver uma tendência que suscita reservas, a de que a escola tudo
ensina e acolhe. Não, não a escola não ensina nem resolve tudo, não pode e não deve.
Em diversas ocasiões tenho
manifestado a minha reserva face ao entendimento de que tudo o que de alguma
forma possa envolver os mais novos e a sua formação deva ser
ensinado/trabalhado na escola. Esta visão obesa da escola não funciona, nem
tudo pode ou deve ser transformado em disciplinas, conteúdos escolares,
projectos, … para além de que a escola tem um conjunto de funções
incontornáveis que tornam finita a sua capacidade de responder. Sabemos, aliás,
as dificuldades que as escolas e os professores sentem no cumprimento dessas
funções.
Sabemos que, independentemente
das opções e visões ideológicas, uma das questões que no universo da educação
estarão sempre em aberto é a que envolve os conteúdos e organização curricular.
De facto, a velocidade de produção e acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento,
as mudanças nos sistemas e no quadro de valores das comunidades determinam a
regular reflexão e ajustamento sobre o que a escola deve ensinar e trabalhar,
sobretudo durante a escolaridade obrigatória.
Por outro lado, o tempo da escola
e a competência da escola são finitos, isto é, a escola não tem tempo nem pode
ou deve ensinar tudo o que pode ser aprendido. Lembram-se certamente das discussões sobre se matérias
como educação sexual, educação cívica, literacia económica e financeira,
educação para a saúde, para citar apenas alguns exemplos, deverão, ou não,
constituir-se como "disciplinas", conteúdos ou mesmo se devem
integrar os currículos escolares.
E acontece que perdemos a conta
de planos, projectos, programas, experiências inovadoras que chegam às escolas
para a educação científica, aprendizagem emocional, promover a expressão
artística e a criatividade, promover comportamentos saudáveis e actividades
desportivas, literacia financeira e também a mediática, promover a inovação e
as novas tecnologias, aprender a andar de bicicleta, para não falar de
iniciativas mais "alternativas", por assim dizer, e que têm poderes
mágicos, parece. A lista enunciada é apenas exemplificativa.
Em princípio, independentemente
de os conteúdos poderem ser mais ou menos pertinentes, vejo sempre com alguma
reserva as propostas de introdução de mais uma disciplina, mais conteúdos, mais
um manual, mais umas orientações, mais um programa de formação, perdão, de
capacitação, de professores, como se a escola, o currículo escolar, os
conteúdos, as suas competências, pudessem continuar a aumentar indefinidamente.
E não se trata apenas de um problema de recursos ainda, actualmente, seja uma
questão crítica.
Como é evidente, pode dizer-se
sempre que muitas destas questões podem integrar o trabalho escolar
considerando até que os alunos passam um tempo imenso, diria excessivo, nas
escolas. Aliás, tal acontece em muitas escolas e agrupamentos.
A questão central, do meu ponto
de vista, é que as competências da escola, os conteúdos que nela são
trabalhados, integrando ou não formalmente os currículos, não podem mesmo
aumentar continuamente. Urge uma reflexão serena, participada e com tempo sobre
o ajustamento dos conteúdos, a sua integração e organização, a forma como podem
acomodar a diversidade dos alunos e a necessidade de diferenciação dos
professores, a formação global dos alunos e não exclusivamente a promoção de
competências instrumentais, etc.
Somar conteúdos e competências à
escola sem ajustamento dos conteúdos e organização existentes, pode promover
problemas e não soluções, de tanto que lhe exigem corre risco de não
providenciar o que lhe compete.
Na verdade, nem tudo o que pode
ser interessante ou importante saber ou conhecer terá de caber numa disciplina
ou num conteúdo escolar e nem tudo o que se pode saber e conhecer se aprende na
escola.
Tenho uma visão da escola
centrada no TODO do aluno, mas não no "ensino" do TUDO que o aluno
deve saber ou conhecer.
A questão é que os alunos estão
muito tempo na escola e a tentação é óbvia e grande, a escola que faça, a
escola que ensine, a escola que cuide.
Sem comentários:
Enviar um comentário