Merece leitura e reflexão a entrevista do Público a Oddrun Samdal, investigadora na área da saúde e bem-estar dos adolescentes e coordenadora do estudo, Health Behaviour in School-Aged Children (HBSC), realizado pela Organização Mundial da Saúde de quatro em quatro anos no qual Portugal participa e cujos resultados aqui vou reflectindo com regularidade.
A entrevista é centrada na construção e desenvolvimento de
valores e identidade política nos adolescentes e a relação com os ecrãs, em
particular, com as redes sociais, e também num projecto, Engaged Youth, em desenvolvimento sobre esta problemática.
Na verdade, e como há bem pouco tempo aqui referia mais uma
vez, a experiência diária e, como agora se diz, a evidência, mostram de forma
cada vez mais clara como o excesso de tempo que crianças e adolescentes (mas
não só) passam “trancados” em ecrãs têm impacto negativo no seu bem-estar e
saúde mental, no desenvolvimento de competências e capacidades cognitivas,
sociais e emocionais e, naturalmente, na aprendizagem. São conhecidos muitos
exemplos de situações graves ocorridas no contexto de utilização das redes
sociais.
Em muitos sistemas educativos e também por cá, têm surgido
iniciativas, sobretudo nos espaços escolares, no sentido de minimizar esse
tempo incluindo a redução da utilização dos recursos digitais na aprendizagem,
sobretudo em particular com os mais pequenos.
Certamente mais difícil será a mudança nos contextos
familiares e comunitários. O próprio comportamento dos adultos não parece
favorável a esse trajecto de mudança.
Creio, aliás, a absoluta desregulação da utilização por
parte dos adultos será um enorme obstáculo à auto-regulação por parte dos mais
novos.
Na verdade, é clara a dificuldade de mudança dos
comportamentos, independentemente dos discursos de concordância com a
preocupação ou a expressão de dificuldades.
Não sendo apologista de estratégias essencialmente
proibicionistas, facilmente contornáveis, creio que é bem mais potente o incremento
de comportamentos de auto-regulação ajustados às diferentes idades.
No entanto, com alguma frequência se alimenta o equívoco de
que não proibir significa a ausência de regras e limites. Do meu ponto de
vista, a proibição por vezes necessária não invalida a um trajecto de
auto-regulação sempre mais consistente. Um dos aspectos críticos na promoção de
auto-regulação é a informação adequada e o diálogo sobre essa informação.
É o bem-estar dos mais novos e a qualidade global dos
processos educativos que estão em jogo.
É uma questão demasiado importante.
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