quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

OS BONS EXEMPLOS CONTINUAM

O Público faz-se eco das dificuldades algumas intransponíveis que se colocam no acesso ao novo Portal do Governo por parte de pessoas com necessidades especiais. Esta situação não surpreende e é fundamentalmente detectada pelos próprios que, evidentemente, não estranharão, estão habituados à prova de obstáculos em que boa parte da sua vida se transforma.
A situação agora retratada contraria, também sem surpresas, as disposições legais que obrigam a regras de acessibilidade. Creio que vale a pena retomar algumas notas sobre este universo.
Em primeiro lugar deve dizer-se que, como acontece em outras áreas, a legislação portuguesa é positiva e promotora dos direitos das pessoas, mas a sua falta de eficácia e operacionalização é bem evidenciada na tremenda dificuldade que milhares de pessoas experimentam no dia-a-dia que decorre, frequentemente, da falta de fiscalização relativa às questões das acessibilidades e barreiras nos edifícios e no exemplo hoje fornecido pela própria administração.
Existem ainda muitos serviços públicos e outro tipo de equipamentos de prestação de serviços com barreiras arquitectónicas intransponíveis, a que os cidadãos com deficiência só podem aceder com ajuda de terceiros e, mesmo assim, com dificuldade.
Os transportes públicos de diferente natureza também colocam enormes problemas na acessibilidade por parte de pessoas com mobilidade reduzida. As normas de construção não são respeitadas, mantendo-se em edifícios novos a ausência de rampas ou a sua existência com desníveis superiores ao estabelecido, constituindo, assim, um risco sério de queda.
Para além deste quadro, suficientemente complicado, ainda há que contar com a prestimosa colaboração de muitos de nós que estacionamos o belo carrinho em cima dos passeios, complicando ou proibindo, naturalmente, a circulação de cadeiras de rodas, ou criando autênticas armadilhas para pessoas com deficiência visual. Os passeios, nem sempre com as medidas determinadas por lei, são, por vezes e quase na totalidade, ocupados com esplanadas que, claro, são só mais uma dificuldade para muita gente.
A vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que ampliam de forma inaceitável a limitação que a sua condição, só por si, pode implicar.
Também para as crianças com deficiência e respectivas famílias a vida é muito complicada face à qualidade e acessibilidade aos apoios necessários apesar do empenho profissionalismo da maioria dos profissionais que trabalham nestas áreas.
Como é evidente, existem muitas outras áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são enormes.
Termino com uma afirmação que recorrentemente subscrevo, os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como lidam com as minorias e as suas problemáticas.

E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LOS?

Pois é, de vez em quando lá me lembro de Karl Valentin e da sua peça, “E não se pode exterminá-los” e por várias razões.
Soube-se hoje que, na linha de implosões sucessivas que caracteriza o pensamento do Ministro Crato, as turmas de Educação e Formação de Adultos que tenham menos de 12 alunos não podem continuar nos estabelecimentos de ensino público, sendo os alunos dessas turmas empurrados para "qualquer outra entidade formadora pública ou privada a funcionar no mesmo concelho ou em concelho limítrofe no caso das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto". Notável. A razão de tal medida é a necessidade de garantir “a sustentabilidade do sistema, através de uma gestão rigorosa dos recursos que lhe são atribuídos" afirmou, julgo que com ar sério, a secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário, Isabel Leite.
A educação de adultos tem sido uma resposta importante para muita gente que a partir dos 18 anos procurou a aquisição de competências escolares e profissionais que melhorassem o seu projecto de vida. Neste universo, desenvolveram-se muitíssimas experiências de qualidade, sem martelar estatísticas ou atribuir diplomas de aviário.
Agora, no exercício de contabilidade em que a politica educativa se vai transformando chegou a vez de implodir as turmas EFA com menos de 12 alunos. A ver vamos o que se segue.
Existem uma série de grupos sociais dentro do universo da comunidade educativa que só atrapalham e obrigam a que se gaste dinheiro. Com calma vai ser possível ir erradicando esses grupos que só atrapalham a política educativa do Ministro Crato, adultos não escolarizados, miúdos com insucesso e indisciplinados, miúdos com necessidades educativas especiais, miúdos oriundos de minorias, etc. é tudo gente só vêm complicar a vida do Ministro e ameaçar a "sustentabilidade do sistema".
Talvez a Senhor Secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário, certamente por inexperiência  e na pressa de implodir, desconheça que existe algo a que se chama Direito à Educação e que os sistemas educativos públicos não são criados para serem "sustentáveis", são criados para atingir os objectivos que lhes competem, evidentemente com racionalidade de custos, com o menor desperdício possível e com políticas preventivas e proactivas, que não tenham como único pensamento inspirador "quantos euros a menos".
Os problemas de muitas pessoas não se resolvem se os varrermos e também não se pode exterminar essas pessoas, por enquanto. Um caminho possível é tentar que elas possam implodir por si, por exclusão.

A NORMALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA

O Ministro Nuno Crato, na linha da sua orientação programática, implodir o Ministério, fez implodir o Observatório da Segurança em Meio Escolar, por coincidência, na mesma altura em que a APAV lança uma campanha de prevenção da violência entre jovens "Corta com a Violência. Quem não te respeita, não te merece". É a austeridade, supõe-se, pois não é conhecida a razão da decisão.
Sobre este universo bem presente no quotidiano escolar, algumas notas de textos antigos já aqui deixados.
Comportamentos de violência, de bullying em termos mais gerais, em contexto escolar são tão antigos quanto a instituição escolar, sendo certo, no entanto, que a designação é recente e o estudo do fenómeno também. A violência jovens fora do contexto escolar também está longe de ser um fenómeno novo. Actualmente, é também mais objecto de referências fora dos contextos educativos pois o volume e a gravidade de algumas situações, bem como a divulgação dos estudos e alguma mediatização verificada, colocaram este problema na agenda.
Em vários estudos constata-se que os adolescentes tendem encarar a violência entre si como normal. Creio que é inquietante mas não pode ser surpreendente. A escola, desde sempre, espelha as realidades sociais e o quadro de valores prevalecente nos contextos que serve. A sociedade da informação e os sistemas de valores actuais banalizaram a violência, não são os adolescentes que a banalizaram. A violência é objecto de jogos de vídeo e computadores, é passatempo de claques e grupos, entra a qualquer hora pelas nossas casas dentro. Estarão eventualmente recordados de que num estudo recente entre jovens namorados alunos do ensino superior se constatou, ao que parece com surpresa, um nível altíssimo de violência na relação. É neste quadro que a campanha da APAV e outro tipo de iniciativas no âmbito da prevenção fazem sentido e se justificam.
Por outro lado, a escola, por ser o espaço onde os adolescentes passam a maior parte do seu tempo é, naturalmente, o espaço onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola.
Apesar disso, creio que na escola, para além de muitíssimos outros aspectos, a violência entre jovens é um fenómeno complexo, existem duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos alunos vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações. Os directores de turma, figura central nas escolas mas com um papel muitas vezes negligenciado, teriam aqui um trabalho fundamental, podem definir-se canais e dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa e ainda detectar junto dos seus alunos sinais que indiciem vitimização. Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada ao agressor. As escolas podem assumir atitudes, discursos e montar dispositivos que, visivelmente, dêem aos alunos um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.
A violência e o bullying entre adolescentes em contextos escolares ou na comunidade não serão, provavelmente, eliminados, mas poderão, acredito, ser minimizados, mas não só pela actuação da escola.

PROMOÇÕES NOS CUSTOS DA SAÚDE?! É o mercado, estúpido

É o mercado, estúpido, pensei para comigo, face à notícia de descontos promovidos por um grupo privado da área da saúde no acesso a alguns dos serviços que presta, designadamente em urgências.
À primeira reacção é de alguma perplexidade e de dúvidas. Na notícia do Público sobre esta matéria, um especialista da concorrência coloca até a legitimidade ética de promoção de descontos na área da saúde. A referência à ética nos tempos que correm em Portugal provocou-me um sorriso entre o amarelo e o amargo. Os promotores defendem-se com a solidariedade e o apoio às famílias portuguesas num momento difícil, cheio de dificuldades, a seguir à época natalícia e numa época atreita a gripes e constipações, outro sorriso amargo. Referem ainda que concorrem com os custos do SNS, agora bem mais altos com o aumento das taxas moderadoras. Os especialistas da saúde afirmam que esta iniciativa mantém a situação de que quem pode pagar o acesso a privado lá irá e quem tem urgências a sério irá a um hospital público, nada de novo, portanto.
A concorrência não prevê realizar iniciativas semelhantes até porque os seus resultados não o justificam, a procura continua a aumentar pelo que não há razão para baixar o custo da oferta.
E é assim, é o mercado a funcionar. É claro que se a coisa se complicar as iniciativas generalizam-se e aumentam, como se costuma dizer, a agressividade. Então teremos descontos e promoções a sério, "Num internamento de três dias, oferecemos-lhe o terceiro", "Por cada TAC, oferecemos-lhe uma radiografia à escolha", "Por cada três consultas de especialidade, oferecemos-lhe uma quarta consulta da especialidade que desejar", etc., etc.
É o mercado e a saúde é um excelente mercado. Acresce a que a política actual vai torná-lo ainda um mercado mais atractivo.

SE NEM TUDO SE TRANSFORMA, MUITO SE PERDE

Segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente cada um de nós, portugueses, produziu em 2010 511 quilogramas de lixo, é obra apesar de estar muito ligeiramente abaixo da média europeia, ou seja, mesmo a fazer lixo produzimos menos do que os outros.
Quando Lavoisier postulou que nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma, não imaginou que as sociedades modernas teriam um outro entendimento, tudo se compra, mal se usa e deita-se no lixo.
Face às consequências devastadoras daqui decorrentes, a necessidade e o mercado, sempre o mercado, recuperaram o princípio da transformação aplicada ao lixo e inventaram a reciclagem. Ainda bem, dizemos todos.
A questão é que passámos séculos a instalar a ideia de que quando algo chega a lixo, acaba aí. Não é fácil mudar, sobretudo, quando produzimos mais lixo que nunca.
No entanto, apesar de ter subido significativamente a capacidade de recolha selectiva de resíduos, passámos de 13% em 2009 para 15% em 2010, ainda estamos também abaixo da média europeia que ronda os 18%. Também são de salientar alguns ganhos ao nível da recuperação e reciclagem processo no qual importa insistir e persistir.
No entanto, creio que para além da recuperação e reciclagem, deveríamos fazer um esforço importante de racionalização e utilização dos materiais procurando produzir menos lixo.
Um dos maiores e mais evidentes exemplos desta "sobreprodução" de lixo é a área das embalagens com excessos que me parecem ter um peso importante no desperdício. É frequente, por exemplo, envolver um pequeno frasco de um qualquer produto em papel, cartão, plástico, etc. que lhe multiplicam a dimensão e constituem fonte de desperdício, de lixo. É evidente que boa parte deste processo obedece a sofisticadas formas de marketing e publicidade que não têm que ser imutáveis.
Se repararmos nas embalagens da maior parte dos bens que adquirimos, parece relativamente claro que em termos económicos, custo de produção e custos para o consumidor e ainda em termos ambientais a factura é pesadíssima e, isso é que é curioso, boa parte dispensável e inútil.
É que só recolhemos selectivamente 15% do lixo e se nem tudo se transforma, muito se perde.

TERÃO NOVAS OPORTUNIDADES?

O Governo decidiu encerrar os Centros Novas Oportunidades afectos ao IEFP, o que leva à não renovação do contrato de trabalho de cerca de mil pessoas, entre técnicos e formadores.
Como já muitas vezes aqui referi, o Programa Novas Oportunidades, ainda sem esta designação, teve na sua génese o meritório princípio de certificar e validar competências que pessoas que abandonaram a escola muito cedo foram conseguindo através do exercício profissional.
Posteriormente, por decisão política, caiu-se no enorme equívoco de confundir certificar com qualificar e os, entretanto criados CNOs, foram altamente pressionados para produzir diplomados que compusessem as estatísticas que nos colocavam no fundo da baixa qualificação. Deve, no entanto sublinhar-se que, apesar deste quadro político, boas experiências e práticas foram desenvolvidas em muitos dos Centros e com muitos beneficiários que, não pode ignorar-se, coexistiram com situações inenarráveis e quase anedóticas de "qualificação escolar".
O Ministro Nuno Crato anunciou logo de início a intenção, ajustada do meu ponto de vista, de proceder à avaliação do Programa Novas Oportunidades, avaliação essa que está em curso e de que ainda não se conhecem resultados a não ser o encerramento, por decisão própria de seis Centros e de outros catorze por não cumprirem metas (quais metas?).
Parece, assim, algo estranha a decisão de encerramento lançando no desemprego mais mil pessoas. Não se conhecem os resultados da avaliação, reconhece-se a necessidade de qualificação, mas encerram-se os Centros.
O argumentário de que fecha-se porque não há dinheiro, pode entender-se mas não tem que aceitar-se, na medida em que a qualificação das pessoas é um investimento com retorno e, também nesta matéria, sem avaliação conhecida, a política educativa não pode ser um mero exercício de contabilidade. No entanto, contas parece ser a especialidade do Ministro. Vamos a ver se o resultado dá certo, mesmo com velhinha prova dos nove.

UMA MENSAGEM ASSIM TIPO, SEI LÁ

Hoje num trajecto citadino apeado, ao passar por duas jovens, 18 ou 20 anos, captei a frase de uma delas que num tom de conselheira dizia para a outra, "para ele não se ficar a rir, manda-lhe uma mensagem assim tipo, sei lá, ... pá ... assim tipo, sei lá". O meu passo um pouco mais rápido não me permitiu recolher mais informação mas fiquei a pensar.
A interlocutora destinatária do conselho talvez não tenha entendido o que lhe sugeriam na primeira formulação, enviar um mensagem tipo sei lá, pelo que a conselheira esclareceu a sua ideia, era mesmo enviar uma mensagem tipo sei lá. Não tive oportunidade de conhecer a resposta e a opinião da jovem aconselhada com tão clara afirmação.
Este pequeno episódio comunicacional parece um bom exemplo de muito do que se passa na relação, comunicação, entre nós, assenta com frequência no que poderemos chamar uma "não fala", ou seja, elaboramos frases, produzimos discursos mas os conteúdo são muitas vezes ocos, vazios. Curiosamente, em algumas circunstâncias são mesmo de alguma sofisticação mas quando procuramos entender ou escrutinar o que contêm, encontramos o nada, uma "não fala". Veja-se a vacuidade de alguns respostas ou comentários de natureza política ou cultural com que nos presenteiam, sofisticados de nada. Lembro-me do Velho Malangatana quando uma vez, num jeito só dele, dizia para o crítico de arte, o Rui Mário Gonçalves, "não te ponhas a eruditar, não percebo nada" o que, aliás, nem sequer era o caso. Também podemos assistir a exemplos de "não falas" naqueles directos patéticos que os jornais televisivos insistem em mostrar e surgem cheios de "eu não vi nada ... mas parece que ... e até me disseram que ...". Uma outra fonte muito interessante destas "não falas" é constituída pelas redes sociais. Sou suspeito, também frequento a "realidade virtual", produzo opiniões e falas, mas na verdade muito do que por lá se encontra é nada, "não falas", estranhamente dirigidas a centenas de amigos.
A minha dúvida é que como é que poderemos resgatar a comunicação num tempo sem tempo e impaciente para o tempo da fala.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

COMBATER A CORRUPÇÃO? Não é não querer, é não poder

A Rainha de Inglaterra, perdão, o Procurador-Geral da República afirmou hoje, ao que julgo com um ar sério, que nunca se combateu e denunciou tanto a corrupção em Portugal como actualmente. Provavelmente terá razão no que respeita à denúncia, mas no que toca ao combate daria para rir se não fosse coisa tão séria. Basta que se disponibilizasse o número de condenados em Portugal por corrupção, sobretudo em casos com mais valores envolvidos ou figuras mais conhecidas. Os exemplos e os processos que se arrastam, prescrevem e apodrecem nas teias de uma justiça ineficaz são mais do que muitos. Atente-se nas sucessivas intervenções da Procuradora Maria José Morgado sublinhando a falta de meios e recursos capazes de promover um combate sério à corrupção.
Claro que está sempre presente nos discursos partidários a retórica que sustenta o fingimento da luta contra a corrupção e a promoção da transparência na vida política portuguesa e, regularmente, emergem umas tímidas propostas que mascaram essa retórica.
Como de costume, estas propostas entram na agenda e rapidamente desaparecerão até nova iniciativa condenada ao mesmo trajecto. A não ser que, entretanto, com o deslizar da nossa soberania para outras paragens, alguma entidade ou grupo lá de longe venha cá impor mudanças.
Do meu ponto de vista, nenhum dos partidos do chamado “arco do poder”, está verdadeiramente interessado na alteração da situação actual, o que, aliás, pode ser comprovado pelas práticas desenvolvidas, por todos, quando foram ocupando o poder. A questão, do meu ponto de vista, é mais grave. Os partidos, insisto no plural, mais do que NÃO QUERER mexer seriamente na questão da corrupção e do seu financiamento, NÃO PODEM e vejamos porque não podem.
Nas últimas décadas, temos vindo a assistir à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos uma partidocracia instalada o que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do estado. Esta teia associa-se à intervenção privada sobretudo nos domínios, e são muitos, em que existem interesses em ligação com o estado, a banca e as obras públicas são apenas um exemplo. Os últimos dias tem sido particularmente estimulantes nesta matéria.
A manutenção deste quadro, que nenhum partido está obviamente interessado em alterar, exige um quadro legislativo adequadamente preparado no parlamento e uma actividade reguladora e fiscalizadora pouco eficaz ou, utilizando um eufemismo, “flexível”. Assim, a sobrevivência dos partidos, tal como estão, exige a manutenção da situação existente pelo que, de facto, não podem alterá-la. Quando muito e para nos convencer de que estão interessados, introduzem algumas mudanças irrelevantes e acessórias sem, obviamente, mexer no essencial. Seria um suicídio para muita da nossa classe política e para os milhares de boys de diferentes cores que se têm alimentado, e alimentam do sistema.
Só um pedido, hoje também dirigido ao Procurador-Geral da República, não nos chamem parvos.

INSENSIBILIDADE, PERDÃO, EQUIDADE SOCIAL

As declarações de Manuela Ferreira Leite sobre o pagamento de dos tratamentos de hemodiálise por parte das pessoas com mais de 70 anos, de facto também me embaraçam mas não tanto pelas mesmas razões que vi aduzidas.
A questão da sustentabilidade do SNS coloca, entendo, a questão da eventual necessidade de alguma diferenciação nos custos de acesso aos cuidados de saúde embora se conheça a argumentação de que a diferenciação já está garantida no pagamento de impostos, aspecto que, como todos sabemos, não é tão linear em Portugal. Nesta perspectiva, pode eventualmente aceitar-se que alguém, independentemente da idade, possa suportar custos diferenciados, sabemos a existência de muitas pensões e reformas de altíssimo valor e mesmo situações de acumulação obscena.
O que me embaraça nas declarações de Manuela Ferreira Leite é o tom de insensibilidade que transparece, tal como em muitos discursos de gente com responsabilidade política e que me parecem quase insultuosos face à natureza das dificuldades muito sérias que uma parte significativa dos portugueses atravessa. Ainda ontem, tivemos o exemplo da deplorável intervenção de Eduardo Catroga ao comentar o salário que auferirá na EDP, referindo-se a valor de mercado, ao exemplo do futebol, etc. É exactamente aqui que, do meu ponto de vista, se coloca a questão, não pode ser o mercado, desregulado, amoral, não ético, a condicionar definitivamente decisões e discursos.
Este tipo de afirmações chancela a pobreza, a exclusão dos que não têm “valor de mercado”, mas que têm de pagar, diz a Dra. Ferreira Leite.
Apesar de toda gente subscrever a retórica da equidade, quando se sabe que as políticas de austeridade em Portugal estão a aumentar as assimetrias sociais (segundo a própria UE), não é aceitável que estas figuras assumam uma chocante e ofensiva posição de insensibilidade.

UM RAPAZ MUITO SIMPÁTICO

Era uma vez um Rapaz. Não há muitos rapazes como este Rapaz, diziam. Toda a gente gostava deste rapaz. Era uma jóia, afirmavam. Simpático como nenhum, muito delicado e solícito. Não dava um passo sem pedir licença. Agradecia de forma muito reconhecida tudo o que lhe davam ou diziam. Na realização de qualquer tarefa solicitava constantemente a aprovação dos adultos, pais e professores, mesmo nos pormenores mais irrelevantes. Não era muito bom aluno, mas compensava a situação com a vontade de fazer bem e com o permanente pedido de ajuda e incentivo.
Um dia, uma Professora do Rapaz comentava com o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, como seria bom que todos os alunos fossem simpáticos como o Rapaz. Depois de a ouvir o Professor Velho naquele jeito sereno disse-lhe.
Não estou muito convicto de que seja assim como tu dizes Professora. Parece-me que esse Rapaz não está muito bem. Padece de mal-estar na confiança. Tê-la-á perdido e não sabe onde a procurar, talvez os adultos a tenham, pensa ele. Antes que ele desista, ajudem-no a encontrá-la. Ele poderá parecer menos simpático, mas vai ficar um Rapaz mais feliz, mais confiante”.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A CRUZADA

O Governo parece estar empenhado numa cruzada pela erradicação dessa espécie maldita, os fumadores. Num tempo de fundamentalismos é apenas mais um e corresponde a uma deriva em nome do politicamente correcto, embora entenda que os não fumadores, é o meu caso, devam ter, e têm, alguma protecção.
Nesta sua cruzada a favor dessa entidade mítica Saúde Pública, parece-me que a Direcção-Geral de Saúde deveria desencadear alguns estudos no sentido de avaliar o impacto que muitas das medidas que têm vindo a ser tomadas sob o guarda-chuva da austeridade, muitas delas, por ironia, no Ministério da Saúde,  terão na saúde dos portugueses, inibindo o acesso aos serviços e aos cuidados, aumentando listas de espera, etc.
De caminho, poderia também avaliar o impacto causado pelo roubo da dignidade a que muitas pessoas em situação de pobreza e exclusão sofrem.
Isso seria um excelente serviço pretado à saúde dos portugueses.

A EXCESSIVA "DISCIPLINARIZAÇÃO"

O Ministro Nuno Crato referiu-se hoje, de novo, à questão da revisão curricular e à sua necessidade. Afirmou o Ministro que Portugal é “o campeão da dispersão curricular”, mostrando que no 2º ciclo 18 % do tempo é usado em actividades não curriculares e no 3ºciclo essa percentagem é de 15%. Afirmou também, na linha do que tem vindo anunciado, que essas áreas não curriculares irão desaparecer na totalidade a partir do próximo lectivo.
Defendo de há muito a imperiosa necessidade de se proceder a uma séria revisão da organização e conteúdos curriculares.
Para além dum aspecto que me parece importante, um primeiro ciclo com seis anos que providenciasse, numa lógica de ciclo, os saberes e as ferramentas de base, entendo como relevante sublinhar que o número de disciplinas e a extensão e natureza dos conteúdos curriculares se associam a algumas das questões mais frágeis do sistema educativo, designadamente no 3º ciclo, insucesso escolar, absentismo e indisciplina, tudo dimensões fortemente ligadas aos níveis de motivação e funcionalidade percebida dos conteúdos curriculares e que decorrem em muito da sua dispersão e da natureza fechada e, por vezes, desajustada dos conteúdos.
A lógica da "disciplinarização" excessiva dos saberes tem informado o sistema educativo mas também o sistema de formação de professores durante demasiado tempo, o que suporta esta “disciplinarização” sem sentido, demasiadas disciplinas para 25,5 horas de aulas no 3º ciclo. É, aliás, curioso notar, se bem estivermos atentos, a frequência com que a propósito de qualquer saber, se defende a existência de mais uma disciplina. Neste contexto, cresceu até ao insuportável o número de disciplinas designadamente no 3º ciclo provocando a “dispersão curricular" de que fala o Ministro Nuno Crato. É de prever, a experiência mostra-o, que surgirão reacções que habitualmente considero como uma espécie de corporativismo científico, ou seja, discursos ambíguos sobre a necessidade de alterar as disciplinas "desde que não seja a minha", alimentando a pressão para que não se altere um modelo excessivamente disciplinarizado.
Assim sendo, aguardo com alguma expectativa o pensamento do Ministro sobre esta questão que, não pode, não deve ficar apenas pela retirada das áreas não curriculares como medida de fundo. Tratar-se-ia de mais uma oportunidade perdida numa mudança que tarda.

JOGOS DE INFLUÊNCIAS, O ESSENCIAL E O ACESSÓRIO

A peça em exibição num quotidiano perto de si sobre a questão da pertença às associações secretas como as lojas maçónicas, estará longe de conhecer o seu final. Hoje temos duas contribuições interessantes, o ex-ministro Morais Sarmento reconhece ter sentido influências da maçonaria no processo de tomada decisão do PSD e, por outro lado, o grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL) - Maçonaria Portuguesa, Fernando Lima, vem defender que não deve existir nenhuma lei que obrigue alguém a declarar-se membro da maçonaria.
Entretanto, de vários quadrantes surgem vozes nos dois sentidos, os elementos da maçonaria devem, em nome da transparência declarar que o são, com ou sem lei que os obrigue, e, naturalmente, existe quem defenda que é uma questão de privacidade que não tem que estar legislada e exposta.
Do meu ponto de vista, discutira a questão nestes termos não tem muito sentido. Em qualquer país do mundo com modelos do tipo “democracia ocidental”, seja lá isso o que for, existe uma fortíssima cultura de influência das decisões de natureza política, económica, legal, cultural, etc., para que essas decisões possam ir ao encontro de diferentes interesses ou grupo de interesses. Nos EUA, como sabemos, a actividade de lobbying está institucionalizada e move e serve interesses poderosíssimos.
Assim sendo, a questão da resistência dos decisores às influências dos diferentes conjuntos de interesses não depende do conhecimento público de quem pertence a quê, mas dos processos de tomada de decisão, da sua transparência e fundamentação e da solidez ética de quem toma decisões em diferentes patamares e matérias de interesse público.
É neste campo que me parece necessário intervir, a divulgação pública de informação de interesse geral, a divulgação pública dos critérios das decisões para que se submetam ao escrutínio da cidadania informada, legislação eficaz e clara sobre tráfico de influências e corrupção, separação do trânsito de decisores políticos para a intervenção profissional no universo sobre o qual decidiram, etc., etc.
A discussão sobre a revelação pública da pertença, por exemplo, a lojas maçónicas é tomar o acessório pelo essencial pelo que, é minha convicção, interessa a muita gente manter a discussão nestes termos.

OS RETRATOS DOS MIÚDOS

Num destes dias, na sala de professores, comentava-se o arranque do segundo período e o que se esperava dos alunos e como muito deles dificilmente recuperariam a tempo de conseguir transitar de ano, passar, como a gente diz.
O Professor Velho, o que está biblioteca e fala com os livros, estava a ouvir e a certa altura naquele jeito dele, sereno e meio enigmático disse, "algumas vezes o problema é dos retratos, é por causa dos retratos que alguns miúdos não conseguem ser bem sucedidos".
Os professores que estavam na conversa, embora já conhecessem o Professor Velho, também desta vez não entenderam muito bem o que ele estava a dizer sugerindo-lhe a explicação.
Os adultos de uma maneira geral, mas os adultos da escola de forma mais particular quando olham pelas primeiras vezes para os miúdos tiram-lhes o retrato, ou seja, constroem a sua imagem, retrato, desses miúdos. Acontece que, como vocês sabem os retratos são algo de definitivo, parado, aquele momento ficou ali e não vai mudar. No entanto, os miúdos retratados continuam a sua vida e muitas vezes mudam, mudar é próprio as pessoas. A questão é que continuamos a vê-los como os retratámos, como se eles não mudassem.
Ora os miúdos que retratámos como "pouco espertos", "pouco trabalhadores", "distraídos", "incompetentes", etc., muito dificilmente conseguem sair desse retrato. Se atentarmos bem, quando achamos que um miúdo que tem o retrato de "mau aluno" faz algo de bom, pensamos que ele deve ter tido ajuda e, ao contrário, quando um miúdo que retratamos como "bom aluno" faz algo de menor qualidade, achamos que ele deve ter estado doente, por exemplo.
É por isso, eu acho, continuava o Professor Velho, que alguns dos miúdos que vocês acham no início do segundo período que não irão ter sucesso no final do ano, estarão fechados nos retratos que deles fizeram.
É por estas razões que me parece, concluiu, que os retratos na sala de aula não ajudam muito. Ninguém cabe e fica para sempre num retrato, só o momento é que fica, bom ou mau.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

INSISTO, ESTA GENTE VAI VIVER DE QUÊ?

O I retoma hoje um dos aspectos que regularmente aqui abordo, o número crescente de desempregados que não auferem subsídio de desemprego e que se estima em perto de meio milhão como o jornal titula em primeira página. Este número estará em crescimento pois começa a esgotar-se o período em que se usufrui de subsídio, entretanto encurtado, envolvendo as pessoas que caíram no desemprego a partir de 2009, o ano em que os aspectos mais gravosos da crise nos começaram a atingir.
A este cenário acresce ainda de acordo com o IEFP que, no último ano, o número de casais com ambos os elementos no desemprego duplicou, subiu 97.38 % para cerca de 5 600 e o valor médio dos subsídios de desemprego tem vindo a baixar.
Há tempos foram divulgados alguns dados referindo-se que cerca de 200 000 pessoas já terão desistido de procurar emprego e já não constam dos números do desemprego. Estas pessoas inactivas, devido à idade ou à falta de habilitações e em situação de desesperança, aumentariam, se fossem contabilizadas, a taxa de desemprego para 15,5% sabendo-se ainda, dados recentes, que 84% dos jovens com menos de 25 anos estão desempregados e não têm subsídio.
Esta quadro impressionante levanta uma terrível e angustiante questão. Os milhares, muitos, de pessoas envolvidas vão (sobre)viver de quê?
Sendo de esperar um período recessivo e, portanto, sem crescimento, torna-se impossível criar a riqueza necessária e redistribuí-la de forma socialmente mais justa para minimizar esta tragédia.
É certo que em Portugal a chamada economia paralela corresponde a cerca de 24% do PIB e muita gente e muitas actividades estão envolvidas neste universo, de qualquer forma o potencial impacto social destes números é, no mínimo, inquietante.
Afirmo com frequência que uma das consequências menos quantificável das dificuldades económicas, sobretudo do desemprego, em particular o de longa duração e de situações em que o tempo obriga a perder o subsídio, é o roubo da dignidade às pessoas envolvidas. Sabemos que se verifica oportunismo e fraude no acesso aos apoios sociais, mas a esmagadora maioria das pessoas sentem a sua dignidade ameaçada quando está em causa a sobrevivência a que só se acede pela “mão estendida” que envergonha, exactamente por uma questão de dignidade roubada.
A questão da pobreza é um terreno que se presta a discursos fáceis de natureza populista e ou demagógica, sem dúvida. Mas também não tenho dúvidas de que os problemas gravíssimos de pobreza que perto de dois milhões de portugueses conhecem, exigem uma recentração de prioridades e políticas que não se vislumbra. De forma quase insultuosa e obscena alguns governantes insistem, no "não está bem, mude-se, pire-se, emigre" e até já ouvi um deles falar em que as pessoas devem "abandonar a sua zona de conforto". Zona de conforto?! Sem presente e sem futuro, zona de conforto?! Tenham tento e respeito pela dignidade, coisa que está em extinção.
A pobreza e a exclusão deveriam envergonhar-nos a todos, a começar por quem lidera, representam o maior falhanço das sociedades actuais.
A liderança que transforma é uma liderança com responsabilidade social e com sentido ético.

VIDA JOVEM, PRECÁRIA DE VIDA

O trabalho de hoje do Público obriga-me, pela sua importância, a retomar uma matéria que recorrentemente aqui abordo, o desemprego entre os mais novos. Os jovens com menos de 25 anos significam cerca de 30 % dos desempregados, a terceira taxa mais alta da UE.
Na mesma linha, há poucas semanas noticiava-se o aumento de 6,7% do número de desempregados registados nos Centros de Emprego face a Novembro de 2010. Entre os mais jovens este aumento foi mais significativo, 10,5.
Segundo um estudo da CGTP, 51% dos jovens com menos de 25 anos ganha menos de 500 € e 24,5% dos jovens entre os 25 e os 35 recebe também menos de 500 €. Este cenário evidencia a enorme precariedade do trabalho e baixa qualificação do mesmo.
O desemprego jovem deve rondar actualmente os 22% e segundo dados do INE de há meses, 314 000 jovens não estudam nem trabalham, a designada situação “nem nem”. Estes números, atendendo à dimensão do país são absolutamente dramáticos. Também a OCDE divulgou há tempos que mais de metade dos jovens empregados até aos 24 anos têm empregos precários e o Banco de Portugal referia que em cada dez empregos novos, nove são precários.
A precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Por outro lado, as políticas de emprego anunciadas incluem a maior flexibilização das relações laborais o que, naturalmente, é coerente com os ventos neo-liberais e o endeusamento do mercado que tudo permite, incluindo roubar a dignidade às pessoas e promover exclusão.
Deste cenário e dos números do desemprego, resulta que os mais novos à entrada no mercado de trabalho são os mais vulneráveis ao desemprego e à precariedade quando, apesar das dificuldades, acedem a algum emprego.
Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem, obviamente, sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão, os indicadores mostram-no, o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por sua vez se repercutem no inverno demográfico que atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais. As gerações mais novas que experimentam enormes dificuldades na entrada sustentada na vida activa, vão também, muito provavelmente, conhecer sérias dificuldades no fim da sua carreira profissional.
No entanto, um efeito muito significativo mas menos tangível desta precariedade no emprego, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à própria vida no seu todo e que, com alguma frequência, os discursos das lideranças políticas acentuam. Dito de outra maneira, pode instalar-se, está a instalar-se, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não vislumbra saída motivadora e que recompense. Podemos estar perante as gerações perdidas de que há algum tempo se falava.

O PROGRAMA. Outro diálogo improvável

Setôra, porque é que é preciso haver isto da austeridade de que toda a gente fala?
Diogo, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.
Setôra, dizem que o euro vai acabar, é verdade?
Manuela, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.
Setôra, porque é que toda a gente diz que este ano vai ser muito mau?
Francisco, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.
As pessoas dizem que os jovens que estudam muito depois não têm emprego, se calhar não vale pena estudar, pois não Setôra?
Joana, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.
Setôra, quem é que manda no nosso país, é o governo ou aquela cena da troika, que estão sempre a falar a dizer que temos que fazer porque eles mandam.
Tiago, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.
Setôra, é verdade que vamos ficar mais pobres?
Maria, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.
Setôra, ...

domingo, 8 de janeiro de 2012

O CHAMAMENTO

Uma passagem rápida pela imprensa on-line fez-me tropeçar neste título do Público, "O declamador de poesia que quer ser presidente do PSD". Cansado das referências ao pesado cenário em que estamos mergulhados, entrei, ainda bem.
Fiquei a saber que o cidadão Nuno Henriques, homem ainda novo mas com mil ofícios na área da cultura, estava em Novembro último num serviço religioso no Fundão e sentiu um chamamento, o seu destino era a presidência do PSD. Ao que se diz na notícia, é assim com os chamamentos, são irresistíveis, lançou-se na estrada que o levará ao altar do chamamento, a presidência do PSD. É certo que para isso terá ainda que contar com a disponibilidade dos militantes do partido mas tal tarefa para quem sentiu um chamamento será apenas mais um obstáculo a ultrapassar. Os chamamentos são assim, irresistíveis, cheios de obstáculos mas com o cumprimento à espera e certo.
Nos tempos que correm, as motivações para o acesso a estes lugares aparecem quase sempre embrulhadas na retórica do serviço ao país, no espírito de missão e tal, embora algumas más línguas entendam que boa parte dessas motivações radicam na verdade em carreira, agenda de interesses outros, etc. Neste quadro, acho francamente de sublinhar o facto de alguém receber, sentir, num serviço religioso um chamamento para esta função, a presidência de um partido do poder. Parece-me tanto mais de sublinhar quando se trata de alguém que tem no seu currículo, não as habituais e incontornáveis referências à gestão, ao direito, à engenharia, etc., mas, "conferencista, diseur de poesia, autor e encenador de teatro, com 11 CD de poesia editados", entre outras experiências.
Esta tarde de Domingo ficou muito mais estimulante e bonita depois de ter conhecido este chamamento.
Passos Coelho que se cuide, força Nuno Henriques, o céu é o limite, a presidência do PSD apenas uma etapa.

sábado, 7 de janeiro de 2012

FUJAM, AQUI NÃO MORA O VOSSO FUTURO

Este pessoal não entende mesmo, ou não quer entender, o que está em causa. O Ministro Miguel Relvas retoma hoje, lê-se no Público, o tema da emigração, desta vez e do meu ponto de vista, de forma mais espantosa, dirige o seu conselho aos jovens qualificados, “ide procurar fora de portas o vosso futuro”. Curiosamente, num efeito de clone não surpreendente entre estas duas personagens, tal como o Primeiro-ministro quando se referiu aos professores sem emprego em Portugal, também Miguel Relvas parece interessado em agenciar a ida de portugueses para os países lusófonos.
Parece-me relativamente claro que a questão central não é o movimento que desde há muito os portugueses realizam de procurar trabalho fora do país. Como é óbvio as pessoas, cada pessoa, procurará dentro das suas disponibilidades, capacidades e motivações construir um projecto de vida em que se realize e esse projecto de vida pode, evidentemente, passar por emigrar. Sabemos e isso é desejável em diferentes perspectivas que estes fluxos se realizem, mas esta não é a questão central.
A questão central é que um Primeiro-ministro ou outro governante não pode assumir que a solução para os problemas das pessoas, por exemplo o desemprego, é abandonar o país. Um governante de um país com sérias necessidades de mão-de-obra qualificada, um dos mais baixos níveis de qualificação da Europa e um dos grandes obstáculos ao nosso desenvolvimento, não pode acenar com a “sugestão” de emigração exactamente para franja mais qualificada da nossa população, é um discurso absolutamente inaceitável.
Este discurso vindo de quem lidera e de quem a comunidade espera, é a sua função, um contributo decisivo para atenuar ou, em tese, resolver os problemas do país, transmite incompetência, impotência e finalmente desistência face a esses problemas.
Ora, incompetência, impotência e desistência é tudo o que um primeiro-ministro ou qualquer pessoa com funções de liderança não pode evidenciar.
Vão de novo surgir as vozes que falam do realismo destes discursos, das efectivas poucas oportunidade de trabalho para muitos jovens qualificados, mas, insisto, “mandar” essa gente embora de um país como o nosso é delinquência política. Lamentavelmente, não estranho.

FIGURAS PÚBLICAS E COMUNICAÇÃO SOCIAL. Às vezes uma relação de gente pequena e sem espinha

A questão, agora na agenda, em torno da pertença de figuras públicas, sobretudo da área da política, economia e governação, a associações de qualquer tipo e de natureza mais ou menos secreta e a forma como várias dessas figuras têm reagido à abordagem da imprensa, sugere-me algumas notas.
Se estivermos atentos uma boa parte da classe política serve-se da comunicação social para a defesa dos seus interesses pessoais, partidários ou institucionais. Nada de novo, sabemos o peso que a comunicação social tem nas sociedades actuais.
O que me parece particularmente irritante é a forma quase infantil, está um pouco na moda este tipo de infeliz comparação mas não resisto, como algumas figuras reagem ao ser abordadas sobre assuntos sobre os quais, por várias razões, não lhes interessa discorrer. Surgem então as afirmações patéticas, “não tenho nada a acrescentar”, “desculpem, não comento”, “não estou aqui para falar dessas matérias,” etc., etc. Desenvolvem assim uma espécie de surdez selectiva, só ouvem o que lhes convém, de mutismo selectivo, só falam do que lhes convém, de cognição selectiva, só conhecem o que lhes convém.
As mesmas figuras que directamente ou através de terceiros, lambem as botas às redacções e aos jornalistas (quanto mais influentes melhor) e esmolam tempo de antena quando tal serve os seus diferentes interesses.
Devo confessar que tal cenário é, para mim, profundamente irritante e patético, sinto que nos insultam, que nos consideram destituídos, como se por não abordarem as diferentes matérias, elas não se passassem ou não existissem.
Finalmente, incomoda-me uma comunicação social, boa parte dela, passiva e resignada que não confronta as figuras públicas com estes comportamentos, não os denuncia, e que acorrem solícitos quando essas figuras entendem que têm algo a dizer, as mais das vezes, irrelevante.
Gente pequena e sem espinha, como dizia o meu pai, de um lado e de outro.

O NEGOCIANTE DE CULPAS

Era uma vez um Homem muito esperto e empreendedor, palavra que agora se utiliza, para definir quem tem jeito para inventar e realizar negócios.
O Homem, com a experiência que a vida lhe ia emprestando, não se deve dar nada, defendia ele, foi percebendo que as pessoas, a maior parte das pessoas, de todas as idades e condições, não se dava bem com a Culpa, as Culpas, ou seja, sentiam-se incomodadas e desconfortáveis ao lidarem com a sensação de que se sentiam culpadas por algo, de maior ou menor gravidade ou importância.
Como é sabido pelos empreendedores, as boas iniciativas são as que vão ao encontro das necessidades das pessoas, têm o sucesso garantido. Às vezes, o próprio negócio consiste mesmo em criar a necessidade e, posteriormente, providenciar a resposta a essa necessidade.
O Homem começou a pensar como poderia aproveitar a necessidade das pessoas se livrarem da Culpa e transformar isso, com agora se diz, numa janela de oportunidade, isto é, de negócio.
Depois de muito pensar ocorreu-lhe uma ideia que parecia poder ser bem sucedida.
Montou uma empresa de transformação de Culpas. Transformava-as em Desculpas algo absolutamente imprescindível para quem sente culpa. A pessoa surgia com a sua Culpa, ou Culpas, e conforme a sua dimensão e importância o Homem transformava essa Culpa em Desculpa e as pessoas sentiam-se muito aliviadas como é bom de perceber.
Escusado será dizer que o negócio do Homem foi um êxito estrondoso, acorria gente sem fim para se livrar das Culpas e voltar mais tranquilo e sereno com boas Desculpas.
E assim foi continuando até as pessoas começarem a sentir-se culpadas por terem tantas e tão boas Desculpas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A INDOMESTICÁVEL VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Segundo o Público de hoje e citando dados divulgados num Seminário realizado no Porto sobre a violência doméstica, entre 2008 e 2010 este tipo de ocorrências aumentou 23%. Recordo ainda que até Outubro de 2011 já se tinham verificado 23 homicídios e 39 tentativas, sendo que em 2010 morreram 43 mulheres vítimas deste tipo de crime.
Por diferentes ordens de razões, parece assumir-se uma espécie de fatalidade face à tolerância do crime de violência doméstica, à dificuldade de prova, ao sistema de valores e situação de dependência emocional e económica de muitas das vítimas, à atitude conservadora de alguns juízes, etc. Permanece ainda com alguma frequência a dificuldade de promover a retirada do agressor do ambiente doméstico, procedendo-se à saída da vítima numa espécie de dupla violência que, aliás, também se verifica em situações de maus tratos a crianças, em que o agressor fica em casa e a criança é “expulsa”.
O quadro é dramático mas não surpreende. Um dos mais devastadores efeitos da situação da nossa justiça é a instalação de um sentimento de impunidade generalizado com consequências incalculáveis. Este é o tipo de mensagem que a justiça não pode passar. No entanto, segundo os dados do Observatório das Mulheres Assassinada pode constatar-se alguma maior celeridade e preocupação do sistema de justiça com estes casos. Deve também registar-se os resultados que de acordo com os responsáveis estão a encontrar-se no Programa para Agressores de Violência Doméstica (PAVD), em desenvolvimento no Norte do país e que foi analisado no Seminário hoje realizado.
Parece, aliás, claro que o sentimento de impunidade está instalado em diferentes áreas da criminalidade, não apenas nas situações de violência doméstica. Atente-se em quantos casos de corrupção acabam em condenações a prisão efectiva. Atente-se no tempo e nos expedientes que os processos sofrem, acabando muitas vezes em prescrições ou em penas ridículas. Atente-se nos efeitos de algumas alterações do código penal que permitem que um indivíduo comprovadamente autor de um crime susceptível de pena de prisão, possa ser imediatamente solto e aguardar, se aguardar, o julgamento que demorará um tempo infindo enquanto se mantém em actividade.
Este cenário e voltando a centrarmo-nos na questão da violência doméstica explica em boa medida o número muito baixo de detidos e condenados por violência doméstica face ao volume de situações que na realidade ocorrem. Para além de que, evidentemente, não contribui para um combate mais eficaz a este tipo de comportamento.

TRADIÇÃO

As coincidências têm sempre algo de curioso. A imprensa de hoje refere intenção do Governo de proceder à alteração na lei do tabaco visando torná-la mais restritiva e próxima dos "países mais avançados" com o objectivo de, continuo a citar o secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde, Fernando Leal da Costa, "eliminar o risco de exposição de crianças e adolescentes, reduzir substancialmente a exposição passiva em ambientes públicos e desincentivar o consumo”.
Por coincidência, a imprensa também refere que, sendo Dia de Reis, cumpre-se a tradição da aldeia de Vale de Salgueiro, Mirandela, de promover o fumo entre a criançada. Este incentivo advém, evidentemente dos mais velhos. Lembro-me de uma reportagem televisiva num dos últimos anos ter mostrado um gaiato de 8 anos que já tinha fumado 23 cigarros enquanto se ouviam pais e avós entusiasmados com as performances dos “piquenos” e, estranhamente, uma mãe afirmou ter começado assim e ficado fumadora. Tradicional e entusiasmante.
No sentido de aumentar o zelo com que se deve cuidar as heranças que este povo manter, sugiro que, entre outras tradições, considerem a hipótese de manter a discriminação de género pois o lugar da mulher é em casa e, se trabalhar fora, deve ganhar menos, é a tradição. O trabalho em casa deve ser também realizado pelas mulheres porque os homens tradicionalmente não lhe tocam. Para que a tradição seja o que era, uma “carga de porrada” na mulher e nos filhos de vez em quando é bom para que não se esqueçam de quem manda. Deve trabalhar-se de sol a sol e sem direitos como é de tradição. Para bem cuidar da criançada neste tempo de frio, a tradição determina umas sopinhas de cavalo cansado que aquecem que é uma beleza. Se houver alguma dificuldade na escola teremos as tradicionais orelhas de burro já em desuso, vá lá saber-se porquê. Finalmente, a miudagem deve começar a trabalhar de bem pequeno, 9 ou 10 anos no máximo, porque a tradição deve manter-se e um dinheirinho a mais dá sempre jeito para mais umas litradas para aquecimento e uns macitos de tabaco para alimentar a tradição deste bom povo português.
Temos que cultivar as nossas tradições.

AFINAL QUEM É QUE MANDA?

Cenário - sala de espera de um consultório
Personagens - Mãe Jovem e Filha Pequena
Figurantes - o escriba, dois pacientes idosos e a recepcionista

Não rasgues a revista é para as pessoas lerem.
Não estou a rasgar.
Eu estou a ver que estás a rasgar e já te disse para parares.
...
A Filha Pequena continua a reduzir uma das páginas de uma revista a pedacinhos que vão enfeitando o chão à sua frente.
...
És teimosa, estou a ficar zangada, já te disse para parares de rasgar a revista.
Mas eu não estou a rasgar a revista, estou a brincar com papéis.
Não sejas mal educada, afinal quem é que manda?
Mando eu.
Quando chegarmos a casa vamos conversar sobre quem manda, estás a ouvir?
...
Entretanto, para alívio dos figurantes, a recepcionista chama pelo nome da Mãe Jovem para entrar para a consulta.
Estabeleceu-se, entretanto, uma pequena conversa em que se concluiu sem grandes dúvidas que era a Filha Pequena que mandava. E a Mãe Jovem certamente sabia isso, só não sabia como lidar com o mando da Filha Pequena. Talvez por medo ...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

OS PAIS E A NET

A referência no Público ao trabalho de Cristina Ponte, da Universidade Nova de Lisboa, no âmbito do Projecto EU Kids Online sobre a relação das crianças adolescentes com as novas tecnologias, sugere-me algumas notas já aqui abordadas mas que a minha experiência com crianças e pais justificam como oportunas e centradas, sobretudo, no acompanhamento dos pais.
Um estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa há algum tempo divulgado sobre a utilização da net por parte de crianças e adolescentes, entre os mais novos, dos 8 aos 10 anos, 35.7% afirma que utilizam a net em casa sem regras estabelecidas, sendo que 42% também refere que não têm controlo dos pais sobre páginas consultadas e correio electrónico. São também conhecidos estudos que sugerem uma estadia média diária em frente a um ecrã de cerca de 4h para as crianças portuguesas, número que sobe ao fim de semana.
Estes dados, apesar de não surpreendentes, são preocupantes. Muitas vezes já aqui tenho referido como o ecrã, qualquer ecrã, é hoje a “baby-sitter” de muitíssimas das nossas crianças e adolescentes que neles, ecrãs, passam um tempo enorme “fechados”, às vezes "acompanhados" de outros miúdos tão abandonados quanto eles. Como também sabemos, parte importante desse tempo é passado só, facilitando a falta de controlo sobre a utilização do ecrã, neste caso a net. A situação é ainda agravada pelo facto de em muitas das nossas famílias se verificar alguma iliteracia informática que também complica a possibilidade dos pais aceder e dominar a utilização dos recursos informáticos. Neste quadro, importa que o acesso e domínio destes meios seja estimulado juntos dos pais, que os programas de net segura, sejam reforçados, e que pelas vias da educação a tempo inteiro (não confundir com escola a tempo inteiro) e de mudanças na organização do trabalho, se diminua o tempo que as crianças e adolescentes passam, sós, ligados a um ecrã.
Considerando as implicações e nos sérios riscos presentes na vida diária, importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda, em informação e na forma de lidar com os riscos, destinada aos pais para que a utilização imprescindível seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.

CORTES NA SAÚDE. Qual será o limite?

Nos tempos que correm é difícil fugir ao impacto que as medidas tomadas em nome da austeridade têm na vida das pessoas, da maioria as pessoas. A área da saúde continua a distinguir-se pelo regular anúncio de aumentos dos custos dos serviços prestados no âmbito do Serviço Nacional de Saúde que, relembra-se, está definido constitucionalmente como tendencialmente gratuito.
Para além de todos os aumentos de custos já anunciados, a imprensa divulga hoje que um contacto telefónico com o médico do Centro de Saúde ou um contacto por correio electrónico configurará a realização de um acto médico pelo que haverá lugar ao pagamento de taxa moderadora, procedimento já adoptado por vários Centros. Tal situação parece da maior estranheza e inadequação como considerou o Bastonário da Ordem dos Médicos.
À primeira vista poderia pensar-se que um contacto não presencial já teria um efeito moderador, aliviando o funcionamento dos Centro de Saúde onde faltam, recorde-se, médicos de famílias para 1,7 milhões de portugueses, número reconhecido pelo Ministro da Saúde.
Também hoje e na área da saúde, o JN coloca em primeira página o encerramento das consultas nocturnas nos Centros de Saúde, antecipando o fecho das 22 para as 20h e aos fins-de-semana, visando, evidentemente, baixar os custos funcionais. Curiosamente, há pouco tempo o Ministro insistia na necessidade de evitar o recurso às urgências hospitalares fazendo derivar para os Centros de Saúde a primeira resposta e só encaminhando para a urgência hospitalar casos verdadeiramente necessitados. Como pode isto acontecer se se reduz o período de funcionamento dos Centros de Saúde?
Como sempre afirmo, não tenho a menor das dúvidas sobre a necessidade de introduzir racionalidade nos custos do SNS, de combater o desperdício e a utilização imoderada. No entanto, a situação parece encaminhar-se para um cenário fortemente ameaçador da prestação e do acesso aos cuidados de saúde de uma boa parte da população portuguesa.
Recordo que várias entidades, o Director da Escola Nacional de Saúde Pública e a DECO, por exemplo, têm vindo a alertar o risco de situações de falta de tratamento por falta de condições financeiras, quer no que respeita aos serviços, quer por dificuldades das próprias pessoas.
Até onde se aguenta? Qual é o limite?

OS NOMES. Outro diálogo improvável

Setôra, o que é um aluno distraído?
Ora Francisco, é um aluno que não está com atenção ao que está a fazer.
Se não tomar atenção só uma vez já é um distraído?
Claro que não, toda a gente se distrai de vez em quando.
Setôra, a partir de quantas vezes é que é um distraído?
Tens cada uma, isso não tem resposta.
Setôra, o que é um aluno indisciplinado?
Francisco, hoje estás inspirado, então, é um aluno que se porta mal.
Setôra, se um aluno se portar mal só uma vez já é um aluno indisciplinado?
Bom, nessa vez foi, mas não quer dizer que seja um aluno indisciplinado.
Setôra, a partir de quantas vezes é que é um aluno indisciplinado?
Como é que queres que responda a isso Francisco?
Setôra, o que é um aluno desorganizado?
Já estou cansada Francisco, é a última, é um aluno que, por exemplo, tens os seus materiais desarrumados.
Setôra, se tiver só uma coisa desarrumada já é um aluno desorganizado?
Estás a ser, desculpa que te diga, um bocadinho chato. Claro que ninguém é perfeito. Mas porque fazes todas estas perguntas?
Setôra, eu acho que antes de chamarem os nomes à gente, deviam saber bem quando é que haviam de chamar, assim é uma confusão, cada pessoa pensa de sua maneira. Também já perguntei a outros setôres e também não sabiam bem explicar.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

MINISTÉRIO PÚBLICO COM POUCO QUE FAZER

Uma das muitas razões pelas quais gosto da lusa pátria é a capacidade de me surpreender. Leio no Público que o Ministério Público vai abrir um inquérito às declarações de Otelo que naquele jeito que lhe vai tão bem ameaçava com nova revolução, a “malta militar pá, se for preciso, pá, tá aí pá e agita isto tudo, pá”, quem fez uma revolução faz duas ou três e "pá, agora até eram mais fácil, meia dúzia de gajos, pá, e a revolução tava feita pá". E mais nada, não se brinca com a tropa, como sempre ouvi.
Também há algum tempo, Otelo tinha afirmado que "se soubesse como o Pais ia ficar, não fazia a revolução". Notável, ele, Otelo, a quem só faltam dotes de adivinhador teria decidido um dia ao acordar "é pá, assim não faço a revolução, não insistam que para isto não faço a revolução pá, vou antes tomar uma bica, se quiserem a revolução peçam a outro que a faça pá" e pronto pá, a história era outra.
No meio deste discurso surge a notícia de que o MP vai abrir um inquérito. Mas um inquérito a quê? O homem precisa, como toda a gente, de fazer regularmente a sua prova de vida e como se sente um dono da história afirma a intenção de mexer nela.
Quando olhamos para o lado e vemos a imprensa, o que mais encontramos é matérias que justificariam investigações, inquéritos, sérios, rápidos e profundos que melhorassem o ambiente cívico e ético do país.
O que mais existe, mesmo em entidades públicas, são zonas mais do que nebulosas do seu funcionamento, entregues ao "jobs for the boys" ao esquema, à protecção de interesses pouco claros, veja-se o lamentável episódio, mais um, dos relatórios sobre os Serviços de Informação na Assembleia da República. Os casos de corrupção existem por todo lado, apenas varia a escala e hesita-se e anda-se à deriva no seu combate e o MP vai abrir um inquérito às declarações de Otelo! Para quê?
Quantas vezes o inimputável Alberto João insultou e humilhou instituições e órgãos de soberania? Não acontece nada porquê? É inimputável? Talvez. Existe gente com telhados de vidro que preferem não bulir com o Senhor da Madeira? Talvez.
Deixem lá o Otelo, daqui a uns meses, se lhe derem tempo de antena ele volta, "é assim pá, um dia destes faço outra revolução pá, esta gastou-se pá, deram cabo dela pá". Ninguém vai estranhar e não acontece nada, já não é o tempo das FP25 do camarada Otelo.
Talvez o Ministério Público não tenha que fazer, ou isto é mais fácil e não incomoda ninguém.

A GENEROSIDADE DOS POBRES. São eles que pagam a crise

Estranhamente, ou talvez não, da imprensa generalista on-line apenas encontrei no CM a referência a um estudo da Comissão Europeia que analisou a distribuição dos efeitos dos programas de austeridade os países que experimentam maiores dificuldades, Portugal, Grécia, Espanha, Irlanda, Estónia e Reino Unido.
Segundo o relatório, Portugal "é o único país com uma distribuição claramente regressiva", traduzindo, os pobres estão a pagar mais do que os ricos quando se aplica a austeridade. Pode ainda ler-se que nos escalões mais pobres, o orçamento de uma família com crianças sofreu um corte de 9%, ao passo que uma família rica nas mesmas condições perdeu 3% do rendimento disponível.
Portugal é ainda de acordo com o estudo o único país analisado em que "a percentagem do corte (devido às medidas de austeridade) é maior nos dois escalões mais pobres da sociedade do que nos restantes". A Grécia, que tem tido repetidos pacotes de austeridade, apresenta uma maior equidade nos sacrifícios implementados.
Esta notícia parece-me relevante embora, em termos de senso comum, vá ao encontro da percepção mais divulgada, não existe equidade na repartição dos sacrifícios.
Para além de contrariar o discurso oficial de que existe justiça social nas medidas de austeridade, o que a notícia tem de mas preocupante é a constatação de que as políticas assumidas, por escolha de quem decide, estão a aumentar as assimetrias sociais, a produzir mais exclusão e pobreza.
Eu sei, sabemos todos, que a questão da pobreza é um terreno que se presta a discursos fáceis de natureza populista e ou demagógica, sem dúvida. Mas também não tenho dúvidas de que os problemas gravíssimos de pobreza que perto de dois milhões de portugueses conhecem, exigem uma recentração de prioridades e políticas que não se vislumbra e que este relatório da Comissão Europeia sublinha.
A liderança que transforma é uma liderança com responsabilidade social e com sentido ético.

MESTRE EM GESTÃO INTEGRADA DE RELVADOS DESPORTIVOS E ORNAMENTAIS (ver nota)

O ensino superior em Portugal é, como muitíssimas outras áreas, cenário de equívocos e de decisões políticas nem sempre claras. Uma das grandes dificuldades que enfrenta prende-se com a demissão durante muito tempo de uma função reguladora da tutela que, sem ferir a autonomia universitária, deveria minimizar o completo enviesamento da oferta, pública e privada, que se verifica. Um país com a nossa dimensão não suporta tantos estabelecimentos de ensino superior, sobretudo, se atentarmos na qualidade. As regiões e autarquias reclamam ensino superior com a maior das ligeirezas. Durante algum tempo, a pressão vinda da procura e a incapacidade de resposta do subsistema de ensino superior público associada à demissão da tutela da sua função reguladora, promoveu o crescimento exponencial do ensino superior com situações que, frequentemente, parecem incompreensíveis à luz de um mínimo de racionalidade e qualidade. Portugal contará, segundo a informação disponível, com cerca de 160 instituições de ensino superior e como indicador relativo pode referir-se um rácio de 17,4 estabelecimentos por milhão de habitantes, enquanto a Espanha apresenta 7, um dado extraordinário.
Nesta matéria, a qualidade e o redimensionamento da rede, espera-se que o processo em curso de Avaliação e Acreditação se revele um forte contributo. Segundo dados hoje divulgados no Público em 2009 e 2010 encerraram 737 cursos sendo que 373 o fizeram por não receberem um único aluno inscrito. Uma consulta que realizei há algum tempo na oferta de licenciaturas e mestrados por parte do ensino superior mostra como imperiosa se torna a racionalização dessa oferta. Como afirmou há algum tempo o Professor Alberto Amaral, o presidente da A3ES, “Portugal tem excelentes cursos mas criou-se imenso lixo no ensino superior”. Deixo alguns exemplos interessantes de designação de cursos de mestrado em estabelecimentos de ensino superior público, tal e qual se encontrava no sítio do Ministério. Vejamos, Políticas de Bem Estar em Perspectiva: Evolução Conceito e Actores; Fruticultura Integrada; Design do Produto; Marketing Relacional; Negócios Internacionais; Resolução Alternativa de Litígios; Empreendedorismo; Biorremediação; Aconselhamento e Informação em Farmácia; Ciências da Complexidade; Estudos Sociais da Ciência; Gestão de Mercados de Arte; Instituições e Justiça Social, Gestão e Desenvolvimento; Novas Fronteiras do Direito; Branding e Design de Moda; Estudos Regionais e Locais; Design e Desenvolvimento de Fármacos; Alimentação - Fontes, Cultura e Sociedade; Ciências da Paisagem; Psicomotrocidade Relacional; Anatomia Artística; Gestão Integrada de Relvados Desportivos e Ornamentais; Geomática Ambiental; Comunicação de Moda; Comunicação e Desporto; Ciências Gastronómicas; As Humanidades na Europa: Convergências e Aberturas; Metropolização, Planeamento Estratégico e Sustentabilidade; Gestão de Pessoas.
Embora entenda que a oferta formativa de qualificação superior não deva ser liderada pelo mercado, longe disso, também não o pode esquecer. Existem cursos que apesar de alguma menor empregabilidade se inscrevem em áreas científicas de que não podemos prescindir com o fundamento exclusivo da empregabilidade, aparente ou real. Podemos dar como exemplo formações na área da filosofia ou nichos de investigação que são imprescindíveis num tecido universitário moderno. Será também importante que o processo permita desenvolver e incentive modelos de cooperação, universitário e politécnico, público e privado, que potencie sinergias, investimentos e massa crítica que promovam a imprescindível reorganização da rede.
O enviesamento da oferta de que acima falava, alimenta a formação em áreas menos necessárias e não promove a formação em áreas carenciadas. Tal facto, conjugado com o reconhecido sobredimensionamento da rede, com o baixo nível de desenvolvimento do país e com uma opinião publicada pouco cuidadosa na informação, leva a que se tenha instalado o equívoco dos licenciados a mais e destinados ao desemprego, quando continuamos a ser um dos países da UE com menos licenciados, já o disse aqui muitas vezes.
Precisamos que, com lucidez e coragem por parte da tutela e das instituições, que se repensem os caminhos do ensino superior em Portugal.

Nota - Considerando que o título que originalmente coloquei neste texto, "Mestre em Ciências da Complexidade" desencadeou uma interpretação que eu não lhe atribuí, socorri-me da ideia de "complexidade" dada a dificuldade de escolha face ao volume da oferta e da designação de muitos cursos, alterei o título. Insisto que não estáem causa um juízo de valor sobre conteúdos científicos de nenhuma área mas sim a organização e dispersão da oferta formativa num ciclo de estudos, mestrado, que, actualmente, é quase formação inicial.

BANCOS DE AFECTOS

Hoje estava a ver uma notícia sobre os Bancos Alimentares e a ajuda significativa que têm conseguido fazer chegar a muitas famílias através das instituições que apoiam e, de mansinho, ao pensar nas necessidades das pessoas, lembrei-me de como poderia ser útil a existência de Bancos de Afecto.
Se bem repararmos, coisa que nem sempre conseguimos fazer, existem muitas pessoas à nossa beira que estão necessitadas de afectos. Gente de todas as idades e de todas as condições.
Velhos que estão a sofrer de sozinhismo ou emprateleirados em instituições à espera de coisa nenhuma e sem que alguém, como se diz no Meu Alentejo, sinta danos por eles, beneficiariam se pudessem aceder a uma dose regular, mesma pequena, de afectos que lhes dessem um sentido de existência, de gente.
Miúdos a quem, mesmo no meio de muita gente e de muitas coisas, estão sós, frios, a quem falta o aconchego de um afecto, de uma atenção que não venha embrulhada em presentes que mascaram a distância, são também um grupo necessitado.
Muitos adultos, que por variadíssimas razões vivem em famílias em que estão casados por fora e descasados por dentro e donde o afecto fugiu, transformando-se num bem pouco acessível. Como diria Vinícius de Moraes no eterno "Samba da bênção", "ponha um pouco de amor na sua vida". Poderia ser uma ajuda.
De facto, o mundo está cheio de sem-abrigo, não só dos que (sobre)vivem na rua, mas dos deserdados dos afectos, da relação com os outros.
Na verdade é uma ideia completamente disparatada, mas esta coisa de existirem uns Bancos de Afecto que pudessem distribuir por algumas pessoas ... dava jeito.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

HÁ QUALQUER COISA QUE ME ESCAPA, OU ENTÃO É MILAGRE

Pode ler-se no Público que o Supremo Tribunal de Justiça condenou o Estado, eu e vós, a ressarcir o Instituto Missionário da Consolata, em Fátima, de uma quantia de 3,584 milhões que um seu responsável terá entregue a um gestor do BPN que prometia um rendimento superior aos depósitos a prazo. Aparentemente, o Senhor Padre não terá resistido ao pecado da gula e foi enganado, o dinheiro foi utilizado pelo gestor em aplicações na bolsa que correram mal. Dado que o BPN foi nacionalizado, nacionalizados foram, pelos vistos, estes negócios, passámos nós a ser os responsáveis. Está certo.
Resumindo, o gestor executa uma fraude enganando o Instituto Missionário da Consolata e pago eu, o resultado deste caso de polícia. Por acaso, o pessoal envolvido na mega fraude do BPN continua por aí de excelente saúde e a gozar dos transparentes negócios de que se alimentavam à custa de alguns crentes no milagre da multiplicação dos euros.
Já nos vamos habituando a que qualquer coisa que envolva o BPN e que tenha custos somos nós a pagar, tudo o que envolve o BPN e tenha gerado de dinheiro, meia dúzia de pessoas abotoaram-se com ele. Deve ser a isto que chamam a distribuição da riqueza.
Tenho sabido pela comunicação social das dificuldades ou impossibilidade de que alguns pequenos investidores vejam a suas poupanças de volta, perdidas que foram nos negócios obscuros do BPN. No entanto, o Supremo Tribunal de Justiça já resolveu o problema do Instituto Missionário da Consolata, à minha custa, é certo. Temo que o resto das contas do BPN, para além dos muitos milhões que já foram, ainda não nos tenham começado a chegar embora o BIC já esteja a ganhar com o BPN, só mesmo nós é que perdemos.
Nesta história toda, fico com a sensação de existe qualquer coisa que me escapa. Ou então … é milagre.

TUDO SE VENDE, TUDO SE COMPRA. Até as pessoas

No JN de hoje é referido o alerta do Sindicato da Construção de Portugal para a existência de "redes mafiosas" que contratam trabalhadores portugueses para trabalho no estrangeiro onde são sujeitos a condições de trabalho que configuram escravatura. Numa altura e que, por razões óbvias aumentam os fluxos de emigração esta questão é importante. Sublinha-se ainda que entre os países referidos no alerta do sindicato se incluem França, Alemanha e Inglaterra.
É também conhecida a recorrente situação de trabalhadores portugueses explorados como escravos em trabalho agrícola realizado em Espanha.
Este universo, o tráfico e exploração de seres humanos é, do meu ponto de vista, uma das questões que maior embaraço pode causar em sociedades actuais, algo de improvável no séc. XXI em países da Europa Ocidental.
Como em todas as situações desta natureza, as autoridades estimam que os casos conhecidos sejam em número bastante inferior ao que na verdade se verifica. Sabemos também como no mundo inteiro o tráfico de pessoas se constitui como uma das áreas de mercado mais rentáveis, designadamente, no caso de mulheres para o universo da prostituição.
No entanto, a escravatura para trabalho agrícola ou de outra natureza, parece algo “fora do tempo” e de impossível existência nos nossos países. Mas existe, e é sério o problema que, como não podia deixar de ser, atinge os mais vulneráveis.
Este negócio, o tráfico de pessoas, um dos mais florescentes e rentáveis em termos mundiais, alimenta-se da vulnerabilidade social, da pobreza e da exclusão o que, como sempre, recoloca a imperiosa necessidade de repensar modelos de desenvolvimento económico que promovam, de facto, o combate à pobreza e, caso evidente em Portugal, às escandalosas assimetrias na distribuição da riqueza.
As circunstâncias que atravessamos potenciam o risco e a vulnerabilidade, aliás, há poucos dias referia-se na imprensa o aumento da prostituição envolvendo mulheres em extrema dificuldade para assegurar meios de subsistência familiar.
As pessoas, muitas pessoas, apenas possuem como bem, a sua própria pessoa e o mercado aproveita tudo, por isso, compra e vende as pessoas dando-lhe a utilidade que as circunstâncias, a idade, e as necessidades de "consumo" exigirem.
O que parece ainda mais inquietante é o manto de silêncio e negligência que cai sobre este drama tornando transparentes as situações, não as vemos.

A GORDURA QUE JÁ NÃO É FORMOSURA

Por iniciativa da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI) arranca hoje uma acção destinada a incentivar o consumo da fruta nos jardins de infância e escolas do 1º ciclo. Embora me pareça meritória a iniciativa, o seu efeito poderá ser pouco mais do que simbólico. dado peso da cultura instalada em muitas família sobre os hábitos alimentares dos miúdos e dos graúdos.
No entanto, é importante recordar que estudos realizados em Portugal mostram que a obesidade infantil é já um problema de saúde pública, implicando, por exemplo, o disparar de casos de diabete tipo II em crianças. Há algum tempo relatei aqui no Atenta Inquietude a cena de um extremoso pai que, ao meu lado, proporcionava a uma criancinha com 8 ou 9 anos um pequeno almoço composto de três salgados e uma lata de cola. Curiosamente, esse texto despertou algumas reacções vindas, creio, de algumas pessoas que entendem que qualquer discurso ou iniciativa no âmbito dos comportamentos configuram uma intromissão e desrespeito dos direitos individuais. Insisto na necessidade de iniciativas e discursos que promovam comportamentos mais saudáveis sobretudo quando se trata de crianças que são obviamente mais vulneráveis e desinformadas.
Dados recentes apresentados no XIV Congresso Português de Obesidade, referem, sem novidade pois vai ao encontro a outros resultados, que 22.6 % das crianças dos 10 ao 18 anos estão em situação de pré-obesidade e 7.8 % já são obesos.
Sabe-se também que em adultos e sem surpresa os números pioram, 50% dos homens e 30% das mulheres estarão em situação de pré-obesidade ou obesidade.
As consequências potenciais deste quadro em termos de saúde e qualidade de vida são muito significativas, quer em termos individuais, quer em termos sociais. Assim, e como já tenho referido, um problema de saúde pública desta dimensão e impacto justifica a definição de programas de prevenção, educação e remediação que o combatam.
Provavelmente, teremos algumas reacções contra o chamado “fundamentalismo nos hábitos individuais” mas creio que são também de ponderar as implicações colectivas e sociais do problema. Além de que todos sabemos que o excesso de peso e os riscos associados não serão, para a esmagadora maioria das miúdos e graúdos nessa situação, uma escolha individual, é algo de que não gostam e sofrem, de diferentes formas, com isso.

O CIGARRO. Outro diálogo improvável

É sempre a mesma coisa, bem que eu queria confiar em ti. Tinhas prometido que deixavas de fumar.
Mas eu já não fumo.
Não me mintas, é outra coisa que não devias fazer. Eu vi-te há pouco a fumar na janela do teu quarto.
Foi mesmo só um cigarro, já não vou fumar mais.
Dizes sempre a mesma coisa, como queres que acredite se em todas as vezes que prometeste nunca cumpriste.
Desta vez é mesmo a sério, prometo mesmo que não volto a fumar.
Sabes que o tabaco faz mal, na tua idade não deveria ser preciso lembrar.
Sim sei, claro que sei, mas às vezes não aguento.
Tens de ser forte. E também sabes que é caro, cada vez mais caro e que esse dinheiro podia dar jeito para outra coisa cá em casa.
Sim também sei, já disse, prometo que não fumo mais.
Está bem Pai, pela última vez vou confiar em ti.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

GENERICAMENTE NO CAMINHO

Os indicadores para o estabelecimento do preço limite dos medicamentos genéricos foi hoje conhecido. Sobressai a determinação de que os medicamentos genéricos com preço superior a dez euros não podem ter um preço superior a metade do preço do fármaco de marca com o mesmo princípio activo.
Aparentemente parece ser uma das poucas boas notícias vindas dos lados do Ministério da Saúde. Esperemos que possa constituir mais um passo no sentido de alargar a sua utilização. A implantação dos procedimentos e cultura de recurso aos genéricos tem sido um processo atribulado e polémico que, como já disse no Atenta Inquietude, me tem causado algumas dificuldades de entendimento que volto a partilhar, tentando com isso, de novo, conseguir alguma informação acrescida para serenamente tentar perceber a razão de tanta polémica.
De início, a explicação que me parecia mais evidente e óbvia, seria “isto trata-se de dinheiro e poder”. Depois pensei um pouco mais, ia vendo os desenvolvimentos e repensei, “não pode ser dinheiro e poder, estamos a falar do supremo interesso do utente” deve ser outra a explicação.
O medicamento genérico é mais barato que o de marca. Certo ou errado? Certo, parece.
Quer os medicamentos de marca, quer os genéricos só chegam ao mercado depois de testada a sua qualidade terapêutica e controlados os riscos de efeitos secundários. Certo ou errado? Certo, parece. Se não for é grave e, portanto, nem deveria ser considerada a hipótese de utilização.
Nos outros países a quota de mercado dos genéricos é maior que em Portugal e não consta que se verifique perda de qualidade no apoio terapêutico aos cidadãos. Certo ou errado? Certo, parece.
O estado que comparticipa no preço dos medicamentos adquiridos pelo utente pouparia milhões de euros com a maior utilização dos genéricos. Certo ou errado? Certo, parece.
Os médicos podem optar pela prescrição de genéricos ou de marca. Se fosse uma questão de qualidade, por questões científicas, éticas e deontológicas a questão da opção não se colocava, seria sempre pela qualidade. Certo ou errado? Certo, parece.
Os utentes, sobretudo os de menores rendimentos e os mais idosos poupariam significativamente com a prescrição de genéricos. Certo ou errado? Certo, parece.
Existe uma relação entre a prescrição de medicamentos por parte dos médicos e os apoios à classe disponibilizados pelos laboratórios. Certo ou errado? Certo, parece.
Existem fortíssimos interesses comerciais na produção e distribuição de medicamentos. Certo ou errado? Certo, parece.
O estado não permite que na farmácia se substitua o genérico pelo de marca, gasta mais, o utente também gasta mais apenas porque o médico decide, relembremos que sem ser por exclusivo critério científico pois poder optar significa que a qualidade terapêutica estará assegurada.
A Ordem dos Médicos está contra a autorização dada pelas pessoas à substituição da prescrição nas farmácias, designadamente pelos genéricos. Esta possibilidade de troca assenta na prescrição por princípio activo, modelo em utilização noutros países sem que se conheçam implicações negativas na qualidade da assistência. Estando assegurada a qualidade da resposta e o uso do substância activa prescrita, a necessidade do utente parece assegurada embora entenda alguma reserva face ao eventual desconhecimento de boa parte da população. Certo ou errado? Certo, parece.
Pois é. É por estas razões que continuo com dificuldade em entender a polémica em torno dos medicamentos genéricos.

ATROPELADOS PELO PROGRESSO

A imprensa tem vindo a referir uma situação que me parece interessante como exemplo da deriva a que, muitas vezes, as decisões em Portugal obedecem.
No sentido de proceder à revitalização e defesa do património arquitectónico envolvendo as designadas Aldeias de Xisto, que integram uma rede própria, foi investida uma quantia de cerca de 30 milhões de euros destinada à sua recuperação que levou, entre outros aspectos, a que os cabos de telecomunicações fossem enterrados e as antenas desaparecessem dos lindos e recuperados telhados das aldeias de forma eliminar a poluição visual.
Entretanto, chega a TDT (Televisão Digital Terrestre) e ao que parece, por dificuldades de cobertura de quem ninguém parece querer assumir responsabilidades, em muitas das aldeias só com a instalação de antenas, pratos brancos como lhes chamam, a recepção vai ser possível, pelo que os telhados correm o risco de novos enfeites fruto do progresso.
Em termos mais genéricos, a instalação e cobertura da TDT, sobretudo em zonas mais de interior, está a levantar inúmeras preocupações pelas dificuldades e custos envolvidos e pela falta de informação que se verifica. Na comunicação social esta matéria está mais presente pela publicidade das operadoras, que parecem ser grandes beneficiárias da introdução da TDT, do que por um esclarecimento claro sobre processos e custos.
Esta necessidade é óbvia, sobretudo em zonas mais isoladas, com uma população envelhecida que se vê atropelada pelo progresso e sem saber muito bem como proceder.
Conheço algumas situações que ilustram todo este processo. É o progresso.

OS PRESENTES E OS FUTUROS

E pronto, acabou o espírito natalício e chegou o Ano Novo, velho de preocupações.
Os discursos e as expectativas sobre os próximos tempos não são particularmente animadoras.
A vida vai ser mais complicada, mais difícil e mais cara.
O trabalho vai ficar mais longe para muita gente, para além dos muitos que já perderam.
A confiança parece difícil de se instalar na grande maioria de nós quando pensamos nos dias que hão-de vir.
É por isto tudo que tenho alguma dificuldade em perceber a razão, ou razões, pelas quais e apesar de tantos apertos em que vivemos, continuamos a oferecer tantos presentes, designadamente aos miúdos que nesta altura lhes cai em cima o espírito natalício embrulhado em múltiplos presentes, embora, na verdade alguns também tenham poucos presentes.
Na verdade, mais do que oferecer presentes seria necessário oferecer futuros. É justamente de futuro que muitos de nós precisamos, sobretudo os mais novos.
Podíamos tentar variar, preocuparmo-nos um pouco mais com os futuros do que com os presentes. Não é fácil, mas talvez valha a pena tentar.
Pode parecer estranho mas acho que há muito futuro para oferecer como presente.

domingo, 1 de janeiro de 2012

A AUTO-ESTIMA DOS PORTUGUESES

É com alguma frequência que nós portugueses, somos classificados como tendo uma baixa auto-estima. Considerando os discursos políticos e passando por referências de natureza psicossociológica, a auto-estima dos portugueses parece pelas ruas da amargura.
Lamento, mas tenho algumas reservas sobre os recorrentes discursos e as conclusões afirmadas.
O trabalho hoje divulgado no Público enunciando dez exemplos de relevante produção científica registados em 2011, a promoção do prestígio de algumas universidades portuguesas que também se registaram no ano que passou, entre muitas outras obras valorosas com reconhecimento internacional, sustentam a minha tese.
O povo português é justamente considerado um génio no “desenrasca”, “dá-se sempre um jeito, não há-de ser nada”, é assim uma espécie de Macgyver, tudo se resolve. Gente desta tem uma enorme confiança nas suas capacidades.
É um povo que vira histérico atrás do Scolari, da ida do puto Ronaldo, o melhor do mundo, para o Real Madrid e do Professor Doutor José Mourinho, o special one, para Inglaterra, para Itália ou para Espanha, não interessa, é o maior do mundo.
Este povo até se dá ao luxo de ignorar a excelência do desempenho em áreas como ciência e cultura de outros milhares de portugueses, que estão fora do país e de que quase desconhecemos o sucesso e reconhecimento que atingem . Um povo que dá cabo dos recursos e da paisagem do país sempre confiante de que, assim, é que se promove desenvolvimento. Um povo desta têmpera não é um povo com baixa auto-estima.
Não, definitivamente não, os portugueses, de uma forma geral, gostam de si, têm uma excelente impressão de si próprios. Não gostam é de Portugal, o país é que não está à altura dos portugueses. Daí a falta de orgulho na lusa pátria.

CARTA AO ANO NOVO

Meu caro Ano Novo,

Em primeiro lugar, é com a maior satisfação que te dou as boas vindas. O prazo de validade do Ano Velho tinha terminado, a coisa não estava a correr nada bem e, por isso, precisávamos desesperadamente de um substituto. Não te conheço e portanto não sei exactamente a experiência que possuis, mas creio que como todos os novos não será muita. Não te quero assustar mas não vais ter tarefa fácil e parece-me útil que possas conhecer um pouco da realidade que te espera, pelo menos aqui em Portugal, para que te possas organizar no sentido de fazeres o melhor possível.
Logo de início, é bom que saibas que, devido à situação económica muito complicada que atravessamos, fruto do mau trabalho de uma rapaziada que por aí, e por cá, tem andado e dos maus hábitos que adquirimos, alguns de nós é claro, as expectativas sobre ti são, lamento dizê-lo, fracas, muito fracas. Aliás, é voz corrente nas ruas e não estou a inventar a ideia de “que para o ano vai ser pior”. Estás a ver o que te espera, bom mas tu és novo, vais estar cá para o que der e vier e eu queria confiar em ti, e confio.
Em termos genéricos posso dizer-te que, de acordo com os estudos, somos um povo triste, desconfiado e sem grande esperança no futuro, o que também é animador como vês. No entanto, para compensar, gostamos de parecer uns “gajos porreiros” e bem-dispostos e adoramos, como vês por esta carta, dizer mal de nós. Temos uma especial inclinação pelo “esquema” ou, como também se diz, “dar um jeitinho”, vais ver a quantidade de jeitinhos que te vão pedir à chegada e a quantidade de “esquemas” a que vais assistir ao longo da tua estadia por cá.
Temos um governo que, tal como qualquer outro que temos tido, acha que faz tudo bem e é incompreendido por toda a gente e temos uma oposição que acha que o governo faz tudo mal, mas não percebemos muito bem o que faria se fosse governo, porque quando é governo a situação é mais ou menos a mesma.
Adoramos auto-estradas, rotundas e centros comerciais. Temos três pessoas que se acham os melhores do mundo mas duas emigraram, o Cristiano Ronaldo e o José Mourinho e o terceiro anda por aí, chama-se Professor Marcelo e diz que adivinha o futuro, não vais conseguir surpreendê-lo.
No entanto meu caro Ano Novo, se estiveres atento, vais perceber que somos um país de poetas que, como sabes, são uns fingidores. Por isso, deves ter reparado que à tua chegada encontraste o povo aos pulos e com ar de contente, apesar da situação que te descrevi sinteticamente.
Renovo os votos de boas vindas e de bom trabalho. Se precisares de alguma coisa, estás à vontade, dispõe.

Um abraço deste velho que sempre espera que o novo venha melhor.