quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

TENS DE SER UM CRISTIANO RONALDO

 No DN encontra-se uma peça que justifica leitura e reflexão. Reflecte sobre a forma como muitas famílias olham para a prática desportiva dos filhos, designadamente o futebol.

Antes de mais, devo afirmar que desde muito pequeno e até os joelhos aguentarem tive sempre uma enorme paixão por jogar futebol que continuo a sentir agora apenas como espectador ou a trocar umas bolas com os meus netos que, no entanto, estão mais virados para o basquetebol qua praticam com muito gosto.

Na peça é referida e analisada a forma como muitos pais se excedem na pressão que criam sobre o desempenho dos miúdos. Como refere Jorge Silvério, “Muitas vezes o sonho é mais dos pais do que dos próprios atletas” e “o futebol juvenil deixou há muito de ser apenas uma atividade extracurricular. Tornou-se um projeto familiar — emocional e financeiro”. A questão é que “Os estudos apontam que mais ou menos 1% dos jovens consegue chegar a outras possibilidades no futebol. O que quer dizer que é extremamente reduzido”, afirma. “Mas a ênfase é muito posta em lutar por esse objetivo e falta depois acompanhamento quando esses atletas são dispensados.”

Neste contexto os riscos de mal-estar e decepção são elevados e muitos jovens e famílias passam por situações complicadas.

Importa, pois, alguma moderação nas expectativas que se criam e alimentam.

Esta peça do DN recordou-me uma situação a que assisti há já uns anos um parque e que aqui divulguei. Já naquela altura sugeria o que agora se verifica de uma forma bem mais “dura”.

Actores principais - Pai e filho com uns 6 ou 7 anos

Actores secundários - A mãe que entre chamadas no telemóvel grita incentivos para o filho

Cenário - uma zona relvada com dois pinos colocados de forma a simular uma baliza.

Assistentes discretos - o escriba

Guião - O pai ensina o filho a dar pontapés numa bola de futebol em direcção à baliza dos pinos

Cena e diálogo (reconstruído a partir de excertos ouvidos pelo escriba)

O pai apontando para uma zona do pé do miúdo que tem botas de futebol calçadas - Já te disse que é com esta parte do pé que tens de acertar na bola, vê se tomas atenção.

O miúdo em silêncio faz mais uma tentativa que não sai muito bem, não acerta na baliza.

O pai - Assim não vale a pena, não fazes como te digo, tens que estar concentrado, (aqui lembrei-me do Futre, um homem concentradíssimo e, certamente por isso, um grande jogador).

O filho - Mas eu dei com esta parte.

O pai - És parvo, se tivesses dado com essa parte a bola tinha ido para a baliza. Faz outra vez.

O miúdo com um ar completamente sofredor executa o que em futebolês se chama o gesto técnico e a bola teimosamente voltou a não sair na direcção desejada.

O pai - Pareces burro, se queres ser jogador de futebol, tens que te aplicar, (será que o miúdo quer mesmo ou será o pai que quer viver um sonho que foi dele e que agora cobra no filho?).

O miúdo, desesperado, sentou-se no chão com ar de quem espera o fim do jogo.

O pai, irritado, mandou a bola para longe com um forte pontapé.

O escriba pensou que se o árbitro tivesse visto, o pai merecia um cartão por comportamento incorrecto.

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