sábado, 14 de fevereiro de 2026

O DIA DE S. VALENTIM, O LADO B

 Hoje é inevitável a chuva de referências ao Dia de São Valentim, Dia dos Namorados. Para além de tudo o que se refere, do romantismo do namoro à menos romântica dimensão de negócio(s), existe um inquietante lado B das relações de namoro, a violência nas suas diferentes formas.

Como tem acontecido nos últimos anos, a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) divulgou os dados do estudo anual sobre violência no namoro inquirindo 8080 jovens com idades entre os 12 e os 21 anos.

Alguns dados que, lamentavelmente, já não surpreendem, e continuam preocupantes. A maioria dos inquiridos, 68,2%, não considera violência no namoro pelo menos um dos comportamentos analisados.

No namoro juvenil, a violência nem sempre se mostra visível. A maioria dos inquiridos, 68,2%, não reconhece como violência no namoro pelo menos um dos comportamentos analisados. De facto, 53,5% desvaloriza atitudes controladoras e a perseguição não é entendida como um problema por 40,9% dos jovens. Aceder às redes sociais e mensagens sem autorização do parceiro(a) ou procurá-lo de forma insistente ao longo do dia são comportamentos legitimados por mais de um terço dos inquiridos.

Também a violência psicológica, insultar durante uma discussão por ex., não é reconhecida como tal por 27,6% dos jovens e 12% não consideram abusivo que essas ofensas sejam divulgadas nas redes sociais

A violência sexual e a física surgem como as menos normalizadas. No entanto, 14%, mais de mil jovens, entendem como normal pressionar alguém para beijar ou mesmo beijar contra a vontade e 5,9% (479) consideram que magoar fisicamente o companheiro(a) com empurrões ou bofetadas não configura violência no namoro.

São os jovens do sexo masculino, 44% da amostra, que mais entendem como legítimas todas as formas de violência analisadas. Entre os géneros as diferenças são mais claras relativamente ao controlo e na violência psicológica. Nos rapazes, 65,3% não reconhecem que controlar a namorada ou namorado seja uma forma de violência. Nas raparigas, o valor é 43,3%, ainda assim significativo.

No mesmo sentido, recordo um trabalho realizado pela UMAR com financiamento da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género divulgado em 2024 e envolvendo 6152 jovens entre o 7.º e o 12.º considerando duas dimensões, legitimação e prevalência dos indicadores de violência, também se encontram dados inquietantes.

É significativo que 68,1% dos inquiridos legitimam pelo menos um tipo de violência, sendo que controlo (54,6%) e violência psicológica (33,5%) são os mais referidos sendo ainda que 27,9% dos jovens consideram normal ser insultado numa discussão.

No que respeita a tipos de violência a que foram sujeitos, 63% dos jovens referem que já estiveram numa relação em que passaram pelo menos por um tipo de violência.

Assim, 43% refere a proibição de estar ou falar com alguma pessoa, 39,9% viveram pelo menos uma forma de violência psicológica, 20,4% de perseguição, e 18,4% de alguma forma de violência sexual, nomeadamente serem obrigados a beijar, e 11% sofreram violência física.

São indicadores suficientes para que nos sintamos apreensivos e o  que torna a situação ainda mais complexa é a manutenção sem grandes alterações destes indicadores ao longo dos anos, incluindo trabalhos com estudantes do ensino superior, o que talvez ajude a perceber como a violência doméstica parece indomesticável.

Os dados convergem no indiciar do que está por fazer em matéria de valores e comportamentos sociais. Acresce que boa parte das situações de abuso não são objecto de queixa.

Este conjunto de dados é preocupante, gostar não é compatível com maltratar, mas creio que não é surpreendente, lamentavelmente. Os dados sobre violência doméstica em adultos que permanece indomesticável deixam perceber a existência de um trajecto pessoal anterior que suporta os dados muitos trabalhos sobre violência no namoro e que se mantêm inquietantes. Aliás, nos últimos anos a maioria das queixas de violência doméstica registadas pela APAV foram de mulheres jovens embora seja um drama presente em todas as idades.

Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores sociais presentes em cada época. De facto, e reportando-nos apenas aos dados mais gerais, é criticamente relevante a percentagem de jovens, incluindo estudantes universitários, que afirmam um entendimento de normalidade face a diferentes comportamentos que evidentemente significam relações de abuso e maus-tratos.

Como todos os comportamentos fortemente ligados à camada mais funda do nosso sistema de valores, crenças e convicções, os nossos padrões sobre o que devem ser as relações interpessoais, mesmo as de natureza mais íntima, são de mudança demorada. Esta circunstância, torna ainda mais necessária a existência de dispositivos ao nível da formação e educação de crianças e jovens; de uma abordagem séria persistente nos meios de comunicação social; de um enquadramento jurídico dos comportamentos e limites numa perspectiva preventiva e punitiva e, finalmente, de dispositivos eficazes de protecção e apoio a eventuais vítimas.

Só uma aposta muito forte na educação, escolar e familiar, pode promover mudanças sustentadas nesta matéria. É uma aposta que urge e tão importante e sublinha a necessidade óbvia de matérias desta natureza serem objecto de abordagem na educação escolar sendo que não terão de o ser de uma forma “disciplinarizada”. Não me parece que haja outro caminho.

Entretanto e enquanto não muda, "só faço isto, porque gosto de ti, acreditas não acreditas?". Não, não se pode acreditar.

Retomo como iniciei. Apesar dos dias inquietantes que vivemos e para os quais não estávamos preparados, talvez seja de não esquecer questões como estas que devastam o quotidiano de muita gente.

Sem comentários: