No Público encontram-se duas peças dedicadas a um novo projecto da Fundação Gulbenkian na área da educação, o Gulbenkian Aprender.
O projecto investirá 3,4 milhões
de euros no apoio a cerca de 400 alunos da região do Tâmega e Sousa. Estes
alunos serão apoiados através de múltiplas intervenções e acompanhados do 5.º
ao 12.º ano.
Os alunos participantes terão de
ser beneficiários de um dos escalões do da Acção Social Escolar e serão as
escolas a definir quem integra o Projecto.
Pretende-se criar a oportunidade
que as condições sociais destes alunos dificultam de construir um trajecto
educativo bem- e económicas sucedido.
Lembrei-me de José Afonso, “seja
bem-vindo quem vier por bem”, e registo e saúdo todas as iniciativas que possam
contribuir para minimizar ou erradicar problemas ou dificuldades, mas já me
falta convicção no impacto do modelo frequentemente seguido.
Para cada constrangimento ou
dificuldade percebida nas e pelas escolas e com regularidade, aparece vindo de
fora ou gerido de fora, um Plano, um Projecto, um Programa, uma Iniciativa, as
combinações são múltiplas, destinado a essa problemática.
Durante as últimas décadas, perco
a conta a planos, projectos, programas, experiências inovadoras que chegaram às
escolas para combater o insucesso ou, pela positiva, promover o sucesso,
promover a leitura e escrita, promover a matemática, promover a educação
científica, promover a educação inclusiva, erradicar ou minimizar o bullying, a
relação entre escola e pais e encarregados de educação, promover a expressão
artística e a criatividade, promover comportamentos saudáveis, a cidadania, o
ambiente, actividades desportivas, literacia financeira e outras, promover a
inovação e as novas tecnologias, para não falar de iniciativas mais
"alternativas", por assim dizer, e que têm poderes mágicos, parece. A
lista enunciada é apenas exemplificativa.
Com demasiada frequência muitos
destes projectos vêm de fora das escolas, as origens são variadas, não chegam a
envolver a gente das escolas, esmagada pelo trabalho, burocracia e outros
constrangimentos como, por exemplo, assegurar da melhor forma possível o
dia-a-dia do trabalho educativo que tem de ser realizado.
Aliás, Pedro Cunha, coordenador
do Gulbenkian Aprender sublinha a ideia de que "Temos de assumir
frontalmente que a escola não pode tudo".
Também com demasiada frequência
muitos destes projectos morrem de “morte matada” ou de “morte morrida”, não são
avaliados de forma robusta e dão umas fotografias ou vídeos que compõem o
portfólio dos organizadores e proporcionam uma experiência que se deseja
positiva aos intervenientes no tempo que durou, mas sem impacto significativo
na comunidade.
Todavia, preciso de afirmar que
muitos destes Planos, Projectos, Inovações, etc. dão origem a trabalhos
notáveis que, também com frequência, não têm a divulgação e reconhecimento que
todos os envolvidos mereceriam.
Não tenho dúvidas que também este
projecto da Gulbenkian terá bons resultados e umas centenas de crianças e
jovens chegarão a um patamar que sem estas condições seria extremamente difícil.
Fico satisfeito com isto, mas …e os outros?
Também demasiadas vezes estas iniciativas consomem recursos com baixo retorno e ao serviço de múltiplas agendas.
Ponto.
Na linha da afirmação de Pedro
Cunha, tenho para mim, que não podendo a escola responder a todas as questões
que afectam quem nelas passa o dia poderia, ainda assim, fazer mais se os
investimentos feitos no mundo à volta da escola e que lhe vem bater à porta com
propostas fossem canalizados para as escolas. Sim, não esqueço a questão
crítica da falta de professores, mas também ela surge por incompetência das
políticas públicas de educação que os responsáveis teimam em branquear
Com real autonomia, com mais
recursos e com modelos organizativos mais adequados as escolas poderiam fazer
certamente mais e melhor que quem vem de fora numa passagem transitória, mais
ou menos longa, mas transitória. Sim, tudo isto deveria ser objecto de
escrutínio, regulação e avaliação também externa, naturalmente.
Escolas com mais auxiliares,
auxiliares informados e formados podem ter um papel importante em diferentes
domínios.
Directores de turma com mais
tempo para os alunos e menos burocracia poderiam desenvolver trabalho útil em
múltiplos aspectos do comportamento e da aprendizagem.
Psicólogos e outros técnicos em
número mais adequado, o que se verifica é inaceitável, poderiam acompanhar,
promover e desenvolver múltiplas acções de apoio a alunos, professores,
técnicos e pais.
Mediadores que promovessem
iniciativas no âmbito da relação entre escola, pais e comunidade seriam, a
experiência mostra-o, um investimento com retorno.
São apenas alguns exemplos de
respostas com resultados potenciais com um custo que talvez não seja superior
aos custos de tantos Projectos, Planos, Programas ou Iniciativas Inovadoras
destinadas a múltiplas matérias e com custos associados de “produção” que já me
têm embaraçado, mas a verdade é que as agendas e o marketing têm custos.
Na verdade, a “Projectite”,
sobretudo vinda de fora, é uma opção com pouco potencial apesar, insisto, das
boas experiências que felizmente também existem e que também desejo que seja o
Gulbenkian Aprender.
A escola não consegue fazer tudo,
mas as políticas públicas não são só escola e os projectos de vida bem-sucedidos
para cada criança desenvolvem-se e assentam na diversidade, competência e coerência
das políticas públicas de diversas áreas e dos objectivos que pretendem atingir.
É “só” isso que falta e fazer
melhor não é uma impossibilidade.
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