segunda-feira, 27 de abril de 2015

DOS JOBS FOR THE BOYS AND GIRLS.

Quando li confesso que tive alguma dificuldade em acreditar.
João Bilhim referiu ainda que sentiu "muito desconforto"  pois nunca pensou que "acontecesse o que aconteceu", citando, "Entristeceu-me imenso. Acreditei profundamente que o membro do Governo ia escolher aleatoriamente. Nunca previ que existisse uma preocupação, uma fome tão grande, achava que, enfim... Desconsolou-me. Não gostava que isso tivesse acontecido, sempre achei que o Governo iria escolher em termos técnicos, não iam ligar à ligação política ou partidária".
Na verdade também não me senti nada bem com estas declarações patéticas do presidente da CRESAP. Das duas uma, ou tem estado emigrado há décadas sem qualquer contacto ou notícia com o tecido político e administrativo em Portuga ou então é de uma ingenuidade que me deixa preocupado. Alguém que o acorde, por favor.
De facto, se por cá vivesse e/ou estivesse minimamente atento saberia, para além da experiência diária de qualquer cidadão,  que, por exemplo, um trabalho realizado na Universidade de Aveiro, divulgado em Fevereiro de 2014, que estudou as nomeações, cerca de 11 000 em 15 anos, dos governos de diferentes cores partidárias para a hierarquia da administração pública e concluiu, de forma completamente inesperada, que o critério predominante é o cartão partidário, com o objectivo de controlar as políticas públicas e pagar ou antecipar o pagamento de favores, serviços e fidelidades.
A questão que todos sabemos, à excepção aparente do Professor João Bilhim, é que nas últimas décadas, assistimos à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos instalada uma partidocracia que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do Estado. Esta teia associa-se à intervenção privada sobretudo nos domínios, e são muitos, em que existem interesses em ligação com o estado, a banca e as obras públicas são apenas exemplos. Aliás, os últimos tempos têm sido particularmente estimulantes nesta matéria.
Este cenário é desde cedo preparado e alimentado através de uma das formas mais eficazes de progressão social e profissional existente em Portugal, a pertença a uma juventude partidária, sobretudo, naturalmente, nos partidos do chamado arco do poder, veja-se quem desempenha as lideranças partidárias nos diferentes partidos.
Há algum tempo, também o Público fez um levantamento da rapaziada mais novinha, sem currículo relevante, académico ou profissional que enxameia gabinetes ministeriais e os números são curiosos. Como característica comum têm a pertença à "sua" jota onde desempenharam cargos que os catapultam para assessores ou deputados e são o início de uma bela e promissora carreira, numa despudorada utilização da administração pública, central, local e empresarial para a distribuição de alguns jobs para os promissores boys e girls.
A sociedade portuguesa está cheia de exemplos deste tipo de percursos nas suas diferentes fases.

A METADE DO CÉU

Estes dados vão no mesmo sentido de trabalho anterior da OCDE, “Closing the Gender Gap: Act Now, sendo que nesse estudo as mulheres portuguesas eram as quartas mais “trabalhadeiras”.
Curiosamente no relatório Society at a Glance 2011, Portugal ocupava o mesmo lugar do ranking de “trabalhadeiras”, o quarto, na diferença entre homens e mulheres.
Também em 2011, um estudo realizado pela Intersindical com base em dados do INE e do Ministério do Trabalho mostrava que as mulheres portuguesas trabalham média 39 horas semanais e realizam mais 16 horas de trabalho não remunerado relacionado com a família. Um outro trabalho internacional revelava que as mulheres portuguesas são das que mais tempo trabalham fora de casa. Existem também indicadores sustentando que as mulheres portuguesas são de entre as europeias as que mais valorizam a carreira profissional e a família, a maternidade.
Este conjunto de indicadores ilustram as dinâmicas familiares actuais e ajudam, também a entender as dificuldades e inibição que muitas famílias sentem em integrar filhos nos seus projectos de vida e o consequente envelhecimento e ausência de renovação geracional.
É evidente que as questões não são exclusivamente de natureza económica, os valores e a condição da mulher nas diferentes comunidades desempenham um papel crucial e interagem com as questões económicas. Os salários são genericamente baixos e baixos e não podemos esquecer a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc. Pode também referir-se que apesar das alterações legislativas o uso partilhado da licença por nascimento de filhos ainda é significativamente baixo.
Na verdade e apesar de algumas alterações que se vão sentindo, a metade do céu, que as mulheres representam, carrega um fardo pesado.

FAMÍLIA PRECISA-SE. URGENTE

A medida do apadrinhamento civil tem como destinatárias crianças que não tendo um projecto viável de adopção também não têm condições de vivência na sua família biológica. Os casos foram residuais o que surpreende ainda assim alguns especialistas que explicam a pouca adesão a este modelo pela falta de informação sobre o mesmo, incluindo profissionais que desempenham funções nesta área. Existem várias dezenas de crianças que estão institucionalizadas e que reúnem condições para o apadrinhamento civil.
Importa também acentuar que várias famílias referem as muitas dificuldades criadas para o processo de apadrinhamento. Por outro lado, há algum tempo e também a propósito desta situação, poucos casos, colocava-se uma outra questão, a existência de incentivos às famílias que apadrinhassem crianças.
De facto, desde o início se levantou a dúvida de que o facto da lei não prever incentivos às famílias que apadrinhassem crianças institucionalizadas poderia suscitar fraca adesão. Prevaleceu o entendimento de que não seria desejável "pagar" algo que, entende-se, será da natureza dos afectos e dos valores.
Na verdade a questão é complexa. É certo que já existem famílias de acolhimento que recebem temporariamente crianças durante processos de "reabilitação" das famílias biológicas, verificando-se situações em que o acolhimento dura até ao limite legal, 21 anos. Estas famílias recebem um montante pecuniário pelo "serviço" prestado às crianças.
Embora entenda as posições que recusam incentivos pecuniários às famílias, penso que seria de considerar a sua existência sendo que os "padrinhos" poderiam prescindir desses incentivos.
Creio que importa promover a desinstitucionalização das crianças por múltiplas e bem diversificadas razões. Como exemplo, um estudo recente da Universidade do Minho aponta no sentido de que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.
A conclusão não questiona, evidentemente, a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção ou outros dispositivos como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos.
Apesar de alguma evolução, ainda temos um elevado número de crianças institucionalizadas, muitas das quais sem projectos de vida viáveis pese o empenho dos técnicos. Neste universo, acresce a dificuldade enorme de algumas crianças em ser adoptadas devido a situações como doença, deficiência, existência de irmãos ou uma idade já elevada. Assim, muitas crianças estarão mesmo condenadas a não ter uma família.
Neste cenário, são altamente desejáveis diferentes modalidades que permitam que crianças, sem possibilidade de vivência nas suas famílias biológicas e sem condições de adopção, cresçam em contextos de natureza familiar mesmo que para tal se fosse necessário considerar a existência de incentivos de natureza económica pois, como refere uma técnica do Centro de Direito da Família e do Observatório Permanente da Adopção, "Se uma criança for desinstitucionalizada à custa do apadrinhamento civil já terá valido a pena".
Como afirma Laborinho Lúcio "só as crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas pelos seus pais”. Na verdade, muitas crianças não chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas e outras nem oportunidade têm de ser adoptadas.
Por outro lado, em muitas circunstâncias, citando Betelheim, "L'amour ne suffit pas".

汉语教学 (O ENSINO DO MANDARIM)

Com a presença de Nuno Crato foi inaugurado o Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro em cuja missão se integra a difusão do mandarim nas escolas portuguesas. Dá-se, assim mais um passo para cumprir o anúncio de Nuno Crato feito em Pequim em Maio de 2014, “Há uma grande notícia”. Aguçaram-se os espíritos face a uma grande notícia saída da 5 de Outubro e … “o ensino do mandarim vai integrar de forma opcional os currículos do 3º ciclo e do ensino secundário”.  
Na altura a comunidade educativa portuguesa exultou com o grande salto em frente.
Neste percurso do mandarim nas escolas portuguesas é justo realçar a experiência visionária da autarquia de S. João da Madeira que, no uso antecipado de competências municipais em matéria de currículo, tem vindo a promover o ensino do mandarim nas escolas do concelho. É já obrigatório no 1º ciclo, facultativo no 5º e vai estender-se até ao secundário.
A alguns menos avisados e até a alguns conservadores maledicentes que entendem que os problemas em matéria de currículo no sistema educativo português são bastante mais importantes e urgentes que o ensino do mandarim, a “grande notícia” podia levá-los a pensar, mais uma vez, “a montanha pariu um ©rato”. Estão errados, a decisão é, como sempre, genial.
Como sabem, o ensino do mandarim em Portugal está em alta, existe já uma oferta significativa para crianças, sobretudo no ensino particular, sempre muito atento ao mercado. Aliás, alguns pais ouvidos em trabalhos da imprensa, referem o impacto e importância futura que pode ter para as criancinhas o ensino do mandarim. O programa de privatizações que tem vindo a ser seguido autoriza esta ideia, a China foi o maior investidor em Portugal durante 2014, e consta que Eduardo Catroga, António Mexia e mais uns quantos também frequentam as aulas de mandarim.
Neste movimento de aproximação ao mandarim deve destacar-se o esforço visionário da autarquia de 聖約翰木 (S. João da Madeira), que já há algum tempo proporciona o ensino do mandarim em todas as escolas do 1º ciclo e tem como objectivo estender o seu ensino até ao 12º ano. Enquanto o Ministro Nuno Crato andou um pouco à deriva com o ensino do Inglês, S. João da Madeira, deu um passo em frente, antecipou a municipalização da educação em matéria de currículo e, para além do inglês, oferece o mandarim. Justifica a decisão como uma forma de antecipar futuros contactos comerciais com "o maior mercado da humanidade".
De início, ainda tive algumas dúvidas mas quando pensei melhor, é sempre tempo, comecei a perceber o alcance e a visão de decisões desta envergadura. De facto, um concelho em que todos saibam 普通話 (mandarim) é um concelho a entrar no futuro, um exemplo de antecipação do progresso, um concelho em privilegiadíssima posição negocial. Esqueçam a importância do inglês, do francês ou do alemão, são ferramentas antiquadas e inúteis. O nosso futuro passa pelo "maior mercado da humanidade", a ida de milhares de portugueses para a China e a vinda de milhões de chineses para Portugal, num tráfego infernal de charters, genialmente antecipada por Paulo Futre, exige que depois do português, ou mesmo em vez de, todos nós dominemos o普通話 (mandarim). Acresce que, como é sabido, a nossa generosa oferta de vistos Gold, apesar de alguns sobressaltos e negociatas, é muito significativamente aproveitada por cidadãos chineses que carregados de dinheiro chegam a Portugal e não têm com quem falar a não ser com os seus compatriotas de lojas e restaurantes. Não pode ser, nós portugueses temos de falar mandarim para que possamos receber os generosos cidadãos chineses que vêm realizar os seus investimentos em Portugal bem como os empresários chineses que vão comprando as nossas empresas
Os autarcas de S. João da Madeira (聖約翰木) e o Ministro da Educação (教育部) mostram como visão e audácia são o caminho para o futuro.
  

PS –Para o que der e vier ...  我也正在學習 (Também já estou a aprender) - Com o auxílio do tradutor do Google. Não sei se será uma boa escolha.

domingo, 26 de abril de 2015

PAÍS PARA VENDA

Portugal foi o país da UE com maior peso de investimento chinês em 2014


Vende-se
For sale
銷售本身
verkauft sich
se vende solo
se vend
自分自身を販売している
продает себя

Oportunidade única.
País em liquidação total com artigos de grande interesse.
Excelente investimento, clima excepcional, gastronomia impecável, lindas vistas.
Indígenas simpáticos, acolhedores, trabalhadores, tranquilos e com salários baixos.

Vendedores a contactar:

Passos Coelho
Pires de Lima
Paulo Portas

EQUÍVOCOS. Outro diálogo improvável

Posso jogar à bola com vocês?
Não, tu jogas pouco.
Isso é discriminação e estás a dar cabo da minha auto-estima. Vou fazer queixa.
Experimenta fazer queixas só por causa disto. Levas.
Isso é uma ameaça, chama-se bullying. Se me baterem chamo os meus amigos lá da rua.
Mas assim isto fica uma luta de gangs, não pode ser.
Não quero saber, quero é jogar à bola, já não consigo estar quieto.
És hiperactivo?
Não, só gosto de jogar à bola.
Mas agora a aula vai começar, já não dá.
Faltamos.
Não pode ser, isso é absentismo. Só se a gente entrasse, depois desatinava e a setôra punha-nos na rua e já jogávamos á bola.
Mas isso é indisciplina.
A escola está chata bué, não se pode fazer nada.
Ganda seca.

sábado, 25 de abril de 2015

UMA ESCOLA LÁ PARA TRÁS NO TEMPO

Nos últimos tempos, por razões que todos conhecemos e muitos sofrem não são raros os discursos de descrença e desesperança ouvindo-se enunciados como, "afinal o 25 de Abril ...", e ... "estamos como estamos".
Devo dizer que não simpatizo com este tipo de afirmações. Sendo certo que estamos atravessar tempos de chumbo e com a confiança em baixo, também é verdade que não é sequer possível comparar o país de hoje com o país de 1973. Para refrescar algumas memórias ou contar alguma história aos mais novos, deixem que vos fale um pouco da escola do meu tempo, o tempo dos anos cinquenta e sessenta. Escolho falar da escola porque é uma área que conheço um pouco melhor, mas poderia fazer o mesmo exercício em muitas outras áreas de funcionamento da nossa sociedade.
Não me esqueço, antes pelo contrário, que a nossa educação, a escola, como tudo o resto, atravessa um período complicado e com problemas muito sérios, mas só a falta de memória ou o desconhecimento sustentam o “antigamente era melhor”. Vejamos, pois, um pouco da escola do meu tempo, conversa de velho, já se vê.
A escola que havia lá para trás no tempo não era grande, nem pequena, era triste. A maioria das pessoas que por lá andavam era, naturalmente, triste.
As pessoas que mandavam na escola estabeleciam o que toda a gente tinha de aprender, fazer, dizer e pensar. Quem pensasse, dissesse ou fizesse diferente podia até sofrer algum castigo, mesmo os professores, não eram só os alunos. Não se podia inventar histórias, as pessoas contavam só histórias já inventadas. Às vezes, os miúdos e os professores, às escondidas, inventavam histórias novas. 
Eu andei nesta escola lá para trás no tempo. 
E na escola do meu tempo nem todos lá entravam e muitos dos que o conseguiam saíam ao fim de pouco tempo, ficando com a segunda ou terceira classe, como então se chamava. Chegava.
E na escola do meu tempo os rapazes estavam separados das raparigas.
E na escola do meu tempo havia um só livro e toda a gente aprendia apenas o que aquele livro trazia.
E na escola do meu tempo levavam-se muitas reguadas, basicamente por dois motivos, por tudo e por nada.
E na escola do meu tempo ensinavam-nos a ser pequeninos, acríticos e a não discutir, o que quer que fosse.
E na escola do meu tempo eu era “obrigado” a ter catequese, religiosa e política.
E na escola do meu tempo aprendia-se que os homens trabalham fora de casa e as mulheres cuidam do lar e dos filhos.
E na escola do meu tempo não aprender não era um problema, quem não “tinha jeito para a escola, ia para o campo”.
E na escola do meu tempo não se falava do lado de fora de Portugal. Do lado de dentro só se falava do Portugal cinzento e pequenino. Na escola do meu tempo eu era avisado em casa para não falar de certas coisas na escola, era perigoso.
Quem mandava no país achava que muita escola não fazia bem às pessoas, só a algumas. Ao meu pai perguntaram porque me tinha posto a estudar depois da quarta classe, não era frequente naquele meio, para ser serralheiro como ele não precisava de estudar mais.
Sim, eu sei, não precisam de me dizer que a escola deste tempo tem muitas coisas, cada vez mais embora com outras vestes e discursos, que nos recordam a escola do meu tempo.  Mas o caminho é melhorar a escola deste tempo não é, não pode ser, querer a escola do meu tempo.
Eu andei naquela escola lá para trás no tempo. 
Por isso, quando falam da escola hoje, penso, nunca mais voltarei a andar naquela escola. E não quero que o meu neto e os outros miúdos andem numa escola como aquela, a minha escola, lá para trás no tempo.

DOS RESULTADOS DOS EXAMES

Foi conhecidoRelatório Nacional 2010-2014 Provas Finais do 2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico  produzido pelo Instituto de Avaliação Educativa.
No que respeita ao 1º ciclo não são estabelecidas comparações mas nos exames do 6º ano que existem há três anos os resultados mostram que os resultados não se alteram significativamente verificando-se mesmo que em Matemática são genericamente mais baixos. Releva ainda que quer em Português, quer em Matemáticas os rsultados são inferiores quando as questões solicitam operações cognitivas mais complexas.
Como muitas vezes tenho afirmado e sem que isto represente uma posição contra os exames, embora no 1º ciclo me pareçam dispensáveis, as provas aferidas cumpriam o papel de regulador do sistema, não consigo entender como os exames, quanto mais melhor, só por existirem, possam ser a fonte de qualidade. Tal entendimento parece decorrer da estranha convicção de que se medir muitas vezes a febre, esta irá baixar o que é, no mínimo, ingénuo.
A defesa da "exigência", do "rigor" que sustentam a necessidade dos exames e que Nuno Crato não se cansa de afirmar não mostraram os resultados anunciados. Como era previsível na linha do que tenho afirmado. Do meu ponto de vista e como alguns estudos sugerem, a estes resultados não serão alheias dimensões como a natureza excessiva e burocatizadas das metas curriculares, o número de alunos por turma, os conteúdos dos programas, excessivamente prescritivos e extensos ou a falta de dispositivos de apoio a alunos e professores.
A qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, sim, naturalmente, mas também com a avaliação do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc.
É o que acontece, genericamente, nos países com melhores resultados e mais baixas taxas de retenção escolar.
É o que não acontece em Portugal.
É o que o Ministro Nuno Crato parece entender que não deve existir em Portugal.
Ponto.

JÁ PASSARAM 41 ANOS

Cedinho, como de costume fui à vila ver dos jornais, algumas compras e da bica e umas lérias no Central.
Quando me preparava para voltar ao Monte vinha a entrar na Praça a Banda de Música que formada e aprumada tocou A Grândola em frente ao Presidente da Câmara.
Estamos no dia 25 de Abril,
Estupidamente, dirão alguns, emocionei-me.
Já passaram quarenta e um anos.




sexta-feira, 24 de abril de 2015

A AVALIAÇÃO NA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR. DE NOVO

Os que mais regularmente acompanham este espaço estarão recordados que há dois dias face a algo que ouvi a alguns colegas que me deixou inquieto, solicitei que alguém mais ligado ao universo da educação pré-escolar confirmasse a existência de orientações/exigências em alguns agrupamentos, por parte das direcções ou da tutela, para que as avaliações às crianças fossem objecto de quantificação ou que dados de avaliações qualitativas fossem transformados em dados quantitativos.
Dadas as limitações de espaço deixo aqui apenas alguns excertos daquilo que recebi para além de várias outras mensagens que apenas confirmavam tal a ocorrência de tal situação, acompanhados de umas notas breves.
"sim, confirmo. com check list de metas e sub metas para todas as áreas e conteúdo e para as 3 idades. alguns casos com menções qualitativas, outros casos com um tipo de código quantitativo que permite, depois, a sua análise estatística e apresentação de resultados iguais aos outros níveis de ensino."
"também confirmo... com percentagens e tudo."
"De facto, a diversidade de "modelos" de avaliação na Educação Pre-Escolar, decorrente quer das incoerentes e inconcebíveis "orientações" legais, mas também das diversas interpretações que muitos agrupamentos fazem dessas mesmas "orientações" têm provocado um sem fim de "anormalidades" que vão desde as "quantificações" de resultados à existência de grelhas de avaliação e "fichas de observação" que, em alguns casos chegam a ter 150 "critérios avaliáveis"." 
"Confirmo. E o meu horário já está dividido por horas( p.e segunda das 9:00 às 9:30 matemática e assim sucessivamente para todos os domínios) e com coadjuvações. As metas foram divididas pelos 3,4 e 5 anos."
"Confirma-se. E passa por todos os setores: público, privado e IPSS
"Com horários dividido por horas( p.e segunda das 9:00 às 9:30 matemática e assim sucessivamente para todos os domínios) e com coadjuvações."
"no meu Agrupamento insistiu-se na ideia peregrina de "aproximar" os "sistemas de avaliação" do pré e do 1o. Ciclo, através de "instrumentos" semelhantes."
É um lugar comum afirmar que a realidade supera a ficção mas fiquei perplexo.
A febre da medida está a chegar à educação pré-escolar de uma forma preocupante.
Esta febre, decorrente da examocracia que se instalou no sistema educativo português, tem efeitos negativos no contexto da escolaridade obrigatória como sucessivos Relatórios da OCDE e uma recente Recomendação do Conselho Nacional de Educação sublinham.
Como é claro para toda gente no mundo da educação, a avaliação e a medida em contextos de aprendizagem são ferramentas fundamentais como reguladores da qualidade dos processos educativos.
Como também é claro que as crianças são diferentes, os contextos educativos e institucionais são diferentes como instituições educativas, educadores e professores devem ter autonomia que lhes permitam responder e acomodar as diferenças referidas relativas a alunos, instituições e contextos.
Acresce que os diferentes patamares do sistema educativo tem particularidades que devem ser acauteladas. Neste sentido, a educação pré-escolar tem uma função e um conjunto de objectivos que sugerem a desadequação de instituir a medida como regulador da qualidade do trabalho de adultos e crianças, bem como, replicando o que acontece tragicamente na escolaridade obrigatória, é completamente desjustada a definição de "metas curriculares", o objecto da medida, que inibem a acomodação das diferenças entre as crianças e a autonomia de educadores e educadoras.
Como há dias escrevia no Público, os caminhos da nossa educação, da nossa escola, estão no sentido da "normalização" que suporta a medida. Recusa-se a diferenciação a única forma de promover QUALIDADE PARA TODOS. É evidente que a diferenciação continua a precisar da avaliação.
Em cada circunstância, em cada grupo de alunos, crianças, em cada escola, é imprescindível o equilíbrio entre avaliar e medir.
Sobrevalorizar a medida em detrimento da avaliação em educação pré-escolar é um péssimo serviço prestado às crianças e aos profissionais que as ajudam a crescer e a ser.
Finalmente, que fazer com os dados quantitativos? Estabelecem-se rankings? Chumbam-se as crianças aos 3, 4 ou 5 anos até terem "aproveitamento"? Vão para apoio? Terão exame final na educação-pré-escolar ou exame de admissão no 1º ciclo? Recorre-se a explicadores? Encaminham-se já para o ensino vocacional?
A situação é deveras preocupante. Não podemos deixar de estar atentos e procurar resistir.

PELA NOSSA SAÚDE

82% dos profissionais consideram que falta dinheiro para tratamento do cancro

Como afirma Michael Marmot, reconhecidíssimo especialista em saúde pública, que há algum tempo esteve em Portugal, todas as políticas podem, ou devem, ser avaliadas pelos seus impactos na área da saúde.
Talvez a ideia do "custe o que custar" fosse de repensar.
Pela nossa saúde.

"SOMOS O QUE ESCOLHEMOS SER". Nova biografia de um Homem Invulgar

Quatro anos após a primeira biografia de Passos Coelho, "Um Homem Invulgar", está prestes a dar à estampa uma nova biografia do Primeiro-ministro. Desta vez não é escrita por Felícia Cabrita mas por uma prestigiada autora funcionária do PSD, cujo nome não foi divulgado mas conhece-se o título "Somos o que Escolhemos Ser"
É evidente que a longa carreira profissional e política justifica uma biografia de quatro em quatro anos. Torna mais fácil o acompanhamento.
O título escolhido contém todo um mundo de um homem determinado, visionário, empreendedor, inspirador, acima de minudências como pagar impostos, realizar descontos ou problemas comezinhos como procurar emprego. Não, "Somos o que Escolhemos Ser". E mais nada, nem é preciso tornar-se num animal feroz.
Veja-se a diferença entre esta postura e capacidade e a situação de gente medíocre e pequena que se resolveu fazer formação universitária na área em que escolheu ser e, por falta de visão, solidez, determinação, capacidades, competências, etc., acabou por partir do país porque, pobres incapazes, não conseguiram Ser o que Escolheram Ser.
E para não conseguir ser o que escolheram contaram, também, com o prestimoso contributo das políticas praticadas pelo Grande Líder Passos Coelho.
Vou já reservar o meu exemplar.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

AINDA AS METAS CURRICULARES

Como várias vezes tenho afirmado, as metas curriculares, tal como estão definidas, parecem ser parte do problema e não parte da solução.
As metas curriculares podem e devem funcionar como uma ferramenta orientadora e útil para o trabalho de alunos e professores. Para que isso aconteça deverão ser de simples utilização e operacionalização e decorrentes de modelos curriculares diferentes dos actuais, demasiado extensos, prescritivos e espartilhados.
Como exemplo vejamos apenas o 1º ciclo em Matemática e Português.
Em Matemática são definidos 3 domínios que se desdobram como segue. No 1º ano, em 8 sub-domínios, 13 objectivos e 62 descritores, no 2º ano em 11 sub-domínios, 22 objectivos e 82 descritores, no 3º ano em 11 sub-domínios, 22 objectivos e 98 descritores e no 4º ano em 6 sub-domínios, 15 objectivos e 81 descritores o que em síntese corresponde a 72 objectivos e 323 descritores para Matemática do 1º ciclo.
Se juntarmos Português teremos um total de 177 objectivos e 703 descritores. Por anos, temos: no 1º ano, 33 objectivos e 143 descritores; no 2º, 47 objectivos e 168 descritores; no 3º, 51 objectivos e 202 descritores e no 4º, 46 objectivos e 190 descritores. É obra, uff.
Este entendimento pode levar a que o ensino se transforme na gestão de uma espécie de "check list" das metas estabelecidas implicando a impossibilidade de acomodar as diferenças, óbvias, entre os alunos, os seus ritmos de aprendizagem. Múltiplas notícias e referências mostram como o trabalho dos professores e alunos está fortemente condicionado pela obsessão crática com a avaliação externa, os exames, o determinante de todo o trabalho.
Aliás, neste contexto é preocupante a afirmação dos autores das metas curriculares, de que estas estabelecem o que os alunos deverão imprescindivelmente revelar, “exigindo da parte do professor o ensino formal de cada um dos desempenhos referidos nos descritores”.
Este cenário, aplicado em todas as áreas ou disciplinas, em turmas  de 26 alunos no 1º ciclo e de 30 a partir do 5º ano, constituídas por alunos com ritmos diferentes e assimetrias nos seus percursos e competências, deixa-me uma imensidade de dúvidas sobre a aplicação das metas curriculares, tal como estão definidas.
Apesar do MEC acenar com a referência aos modelos anglo-saxónicos como selo de qualidade, sempre a referência à qualidade e exigência, o que, aliás, está longe de acontecer, devo confessar que continuo apreensivo e temo, insisto, que as metas curriculares, nos termos em que são definidas possam constituir-se como parte do problema e não parte da solução.
Em síntese e como afirma a Associação de Professores de Português a propósito do Programa de Português para o ensino Básico que esteve em discussão pública até há dias e que entre o 1º e o 9º ano define perto de 1 000 metas curriculares, temos um modelo curricular de natureza “fortemente prescritivo, que vai empobrecer a educação e promover a retenção escolar dos alunos” na mesma linha, aliás, do entendimento do Conselho Nacional de educação. Reservas da mesma natureza têm sido expressas por outras Associações Profissionais de Professores de diferentes disciplinas.
Parece-me ainda importante recordar que alguns trabalhos de investigação que têm vindo a ser desenvolvidos, cito o da Professora Dulce Gonçalves da Universidade de Lisboa, evidenciam a desadequação e os problemas criados pelas metas curriculares.
Não será difícil antecipar que este novo Programa de Português para o ensino básico assente nas metas curriculares, tal como estão definidas, corre o sério risco de vir a ser parte do problema, o sucesso dos alunos, e não parte da solução.
É evidente que esta opção é coerente com a visão de educação, educação e ensino públicos que a equipa do MEC assume. 

A UNIVERSIDADE FOI JUSTA

A Universidade, como todas as instituições, nem sempre é justa. Hoje a Universidade de Lisboa foi justa.
Por iniciativa do seu Instituto de Educação atribuiu o grau de Doutor Honoris Causa a Sérgio Niza. 
O Sérgio foi, é, uma das pessoas que marcam impressivamente o pensamento português em matéria de educação nas últimas décadas.
É também verdade que como já ouvi alguém afimar, só a mediocridade ou a morte são capazes de gerar facilmente unanimidades, ou seja, a discordância é um instrumento de desenvolvimento do pensamento, da cultura, da cidadania. Com o Sérgio aprende-se também quando se discorda.
Estive lá, gostei de estar e como disse ao Sérgio no final, foi bonita a festa pá.
Hoje, repito, a Universidade foi justa

QUE SE MULTEM OS PAIS MAUS DOS FILHOS MAUS

O Director da ASAE entende que é preciso responsabilizar os mais, são “desinteressados”, e a melhor forma de os responsabilizar parece ser a multa.
A proposta não foi acolhida e estaria, digo eu, condenada ao fracasso como também o está a introdução de coimas aos pais de alunos indisciplinados prevista no Estatuto do Aluno e que ainda não foi aplicada em nenhum caso.
É verdade que muitos adolescentes, ouvidos em estudos nesta matéria, referem a ausência de regulação dos pais sobre os gastos, sobre os consumos ou sobre as horas de entrada em casa, que muitas vezes tem que ser discreta e directa ao quarto devido ao “mau estado” do protagonista.
Como é evidente, já muitas vezes aqui o tenho referido com base na minha experiência de contacto com pais de adolescentes, não estamos a falar de pais negligentes. Podem acontecer situações de negligência mas, na maioria dos casos, trata-se de pais, que sabem o que se passa, “apenas fingem” não perceber desejando que o tempo “cure” porque se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e como lidar com a questão. De fora parece fácil produzir discursos sobre soluções, as multas por exemplo, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é muitas vezes sentida como maior que eles.
É preciso que a comunidade esteja atenta a estes adolescentes que logo desde os 13 ou 14 anos “acedem” às “litrosas” e aos shots mas também aos seus pais que estão tão perdidos quanto eles.
Apesar de se poder vir a legislar no sentido de apenas aos 18 anos ser permitida a aquisição de qualquer tipo de álcool, parecem-me imprescindíveis a adequada fiscalização e a criação de programas destinados a pais e aos adolescentes que minimizem o risco do consumo excessivo.
A proibição, como sempre, não basta, só por si não adianta.

DIA MUNDIAL DO LIVRO

Porque hoje o calendário das consciências determina que se reconheça o Dia Mundial do Livro, aqui fica uma história velha com livros dentro.
Um dia destes a Ana entrou na biblioteca da escola para entregar uns livros ao Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros. A Ana ia muito concentrada e sentia-se importante na tarefa de responsabilidade que a professora lhe tinha encomendado, a devolução de uns livros.
O Professor Velho aproveitou e como estava arrumar alguns que tinham chegado, mostrou um novo à Ana que começou a folheá-lo e a tentar a leitura, a Ana está a iniciar-se nessa tarefa e ainda tropeça um pouco, é o seu primeiro ano de escola.
De repente, ficou com um ar apreensivo e interroga o Professor Velho.
Velho, as letras podem acabar?
Como assim Ana? Não estou a perceber o que queres dizer com isso.
Todos os livros têm palavras e as palavras têm letras. Eu estou a perguntar se as letras se podem acabar.
Já percebi. Não Ana, as letras não se acabam. Tu já sabes escrever letras?
Já e também já sei escrever palavras com as letras.
Então, se tu és capaz de fazer letras e todas as pessoas que sabem escrever também são capazes de fazer letras, as letras nunca vão acabar. A gente escreve sempre mais para tudo o que precisar.
Ainda bem que as letras não se acabam, assim vamos sempre ter livros novos para ler.
Tens toda a razão. E propósito de livros novos, faz-me um favor, leva estes para a tua professora ver e vos mostrar.
Adeus Velho, o primeiro é para eu ler.
Claro.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

NUNCA MAIS ME SAI O EUROMILHÕES ...

Para finalizar o dia uma nota a correr referente à divulgação na imprensa de hoje do aumento verificado em 2014 das apostas dos portugueses no Euromilhões e na Raspadinha apesar dos rendimentos das famílias continuarem revistos em baixa.
Em 2013 Portugal já era o país europeu que mais investia "per capita" no Euromilhões, ou seja, queremos mesmo ser "excêntricos".
Na verdade, o Euromilhões e depois a Raspadinha estabeleceram-se firmemente na vida de muitos de nós e criaram mesmo uma imagem criadora de futuro que nos move. Importa reconhecer que as imagens criadoras de futuro são imprescindíveis, tanto mais quando atravessamos tempos duros marcados por desesperança.
No que respeita ao Euromilhões, julgo que se pode afirmar que em muitos lares portugueses e hoje mais do que nunca, uma das frases mais ouvidas é “nunca mais me sai o euromilhões, para deixar de trabalhar”. Muito provavelmente, cada um de nós já ouviu, pensou ou disse esta expressão alguma vez ou vezes. Creio também que não é usada apenas pelos cidadãos com maiores dificuldades.
Acho curiosa a sua utilização. Entendo, naturalmente, a ideia subjacente à primeira parte. Um prémio de valor substantivo representaria, seguramente, a hipótese de acesso a um patamar superior de bem-estar económico, desejado, naturalmente, por toda a gente. O que de facto me parece mais interessante é o complemento “para deixar de trabalhar”. É certo que nem todas as expressões devem ser entendidas no seu valor “facial”, mas é também verdade que a recorrente afirmação deste desejo acaba por ilustrar a relação que muitos de nós estabelecemos com o lado profissional da nossa vida, isto é, “quero livrar-me dele o mais depressa possível”. Não será grave, mas é um indicador que possibilita várias leituras.
Neste contexto sabem qual é a minha inquietação? É se os miúdos, considerando a agitação que vai pelo seu mundo “laboral”, desatam a pedir um aumento de mesada que lhes permita apostar no Euromilhões para … deixar de ir à escola.
Já estivemos mais longe.

AVALIAÇÕES EM EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR

Não é muito habitual fazê-lo mas gostava de deixar um apelo a quem por aqui passar.
Nos últimos dias algumas pessoas me referiram a existência de orientações em alguns agrupamentos para que as educadoras e educadores de infância usem dados quantitativos na avaliação das crianças sob sua responsabilidade ou para que transformem dados de avaliações qualitativas em dados quantitativos.
Queria saber se alguém pode confirmar-me esta informação.
A resposta pode vir através da caixa de comentários, através do mail indicado no blogue ou mensagem no FB.
Estou verdadeiramente interessado em saber se se confirma esta situação.
Obrigado.

SÃO COISAS DO MUNDO, DO NOSSO MUNDO

Portugal foi o país com maior aumento da taxa de risco de pobreza

António Mexia mantém remuneração de até 1,9 milhões de euros anuais na EDP

São coisas do mundo, do nosso mundo. Como alguém costuma dizer o grande problema da pobreza ... é a riqueza.
Às vezes, até à obscenidade.

O BURRO DO INGLÊS

Estamos, portanto, no bom caminho. Segundo a Cáritas Europa, Portugal foi o País em que o risco de pobreza e exclusão social mais aumentou em 2014 de entre os sete mais afectados pela crise.
A informação, fiável, será certamente motivo de satisfação do Governo pois o empobrecimento sempre foi apresentado como a salvação para os nossos muitos males.
No entanto, este caminho recordou-me a velha e conhecidíssima história do burro do Inglês. O Inglês dono do burro, para poupar, foi dando cada vez menos comer ao burro  até que este se finou. Pensou o Inglês, "agora que o burro já conseguia estar sem comer é que morreu".
Haja alguém que rapidamente conte ao Primeiro-ministro esta história.

terça-feira, 21 de abril de 2015

OS PROFESSORES A MAIS, ALGUNS EQUÍVOCOS

Ao concurso externo para ingresso de 1453 professores no quadro candidataram-se 33465 professores boa parte dos quais já com vasta experiência em trabalho docente, os contratados, também conhecidos por “descartáveis”. O Ministro assegura, claro, que as vagas abertas satisfazem as necessidades do sistema.
Talvez seja de recordar que segundo as Sínteses Estatísticas do Emprego Público divulgadas no boletim do terceiro trimestre de 2014 da Direcção-geral da Administração e do Emprego Público, de 2011 para 2014 saíram cerca de 30 000 professores, 20% dos existentes.
Ao contrário do que afirma a propaganda oficial, a variação da demografia escolar, o número de alunos, não explica este êxodo significativo de professores. Esta saída acontece mais por consequência da PEC - Política Educativa em Curso que da alteração do número de alunos.
Como já tenho referido, parece-me claro que a questão do número de professores necessário ao funcionamento do sistema é uma matéria bastante complexa que, por isso mesmo, exige serenidade, seriedade, rigor e competência na sua análise e gestão, tudo o que tem faltado nesta matéria, incluindo a alguns discursos de representantes dos professores.
Para além da questão da demografia escolar que, aliás, o MEC sempre tratou de forma incompetente e demagógica, importa não esquecer que existem muitos professores deslocados de funções docentes, boa parte em funções técnicas e administrativas que em muitos casos seriam dispensáveis pois fazem parte de estruturas do Ministério pesadas, burocráticas e ineficazes.
Por outro lado, os modelos de organização e funcionamento das escolas, com uma série infindável de estruturas intermédias e com uma carga insuportável de burocratização, retiram muitas horas docentes ao trabalho dos professores que estão nas escolas.
No entanto e do meu ponto de vista, o “excesso” de professores no sistema deve ser também analisado à luz das medidas da PEC – Política Educativa em Curso. Vejamos alguns exemplos.
Em primeiro lugar, a mudança no número de professores necessário decorre do aumento do número de alunos por turma que, conjugado com a constituição de mega-agrupamentos e agrupamentos leva que em muitas escolas as turmas funcionem com o número máximo de alunos permitido e, evidentemente, com as implicações negativas que daí decorrem.
As mudanças curriculares com a eliminação das áreas não curriculares que, carecendo de alterações registe-se, também produzem um desejado e significativo “corte” no número de professores, a que acrescem outras alterações no mesmo sentido.
O Ministro “esquece-se” obviamente destes “pormenores”, apenas se refere à demografia e aos recursos disponíveis para, afirma, definir as necessidades do sistema.
Este conjunto de medidas, além de outras como o que se desenha em torno da chamada “municipalização da educação”, sairão, gostava de me enganar, muito mais caras do que aquilo que o MEC poupará na diminuição do número de docentes, que ficaram e ficarão no desemprego, muitos deles tendo servido o sistema durante anos.
Ficarão sem trabalhar, não porque sejam incompetentes, a maioria não o é, não porque não sejam necessários, a maioria é, mas “apenas” porque é preciso cortar, custe o que custar.
Conhecendo os territórios educativos do nosso país, julgo que faria sentido que os recursos que já estão no sistema, pelo menos esses e incluindo os contratados com muitos anos de experiência, fossem aproveitados em trabalho de parceria pedagógica, que se permitisse a existência em escolas mais problemáticas de menos alunos por turma ou ainda que se utilizassem em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades.
Os estudos e as boas práticas mostram que a presença de dois professores na sala de aula são um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos.
Sendo justamente estes os dois problemas que mais afectam os nossos alunos, talvez o investimento resultante da presença de dois docentes ou de mais apoios aos alunos, compense os custos posteriores com o insucesso, as medidas remediativas ou, no fim da linha, a exclusão, com todas as consequências conhecidas.
É só fazer contas. E nisso o Ministro Nuno Crato é especialista.

FAITES VOS JEUX

PS propõe redução da TSU para trabalhadores e empresas

Depois do PSD e do CDS/PP terem aberto informalmente a época da caça ao voto com as promessas dos amanhãs que cantam, surge, naturalmente, o PS com o seu próprio conjunto de promessas dos amanhãs que cantam.
Nada de novo. Como é sabido as promessas em Portugal chamam-se "programa eleitoral" e, raramente, são para cumprir, apesar de como todos bem reconhecemos "que se lixem as eleições".
Ainda não abriu a época oficial de caça ao voto mas a coisa já vai animada.

A ESCOLA PORTUGUESA QUE OS INGLESES COPIARAM

A escola portuguesa que os ingleses copiaram


Talvez seja de recordar que a "escola portuguesa que os ingleses copiaram" se implantou e desenvolveu em contraciclo com as orientações do MEC. 
Sob a orientação de José Pacheco, que entretanto partiu, e apesar das vicissitudes e constrangimentos, da pressão da tutela sobre a escola da Ponte e sobre o Director, das inspecções e avaliações que procuravam concluir que seria uma experiência falhada, a comunidade mostrou que era, é, possível ter um outro tipo de escola.
Aliás, a escola da Ponte tem sido de há anos um objecto de estudo e visita recorrentes por parte de investigadores e professores nacionais e estrangeiros que reconhecem o que de qualidade por ali acontece. Deve ainda sublinhar-se que a visão da escola da Ponte é de uma escola onde verdadeiramente cabem todos, alunos, professores e funcionários.
Há quem lhe chame escola inclusiva.
Para que conste.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

O ABANDONO ESCOLAR ESTÁ A DESCER. E O SUCESSO?

Dados do EUROSTAT hoje divulgados mostram que Portugal é o quarto país com Portugal com mais alta taxa de abandono escolar precoce.
Em 2014 registámos 17,4%. Deve, apesar de tudo, salientar-se que face a 2006 recuperámos significativamente pois verificava-se uma taxa de 38.5%.
Embora o salto seja importante algumas notas breves.
Os estudos comparativos internacionais têm vindo a registar os progressos dos alunos portugueses. No entanto de 2009 para 2012 a situação inverteu-se. Acontece ainda que temos um número de alunos retidos em cada ano que é impressionante, Portugal é o terceiro país da União Europeia com maiores percentagens de chumbos, 34.3% dos alunos em 2012 tinham reprovado pelo menos um ano, abaixo da Bélgica e do Luxemburgo com 36,1% e 34,5%, respectivamente.
De 2011 para cá, depois de um período de melhoria de resultados, os níveis de retenção voltaram a agravar-se em todos os anos de escolaridade. Em média chumbam por ano cerca de 150 000 alunos dos ensinos básico e secundário.
Como é reconhecido e sem surpresa os alunos com insucesso escolar são os que maior risco correm de abandono escolar precoce.
Nesta conformidade e como sempre afirmamos  a questão central não discutir a retenção mas disponibilizar apoios a alunos e professores que minimizem a retenção e o posterior abando escolar sem qualificação e o óbvio risco de exclusão social.
O dado mais preocupante é que a política do MEC caminha em sentido errado, corte nos apoios educativos e recursos humanos, docentes e técnicos, aumento do número de alunos por turma, um currículo prescritivo, extenso e desadequado, hipotecado às metas curriculares excessivas e inoperacionais e à examocracia cujos efeitos foram sublinhados pela recente recomendação do CNE e frequentemente objecto de avaliação negativa pela OCDE.
O MEC procurando compor as estatísticas do abandono estrutura à pressa, sem avaliação e ao arrepio, mais uma vez, das orientações da OCDE, um ensino vocacional para onde são "empurrados" sobretudo os alunos que "chumbam" logo partir dos 13 anos.
A persistir nesta política poderemos continuar a assistir à diminuição do abandono mas sem que a tal cenário uma efectiva melhoria no sucesso e na qualidade da educação em Portugal.
No entanto este procedimento do MEC é coerente com as políticas do Governo ao incentivar estágios e mais estágios, formação profissional ficcionada, e ocupação de desempregados visando a baixa da taxa de desemprego sem que isso signifique, de facto, criação de emprego.

O ACORDO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO. Será que não para (pára, para quem ainda escreve em português e não em acordês)

A propósito da realização há alguns dias na Faculdade de Letras da Universidade Lisboa de um Fórum em que foi aprovada uma moção no sentido de referendar o Acordo Ortográfico de 1990 o Público traz de novo para a agenda este atentado à língua portuguesa dedicando-lhe também o espaço "editorial".
Também há poucos dias aqui me referi a tal desmando mas enquanto for tempo de o evitar importa que não nos resignemos. Não vou repetir os motivos pelos quais, do meu ponto de vista de leigo nestas matérias, o Acordo deveria ser repensado.
É também verdade que as explicações que os defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade, antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciava não defende a Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até "incongruências" o que me parece curioso, desencadeamos um acordo com esta amplitude e implicações para manter "incongruências e imperfeições". que transformam a ortografia da Língua Portuguesa numa mixórdia. 
Entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma .
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto, não tenho conhecimento de alguma perturbação ou drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas. O mesmo se passa entre a comunidade dos países com o castelhano/espanhol como língua oficial.
E, por agora, páro (deveria escrever paro) por aqui e vou continuando a escrever desacordadamente.

domingo, 19 de abril de 2015

O FRIO DA INFÂNCIA

Durante este fim de semana surgiram na imprensa diferentes notícias tendo com matéria comum os maus tratos a crianças.
Tivemos referência a uma investigação realizada na Universidade do Minho indicia que uma parte substantiva de situações de maus tratos a menores não são detectadas mesmo quando ocorrem em famílias sinalizadas pelas Comissões de Protecção de Crianças Jovens, à detenção de uma Directora de uma Instituição de acolhimento a crianças e jovens por alegados abusos e maus tratos e ainda a notícia de que o Ministério Público "arrasa" a polémica proposta da Ministra da Justiça relativa à elaboração de uma lista de condenados por pedofilia acessível a cidadãos que não elementos das autoridades.
Este conjunto de referências às agruras e situações pelas quais muitas crianças passam, muitas vezes, sem que nos apercebamos, através de um daqueles estranhos caminhos da associação de ideias e de memórias levou-me a recordar o frio da infância. Da narrativa de Juan José Millás em "O Mundo" quando enuncia, “Quem teve frio em pequeno, terá frio para o resto da vida, porque o frio da infância nunca desaparece”.
Na verdade, no Inverno ou no Verão existem muitos miúdos que passam frio, às vezes muito frio, e nem sempre conseguimos dar por isso. Acontece até que alguns deles sentem frio em ambientes muito aquecidos ou mesmo no Verão, como disse. Não se trata do frio que vem de fora, daquele de que falam os alertas coloridos que nos fazem os serviços competentes, é o frio que está à beira, um bloco de gelo disfarçado de família ou de instituição de acolhimento, é o frio que vem de dentro e deixa a alma congelada e quase sempre o corpo maltratado.
Do frio que vem de fora, apesar de incomodar, acho que, quase sempre, nos conseguimos proteger e proteger os miúdos, mas dos frios que estão à beira e dos que vêm de dentro nem sempre o conseguimos fazer porque também nem sempre os entendemos e estamos atentos ao frio que tolhe muitas crianças e adolescentes.
Apesar de sentir confiança na resiliência dos miúdos, expressa em muitíssimas situações de gente que sofreu e resistiu a experiências dramáticas, uns mais que outros naturalmente, parece-me fundamental que estejamos atentos aos frios da infância.
Muitas vezes, como diz Millás, quem teve frio em pequeno terá mesmo frio no resto da vida.
Quando olhamos para muitos adultos à nossa volta parece também claro o frio que terão passado na infância.

DA INDIGNIDADE

Duas enfermeiras, uma do Hospital de Santo António e outra do Hospital do S. João, no Porto, queixam-se de terem tido que comprovar que estão a amamentar espremendo leite das mamas em frente a médicos de saúde ocupacional.
Duas enfermeiras a desempenhar funções em Hospitais do Norte do país foram obrigadas a espremer as mamas em frente a médicos de saúde ocupacional para provarem que estavam período de amamentação.
O mundo anda virado do avesso. As pessoas transformaram-se em activos, são peças descartáveis que apenas têm um valor de mercado e baixo. Dignidade, ética e moralidade são valores em perda nas relações no mundo do trabalho.


O MUNDO É UM LUGAR ESTRANHO

Há poucos dias escrevi aqui umas notas na sequência de um naufrágio no Mediterrâneo.  Na altura  as notícias referiam 400 desaparecidos, boa parte menores. Hoje é conhecido um novo episódio envolvendo setecentos desaparecidos.
De facto, em regra não comento neste espaço o que vai acontecendo lá por fora mas é impossível assistir sem um sobressalto à contínua e dramática tentativa de milhares de pessoas de através do Mediterrâneo entrarem em terras europeias onde desesperadamente procuram já não um futuro melhor …. mas qualquer coisa de diferente do inferno em que vivem.
Há tempos lia que, entre outros trágicos expedientes, é usado um esquema terrivelmente "simples", enchem-se umas carcaças flutuantes, que em tempos foram navios, com centenas de desesperados, incluindo mulheres e crianças, e a partir de certa altura a tripulação que lhes extorquiu o último cêntimo no qual depositavam a vida, abandona a carcaça flutuante e deixam-na em “piloto automático” a navegar direito à costa de um país do lado europeu do Mediterrâneo, O resultado é sempre uma tragédia, ou se despedaçam contra a costa ou são resgatados com o cortejo de dificuldades que são conhecidas e que, provavelmente, acabam no repatriamento, ainda mais pobres ainda mais miseráveis, ou seja, ainda mais mortos sem ter dado por isso.
Esta história tem, no entanto um lado B, como todas as histórias que envolvem humanos.
Por cá, tal como noutros países oferece-se, melhor, vende-se o direito de residência e, certamente, sem grandes problemas, o direito de cidadania a uma rapaziada que por cá apareça com um contentor de dinheiro, cuja origem é, evidentemente de boa e caridosa fonte. Por ironia até lhes chamam “vistos gold”. Acontece ainda, sempre o lado B da espécie humana, que alguma rapaziada bem colocada na administração pública trata com maior simpatia, por assim dizer, os potenciais interessados nos “vistos gold” a troco, evidentemente, de umas “lembrançazinhas” e a coisa assim funciona ainda melhor.
Resumindo esta narrativa muito feia, os figurantes do Lado A naufragam tragicamente em águas desconhecidas fugindo a tudo e a todos acabando às centenas num caixão ou desaparecidos no mar.
Por outro lado, os figurões do Lado B, nadam em dinheiro, compram o direito de estadia, quiçá, o direito de cidadania, pelo meio distribuem umas ofertas à gente pequenina que pode acelerar a sua entrada gold no espaço europeu e são felizes num mundo global.
As histórias dos humanos, com lado A e com lado B são, quase sempre, pouco edificantes para uma espécie “superior”.

sábado, 18 de abril de 2015

PORQUE NÃO EM E-LEARNING? ERA MAIS "EFICIENTE"

O Governo vê nesta alteração algo de extraordinariamente positivo, é uma prova de eficiência, sempre a eficiência.
Acontece que como Governo, Nuno Crato em particular, sabem muito bem este rácio é uma habilidade administrativa que não funciona no contexto real dos territórios educativos portugueses.
O rácio alunos por professor alimenta a tese dos “professores a mais” tão cara ao MEC e a algumas vozes com agenda própria mas importa, por exemplo, conhecer a dimensão das turmas nas escolas reais e, sobretudo, nas escolas implantadas em territórios educativos com maior dificuldade.
Não é aceitável considerar apenas o número total de professores e o número de alunos estabelecendo um rácio pois o modelo de organização e funcionamento das escolas e agrupamentos atribui aos professores imensas funções não lectivas e, por outro lado, o rácio é um indicador enganador na medida em que especificidades dos contextos impõem outro tipo de problemas. Sabemos ainda que escolas que servem territórios educativos mais complicados são, com frequência as que têm maior número de alunos por turma
Não é, certamente, por acaso que a OCDE tem vindo a alertar para os riscos do aumento do número de alunos por turma nas escolas portuguesas.
Quanto maior é a nau maior é a tormenta.
Mas na visão do MEC e do Governo quanto menos professores mais eficiência. À luz deste entendimento surpreende.me que Nuno Crato ainda não se tenha lembrado de promover o funcionamento da escolaridade obrigatória em sistema de e-learning. Seria suficiente meia dúzia de professores por área disciplinar, mais uns mediadores por escola, poucos, só para os alunos bons, os que atrapalham vão saindo das salas de aula.
Teríamos o sistema perfeito, certamente mais eficiente, certamente mais barato, certamente mais tranquilo.

A PEQUENEZ DESTA GENTE

O primeiro-ministro diz que a morte de Mariano Gago é uma grande perda para o país. Pedro Passos Coelho lembrou que, apesar de ter sido ministro de governos socialistas, Mariano Gago deu um contributo inestimável para o progresso da ciência em Portugal, um contributo de verdadeiro serviço público.

Passos Coelho declarou que "apesar de ter sido ministro de governos socialistas", Mariano Gago "deu um "contributo inestimável para o progresso da ciência em Portugal, um verdadeiro serviço público".
Quando penso que perdi a virtude da perplexidade, eis que ainda consigo ser supreendido pela pequenez ética e moral desta gente.
Como é possível produzir esta afirmação de um sectarismo deplorável e um insulto à sensatez e ao respeito pela competência das pessoas que deveria estar para além das conviccões partidárias?
Não, não sou parte interessada. 
Por muitas razões, entre as quais comportamentos vergonhosos desta natureza, vivo muito longe das simpatias partidárias. Não me orgulho deste afastamento mas assim acontece.

E É ESCREVER ASSIM, DESACORDADAMENTE


Não tendo nenhuma posição face ao aparecimento de uma outra estrutura representativa dos professores de português não posso deixar de saudar a sua posição de reserva face ao Acordo Ortográfico, o entendimento de que deve ser discutido e reavaliada a sua implantação.
Como muitas vezes já aqui escrevi, enquanto a questão não estiver definitivamente encerrada retomo, e retomarei, a minha breve e não técnica reflexão sobre o que me parece estar em causa e expresso teimosamente o meu profundo desacordo com o Acordo, um crime contra a Língua Portuguesa que deveria embaraçar quem o subscreveu. Embora já o tenha feito várias vezes, entendo que a defesa da Língua Portuguesa, nas suas importantes variações, o justifica.
Do que tenho lido e ouvido, nada me tem convencido da sua bondade ou necessidade. Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. Neste cenário, é clara a necessidade de ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma. Já estou cansado do argumento da “pharmácia” quando se pode verificar que em todos os países, e são muitos, em que o termo tem a mesma raiz, a grafia é com “ph” e nada de muito grave acontece. A introdução ou mudança na grafia tem acontecido em todas as latitudes e não tem sido necessário um Acordo com os conteúdos bizarros, alguns, que este contém.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto, não tenho conhecimento de alguma perturbação ou drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas. O mesmo se passa entre a comunidade dos países com o castelhano/ como língua oficial.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual, longe disso, temos regularmente exemplos disso mesmo, e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe. Aliás, é interessante analisar a natureza da argumentação dos especialistas favoráveis ao Acordo. Algumas vezes assenta, sobretudo, no porque sim, porque é novo. É pobre.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Não é grave, errar é humano.
No entanto, como toda gente, não gosto de errar, pelo que preferia continuar a escrever desacordadamente.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

MARIANO GAGO

Os coveiros actuais responsáveis pela negrura e o desconserto que se abateram sobre o tecido de investigação científica em Portugal vão, certamente, prestar-lhe a sua sentida homenagem e afirmar isso mesmo. 
Como dizia Pedro Abrunhosa a propósito da morte de Manoel de Oliveira e da unanimidade que de repente se instalou sobre a figura que só na morte ou na mediocridade é que gera unanimidade.
Mariano Gago não era um medíocre. Ao contrários dos coveiros.

"OS MIÚDOS AGORA TÊM TUDO"

Quando em algumas circunstâncias nos referimos a problemas ou dificuldades que a vida coloca à generalidade dos miúdos é muito frequente ouvirem-se algumas vozes ou discursos do tipo “eu também passei muito e estou aqui”, “também passei por isso e fez-me crescer”, “agora acham tudo tem de ser fácil para os miúdos”, “no meu tempo é que tínhamos problemas”, “os miúdos agora têm tudo”, “agora não lhes falta nada”, etc., etc.
Confesso que embora, em algumas circunstâncias, compreenda  estes discursos tenho alguma dificuldade em aceitar e, por vezes, reajo.
Com a idade e com a lida permanente nesta área tenho vindo a acompanhar a vida dos mais novos, da generalidade dos miúdos. Ontem, tal como hoje e amanhã, existem crianças que viveram, vivem e viverão em condições muito adversas.
Alguns sobreviveram, sobrevivem e sobreviverão. No entanto, sobreviver não significa, necessariamente, viver bem.
Esta minha nota nem sequer se dirige a situações extremas que regularmente são do nosso conhecimento, como nos últimos dias ocorreram, estou a pensar na generalidade dos miúdos e nas suas condições de vida que, do meu ponto de vista, não são tão fáceis como muitas vezes se afirma.
Estilos de vida e condições familiares pouco amigáveis, pobreza e privação, uma escola que nem sempre é cuidadora e um espaço positivo de crescimento e aprendizagem, criam dificuldades que nem sempre são devidamente valorizadas.
Aliás, num tempo em mais do que nunca se produzem discursos sobre os miúdos e o seu mundo ainda não somos suficientemente atentos ao que é a vida deles
Digo eu.

DA AFRONTA

Eu sei que esta nota contém uma pequeníssima dose de demagogia mas vejamos.
O Governo anuncia a intenção de cortar mais 600 milhões de euros nas pensões.
O Governo aceita excepcionalmente, mais uma execepção, que o novo Presidente da RTP tenha um vencimento superior ao estipulado legalmente ficando acima do vencimento de Primeiro-ministro.
Sim, 10 000 euros mensais e cortes de 600 milhões não são comparáveis mas como decisão política é uma afronta.
Mais uma.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

OS DDT AINDA SÃO OS DDT

No Relatório com as conclusões preliminares da Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso do BES critica-se a falta de eficácia do Banco de Portugal e indica-se ser “provável” que Ricardo Salgado possa “estar envolvido numa manipulação intencional das contas” ou “na apresentação de contas desvirtuadas” (acho notável esta linguagem).
Na linha do aqui já tenho referido e que me causa alguma perplexidade também a Comissão  Parlamentar de Inquérito acha que a culpa neste filme de polícias e ladrões é do polícia.
O Dr. Salgado e a sua equipa terão “provavelmente” “manipulado intencionalmente as contas” ou “desvirtuou-as”, muitos milhares de pessoas e empresas ficam sem o seu dinheiro e a responsabilidade é do Banco de Portugal.
Na verdade, não é de agora, lembremo-nos de Vítor Constâncio e da sua sonolenta regulação que permitiu o BPN e outros negócios como o BPP, que a regulação do Banco de Portugal parece ser pouco eficaz e interveniente. Também é verdade que algumas intervenções de Cavaco Silva e Passos Coelho, por exemplo, vieram transmitir confiança num tempo em que tal já não seria possível pelo que se sabia ou intuía.
No entanto, continuo a pensar que a grande responsabilidade desta situação é da administração e responsáveis das instituições bancárias envolvidas. No caso mais recente do BES parece claro que a liderança do Dr. Ricardo Salgado, através de um conjunto de habilidades, cumplicidades e fraudes, montou uma situação que resultou neste descalabro.
Recordemos a notícia recente dos negócios do BES com o amigo generoso de Ricardo Salgado, o tal José Guilherme, que lhe ofereceu uma prenda, uma "liberalidade", de 14 milhões de euros e que agora anda a tentar reestruturar a sua dívida para com o BES.
De facto, os Donos Disto Tudo são, evidentemente, os Culpados Disto Tudo.
Atentando nas “conclusões preliminares” da Comissão de Inquérito, nos discursos de alguma imprensa, opinadores e pessoas lesadas parece que a responsabilidade é do polícia que certamente poderia fazer melhor a sua função e não dos ladrões.
Como já escrevi, tenho a sensação que os Donos Disto Tudo continuam a ser ... os Donos Disto Tudo pois parece que as pessoas ainda têm medo de dizer que "o rei vai nu", ou seja, afirmar que foram roubadas por Ricardo Salgado, pelas demais famílias e respectivas redes.
Aliás, tenho para mim, que num país com menos brandos "costumes legais" e um sistema de justiça que, de facto, o seja, Ricardo Salgado e outros “artistas” não estariam a responder numa Comissão Parlamentar mas sim nos Tribunais ou detidos.
Querem adivinhar como Isto Tudo vai acabar?
De uma maneira ou de outra, PIT - Pagamos nós Isto Tudo.

VIDAS ADIADAS

Dados hoje conhecidos produzidos pelo EUROSTAT mostram que, em média, os jovens portugueses deixam a casa dos pais aos 29 anos. Na Suécia, o país com a média mais baixa, a saída ocorre aos 19,6 anos, sendo que os jovens italianos e gregos ainda saem mais tarde que os nossos, 29,9 e 29,3 respectivamente.
Para além das questões de natureza cultural que importa considerar, as actuais circunstâncias de vida dos jovens sustentam este cenário que, provavelmente, se agravará. Algumas notas sobre este universo.
Na verdade e em termos gerais os mais jovens estão numa situação particularmente difícil. Em Portugal existirão mais de 300 000 jovens entre os 15 e 29 anos que não estudam, não trabalham e nem estão a receber formação, a designada situação “nem, nem”.
Este cenário não será mais grave porque mais de 100 000 jovens, sobretudo qualificados, estão a sair do país, emigrando para outras paragens em busca de uma futuro que por cá não vislumbram
Acresce que de acordo com um Relatório da Organização Internacional do Trabalho em 2011, 56 % dos jovens portugueses com trabalho têm contratos a prazo. Há algum tempo uma informação do Banco de Portugal referia que em cada dez empregos novos para jovens, nove são precários. Por outro lado, a taxa de desemprego entre os mais novos ronda os 36 %, a terceira taxa mais alta da UE.
Por outro lado a crescente proletarização do mercado de trabalho leva que muitos jovens mesmo qualificados tenham salários muito baixos. Hoje noticiava-se a existência de engenheiros e professores a receber o salário mínimo.
A precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Deste cenário e dos números do desemprego, resulta que os mais novos à entrada no mercado de trabalho são os mais vulneráveis ao desemprego e à precariedade quando, apesar das dificuldades, acedem a algum emprego.
Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem, obviamente, sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão, os dados hoje conhecidos mostram-no, o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por sua vez se repercutem no inverno demográfico que atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais. As gerações mais novas que experimentam enormes dificuldades na entrada sustentada na vida activa, vão também, muito provavelmente, conhecer sérias dificuldades no fim da sua carreira profissional.
No entanto, um efeito muito significativo mas menos tangível desta precariedade no emprego, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à própria vida no seu todo e que, com alguma frequência, os discursos das lideranças políticas acentuam. Dito de outra maneira, pode instalar-se, está a instalar-se, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não vislumbra saída motivadora e que recompense.
Este problema que não é um exclusivo português, longe disso, exige uma visão e um conjunto de políticas que não se vislumbram e cuja ausência compromete a construção sustentável do futuro.
Podemos estar perante a tragédia das gerações perdidas de que há algum tempo se falava.