domingo, 1 de novembro de 2026

NOCTURNO

 Estamos a viver tempos de chumbo. Aos 72 dava por adquirido (quase) que a violência dirigida a pessoas que defendem direitos e expressam a ausência de futuro, quando não, a sobrevivência do presente não seria tolerada. Ainda me lembro de no princípio dos anos setenta termos sido obrigados a sair do Técnico por um portão lateral para podermos ser “malhados” por duas filas da polícia de choque. É mau, muito mau, mais do que a dor da bastonada é a dor do mal-estar e da revolta pela falta de direitos que dói mais, sobretudo quando não se vislumbra mudança.

As políticas públicas não são públicas, são dirigidas a grupos que traficam influências e alimentam poder de incompetentes e gente sem espinha.

Para muita gente, o acesso a um abrigo, a uma casa, é uma miragem. Não pode ser gente! Um projecto de vida não passa disso mesmo para demasiadas pessoas, um projecto, um sonho impossível.

Dói e revolta que assim seja. Não é egoísmo, é dor, é falta, é impotência, é …

Estamos num tempo em que os discursos se atropelam, toda a gente tem algo a dizer e cansam tantas palavras.

E cansam não porque me pareçam palavras a mais, mas porque existe comunicação de menos, ou seja, o que a vida pública mais tem para nos mostrar é discursos sem interlocutor. Cada um dos actores ou protagonistas fala para algo ou alguém de indefinido e parece pouco disponível para o essencial, utilizar as palavras como suporte da comunicação e dos entendimentos, não estou a dizer concordâncias. As pessoas estão cansadas de retóricas palavrosas, inconsequentes e centradas nos interesses dos aparelhos partidários ou das elites económicas. Como dizia, parece-me que, de facto, temos palavras a mais e comunicação a menos.

Por outro lado, paradoxalmente, também creio que faltam palavras. Faltam palavras de solidariedade genuína para quem, vítima da crise que a especulação económica e modelos de desenvolvimento não centrados nas pessoas, vive momentos de enormes dificuldades num atentado diário à dignidade e com o quotidiano transformado na preocupação com a sobrevivência e a falta de uma palavra de esperança.

Vivemos dias de chumbo. Estou a lembrar-me de Rafael Alberti e do texto "Nocturno". Aqui na voz de Paco Ibañez.

(...)

Las palabras entonces no sirven, son palabras...

Siento esta noche heridas de muerte las palabras.

(…)

Lembrem-se, neste mundo em que vivemos, vivem os nossos filhos, viverão os nossos netos e os filhos dos …

A história não vos absolverá.



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