No Público lê-se que, no âmbito da iniciativa Gulbenkian Emprega, foram seleccionados 14 projectos para apoio a cerca de mil jovens entre os 16 e os 34 anos na situação de “nem-nem”, nem estudam nem trabalham. Os projectos serão desenvolvidos em parceria com o IEFP. Os projectos apoiados envolvem jovens nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, no Algarve e na Região Autónoma dos Açores.
Em Portugal temos 8,7% dos jovens nesta idade nesta situação,
mas são verificam-se assimetrias regionais muito significativas levadas em
consideração nos projectos que serão apoiados entre 12 e 18 meses.
De acordo com a informação divulgada, “os projectos
seleccionados destacaram-se pela adopção de intervenções personalizadas,
mentoria, aprendizagem dual e criação de redes locais de empregabilidade, bem
como por estratégias sólidas de monitorização e continuidade” e a “A iniciativa
tem ainda como objectivo validar metodologias que possam, no futuro, ser
internalizadas nas políticas públicas de qualificação, emprego e inclusão de
jovens”.
Apesar de algum abaixamento o número de jovens nesta
situação é ainda significativo e, sobretudo, comprometedor de um projecto de
vida bem-sucedido.
Acresce que um estudo divulgado e2024 por uma equipa do
SINCLab. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do
Porto, referia que 65,6% dos jovens até aos 30 anos que trabalham recebem menos
de 1000€ de salário sendo que as mulheres recebem menos 26%. É ainda
significativo que 24% do total não têm trabalho a tempo inteiro.
Considerando ainda uma dimensão crítica na vida dos jovens,
a habitação, 87,7% dos inquiridos vive com a família. Recordo os dados do
Eurostat de 2022, segundo os quais a idade média da saída de casa dos pais em
Portugal está em 29,7. Em 2021 tinha a idade média mais alta da EU, 33,6 anos.
A média europeia de 2022 é 26,4. Para comparação as idades médias mais baixas
registam-se na Suécia, 21,4, e na Finlândia, 21,3.
Parece claro que os jovens portugueses continuam a
experimentar dificuldades em construir projectos de vida autónomos e positivos.
Num tempo em que tudo tem de ser para hoje, boa parte dos jovens sentirá que um projecto de vida é algo percebido para um amanhã longínquo.
Estão identificadas dimensões contributivas para esta
situação como a dificuldade em aceder a trabalho digno, a precariedade laboral,
os custos elevados da educação e qualificação e os também elevados custos no
acesso, renda ou compra, de habitação que como se sabe se acentuou
dramaticamente nos últimos tempos.
Este cenário ajuda a perceber algumas das mais fortes razões
pelas quais os jovens em Portugal abandonam a casa dos pais cada vez mais tarde
e adiam projectos de vida que incluam paternidade e maternidade. Para além das
questões de natureza cultural e de valores que importa considerar, bem como as
políticas de família nos países do norte da Europa, as actuais circunstâncias
de vida dos jovens e as implicações da conjuntura económica sustentam este
cenário que provavelmente demorará a ser revertido.
A estes indicadores, já a merecer preocupação, devem
juntar-se os dados sobre precariedade, abuso do recurso a estágios e outras
modalidades de aproveitamento de mão-de-obra barata e a prática de vencimentos
que mais parecem subsídios de sobrevivência mesmo para jovens altamente
qualificados.
Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem
obviamente sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a
bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão o retardar da saída de
casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de
habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por
sua vez se reflectem na crise demográfica que atravessamos e que é uma forte
preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais. As
gerações mais novas que experimentam enormes dificuldades na entrada sustentada
na vida activa, vão também, muito provavelmente, conhecer sérias dificuldades
no fim da sua carreira profissional.
No entanto, um efeito potencial, mas menos tangível desta
precariedade no emprego e na construção de um projecto de vida autónomo e
sustentado, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à
própria vida no sentido global e que, com alguma frequência, os discursos das
lideranças políticas acentuam. Dito de outra maneira, pode instalar-se, está a
instalar-se nos jovens, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta
por um projecto de vida de que se não vislumbra saída mobilizadora e que
recompense.
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