sexta-feira, 12 de maio de 2023

OS IMPACTOS NA APRENDIZAGEM E OS IMPACTOS NA "ENSINAGEM"

 Com o prolongamento da situação de conflito entre ME e professores e pessoal não docente que já deveria ter terminado com um acordo sério, justo e competente continuam em agenda os eventuais impactos da situação nas aprendizagens dos alunos. Mais uma vez fui contactado, agora pela Sábado, para abordar esta questão. Umas notas recuperando alguns dos tópicos que abordei.

Sem surpresa e em muitas áreas, um processo que envolve a realização de uma greve terá sempre algum tipo de impacto, sendo a percepção e valorização desse impacto uma pressão para a negociação, pressão essa que as entidades em litígio têm de gerir.

No caso mais particular dos professores, parece claro que não se realizando o número de aulas previsto algum efeito poderá ter no trajecto imediato dos alunos.

Este efeito potencial é de uma enorme latitude, estará associado, naturalmente, ao número de aulas não realizadas, à idade dos alunos, ao seu desempenho escolar e dificuldades existentes, ao contexto familiar, etc.

Como me parece inevitável, só uma negociação séria, justa e competente ultrapassará as situações de greve. Tenho para mim que os padrões éticos, deontológicos e profissionais dos professores, técnicos e assistentes levarão a que seja realizado um esforço que minimize eventuais fragilidades associadas ao tempo sem aulas que, repito, serão muito diferenciadas.

Por outro lado, também me parece que tem sido menos referido o impacto de décadas de políticas públicas de educação que terão impacto na "ensinagem" e, por consequência, na aprendizagem.

Uma classe profissional maltratada, desvalorizada socialmente e profissionalmente, sem estabilidade e perspectivas de carreira, cansada e envelhecida e com quadros de mal-estar preocupantes mais dificilmente consegue manter e desenvolver o esforço necessário ao ensinar. Este cenário, também pode ter impacto nas aprendizagens, mas é menos referido, por um lado porque os números do sucesso retratam uma realidade que nem sempre nos parece “real” e, mais uma vez, o sentido ético, deontológico e profissional dos professores leva-os, na sua esmagadora maioria, a “dar o litro” na sua parte, a “ensinagem”.

Ao falar de impacto na “ensinagem”, tal como de impacto da aprendizagem, também se deverão considerar dimensões como recursos disponíveis, humanos (continuam a faltar  professores, técnicos e auxiliares), digitais num tempo em que se proclama a transição digital como “a via”, dispositivos de apoio suficientes e competentes, climas de escola pouco amigáveis e envolventes, uma asfixiante burocracia plataformizada e submersa numa pressão grelhadora que não tem fim e consome tempo e esforço com um retorno baixo na “ensinagem” e, claro, na aprendizagem.

É tudo isto que está em jogo, é tudo isto que urge repensar.

A verdade é que não podemos dissociar a aprendizagem bem-sucedida dos alunos da “ensinagem”, a docência, competente, valorizada, reconhecida, apoiada e atractiva realizada pelos professores.

Também por isso, urge uma negociação, um entendimento, sério, justo e competente.

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