terça-feira, 28 de julho de 2015

DA MUNICIPALIZAÇÃO DA TRAPALHADA

Erro das câmaras obriga professores a devolver subsídio de desemprego

Subsídios indevidos a professores devem ser devolvidos pelas câmaras, defende Fenprof

O movimento de municipalização da educação estende-se também às trapalhadas. Trata-se, assim, de uma transição tranquila e sem estranhezas de competências.
Está certo.

DOS JOBS FOR THE BOYS AND GIRLS

Segurança Social nomeou fiscal distrital um militante do PSD que nunca trabalhou na área

Como é reconhecido, a questão do desemprego é de uma enorme gravidade e complexidade. São urgentes medidas eficazes e diversas de promoção de emprego. Porque não começar pelos amigos? 
Fazem parte de uma lista VIP, têm o cartão certo, portanto ...
Há que começar por algum lado e os amigos são para as ocasiões.
Aliás, o povo costuma dizer, "quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte".
Cambada de artistas, nem as moscas, às vezes, variam.
São assim as contas da partidocracia. Em alternância pois claro.

DA RETÓRICA DA AUTONOMIA DAS ESCOLAS E DA INCLUSÃO

Num intervalo dos trabalhos do 8th Inclusive and Supportive Education Congresso de 2015 realizado em Lisboa, “Equity and Inclusion in Education”, e para o qual a Comissão Organizadora teve a gentileza de convidar a intervir sobre “Avanços e Reformas necessárias nas Políticas”, alguns colegas vieram falar da sua inquietação com algo que partilho e que creio já ter aqui referido há algum tempo.
As escolas, depois de um processo de decisão e análise interna propõem, através de uma plataforma, há sempre mais uma plataforma, aos Serviços do MEC o número de turmas a constituir. Neste processo está igualmente previsto o pedido de redução do número de alunos por turma devido à existência de alunos com necessidades educativas especiais. O processo é acompanhado por informação sobre estes alunos.
Os Serviços analisam e decidem acolher, ou não, a proposta da escola. Assim, são identificados os “redutores”, os alunos que permitem reduzir a turma e os “inibidores”, os que apesar dos seus problemas não permitem a redução do efectivo de turma.
Nem sei bem por onde começar.
Apesar da retórica da autonomia e como é evidente o MEC não confia nas escolas, nos seus órgãos e nos professores. Assim sendo, são os Serviços que analisam e decidem sobre o número de turmas e o seu efectivo. Elucidativo.
Neste processo, lá longe da escola alguém decide se um aluno é “redutor” ou “inibidor” para que a escola possa reduzir o número de alunos por turma de acordo com a legislação que nem sequer é sempre cumprida como as escolas bem sabem.
Este processo, para além do atropelo à autonomia das escolas ainda me parece grave na medida em que uma decisão desta natureza é tomada de um forma administrativa e longe da realidade, dos seus contornos e especificidades que não cabem, evidentemente, num processo administrativo. Uma nota ainda para a linguagem, os “redutores e os “inibidores”.
Por isso tantas vezes falo de como verdadeiramente o MEC recusa a autonomia das escolas e entende a inclusão como um processo de natureza administrativa.
Lembram-se certamente de que, creio, em Setembro de 2013 Nuno crato ter afirmado numa entrevista televisiva que os alunos com necessidades educativas especiais  “estão integrados na turma mas na verdade não estão. Naturalmente o que acontece naquele caso concreto é que aqueles alunos pertencem à turma mas dadas as suas necessidades eles não convivem com os alunos daquela turma. Portanto é muito mais uma questão administrativa do que outra”.
Não Senhor Ministro, a qualidade da educação de todos os alunos, incluindo, evidentemente, os alunos com necessidades educativas especiais ou em situação de vulnerabilidade ou fragilidade não é uma questão administrativa que se decida burocraticamente lá longe da vida deles, dos professores e das famílias. É uma questão de direitos e competência.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

OS RESULTADOS DA NOVA OPORTUNIDADE NO 4º E 6º ANO

Foram conhecidos os resultados dos exames de “segunda oportunidade” no 1º e 2º ciclo a Português e Matemática destinados a alunos sem aprovação no primeiro exame ou reprovados pelos conselhos de turma.
As comparações entre anos apesar de necessárias devem considerar a gestão por parte do MEC do grau de dificuldade dos exames, algo de recorrente e reconhecido.
Ainda não se conhece o número final de alunos que não transitará de ano pois há que conjugar os resultados dos exames com as avaliações das escolas, mas parece razoavelmente claro que a introdução de exames finais no 4º e no 6º ano a meio de um terceiro período muito curto e a oferta de umas aulas suplementares no final do ano com repetição do exame não serão a melhor forma de promover o sucesso, contrariando trajectos de dificuldades escolares.
Este entendimento não tem rigorosamente a ver com "facilitismo" e, muito menos, com melhoria "administrativa" das estatísticas da educação uma tentação a que nem sempre se resiste, mas sim com a importância de discutir que tipo de apoio, que medidas e recursos devem estar disponíveis ao longo do ciclo para alunos, professores e famílias de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo.
Creio que importa não esquecer o impacto que turmas sobrelotadas, metas curriculares excessivas e burocratizadas que inibem a acomodação das diferenças entre os alunos, insuficiência de apoios às dificuldades de alunos e professores durantes todos os anos do ciclo, entre outros aspectos, podem assumir nestes resultados e não constituir o melhor contexto para sustentar a evolução pretendida. Quem conhece minimamente as escolas sabe que o terceiro período dos anos finais de ciclo se transformou num período de preparação obsessiva para os exames que deixa insatisfeitos professores e alunos. Os resultados escolares no 1º e 2º ciclo, nas condições de funcionamento e características das nossas escolas, não se melhoram com uma explicação intensiva realizada no 3º período e no período suplementar de explicações por maior empenho que seja colocado pelos professores. Qualquer professor tem este entendimento embora o MEC insista pois é, obviamente, mais "em conta", por assim dizer, montar umas explicações que estruturar apoios continuados a alunos e professores ao longo do ciclo.
Como está a ser evidente, considerando os resultados globais dos exames em todos os ciclos, é claro que, contrariamente à crença do MEC, a simples realização dos exames não melhora a qualidade dos resultados, aliás, como o Presidente do IAVE reconhece.

CORRE MIÚDO, CORRE. CORRE MIÚDO, CORRE

O conhecimento sobre os miúdos e a forma como crescem, os estudos que o comprovam e o bom senso dizem-nos que oportunidades de interacção social, o brincar, o brincar no exterior, a realização de actividades diversas com pares e adultos têm efeitos positivos que se prolongam até adultos. Contribuem para melhor desempenho social e escolar, promovem autonomia, estimulam competências sociais, percepção de regras e limites e promovem valores e atitudes de cooperação, tolerância, etc.
Creio que ninguém discorda deste entendimento.
Fica, pois, estranho como, de uma forma geral, os mais novos têm falta de tempo e espaço para que tudo isto aconteça e logo de pequenos.
Vão-se instalando outras visões.
O que importa são os “saberes estruturantes “.
O que importa são os domínios, sub-domínios, objectivos e descritores.
O que importa são os resultados nos exames.
O que importa é a produtividade.
O que importa é o “ranking”.
O que importa é ser excelente, a tudo.
O que importa és tu, os outros não contam.
O que importa é …
Corre miúdo, corre.
Corre miúdo, corre.
Corre miúdo, corre.

AS ÁGUAS TURVAS DA EDUCAÇÃO

Burocracias ameaçam concurso que deixou 35 mil sem professor

Destacamentos de professores por doença indignam colegas

Não há volta a dar, será destino ou condição? A educação não se livra das águas turvas em que permanentemente parece mergulhada.
A conflitualidade de interesses em sistema tão complexos como o sistema educativo é normal, eu diria, desejável, pois é, também, na luta pelo seu equilíbrio que se constroem as mudanças.
No entanto, na educação existe sempre uma espécie de lado B da realidade, um lado menos transparente, um lado com "manha", um lado com "habilidades", com processos pouco claros a envolver todos os seus actores.
A quem interessará verdadeiramente este clima?
Parece claro perceber quem perde. E quem ganha? O quê?

domingo, 26 de julho de 2015

UMA HISTÓRIA COM AVÔ DENTRO

De acordo com o calendário das consciências passa hoje o Dia dos Avós.
A avozice é um mundo mágico no qual já entrei há pouco e ainda não consegui acomodar os sentimentos e a magia de acompanhar de perto, tão de perto quanto possível, o crescimento de um gaiato que tem uma geração pelo meio. Tem sido um divertimento, uma descoberta permanente e a percepção de um outro sentido para uma vida que já vai comprida e também, desculpem a confissão, cumprida.
Neste entendimento e como tem acontecido aqui no Atenta Inquietude em cada 26 de Julho, retomo a minha proposta no sentido de ser legislado o direito aos avós. Isto quer dizer, simplesmente, que todos os miúdos deveriam, obrigatoriamente, ter avós e que todos os velhos deveriam ter netos.
Num tempo em que milhares de miúdos passam muito tempo sós, mesmo quando, por estranho que pareça, têm pessoas à beira, e muitos velhos vão morrendo devagar de sozinhismo, a doença que ataca os que vivem sós, isolados, qualquer partido verdadeiramente interessado nas pessoas, sentir-se ia obrigado a inscrever tal medida no seu programa ou, porque não, inscrevê-la nos direitos fundamentais.
Com tantas crianças abandonadas dentro de casa, institucionalizadas, mergulhadas na escola tempos infindos ou escondidas em ecrãs, ao mesmo tempo que os velhos estão emprateleirados em lares ou também abandonados em casa, isolados de tal forma que morrem sem que ninguém se dê conta, trata-se apenas de os juntar, seria um dois em um. Creio que os benefícios para miúdos e velhos seriam extraordinários.
Um avô ou uma avó, de preferência os dois, são bens de primeira necessidade para qualquer miúdo.
Já agora deixo uma história com avô dentro. Como sabem contar histórias é mesmo coisa de avós e às vezes repetem-nas, é o caso desta, já aqui a contei.
De há uns tempos para cá apareceu uma moda naquela terra que “impede” as pessoas de falarem em brincar nas escolas da terra, é proibido brincar nas escolas.
A moda foi fabricada por uma gente ignorante de miúdos, obcecada com trabalho e produtividade, mesmo infantil, uns infelizes escravos convencidos de que são livres e que também querem escravizar os outros.
Mas ainda existem uns professores, muitos, naquela terra que não se deixam enganar, sabem ler os miúdos e percebem que eles aprendem porque também brincam e brincam porque também aprendem. Aliás, brincar e aprender são as coisas mais sérias que os miúdos fazem, sorte a deles, a de alguns, felizmente muitos.
Um dia, um desses professores lembrou-se, que sacrilégio, de dizer aos seus alunos para trazerem para a escola o seu brinquedo preferido. A Maria trouxe uma boneca. O João apareceu com a playstation nova. A Sara vinha vaidosa com umas bonecas que o pai tinha trazido do estrangeiro. A Irina trazia o Noddy. O Carlos vinha com uns olhos quase tão grandes como a bola de futebol que trazia debaixo do braço. O David, sempre pronto para as lutas, trazia uns bonecos lutadores de wrestling. A Joana não ligava a ninguém com o seu mp3 cheio das músicas de que gosta. Enfim, por um dia, toda gente veio para a escola com um brinquedo, o seu preferido.
O último a chegar foi o Manel.
Feliz e sorridente entrou na sala de aula com o avô pela mão.

OS NEGÓCIOS DA EDUCAÇÃO

Assim. fica mais claro de entender quando Nuno Crato afirma que a educação está melhor.

Estado vai gastar mais 53 milhões de euros com escolas privadas

É uma questão de perspectiva e a do Ministro é clara.
Em muitas circunstâncias estas turmas vão funcionar em comunidades cujas escolas públicas possuem capacidade de resposta para os alunos apesar dos esforços do MEC para lhes retirar recursos, docentes e funcionários.
Com o novo Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo já nem a desculpa da inexistência de resposta pública é exigida para que sejam subsidias as turmas em nome da designada "liberdade de escolha" que mais não é que apoios públicos a estruturas privadas.
São assim os negócios da educação.

DOS MANUAIS ESCOLARES

Considerando o elucidativo trabalho do Público sobre os manuais escolares e dada a sua pertinência recupero umas notas que também foram publicadas no jornal há alguns dias.
Falta pouco para começar a romaria das famílias às papelarias e agora também às grandes superfícies comerciais para a compra dos manuais escolares. No ano passado assisti na papelaria do meu bairro a um diálogo de que reproduzo o essencial o mais fielmente possível.
Bom dia, queria encomendar os livros para a escola.
Sim senhora, é desta escola aqui?
Sim.
De que ano?
Do 8º.
Vou tomar nota. Quer os livros todos?
Sim, parece que são precisos todos, é muito dinheiro. Mas não quero os CDs.
Não quer os CDs?
Não, não servem para nada, só para gastar dinheiro. O ano passado comprei os CDs e a minha filha disse que não foram usados. Este ano não os compro.
...
De facto, a questão dos manuais escolares é uma matéria importante e não só pelos custos para as famílias. Apesar do meritório esforço do Movimento pela Reutilização dos Livros Escolares com a criação de uma rede muito significativa de bancos de troca de manuais escolares e das iniciativas dispersas de outras entidades ou autarquias continuo a pensar que esta questão merecia ser repensada.
Do meu ponto de vista, verifica-se um excesso de "manualização" do trabalho dos alunos, potenciado com o aumento do número de alunos por turma e pelo modelo de currículos assente nas metas curriculares, não porque existem mas pela forma excessiva e inadequada como foram definidas. Acresce ainda a rápida e incoerente mudança de currículos ou dos manuais aprovados nas escolas e agrupamentos que também obrigam à substituição de manuais.
Tal situação tem óbvias implicações didáctico-pedagógicas e, naturalmente, económicas pelo peso nos orçamentos familiares.
Recordo que no quadro constitucional vigente, lê-se no Art.º 74º (Ensino), “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito;
Na verdade, o ensino obrigatório nunca foi gratuito nem universal, vejam-se as taxas de abandono, e os custos incomportáveis para muitas famílias dos manuais e materiais escolares num cenário em que a acção social escolar é insuficiente e tem vindo a promover sucessivos ajustamentos nos valores e critérios de apoio disponibilizados. No universo particular das famílias com crianças com necessidades especiais os custos da escolaridade obrigatória e gratuita são ainda mais elevados, bem mais elevados.
Voltando aos manuais, apesar da progressiva disponibilização de outras fontes de informação e do acréscimo de acessibilidade através das tecnologias de informação e de outros suportes, a utilização dessas fontes alternativas aos manuais é baixa e pouco valorizada por pais e alunos.
De facto, embora o abandono do “livro único” tenha ocorrido há já bastante tempo e de uma preocupação, ainda pouco eficaz, com a qualidade dos manuais, predomina a sua utilização e dos materiais de apoios que lhes está associado, cadernos de exercícios e fichas, cadernos de actividades, materiais de exploração, CDs, etc., etc., que submergem os alunos e oneram as bolsas familiares, até porque muitos destes materiais não são incluídos nos apoios sociais escolares.
Em muitas salas de aula, também pela natureza da estrutura e conteúdos curriculares e do estabelecimento das metas curriculares nos termos em que o foram, corre-se o risco de substituir a “ensinagem”, o acto de ensinar, pela “manualização” ou “cadernização” do trabalho dos alunos, ou seja, a acção do professor tenderá a ser, sobretudo, orientar o preenchimento dos diferentes dispositivos que os alunos carregam nas mochilas.
Creio que a redução da dependência dos manuais passaria, entre outros aspectos, por uma reorganização curricular, diminuindo a extensão de alguns conteúdos, a redução do número de alunos por turma ao abrigo de uma verdadeira autonomia das escolas, o que permitiria a alunos e professores um trabalho de pesquisa e construção de conhecimentos com base noutras fontes incrementando, por exemplo, a acessibilidade a conteúdos e informação diversificada que as novas tecnologias oferecem.
É importante caminharmos no sentido de atenuar a fórmula predominante, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.
Julgo também que seria de considerar a possibilidade dos manuais escolares serem disponibilizados pelas escolas e devolvidos pelos alunos no final do ano lectivo ou da sua utilização, sendo as famílias penalizadas pelo seu eventual dano ou extravio e ficando, assim, com "folga" para aquisição de outros materiais, livros por exemplo, um bem com pouca presença em muitos agregados familiares. Este modelo não é novo, é usado em vários sistemas educativos.
Como é evidente, dentro desta perspectiva, a própria concepção dos manuais deveria ser repensada no sentido de permitir a sua reutilização.
Não esqueço, no entanto, o peso económico deste mercado e como são os mercados que mandam ...
Mas num tempo em que, na minha perspectiva, a escola pública e a sua qualidade estão sob ameaça e sendo Portugal um dos países europeus com maior assimetria na distribuição da riqueza, importa prevenir o risco acrescido de condições de insucesso escolar e abandono com repercussões graves no acesso à qualificação, a base da mobilidade social e do desenvolvimento.

sábado, 25 de julho de 2015

O MUNDO ÀS AVESSAS

A cifra não poderia ser mais negra: 17 crianças mortas às mãos dos próprios pais em Portugal, nos últimos 10 anos.
De novo.
As coisas nem sempre são o que parecem, o que pensamos que são ou mesmo o que gostávamos que fossem.
Na verdade, há pais que fazem mal aos filhos.
Na verdade, há filhos que fazem mal aos pais.
Na verdade, há professores que fazem mal aos alunos.
Na verdade, há alunos que fazem mal aos professores.
Na verdade, há velhos que fazem mal aos novos.
Na verdade, há novos que fazem mal aos velhos.
Na verdade, ...
Na verdade, há pessoas que fazem mal a pessoas.
Na verdade, ... o mundo é um lugar estranho e ... às vezes ... muito feio.

Talvez seja de recordar Mandela, “A educação e o ensino são as mais poderosas armas para mudar o mundo.”

A RELAÇÃO PERTURBADA DE NUNO CRATO COM A REALIDADE

Nuno Crato diz que a Educação progrediu em quatro anos apesar da crise

Nuno Crato afirmou ontem em Oliveira do Bairro que "Este país, apesar da crise, progrediu na Educação. Isso é reconhecido nos indicadores internacionais, no reforço do ensino profissional e na qualidade de ensino. Foram anos difíceis, mas em que não esquecemos o que é mais importante que é o futuro dos nossos jovens".  Decididamente começa a ser difícil entender este processo de negação da realidade que é transformada nos desejos de quem olha para ela.
Recordemos outras afirmações numa entrevista na RTP 2 em Junho.
“Não existem atrasos no Despacho de organização do ano lectivo. Trata-se de especulação de um ou outro director.”
“O ano passado verificou-se um erro pontual, este ano tudo correrá atempadamente.”
“Todos os efeitos para os alunos decorrentes dos atrasos do início do ano lectivo, foram corrigidos”, “foram dados todos os recursos às escolas e agora tudo está bem”.
“Temos um ponto de equilíbrio nas disciplinas estruturantes, metas curriculares mais exigentes e melhor organizadas”,
“As escolas têm uma panóplia de meios adequados às aprendizagens dos alunos”.
“As escolas têm grande liberdade para organização dos tempos lectivos e da oferta curricular”.
“A municipalização promove a descentralização sem diminuir a autonomia das escolas”
Podemos ainda acrescentar que Nuno Crato afirmou há algum tempo que estamos num “ano de ouro da ciência”.
O Ministro Nuno Crato afirma tudo isto com uma enorme convicção, até se convence que a realidade é mesmo esta.
Recordo que em Fevereiro Nuno Crato já tinha afirmado que de 2011 para cá o País está melhor na Educação e na Saúde.
Não vale a pena, o espaço não permite e seria repetir o que tantas vezes aqui tenho escrito e quem conhece a realidade bem sabe que o universo das escolas não é o mar de rosas descrito pelo Ministro Nuno Crato. Seria bom que fosse mas não é.
O despudor e falta de seriedade intelectual parecem não ter limites.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

POR ACASO A IDEIA ATÉ FOI MINHA


Ao que parece, o Primeiro-ministro ao ser inquirido sobre esta "conclusão" inscrita no documento de balanço da legislatura, terá respondido, "Por acaso a ideia até foi minha".
Há gralhas que fazem com se escreva direito por linhas tortas.
Como diz o povo, fugiu-lhe a boca para a verdade.

A HIPERVALORIZAÇÃO DOS EXAMES, UMA POLÍTICA FACILITISTA

Não tenho nenhum princípio fundamentalista contra a avaliação externa, antes pelo contrário, considero-a uma ferramenta importante
No entanto, tenho dificultar em compreender a sua existência no 1º ciclo, as provas aferidas cumpriam o papel de regulador do sistema. Não será certamente o acaso ou a incompetência a  eplicar a raridade da sua existência na generalidade dos países.
No entanto, entender que os exames, quanto mais melhor, só por existirem são fonte de qualidade, parece decorrer da estranha convicção de que se medir muitas vezes a febre, esta irá baixar o que é, no mínimo, ingénuo.
Como não se pode racionalmente falar de ingenuidade, trata-se de uma medida “facilitista”, instituem-se os exames, muitos exames, estes passam a ser o tudo na vida da escola, dos professores e dos alunos e as aprendizagens melhorarão. Para que tudo funcione conforme o script gere-se politicamente a dificuldade dos exames, o próprio Presidente do Conselho Científico do IAVE o reconhece, e fecha-se o círculo, os exames são a panaceia para as fragilidades do sistema e validam a bondade das políticas. Será?
Não, não é importa perceber como se está a processar a avaliação interna em muitas escolas nos anos em que não existem exames, a retenção sobe filtrando os alunos paa que não contaminem os resultados nos exames, o critério para os "prémios" do MEC noutro efeito perverso e pouco competente da sua utilização. 
Como tantas vezes afirmo, a qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, naturalmente, mas também com a avaliação do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados e de vias diferenciadas de percurso educativo para os alunos sempre com a finalidade de promover qualificação profissional, com a estruturação de dispositivos de apoio a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc.
Estas medidas podem, devem, coexistir com a avaliação externa e aí teríamos uma avaliação certificadora, reguladora e intergrada nos processos de ensino e aprendizagem.

BOM SENSO REVISTO EM BAIXA

Médicos e enfermeiros dos centros de saúde da região de Lisboa deixaram de poder fazer chamadas, seja para acompanhar doentes, convocá-los para rastreios, consultas ou mesmo para pedir opinião a colegas.

Sabemos todos que importa combater o desperdício e o uso abusivo de recursos públicos. Sabemos também que o bem senso é um bem revisto em baixa nos tempos que correm.
No entanto, seria desejável que alguém recordasse a esta gente a velha história do burro do inglês. 
O Inglês dono do burro, para poupar, foi dando cada vez menos comer ao burro  até que este se finou. Pensou o Inglês, "agora que o burro já conseguia estar sem comer é que morreu".

quinta-feira, 23 de julho de 2015

ESTUDAS CÁ DENTRO E TRABALHAS LÁ FORA. O FUTURO NÃO MORA AQUI

Alemanha já vem buscar médicos à saída das universidades

A notícia é incómoda mas não surpreende.
De facto, recordando um estudo divulgado este ano pela Ordem dos Médicos realizado por 31 médicos envolvendo mais de 800 médicos em formação no internato de especialidade de 45 especialidades diferentes, distribuídos por unidades de todo o país, cerca de 65% admitem emigrar depois da formação.
Também um inquérito recente encomendado pela Presidência da República e realizado por uma equipa do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Emprego, Mobilidade, Política e Lazer: situações e atitudes dos jovens portugueses numa perspectiva comparada”, mostra que cerce de 70% dos jovens inquiridos entre os 15 e 24 anos encara a hipótese de emigrar. Estes jovens colocados perante a afirmação “daqui a dois anos, a crise terá terminado e a situação do emprego em Portugal será melhor do que hoje”, 60,8% entre os 15 e os 24 discordou e 66,5% entre os 25 e os 34 também não concordou.
Talvez se recordem de há poucos dias o geniozinho Poiares Maduro, Ministro-adjunto, e há algum tempo a Ministra das Finanças terem irresponsavelmente desvalorizado o fenómeno da emigração jovem.
A maioria dos jovens que parte, conforme os estudos apontam, não o faz porque quer “fazer opções lá fora” como afirmou Maria Luís Albuquerque, partem porque não têm opções cá dentro e este êxodo não pode ser “relativizado” ou desvalorizado, é um drama para o país e um drama para muitas famílias.
Na verdade, a emigração parece estar a constituir-se como via quase exclusiva para aceder a um futuro onde caiba um projecto de vida positivo e viável, algo que por cá não é fácil de definir.
Por outro lado e como é reconhecido, de uma forma geral, o ensino superior e a investigação em Portugal têm uma qualidade que internamente nem sempre é reconhecida e que se evidencia na frequência com que em diversas áreas se assiste à contratação de jovens que estudaram em Portugal para trabalho em empresas ou em investigação em diferentes países, onde se incluem, por exemplo, a Inglaterra, a Alemanha ou os Estados Unidos que não são propriamente países com baixo nível de desenvolvimento científico. Daí perceber-se as intenções dos médicos em formação e a estratégia alemã.
Neste quadro, torna-se ainda mais preocupante a partida para o estrangeiro de muitos milhares de jovens, com formação superior de elevada qualidade, porque em Portugal um projecto de vida viável e com sucesso é uma miragem. Este êxodo tem, obviamente, com profundas consequências para um país como Portugal.
Em primeiro lugar, porque sendo um país com uma fortíssima necessidade de qualificação nas empresas, vê partir os que mais preparados estariam o que terá, evidentemente, um impacto económico significativo. Aliás e curiosamente, este entendimento é recorrentemente afirmado por um Governo com forte responsabilidade pela emigração forçada de milhares de jovens com formação superior, designadamente trabalhadores na área científica, que não vislumbram o futuro em Portugal.
Em segundo lugar, porque importa não esquecer que os custos da formação dos jovens qualificados em Portugal são suportados por todos os nós no caso do ensino público, e das famílias ou dos próprios na formação em estabelecimentos privados embora, considerando também o ensino público, os custos para as famílias na frequência de ensino superior em Portugal seja dos mais altos na Europa.
Isto significa que Portugal, o estado e as famílias, suportam os custos da formação, 400 000 euros por cada médico e os outros países aproveitam essa qualificação uma vez que os jovens não conseguem desenvolver o seu trabalho em Portugal.
E o futuro? O futuro não mora aqui.

DAS TECNOFORMICES

Serviço europeu antifraude participou ao MP ilegalidades no caso Tecnoforma

Como sempre nestas ocasiões e de acordo com o “script” clássico, os envolvidos dizem ou dirão que estão de “consciência tranquila”. Acredito que tal possa acontecer pois para este pessoal “consciência” não significa certamente o mesmo que para maioria das pessoas.
É por demais evidente que para boa parte desta gente, legalidade, transparência, ética ou minudências como pagar contribuições, impostos, etc., são “contos para crianças”, coisas, por assim dizer, para “tótós”, nós.
Tecnoformices, relvices, amigos mecenas, negócios manhosos e corrupção, tráfico de influências e amiguismo, utilização criteriosa dos alçapões de uma justiça criteriosamente desenhados para efeitos de protecção dos seus interesses e outras habilidades da mesma natureza são ferramentas diariamente usadas por esta família alargada e diversa que há décadas ocupou um largo espectro do nosso contexto político, social e económico.
Até quando se manterá assim esta pantanosa pátria nossa amada?

DA DIVERSIDADE EM EDUCAÇÃO

A presença das crianças das comunidades ciganas nas escolas públicas nem sempre é algo de pacífico e tranquilo como seria desejável que acontecesse. Crianças em idade escolar a frequentar a escola é, deveria ser, obviamente, uma situação normal. 
A questão é que os fenómenos de guetização presentes sobretudo no que toca à comunidade cigana e que são complexos, produzem com frequência situações como a que agora volta a ser notícia no Público, a constituição numa Escola de Tomar de uma turma apenas com crianças de etnia cigana. Que escola ou que escolas devem frequentar as crianças da(s) comunidade(s) cigana(s)? Como deve ser gerida a sua colocação em turmas?
É divulgado hoje que os alunos dessa turma tiveram durante o ano lectivo resultados escolares positivos embora a situação, existência desta turma, vá ser alterada, felizmente, diria.
Os resultados escolares dos miúdos não justificam a bondade da medida. Pela mesma razão, se numa qualquer cidade da Suíça ou da Bélgica fosse constituída uma turma apenas com filhos de emigrantes portugueses e mesmo que os resultados escolares dos miúdos fossem positivos a medida não seria positiva pois a educação é muito mais que o resultado escolar, por mais importante que este seja, evidentemente.
Também me parece, posso estar enganado, que para alguns de nós o que se pode entender com miúdos ciganos não seria aceitável com miúdos filhos de emigrantes portugueses num país estrangeiro.
Na verdade e sem surpresa emerge uma conflitualidade de interesses em torno destas questões assente em valores, experiências negativas ou positivas, estereótipos ou preconceitos de natureza e sinal diferente, dificuldades nas respostas aos problemas, etc.
A pior das soluções parece ser a definição de uma situação que alimente e prolongue a guetização, isto é, para crianças de uma comunidade guetizada uma escola guetizada ou uma turma guetizada.
Em termos formais, distribuir as crianças por várias escolas ou por várias turmas parece mais ajustado. A questão é que não chega.
Como é conhecido por quem lida com estas matérias, não basta ter as crianças na escola para que tudo corra bem. As experiências mostram que as escolas precisam de ter dispositivos e recursos que promovam a presença bem-sucedida destes miúdos, como, aliás, de todos os outros. Questões desta natureza não afectam apenas os alunos de etnia cigana, envolvem grupos de crianças como, mais um exemplo, as crianças com necessidades educativas especiais.
Caso contrário, temos o que por vezes designo por “entregação” (estão entregues) e não integração, com os problemas conhecidos daí decorrentes ao nível da aprendizagem, comportamento, absentismo e conflitualidade e reacções negativas de alguns pais e professores, ainda que com a concordância de outros.
Por outro lado, as próprias comunidades ciganas devem ser objecto de intervenção e exigências que não pode ficar na atribuição de uma casa num qualquer bairro social (mais um gueto) e na atribuição, por vezes desregulada, do Rendimento Social de Inserção.
Nada mudará e os problemas repetem-se.

A INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ, APOIO PSICOLÓGICO OU PRESSÃO PSICOLÓGICA?

Desde 2007, ano em que se descriminalizou a interrupção voluntária da gravidez por vontade da mulher, nos termos definidos, os indicadores mostram que o número de situações de IVG tem vindo a baixar mantendo-se inferior à média europeia.
Não se confirmaram, pois, as teses catastrofistas que antecipavam o exponencial crescimento de casos.
No entanto, os partidos da maioria governamental, com a cumplicidade da Presidente da AR, entenderam por bem, em fim de ciclo parlamentar e de forma apressada, estamos em pré-campanha eleitoral, levar à discussão uma proposta de alteração à legislação sobre a IVG.
Das alterações aprovadas relevam o pagamento de taxas moderadoras, a obrigatoriedade da mulher se submeter a consultas de aconselhamento psicológico e a possibilidade, antes negada, de nessas consultas participarem médicos objectores de consciência.
Esta decisão merece alguma reflexão.
No que respeita às taxas moderadoras que s espera, dizem, moderar o recurso à IVG seria de recordar, os dados são conhecidos mas os deputados que aprovaram a lei esforçam-se por ignorá-los, que estando em baixa como disse os casos de IVG, é entre mulheres desempregadas e mulheres muito jovens que se verificam mais situações de IVG. Assim sendo, a introdução de taxas moderadoras representa um agravamento das dificuldades das pessoas.
No entanto, o que parece mais inquietante é a obrigatoriedade da consulta de apoio psicológico que será, muito provavelmente, uma consulta de pressão psicológica sobre a mulher para que não interrompa a gravidez. Para assegurar o efeito até participam na consulta os objectores de consciência  o que antes não era possível, por razões óbvias.
A esmagadora maioria das mulheres que recorre à IVG não o faz de ânimo leve e de forma irresponsável. Submetê-las a uma eventual sessão de pressão psicológica para que não o façam é inaceitável, é violento e fragiliza-as.
Gostava que os deputados que aprovaram as alterações à lei entendessem que a interrupção voluntária da gravidez, situação que, creio, ninguém deseja, decorre frequentemente de gravidezes indesejadas, mães adolescentes, por exemplo, felizmente em abaixamento, ou de questões que se prendem com as condições de vida que dificultam projectos de maternidade. 
Assim sendo, seria mais importante que se considerassem duas vias de análise e desenvolvimento de políticas nesta matéria, a maternidade e a família.
Em primeiro lugar sublinhar a importância da informação e acção educativa preventiva de gravidezes indesejadas, sobretudo entre as mulheres muito novas.
Por outro lado, é imprescindível considerar a posição da mulher e as dificuldades das famílias nas nossas comunidades. Os salários baixos são uma das razões que “obrigam” a que as famílias revejam em baixa, como agora se diz, os projectos relativos a filhos. Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que, naturalmente, é igualmente um obstáculo para projectos de vida que envolvam filhos e que, por vezes estão dramaticamente na base do recurso à interrupção voluntária da gravidez.
Tudo isto torna necessária e urgente a definição de verdadeiras políticas de apoio à família e à maternidade o que seguramente contribuiria para baixar o recurso a uma situação, que, insisto, a esmagadora maioria das mulheres que a ela recorre não deseja mas a isso, por várias razões, se sentem "obrigada".
A legislação agora aprovada, destrata as mulheres e não ajuda a minimizar os casos de IVG.

A PREGUIÇOSA VIDA DOS PREGUIÇOSOS PORTUGUESES


Portugueses são dos que menos férias têm

Estes dados apenas evidenciam o que todos sabem mesmo os que teimam em produzir opiniões noutro sentido.
É claro que também seria interessante comparar os dados actuais dos níveis salarias em função das horas de trabalho. Sim eu sei que tempo de trabalho não tem relação directa com produtividade mas como indicador é pertinente.
Dá tanto jeito vender a ideia de que os preguiçosos do Sul não trabalham e por isso merecem a pobreza. Temos assistido a uma despudorada e intencional manipulação de dados para intoxicar as opiniões públicas de muitos países incuindo por cá. 
A estatística é uma chatice, dá cabo dos preconceitos.
Ou não.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A SÍNDROME DOS NÚMEROS TORTURADOS

Como é sabido, os Governos, todos os Governos, são afectados por uma síndrome que conhece episódios agudos em períodos pré-eleitorais, a chamada Síndrome dos Números Torturados.
Submetem-se os números disponíveis sobre as várias dimensões da realidade da vida das comunidades a um violento programa de tortura e manipulação até que confessem o que os torturadores pretendem que os números digam.
Formas mais violentas desta Síndrome podem inclusivamente levar a programas de solução final, a designada "limpeza técnica".
Não são ainda conhecidos tratamentos ou antídotos eficazes para combater esta Síndrome mas estudos recentes apontam para o impacto positivo que pode ter um reforço da transparência e da acessibilidade à informação e aos dados por parte da sociedade civil, um reforço da qualidade da democracia e a criteriosa escolha dos governantes que, independentemente da sua opção partidária, devem passar por rigoroso escrutínio da sua envergadura ética e eventuais conflitos de interesse.

DO EXERCÍCIO DO PODER


É uma situação pela qual já todos alguma vez passámos. Ter poder, qualquer forma de poder, quando não se tem solidez éticao para o administrar é um risco.
Quando o exercício desse poder tem impacto significativo na vida de outras pessoas, o risco é ainda maior.
No entanto, como também sabemos, ética, valores, preocupação com os outros e o seu bem-estar são matérias cujo importância tem sido revista em baixa.
A mediocridade da maioria das lideranças que gerem os nossos destinos é confrandegora e inquietante.
O resultado é pobreza e exclusão e um salve-se quem puder em nome da competição, do darwinismo social fruto da acção dos deuses mercados através dos feitores a quem delegam (alguns) poderes.

terça-feira, 21 de julho de 2015

UMA HISTÓRIA COM FUTUROS

Um dia destes encontrei-me com aquele meu amigo que vocês conhecem, o Professor Velho, aquele que já não dá aulas, está na biblioteca da escola e fala com os livros. “Ainda bem que te encontro, tenho uma história que me aconteceu ontem, boa para o teu blogue, não é assim que se chama?” “Conta, Velho”.
“Fui a um a turma, pessoal dos oito anos, falar com eles sobre o passado e sobre o futuro e para poder falar sobre o futuro lembrei-me de lhes pedir uma originalidade, o que gostavam de fazer quando crescessem e porquê. Apareceram-me umas respostas que me deixaram a pensar. Não consegui fixar todas, a seguir tivemos uma bela conversa, mas vou dizer-te algumas.
O Manel quer ser Leitor de Livros porque adora ler, agora não tem tempo, está todo o dia na escola sempre a fazer coisas e à noite tem trabalho de casa, janta e dorme. Ao fim de semana os pais levam-no o tempo todo para o Centro Comercial.
A Maria acha que vai ser Brincadora porque, pelas mesmas razões do Manel, não tem tempo para brincar.
A Joana diz que vai ser Faladora, gosta de falar com as pessoas e as pessoas falam pouco com os miúdos.
O Francisco disse que gostava de ser Neto para poder ter um avô.
O Mário quer ser Espectador para poder ver as coisas que agora ninguém o leva a ver.
A Cláudia gostava de ser Pequena porque agora, diz ela, tem uma vida com mais trabalho que os grandes.
O Zé disse que vai ser Relógio para mandar no tempo.
Que achas do futuro que escolhem?”
Está muito longe, Velho.

A CANDIDATURA DE SAMPAIO DA NÓVOA

O surgimento da candidatura de Sampaio da Nóvoa à Presidência da República, as reacções e discursos que tem suscitado para a apoiar e para a combater, constituem um processo profundamente elucidativo relativamente ao cenário político português e à necessidade de mudanças significativas e urgentes.
Como muitas vezes tenho referido, o modelo e cultura política instalados há décadas na nossa comunidade, a partidocracia, fomentam, explicita ou implicitamente, o afastamento de grande parte dos cidadãos da participação cívica activa pois, basicamente, ela corre por dentro ou sob tutela dos aparelhos partidários. Aliás, os níveis crescentes e muito altos da abstenção em sucessivas eleições espelham isso mesmo.
De facto, no actual quadro político-administrativo é muito difícil a intervenção cívica, no sentido político, fora da tutela dos aparelhos partidários cuja praxis e discursos criaram um partidocracia que minou a confiança e tem provocado o afastamento dos cidadãos pelo que se percebe a afirmação da necessidade de mudança.
Verifica-se também que a capacidade de mobilização dos partidos se dirige, sobretudo, a uma minoria de pessoas que emerge dos respectivos aparelhos que, assim, podem aceder e manter alguma forma de poder e a uma maioria que enche autocarros, recebe uns brindes e tem um almocinho de borla. A partidocracia não atrai porque os partidos se tornam donos da consciência política das pessoas, veja-se o espectáculo deprimente da Assembleia da República, salvo honrosas excepções vota-se o que o partido manda, independentemente da consciência.
Reconhece-se hoje que as camadas mais novas, sobretudo mas não só, atravessam uma complexa situação envolvendo os valores, a confiança nos projectos de vida, os estilos de vida, etc. Neste quadro, a adesão à intervenção política, tal como se verifica genericamente em Portugal, parece mais uma parte do problema, é velha a partidocracia para responder a problemas novos, que um caminho para a solução.
Creio que o descontentamento e desconfiança de muitos dos cidadãos, traduzidos em percentagens de abstenção acima dos 50%, mostram que importa pensar numa participação política para lá dos partidos, várias manifestações com grande mobilização que escaparam à lógica da partidocracia, bem como iniciativas de grupos de cidadãos mobilizados por causas ou algumas candidaturas verdadeiramente fora do espectro partidário, dão sinais nesse sentido.
De tudo isto resulta, como muitas vezes refiro, o afastamento das pessoas pelo que a construção de outras formas de participação cívica parece ser a única forma possível de reformar o quadro político que temos, ou seja, os partidos ou definham ou mudam, pela pressão do exterior.
Existe, tem que existir política para além dos partidos, que se reformam ou tenderão a implodir com riscos para própria democracia cuja saúde já está debilitada.
É neste cenário que a candidatura de Sampaio da Nóvoa pode ser um verdadeiro sinal de mudança.
No entanto, é curioso e, sobretudo, preocupante, atentar nas reacções que emergem à candidatura dentro dos aparelhos partidários e mesmo em alguma comunicação social que combate Sampaio da Nóvoa e descaradamente promovem figuras, pacíficas, cinzentas mas que pertencem à partidocracia, serão mais do mesmo.
São exemplos destas reacções, a pressão dentro do PS, de Francisco Assis ou de um “aparelhista encartado” como Sérgio Sousa Pinto, para que o partido não vá atrás do “radicalismo”, da visão de “esquerda”, “inexperiência política” de Sampaio da Nóvoa e, mais recentemente a promoção apressada e reactiva da figura altamente “mobilizadora” de Maria de Belém, um símbolo da mudança necessária na sociedade portuguesa.
No mesmo sentido, o Expresso ou mesmo o Correio da Manhã em editorial do Director, rejubilam com a hipótese de Maria de Belém, com sondagens “muito favoráveis” que poderá travar a “histeria” que a candidatura de Sampaio da Nóvoa estará a provocar.
Não defendo que a candidatura de Sampaio da Nóvoa se afirme contra os partidos, estes são essenciais em democracia, mas é importante que não se sustente nos aparelhos partidários que, mais cedo ou mais tarde terão a tentação de lhe retirar independência, de lhe cercear uma visão inteira da sociedade portuguesa e do seu rumo.
Continuo a pensar, já o disse, que ouvindo as intervenções de Sampaio da Nóvoa e muito do que vou ouvindo e lendo como argumentação contrária mais se sedimenta a minha convicção de que a sua candidatura pode ser um fortíssimo contributo para um processo de mudança absolutamente necessário.
Ainda mais necessário é num país que teve na Presidência da República uma figura que não serviu o que se espera das suas competências e actuação ao serviço dos portugueses, de todos os portugueses.
Será difícil, mas será possível.

PS – Registo de interesses, integro a Comissão de Candidatura de Sampaio da Nóvoa.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

SAÚDE MENTAL, O PARENTE POBRE DAS POLÍTICAS DE SAÚDE

De corda ao pescoço pela falta de apoio à saúde mental em Portugal

Desculpem a insistência mas é necessário, a saúde mental é o parente pobre das políticas de saúde.
De acordo com o Relatório do programa da União Europeia "Joint Action on Mental Health and Well-being" hoje apresentado, Portugal está muito longe do desejável no que respeita à prestação de cuidados no domicílio e serviços na comunidade a pessoas com doença mental. Estima-se que menos de 20% dos doentes tenha acesso a este tipo de cuidados. O coordenador do Programa, Caldas de Almeida, afirma, “A maior parte dos hospitais continuam a fazer tudo no hospital e muito pouco cá fora”.
Acresce que segundo o relatório Portugal – Saúde Mental em Números 2014, divulgado em Dezembro pela Direcção-Geral da Saúde e na linha de dados anteriores, Portugal tem uma das mais altas prevalências de perturbações de saúde mental, mais de um quinto da população portuguesa, 22.9%. Esta prevalência potencia os efeitos desta má opção.
A ausência de respostas adequadas leva a um recurso excessivo à prescrição de psicofármacos mesmo em situações não justificadas.
Também o estudo Trajectórias pelos Cuidados de Saúde Mental em Portugal, promovido pela Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental e publicado em Março, defendia o encerramento, positivo entenda-se, dos hospitais psiquiátricos não foi acompanhado da criação de serviços na comunidade pelo que a desinstitucionalização falhou e “agravou os problemas de muitos doentes”. Afirmava-se no Relatório que a Rede de Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental não se concretizou e escasseiam os recursos.
Entretanto, em Maio, o Governo anunciou para Junho o arranque deste Projecto. No entanto e com alguma surpresa o programa assentará na construção de unidades e aumento do número de camas na tutela, das Misericórdias e de outras instituições de solidariedade social. A opção foi e é criticada pelo director do Programa Nacional para a Saúde Mental que entende por mais ajustado a aposta em equipas comunitárias e apenas um número reduzido de camas para situações mais críticas de adultos ou crianças para as quais faltam de facto, camas levando ao seu inaceitável internamento em serviços para adultos.
Na verdade, as orientações actuais e matéria de saúde mental, quer do ponto de vista científico, quer do ponto de vista dos custos, determinam que a qualidade e eficácia deste tipo de apoios, deve, tanto quanto possível, assentar em estratégias de proximidade, aproximando, assim, o serviço clínico da comunidade e da vida quotidiana das pessoas.
Os modelos defendidos pela comunidade científica actual, a defesa dos direitos humanos e da qualidade de vida, tornaram insustentável a manutenção das grandes instituições psiquiátricas que encerravam muitas câmaras de horrores e casos de isolamento e privação. Ainda me lembro do incómodo causado por visitas realizadas no início da minha formação ao Hospital Júlio de Matos. Este universo é bem retratado no mítico “Jaime” de António Reis e Margarida Cordeiro.
No entanto, este movimento de retirada das pessoas com doença mental das grandes instituições não está a ser devidamente suportado pela criação de unidades locais que providenciem apoio terapêutico, social e funcional tão perto quanto possível das comunidades de pertença dos doentes e com o mínimo recurso ao internamento. Aliás. a intenção do Governo divulgada em Maio mostra um sentido contrário.
Tal opção, parece claro, cria sérios obstáculos aos processos de reabilitação e inserção comunitária acentuando ou mantendo os fenómenos de guetização das pessoas com doença mental e respectivas famílias.
Não estranho, os doentes mentais são os mais desprotegidos dos doentes, pior, só os doentes mentais idosos. Os custos familiares e sociais da guetização e da insuficiência de respostas são enormes e as consequências são também um indicador de desenvolvimento das comunidades.

OUTRA HISTÓRIA DA INCLUSÃO

Numa altura em que se aproxima a realização em Lisboa do 8th Inclusive and Supportive Education Congress – ISEC 2015, deixo-vos outra história da inclusão.
Era uma vez uma reunião, desculpem mas as histórias têm que começar assim, em que um grupo de gente da educação discutia o trabalho realizado com os alunos integrados numa Unidade de Multideficiência. O objectivo era tentar perceber qual o grau de participação desses alunos nas actividades regulares como os seus colegas.
A certa altura foi descrito o envolvimento muito baixo, sublinhe-se, nas actividades da disciplina de Educação Física.
O grupo estranhou porque era apenas referido o trabalho dessa disciplina.
A resposta foi clara, trata-se da única disciplina em que os alunos com necessidades educativas especiais estavam com os seus colegas.
Acresce que os alunos que frequentam esta Unidade de Multideficiência não são … multideficientes, o que é conhecido sobre eles não valida um “rótulo” de multideficiência.
Como sempre, este funcionamento está ao abrigo dos normativos que, também como sempre, promovem a inclusão. Sublinho que não pretendo diabolizar técnicos, professores ou direcções, trata-se de percebermos a trama de que também se tece o universo da educação em Portugal.
De facto, quando partilho este tipo de histórias, por assim dizer, nunca me esqueço do que de muito bom se vai fazendo em muitas comunidades em matéria de educação de qualidade que envolva todas as crianças e adolescentes.
A intenção é, por um lado, mostrar a falta de regulação do trabalho que é feito levando a que coexistam excelentes práticas educativas com situações dificilmente inaceitáveis, e, por outro lado, acentuar o longo caminho que temos a percorrer apesar do longo caminho já percorrido.

UMA PÁGINA NEGRA DA DIPLOMACIA PORTUGUESA

Um ano depois, ensino do português chegou a sete funcionários da Guiné Equatorial

Confirma-se o que na altura escrevi como sendo umas páginas mais negras da diplomacia portuguesa nos tempos mais recentes, a admissão da Guiné Equatorial como membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
O Dr. Rui Machete, Ministro português(?) dos Negócios Estrangeiros afirmava em 2 de Março que não "existiam razões para duvidar" da palavra da Guiné Equatorial. A realidade bem conhecida e documentada desmente, obviamente, a afirmação do do Dr. Machete, vendido aos "negócios estrangeiros" no sentido literal do termo.
Como é evidente, a não ser que seja por "honoris causa" de que se não vislumbra a razão, não se percebe muito bem como um país que tem como língua oficial o castelhano, foi uma antiga colónia de Espanha, iria administrativamente mudar a sua língua oficial e passar a falar português para integrar a CPLP.
É ainda reconhecido o regime ditatorial, cleptocrata e corrupto que a governa, com a família governante perseguida pela justiça internacional, a miséria brutal em que vive a esmagadora maioria do seu povo, desrespeito absoluto por direitos humanos incluindo a pena de morte em vigor, etc.. As promessas assumidas para “comprar” a entrada na CPLP não passam disso mesmo promessas, os ditadores não se reciclam.
Esta adesão, um "final feliz" como lhe chamou uma figura ímpar da diplomacia portuguesa, o Secretário de Estado Campos Ferreira, constituiu um favor ao regime que lhe permite branquear a sua imagem e minimizar o crescente isolamento na comunidade internacional.
É certo que a CPLP corre também o risco de se transformar em Comunidade dos Países de Língua Acordesa, mas a entrada de um país de língua castelhana ou, uma nova variante transitória, o "conhecido portunhol" é algo de estranho, no mínimo.
Não terá qualquer relação com este processo, evidentemente, o facto da Guiné Equatorial ser o terceiro maior produtor de petróleo da África subsariana.
Talvez Rui Machete quando referia que não tinha razões para duvidar do regime da Guiné Equatorial tivesse em mente as promessas de "negócios estrangeiros" que comprem esta adesão e a tentativa de branqueamento internacional.
Uma "sem vergonhice" da diplomacia portuguesa decorrente da "realpolitik".

domingo, 19 de julho de 2015

A ESCOLHA DO CURSO

Inicia-se amanhã o processo de candidatura ao ensino superior que se prolongará por algum tempo e a questão em torno da escolha do curso reentra na agenda embora, provavelmente, muitos dos alunos tenham a decisão tomada. A imprensa dedica hoje um espaço significativo a esta matéria sublinhando a diminuição das vagas disponíveis embora se mantenha ainda uma enorme e diversificada oferta.
É também disponibilizada, e nem sempre tratada da melhor forma, informação da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência relativa a diplomados e empregabilidade.
Do meu ponto de vista importa aprofundar ao esforço de racionalização e reorganização da rede do Ensino Superior em Portugal de forma a corrigir enviesamentos significativos com consequências, quer ao nível da qualidade da formação, quantidade é pouco compatível com qualidade, quer da empregabilidade.
No entanto, para além desta questão, nesta altura coloca-se sempre o problema da escolha e dos critérios a considerar em caso de dúvidas.
Nesta perspectiva, algumas notas, sublinhando desde logo a importância da formação qualificada que nunca é demais enfatizar num país em que os níveis de qualificação de nível superior são insuficientes.
No que respeita à escolha do curso, a questão mais colocada pode ser assim enunciada, os jovens deverão seguir a sua motivação e interesse ou a escolha deve obedecer ao que se conhece do mercado de trabalho, isto é, nível de empregabilidade e saídas profissionais tão abordadas pela imprensa nesta altura?
Para muitos de nós, provavelmente, a resposta será fácil, seja num sentido ou no outro. Alguns dirão que cada jovem deve, obviamente, seguir o seu desejo, o seu gosto, só assim se realizará. Ideia romântica e sem noção da realidade que corre o sério risco de desembocar no desemprego, dirão outros, para os quais a escolha deve ser racional, pragmática, realista, o jovem deve procurar uma formação que lhe garanta, tanto quanto possível, saída profissional e para isso deve "estudar" o mercado e assim proceder à escolha. Os primeiros acharão que este entendimento pode levar a um risco de frustração e desencanto que podem instalar-se em quem "faz o que não gosta".
Na verdade não será fácil a escolha para muitos jovens a que acresce, frequentemente, a pressão familiar ou de outras pessoas para a "escolha acertada".
Dito isto, sou dos que entendem que cada um de nós deve poder escrever, tanto quanto as circunstâncias o permitirem, a sua narrativa, cumprir o seu sonho. Por outro lado, a vida também nos ensina que é preciso estar atento aos contextos e às condições que os influenciam, sabendo ainda a volatilidade e rapidez com que hoje em dia a vida acontece e rápida variabilidade dos mercados de trabalho.
Nesta perspectiva, parece-me importante que um jovem, sabendo o que a sua escolha representa, ou pode representar, nas actuais, sublinho actuais, condições do mercado de trabalho, faça a sua escolha assente na motivação ou no projecto de vida que gostava de construir e, então, informar-se sobre as opções, sobre as escolas e respectivos níveis de qualidade a que pode aceder para se qualificar.
Finalmente, do meu ponto de vista, boa parte da questão da empregabilidade, mesmo em situações de maior constrangimento, relativiza-se à competência, este é o ponto fulcral.
Na verdade, o que frequentemente me inquieta é a ligeireza com que algumas pessoas parecem encarar a sua formação superior, assumindo logo aqui uma atitude pouco "profissional", cumprem-se os serviços mínimos e depois logo se vê. A formação académica é mais do que um título que se cola ao nome, é um imprescindível conjunto de saberes e competências que sustentam um projecto de vida pessoal e profissional com melhores perspectivas de sucesso.
Mesmo em áreas de mais baixa empregabilidade, ou assim entendida, continuo a acreditar que, apesar dos maus exemplos que todos conhecemos, a competência e a qualidade da formação e preparação para o desempenho profissional, são a melhor ferramenta para entrar nesse "longínquo" mercado de trabalho.
Dito de outra maneira, maus profissionais terão sempre mais dificuldades, esteja o mercado mais aberto ou mais fechado.
Boa sorte e boa viagem para todos os que vão iniciar agora esta fase fundamental nas suas vidas.

DO SUCESSO EDUCATIVO

De uma forma telegráfica destaco como eixos identificados como factores de sucesso, a descentralização e autonomia real das escolas e dos professores e a simplificação das estruturas curriculares permitindo a maior liberdade nas escolhas metodológicas dos professores, incluindo os manuais.
As escolas têm um papel central na escolha dos docentes e existem exames ao 6º, 9º e e final do secundário sendo que no 6º ano não têm impacto no trajecto dos alunos, apenas servem como aferição externa do tajecto do alunos.
De facto, vale a pena ler todo o trabalho. Do meu ponto de vista poderiam ser inspirador do que por cá se vai decidindo em matéria de política educativa.
Uma nota ainda. O Público fez-me um gentil convite para em registo vídeo colaborar neste trabalho.

sábado, 18 de julho de 2015

INDISCIPLINA ESCOLAR. PROBLEMAS NOVOS, SOLUÇÕES NOVAS

Os professores inquiridos referem (por esta ordem) a família, as políticas educativas, os alunos, as direcções de escola e os próprios professores como factores contributivos para situações de indisciplina
Outros estudos sugerem que uma parte bastante significativa do tempo dos professores em sala de aula é gasta na gestão do comportamento dos alunos em detrimento das tarefas de ensino.
Algumas notas.
Em primeiro lugar julgo que importa clarificar o que está em causa. Permitir, por exemplo, que um telemóvel toque na sala de aula ou outros comportamentos desadequados em sala de aula ou na escola serão indisciplina, insultar, humilhar, confrontar fisicamente um professor, comportamentos frequentes de agressão ou roubos a colegas configuram pré-delinquência ou delinquência e comportamentos disruptivos podem ainda estar ligados a perturbações de natureza psicológica.
A escola não pode ser responsabilizada e considerada competente por e para todo este universo de problemas nos comportamentos dos mais novos. Para situações de pré-delinquência ou perturbações do comportamento pode, evidentemente, dar contributos mas não assumir a responsabilidade pelo que importa clarificar a análise.
Centremo-nos então na indisciplina escolar que considero matéria de competência da escola e matéria de responsabilidade de toda a comunidade, incluindo os pais, naturalmente, e todas as figuras com relevância social, por exemplo, não se riam, políticos ou jogadores de futebol.
O Estatuto do Aluno, no qual o MEC depositava públicas esperanças que me pareceram, desde sempre, sobrevalorizadas e desadequadas face aos seus conteúdos e à realidade das escolas e comunidades actuais, qualquer que seja, é um regulador, melhor ou pior, mas nunca A solução e, pela mesma razão, nunca será A causa da indisciplina. Daí a minha reserva face aos discursos do MEC acreditando que do lado de fora da escola os problemas se resolverão.
Parece-me também de referir que todas as figuras sociais a que se colam traços de autoridade por exemplo, pais, professores, médicos, polícias, idosos, etc., viram alterada a representação social sobre esses traços. Dito de outra maneira, o facto de ser velho, polícia, professor ou médico, já não basta, só por si, para inibir comportamentos de desrespeito pelo que importa perceber o impacto destas alterações nas relações entre professores e alunos.
As mudanças significativas no quadro de valores e nos comportamentos criam dimensões novas em torno de um problema velho, a indisciplina. Daqui decorre, por exemplo, que restaurar a autoridade dos professores, tal como era percebida há décadas, é uma impossibilidade porque os tempos mudaram e não voltam para trás. Pela mesma razão, não se fala em restaurar a relação pais – filhos nos termos em que se processava antigamente e falar da "responsabilização" dos pais é interessante, mas é outro nada.
Um professor ganha tanta mais autoridade quanto mais competente e apoiado se sentir. O apoio aos professores é um problema central no que respeita à indisciplina mas não só.
Assim sendo, o MEC não pode desenvolver políticas que socialmente deixem o professor desapoiado, que comprometam o clima e a qualidade de trabalho nas escolas e, simultaneamente, afirmar que vai restaurar a sua autoridade e promover a sua valorização social. Também por isto se questiona a incompetente constituição de mega-agrupamentos e de escolas e turmas com dimensões excessivas, variável associada à indisciplina escolar.
É também importante reajustar a formação de professores. As escolas de formação de professores não podem “ensinar” só o que sabem ensinar, mas o que é necessário ser aprendido pelos novos professores e pelos professores em serviço. Problemas "novos" carecem também de abordagens "novas".
Parece também importante a existência de estruturas de mediação entre a escola e a família o que implica a existência de recursos humanos qualificados e disponíveis. Veja-se o trabalho dos GAAFs apoiados pelo IAC, experiências no âmbito da intervenção da Associação EPIS ou iniciativas que algumas escolas conseguem desenvolver e que permitam apoiar os pais dos miúdos maus que querem ter miúdos bons e identificar as situações para as quais, a comprovada negligência dos pais exigirá outras medidas que envolvam, eficazmente e em tempo oportuno as CPCJ.
Um caminho de autonomia, com a alteração desejável dos modelos de organização e funcionamento das escolas e na gestão curricular, deveriam permitir que as escolas, algumas escolas, mais problemáticas tivessem menos alunos por turma, mais assistentes operacionais com formação em mediação e gestão de conflitos ou ainda que se utilizassem, existindo, professores em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades.
Por outro lado, os estudos e as boas práticas mostram que a presença simultânea de dois professores é um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos.
As dificuldades dos alunos estão com muita frequência na base do absentismo e da indisciplina, os alunos com sucesso, em princípio, não faltam e não apresentam grandes problemas de indisciplina.
Os professores também sabem que na maior parte das vezes, os alunos indisciplinados não mudam os seus comportamentos por mais suspensões que sofram. É evidente que importa admitir sanções, no entanto, fazer assentar o combate à indisciplina nos castigos aos alunos e, eventualmente, nas multas e retirada de apoios aos pais, é ineficaz, é facilitista na medida em que é a medida mais fácil e mais barata, é demagógica porque vai ao encontro dos discursos populistas que aplaudem a ideia do "prender" do "expulsar" até ficarem só os nossos filhos.
O problema é quando também nos toca a nós, aí clamamos por apoios.
Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem-intencionados, não são um bom serviço à minimização dos muito frequentes incidentes de indisciplina que minam a qualidade cívica da nossa vida além, naturalmente, da qualidade e sucesso do trabalho educativo de alunos, professores e pais.

GOSTEI DE LER A ENTREVISTA DE MÁRIO CORDEIRO AO I

A ler. A lucidez e a sabedoria do Professor Mário Cordeiro.
Mário Cordeiro. “Há mais crianças que se sentem infelizes, tristes e deprimidas. Até bebés...””

DOS MANUAIS ESCOLARES


Para além dos efeitos, de natureza pedagógica e didáctica da excessiva “manualização” do ensino em Portugal, bem como da utilização de um enorme conjunto de complementos, CDs, cadernos de fichas, cadernos de actividades, etc., os custos para as famílias são brutais apesar da escolaridade obrigatória ser "gratuita”conforme o disposto na Constituição.
Ainda há poucos dias escrevi aqui no Atenta Inquietude e para o Público um texto sobre esta questão.
Continuo a pensar que seria de considerar a possibilidade dos manuais escolares serem disponibilizados pelas escolas e devolvidos pelos alunos no final do ano lectivo ou da sua utilização, sendo as famílias penalizadas pelo seu eventual dano ou extravio e ficando, assim, com "folga" para aquisição de outros materiais, livros por exemplo.
Como é evidente, dentro desta perspectiva, a própria concepção dos manuais escolares deveria ser repensada no sentido de permitir a sua reutilização.
Não esqueço, no entanto, o peso económico deste mercado e como são os mercados que mandam ...
Aliás, os interesses dos mercados não devem ser alheios às situações referidas na queixa do Movimento pela Reutilização dos Livros Escolares.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

DA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL

Segundo Jaime Carvalho e Silva, docente da Universidade de Coimbra, especialista em ensino da Matemática, coordenador do projecto de investigação "Comparaçãodos exames nacionais em Portugal com os de 12 outros países" afirma, como conclusões do estudo que em Portugal "não há planos, nem há ideias. As medidas são tomadas de forma avulsa, sem que haja uma visão global das competências que um aluno deve ter no fim do ensino secundário". A educação é “muito teórica", com demasiados exames, pouco flexível e com um sistema feito "à base do remendismo".
Muita gente tem vindo a afirmar, nestes ou noutros termos, algumas destas características no nosso sistema educativo e que lamentavelmente não têm encontrado eco nas políticas educativas.
Sendo certo que a avaliação externa é importante, também o Presidente do IAVE afirmou em entrevista recente que os exames não estão a ter impactos nas aprendizagens.
Na verdade, para além do que se faz em matéria de avaliação, imprescindível repito, importa considerar a necessidade de que as escolas possuam meios e recursos qualificados para apoiar as dificuldades de alunos e professores. Um exemplo que a experiência e investigação suportam será o recurso a parcerias pedagógicas, dispositivo com designações variadas. Estes apoios devem ser disponibilizados o mais cedo possível, logo na detecção de eventuais problemas e durante todos os anos de cada ciclo não privilegiando os anos com exame ou as aulas de compensação em final de ciclo.
Importa considerar e analisar o peso que na qualiidade das aprendizagens tem o modelo de currículos em vigor, extensos, prescritivos assentes num excessivo número metas curriculares que criam grande constrangimento aos professores para acomodar as diferenças entre os alunos, a característica mais óbvia de qualquer sala de aula actual.
Será também necessário incrementar a possibilidade para promover diferenciação no trabalho dos professores, com menos alunos por turma por exemplo, aumentar a diferenciação de percursos mas procurando evitar a ideia de que existem trajectos de primeira para os melhores alunos e trajectos de segunda para os menos dotados ou “sem jeito para a escola”.
Finalmente, será necessário que se definam políticas educativas que sustentem um quadro normativo desburocratizado, descentralizado e coerente que promovam modelos adequados de organização e funcionamento das escolas num quadro real de autonomia, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc.