quinta-feira, 21 de maio de 2015

AS AULAS DE 90 MINUTOS SÃO UMA SECA

No mesmo sentido se pronuncia Filinto Lima, vice-presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamento e Escolas Públicas e director de um agrupamento de escolas de Vila Nova de Gaia. "É preciso diminuir o tempo letivo de 90 para 50 minutos. Estar numa sala de aula a ouvir alguns professores durante 90 minutos é uma seca. Até para nós é dose".
Esta argumentação, "a aula é uma seca" a que se junta a "imaturidade" ou "capcidade" dos alunos mais novos estarem atentos causa-me alguma perplexidade, para mais vinda de professores.
A duração de uma actividade escolar, uma aula, não pode, do meu ponto de vista, ser analisada em termos abstractos e concluir que 90 m é uma "seca" ou que alunos de 14 anos não suportam 90 m e será melhor a aula durar 60 ou 45 minutos.
Existem outras variáveis que contribuem de forma muito significativa para o comportamento e rendimento dos alunos em actividades escolares.
Em primeiro lugar os conteúdos, ou seja, os currículos, Está estudado e a experiência diz-nos que quanto mais dermos sentido ao que estamos aprender, se compreendermos a funcionalidade das aprendizagens a motivação sobre e, naturalmente, a atenção também. Assim, e conforme afirmo de há muito existe uma forte relação entre a natureza dos currículos que temos, extensos, prescritivos e inibidores de estratégias de diferenciação por parte dos professores e os comportamentos dos alunos. Com este modelo de currículos é mais difícil motivar os alunos e, portam, diminuir o risco de indisciplina. Veja-se a este propósito o que publicamente é conhecido para fundamentar a reforma curricular a realizar na Finlândia.
Em segundo lugar, a atenção dos alunos, a sua concentração, para além dos conteúdos, está fortemente relacionada com o trabalho dos professores, as metodologias, as actividades, o clima em sala de aula, os recursos, etc. Todos temos experiência de "aulas grandes" que são "secas pequenas" e "aulas pequenas" que são "secas enormes".
Asim sendo, importa relectir, por uma lado sobre a formação de professores. Existem, evidentemente, experiências positivas e menos positivas mas é uma área que carece de urgente reflexão. No entanto, importa sublinhar que a sinistra PACC não contribui de todo para esta questão, antes pelo contrário.
Por outro lado e finalmente, este trabalho do professor depende, obviamente, das condições em que se realiza. Turmas com número excessivo de alunos, falta de recursos, escolas com dimensões que só porsi são factores de risco, escolas que por efeito da guetização social e urbanística servem populações com carcterísticas que solicitariam maior autonomia para acomodar essas características são outro enorme contributo para a atenção ou concentração dos alunos, seja durante 45, 60 ou 90 minutos. 
Aliás, as escolas até já podem definir a sua duração, assim tivessem autonomia para as outras questões, as essenciais.
Em síntese, discutir a duração das aulas sem considerar estas matérias faz correr o enorme risco de branquear ou desvalorizar a sua importância, intencionalmente ou não.

4 comentários:

Anónimo disse...

Aulas de 90 minutos são "uma seca" para alunos até ao secundário em áreas disciplinares que não sejam Tic, EF, ou Artes/Tecnologias.

Supostamente, estas aulas de 90 minutos deveriam ter 1 componente mais prática. Mas mesmo assim, tal é difícil dados os constrangimentos apontados no texto e dado o facto de, mesmo na variante mais prática, os alunos mais novos estarem a trabalhar. Em moldes desejadamente diferente, mas estão a trabalhar.

Depois, são 90m mais 90 minutos e mais 90 minutos, tudo seguido, com inervalos pelo meio, minúsculos, a fazer lembrar a linha de montagem da Ford.

As escolas não estão nem para aí viradas, em organizar os tempos lectivos de outro modo, porque dá trabalho e os programas de horários dão 1 jeitão às chefias.

Quantos adultos conseguem estar tantos 90 m seguidos com atenção e concentrados?

Eu não consigo e há 1 altura em que me apetece abandalhar o esquema porque aquilo é mesmo "1 seca". E as "secas" são reacionárias, no sentido em que deixa de haver qualquer mais valia palpável. O cérebro faz 1 click e há apagão. Perfeitamente razoável. E não devemos contrariar o nosso ritmo e muito menos o que o nosso cérebro nos aconselha.

Zé Morgado disse...

Sim mas o que está de facto em jogo não é a duração de cada aula. Eu também não tenho tempos de concentração muito longos mas mesmo assim variam não só, nem fundamentalmente, com o tempo.

Anónimo disse...

Continuo a acreditar que 1 das variáveis que está em jogo para os alunos mais novos é a duração da aula. Não tenho acesso a estudos, digo isto por experiência.

Zé Morgado disse...

Sim, sempre disse isso, é apenas uma das variáveis.