sábado, 21 de fevereiro de 2026

MAIS UM NOVO PROJECTO

 No Público encontram-se duas peças dedicadas a um novo projecto da Fundação Gulbenkian na área da educação, o Gulbenkian Aprender.

O projecto investirá 3,4 milhões de euros no apoio a cerca de 400 alunos da região do Tâmega e Sousa. Estes alunos serão apoiados através de múltiplas intervenções e acompanhados do 5.º ao 12.º ano.

Os alunos participantes terão de ser beneficiários de um dos escalões do da Acção Social Escolar e serão as escolas a definir quem integra o Projecto.

Pretende-se criar a oportunidade que as condições sociais destes alunos dificultam de construir um trajecto educativo bem- e económicas sucedido.

Lembrei-me de José Afonso, “seja bem-vindo quem vier por bem”, e registo e saúdo todas as iniciativas que possam contribuir para minimizar ou erradicar problemas ou dificuldades, mas já me falta convicção no impacto do modelo frequentemente seguido.

Para cada constrangimento ou dificuldade percebida nas e pelas escolas e com regularidade, aparece vindo de fora ou gerido de fora, um Plano, um Projecto, um Programa, uma Iniciativa, as combinações são múltiplas, destinado a essa problemática.

Durante as últimas décadas, perco a conta a planos, projectos, programas, experiências inovadoras que chegaram às escolas para combater o insucesso ou, pela positiva, promover o sucesso, promover a leitura e escrita, promover a matemática, promover a educação científica, promover a educação inclusiva, erradicar ou minimizar o bullying, a relação entre escola e pais e encarregados de educação, promover a expressão artística e a criatividade, promover comportamentos saudáveis, a cidadania, o ambiente, actividades desportivas, literacia financeira e outras, promover a inovação e as novas tecnologias, para não falar de iniciativas mais "alternativas", por assim dizer, e que têm poderes mágicos, parece. A lista enunciada é apenas exemplificativa.

Com demasiada frequência muitos destes projectos vêm de fora das escolas, as origens são variadas, não chegam a envolver a gente das escolas, esmagada pelo trabalho, burocracia e outros constrangimentos como, por exemplo, assegurar da melhor forma possível o dia-a-dia do trabalho educativo que tem de ser realizado.

Aliás, Pedro Cunha, coordenador do Gulbenkian Aprender sublinha a ideia de que "Temos de assumir frontalmente que a escola não pode tudo".

Também com demasiada frequência muitos destes projectos morrem de “morte matada” ou de “morte morrida”, não são avaliados de forma robusta e dão umas fotografias ou vídeos que compõem o portfólio dos organizadores e proporcionam uma experiência que se deseja positiva aos intervenientes no tempo que durou, mas sem impacto significativo na comunidade.

Todavia, preciso de afirmar que muitos destes Planos, Projectos, Inovações, etc. dão origem a trabalhos notáveis que, também com frequência, não têm a divulgação e reconhecimento que todos os envolvidos mereceriam.

Não tenho dúvidas que também este projecto da Gulbenkian terá bons resultados e umas centenas de crianças e jovens chegarão a um patamar que sem estas condições seria extremamente difícil. Fico satisfeito com isto, mas …e os outros?

Também demasiadas vezes estas iniciativas consomem recursos com baixo retorno e ao serviço de múltiplas agendas.

Ponto.

Na linha da afirmação de Pedro Cunha, tenho para mim, que não podendo a escola responder a todas as questões que afectam quem nelas passa o dia poderia, ainda assim, fazer mais se os investimentos feitos no mundo à volta da escola e que lhe vem bater à porta com propostas fossem canalizados para as escolas. Sim, não esqueço a questão crítica da falta de professores, mas também ela surge por incompetência das políticas públicas de educação que os responsáveis teimam em branquear

Com real autonomia, com mais recursos e com modelos organizativos mais adequados as escolas poderiam fazer certamente mais e melhor que quem vem de fora numa passagem transitória, mais ou menos longa, mas transitória. Sim, tudo isto deveria ser objecto de escrutínio, regulação e avaliação também externa, naturalmente.

Escolas com mais auxiliares, auxiliares informados e formados podem ter um papel importante em diferentes domínios.

Directores de turma com mais tempo para os alunos e menos burocracia poderiam desenvolver trabalho útil em múltiplos aspectos do comportamento e da aprendizagem.

Psicólogos e outros técnicos em número mais adequado, o que se verifica é inaceitável, poderiam acompanhar, promover e desenvolver múltiplas acções de apoio a alunos, professores, técnicos e pais.

Mediadores que promovessem iniciativas no âmbito da relação entre escola, pais e comunidade seriam, a experiência mostra-o, um investimento com retorno.

São apenas alguns exemplos de respostas com resultados potenciais com um custo que talvez não seja superior aos custos de tantos Projectos, Planos, Programas ou Iniciativas Inovadoras destinadas a múltiplas matérias e com custos associados de “produção” que já me têm embaraçado, mas a verdade é que as agendas e o marketing têm custos.

Na verdade, a “Projectite”, sobretudo vinda de fora, é uma opção com pouco potencial apesar, insisto, das boas experiências que felizmente também existem e que também desejo que seja o Gulbenkian Aprender.

A escola não consegue fazer tudo, mas as políticas públicas não são só escola e os projectos de vida bem-sucedidos para cada criança desenvolvem-se e assentam na diversidade, competência e coerência das políticas públicas de diversas áreas e dos objectivos que pretendem atingir.

É “só” isso que falta e fazer melhor não é uma impossibilidade.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

DOENÇA MENTAL E DESINSTITUCIONALIZAÇÃO

 Há uns dias, o Público noticiava que em cinco anos foram propostas 388 vagas para a desinstitucionalização de pessoas com doença mental.

Trata-se de um processo financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) definindo a construção de 500 respostas faseadas durante três anos, as primeiras 100 em 2022, 300 no ano seguinte e outras 100 respostas em 2024. No entanto, a abertura do concurso só se verificou em Fevereiro de 2025 e os prazos para novas respostas foram sendo prolongados para final de Outubro passado.

A idade e algum conhecimento foram criando em mim e sem que disso me orgulhe algum cepticismo relativamente à mudança significativa nas políticas públicas de diversos domínios. É verdade, reconheço, que algumas alterações se vão verificando ainda que longe do necessário, mas sempre apresentadas envolvidas em inovação, novos paradigmas, projectos, etc. No entanto, sempre me animo com o vislumbre de uma hipótese de mudança.

Uma das áreas mais necessitadas de alterações significativas e urgentes será a saúde mental, que, aliás, sempre tem sido o parente pobre das políticas de saúde.

Em 2023 foi publicada em DR a nova Lei da Saúde Mental com entrada em vigor em Agosto e contaria com verbas do PRR que referi acima.  No entanto, já na altura, Miguel Xavier, coordenador das políticas de saúde mental, entende ser claramente insuficiente.

A nova lei determinava com clareza um trajecto de desinstitucionalização das resposta em saúde mental o que na altura registei.

A nova lei define no Artº 4 os fundamentos da Política de Saúde Mental:

“1 - a) A prestação de cuidados de saúde mental centrados na pessoa, reconhecendo a sua individualidade e subjetividade, necessidades específicas e nível de autonomia;

b) A prestação de cuidados de saúde mental no ambiente menos restritivo possível, devendo o internamento hospitalar ter lugar como medida de último recurso;

c) A prestação de cuidados de saúde mental assegurada por equipas multidisciplinares habilitadas a responder, de forma integrada e coordenada, às diferentes necessidades de cuidado das pessoas;

d) O acesso de todas as pessoas, em condições de igualdade e de não discriminação, a cuidados de saúde mental de qualidade e no tempo considerado clinicamente aceitável;

e) A existência de serviços de saúde mental coordenados, abrangentes e integrados de forma a assegurar a proximidade e a continuidade de cuidados;

f) A garantia da equidade na distribuição de recursos afetos à saúde mental e na utilização de serviços de saúde mental e a adoção de medidas de diferenciação positiva.

2 - A abordagem de saúde pública para a saúde mental assegura a sua promoção e o bem-estar da pessoa, os cuidados de saúde, a residência e o emprego, em paralelo com a com a prevenção das doenças e o seu tratamento em todas as fases da vida”

Era, finalmente, uma excelente base de trabalho, o problema, como sempre será a sua operacionalização.

Sublinhei na altura a clara opção por respostas de proximidade como alternativa às respostas institucionalizadas faz parte de há muito das recomendações internacionais. Em 2019 o Conselho para os Direitos Humanos da ONU sublinhava a necessidade de uma fortíssima e urgente alteração no modelo de resposta em saúde mental, de recorrer menos à institucionalização e à medicação e mais a uma abordagem de natureza social com particular atenção a fenómenos como pobreza desigualdade e exclusão que alimentam discriminação.

No que a nós respeita, segundo o Relatório do programa da União Europeia "Joint Action on Mental Health and Well-being" divulgado em 2015, Portugal estava muito longe do desejável no que respeita à prestação de cuidados no domicílio e serviços na comunidade a pessoas com doença mental. Estima-se que menos de 20% dos doentes tenha acesso a este tipo de cuidados.

A ausência de respostas adequadas leva a um recurso excessivo à prescrição de psicofármacos mesmo em situações não justificadas como tem sido recorrentemente demonstrado.

Parece claramente mais ajustada a aposta em equipas comunitárias e apenas um número reduzido de camas para situações mais críticas de adultos ou crianças para as quais faltam de facto, camas levando ao seu inaceitável internamento em serviços para adultos.

Na verdade, as orientações actuais e matéria de saúde mental, quer do ponto de vista científico, quer do ponto de vista dos custos, determinam que a qualidade e eficácia deste tipo de apoios, deve, tanto quanto possível, assentar em estratégias de proximidade, aproximando, assim, o serviço clínico da comunidade e da vida quotidiana das pessoas.

Os modelos defendidos pela comunidade científica actual, a defesa dos direitos humanos e da qualidade de vida, tornaram insustentável a manutenção das grandes instituições psiquiátricas que encerravam muitas câmaras de horrores e casos de isolamento e privação. Ainda me lembro do incómodo causado por visitas realizadas no início da minha formação ao Hospital Júlio de Matos. Este universo é bem retratado no mítico “Jaime” de António Reis e Margarida Cordeiro.

No entanto, este movimento de retirada das pessoas com doença mental das grandes instituições precisa de um suporte adequado e suficiente de unidades locais que providenciem apoio terapêutico, social e funcional tão perto quanto possível das comunidades de pertença dos doentes e com o mínimo recurso ao internamento que agora, quero acreditar, poderão mesmo realidade.

A sua não existência cria sérios obstáculos aos processos de reabilitação e inserção comunitária acentuando ou mantendo os fenómenos de guetização das pessoas com doença mental e respectivas famílias.

Não estranho, os doentes mentais são os mais desprotegidos dos doentes, pior, só os doentes mentais idosos. Os custos familiares e sociais desta guetização são enormes e as consequências são também um indicador de desenvolvimento das comunidades.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

TENS DE SER UM CRISTIANO RONALDO

 No DN encontra-se uma peça que justifica leitura e reflexão. Reflecte sobre a forma como muitas famílias olham para a prática desportiva dos filhos, designadamente o futebol.

Antes de mais, devo afirmar que desde muito pequeno e até os joelhos aguentarem tive sempre uma enorme paixão por jogar futebol que continuo a sentir agora apenas como espectador ou a trocar umas bolas com os meus netos que, no entanto, estão mais virados para o basquetebol qua praticam com muito gosto.

Na peça é referida e analisada a forma como muitos pais se excedem na pressão que criam sobre o desempenho dos miúdos. Como refere Jorge Silvério, “Muitas vezes o sonho é mais dos pais do que dos próprios atletas” e “o futebol juvenil deixou há muito de ser apenas uma atividade extracurricular. Tornou-se um projeto familiar — emocional e financeiro”. A questão é que “Os estudos apontam que mais ou menos 1% dos jovens consegue chegar a outras possibilidades no futebol. O que quer dizer que é extremamente reduzido”, afirma. “Mas a ênfase é muito posta em lutar por esse objetivo e falta depois acompanhamento quando esses atletas são dispensados.”

Neste contexto os riscos de mal-estar e decepção são elevados e muitos jovens e famílias passam por situações complicadas.

Importa, pois, alguma moderação nas expectativas que se criam e alimentam.

Esta peça do DN recordou-me uma situação a que assisti há já uns anos um parque e que aqui divulguei. Já naquela altura sugeria o que agora se verifica de uma forma bem mais “dura”.

Actores principais - Pai e filho com uns 6 ou 7 anos

Actores secundários - A mãe que entre chamadas no telemóvel grita incentivos para o filho

Cenário - uma zona relvada com dois pinos colocados de forma a simular uma baliza.

Assistentes discretos - o escriba

Guião - O pai ensina o filho a dar pontapés numa bola de futebol em direcção à baliza dos pinos

Cena e diálogo (reconstruído a partir de excertos ouvidos pelo escriba)

O pai apontando para uma zona do pé do miúdo que tem botas de futebol calçadas - Já te disse que é com esta parte do pé que tens de acertar na bola, vê se tomas atenção.

O miúdo em silêncio faz mais uma tentativa que não sai muito bem, não acerta na baliza.

O pai - Assim não vale a pena, não fazes como te digo, tens que estar concentrado, (aqui lembrei-me do Futre, um homem concentradíssimo e, certamente por isso, um grande jogador).

O filho - Mas eu dei com esta parte.

O pai - És parvo, se tivesses dado com essa parte a bola tinha ido para a baliza. Faz outra vez.

O miúdo com um ar completamente sofredor executa o que em futebolês se chama o gesto técnico e a bola teimosamente voltou a não sair na direcção desejada.

O pai - Pareces burro, se queres ser jogador de futebol, tens que te aplicar, (será que o miúdo quer mesmo ou será o pai que quer viver um sonho que foi dele e que agora cobra no filho?).

O miúdo, desesperado, sentou-se no chão com ar de quem espera o fim do jogo.

O pai, irritado, mandou a bola para longe com um forte pontapé.

O escriba pensou que se o árbitro tivesse visto, o pai merecia um cartão por comportamento incorrecto.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

E DEPOIS DOS 18 ANOS?

 É impossível ler sem um sobressalto de inquietação uma peça no JN relativa aos muitos alunos com necessidades especiais, sim, com necessidades especiais que aos 18 anos terminam a escolaridade obrigatória e têm … nada à sua frente.

De facto, milhares de jovens com deficiência estão em lista de espera para um lugar num Centro de Actividades de Capacitação e Inclusão (CACI). Alguns Agrupamentos escolares aceitam a matrícula de jovens até aos 21anos, mas existem situações de jovens em lares de idosos e pais que deixam de trabalhar para ficar em casa com os filhos.

Considerando as 54 organizações da Confecoop existirão cerca de 2500 jovens em lista de espera e algumas instituições a lista de espera é superior a 100. Acresce que a este tipo de resposta é duradora pelo que a libertação de vagas é lenta.

A entrada em vigor da portaria que regula os CACI tem sido sistematicamente prorrogada desde 2012  e o vice-presidente da Confecoop, Joaquim Pequicho, sublinha a necessidade de flexibilizar a lei para rentabilizar a rede e os recursos existentes promovendo a integração de jovens em experiências profissionais e em actividades fora dos Centros.   

Estes jovens terão passado ao longo do seu trajecto educativo no cumprimento da escolaridade obrigatória por experiências de sucesso independentemente do seu perfil de competências, felizmente que assim é.

No entanto, para muitos o período que se segue é um enorme túnel no qual poucas vezes se vislumbra uma luz, sobretudo em situações com problemáticas mais severas. Desculpem a insistência e a repetição ... mas é necessário.

O número de alunos com necessidades especiais que transita para o superior tem aumentado, mas a percentagem é ainda muito baixa. Considerando o ano de 23/24, apenas 14% das vagas do contingente especial para estes alunos foi ocupada.

Se a estes dados acrescentarmos que a taxa de desemprego na população com deficiência é estimada em 70-75% e que o risco de pobreza é 25% superior à população sem deficiência e que Portugal se orgulha de ter cerca de 98% dos alunos com NEE a frequentar as escolas de ensino regular no período de escolaridade obrigatória, temos um cenário que nos deve merecer a maior atenção.

Como tantas vezes tenho dito, aqui e nos espaços de contextos da lida profissional, a questão da presença dos alunos começa no que é feito no ensino básico e secundário, e existe muita matéria para reflectir e sobre as mudanças necessárias.

Por outro lado, é fundamental que com clareza, sem ambiguidades ou equívocos se entenda que após a escolaridade obrigatória os jovens, os jovens, têm três vias disponíveis: formação profissional, formação escolar (ensino superior) ou mercado de trabalho (trabalho na comunidade que pode ter uma dimensão ocupacional ou mesmo de âmbito terapêutico e institucional em situações mais graves mas menos frequentes).

A realidade mostra que os jovens com necessidades especiais estão significativamente arredados destas vias e, voltamos ao mesmo, em muitas circunstâncias ao abrigo de práticas e modelos de resposta sob a capa da … inclusão. Muitos deles ficam entregados (não integrados) às famílias, o que alguém já designou como Ministério Casa, ou encaminham-se para instituições onde, apesar de algumas experiências muito positivas interessantes, se recicla a exclusão ainda que ao abrigo da inclusão. Como se verifica, mesmo o acesso a instituições nem sempre fácil.

Esta dificuldade de acesso envolve quer a resposta no âmbito da formação profissional, quer no apoio a situações com problemáticas mais severas.

Desculpem a enésima repetição, mas um processo de inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.

As pessoas com NEE de diferente natureza depois dos 18 anos devem ser, estar, participar e pertencer aos contextos que todas as outras pessoas com mais de 18 anos estão. As instituições ou voltar para a família será sempre um recurso e muito bem regulado e apoiado, nunca uma via.

É também claro que no âmbito do ensino superior importa que se proceda a ajustamentos de natureza diversa, atitudes, representações e expectativas, oferta formativa, custos, acessibilidades e apoios ou, aspecto fundamental, promover melhor articulação com o ensino secundário.

As questões mais complexas decorrem, os estudos e a experiência sugerem-no, das barreiras psicológicas e das atitudes, pessoais e institucionais, seja de professores, direcções de escola, da restante comunidade, incluindo, naturalmente, professores do ensino básico e secundário e de "educação especial", técnicos, os alunos com necessidades especiais e famílias.

Também é minha convicção de que as preocupações com a frequência do ensino superior por parte de alunos com necessidades especiais é fundamentalmente dirigida aos alunos que manterão as capacidades suficientes para aceder com sucesso à oferta formativa tal como ela existe. Estou a referir-me, evidentemente, aos alunos que não têm “diagnóstico” de problemas de natureza cognitiva.

No entanto, como tantas vezes digo, esta preocupação deveria ser mais alargada, estamos a falar de inclusão. Sim, frequentar o ensino superior onde estão jovens da sua idade e em que a oferta formativa se for repensada e a experiência de vida proporcionada podem ser importantes.

Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências noutras paragens, mas também por cá mostram que não é utopia.

O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.

Eu já disse e escrevi isto várias vezes e em múltiplos contextos e ocasiões. Peço desculpa, mas continuarei a fazê-lo.

Os velhos são teimosos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

PARTIU JOÃO GOMES-PEDRO

 Partiu João Gomes-Pedro. O Professor João Gomes-Pedro foi durante décadas, e continuará a ser, uma referência maior para o universo de quem lida com crianças, jovens e famílias.

Com uma dimensão humanista que nos inspirou, foi sempre um defensor intransigente dos direitos das crianças e das famílias. Para além da prática médica, do ensino, da investigação e produção científicas de uma solidez notável é também de sublinhar a sua estatura ética e a intervenção social.

Tive o privilégio de ao longo da minha carreira diversas vezes me cruzar com o Professor Gomes-Pedro e cada encontro, cada conversa, foi aprendizagem e  reconhecimento da dimensão da sua Pessoa. Era um Mestre e os Mestres continuam connosco.

Fundou em 2010 criou em Portugal a Fundação Brazelton/Gomes-Pedro para as Ciências do Bebé e da Família que se dedica à formação, divulgação e investigação no universo da criança e das famílias e do seu bem-estar.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

AS PESSOAS SEM-ABRIGO

É claro que não é por muito falar dos problemas que eles se resolvem ou minimizam. No entanto, também me parece que não insistir pode contribuir para uma menor atenção a situações muito séria e atentatórias dos direitos das pessoas. É o caso das pessoas em situação de sem-abrigo, uma situação que nos deveria envergonhar como comunidade, sendo o desemprego e a precariedade laboral as principais causas. Talvez este dado seja de ter em conta na discussão em aberto relativa à alteração das leis laborais.

Assim, a propósito da notícia de que o coordenador da Nova Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem Abrigo 2025-2030 pediu para sair, voltemos a insistir.

Dados da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), referem a existência de mais 14.400 pessoas estavam em situação de sem-abrigo no final de 2024. Verifica-se um aumento 1348 casos de pessoas nesta situação.

Em Lisboa e no Porto a situação mais prevalente é situação de sem-abrigo entre um ano e menos de cinco. No Algarve 36% das pessoas vivem nesta situação há um ano ou menos e em 29% dos casos este período é desconhecido o tempo em que estão sem-abrigo.

É relevante que 345 pessoas tenham deixado a situação de sem-abrigo em 2024, a maioria na região Norte, 444, e na Área Metropolitana de Lisboa, 314. É uma subida relativamente aos dados de 2023, 987 pessoas que deixaram de estar na situação de sem-abrigo.

No entanto, parece-me que não devemos esquecer que continua a ser muito grande o mundo dos sem-abrigo. São muitos, demasiados, os sem-abrigo do mundo, boa parte integra aquela percentagem que a sondagem nunca mostra de que fala Sam The Kid.

São muitos, os sem-abrigo num porto que os acolha, uma casa, uma família, um espaço a que dêem vida e que lhes apoie a vida.

São muitos, os sem-abrigo, mesmo com família ou em instituições.

São muitos, os sem-abrigo no afecto, nos afectos, sem um coração que os abrigue.

São muitos os sem-abrigo em escolas onde não cabem.

São muitos, os sem-abrigo em mundos que não são seus. São muitos, os sem-abrigo em culturas que não entendem e que não querem entendê-los.

São muitos, os sem-abrigo num corpo que seja aconchego para o seu corpo.

São muitos, os sem-abrigo em valores que cada vez mais parecem predominar e que não os reconhecem.

São muitos, os sem-abrigo em vidas que lhes não pertencem, mas carregam. São muitos, os sem-abrigo no aceder e no gostar das coisas de que a vida também se tece.

Como referi, muitos destes sem abrigo vivem à nossa beira, sem-abrigo, não contabilizados, nem contabilizáveis.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

OS DIAS DO ALENTEJO

 Felizmente a chuva está a conceder uma já merecida e desejada trégua e a presença dos netos no Monte ainda é mais animadora. Num monte há sempre que fazer mesmo quando é impossível mexer na terra.

A chuva fez alguns estragos no caminho de acesso ao monte, abriu alguns buracos, mas com gente “vontadeira” como o Simão e o Tomás, não tem dúvida, como por aqui se fala. Com dois carros de mão, umas pás e um ancinho, a força e vontade de um velho e dois miúdos, o caminho ficou amanhado ao fim de alguma lida.

A manhã acabou na oficina onde o Simão construiu uns binóculos de cana para o Tomás. É sempre útil, talvez ajudem a enxergar o futuro.

Para a tarde vai ficar a voltinha dos espargos que assegurará o jantar, uns ovos mexidos com espargos em cima de duas fatias do melhor pão do mundo com azeite.

E são assim os dias de uns velhos com sorte, os dias no Alentejo com a presença dos netos.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

O DIA DE S. VALENTIM, O LADO B

 Hoje é inevitável a chuva de referências ao Dia de São Valentim, Dia dos Namorados. Para além de tudo o que se refere, do romantismo do namoro à menos romântica dimensão de negócio(s), existe um inquietante lado B das relações de namoro, a violência nas suas diferentes formas.

Como tem acontecido nos últimos anos, a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) divulgou os dados do estudo anual sobre violência no namoro inquirindo 8080 jovens com idades entre os 12 e os 21 anos.

Alguns dados que, lamentavelmente, já não surpreendem, e continuam preocupantes. A maioria dos inquiridos, 68,2%, não considera violência no namoro pelo menos um dos comportamentos analisados.

No namoro juvenil, a violência nem sempre se mostra visível. A maioria dos inquiridos, 68,2%, não reconhece como violência no namoro pelo menos um dos comportamentos analisados. De facto, 53,5% desvaloriza atitudes controladoras e a perseguição não é entendida como um problema por 40,9% dos jovens. Aceder às redes sociais e mensagens sem autorização do parceiro(a) ou procurá-lo de forma insistente ao longo do dia são comportamentos legitimados por mais de um terço dos inquiridos.

Também a violência psicológica, insultar durante uma discussão por ex., não é reconhecida como tal por 27,6% dos jovens e 12% não consideram abusivo que essas ofensas sejam divulgadas nas redes sociais

A violência sexual e a física surgem como as menos normalizadas. No entanto, 14%, mais de mil jovens, entendem como normal pressionar alguém para beijar ou mesmo beijar contra a vontade e 5,9% (479) consideram que magoar fisicamente o companheiro(a) com empurrões ou bofetadas não configura violência no namoro.

São os jovens do sexo masculino, 44% da amostra, que mais entendem como legítimas todas as formas de violência analisadas. Entre os géneros as diferenças são mais claras relativamente ao controlo e na violência psicológica. Nos rapazes, 65,3% não reconhecem que controlar a namorada ou namorado seja uma forma de violência. Nas raparigas, o valor é 43,3%, ainda assim significativo.

No mesmo sentido, recordo um trabalho realizado pela UMAR com financiamento da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género divulgado em 2024 e envolvendo 6152 jovens entre o 7.º e o 12.º considerando duas dimensões, legitimação e prevalência dos indicadores de violência, também se encontram dados inquietantes.

É significativo que 68,1% dos inquiridos legitimam pelo menos um tipo de violência, sendo que controlo (54,6%) e violência psicológica (33,5%) são os mais referidos sendo ainda que 27,9% dos jovens consideram normal ser insultado numa discussão.

No que respeita a tipos de violência a que foram sujeitos, 63% dos jovens referem que já estiveram numa relação em que passaram pelo menos por um tipo de violência.

Assim, 43% refere a proibição de estar ou falar com alguma pessoa, 39,9% viveram pelo menos uma forma de violência psicológica, 20,4% de perseguição, e 18,4% de alguma forma de violência sexual, nomeadamente serem obrigados a beijar, e 11% sofreram violência física.

São indicadores suficientes para que nos sintamos apreensivos e o  que torna a situação ainda mais complexa é a manutenção sem grandes alterações destes indicadores ao longo dos anos, incluindo trabalhos com estudantes do ensino superior, o que talvez ajude a perceber como a violência doméstica parece indomesticável.

Os dados convergem no indiciar do que está por fazer em matéria de valores e comportamentos sociais. Acresce que boa parte das situações de abuso não são objecto de queixa.

Este conjunto de dados é preocupante, gostar não é compatível com maltratar, mas creio que não é surpreendente, lamentavelmente. Os dados sobre violência doméstica em adultos que permanece indomesticável deixam perceber a existência de um trajecto pessoal anterior que suporta os dados muitos trabalhos sobre violência no namoro e que se mantêm inquietantes. Aliás, nos últimos anos a maioria das queixas de violência doméstica registadas pela APAV foram de mulheres jovens embora seja um drama presente em todas as idades.

Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores sociais presentes em cada época. De facto, e reportando-nos apenas aos dados mais gerais, é criticamente relevante a percentagem de jovens, incluindo estudantes universitários, que afirmam um entendimento de normalidade face a diferentes comportamentos que evidentemente significam relações de abuso e maus-tratos.

Como todos os comportamentos fortemente ligados à camada mais funda do nosso sistema de valores, crenças e convicções, os nossos padrões sobre o que devem ser as relações interpessoais, mesmo as de natureza mais íntima, são de mudança demorada. Esta circunstância, torna ainda mais necessária a existência de dispositivos ao nível da formação e educação de crianças e jovens; de uma abordagem séria persistente nos meios de comunicação social; de um enquadramento jurídico dos comportamentos e limites numa perspectiva preventiva e punitiva e, finalmente, de dispositivos eficazes de protecção e apoio a eventuais vítimas.

Só uma aposta muito forte na educação, escolar e familiar, pode promover mudanças sustentadas nesta matéria. É uma aposta que urge e tão importante e sublinha a necessidade óbvia de matérias desta natureza serem objecto de abordagem na educação escolar sendo que não terão de o ser de uma forma “disciplinarizada”. Não me parece que haja outro caminho.

Entretanto e enquanto não muda, "só faço isto, porque gosto de ti, acreditas não acreditas?". Não, não se pode acreditar.

Retomo como iniciei. Apesar dos dias inquietantes que vivemos e para os quais não estávamos preparados, talvez seja de não esquecer questões como estas que devastam o quotidiano de muita gente.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

“VAI SEMPRE HAVER QUEM O FAÇA ÀS ESCONDIDAS”

 Sem surpresa o Parlamento aprovou o projecto de lei que que regulamentará as restrições no acesso às redes sociais a menores de 16 anos, podendo a partir dos 13 com consentimento parental. A proposta é agora remetida para a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.

Em matéria de educação e formação dos mais novos não sou apologista de estratégias essencialmente proibicionistas, facilmente contornáveis como já na imprensa se refere. Creio que é bem mais potente o incremento de comportamentos de auto-regulação ajustados às diferentes idades.

Neste contexto e tal como referi há dias merece leitura e reflexão a entrevista no Público a Joaquim Fialho, autor do estudo “Scroll. Logo Existo!: Comportamentos adictivos no uso dos ecrãs”. No mesmo sentido também é interessante a entrevista da presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Maria do Céu Patrão Neves. reflexão. É também um contributo para a reflexão a peça, “Eles sabem que as redes sociais têm riscos, mas proibir não é solução: “Vai haver sempre quem o faça às escondidas”, com opinião de gente nova.

Retomo o que há pouco aqui deixei. A experiência diária e, como agora se diz, a evidência, mostram de forma cada vez mais clara como o excesso de tempo que crianças e adolescentes (mas não só) passam “trancados” em ecrãs têm impacto negativo no seu bem-estar e saúde mental, no desenvolvimento de competências e capacidades cognitivas, sociais e emocionais e, naturalmente, na aprendizagem. São conhecidos muitos exemplos de situações graves ocorridas no contexto de utilização das redes sociais.

Em muitos sistemas educativos e também por cá, têm surgido iniciativas, sobretudo nos espaços escolares, no sentido de minimizar esse tempo incluindo a redução da utilização dos recursos digitais na aprendizagem, sobretudo em particular com os mais pequenos.

Certamente mais difícil será a mudança nos contextos familiares e comunitários. O próprio comportamento dos adultos não parece favorável a esse trajecto de mudança.

Creio, aliás, a absoluta desregulação da utilização por parte dos adultos será um enorme obstáculo à auto-regulação por parte dos mais novos. Ainda considerando o mundo dos adultos, todos nós conhecemos proibições estabelecidas que não respeitamos, a condução é um exemplo paradigmático. Aliás, boa parte do entendimento comum é de que as leis que proíbem não são imperativas, são meramente indicativas. Por exemplo, define-se legalmente que não se ultrapassem os 120 km/h nas autoestradas, mas poucos de nós, condutores, vemos o limite como imperativo a cumprir, é “apenas” uma … sugestão.

Na verdade, é clara a dificuldade de mudança dos comportamentos, independentemente dos discursos de concordância com a preocupação ou a expressão de dificuldades.

Também importa combater o equívoco de que não proibir significa a ausência de regras e limites. Do meu ponto de vista, a proibição por vezes necessária não invalida a um trabalho consistente e competente de promoção de auto-regulação. Um dos aspectos críticos na promoção de auto-regulação é a informação adequada e o diálogo sobre essa informação.

É o bem-estar de todos, jovens e adultos, que está em jogo. É uma questão demasiado importante.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

ARRANJA-ME UM EMPREGO

Lê-se no JN que um moço, com ar novinho a ver pela foto, com licenciatura em enfermagem, foi contratado para coordenador na Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis 2030 (EMER 2030), sob tutela do Ministério do Ambiente. O Enf. Fábio trabalhou no gabinete da atual ministra da Cultura e ex-ministra da Juventude, Margarida Balseiro Lopes, entre Outubro de 2024 e 2 de novembro de 2025. O Sr. Enfermeiro irá ganhar cerca de 3700 euros brutos por mês para colocar toda sua competência e experiência ao serviço do país na sua área de especialidade, Projectos de Energia Renovável.

Estranhamente, ou talvez não, a ministra do Ambiente e da Energia anunciou no Parlamento a 4 de Novembro de 2025 que a Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis seria extinta. Mau demais.

Na verdade, é com renovada energia que se vai mantendo o despudor, a sem-vergonhice com que esta gente se comporta e parece manter a infinita capacidade nos surpreender.

Como sempre nestas ocasiões e de acordo com o “script” clássico, os envolvidos dirão, se disserem alguma coisa, que estão de “consciência tranquila” e não existirá qualquer “incompatibilidade ou impedimento legal". Para este pessoal, “consciência”, “incompatibilidade”, “ética”, não significam certamente o mesmo que para a maioria das pessoas.

É por demais evidente que para boa parte desta gente, legalidade, transparência, competência, ética ou minudências como pagar contribuições, impostos, cumprir as exigências legais, etc., são “contos para crianças”, coisas, por assim dizer, para “tótós”, nós.

Vigarices, amigos mecenas, negócios manhosos e corrupção, tráfico de influências e amiguismo, utilização criteriosa dos alçapões de uma justiça criteriosamente desenhados para efeitos de protecção dos seus interesses e outras habilidades da mesma natureza são ferramentas diariamente usadas por esta família alargada e diversa que há décadas vem ocupando um largo espectro do nosso contexto político, social e económico.

Cambada de artistas, nem as moscas, às vezes, variam.

São assim as contas da partidocracia que mina a democracia.

Em alternância pois claro. Sem alternativa, evidentemente.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

UMA ESTRADA CHEIA DE OBSTÁCULOS

 O Rúben e a família continuam a percorrer uma estrada cheia de buracos.

Como há algum tempo aqui referi, o Rúben, um jovem de 16 anos com perturbação do espectro do autismo com dificuldades de comunicação funcional e limitações na compreensão e aplicação de aprendizagens e sem resposta escolar, teve no início do ano lectivo uma vaga num estabelecimento de educação especial. Aguardou até Novembro que o Ministério da Educação autorizasse o financiamento da frequência dessa instituição particular de solidariedade social especializada.

No entanto, a estrada do Rúben e da família é mesmo muito difícil.

Dado que se trata de uma instituição particular o Rúben não tem acesso ao transporte escolar. Assim, os pais pagam quase diariamente a um “motorista de confiança” que o leva de Vialonga, concelho de Vila Franca de Xira, onde vive, até Lisboa, onde fica o estabelecimento de educação especial da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo no qual conseguiu colocação.

Isto acontece porque a CM de Vila Franca de Xira não apoia ou providencia transporte porque se trata de uma instituição privada. No entanto, Municípios como Loures ou Oeiras asseguram o transporte de alunos destes concelhos para a mesma instituição.

O Rúben teve “o azar” de morar no concelho errado.

Espero que a situação possa ser ultrapassada, mas mais uma vez e como há pouco aqui escrevi, nada disto é novo, sucessivos relatórios de diferentes entidades vão mostrando o quanto está por fazer e as dificuldades decorrentes da corrida de obstáculos em que se transforma a vida das pessoas com deficiência ameaçando os seus direitos e bem-estar bem como das suas famílias. São por demais evidentes as dificuldades em áreas como, educação, saúde, trabalho e emprego, segurança social, acessibilidades, autonomia, independência ou autodeterminação.

Repetindo-me, a voz das minorias é continua muito baixa, ouve-se mal, existem variadíssimas áreas em que são significativas as dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente saúde, acessibilidades, educação, apoio social, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão continuam elevados como esta situação evidencia.

Importa também sublinhar que os direitos fundamentais não podem ser de geometria variável em função de contextos ou hipotecados às oscilações de conjuntura ainda que tenhamos consciência da excepcionalidade destes tempos.

Parece necessário reafirmar mais uma vez que os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como lidam com os grupos mais vulneráveis e com as suas problemáticas. Este entendimento é tanto mais importante quanto mais difíceis são os contextos em que vivemos, os tempos actuais mostram discursos e comportamento hostis e agressivos face à diversidade, ameaçam quem é percebido como diferente como se existissem dois seres humanos iguais.

Mas, mais grave é que estes discursos começam a contaminar as políticas públicas dada a mediocridade de lideranças, e sustentam a negação de valores e culturas que dávamos como adquiridos.

Não passarão.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

DO DIA DA INTERNET MAIS SEGURA

De acordo com o calendário das consciências assinala-se hoje o Dia da Internet Mais Segura.

Como é habitual surgem referências na imprensa e merecem leitura e reflexão “Dez passos para “blindar” a vida digital no Dia da Internet Mais Segura”, “Linha Internet Segura: mais casos de cibercrime e aumento de 70% nas denúncias de conteúdo ilegal” ou “Violência online sobre jovens: elas sofrem violência sexual; eles, ameaças”.

Num tempo em que também por cá se considera a proibição de acesso às redes sociais antes dos 16 anos, a entrevista de Joaquim Fialho, autor do estudo “Scroll. Logo Existo!: Comportamentos adictivos no uso dos ecrãs” merece reflexão.

Retomo o que há pouco aqui deixei. A experiência diária e, como agora se diz, a evidência, mostram de forma cada vez mais clara como o excesso de tempo que crianças e adolescentes (mas não só) passam “trancados” em ecrãs têm impacto negativo no seu bem-estar e saúde mental, no desenvolvimento de competências e capacidades cognitivas, sociais e emocionais e, naturalmente, na aprendizagem. São conhecidos muitos exemplos de situações graves ocorridas no contexto de utilização das redes sociais.

Em muitos sistemas educativos e também por cá, têm surgido iniciativas, sobretudo nos espaços escolares, no sentido de minimizar esse tempo incluindo a redução da utilização dos recursos digitais na aprendizagem, sobretudo em particular com os mais pequenos.

Certamente mais difícil será a mudança nos contextos familiares e comunitários. O próprio comportamento dos adultos não parece favorável a esse trajecto de mudança.

Creio, aliás, a absoluta desregulação da utilização por parte dos adultos será um enorme obstáculo à auto-regulação por parte dos mais novos.

Na verdade, é clara a dificuldade de mudança dos comportamentos, independentemente dos discursos de concordância com a preocupação ou a expressão de dificuldades.

Não sendo apologista de estratégias essencialmente proibicionistas, facilmente contornáveis, creio que é bem mais potente o incremento de comportamentos de auto-regulação ajustados às diferentes idades.

No entanto, com alguma frequência se alimenta o equívoco de que não proibir significa a ausência de regras e limites. Do meu ponto de vista, a proibição por vezes necessária não invalida a um trajecto de auto-regulação sempre mais consistente. Um dos aspectos críticos na promoção de auto-regulação é a informação adequada e o diálogo sobre essa informação.

É o bem-estar de todos, jovens e adultos, que está em jogo. É uma questão demasiado importante.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

DA DECÊNCIA

 Mais uma vez. É impossível ir ouvindo sem um enorme sobressalto os discursos produzidos na imprensa e nas redes sociais, obviamente, e conhecendo o aumento de episódios de agressão verbal e física "apenas" pela razão do outro ser diferente ou percebido como diferente. Mais do que questões de natureza ideológica, trata-se de uma questão política naturalmente, mas sobretudo de natureza ética, cívica e … decência.

Existem linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas e estão a ser ultrapassadas e de forma cada vez mais inquietante ignorando o quadro de valores que regula, ou deve regular, o discurso e comportamento social.

Do que se tem ouvido, lido e conhecido, comentar o quê? Como?

Para um tipo que em jovem adulto passou pela mudança verificada em Abril de 74 e conheceu o tempo antes e o tempo depois interroga-se e inquieta-se, porque falhámos, que mundo estamos a construir?

Estamos num tempo de perplexidade e dúvida face ao crescimento de discursos populistas e demagógico, apelando à intolerância, ao xenofobismo e a valores de direita radical muitos deles atentatórios de direitos humanos básicos. Os exemplos são muitos, primeiro lá por fora e agora também por cá vão-se multiplicando réplicas deste caminho que nos deixa inquietos face ao futuro e criando ambientes de onde eclodem os ovos da serpente.

Milhões de excluídos e pobres e de jovens sem presente e sem futuro são um alvo fácil para discursos populistas e radicais.

As sementes de mal-estar que que estes milhões de pessoas carregam, muitos deles desde criança são muito facilmente capitalizadas e mobilizadas.

Como aqui há dias escrevia, a mediocridade da generalidade das lideranças e o que lhes permitimos fazer criaram, por exemplo, um mundo de desigualdade e exclusão. É aqui, insisto, que nasce o que nos assusta.

É esta a batalha que não podemos perder e estou cheio de dúvidas se a estamos a ganhar. Também passa pela educação, pela escola, pela formação cívica e pela cidadania.

Talvez a Presidência da República agora nas mãos de António José Seguro, um homem que tenho por decente, independentemente de eventuais desacordos, possa, no quadro das suas funções e intervenções, dar um contributo para a decência no ambiente político.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

O "ÍMPETO REFORMISTA"

 Como é habitual, a generalidade das equipas ministeriais no universo da educação, mas não só, apresentam-se sempre com um inevitável “ímpeto reformista”. Como se sabe, uma dose de “ímpeto reformista” é um ingrediente imprescindível no desenho das políticas públicas.

Também o MECI puxou do seu “ímpeto reformista” e desatou a reformar as estruturas e organismos do estado. No entanto, como também se sabe, o “ímpeto reformista” é trôpego e acontece que a coisa está complicada. Ao que se lê no CM, os directores escolares sentem-se “como capitães de um navio a quem roubaram as bússolas em plena tempestade. Não há a quem recorrer e o auxílio na gestão transformou-se num exercício de adivinhação”, afirmou Rui Cardoso, diretor do Agrupamento de Viso, em Viseu, lamentando o “deserto de respostas”.  

Após a extinção da Direção-Geral de Administração Escolar, do Instituto de Gestão Financeira da Educação e da Secretaria-Geral do MECI, as competências que foram atribuídas à Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional não estão a ser exercidas porque continuam por nomear os vice-presidentes responsáveis pela Educação. De acordo com o mesmo director, “Mandam-se os processos para uma estrutura que ainda não tem cabeça para pensar, nem mãos para executar”, sublinhando que as Direções-Gerais de Estabelecimentos Escolares regionais “oficialmente estão condenadas, mas, como ainda não foram formalmente extintas nem integradas, vão sobrevivendo num ‘limbo’ existencial”. Está muito bem.

Filinto Lima, director da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, também elenca dificuldades, mas é um crente e acredita que com o tempo a coisa vai ao lugar e ele, sem estranheza, lá estará pronto para o serviço como director de um qualquer agrupamento de escolas.

De facto, parece clara a necessidade de ajustamentos nas políticas públicas de educação, “todo o mundo é composto de mudança”, mas o “ímpeto reformista” tem de partir da necessária avaliação das fragilidades e desajustamentos e então, de forma estudada, reflectida e envolvendo os diferentes actores envolvidos, decidir os objectivos e os processos e os tempos da mudança. A equipa que gere a PEC (política educativa em curso), é de uma tal agitação que parece funcionar ao contrário, ou seja, procura mudar tudo e ao mesmo tempo e pensa depois, se pensar.

O cidadão fica perplexo, sem confiança o que acaba por minar o impacto de algumas medidas.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

UMA CURIOSIDADE HISTÓRICA

 Hoje umas notas voltadas para dentro. Ao pensar na escrita para o Atenta Inquietude dei-me conta de que este trajecto começou em 7 de Fevereiro de 2007, 19 anos, uma estrada já longa.

Tornou-se um hábito diário que, por enquanto, vou mantendo, contemplando o mundo, lendo o que diz, pensando no que acontece, no que devia acontecer, porque acontece, porque não acontece, partilhando dúvidas e, desculpem o atrevimento, algumas certezas.

Como não podia deixar de ser, um olhar privilegiadamente dirigido para os mais novos, para a educação, para o bem-estar ou mal-estar de crianças e adolescentes, para a escola e para os agentes educativos, para as políticas públicas nestas áreas, etc.

Às vezes acho que vou parar, estou mais cansado, já disse o que acho que devia dizer, repito-me vezes sem conta a falar de muitas matérias, a contar histórias, algo de que os velhos gostam, mas, mais um dia, mais umas notas e assim tem sido nestes 19 anos.

É verdade que o retorno que muitas vezes chega por simpatia de quem lê ajuda a continuar.

Como dizemos por aqui, deixem lá ver até quando.

Por curiosidade deixo um texto que coloquei no primeiro dia de vida do Atenta Inquietude.

É velha na comunidade científica a dificuldade de estabelecer um equilíbrio entre um conhecimento de natureza "especialista" e o conhecimento de natureza "generalista". Não é tarefa fácil se considerarmos o volume enorme e virtualmente inesgotável de informação disponível e em construção sobre a totalidade dos temas que, por qualquer razão, possam ser objecto de estudo.

Daí o sempre presente desafio epistemológico da formação e desenvolvimento do conhecimento buscando o inatingível compromisso entre "saber muito sobre pouca coisa" e "saber pouco sobre muita coisa".

No entanto, de há algum tempo para cá emergiram na "medioesfera" um grupo de opinadores de origens diversas que parecem ter resolvido o tal imbróglio epistemológico. Refiro-me à seita dos TUDÓLOGOS, isso mesmo, os que sabem de tudo. É vê-los a emitir os seus "ACHISMOS" ou numa variante semântica também frequente os seus "CÁ PARA MIM..." por todo o lado onde apareça um microfone, uma câmara ou uma página de jornal ou revista.

O espectáculo é, por vezes, arrasador para a auto-estima de um cidadão que ao longo de uma laboriosa vida de estudo e reflexão procura conhecer uma qualquer área do saber. Eles, sempre os mesmos, falam, "acham", sobre não importa o quê, saúde, política (externa ou interna), educação, i & d, economia, arte, etc (uff!!). Estranhamente, por vezes, aparecem também acompanhados por pessoas de facto conhecedoras das áreas em discussão e de quem esperam, ou arrogantemente exigem, a caução da sua óbvia ignorância mascarada de "opinião esclarecida".

Curiosamente, a comunicação social ou, para ser justo, boa parte dela também mal preparada deleitando-se com a exibição despudorada de um umbigo tão grande quanto a ignorância, subscreve e amplia as maiores banalidades ou disparates que, diletantemente, os TUDÓLOGOS emitem.

Como parece evidente, trata-se uma reflexão datada (com 19 anos) e, por isso, completamente ultrapassada, é só mesmo uma curiosidade histórica.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ESTOU AQUI, MAS NÃO SOU EU

Está mais um dia cabaneiro com o vento e chuva a bater nas janelas do sótão e quase se sobrepõem à música ingénua e genuína que integra a colectânea Bachata Roja. Ao ouvir o tema de Juan Bautista, “Estoy aqui pero no soy yo”, fiquei a pensar na curiosidade deste título, muito repetido como refrão.

Creio que todos nós já alguma vez pensámos qualquer coisa como, “estou aqui, mas não sou eu”, certamente em circunstâncias diferentes, mas sempre com a estranha sensação de dissonância.

É também o que se passa em algumas situações da vida dos mais novos.

De facto, assistimos, por vezes, a comportamentos, maus comportamentos, de alguns miúdos que apesar do que aparentam não correspondem ao que, na verdade, os miúdos, alguns miúdos, pensam ou sentem.

Eles próprios conseguem mostrar, quando se cria a oportunidade, que não gostam e não desejam evidenciar esse tipo de comportamentos. Acontece que o desconforto e mal-estar que lhes rói a alma, os leva a assumir um personagem de que se alimentam, mal, e se alimenta do que fazem quando qualquer deles diz “estou aqui”. No entanto, no fundo “não sou eu”, não sou assim.

Alguns destes miúdos, se estivermos atentos e encontrarem escuta e apoio podem reverter o discurso para “sou eu e estou aqui”.

É o caminho.


 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

RESPIRÁVEL E IMPERMEÁVEL

 Com os dias de intempérie que temos vindo a viver não largamos os nossos impermeáveis. Agora são, geralmente, finos, leves, praticamente impermeáveis e muitos mantêm-se respiráveis. Esta evolução permitiu dispensar aqueles casacos mais clássicos em plástico que quando não metiam água da chuva por fora, nos deixavam encharcados por dentro promovendo um efeito de sauna. Ainda me lembro de há umas décadas andar de mota com um oleado dos amarelos que deixava passar uma gota, mas era pesado e desconfortável.

Estava a pensar nestas coisas, coisas de velho aposentado, e lembrei-me de como seria interessante que se inventasse uma forma de proteger a vida dos miúdos das intempéries que alguns deles têm à volta e tornar a vida um pouco mais confortável. Poderia ser criado um dispositivo de protecção que fosse quase impermeável às agruras dos tempos maus, protegendo-os das mais pesadas pois também é preciso passar por algumas e que, ao mesmo tempo, fosse respirável, ou seja, não fosse um dispositivo que os mantivesse numa redoma estanque e os asfixiasse, mas sim algo que lhes permitisse continuar a respirar, a viver. Um dispositivo desta natureza seria um bem precioso.

Mas esta é uma ideia completamente disparatada, seguramente motivada pelas inúmeras vezes que acabei encharcado as minhas andanças à chuva. Como acontece com muitos miúdos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

AS TEMPESTADES

 Nos tempos que estamos a viver com cenários trágicos e devastadores, termos como depressão, tempestade ou rios atmosféricos, com nome próprio para que não os esqueçamos, ocupam os discursos, os tempos de antena e uma preocupação sem fim com a devastação de vidas e bens.

Os especialistas associam a maior prevalência deste tipo de fenómenos a alterações climáticas que o planeta está a suportar.

Certamente acharão estranha a ligação, mas creio que também com frequência crescente assistimos à formação de tempestades na cabeça de muitos miúdos e adolescentes. Muitas vezes, repentinamente e sem que se perceba causa próxima, alguns miúdos e adolescentes entram num turbilhão de agitação e violência mobilizando comportamentos com uma gravidade inesperada. Estes comportamentos podem atingir os próprios, mas também ser dirigidos a colegas, professores, pais ou a alguém que circunstancialmente esteja próximo.

Estas tempestades que se formam na cabeça da gente mais nova (e não só) que me parecem francamente preocupantes podem, tal como nos fenómenos de natureza meteorológica, associar-se às alterações climáticas.

Na verdade, alguns miúdos vivem hoje em climas familiares e sociais pouco amigáveis, às vezes dramaticamente alterados que, evidentemente, podem provocar tempestades.

As tempestades de natureza meteorológica são imprevisíveis no tempo, no local e na gravidade embora, creio, estejam estudadas as condições de formação de tais fenómenos. Também as tempestades que se formam na cabeça dos mais novos são imprevisíveis na hora, gravidade e contornos comportamentais, mas também se conhecem algumas das condições que podem favorecer a sua formação.

Talvez fosse boa ideia estarmos mais atentos à leitura dos sinais que podem indiciar a situação de risco. Quase sempre, estando atentos, podemos identificar alguns desses sinais e entrar em situação de alerta, de uma cor qualquer, desde que consigamos minimizar o risco de formação, ou, na pior das hipóteses, as consequências da tempestade.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

PROJECTOS DE VIDA, A ESPERANÇA ADIADA

 No Público lê-se que, no âmbito da iniciativa Gulbenkian Emprega, foram seleccionados 14 projectos para apoio a cerca de mil jovens entre os 16 e os 34 anos na situação de “nem-nem”, nem estudam nem trabalham. Os projectos serão desenvolvidos em parceria com o IEFP. Os projectos apoiados envolvem jovens nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, no Algarve e na Região Autónoma dos Açores.

Em Portugal temos 8,7% dos jovens nesta idade nesta situação, mas são verificam-se assimetrias regionais muito significativas levadas em consideração nos projectos que serão apoiados entre 12 e 18 meses.

De acordo com a informação divulgada, “os projectos seleccionados destacaram-se pela adopção de intervenções personalizadas, mentoria, aprendizagem dual e criação de redes locais de empregabilidade, bem como por estratégias sólidas de monitorização e continuidade” e a “A iniciativa tem ainda como objectivo validar metodologias que possam, no futuro, ser internalizadas nas políticas públicas de qualificação, emprego e inclusão de jovens”.

Apesar de algum abaixamento o número de jovens nesta situação é ainda significativo e, sobretudo, comprometedor de um projecto de vida bem-sucedido.

Acresce que um estudo divulgado e2024 por uma equipa do SINCLab. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, referia que 65,6% dos jovens até aos 30 anos que trabalham recebem menos de 1000€ de salário sendo que as mulheres recebem menos 26%. É ainda significativo que 24% do total não têm trabalho a tempo inteiro.

Considerando ainda uma dimensão crítica na vida dos jovens, a habitação, 87,7% dos inquiridos vive com a família. Recordo os dados do Eurostat de 2022, segundo os quais a idade média da saída de casa dos pais em Portugal está em 29,7. Em 2021 tinha a idade média mais alta da EU, 33,6 anos. A média europeia de 2022 é 26,4. Para comparação as idades médias mais baixas registam-se na Suécia, 21,4, e na Finlândia, 21,3.

Parece claro que os jovens portugueses continuam a experimentar dificuldades em construir projectos de vida autónomos e positivos. Num tempo em que tudo tem de ser para hoje, boa parte dos jovens sentirá que um projecto de vida é algo percebido para um amanhã longínquo.

Estão identificadas dimensões contributivas para esta situação como a dificuldade em aceder a trabalho digno, a precariedade laboral, os custos elevados da educação e qualificação e os também elevados custos no acesso, renda ou compra, de habitação que como se sabe se acentuou dramaticamente nos últimos tempos.

Este cenário ajuda a perceber algumas das mais fortes razões pelas quais os jovens em Portugal abandonam a casa dos pais cada vez mais tarde e adiam projectos de vida que incluam paternidade e maternidade. Para além das questões de natureza cultural e de valores que importa considerar, bem como as políticas de família nos países do norte da Europa, as actuais circunstâncias de vida dos jovens e as implicações da conjuntura económica sustentam este cenário que provavelmente demorará a ser revertido.

A estes indicadores, já a merecer preocupação, devem juntar-se os dados sobre precariedade, abuso do recurso a estágios e outras modalidades de aproveitamento de mão-de-obra barata e a prática de vencimentos que mais parecem subsídios de sobrevivência mesmo para jovens altamente qualificados.

Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem obviamente sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por sua vez se reflectem na crise demográfica que atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais. As gerações mais novas que experimentam enormes dificuldades na entrada sustentada na vida activa, vão também, muito provavelmente, conhecer sérias dificuldades no fim da sua carreira profissional.

No entanto, um efeito potencial, mas menos tangível desta precariedade no emprego e na construção de um projecto de vida autónomo e sustentado, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à própria vida no sentido global e que, com alguma frequência, os discursos das lideranças políticas acentuam. Dito de outra maneira, pode instalar-se, está a instalar-se nos jovens, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não vislumbra saída mobilizadora e que recompense.

O aconchego da casa dos pais pode ser a escapatória para a sobrevivência, mas potenciar o risco da desistência o que certamente poderá ter implicações sérias

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

UMA QUESTÃO DE FUTURO

 Durante 2025, de acordo com dados da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), lê-se no Expresso que perderam o emprego 1997 pessoas, mulheres grávidas, a amamentar e a pais em gozo de licença parental. Dado que este número representa apenas as “comunicações obrigatórias enviadas pelas empresas sempre que pretendem pôr termo a um vínculo laboral em situações protegidas pela lei”, provavelmente, o número real será superior. Trata-se do valor mais elevado desde 2020, um ano marcado pela pandemia e tem estado sempre a subir.

Apesar do aumento em 5% do número de nascimentos em 2025, a situação portuguesa a renovação geracional continua a agravar-se e estes dados são indiciadores dados obstáculos à maternidade e contribuem para o agravamento da dificuldade de renovação demográfica.

Como aqui escrevia há algum tempo, Portugal integra o grupo com menores apoios sociais para que os pais fiquem mais tempo em casa com filhos pequenos sendo que sobretudo nas zonas mais urbanas, (o interior desertifica-se o que também contribui para a baixa natalidade), a oferta de estruturas formais de acolhimento de bebés e crianças é ainda insuficiente. Acresce que Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças.

O emprego jovem e a sua estabilidade e rendimento torna muito difícil assumir o encargo dos filhos agravado por, como se verifica pela notícia, obstáculos à maternidade de mulheres empregadas.

Importa ainda não esquecer a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc. Existem empresas que exigem às mulheres um compromisso de que não irão engravidar nos próximos 5 anos. Não adianta argumentar com o quadro legal existente ou que venha a existir. Em Portugal, com demasiada frequência, a lei tem mais um carácter indicativo que imperativo.

O fluxo de emigração jovem nos últimos anos é elevado e é pouco provável que se verifique o retorno da maioria que emigrou.

Por outro lado, em tempos altamente competitivos com a proletarização do trabalho com salários baixos e e nas prestações sociais insuficientes, as pessoas hipotecam os projectos de vida em troca das migalhas que permitam a sobrevivência o que lhes retira margem negocial ou liberdade de escolha.

A fiscalização e regulação são insuficientes, uso e abuso de estágios não remunerados ou miseravelmente pagos e que não asseguram continuidade, condições de trabalho degradantes cuja não aceitação implica a perda do lugar em troca por alguém ainda mais necessitado e, portanto, calado.

A promoção de projectos de vida familiar que incluam filhos implica, necessariamente, intervir nas políticas de emprego e protecção do emprego e da parentalidade, na discriminação e combate eficaz a abusos e a precariedade ilegal, na inversão do trajecto de proletarização com salários que não chegam para satisfazer as necessidades de uma família com filhos e custos elevados na educação apesar de uma escolaridade dita gratuita, na fiscalidade, por exemplo. A questão é que a política que tem vindo a ser seguida não permite acreditar que existam alterações.

É ainda urgente que se promova a estabilidade de emprego a acessibilidade real (na distância e nos custos) aos equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida.

É uma questão de futuro.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

A LER, “DEMOCRACIA E REDES SOCIAIS: “CONTRARIAR O DISCURSO DE ÓDIO EXIGE DOS JOVENS CORAGEM E COMPETÊNCIA””

 Merece leitura e reflexão a entrevista do Público a Oddrun Samdal, investigadora na área da saúde e bem-estar dos adolescentes e coordenadora do estudo, Health Behaviour in School-Aged Children (HBSC), realizado pela Organização Mundial da Saúde de quatro em quatro anos no qual Portugal participa e cujos resultados aqui vou reflectindo com regularidade.

A entrevista é centrada na construção e desenvolvimento de valores e identidade política nos adolescentes e a relação com os ecrãs, em particular, com as redes sociais, e também num projecto,  Engaged Youth, em desenvolvimento sobre esta problemática.

Na verdade, e como há bem pouco tempo aqui referia mais uma vez, a experiência diária e, como agora se diz, a evidência, mostram de forma cada vez mais clara como o excesso de tempo que crianças e adolescentes (mas não só) passam “trancados” em ecrãs têm impacto negativo no seu bem-estar e saúde mental, no desenvolvimento de competências e capacidades cognitivas, sociais e emocionais e, naturalmente, na aprendizagem. São conhecidos muitos exemplos de situações graves ocorridas no contexto de utilização das redes sociais.

Em muitos sistemas educativos e também por cá, têm surgido iniciativas, sobretudo nos espaços escolares, no sentido de minimizar esse tempo incluindo a redução da utilização dos recursos digitais na aprendizagem, sobretudo em particular com os mais pequenos.

Certamente mais difícil será a mudança nos contextos familiares e comunitários. O próprio comportamento dos adultos não parece favorável a esse trajecto de mudança.

Creio, aliás, a absoluta desregulação da utilização por parte dos adultos será um enorme obstáculo à auto-regulação por parte dos mais novos.

Na verdade, é clara a dificuldade de mudança dos comportamentos, independentemente dos discursos de concordância com a preocupação ou a expressão de dificuldades.

Não sendo apologista de estratégias essencialmente proibicionistas, facilmente contornáveis, creio que é bem mais potente o incremento de comportamentos de auto-regulação ajustados às diferentes idades.

No entanto, com alguma frequência se alimenta o equívoco de que não proibir significa a ausência de regras e limites. Do meu ponto de vista, a proibição por vezes necessária não invalida a um trajecto de auto-regulação sempre mais consistente. Um dos aspectos críticos na promoção de auto-regulação é a informação adequada e o diálogo sobre essa informação.

É o bem-estar dos mais novos e a qualidade global dos processos educativos que estão em jogo.

É uma questão demasiado importante.