domingo, 22 de março de 2015

A MINHA MADRASTA É A MINHA MÃE

"Madrastas que são como mães, padrastos que são como pais"

O Público apresenta uma peça interessante sobre as famílias recompostas e as experiências de madrastas e padrastos que verdadeiramente adoptam os filhos que resultam de relações anteriores do parceiro ou parceira.
Na verdade, como sempre afirmo, é preferível uma boa separação a uma má família, uma família que está casada por fora e “descasada” por dentro, situação que, evidentemente, não passa despercebida às crianças ou adolescentes.
A separação poderá permitir que se reconstruam famílias que possam ser mais felizes.
Acontece que do ponto de vista legal importa proteger os direitos de padrastos e madrastas que tendo-se tornado verdadeiros pais e mães poderão perder essa “condição” em caso de desaparecimento do seu parceiro ou parceira que seja pai ou mãe de “filhos” que sentem e se sentem como seus. Assim sendo, “o superior interesse da criança” deveria ser acautelado e ficar com o padrasto ou madrasto.
Como sempre que falo nestas matérias recordo a mágica expressão de Laborinho Lúcio, “Só as crianças adoptadas são verdadeiramente felizes, felizmente a maioria dos pais adoptam os seus filhos”. Os padrastos e as madrastas também adoptam os filhos das pessoas com quem se unem, deixem que essas crianças e  adolescentes possam continuar felizes.

OS FINALISTAS, UM ESPÍRITO, UM NICHO DE MERCADO

Por esta altura desencadeia-se inevitavelmente um fenómeno migratórío que atinge um grupo social extremamente importante e organizado por camadas etárias. Estou a falar dos finalistas.
Assim que me lembre e tanto quanto consigo acompanhar, temos finalistas da educação pré-escolar, os finalistas do ensino básico, no 9º ano, os finalistas do ensino secundário, os finalistas do 1º ciclo do ensino superior, a licenciatura inventada pela bolonhesa ideia e os finalistas do 2º ciclo do ensino superior, os que abandonam o superior após cinco anos de estadia.
Os finalistas transformaram-se num nicho de mercado apetecível e rentável. Realizam-se festas e viagens de finalistas em todas as faixas etárias, iniciativas que as instituições acarinham e às quais os pais não sabem como resistir, é o espírito da escola, o convívio, a juventude, o divertimento, etc. etc. Provavelmente, devido ao mundo de dificuldades que atravessamos, o mercado pode estar a sofrer alguma retracção.
A migração, sobretudo no que respeita aos alunos do secundário, está a ocorrer sob vigilância das autoridades e com a preocupação dos pais face à experiência iniciática e aos riscos decorrentes dos excessos nos consumos e na adrenalina. São conhecidas situações muito sérias com consequências graves e experiências radicais como  “balconing”, salto do quarto de hotel para a piscina.
Quero sublinhar que esta reflexão não tem qualquer intenção moralista e também gostava de dizer que o meu filho fez parte, provavelmente, das primeiras gerações de estudantes do secundário que rumaram a Lloret de Mar, já lá vão uns anos.
A oferta nas estânciasbalneares olha para este nicho de mercado, os estudantes portugueses, como uma fonte extremamente significativa de receitas em época baixa no turismo com destino praia. Nesse sentido, de forma mais ou menos explícita, toda a estrutura, hotelaria, restauração, divertimento nocturno ou lazer, esmeram-se no sentido de criar a apetência por uma “histérica” e desregulada “desbunda” cheia de pica e adrenalina, o famoso espírito de Lloret, dos vários “Llorets” que o mercado vai gerando. No espírito de Lloret tudo cabe, os jovens soltam-se e apesar de causarem uns "estragos", uns distúrbios e alguns excessos, no final das contas, a operação compensa, aliás, segundo a opinião expressa dos empresários locais, os ingleses são piores, claro, nada de novo somos gente de bem, não criamos problemas e deixamos os apetecidos euros.
Talvez fosse interessante perceber como é feita a fiscalização da oferta nestas paragens, por exemplo das campanhas indutoras do consumo de álcool.
Para não variar, isto é conversa de velho, a malta precisa de se divertir, depois de de dois períodos de árduo estudo e antes da dura recta final dos exames.
Para o ano há mais.

Entretanto divirtam-se.

sábado, 21 de março de 2015

OS PROFESSORES, ESSA MALANDRAGEM A QUEM ENTREGAMOS OS NOSSOS FILHOS

O texto de Paulo Guinote no Público que me parece pertinente e oportuno sugere umas notas telegráficas.
Nos últimos anos tem sido muito evidente um discurso social e político que através de uma informação avulsa e por vezes cirurgicamente trabalhada ou divulgada procura desvalorizar e questionar a imagem social e profissional  dos professores. 
Estes enunciados de ataque, culpabilização e ou desvalorização da classe docente incluem boa parte dos discursos e também das decisões políticas do MEC, algum do discurso produzido pelos próprios representantes dos professores, o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, e vindos de uma imprensa mal preparada na abordagem a muitas matérias e com agendas que nem sempre são claras, tem efeitos muito significativos, fragilizando seriamente a imagem dos docentes aos olhos da comunidade educativa, designadamente de alunos e pais.
Esta desvalorização é um sério contributo para muitos dos problemas, designadamente ao nível da autoridade percebida nos professores, que afectam o nosso sistema educativo.
Devo, no entanto, reconhecer que "bater" nos professores, essa "malandragem" a quem entregamos os nossos filhos, resulta sempre, vende bem. 

Mas faz mal.

CHEGOU A PRIMAVERA

Quando durante a Primavera e, sobretudo, após algum tempo de chuva, surgem dias de Sol já mais longos e quentes, chamamos-lhes dias criadores aqui no Alentejo.
Tudo o que a terra tiver vai crescer, criar-se, a olhos vistos.
A sério, se tivermos paciência e soubermos olhar, quase que dá para ver crescer o pasto, para ver as árvores a enfeitar-se para receber o Verão. Na horta, o que se lá colhe vem com uma frescura e um viço que lavam a alma e o estômago.
Gosto dos dias criadores que a chegada da Primavera anuncia.
Também gostava que os dias criadores que aí vêm fizessem criar esperança em vez da secura da desesperança.
Também gostava que os dias criadores que aí vêm fizessem criar confiança em vez da secura do medo.
Também gostava que os dias criadores que aí vêm fizessem criar ...

UM PAÍS VIP

"Altos dirigentes confirmam criação de lista VIP mas sem o secretário de Estado saber"

Não há volta a dar, vivemos num país Verdadeiramente Impossível de Perceber.
Temos o BES.
Temos a PT.
Temos as PPPs.
Temos a SLN/BPN.
Temos as negociatas em muitas autarquias.
Temos o nepotismo e a corrupção.
Temos o amiguismo político e os "jobs for the boys and girls".
Temos o tráfico de influências.
Temos a lista VIP
Temos ...
Temos uma Vergonhosa Impunidade que Prevalece

sexta-feira, 20 de março de 2015

SIM, ELES SÃO CAPAZES

"Pais querem que professores “puxem” pelos seus filhos com trissomia 21"

É um lugar comum afirmar que o trabalho em educação é um desafio constante dada a diversidade dos alunos, dos contextos sociais e culturais, dos contextos escolares, dos conteúdos curriculares, dos efeitos das políticas educativas, etc, etc. De uma forma mais particular, o trabalho educativo com crianças ou jovens com necessidades especiais é ainda mais desafiante pois, a tudo o que o que já referi, acrescem as especificidades decorrentes de cada situação. Neste universo mais restrito, ainda releva o caso dos alunos com dificuldades de natureza cognitiva, independentemente da terminologia empregue.
Esta situação começa pela própria representação existente sobre a deficiência cognitiva, muito mais ambígua e indefinida que a representação sobre outra área de problemas, ou seja, de forma simplista, num pessoa com uma deficiência motora ou visual os seus problemas são percebidos de uma forma mais clara do que numa pessoa com deficiência cognitiva. Este discurso não tem a ver com maior ou menor "dificuldade" no trabalho a realizar, mas sim com percepção instalada sobre a natureza dos problemas.
Voltando à situação dos alunos com problemas de natureza deficiência cognitiva, (mantendo a terminologia), logo a questão da avaliação é particularmente difícil. Do meu ponto de vista, não existe nenhum dispositivo de avaliação no qual caiba inteira uma criança com deficiência cognitiva, como não existe para nenhuma pessoa considerada normal. Lembro-me sempre de uma afirmação velha "se existisse o melhor teste do mundo continuaríamos a ter apenas uma amostra do que uma criança é, sente, pensa ou sabe".
Em segundo lugar, o espaço é muito curto, coloca-se a questão dos conteúdos e dos contextos educativos. Hoje em dia, com maior ou menor convicção, com maior ou menor capacidade de sustentação, entende-se que os conteúdos do trabalho e os contextos de trabalho devem, tanto quanto possível, sublinho, tanto quanto possível serem aproximados dos conteúdos e contextos definidos e pensados para os alunos da mesma faixa etária, fazendo as necessárias adequações, difíceis frequentemente, em função de cada situação e assentes num princípio de diferenciação.
No nosso sistema, para além dos efeitos sérios das políticas de austeridade e da visão instalada na 5 de Outubro, muitos destes alunos são acantonados numa entidade designada por Currículo Específico Individual - CEI, uma bizarrice conceptualmente redundante, se uma estrutura curricular é desenhada para um indivíduo será, evidentemente específica, donde fica estranha a designação. Em muitas circunstâncias, apesar de excelentes práticas que aqui registo e saúdo, o trabalho desenvolvido ao abrigo dos CEIs é, do meu ponto de vista, parte do problema e não parte da solução, situação potenciada com a Portaria em vigor relativa ao trabalho nas escolas secundárias para os alunos com “CEI” a cumprir escolaridade obrigatória.
É um trabalho inconsequente, assente em avaliações pouco consistentes, descontextualizado, mobilizando pouca participação e envolvimento nos contextos em que os alunos se inserem. Dito de outra maneira, em algumas circunstâncias o trabalho desenvolvido com estes alunos é ele próprio um factor de debilização, ou seja, alimenta a sua incapacidade, numa reformulação do princípio de Shirky.
Tal facto, não decorre da incompetência genérica dos técnicos, julgo que na sua maioria serão empenhados e competentes, mas da sua própria representação sobre este grupo de alunos, isto é, não acreditam que eles realizem ou aprendam. Desta representação resultam situações e contextos de aprendizagem, tarefas e materiais de aprendizagem, expectativas baixas traduzidas na definição de objectivos pouco relevantes, que, obviamente, não conseguem potenciar mudanças significativas o que acaba por fechar o círculo, eles não são, de facto, capazes. É um fenómeno de há muito estudado.
O que acontece, sem ser por magia ou mistério, é que quando nós acreditamos que os alunos são capazes, eles não se "normalizam" evidentemente, mas são, na verdade, mais capazes, vão mais longe do que admitimos. Não esqueço a gravidade de algumas situações mas, ainda assim, do meu ponto de vista, o princípio é o mesmo, se acreditarmos que eles progridem e são capazes de ... , o que fazemos, provoca progresso, o progresso possível.
E isto envolve professores do ensino regular, de educação especial, técnicos, pais, lideranças políticas e toda a restante comunidade.

UM EXEMPLO INSPIRADOR DE ENVOLVIMENTO FAMILIAR NA VIDA ESCOLAR

"Familiares trepam paredes para ajudar alunos a copiar nos exames"
Da Índia surge um exemplo inspirador e comovente para o imprescindível envolvimento das famílias na vida escolar e na promoção do sucesso educativo e escolar dos seus filhos.
Dada a examocracia instituída por Nuno Crato, talvez esta forma de colaboração e envolvimento dos pais possa contribuir para minimizar os 150 000 chumbos que se verificam anualmente no nosso país conforme alerta do Conselho Nacional de Educação.
Também poderá ser mesmo uma ideia a considerar pelos amigos e familiares dos professores que serão submetidos à sinistra PACC ou à avaliação da Universidade Cambridge para certificar que os professores de Inglês sabem ... Inglês e, portanto, avaliar e classificar o PET.




UMA BONITA HISTÓRIA DE AMIZADE

"Presidente do INEM usa helicóptero para transportar amiga"

Nos tempos que correm, frios e duros, é sempre bonito e estimulante conhecer histórias de amizade e solidariedade, em particular, quando envolvem pessoas mais vulneráveis ou fragilizadas, doentes, por exemplo.
Bem haja pelo exemplo de amizade e solidariedade Senhor Presidente do INEM. Não ligue às pessoas insensíveis, frias e sem sentimentos que acharão errado que o senhor tenha mandado um helicóptero do INEM transportar uma amiga doente.
Nunca nos devemos arrepender das boas acções.

SOBERANIA? SEJA FEITA A VOSSA VONTADE

"Passos "nada incomodado" com reunião restrita sobre a Grécia"

No âmbito da discussão europeia envolvendo a situação grega ter-se-á realizado uma reunião em que apenas participaram Angela Merkel, François Hollande e os líderes das instituições europeias. Sendo a questão, evidentemente, de importância no contexto da União Europeia, diversos chefes de estado criticaram a sua realização nestes termos, apenas com a participação dos "donos" da Europa.
Sem surpresa, Passos Coelho afirmou que não sentiu "nenhum incómodo" com o formato da reunião. Ele tem razão, estando lá os chefes é perfeitamente dispensável a presença dos feitores, dos empregados, dos "bons alunos" que, aliás, nem sequer discutem as decisões dos chefes. A chefe decidiu, está bem decidido.
Nada de estranho, a soberania nacional foi soberania revista em baixa e colocada em mobilidade especial, por assim dizer, portanto, que se lixe a independência, a soberania.
Na verdade, o Governo, feitor sem mandato desta feitoria em que nos transformaram e nos transformámos, tem-se esforçado denodadamente para mostrar que os desejos dos chefes são ordens e o resultado é o que bem sabemos, sentimos. Nos últimos tempos até se ouvem, baixinho é certo, algumas críticas mas nada de contestar seriamente os entendimentos da Troika que nos empobreceram.
Como já disse, também a soberania entrou em mobilidade especial, terá algum tempo para ser requalificada e, finalmente, será despedida pois, como se lembram, a Senhora Merkel afirmou em tempos que os países do euro devem estar preparados para ceder soberania pois "Temos de estar preparados para aceitar que a Europa (o diktat alemão) tem a palavra final em certas áreas". Com certeza Chefe, disponha. Os gregos estão armados em "crianças", em "radicais" e querem ter uma palavra a dizer sobre  ... a Grécia, onde já se viu, são tontos. Estão, evidentemente, condenados ao insucesso, Merkel escreve o script e será feita a sua vontade.
Miguel Beleza tem razão quando afirmou há tempos que a soberania é uma treta. Também é verdade que a feitoria é uma tragédia.
E a gente aguenta?
Fernando Ulrich deve continuar a entender que sim.
E nós?
Até quando?

quinta-feira, 19 de março de 2015

PAI

Pai,

Trouxe esta prenda para ti lá da escola. É para o Dia do Pai. Demorou três dias a fazer.
Desculpa lá, mas é outra vez a mesma coisa do outro ano. Desta vez eu acho que está mais bem feita. A professora nova diz que nós somos descuidados, pediu à D. Maria, a empregada, para ir com a gente para o recreio e acabou ela as nossas prendas para o Dia do Pai.
Não sei porquê mas temos sempre que fazer assim, eu acho que os pais gostavam à mesma se fossem feitas só por nós.
Sabes uma coisa? Um dia a professora perguntou se os nossos pais brincavam com a gente. Eu disse que nós os dois não brincamos muito mas estamos sempre a falar. Ela riu-se e disse que isso também é brincar. Eu já sabia.
O que ela não sabe é que a gente fala muito, mesmo que tu estejas nesse lugar muito alto, para onde a mãe diz que foste quando morreste. Mas isso é um segredo.
Agora vou brincar e tu ficas a ver. Olha Pai, depois conto-te uma história muito engraçada que aconteceu à minha amiga Joana. 

José

Hoje e sempre. Ao Meu Pai que partiu demasiado cedo mas não sem antes me ter mostrado o que nunca viu e o caminho para lugares onde nunca esteve.

DO RIDÍCULO

Se o ridículo mudasse políticas ...

"Só Júri Nacional autoriza ida a WC
Professores têm de ser acompanhados por elemento da direção."

DO ECLIPSE

Nos últimos anos alguns astros têm vindo a criar sombras sobre a educação e escola públicas provocando uma espécie de eclipse. 
Nuno Crato tenta vislumbrar os seus efeitos.


quarta-feira, 18 de março de 2015

O MEC PODIA LER E LEVAR A SÉRIO

Foi ontem divulgado um Estudo a que aqui fiz referência encomendado pela Comissão de Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos do Parlamento Europeu sobre o impacto da crise e dos programas de austeridade nos direitos fundamentais em sete países da União Europeia - Portugal, Espanha, Grécia, Chipre, Irlanda, Itália e Bélgica, concluiu que em Portugal foram afectados de forma grave alguns dos direitos fundamentais dos cidadãos.
O direito ao trabalho foi o mais ameaçado tendo as crianças sofrido efeitos significativos no direito à educação.
Do Estudo parcelar dirigido a cada um dos países sobre o que se torna necessário para proteger o direito à educação, retiro o que no caso de Portugal surge como recomendação dirigida a proteger o direito à educação (pg 70):


É evidente que não tenho a mínima esperança que no MEC este Estudo possa merecer a atenção que justifica. As políticas desenvolvidas e assumidas por Nuno Crato e pelo Governo são, justamente, as políticas que determinam os efeitos que este Estudo analisa e que sugere modificar.
Na verdade, "investir na educação", "diminuir o número de alunos por turma", ou "aumentar o apoio a alunos com necessidades especiais, uma área em que as medidas de austeridade  assumiram efeitos particularmente sérios", são medidas em contraciclo com os ventos que sopram da 5 de Outubro. 
Ainda que a orientação venha do Parlamento Europeu. Aqui acaba-se a postura do "bom aluno".

UM RAPAZ CHAMADO SE ELE QUISESSE

Era uma vez um rapaz chamado Se Ele Quisesse. Desde pequeno que ouvia os pais a afirmar que Se Ele Quisesse seria capaz de fazer tudo o que pediam de forma bem feita, o que nem sempre acontecia.
Quando entrou na escola dos pequenos a educadora também começou a achar que Se Ele Quisesse tranquilamente iria aprender o necessário e realizaria as tarefas com perfeição e sem dificuldades, o que nem sempre acontecia.
Posteriormente, durante o resto do tempo de escola, as conversas dos professores passavam, invariavelmente, pela afirmação de que Se Ele Quisesse não teria nenhuma dificuldade em aprender as diferentes matérias nem a apresentar bons resultados, o que nem sempre acontecia.
De facto, Se Ele Quisesse, não teria qualquer tipo de dificuldades que o impedissem de ser bem sucedido.
Lamentavelmente, nunca ninguém perguntou ao Se Ele Quisesse porque é que ele não queria. O que sempre aconteceu.

DO PÂNTANO

"Director-geral da Autoridade Tributária demite-se mas nega existência de lista VIP"

"Tribunal mantém amigo de Sócrates em preventiva"

"Tribunal da Relação coloca ex-diretor do SEF em liberdade"

"Auditoria aponta para “gestão ruinosa” de Salgado"

Só uma pequena amostra.
Esta é a pantanosa pátria nossa amada.
Até quando?

ESTUDAR COMPENSA, DEFINITIVAMENTE

"Curso superior permite ganhar até 1,7 milhões de euros a mais ao longo da vida

Cálculos pedidos pelo Conselho Nacional de Educação mostram diferenças médias de salário acentuadas entre quem é licenciado e quem se fica pelo 9º ano ou pelo ensino secundário"

Segundo um estudo do Conselho Nacional de Educação um indivíduo com formação universitária, ao longo da vida activa, ganhará mais cerca de 1,7 milhões de euros face a alguém com o 9º ano. Mesmo  comparando com o 12º ano a diferença continua muito significativa.
Estes dados, coincidentes com estudos da OCDE, acentuam, de novo, a importância da qualificação.
Acontece que, lamentavelmente, estamos a assistir a um abaixamento significativo de alunos que pretendem frequentar o ensino superior. Este trajecto traduz-se no número de candidatos ao ensino superior e também se ilustra por um trabalho da EPIS – Associação de Empresários pela Inclusão Social divulgado há meses que inquiriu  2200 alunos de 30 escolas de 11 municípios portugueses e constatou que apenas 54.5% dos inquiridos tem intenção de frequentar o ensino superior, o valor mais baixo dos 3 anos em que decorreu o inquérito. Na mesma linha, aumenta o número de alunos que pretende ficar pelo 12º, 39.5%, e dos que nem sequer pretendem passar do 9ºano, 6%. Aos dados dos alunos acresce um abaixamento das expectativas das famílias de que os seus filhos entrem no ensino superior.
Estes dados são preocupantes como várias vezes tenho aqui referido pois esta tendência vem sendo registada.
Presumo, há também indicadores nesse sentido, que as dificuldades económicas não serão alheias às intenções manifestadas. No entanto, temo que o número relativamente baixo de alunos com a intenção de adquirir formação de nível superior possa também estar ligado à perversa e errada ideia do “país de doutores” que, muitas vezes com o auxílio de uma imprensa preguiçosa e negligente, se foi instalando a propósito do número de jovens licenciados no desemprego e da conclusão de que “não vale a pena estudar”, um verdadeiro tiro no pé e que não corresponde de todo à verdade.
Em primeiro lugar, os jovens licenciados não estão no desemprego por serem licenciados, estão no desemprego porque temos um mercado pouco desenvolvido e ainda insuficientemente exigente de mão-de-obra qualificada e muitos estão no desemprego porque, por desresponsabilização da tutela, a oferta de formação do ensino superior é completamente enviesada distorcendo o equilíbrio entre a oferta e a procura.
Também não esqueço, recorrente o afirmo, que é urgente aprofundar a estruturação de percursos formativos diferenciados, nem todos têm que acabar no ensino superior, evidentemente, mas esta diferenciação na oferta formativa e na duração dos percursos de educação e qualificação não pode assentar na ideia de percurso de "primeira", para os mais dotados, e de percursos de "segunda" para os outros. Mais grave ainda é o abandono escolar sem qualificação.
É ainda importante recordar que, segundo o Relatório da OCDE, "Education at a Glance 2012", já aqui citado, a diferença salarial de jovens com licenciatura para jovens com formação a nível do secundário, é de 69 %, um bom indicador para o impacto da qualificação. Aliás, Portugal é um dos países em que mais compensa adquirir formação e qualificação.
Neste cenário e como sempre afirmo, o discurso muitas vezes produzido no sentido de que "não adianta estudar" não colhe e não tem sustentação, sendo um autêntico tiro no pé de uma sociedade pouco qualificada como a nossa.

terça-feira, 17 de março de 2015

VEMOS, OUVIMOS E LEMOS

A rotina de diariamente ler os jornais e assistir, quando a lida permite, a um noticiário televisivo deixa-me frequentemente num estado ambivalente.
Por uma lado, sinto-me "obrigado" a saber o que se passa, por outro lado, inquieta-me que, acontecendo as coisas como acontecem, com consequências negativas para muitos de nós, pareça ser tão difícil retirar efeito de aprendizagem e amanhã, no dia depois de amanhã e no dia depois do dia depois de amanhã, vamos, de novo ler as mesmas notícias, com as mesmas consequências, os mesmos protagonistas, numa estranha forma de habituação acomodada.
Entretanto, lembrei-me da Cantata da Paz, da Sophia de Melo Breyner, “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”.
Mas, como sabem, os poetas não sabem das coisas da vida, são uns fingidores. Nós, vemos, ouvimos e lemos e sempre, sempre, vamos ignorar.


A EUROPA BOA E A EUROPA MÁ

Lá da Europa chegam, por vezes, notícias curiosas.
Um estudo encomendado pela Comissão de Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos do Parlamento Europeu sobre o impacto da crise e dos programas de austeridade nos direitos fundamentais em sete países da União Europeia - Portugal, Espanha, Grécia, Chipre, Irlanda, Itália e Bélgica, concluiu que em Portugal foram afectados de forma grave alguns dos direitos fundamentais dos cidadãos.
O direito ao trabalho foi o mais afectado tendo as crianças sofrido efeitos significativos no direito à educação.
Em primeiro lugar, o estudo chove no molhado, vários outros relatórios internacionais têm sublinhado os efeitos devastadores das políticas de austeridade promovendo desemprego, pobreza e exclusão. É também conhecido em circunstâncias desta natureza os grupos mais vulneráveis, crianças e velhos, são os mais afectados.
O que parece merecer profunda reflexão é o facto de ser o Parlamento Europeu a reconhecer estes efeitos e ao mesmo tempo sabermos que a tomada de decisão sobre as políticas de austeridade envolveu também estruturas europeias para além do FMI.
Quer isto dizer que o Parlamento Europeu a única estrutura que, para o melhor ou para o pior, decorre da eleição por parte dos cidadãos dos países membros é irrelevante na decisão sobre as grandes políticas. Em boa verdade, a decisão sobre as políticas relevantes são tomadas por uma instância não eleita, composta por burocratas sem alma nem ética a mando dos mercados e, portanto, não escrutinada pelos cidadãos como é próprio das sociedades democráticas.
Aliás, esta constatação apenas demonstra o falhanço na construção da União Europeia que neste momento não passa não de um conjunto de países, divididos como sempre em pobres e ricos e em que as regras são um diktat produzido por poucos, os ricos e, cegamente, obedecido por (quase) todos os outros.
É também por isto que se verificam por grande parte da Europa os preocupantes níveis de abstenção em eleições europeias e também o desinteresse pelas “questões europeias” que desde jovens os cidadãos revelam.

O ANO DA VIRAGEM

O Presidente da República afirmou ontem em Paris que 2014 foi o ano da viragem. É certo que nos andam a dizer todos os anos que cada ano "é o ano da viragem", 2014 foi mais um.
E, de facto, os últimos anos têm sido anos de viragem, estamos de acordo.
Muitos milhares de pessoas viram as suas vidas viradas do avesso, sem trabalho.
Muitos milhares de pessoas, designadamente, jovens viraram as costa ao País por falta de futuro e procuraram o estrangeiro para se virar.
Muitos milhares tiveram, têm, que se virar para suportar uma brutal carga de impostos e cortes nos rendimentos familiares.
Por favor, não nos virem mais.

segunda-feira, 16 de março de 2015

NOTÍCIAS DO PET - CAMBRIDGE É QUEM MAIS ORDENA

"Professores estão a faltar às provas de Inglês"

Ao que parece, os professores de Inglês não estão a colaborar na PPP montada entre o MEC e a Universidade de Cambridge para a realização do PET - Preliminary English Test, muito dos nomeados "voluntários" estão a faltar às formações para que foram convocados à pressa e sem respeito pelo trabalho nas escolas e alguns outros recusam-se a realizar o inaceitável exame da Universidade de Cambridge aos seus conhecimentos de Inglês pois, entendem que são ... professores de Inglês reconhecidos e certificados pelo MEC e pelas universidades portuguesas.
O IAVE justifica-se afirmando que a certificação é uma exigência da Universidade de Cambridge que duvidará se nos outros países haverá mesmo quem seja competente como professor de inglês.
Como é habitual nas PPPs, o Estado, neste caso o IAVE, agacha-se e de cócoras acena que sim, os professores de Inglês têm de fazer um teste de Inglês porque Cambridge é quem mais ordena. 
O IAVE também recusa a ideia de estarmos perante a interferência de uma estrutura privada, afirma que Universidade de Cambridge é uma instituição centenária sem fins lucrativos. Continuo sem compreender muito bem porque razão deverá vir uma instituição privada, sim privada, pois não faz parte do sistema educativo português, certificar os nossos alunos e verificar se os nossos professores de Inglês ... sabem Inglês. 
Dir-se-á que a certificação pode constituir uma ferramenta importante mas nesse caso deveria ocorrer sem o envolvimento do MEC que ainda cobra dinheiro às famílias por uma certificação obtida no âmbito da escolaridade obrigatória em escolas públicas.
Continuam os ventos malinos a soprar sobre a educação.

A INTELIGÊNCIA DA HUMANIDADE ESTÁ A AUMENTAR. SERÁ?

"Estaremos a ficar mais espertos? QI médio aumentou 20 pontos desde 1950"



Segundo um estudo do King's College a humanidade estará a ficar mais inteligente. De acordo com a sua investigação, de 1950 para cá o Quociente de Inteligência médio mundial subiu 20% com particular significado nos países mais desenvolvidos.
Por outro lado, acontece que, de acordo com a Food and Agriculture Organiation da ONU, o mundo mais desenvolvido desperdiça anualmente um terço dos alimentos produzidos, qualquer coisa como um bilião de euros. Simultaneamente, existem outras realidades, 805 milhões de pessoas com fome e 2,5 milhões de crianças mortas anualmente por má nutrição. As perspectivas é de que a situação tenderá a agravar-se.
Será que a humanidade está mesmo a ficar mais inteligente?

DOS "JOBS FOR THE BOYS" (AND GIRLS) OU O MANUAL DO ALPINISTA

O Público de hoje traz um trabalho interessante sobre a forma como são preenchidos os lugares de chefia na administração pública ou da tutela do Estado. Apesar da existência da Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CRESAP) que com base na análise curricular prepara uma lista pequena de escolhas para os decisores, a escolha recai quase que exclusivamente em pessoas com ligações aos partidos da maioria.
Nada de estranho, evidentemente, apenas se alterna o procedimento de acordo com a alternância no Poder
Deixem-me recordar um realizado na Universidade de Aveiro, divulgado em Fevereiro de 2014, que investigou as nomeações, cerca de 11 000 em 15 anos, dos governos de diferentes cores partidárias para a hierarquia da administração pública e concluiu, de forma completamente inesperada, que o critério predominante é o cartão partidário, com o objectivo de controlar as políticas públicas e pagar ou antecipar o pagamento de favores, serviços e fidelidades.
A questão é que nas últimas décadas, temos vindo a assistir à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos uma partidocracia instalada o que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do estado. Esta teia associa-se à intervenção privada sobretudo nos domínios, e são muitos, em que existem interesses em ligação com o estado, a banca e as obras públicas são apenas exemplos. Aliás, os últimos tempos têm sido particularmente estimulantes nesta matéria.
Este cenário é desde cedo preparado e alimentado através de uma das formas mais eficazes de progressão social e profissional existente em Portugal, a pertença a uma juventude partidária, sobretudo, naturalmente, nos partidos do chamado arco do poder, veja-se quem desempenha as lideranças partidárias. Há algum tempo, também o Público fez um levantamento da rapaziada mais novinha, sem currículo relevante, académico ou profissional que enxameia gabinetes ministeriais e os números são curiosos. Como característica comum têm a pertença à "sua" jota onde desempenharam cargos que os catapultam para assessores ou deputados e são o início de uma bela e promissora carreira, numa despudorada utilização da administração pública, central, local e empresarial para a distribuição de alguns jobs para os promissores boys e girls.
A sociedade portuguesa está cheia de exemplos deste tipo de percursos nas suas diferentes fases.
Um deles é a história do meu amigo Alpinista. Nasceu numa terra pequena onde muita gente gostava de praticar a subida, na vida, é claro. Uns conseguiam subir alguma coisa, outros nem tanto, mas tinham pena.
O Alpinista, foi um rapaz discreto sem de início revelar algumas especiais capacidades ou dotes que o habilitassem ao sucesso, subir na vida. No entanto, tinha alguma capacidade discursiva, era perspicaz e assertivo, conseguia perceber sem grande dificuldade o caminho a seguir e fazia-o de forma convicta.
Durante a adolescência e olhando para o que se passava naquela terra, tudo o que era lugares importantes eram ocupados de acordo com o aparelho partidário do partido que ocupasse o poder naquela altura e verificando que outros lugares exigiriam um mérito a que ele não acederia rapidamente, decidiu-se pela via partidária. Analisou a oferta e optou pelo partido que lhe pareceu com maior probabilidade de ocupar o poder durante mais tempo inscrevendo-se na juventude partidária. Diligentemente, o Alpinista cumpria as tarefas que lhe eram cometidas e com a sua capacidade discursiva foi subindo na hierarquia, tendo chegado a um patamar que lhe garantiu um lugar nas listas de deputados em representação da juventude. Entretanto inscreveu-se numa daquelas universidades em que a exigência em certos cursos, sobretudo para figuras de algum relevo público, não é muito grande, mas que, para compensar, as notas são mais altas e passou a Dr. Alpinista. O bom desempenho no aparelho do partido e a fidelidade canina no Parlamento, levaram-no a uma irrelevante Secretaria de Estado durante alguns mandatos. A sua acção, socialmente insignificante, mas partidariamente relevante, valeu-lhe, à saída do Governo, um lugar na administração de uma empresa de capitais públicos de uma área que ignorava por completo.
Alguns anos depois, poucos naturalmente, o Alpinista reformou-se, retirando-se para uma das propriedades que faziam parte do património que entretanto tinha adquirido e dedicou-se à escrita.
O livro que produziu, autobiográfico, rapidamente se transformou num enorme sucesso, tem por título, “O Manual do Alpinista” e consta obrigatoriamente das bibliografias distribuídas nas Universidades de Verão dos diversos partidos.
Dito isto tudo e apesar disto tudo, importa sublinhar que vale a pena não esquecer que também há lugar para o mérito e qualificação em que vale sempre a pena investir.

PELA NOSSA SAÚDE

"Piorar condições de trabalho no SNS compromete a sua sustentabilidade"

No Observador

Uma vista de olhos rápida pela imprensa de hoje mostra várias referências a um Relatório da Organização Mundial de Saúde e do Observatório Europeu sobre os Sistemas de Saúde no qual constam alguns dados e preocupações sobre a saúde dos portugueses.
Alerta-se para os riscos do desinvestimento, da ausência de respostas, das dificuldades do acesso aos cuidados de saúde por parte dos grupos socialmente mais vulneráveis, de problemas específicos como os cuidados continuados ou a saúde mental.
Portugal tem uma despesa em cuidados de saúde por habitante 20% abaixo da média da União Europeia.
As taxas moderadoras, apesar de algum efeito na "utilização abusiva", inibem a "utilização" necessária e a sua existência significa os velhos "atestados de pobreza".
Nesta viagem pela imprensa uma pequena nota.
Quase todos os trabalhos têm como título a referência aos problemas, designadamente, o facto da despesa de saúde por habitante ser 20% abaixo da média da UE. No entanto, o Observador, sem que se estranhe, escolhe para título "Despesa com saúde em Portugal superior à média da OCDE". Depois lá explica que apesar da percentagem do PIB para a saúde ser superior à média, dado que em Portugal o PIB é mais baixo, resulta que a despesa por habitante sempre é 20% mais baixa que a média da UE.
Para além do exemplo da agenda do Observador o que releva é justamente o que o Relatório aponta, os riscos advindos dos cortes e degradação da prestação de serviços.
Nestas matérias sempre me recordam a afirmação de Michael Marmot, reconhecido especialista em saúde pública, que há algum tempo esteve em Portugal, "todas as políticas podem, ou devem, ser avaliadas pelos seus impactos na área da saúde."
Pela nossa saúde.

domingo, 15 de março de 2015

CRIANÇAS, EDUCAÇÃO E AUTONOMIA

Trata-se de uma pergunta sem respostas definitivas pois envolve inúmeras variáveis. Aliás, por coincidência, colaborei há tempos numa peça do DN também sobre esta temática.
Embora, como disse, a questão colocada não tenha resposta, depende, por exemplo, do contexto social e geográfico ou da maturidade da própria criança, tem subjacente uma outra matéria de natureza mais vasta e importante, a autonomia das crianças e a forma como a promovemos ... ou não.
De há muito e sempre que penso ou falo de educação me lembro de um texto de Almada Negreiros em que se afirma "... queria que me ajudassem para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si". Este enunciado ilustra, do meu ponto de vista, a essência da educação, seja familiar ou escolar, em qualquer idade.
De facto, o que se pretende num processo educativo será a construção de gente que sabe tomar conta de si própria da forma adequada à idade e à função que em cada momento se desempenha. Este entendimento traduz-se num esforço contínuo de promover a autonomia das crianças e jovens para que "saibam tomar conta de si próprios", no fundo, a velha ideia de, "ensinar a pescar, em vez de dar o peixe".
Parece-me fundamental que adoptemos comportamentos que favoreçam esta autonomia dos miúdos e dos jovens. No entanto, é minha convicção que por razões que se prendem com os estilos de vida, com os valores culturais e sociais actuais, com as alterações das sociedades, questões de segurança. por exemplo, estamos a educar os nossos miúdos de uma forma que não me parece, em termos genéricos, promotora da sua autonomia. A rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente), os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia. É neste contexto que deve ser colocada e decidida a deslocação autónoma das crianças para a escola.
Por outro lado, os miúdos são permanentemente bombardeados com saberes e actividades que serão obviamente importantes para o seu desenvolvimento e para o seu futuro mas, ao mesmo tempo, são miúdos, pouco autónomos, pouco envolvidos nas decisões que lhes dizem respeito cumprindo agendas que lhes não dão margem de decisão sobre o quê e o porquê do que fazemos ou não fazemos.  Acabam por se tornar menos  capazes de decidir sobre o que lhes diz respeito, dependem da "decisão de quem está à sua volta, companheiros ou adultos.
Um exemplo, para clarificar. Um adolescente não habituado a tomar decisões, a fazer escolhas, mais dificilmente dirá não a uma oferta de um qualquer produto ou um a convite de um colega para um comportamento menos desejável. É mais difícil dizer não do que dizer sim aos companheiros da mesma idade. Num sala de aula é bem mais provável que um adolescente tenha um comportamento adequado porque "decida" que é assim que deve ser, do que por "medo" das consequências.
Só miúdos autónomos, auto-determinados,  serão mais capazes de dizer não ao que se espera que digam não e escolher de forma ajustada o que fazer ou pensar, o que sublinha a importância de em todo processo de educação, logo de muito pequeno, em casa e na escola, se estimular a  autonomia dos miúdos.
Creio que este entendimento está pouco presente em muito do que fazemos em matéria de educação familiar ou escolar e para todos os miúdos.
Todos beneficiariam, miúdos e adultos.

VENHO DEVOLVER A CRIANÇA, NÃO ERA BEM O QUE EU QUERIA

O DN retoma hoje uma matéria que poucas vezes é referenciada na imprensa, a devolução de crianças em processo de adopção que assim voltam a ser institucionalizadas.
Segundo o Relatório Casa 2013 foram "devolvidas" 11 crianças em 2013 e os dados apontam para dez "devoluções" por ano, quase sempre dentro do período de pré-adopção.
Na verdade, os casos de “devolução" de crianças em processo de adopção são mais numerosos do que se imagina. Algumas das decisões tomadas pelos Serviços de Justiça são incompreensíveis, sobretudo se escrutinadas pelo “superior interesse da criança”.
Nos últimos anos registaram-se mais de 100 casos de crianças que foram devolvidas, isto é, viram o seu processo de adopção interrompido. Muitas destas situações deveram-se ao facto de as crianças "não corresponderem às expectativas" das famílias adoptantes.
Vejamos com mais atenção. Uma criança, por qualquer razão não tem uma família, está numa instituição, envolve-se num processo de adopção, entra numa família que entende passar a ser a SUA família, deve sentir-se num caminho bonito. Passado algum tempo é devolvida, provavelmente, sem perceber porquê e vive uma, certamente mais uma, experiência devastadora com efeitos que não podem deixar de ser significativos.
Como é evidente, admito que em circunstâncias excepcionais o processo possa ser interrompido mas, insisto, só mesmo numa situação limite depois de esgotados os dispositivos de apoio às famílias adoptantes.
A lei permite, não sei se terá sido alterada, que durante seis meses a criança possa ser devolvida, trata-se de um período de adaptação, uma espécie de contrato à experiência. O Juiz Armando Leandro presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, reconhecia há algum tempo que a devolução não tem de ser baseada em "critérios necessariamente válidos". Também há algum tempo num trabalho sobre o mesmo tema, o DN citava um caso em que uma criança foi devolvida e trocada por outra porque não se adaptava ao cão da família. Outros casos de devolução envolvem dificuldades de adaptação a outros elementos da família ou a questões económicas.
Como é de prever, os serviços procuram na fase pré-adopção prevenir situações deste tipo, embora eles continuem a ocorrer.
Voltando ao tão apregoado "superior interesse a criança", é difícil imaginar o que se passará na cabeça de um miúdo que passa anos a construir uma ideia de família, a certa altura entra numa família a que chama sua e de repente dizem-lhe que volta a estar só, na instituição, porque ... não se dá bem com o cão ou não corresponde às expectativas. Que sentirá a criança?
Porquê? Não presta? Não a querem? ...
Mas as crianças, Senhores?
Deixem-me ainda recordar uma expressão que ouvi já há algum tempo a Laborinho Lúcio num dos encontros que tenho tido o privilégio de manter com ele.
Dizia Laborinho Lúcio que "só as crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas pelos seus pais”.
Na verdade, muitas crianças não chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas. No entanto, é melhor criar uma oportunidade para que as crianças "desabrigadas" possa ser adoptadas, possam ser felizes.

A FLOR DA ESTEVA

A primeira flor de esteva deste ano aqui no Monte abriu hoje e o cheiro já está no ar. Ao cimo, as olaias também já estão em flor.
Chegou a Primavera ao Alentejo.


A PERCEPÇÃO SOCIAL DE AUTORIDADE

"Agressões a profissionais de saúde quase triplicaram em 2014"

Segundo a Direcção-Geral de Saúde, em 2014 registaram-se 477 casos de violência dirigidos a pessoal de saúde o que significa mais do que o dobro dos casos reportados em 2013, 202.
Como eventuais explicações são habitualmente referidos os potenciais efeitos que a situação de grande dificuldade e económica que atravessamos, incluindo dificuldades específicas no âmbito do SNS, que tornarão as pessoas mais stressadas, mais instáveis e agressivas.
Sem minimizar estes efeitos de natureza mais psicológica que alguns especialistas também sustentam, creio que importa reflectir numa outra perspectiva.
Em primeiro lugar sublinhar que os profissionais da saúde não são os únicos destinatários de emergentes e regulares comportamentos de agressividade. Há algum tempo representantes de forças policiais vieram a público apresentar o mesmo problema e são demasiado frequentes e graves os episódios de agressão a professores.
Por outro lado, é minha convicção que, para além dos efeitos da crise, vale a pena considerar dois aspectos que me parecem essenciais, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade, que me parecem fortemente ligados a estes fenómenos.
Uma observação minimamente atenta às mudanças sociais, culturais e económicas nas últimas décadas, permite, creio, constatar como tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os médicos e enfermeiros, entre outras profissões, professores ou polícias, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição profissional, como fontes de autoridade, como também os velhos, curiosamente. Tal processo alterou-se, a profissão ou a idade já não conferem “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de agressão. Dito de outra maneira, a identificação como médico ou enfermeiro, através da "bata", polícia com a "farda" ou professor com o "peso social" da função e da escola, já não são, por si sós, reguladores dos comportamentos. Estas mudanças implicam uma reflexão profunda, pois sendo um fenómeno "novo", não poderemos recorrer unicamente às soluções "velhas".
O segundo aspecto que me parece de considerar remete para um ambíguo e abrangente sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a "grandes", o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”. O comportamento e os episódios conhecidos envolvendo figuras de relevo político, económico e social e a sua falta de consequências são elucidativos
Considerando este quadro, parece importante um trabalho no âmbito da formação cívica sobretudo no sistema educativo apesar do MEC a desvalorizar em termos curriculares e na formação profissional dos grupos profissionais para a gestão e prevenção de situações de conflito, bem como um discurso político e social consistente de valorização da autoridade, não do autoritarismo.
Por outro lado e finalmente é ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de punição e responsabilização séria dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.

sábado, 14 de março de 2015

MAS AS CRIANÇAS, SENHORES,

"Tribunal Europeu diz que Liliana tem direito a visitar os filhos que lhe foram retirados"

As palavras de Augusto Gil de 1909 continuam e, provavelmente, continuarão a estar actualizadas.
(...)
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!
(...)

QUERIDA FAMÍLIA, AMIGOS E CONHECIDOS

A questão das agressões sexuais a crianças está na agenda devido a uma proposta do Ministério da Justiça de criar bases de dados para condenados por pedofilia e permitir o acesso a essas listas. A questão dos abusos sexuais dirigidos a crianças dado o crescente registo de casos e condenações é, evidentemente ma matéria da maior importância.
No entanto, esta proposta, a elaboração e acesso a lista de condenados por pedofilia é complexa e as experiências conhecidas noutros países em que existe tal procedimento também não são conclusivas em termos de prevenção e abaixamento da reincidência. No Público encontram-se argumentos favoráveis, de Dulce Rocha, presidente do Instituto de Apoio à Crianças ou desfavoráveis, Pinto Monteiro, antigo Procurador-Geral da República. Em ambos os argumentários encontramos reflexões pertinentes.
A proposta já foi reformulada e o acesso que pretende permitir é mais restrito e depende de autorização policial que avaliará o pedido de acesso, o que desde logo introduz uma dimensão de arbitrariedade a considerar. Apesar desta prudência, estamos em Portugal, é fácil imaginar que alguma imprensa acederá sem dificuldades às listas que colocará em manchete com riscos difíceis de prever em termos de efeitos sociais e comunitários.
De qualquer forma, creio ser consensual o entendimento de que a "explosão" do chamado caso Casa Pia colocou uma luz mais forte sobre este universo negro, os abusos sexuais sobre crianças, pelo que a comunidade parece ter ficado mais atenta. A prova desta maior atenção pode encontrar-se no facto de que a partir de 2002 ter aumentado exponencialmente o volume de denúncias e condenações. No entanto, as pessoas que conhecem este tipo de problemáticas sabem que o volume de denúncias é apenas uma parte das situações de abuso.
Acontece ainda que os estudos conhecidos mostram que a maioria dos casos de abuso sexual sobre crianças e adolescentes envolvem familiares, amigos ou conhecidos das crianças ou famílias, além dos casos, em menor número, registados em instituições ou perpetrados por estranhos.
Neste contexto e para além de aspectos como a moldura penal para estes crimes, que muitos entendem ser excessivamente ligeira ou a existência nas esquadras policiais de uma lista de pessoas condenadas por pedofilia acessível mediante requerimento a pais e disponível a estruturas que lidam com crianças importa uma permanente atenção às crianças e aos sinais que transmitem.
Apesar das mudanças verificadas em termos legais e processuais, a fragilidade ainda verificada, na criação de uma verdadeira cultura de protecção dos miúdos leva a que muitos estejam expostos a sistemas de valores familiares que toleram e mascaram abusos com base num sentimento de posse e usufruto quase medieval. Muitas crianças em situação de abuso no universo familiar ou por pessoas conhecidas ainda sentem a culpa da denúncia das pessoas da família ou amigos, a dificuldade em gerir o facto de que pessoas que cuidam delas lhes façam mal e a falta de credibilidade eventual das suas queixas bem como das consequências para si próprias, uma vez que se sentem quase sempre abandonadas e sem interlocutores em que possam confiar ou ainda o medo das consequências da denúncia.
A este cenário acrescem os riscos que as novas tecnologias vieram introduzir, sendo conhecidos cada vez mais casos em que a internet é a ferramenta utilizada para construir o crime.
Neste quadro, para além da eficiência do sistema de justiça relativamente aos abusos sexuais de menores, continua a ser absolutamente necessário que as pessoas que lidam com crianças, designadamente na área da saúde e da educação, sejam capazes de “ler” os miúdos e os sinais que emitem de que algo de menos bom se passa com eles. Em diferentes áreas, aliás.

sexta-feira, 13 de março de 2015

A PRODUTIVIDADE DA PSP

"Polícias vão receber bónus por multas e detenções"
Esta gente ensandeceu de vez. O Governo colocou em discussão na PSP uma proposta que atribui incentivos, compensações monetárias, formação suplementar ou mais dias de férias aos agentes que procedam a mais detenções e apliquem mais multas.
A ideia é aumentar a produtividade.
É extraordinário.
Os sindicatos manifestam-se contra o que, evidentemente, revela bom senso e o sentido cívico e ético que o Governo parece desconhecer.

DA AVALIAÇÃO DAS ESCOLAS

Luís Capela, inspector-geral de Educação e Ciência, divulgou hoje em Coimbra que em breve será aprovado um diploma relativo à avaliação externa das escolas que, entre outras aspectos, contemplará a observação de aulas e estender-se-á aos estabelecimentos do ensino particular e cooperativo.
A observação de aulas é um aspecto importante, habitualmente envolto em polémica designadamente no âmbito da avaliação dos professores. No entanto, no quadro da avaliação das escolas Portugal era de acordo com um recente relatório da rede Eurydice, "Assuring Quality in Education — Policies and Approaches to School Evaluation in Europe" um dos três países em que não existe.
É de registar que o MEC promove uma sinistra PACC para avaliar Conhecimentos  e Capacidades para o acesso à carreira de professor sem considerar como elemento avaliativo o trabalho em sala de aula mas entende que para avaliar uma escola tal é necessário. Cratinices, enfim.
Por outro lado, regista-se a intenção de que o ensino privado seja sujeito aos dispositivos de avaliação externa.
Não conhecemos, evidentemente, os conteúdos do futuro diploma mas aguarda-se o que em matéria de autonomia das escolas tal possa ser contemplado. A autonomia das escolas está sob ameaça no movimento de municipalização da educação não passa de "uma espécie de autonomia".
A avaliação é, seguramente, uma ferramenta de promoção e regulação da qualidade do trabalho desenvolvido o que a torna imprescindível nos vários patamares do sistema. Em Portugal, no universo da educação, a avaliação, seja de alunos, de professores ou das escolas tem sido um  terreno de enorme instabilidade e conflitualidade, seja pela incoerência e incompetência de diferentes iniciativas do MEC, seja pela contaminação da normal conflitualidade destas matérias pelos interesses conjunturais da partidocracia, traduzidos numa volatilidade espantosa de mudanças e alterações que nem tempo têm se ser avaliadas antes de ser novamente ... alteradas e sempre recebidas reactivamente.
Gostava também que o novo quadro normativo pudesse desburocratizar a forma como a  avaliação interna e externa é realizada, altamente burocratizada, solicitando uma carga enorme de informação, extensa, redundante e parte dela inútil, da forma que é requerida. A produção desta informação consome centenas de horas de trabalho a muitos docentes roubadas à essência do seu trabalho.
O nível de informação solicitada e as regras impostas de funcionamento e organização mostra, de facto, um sistema altamente centralizado, burocratizado e com a tentação de manter um controlo absoluto sobre a organização e funcionamento das escolas.
A minha experiência em processos desta natureza, como membro de Conselhos Gerais, incluindo escolas com contrato de autonomia, é elucidativa.
No último caso, o volume de informação produzido por exigência do quadro normativo global e do contrato de autonomia ocupava um espaço virtual de 4 MB para ser analisado na reunião do Conselho Geral. É obra e o problema é que tinha pouco de virtual e ... eficiente.
O desgaste e desperdício de tempo e esforço investidos na produção desta informação que, sendo lida algures no MEC também implicará mais uma enorme carga de trabalho mas que alimenta a máquina, não podem deixar de ter custos significativos na qualidade do trabalho das escolas.
A avaliação, sendo imprescindível na promoção da qualidade é tanto mais eficaz nessa função quanto mais competente e simples possa ser.
A questão é que, como dizia o Mestre João dos Santos, o mais difícil em educação é trabalhar de uma forma simples.

O IAVE NÃO SABIA QUE AS PROVAS NÃO DEVEM TER ERROS E DIZ QUE NÃO É PERFEITO

"Professores afirmam que IAVE publicou exemplos de questões da PACC com erros"

Como já tinha sido noticiado nos blogues e agora chega na imprensa generalista, o Instituto de Avaliação Educativa colocou na sua página uma prova exemplo da prova específica de Física e Química integrante da sinistra PACC  com erros. A prova exemplo foi entretanto retirada e substituída por uma correctamente elaborada.
Ao que consta, o Conselho Directivo do IAVE terá declarado que não sabia que a prova não deveria ter erros. Afirmou também que o IAVE não é perfeito e que já corrigiu os erros. Finalizou afirmando que não vê a sua autoridade moral minimamente beliscada.
Nuno Crato apreciou a forma exemplar como o IAVE reagiu seguindo o bem sucedido script de Passos Coelho.
O CDS afirmou em comunicado que a culpa foi dos computadores, Marco António afirma que não se passou nada, apenas mais uma invenção de quem não tem ideias, e António Costa diz que é contra a valorização de casos. BE, PCP e Verdes pediram a demissão de Passos Coelho.
O Presidente da República afirmou que um Presidente da República não se envolve na luta político-partidária e muito menos em questões de Física e de Química, é mais diplomacia, por assim dizer.

AFINAL O CONSENSO É POSSÍVEL

"Maioria e PS chumbam exclusividade e rotatividade dos deputados"

Como assim se prova é possível estabelecer um consenso que envolva os partidos do chamado arco da governação. Tal acontecimento deverá deixar o Presidente da República muito satisfeito.
A maioria parlamentar e o PS chumbaram uma proposta que obriga ao regime de exclusividade dos deputados e à rotatividade no exercício da função.
Continua em aberto a possibilidade de acumulação e o envolvimento em promíscuos jogos de interesses bem como a eternização dos mandatos a mando dos aparelhos. Está certo, também não estanhamos.
É sempre bom saber que nas grandes causas os partidos entendem-se.
A austeridade, antes de chegar à vida da maioria das pessoas, atingiu a ética de boa parte da nossa classe política.

quinta-feira, 12 de março de 2015

A LER - O TEXTO DE ANTÓNIO NABAIS

"Perigo no exame de Português de 12.º: o acordo ortográfico"

Muito interessante o texto de António Nabais sobre a penalização nos exames à escrita desacordada, não respeitante do Acordo Ortográfico de 1990.
No entanto e lamentavelmente, as expectativas sobre a alteração da posição do Governo relativa ao atentado à Língua Portuguesa são residuais.

O ALARME SOCIAL E O ACORDO ORTOGRÁFICO

"Acordo Ortográfico e Exames: IAVE preocupado com "alarme social""

O Conselho Directivo do Instituto de Avaliação Educativa expressa alguma preocupação com o "alarme social" provocado pelas referências à penalização que os alunos podem sofrer nos exames nacionais por escreverem sem respeitar o Acordo Ortográfico de 1990. Apesar de reconhecer que poderá ser atingida um penalização de 4 valores (em 20), faz umas contas, (são peritos) e entende que a penalização média será baixíssima.
Confesso que estou bastante mais preocupado com o alarme social provocado pela teimosia, insensibilidade e desrespeito que o Governo demonstra perante o atentado que o Acordo Ortográfico representa contra a Língua Portuguesa.

DOS TELHADOS DE VIDRO

Os telhados de vidro aconselham prudência ...

"Quando o PS não incomoda Passos"

nunca se sabe o que poderá vir a seguir.

VOLTARÃO UM DIA ... OU NÃO

"Governo aprova VEM, um programa para apoiar regresso de emigrantes"

O Geniozinho Pedro Lomba, Secretário de Estado Adjunto do Génio Poiares Maduro, Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional, vem dar uma prova de vida apresentando mais uma genial ideia, um programa de incentivo ao regresso de portugueses que estão fora e desempregados, oferecendo uns estágios e uma verba para se lançarem à vida, chama-se empreendedorismo emigrante.
Este pacote mudou um pouco o público alvo das geniais ideias do Dr. Lomba para trazer gente de fora. Até aqui insistia na captação de imigrantes qualificados para o nosso país. Depois de já ter anunciado a facilitação do processo de reconhecimento das qualificações afirmava a necessidade de continuar a atrair os "dois fluxos que têm aumentado nos últimos dois/três anos" - estudantes estrangeiros e reformados do norte da Europa.”
Há já alguns meses o Geniozinho Pedro Lomba, Secretário de Estado Adjunto do Génio Poiares Maduro, Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional, propôs a atribuição ao Alto Comissariado para a Imigração e o Diálogo Intercultural a função de aliciar estrangeiros "de elevado potencial" a vir para Portugal, incluindo estudantes e reformados.
É evidente que a vinda de gente qualificada seria uma mais valia para nós. No entanto, talvez seja de relembrar que em 2013 terão partido mais de 120 000 pessoas que não percebem um futuro em Portugal e que este movimento migratório continua. Relembrar ainda que, a par da Irlanda, somos o país de onde sai gente com maior qualificação o que exige ainda maior reflexão pelas consequências previsíveis, estimando-se em 100 000 os jovens altamente qualificados, que estão a sair do país, emigrando para outras paragens o que tem um custo brutal, avaliado em cerca de 2 700 milhões de euros, 1,57 % do PIB.
Talvez tenhamos que esquecer essa gente que partiu, se não querem ficar cá, que partam e sejam felizes, como o povo diz, "só faz falta quem está". O futuro está em "aliciar" estrangeiros de "elevado potencial" e capacidade empreendedora ou estudantes e reformados.
É na verdade genial, deixamos que os nossos mais qualificados partam sem futuro por cá e vamos "aliciar" alguns de fora para vir. E que tal investir nas condições para que se realize por cá o futuro dos que por ausência de esperança e condições partem? Alguns, provavelmente, não voltarão.
Agora, pensa nos desempregados portugueses que estão no estrangeiro e apresenta uma medida que me faz recordar o cheque-bebé do Governo Sócrates e que, muito provavelmente, uns estágios que bem sabemos como são usados frequentemente em Portugal, promoção da precariedade e tornar mais simpáticas as estatísticas do desemprego e uma verba para empreendimento que, muito provavelmente, terá impacto zero ou quase tal como a medida de Sócrates para promover a natalidade.
Este homem, Pedro Lomba, é um desperdício como Adjunto.

CARTAS E POSTAIS

"Cartas e bilhetes ainda se usam. Quer ajuda para os escrever?"

As cartas e postais de natureza pessoal, lamentavelmente em vias de extinção, são bastante mais inteligentes que os e-mails, não estão sujeitas a infecções virais, a "forwards" tontos e impessoais e à complementar praga de "junke" e-mail. São os carteiros que as trazem e que, em muitos locais, mais do que imaginamos quando vivemos em zonas urbanas, conhecem os destinatários e prestam um serviço que é bem mais do que a entrega de correspondência.
Isto deve ser mesmo conversa de velho mas ... e se voltássemos a escrever, por exemplo, cartas e postais de amor à mão.


quarta-feira, 11 de março de 2015

A HISTÓRIA DO TÍMIDO

Era uma vez um rapaz chamado Tímido. Desde pequeno que era discreto, por assim dizer, sem grandes falas, apenas o necessário, sempre no seu canto, umas vezes a observar, outras entretido com desenhos ou com letras.
Pouco disposto para as brincadeiras que o pessoal da sua escola organizava, os colegas do Tímido também se habituaram ao seu jeito, estava por perto mas sem grandes diálogos. Cumpria as suas tarefas de forma tranquila e voltava ao mundo das letras e dos desenhos.
Um dia, encontrou um amigo de quem gostou a sério. Era tão calmo quanto o Tímido quisesse, falava quando o Tímido queria que falasse, mostrava o que o Tímido queria ver, ensinava o que o Tímido queria saber, sempre que o Tímido queria o seu amigo estava por perto, o amigo não inquiria permanentemente o Tímido sobre o porquê dos seus comportamentos, enfim, o Tímido tinha encontrado o amigo ideal, tornaram-se praticamente inseparáveis.
Chamava-se Computador. Havia um pequeno problema, os pais do Tímido não gostavam do amigo do filho. É natural, os pais nunca gostam de quem lhes leva os filhos.

TROCA-TINTAS

"Passos poderá ter estado oito anos sem pagar contribuições e não cinco"

Nos meus tempos de gaiato, a avó Leonor, uma das mulheres mais fantásticas que conheci, com a mais-valia de ser minha, a minha avó, quando nós caíamos em alguma asneira e tentávamos as esfarrapadas desculpas que a imaginação, ou a falta dela, ditavam ou ainda, quando as pequenas ou grandes mentiras não saíam bem, tentava compor um ar severo, desmentido por uns olhos claros infinitamente doces, e dizia, “não sejam troca-tintas”.
Não me lembro se alguma vez lhe perguntei se sabia a origem da expressão, mas nestes tempos que vamos vivendo, com esta gente que de há décadas vai ocupando as lideranças sociais, politicas e económicas, lembrei-me da avó Leonor e dos troca-tintas.
Terra de troca-tintas.