Hoje é inevitável a chuva de referências ao Dia de São Valentim, Dia dos Namorados. Para além de tudo o que se refere, do romantismo do namoro à menos romântica dimensão de negócio(s), existe um inquietante lado B das relações de namoro, a violência nas suas diferentes formas.
Como tem acontecido nos últimos
anos, a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) divulgou os dados do estudo anual sobre violência no namoro inquirindo 8080 jovens com idades entre os 12 e
os 21 anos.
Alguns dados que, lamentavelmente,
já não surpreendem, e continuam preocupantes. A maioria dos inquiridos, 68,2%,
não considera violência no namoro pelo menos um dos comportamentos analisados.
No namoro juvenil, a violência
nem sempre se mostra visível. A maioria dos inquiridos, 68,2%, não reconhece
como violência no namoro pelo menos um dos comportamentos analisados. De facto,
53,5% desvaloriza atitudes controladoras e a perseguição não é entendida como um
problema por 40,9% dos jovens. Aceder às redes sociais e mensagens sem
autorização do parceiro(a) ou procurá-lo de forma insistente ao longo do dia
são comportamentos legitimados por mais de um terço dos inquiridos.
Também a violência psicológica, insultar
durante uma discussão por ex., não é reconhecida como tal por 27,6% dos jovens
e 12% não consideram abusivo que essas ofensas sejam divulgadas nas redes
sociais
A violência sexual e a física
surgem como as menos normalizadas. No entanto, 14%, mais de mil jovens,
entendem como normal pressionar alguém para beijar ou mesmo beijar contra a
vontade e 5,9% (479) consideram que magoar fisicamente o companheiro(a) com
empurrões ou bofetadas não configura violência no namoro.
São os jovens do sexo masculino, 44%
da amostra, que mais entendem como legítimas todas as formas de violência
analisadas. Entre os géneros as diferenças são mais claras relativamente ao controlo
e na violência psicológica. Nos rapazes, 65,3% não reconhecem que controlar a
namorada ou namorado seja uma forma de violência. Nas raparigas, o valor é 43,3%,
ainda assim significativo.
No mesmo sentido, recordo um
trabalho realizado pela UMAR com financiamento da Comissão para a Cidadania e
Igualdade de Género divulgado em 2024 e envolvendo 6152 jovens entre o 7.º e o
12.º considerando duas dimensões, legitimação e prevalência dos indicadores de
violência, também se encontram dados inquietantes.
É significativo que 68,1% dos
inquiridos legitimam pelo menos um tipo de violência, sendo que controlo
(54,6%) e violência psicológica (33,5%) são os mais referidos sendo ainda que
27,9% dos jovens consideram normal ser insultado numa discussão.
No que respeita a tipos de
violência a que foram sujeitos, 63% dos jovens referem que já estiveram numa
relação em que passaram pelo menos por um tipo de violência.
Assim, 43% refere a proibição de
estar ou falar com alguma pessoa, 39,9% viveram pelo menos uma forma de
violência psicológica, 20,4% de perseguição, e 18,4% de alguma forma de
violência sexual, nomeadamente serem obrigados a beijar, e 11% sofreram violência
física.
São indicadores suficientes para
que nos sintamos apreensivos e o que torna
a situação ainda mais complexa é a manutenção sem grandes alterações destes
indicadores ao longo dos anos, incluindo trabalhos com estudantes do ensino
superior, o que talvez ajude a perceber como a violência doméstica parece
indomesticável.
Os dados convergem no indiciar do
que está por fazer em matéria de valores e comportamentos sociais. Acresce que boa
parte das situações de abuso não são objecto de queixa.
Este conjunto de dados é
preocupante, gostar não é compatível com maltratar, mas creio que não é
surpreendente, lamentavelmente. Os dados sobre violência doméstica em adultos
que permanece indomesticável deixam perceber a existência de um trajecto pessoal
anterior que suporta os dados muitos trabalhos sobre violência no namoro e que
se mantêm inquietantes. Aliás, nos últimos anos a maioria das queixas de
violência doméstica registadas pela APAV foram de mulheres jovens embora seja
um drama presente em todas as idades.
Os sistemas de valores pessoais
alteram-se a um ritmo bem mais lento do que desejamos e estão, também e
obviamente, ligados aos valores sociais presentes em cada época. De facto, e
reportando-nos apenas aos dados mais gerais, é criticamente relevante a percentagem
de jovens, incluindo estudantes universitários, que afirmam um entendimento de
normalidade face a diferentes comportamentos que evidentemente significam
relações de abuso e maus-tratos.
Como todos os comportamentos
fortemente ligados à camada mais funda do nosso sistema de valores, crenças e
convicções, os nossos padrões sobre o que devem ser as relações interpessoais,
mesmo as de natureza mais íntima, são de mudança demorada. Esta circunstância,
torna ainda mais necessária a existência de dispositivos ao nível da formação e
educação de crianças e jovens; de uma abordagem séria persistente nos meios de
comunicação social; de um enquadramento jurídico dos comportamentos e limites
numa perspectiva preventiva e punitiva e, finalmente, de dispositivos eficazes
de protecção e apoio a eventuais vítimas.
Só uma aposta muito forte na
educação, escolar e familiar, pode promover mudanças sustentadas nesta matéria.
É uma aposta que urge e tão importante e sublinha a necessidade óbvia de
matérias desta natureza serem objecto de abordagem na educação escolar sendo
que não terão de o ser de uma forma “disciplinarizada”. Não me parece que haja
outro caminho.
Entretanto e enquanto não muda,
"só faço isto, porque gosto de ti, acreditas não acreditas?". Não,
não se pode acreditar.
Retomo como iniciei. Apesar dos
dias inquietantes que vivemos e para os quais não estávamos preparados, talvez
seja de não esquecer questões como estas que devastam o quotidiano de muita
gente.
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