quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

COISAS DE MIÚDOS, COISAS DE GRAÚDOS

"Passos Coelho: Debate sobre austeridade é “infantil”"

Passos Coelho afirmou ontem que o debate sobre "crescimento ou austeridade" é “infantil”. Não vou discutir a opção do Primeiro-ministro obedecendo cegamente ao diktat da troika, ou seja, dos mercados, quase todos conhecemos, melhor, sentimos os efeitos dessa obediência.
O que gostava de partilhar, certamente acharão disparate, é a irritação que me causa a frequência com se adjectiva o comportamento negativo dos adultos recorrendo às comparações com os miúdos, Em algumas circunstâncias, acho mesmo que é uma injustiça, quando não um insulto
Se bem repararmos, muitos de nós, quando entendemos que alguém, nos discursos ou nas atitudes, mostram algo que nos desagrada, independentemente das razões e do que seja, logo afirmamos “parecem miúdos” ou “piores do que os miúdos”, “é uma infantilidade”, etc., etc. No fundo, parece que os adultos quando se portam mal agem como miúdos, quando se portam bem, bom, nesse caso serão adultos.
Por outro lado, curiosamente, também é verdade que quando olhamos para alguns dos comportamentos que achamos, mal ou bem, mais positivos facilmente achamos “que interessante, parece mesmo um adulto”.
Resumindo, quando os adultos afirmam ou realizam algo que nos desagrada, parecem miúdos e os miúdos quando são “certinhos” parecem adultos.
Será isto que se entende por trocas entre gerações?
Quando quiserem avaliar comportamentos ou discursos dos adultos deixem os miúdos de fora. Têm tempo de lá chegar.

UM, DÓ, LI, TÁ, ... ESTÁS COLOCADO

""Bloqueio" informático colocou professores em vagas que não existiam"

Um, dó, li, tá, quem está colocado, colocado está. Estás colocado.
Um, dó, li, tá, quem está descolocado, descolocado está. Estás descolocado.
Sim, sim, é um jogo, o da colocação de professores. É muito engraçado.
Lá vamos, cantando e rindo.
O MEC está, evidentemente, na direcção certa.
Como é possível tamanho despudor e irresponsabilidade?

quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

A DIRECÇÃO CERTA DE NUNO CRATO. AI DE MIM SE NÃO FOR EU

"A direção certa da Educação segundo Nuno Crato"

O Ministro Nuno Crato produziu hoje na sua participação no 36º aniversário da UGT um rasgadíssimo elogio à obra realizada. Lembrei-me do velho Mário Sénico, um homem bom que já partiu que frequente afirmava "ai de mim se não for eu".
O Ministro inventariou, agora diz-se elencou, os grandes sucessos da sua passagem pela 5 de Outubro. Passo a citar acrescentando umas notas telegráficas.
Reforço dos conhecimentos essenciais dos alunos. Os resultados das avaliações internacionais e nacionais dos últimos anos mostram justamente um abaixamento de resultados.
Reforço da avaliação externa. Na verdade temos mais exames mas ainda não percebi porque é medir muitas vezes a febre esta irá baixar. Mais uma vez os resultados nos exames não autorizam a ideia de que só por existirem os exames promovem qualidade.
Valorização do ensino profissionalizante. Esta valorização traduz-se na instalação de uma espécie de darwinismo educativo impondo sucessivos crivos que seleccionem os mais competentes empurrando os preguiçosos e menos dotados desde muito novos para o reforçado ensino profissionalizante.
Acompanhamento dos alunos nas primeiras dificuldades. O corte brutal no número de docentes, designadamente no 1º ciclo, que as oscilações geográficas não justificam apesar das habilidades estatísticas frequentes, que têm reflexos  no número de alunos por turma e na dificuldade estruturar apoios ao trabalho de alunos e professores, desmentem, apesar de algumas boas experiências e do emprenho das escolas a afirmação do Ministro que tem é evidente, uma relação um pouco turbulenta com a realidade.
Valorização da qualidade da docência. Os conteúdos humilhantes e sem sentido da sinistra PACC e de todo o processo e a colocação de professores que ainda está em curso são dois excelentes testemunhos desta valorização.
Maior autonomia das escolas, nomeadamente, curricular e pedagógica. As frequentes intervenções dos directores de escolas e agrupamentos, mais uma vez desmentem a afirmação. Se considerarmos as burocratizadas e excessivas metas curriculares estabelecidas pelo MEC dificilmente deixam margens para autonomia curricular que, aliás, mesmo nos limites em que existem, apenas se verificam em algumas escolas.
Aumento da competitividade internacional do ensino superior e da ciência.  Para além do brutal desinvestimento orçamental brutal neste sector, talvez seja de ouvir, são públicas e frequentes as opiniões de professores, reitores, presidentes dos Institutos Politécnicos e investigadores. Neste âmbito, o processo de avaliação dos centros e laboratórios de investigação foi insustentável, com a incumbência à partida de liquidar metade das estruturas nacionais. Até ver, a incumbência foi cumprida pela ESF.
Reforço da inovação e da transferência de conhecimento para a sociedade e para a economia. Nuno Crato continua a insistir no equívoco de confundir desenvolvimento tecnológico com desenvolvimento científico além de que eventuais mudanças se devem mais aos investigadores e centros que à acção do MEC.
Uma referência final à afirmação de que "sabemos pelas experiências internacionais, pelos e estudos e pesquisas desenvolvidos ao longo dos anos que estamos na direcção certa".  Qual é a direcção certa? Quais estudos? Quais experiências?

Ai de mim se não for eu.

CENSURADO. RETIRE-SE DE PUBLICAÇÃO

"ICS suspende revista por causa de artigo com graffiti de “gosto duvidoso"

Nada parece já surpreender-nos por estes tempos.
O director do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, José Luís Cardoso, mandou suspender a revista Análise Social do seu site por nela constar um ensaio de um investigador sobre os graffiti no qual apareciam imagens recolhidas pelas paredes de Lisboa que criticavam o Governo e alguns empresários. A justificação do Director prende-se com as imagens que considerou "chocantes, ofensivas e de gosto duvidoso".
A utilização de mensagens desta natureza é objecto frequente de estudos de âmbito académico, nomeadamente, na áreas das designadas Ciências Sociais. Aliás, o autor, Ricardo Campos, tem obra publicada, justamente, sobre esta matéria e o Conselho Editorial da revista tinha aprovado a publicação
A decisão, parece claro, sem precedentes e apesar de uma tentativa de justificação atabalhoada, remete para o entendimento de que o Sr. Director julga seu dever determinar o que deve ser estudado e como deve ser apresentado, melhor dizendo, nada de incomodar quem não deve ser incomodado.
Atitudes desta natureza contrariam o que deve ser a investigação, interrogar, estudar, sem preconceitos ou medo de desagradar ao poder, seja ele qual for.
Esta decisão, do meu ponto de vista, envergonha a universidade. Aguardo com alguma curiosidade as reacções.

É PROIBIDO SER POBRE

"Este homem quer ilegalizar a pobreza"
Um homem com uma larga experiência de vida e de trabalho junto das pessoas mais vulneráveis socialmente tem como grande projecto de vida e para a última Instituição que fundou, a Impossible, ilegalizar a pobreza, isso mesmo, ilegalizar a pobreza.
Inquieto com o pouco impacto que o trabalho de muitas instituições que intervêm na área da solidariedade tem nas condições de vidas das pessoas, numa espécie de operacionalização do princípio de Shirky, “as instituições tendem a alimentar os problemas para os quais é suposto serem a solução”, este Homem quer ir mais longe, criminalizar a pobreza, é proibido ser pobre.
Será a mais nobre das utopias, a maior das ingenuidades ou o maior dos disparates.
Apesar dos discursos com que nos querem convencer de que as assimetrias no rendimento de ricos e pobres e na distribuição da riqueza se vão esbatendo, às vezes torturando alguns números para que a realidade pareça diferente, um estudo do Banco Central Europeu vem afirmar que em Portugal o peso da fortuna dos mais ricos é superior ao que se acreditava, um quarto da riqueza pertence a 1% da população.
Considerando os nove países da zona euro analisados, Portugal é o terceiro país com uma maior concentração da riqueza, atrás da Áustria e da Alemanha.
Sabemos ainda que a esta concentração também corresponde uma das maiores assimetrias da Europa entre o rendimento da minoria mais favorecida e os mais pobres. Por outro lado, como também tem sido referenciado, um dos muitos efeitos perversos da crise tem sido o acentuar generalizado desta assimetria, cá e noutras paragens.
Como algumas vezes oiço alguém referir, falamos de pobreza, quando o nosso problema é com a riqueza, está mal distribuída e todos queremos ser ricos, muito ricos. É neste quadro que se acentua e promove a desregulação que leva ao enorme fosso entre os mais ricos e os mais pobres.
Nós precisamos de combater a assimetria da distribuição da riqueza e produzir mais riqueza, precisamos de combater mordomias e desperdício de recursos e meios ineficientes e muitas vezes injustificados que alimentam clientelas e interesses outros. Nós precisamos de combater a teia de protecção legal e política aos interesses dos mercados e dos seus empregados que conflituam com os interesses das pessoas.
Precisamos de coragem e visão sem subserviência ao ditado dos mercados e dos seus agentes para definir modelos económicos, sociais e políticos destinados a pessoas e não a mercados ou a grupos minoritários de interesses.
Será possível ilegalizar a pobreza?

Pelo sonho é que vamos.

terça-feira, 28 de Outubro de 2014

O CANTE, A ALMA DO ALENTEJO

Para fugir um pouco aos tempos de chumbo que continuamos a viver, deixem-me registar que a candidatura do cante alentejano à condição de Património Imaterial da Humanidade recebeu o parecer positivo de uma comissão de especialistas internacionais o que pode ser um bom augúrio para a decisão final a conhecer em Novembro.
Confesso que não sou particular adepto deste tipo de classificações, veja-se o estado deplorável de boa parte do nosso património material.
No entanto, como alentejano dos afectos, que não de nascença, não posso deixar de ficar contente com o reconhecimento e divulgação que podem ser proporcionados à alma do Alentejo, o Cante. Oiçam.




A NORMALIDADE DO MEC, A OCDE, OS PROFESSORES A MAIS E A DIMENSÃO DAS TURMAS

A meio do 1.º período, ainda há 128 horários completos por preencher nas escolas

Agora sim, entrámos em plena normalidade no funcionamento das escolas. No balanço ontem apresentado pelo MEC ficámos a saber que estão por preencher 128 horários completos, envolverão cerca de 2500 alunos, e 160 horários incompletos.
Verifica-se assim uma situação absolutamente "normal" com problemas residuais e irrelevantes considerando a globalidade do sistema. Um outro pormenor é o facto de esta normalíssima situação estar a acontecer a meio do primeiro período escolar, ou seja, um mês e meio depois do início das aulas.
Esta narrativa escrita por um MEC completamente à deriva com consequência dfificilmente objectiváveis tem acontecido no meio da mais absoluta irresponsabilidade.
No meio disto aida temos que levar com a OCDE a advogar turmas mais pequenas e cortes na educação, insistindo nos professores a mais, demonstrando um desconhecimento real dos contextos educativos portugueses pautando-se por indicadores administrativos que, aliás, também sustentam algumas das ideias de Nuno Crato. É evidente que uma escola de Singapura e uma escola de um TEIP não têm as mesmas características pelo que falar em abstracto do número de alunos por turma é disparate. 
Não é aceitável considerar apenas o número total de professores e o número de alunos estabelecendo um rácio pois o modelo de organização e funcionamento das escolas e agrupamentos atribui aos professores imensas funções não lectivas e, por outro lado, o número médio de alunos por turma é um indicador enganador na medida em que especificidades dos contextos impõem outro tipo de problemas. Sabemos ainda que escolas que servem territórios educativos mais complicados são, com frequência as que têm maior número de alunos por turma.
Enfim, continuamos a navegar num mar encapelado.

segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

SIM. ELES, CRIANÇAS E ADOLESCENTES, PERCEBEM

"Crianças portuguesas reconhecem a crise 

como um problema que afeta o seu 

quotidiano"

A imprensa divulga hoje um estudo realizado pelo Comité Português para a UNICEF sobre a percepção que crianças e adolescentes têm dos tempos e das dificuldades que temos vindo a atravessar.
O estudo, realizado em 2013, mostra como crianças e adolescentes têm uma percepção muito clara das dificuldades das famílias, no impacto dessas dificuldades em variadas dimensões, incluindo nas relações pessoais, a vida escolar e disponibilidade dos pais e, muito importante, da ameaça para o seu futuro por exemplo, na possibilidade continuar os estudos.
Estes dados não me aprecem surpreendentes mas são importantes.
Os adolescentes e as crianças, cuja imagem e competências são frequentemente maltratadas, são inteligentes e atentos, mais do que por vezes acreditamos. Quando lhes perguntamos sobre o que está à sua volta, de uma forma geral, revelam que percebem, sentem, as circunstâncias nas quais estão mergulhados e falam com lucidez sobre isso. Nesta afirmação estou a incluir, como não pode deixar de ser, crianças e adolescentes com necessidades especiais que, devido a essa condição, ainda menos são ouvidas sobre o que lhes diz respeito.
Recordo um estudo, referi-o aqui há dias, realizado nos EUA em que crianças e adolescentes revelaram como sentem as alterações nas relações com os pais devido ao tempo que estas passam com tablets e smartphones.
É por questões desta natureza que tantas vezes insisto na necessidade de falarmos, interpelarmos os mais novos. Eles têm certamente algo para nos dizer e que, talvez, possa influenciar decisões que acabam por os envolver mas para as quais muitas vezes não são consideradas as suas opiniões.
Fala-se com frequência do barulho e gritaria que os mais novos produzem.
Quero afirmar que não tenho nenhuma visão idealizada ou ingénua de crianças e adolescentes mas algumas vezes, refiro, com uma pontinha de provocação, que talvez só quando eles gritam é que os ouvimos.
Dito de outra maneira, em muitas circunstâncias eles gritam porque não os ouvimos, mostramos alguma surdez, total ou selectiva, só ouvimos o que queremos.
A verdade, insisto, é que crianças e adolescentes percebem, pensam e se tiverem oportunidade participam nas decisões que os levam ao futuro. Da forma possível para cada idade, evidentemente.

ADOPÇÃO. UMA FAMÍLIA É UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE

"Um só diploma vai regular tudo o que tem a ver com adopção de crianças"

Conforme tinha sido anunciado pelo Governo, parece confirmar-se a introdução de mudanças substantivas nos processos de adopção de crianças. É uma necessidade de há muito sentida.
Conforme foi divulgado há dias temos umas das mais altas taxas europeias de crianças institucionalizadas. Por melhores que sejam as instituições e o esforço dos técnicos a vivência familiar é  um bem de primeira necessidade.
É fundamental, pois, a intervenção oportuna e a agilização e regulação do processo de decisão sobre a adoptabilidade das crianças. Existem situações em que as crianças permanecem por tempo demasiado em contextos familiares que as maltratam ou negligenciam.
É também importante que o processo de adopção seja agilizado, existem situações de famílias com anos de espera para realizar uma adopção. Como é óbvio, um processo de adopção é algo cuja qualidade não pode em momento algum ser hipotecada minimizando o risco de "devolução" de crianças em processo de adopção, situação altamente penalizadora para todos os envolvidos sendo, por isso, necessário que a regulação deste processo seja realizada durante algum tempo.
No entanto, parece claro que o processo carece de agilização de modo a que os candidatos à adopção não desistam assustados com a morosidade.
Também é verdade que se verifica uma maior dificuldade  na adopção de algumas crianças por razões como doença, deficiência, existência de irmãos ou uma idade já elevada.
Acresce que também que, por vezes, a demora decorre porque os famílias que se candidatam à adopção preferem crianças até aos 3 anos sendo que o número de crianças mais pequenas em situação de adoptabilidade é mais pequeno.
Assim, muitas crianças parecem estar  de facto condenadas a não ter uma família.
Esperemos que as mudanças que se anunciam possam ser um contributo significativo para minimizar esta situação.
Deixem-me recordar algo que ainda há pouco aqui escrevi para recordar uma expressão que ouvi já há algum tempo a Laborinho Lúcio num dos encontros que tenho tido o privilégio de manter com ele.
Dizia Laborinho Lúcio que "só as crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas pelos seus pais”.

Na verdade, muitas crianças não chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas. No entanto, é melhor criar uma oportunidade para que as crianças "desabrigadas" possa ser adoptadas, possam ser felizes.

domingo, 26 de Outubro de 2014

A LER. UMA HISTÓRIA DE VIDA

O impressionante testemunho de uma luta por uma vida normal ... seja lá isso o que for.
As histórias de vida que nos fazem sentir pequenos.

“Um tipo todo torto que insiste em ter uma vida normal”

DIZ QUE É UMA ESPÉCIE DE AUTONOMIA


A autonomia  das escolas e agrupamentos é, reconhecidamente, uma ferramenta de desenvolvimento da sua qualidade, pois permite que os seus recursos, modelos de organização e funcionamento se ajustem às especificidades de contexto e, assim, melhor possam responder à população que servem, a toda a população, evidentemente, de acordo com as suas necessidades. A defesa da autonomia das escolas é parte da retórica de qualquer equipa que entre na 5 de Outubro. 
Recordo que na assinatura de mais 30 contratos de autonomia, Casanova de Almeida, Secretário de Estado do Ensino e da Administração Escolar, afirmou que "está a ser preparado um novo quadro legislativo para que, no próximo ano letivo, possa haver mais um degrau na autonomia das escolas" e assim "as escolas podem criar as suas próprias especificidades", adaptando os currículos "às regiões, ao contexto em que trabalham e aos alunos destinatários".
O que continuo com uma enorme dificuldade em entender é como é que esta retórica, que lembra o tão atacado “eduquês”. Há uns meses Casanova de Almeida também afirmou que "Um dos objectivos é que as escolas percebam que podem actuar de uma forma diferenciada, com muito mais flexibilidade, mesmo a nível curricular, quando estabelecem contratos de autonomia”. É interessante se considerarmos a margem de manobra inexistente com o estabelecimento das metas curriculares nos termos burocratizados e extensos em que o foram transformando o ensino na gestão de uma espécie de "check list" das metas estabelecidas implicando a impossibilidade de acomodar as diferenças, óbvias, entre os alunos, os seus ritmos de aprendizagem o que culminará, antecipa-se, com a realização de exames todos os anos.
Pode ainda perguntar-se se num sistema de ensino público a autonomia das escolas e as suas implicações positivas apenas devem ficar para as que estabeleçam contratos, sendo que as outras, utilizando a retórica do Secretário de Estado, não actuarão de forma diferenciada, não serão flexíveis, nem mesmo a nível curricular. Estranho, no mínimo.
Há uns meses Casanova de Almeida também afirmou que "Um dos objectivos é que as escolas percebam que podem actuar de uma forma diferenciada, com muito mais flexibilidade, mesmo a nível curricular, quando estabelecem contratos de autonomia”. É interessante. Pode, aliás, perguntar-se se num sistema de ensino público a autonomia das escolas e as suas implicações positivas apenas devem ficar para as que estabeleçam contratos, sendo que as outras, utilizando a retórica do Secretário de Estado, não actuarão de forma diferenciada, não serão flexíveis, nem mesmo a nível curricular. Estranho, no mínimo.
A Associação Nacional de Dirigentes Escolares afirmava há meses que embora se refira nos contratos, entre outros conteúdos, que as escolas podem organizar os horários e constituir turmas com autonomia, também se acrescenta que deverão respeitar legislação e regulamentos em vigor. E a autonomia em matéria curricular? Em que ficamos? E na gestão de recursos? Por outro lado, segundo a mesma Associação, na maioria das situações, as orientações do MEC não diferenciam as escolas, aplicam-se a todas, ou seja, não respeitam a sua autonomia.
O sistema educativo continua, pois, altamente centralizado e com uma carga de burocracia asfixiante apesar do “upgrade” tecnológico, ou seja, “plataformizou-se” mas a burocracia centralizada continua imensa.
Tudo dentro da normalidade, evidentemente. É assim a PEC – política Educativa em Curso.

TESTES DE STRESS? SIM, A VIDA DE MUITAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Nos últimos anos com a crise financeira e económica que nos esmaga tornou-se conhecida uma expressão que não me recordo de ver utilizada antes, testes de stress aos bancos. A propósito da crise nos mercados financeiros realizam-se regularmente aos bancos europeus os tais testes de stress, também chamados de resistência, para aferir da sua capacidade de resposta. Os resultados hoje conhecidos sugerem que os bancos portugueses analisados se aguentaram ao stress à excepção do BCP que, no entanto, parece ter a situação controlada. De fora terá ficado o Banco "Bom" resultante do desvario fraudulento do gangue Espírito Santo e colaboradores.
No entanto, sendo algo de novo, para mim evidentemente, os testes de stress neste universo, a banca, estes testes são mais do que frequentes e conhecidos. A vida de muita gente, em particular dos miúdos e adolescentes, é um contínuo teste de stress.
Muitos miúdos passam o dia a saltitar entre actividades e a correr de espaço para espaço sem tempo para respirar.
Muitos miúdos vivem em famílias que experimentam tremendas dificuldades em assegurar patamares mínimos de bem-estar e qualidade de vida.
Muitas crianças são vítimas de maus-tratos e negligência que transforma a sua vida num inferno inaceitável.
Muitas crianças e adolescentes com necessidades especiais vêem atropelados os seus direitos a dimensões básicas da qualidade de vida, a educação, por exemplo.
Muitos miúdos e adolescentes são fortemente pressionados pelas famílias para a excelência do desempenho vivendo angustiadamente perante o risco do fracasso e de se sentirem responsáveis por expectativas familiares defraudadas.
Muitos miúdos e adolescentes vivem em ambientes afectivamente hostis, ameaçadores da sua auto-estima e confiança quando não vitimizados pela fragilidade que demonstram.
Muitos adolescentes e jovens sentem-se perdidos e incapazes de construir um projecto de vida viável capaz de os rebocar até ao futuro.
Os exemplos poderiam crescer, mas parecem suficientes para mostrar o nível de especialização que muitas crianças, adolescentes e jovens já atingiram em testes de stress.
E só falei dos mais novos. No fundo e relativamente à banca, creio que sempre viveu, vive e viverá sem grande stress.

sábado, 25 de Outubro de 2014

A TRADUÇÃO DA AFIRMAÇÃO DO MINISTRO

Crato diz que necessidades escolares comprovadas "serão supridas"

No Encontro Nacional das Associações de Pais o Ministro Nuno Crato, com o ar de sempre, afirmou que as "necessidades escolares" "comprovadas" "serão supridas".
De pé atrás com o risco de mais uma "conjecturável ambiguidade" na interpretação das suas palavras, procurei o mais recente dicionário de Cratês-Português e a afirmação de Nuno Crato pode traduzir-se da seguinte forma:
Os problemas que as escolas apresentarem e cuja existência será sempre residual ou mesmo inexistente, serão sofridos pelas escolas, ou seja, por alunos, professores e pais. 
O dicionário refere ainda que a utilização por parte de Nuno Crato dos tempos dos verbos nem sempre é clara e indiciadora da acção. Por exemplo "mantêm-se" em Cratês não significará "manter-se-ão" em Português, pelo que o uso do tempo verbal "serão" pode estar sujeito a diversas leituras. 
O dicionário ajuda, assim é bastante mais claro, é uma linguagem que estamos habituados a entender.

UM DISCURSO PATÉTICO E PREGUIÇOSO

"Passos acusa comentadores e jornalistas de serem “patéticos” e “preguiçosos”"

O Primeiro-ministro foi às Jornadas Parlamentares da maioria PSD/CDS fazer um discurso em defesa do Orçamento Geral do Estado para 2015. Entendeu por bem atacar toda a gente, sobretudo comentadores e jornalistas, os opinion makers claro, apelidando-os de "preguiçosos" e "patéticos", 
Lamento, mas a intervenção de Passos Coelho é que me pareceu francamente preguiçosa e patética. Vejamos.
Um discurso de Passos Coelho para as bancadas parlamentares do PSD e CDS é, por assim dizer, um discurso fácil. É um público que, salvo raras excepções, oiça o que ouvir, aplaudirá até que as mãos lhe doam. O aplauso e a emoção evidenciada poderão contribuir para manter o lugarzinho de deputado que não será fácil, quer pela concorrência, quer pela redução de lugares que parece desenhar-se.
Sendo um público pouco exigente, Passos Coelho não precisa de se esforçar muito. Basta-lhe, preguiçosamente, continuar a repetir a sua visão do paraíso, de como tudo o que foi feito ter sido muito bem feito e sem alternativa. Assume mesmo uma esforçada humildade, cai bem, reconhecendo alguns "desconfortos", a coisa na educação e na justiça complicou-se um bocadinho mas, como disse a Ministra Teixeira da Cruz, serão conspirações do inimigo. Como a imprensa divulgou o aplauso foi enorme. Estou até convencido de que se Passos Coelho estivesse calado, seria igualmente aplaudido.
Foi também um discurso patético. A fórmula, nós estamos certos e todos os outros estão errados, a diabolização da opinião contrária, sobretudo da imprensa, é um clássico mas é poucochinha. É da mesma natureza que afirmar "que é assim porque nós dizemos que é assim", a realidade pode dizer outra coisa mas a realidade está enganada, "a realidade é aqui que nós decidimos que seja a realidade". Convenhamos que esta visão é patética e até preocupante pela lucidez ausente e pela pobreza das análises.
Enfim, nada de novo. Toda a gente gostou, aplaudiu e ficou feliz.
Pateticamente como é habitual na liturgia partidária.

MUDA A HORA. E O TEMPO?

Mais logo, vai mudar a hora. Lembro-me de quando era miúdo, não sei bem porquê, aguardarmos a mudança da hora com alguma expectativa. Naquele tempo as mudanças eram poucas,
E quando mudará o tempo de agora? O tempo anda de chumbo.

OS NEGÓCIOS DA FAMÍLIA. Um filme em permanente exibição perto de si

O Expresso coloca em 1ª página que o ex-ministro Manuel Pinho quer processar o BES pois recebia até ao início do ano um ordenadito de 39 000€ como administrador do BES África, uma holding sem actividade sublinhe-se, e afirma ter na sua posse uma carta do padrinho Ricardo Salgado que lhe garantia este ordenadito até à idade da reforma. Com uma ponta de demagogia recordo que o salário mínimo subiu em termos reais pouco mais de 15€ passando para cerca de 505€.
O que sempre escrevo a propósito dos recorrentes episódios elucidativos desta longa narrativa, “Os Negócios da Família”. 
"A roda livre de impunidade e incumprimento dos mais elementares princípios éticos quando não da lei, produziu nas últimas décadas uma família alargada que, à sombra dos aparelhos partidários e através de percursos políticos, se movimentam num tráfego intenso entre entidades e empresas públicas e entidades privadas, promovendo frequentemente em negócios que insultam os cidadãos. 
Esta família alargada envolve gente de vários quadrantes sociais e políticos com uma característica comum, os negócios obscuros de natureza multifacetada e de escala variável, desde o jeitinho para o emprego para o amigo até aos negócios de muitos milhões.
Acontece ainda e isto tem efeitos devastadores, que muitos dos negócios que esta família vai realizando envolve com frequência dinheiros públicos e com pesados encargos para os contribuintes.
Esta família conta ainda com a cooperação de um sistema de justiça talhado à sua medida pelo que raramente se assiste a alguma consequência decorrente dos negócios da família.
Curiosamente, mas sem surpresa, todos os membros desta família, quando questionados sobre os seus negócios ou envolvimento em algo, afirmam, invariavelmente que tudo é feito tudo dentro da lei, nada de incorrecto e, portanto, estão sempre de consciência tranquila.
Alguém poderia explicar a esta gente que, primeiro, não somos parvos e, segundo, o que quer dizer consciência.
Esta é a pantanosa pátria, nossa amada." 
Aguarda-se o próximo episódio desta tenebrosa narrativa, “Os negócios da Família”

E não se pode exterminá-los?

sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

O "DIRTY WORK" ENCOMENDADO PELA FCT À EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION

"Reitores arrasam avaliação da FCT: “Um falhanço pleno”"

A coisa resume-se facilmente. A Fundação para a Ciência e Tecnologia contratou uma moribunda European Science Foundation para um trabalho sujo, liquidar parte significativa das estruturas de investigação existentes em Portugal.
Definiu à partida que metade das entidades deveria ser eliminada logo na primeira fase e a ESF  que fizesse o trabalho. Para dar suporte às decisões recorreu-se de forma absolutamente delirante à tirania dos índices bibliométricos através da Elsevier e constituíram-se equipas de avaliadores que sem dar a cara se dispuseram a fazer o trabalho sujo.
O resultado deste tenebroso processo é conhecido, são conhecidos múltiplos exemplos e tomadas de posição de investigadores e estruturas. Hoje foi conhecida a posição do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas que considera o processo de avaliação um “falhanço pleno”. Tardou a posição do CRUP mas saúda-se.
Nas avaliações realizadas verificou-se de tudo, critérios ambíguos e falta de transparência, avaliação de áreas científicas por avaliadores fora dessa área e sem peso científico, avaliações completamente contraditórias, mal fundamentadas, sobre o mesmo trabalho, ignorância sobre algumas temáticas em avaliação, desconhecimento das variáveis contextuais, etc.
O resultado pretendido pela FCT foi atingido, boa parte do tecido de investigação em Portugal foi, vai ser, destruído. Muitos Laboratórios e Centros de investigação com resultados importantes e reconhecidos vêem fortemente comprometido, quando não impossibilitado, o seu trabalho. É uma irresponsabilidade delinquente.
Nada disto quer dizer, evidentemente, que a investigação não deva ser avaliada e escrutinados os apoios financeiros. A questão é que esta avaliação deve ser séria e competente, com critérios claros e por avaliadores reconhecidos e competentes  nas áreas  que avaliam como sublinha o CRUP.
Também sem surpresa e na linha das apreciações do Ministro Nuno Crato, o Presidente da FCT, Miguel Seabra, tem afirmado recorrentemente que o processo foi competente e adequado, promove a excelência, o rigor ... blá, blá, blá. Trata-se do estranho entendimento de normalidade que faz escola no MEC. 
A questão é que este processo montado para eliminar muitas estruturas terá custos brutais para o Portugal.
Na verdade, está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.
Este processo vai ameaçar, em muitos casos acaba mesmo os excelentes resultados que muitos centros, laboratórios e unidades de investigação e as instituições de ensino superior têm vindo a alcançar e que atestam o esforço e a competência da comunidade científica portuguesa e o trabalho realizado no âmbito do ensino superior e investigação, traduzidos no reconhecimento internacional das nossas instituições.
Como em quase tudo é uma questão de escolhas e prioridades de quem lidera. O problema como referia também o Professor Sobrinho Simões num entrevista de há algum tempo sobre estas questões é que "os nossos políticos têm um problema ... alguns não se apercebem do valor do ensino superior e da investigação".
A negrura crática que cai sobre a investigação vai ter consequências brutais em termos de desenvolvimento científico e económico para além, evidentemente, do impacto nas carreiras pessoais assim ameaçadas de milhares de pessoas que investigam, criam conhecimento, promovem desenvolvimento e que, provavelmente, desistem ou emigram.
Acresce que depois de múltiplas críticas nacionais e internacionais a este processo a ESF ameaça com um procedimento legal uma investigadora espanhola que referiu em artigo na Nature este sórdido processo e vem também afirmar à Nature que os investigadores nacionais são uns arruaceiros que dificultaram o seu trabalho de forma nunca vista.
É a cereja em cima do bolo. Não se pode opinar desfavoravelmente aos inquisidores, como lhes chamou José Vítor Malheiros em artigo no Público. Eles zangam-se e ameaçam com os tribunais. Um filme negro já visto.
E assim se destrói uma política científica que vinha a produzir  resultados positivos.
A história não os absolverá.

DESCULPE, O SISTEMA ESTÁ EM BAIXO

Pela enésima vez deparei-me com uma situação em que alguém do outro lado de mim diz, "desculpe, não temos sistema" ou na variante "o sistema foi abaixo". Em seguida vem a também habitual justificação, "eles, andam a mudar qualquer coisa".
E lá fica o cidadão com a paciência em baixo.
Que raio se passa com os "sistemas" que andam sempre em baixo para nos dar cabo da paciência e aumentar a burocracia, o desperdício e a ineficiência? Não nos faltam experiências e exemplos.
Porque raio existem uns "sistemas" que estão sempre em cima, vão crescendo e são BEStiais. Quando correm mal, vão abaixo e sobra, claro, para o nosso "sistema" que já está mais do que em baixo, está na sobrevivência.
Porque raio andam "eles" sempre a mexer nos "sistemas"?
Porque raio existem vários sistemas em que "eles" não mexem. Sem estranheza, são os "sistemas" que quase nunca vão abaixo.
Porra, estou farto dos "sistemas" em baixo e dos "sistemas" em cima nesta terra de "sistemas".

NÃO SE DIZEM PALAVRÕES

O que fazer quando os filhos dizem palavrões? Desvalorizar

O trabalho de hoje no DN sobre uma situação que todos conhecemos, quando os miúdos dizem palavrões, recordou-me uma história cá de casa, já de há de alguns anos que rapidamente se conta.
Uma vez, depois de terminar umas pinturas realizadas com marcadores com ponta de feltro, o meu filho, aí por volta dos 5 anos, tentava tapar um dos marcadores mas a coisa não lhe estava a correr bem e os dedos já estavam a ficar esborratados. Como reacção ouviu-se um sonoro palavrão, daqueles que os adultos tentam explicar às criancinhas “que é feio dizer”. 
Pai empenhado na boa educação do rebento, “peguei” no violino e em pianíssimo procurei explicar que aquelas “palavras não se devem dizer”. O problema é que o gaiato olhou tranquilamente para mim e devolve, “mas tu dizes a jogar à bola”. 
Com o tempo acabou por aprender como todos nós, quase todos, que as palavras, todas as palavras, podem ser ditas, às vezes até sabe mesmo bem dizer algumas daquelas que libertam, vocês sabem, não devem é ser ditas em todos os locais e em todas as circunstâncias. 
É verdade que uma vez numa conversa com professores em que eu perguntava se qualquer de nós em algum contexto não dizia um palavrão, um dos professores presentes olhou para mim com um ar tão perplexo quanto incomodado e assertivamente afirmou "Eu não, nunca". Confesso que fiquei muito embaraçado, eu digo algumas vezes palavrões, quando posso, e quando não posso ... penso cada um. Desculpem.
Servem estas histórias para ilustrar a necessidade de que os processos educativos se centrem num princípio estruturante, a autonomia, ideia que sistematicamente defendo. Os miúdos devem ser solicitados a tomar conta de si dentro dos limites e regras que nos compete estabelecer com clareza e consistência e das quais eles têm uma imprescindível necessidade para crescer saudáveis.
Não se trata de uma educação para a santidade onde tudo é perfeito e a transgressão proibida e culpabilizante, mas de uma educação para valores em que os miúdos percebem as regras e os limites e são capazes de mobilizar os comportamentos adequados aos contextos em que se movem. Não nos comportamos num estádio de futebol como nos comportamos ao assistir a uma aula, não nos comportamos num concerto de verão como no cinema, etc., etc.
A questão é que os miúdos, muitos miúdos, parecem crescer numa desregulação por ausência de limites e regras que os deixa perdidos e sem referências, entrando frequentemente numa roda livre em que tudo parece normal e permitido em qualquer contexto.

O problema é que com muitos de nós, adultos, passa-se, basicamente, o mesmo.

PELO DN. QUE VÊEM OS MIÚDOS NO CINEMA E NA TELEVISÃO

Pelo DN, com colaboração numa peça sobre a relação dos miúdos e dos pais com alguns produtos cinematográficos ou televisivos.

"Como avaliar os filmes e séries que os filhos 

podem ver"



quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

O DESCONFORTO DO SR. DR. CASANOVA

"Ministério assume “desconforto” com “erro lamentável” na colocação de professores"

De facto, parece não haver limites para o despudor e irresponsabilidade. 
Uma figurinha que à boleia do cartão partidário, é quase sempre uma essência curricular,  ocupa o lugar de Secretário de Estado da Administração Escolar, o Sr. Dr. Casanova de Almeida, veio hoje afirmar que "Estamos (MEC) desconfortáveis porque aquele trabalho que deveria ter sido feito detectou um erro e esse erro é lamentável” referindo-se, evidentemente, ao processo catastrófico da colocação de professores.
Insistindo na tecla desde o início batida, já só falta resolver situações muito pontuais e o que aconteceu não é muito diferente de anos anteriores, a figurinha continua a mostrar a maior das irresponsabilidades e a falta de uma coisa que o meu pai sempre referia, espinha.
Milhares de alunos sem aulas há um mês e meio com as inevitáveis consequências noS processos e resultados da aprendizagem, um clima de instabilidade que afecta alunos e professores mesmo os não envolvidos directamente, centenas de professores atropelados na sua dignidade, situação pessoal e profissional, um clima de escola virado do avesso e a figurinha fala de "desconforto". Desconforto?!
Uma situação desta natureza seria mais do que suficiente para gente com um mínimo de dignidade, sentido ético, competência e responsabilidade tomar a primeira decisão que em termos políticos se exige, a demissão.
Mas não, o seu ex-colega Director-geral bateu com a porta devido à "fórmula errada", o seu ex-colega Secretário de Estado da Educação bateu com a porta porque plagiou um trabalho sobre a "Dimensão moral da profissão docente" e a figurinha fala de como o MEC se sente "desconfortável" por estes pormenores relativos à colocação de professores.
Relativamente às formas de compensação para os problemas causados a alunos e professores, sabe-se que se não adiam exames mas não se sabe de mais. O que é dito, por assim dizer, traduz-se em linguagem cratesa por, "as escolas que se desenrrasquem", talvez com ajuda do voluntariado dos docentes e da capacidade económica de algumas famílias para proporcionar explicações aos miúdos como já está a acontecer,
Tudo isto faz com que me sinta não "desconfortável", mas nauseado e indignado.

O SUPERIOR INTERESSE DO ALUNO

"O superior interesse do aluno"

Esta é umas das raras vezes em que estou, quase, de acordo com a Opinião de João Miguel Tavares, o génio que substituiu outro Génio, Pedro Lomba, numa coluna de Opinião no Público.
No entanto, embora esteja de acordo com a forma como é descrito o catastrófico processo da colocação de professores, não estou de acordo com a razão que JMT apresenta para todo este enleio.
No final do artigo afirma, "E isto não tem nada a ver com asneiras em concursos – tem a ver com uma visão da escola errada e com as suas prioridades manifestamente trocadas".
Em primeiro lugar existe, de facto, de facto uma enorme incompetência em tudo o que tem sido feito. Tal constatação não parece suscitar dúvidas por parte de quem acompanhe minimamente o processo.
Em segundo lugar, JMT afirma que as prioridades estão "trocadas", existe a defesa do "superior interesse do professor" e não o "superior interesse do Ministério da Educação". Refere, noutra formulação, que se protege o "direito ao posto de trabalho" e não o "direito ao ensino".
Não, não me parece que se passe assim. Existe na verdade uma conflitualidade significativa, naturalmente, com contornos corporativos e contaminada pelos interesses da partidocracia.
No entanto, se existe uma dimensão que pode caracterizar a política educativa mais recente é, justamente, um corte brutal no que JMT chama de "direito ao posto de trabalho", milhares e milhares de professores empurrados para fora do sistema, não porque não façam falta, não porque não sejam competentes mas, "simplesmente" porque é preciso cortar na despesa em educação e este é um caminho que parece fácil.
Estaremos de acordo que "o superior interesse do aluno" não está acautelado, mas não porque seja acautelado o "superior interesse do professor".
Esta política educativa(?), em termos de gestão dos professores, não protege alunos como não protege, globalmente, professores. Esta constatação também me parece não merecer grande discussão.
Protegerá, isso sim, um outro conjunto de interesses e uma visão de sociedade e de educação que vai estando progressivamente mais clara, mas não na forma que JMT a coloca.
Aliás, estou mesmo convencido que Nuno Crato e JMT terão visões razoavelmente próximas sobre educação e escola.

UMA HISTÓRIA DE TERROR

Uma história digna de de filme e ilustrativa do que não pode ser a intervenção clínica em matéria de saúde mental e de como a vida de um cidadão se transformou num inferno e num caso de polícia sem razões que o justificassem.
Um indivíduo é sujeito a internamento compulsivo em psiquiatria, medicado fortemente, sem quadro clínico que sustentasse tal decisão e passa meses da sua vida encarcerado até que consegue ser considerado "normal".
Uma história de terror.

"Carlos ficou três meses num manicómio onde só ele não estava doido"

quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

UM HOMEM CHAMADO TRANQUILO

Era uma vez um homem chamado Tranquilo. Nasceu de uma gravidez tranquila, desejada e no meio de uma família tranquila como poucas.
Entrou tranquilamente na escola e, com alguma tranquilidade, finalizou a sua formação. Durante a juventude o Tranquilo envolveu-se, sempre serenamente é claro, nas actividades típicas da sua idade.
Conheceu uma rapariga chamada Calma com quem constituiu uma família tranquila, como a sua.
A sua vida continuou um paradigma de tranquilidade, no emprego, sem sobressaltos, cumpria o que dele se esperava, sendo, por isso, suficientemente remunerado para viver sem sobressaltos. Sempre encontrava tempo para, tranquilamente, estar com os filhos, amigos e para actividades que não dispensava, como ler ou ouvir música.
O Tranquilo entrou na velhice com a serenidade de sempre, ao lado da companheira Calma junto de quem vivia, calmamente, cada hora de cada dia, espreitando o mundo que se agitava do lado de fora deles. Era também com enorme serenidade que contava histórias aos netos que ficavam a ouvi-las sem agitação.
Um dia, de mansinho, tranquilamente, o Tranquilo abalou.
Algumas das pessoas que com ele se cruzaram nas esquinas da vida disseram, “Este tipo sempre foi um acomodado, um fracassado”.
Onde quer que seja que o Tranquilo estivesse, ouviu-as e sorriu.
Serenamente.

FAMÍLIA PRECISA-SE. MUITO URGENTE

"Número de crianças em instituições em Portugal "é uma anomalia sem paralelo na Europa""

Em Portugal existem, dados de 2013, 8142 crianças institucionalizadas de um universo de 8500 retiradas às famílias, cerca de 96%. Este elevado número traduz-se num dos mais elevados índices europeus de institucionalização. No mesmo sentido Portugal tem um dos mais baixos valores no que respeita a colocação de crianças em acolhimento familiar, 4% face aos 30% verificados em Espanha ou 66% em França. No Reino Unido a taxa de acolhimento familiar é ainda mais elevada, 77%, mas este indicador deverá ser analisado à luz de algumas particularidades que estes processo apresentam e que têm sido objecto de algumas reservas.
Apesar da evolução que se tem constatado, continuamos com uma elevada quantidade de crianças institucionalizadas, muitas das quais sem projectos de vida viáveis pese o empenho dos técnicos. Seria desejável que se conseguisse até ao limite promover a sua desinstitucionalização das crianças por múltiplas e bem diversificadas razões. Recordo um estudo da Universidade do Minho mostrando que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.
A conclusão não questiona, evidentemente, a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção ou outros dispositivos como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos. Também deve acentuar-se o trabalho de grande qualidade que muitas instituições procuram desenvolver. Além disso, sabemos todos, que existem contextos familiares que por razões de ordem variada não devem ter crianças no seu seio, fazem-lhes mal, pelo que a retirada pode ser uma necessidade justificada pelo supremo interesse da criança, um princípio estruturante das decisões neste universo.
Acontece ainda que se verifica uma enorme dificuldade de algumas crianças em ser adoptadas devido a situações como doença, deficiência, existência de irmãos ou uma idade já elevada. Assim, muitas crianças estarão mesmo condenadas a não ter uma família. Curiosamente, existem famílias interessadas na adopção de bebés que esperam até cinco anos porque entre os mais pequeninos passíveis de adopção, o número é menor, situação que se mantém, os candidatos à adopção preferem as crianças abaixo dos 3 anos.
Como é óbvio, um processo de adopção é algo cuja qualidade não pode em momento algum ser hipotecada minimizando o risco de "devolução" de crianças em processo de adopção, situação altamente penalizadora para todos os envolvidos. No entanto, parece claro que o processo carece de agilização de modo a que os candidatos à adopção não desistam assustados com a morosidade. Muito recentemente o Governo anunciou a intenção de introduzir mudanças nos processos de adopção.
Como repararão os mais atentos, sempre que aqui me refiro a este tipo de questões, julgo justificado umas notas sobre os contextos familiares das crianças.
Por estranho que possa parecer, existe uma outra realidade, menos perceptível em termos globais, mas conhecida por aqueles que lidam de mais perto com as crianças e que remete para a quantidade enorme de situações de crianças abandonadas e rejeitadas dentro das famílias, algumas destas famílias até com um funcionamento aparentemente normal.
Pode parecer surpreendente esta abordagem, mas muitas crianças vivem em famílias, diferentes tipos de família, que, por variadíssimas razões, as não desejam, as não amam, apenas as toleram, cuidam, pior ou melhor, sobretudo nos aspectos "logísticos". Em alguns casos, são mesmo crianças a que "não falta nada", dizem-nos. Na verdade falta-lhes o essencial, o abrigo de uma família.
Quando penso nestas situações lembro-me sempre de uma expressão que ouvi já há algum tempo a Laborinho Lúcio num dos encontros que tenho tido o privilégio de manter com ele.
Dizia Laborinho Lúcio que "só as crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas pelos seus pais”. Na verdade, muitas crianças não chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas.
Existem mais crianças a viver narrativas desta natureza, abandonadas e ou rejeitadas dentro da família, do que se pode imaginar.

NA TERRA DO FAZ DE CONTA

Zeinal Bava recebe um doutoramento "honoris causa" pela Universidade da Beira Interior.

"Zeinal Bava é distinguido e lembra capacidade da "PT para superar as adversidades""


A Ministra das Finanças não vê de que forma o colapso do BES possa ter impacto na economia.

"Ministra: "Não vejo como o BES pode ter 

impacto na economia""


E nós fazemos de conta que acreditamos. É assim a terra do faz de conta.

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

TODOS BATEM NOS PROFESSORES

"Professora agredida numa escola onde dezenas de pais acorreram devido a falso caso de ébola"

As notícias sobre agressões a professores, designadamente cometidas por encarregados de educação, vão chegando com alguma frequência à comunicação social. Hoje foi no Porto, uma mãe entendeu agredir a professora que tinha tirado o telemóvel ao seu rebento de 12 anos que o ligou durante aula.
De novo, algumas notas. Esta questão, embora sempre objecto de rápidos discursos de natureza populista e securitária, parece-me complexa e de análise pouco compatível com um espaço desta natureza. No entanto, uma breve reflexão em torno de três eixos: a imagem social dos professores, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade, que me parecem fortemente ligados a este fenómeno.
Já aqui tenho referido que os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso de responsáveis da tutela que evidentemente, têm responsabilidades acrescidas, algum do discurso produzido pelos próprios representantes dos professores e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para alterações significativas da imagem social dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, sobretudo, alunos e pais. 
Esta fragilização tem, do meu ponto de vista, graves e óbvias consequências, na relação dos professores com alunos e pais pelo impacto na percepção social de autoridade.
Em segundo lugar, tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os professores, entre outras profissões, polícias ou médicos, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição de professores, como fontes de autoridade. Tal processo alterou-se, o facto de se ser professor, já não confere “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de desrespeito ou de agressão. O mesmo se passa, como referi, com outras profissões em que também, por razões deste tipo, aumentam as agressões a profissionais.
Finalmente, importa considerar, creio, o sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a grandes, o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”.
Considerando este quadro, creio que, independente de dispositivos de formação e apoio, com impacto quer preventivo quer na actuação em caso de conflito, obviamente úteis, o caminho essencial é a revalorização da função docente tarefa que exige o envolvimento de toda a comunidade e a retirada da educação da agenda da partidocracia para a recolocar como prioridade na agenda política.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.
É ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de punição e responsabilização séria dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.

A QUEDA DE UM ANJO (enésimo episódio)

Desta vez em Albergaria-a-Velha. Uma criança de quatro anos caiu de uma altura de 15 metros, o terceiro andar do metros no prédio onde vive com a família. Ao que parece, na altura estava na altura à guarda de uma tia de 13 anos, repito, 13 anos.
O povo costuma dizer que “ao menino e ao borracho, põe Deus a mão por baixo". Desta vez não aconteceu, o menino está em situação muito grave. Esperemos que melhore.
Dada a regularidade destes episódios, algumas notas, de novo.
De acordo com a Associação para a Promoção da Segurança Infantil, dados de 2013, em dez anos, mais de 100 crianças morreram e 40 mil foram hospitalizadas devido a quedas, grande parte das quais em edifícios (varandas ou janelas) e quedas de escadas.
Também as piscinas continuam anualmente a ser palco de acidentes com enorme gravidade ou fatais.
Continuamos a ser um dos países europeus em que acontecem maior número de acidentes domésticos com crianças. Nas mais das vezes verifica-se alguma negligência ou excesso de confiança da nossa parte, adultos, na vigilância dos miúdos a que se junta a inexperiência e o à vontade próprios dos mais pequenos.
A dor e a culpa que alguém pode carregar depois de episódios desta natureza serão, creio, suficientemente fortes para que deixemos de lado o aspecto da culpabilização que aqui nada acrescenta.
O que me parece importante sublinhar é que num tempo em que os discursos e as práticas sobre a protecção da criança estão sempre presentes, também se verifica um número altíssimo de acidentes, por vezes mortais, o que parece paradoxal. Por um lado, protegemos as crianças de forma e em circunstâncias que, do meu ponto de vista, me parecem excessivas e, por outro lado, em muitas situações adoptamos atitudes e comportamentos altamente negligentes e facilitadoras de acidentes que, frequentemente, têm consequências trágicas.
E não adianta pensar que só acontece aos outros.

MIÚDOS A CRESCER

Pelo DN numa trabalho sobre a autonomia dos mais novos. A promoção da sua autonomia é a melhor forma de os ajudar a crescer e a ser.


O SUPER-PROFESSOR E OS PROBLEMAS RESOLVIDOS

O professor que numa fase anterior tinha sido colocado em 75 escolas apesar de ter desistido do concurso foi agora contemplado com 95 horários.
Nada de extraordinário. Mostra como o processo de colocação de professores está no andamento certo, os problemas resolvidos graças à competência e empenho do Ministro Nuno Crato, publicamente elogiado por Passos Coelho.
Verifica-se ainda, no entanto, um pequenìssimo pormenor. Quase um mês e meio depois do início das aulas, existem ainda milhares de alunos sem aulas em condições adequadas.
É, evidentemente, uma irrelevância, Os problemas estão resolvidos porque Passos Coelho e Nuno Crato disseram que estavam resolvidos. A realidade está enganada, eles é que estão certos.
E não acontece nada.

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

A NÁUSEA

Liguei a televisão e caí no Prós e Contras.
Fiquei, ouvi duas ou três intervenções do Sr. Dr. Pedro Cunha, dirigente do MEC, da nova responsável pela tutela sobre a colocação de professores, do Eng. Couto dos Santos, ex-ministro da Educação e ... não aguentei. Despudor, incompetência e demagogia para além do que a alma humana permite.
Após um dia de lida comprido a náusea é insuportável.
Desliguei a televisão.

SOS BULLYING

A agenda das consciências assinala hoje o Dia Mundial de Combate ao Bullying. Algumas notas na linha do que frequentemente aqui tenho escrito.
Nos contextos educativos, dada a gravidade e frequência com que ocorrem episódios de bullying nas suas diferentes formas, torna-se imprescindível que lhes dediquemos atenção ajustada, não sobrevalorizando, nem tudo é bullying, o que promove insegurança e ansiedade, nem desvalorizando. pode negligenciar riscos e sofrimento.
Importa considerar desde logo que a ocorrência de situações de bullying é bem superior ao número de casos que são relatados. A UNICEF estima que uma em cada três crianças e adolescentes será vítima de bullying.
Uma das características do fenómeno, nas suas diferentes formas, incluindo o emergente cyberbullying, é justamente o medo e a ameaça de represálias a vítimas e assistentes que, evidentemente, inibem a queixa pelo que ainda mais se justifica a atenção proactiva e preventiva de adultos, pais, professores ou funcionários.
Considera-se que nos últimos três anos o fenómeno tenha provocado pelo menos 12 suicídios nos Estados Unidos. Recordo ainda que foi anunciado em Setembro de 2013 que a Direcção-geral de Saúde iria promover em várias escolas do país durante este ano lectivo um projecto de prevenção do suicídio dirigido a adolescentes. Felizmente, a taxa de suicídio adolescente em Portugal não é muito alta, embora um só caso já seja uma tragédia. No entanto, os comportamentos de natureza auto-destrutiva são bem mais prevalentes do que se pensa. Em algumas circunstâncias, mais tarde estes comportamentos podem culminar em suicídio.
Neste universo importa considerar dois eixos fundamentais de intervenção por demais conhecidos, a prevenção e a intervenção depois dos problemas ocorrerem. Esta intervenção pode, por sua vez e de forma simplista, assumir uma componente mais de apoio e correcção ou repressão e punição, sendo que podem coexistir. Com alguma demagogia e ligeireza a propósito do bullying, as vozes a clamar por castigo ou a desvalorizar ocorrências têm, do meu ponto de vista, falado mais alto que as vozes que reclamam por dispositivos de prevenção, intervenção e apoio para além da óbvia punição, quando for caso disso.
Relembro que o Portal sobre o bullying teve durante o seu primeiro ano de funcionamento cerca de 650 000 visitas e respondeu a 700 solicitações.
Esta utilização mostra a necessidade de dispositivos de apoio e orientação absolutamente fundamentais para que pais, professores e alunos possam obter informação e apoio. Lamentavelmente, este serviço é exterior às escolas e ilustra a falta de resposta estruturada e global do sistema educativo, para além das insuficiências na formação de técnicos e de professores sobre esta complexa questão, desde logo para o seu reconhecimento. A existência de dispositivos de apoio sediados nas escolas, com recursos qualificados e suficientes é, a par de ajustamentos nos modelos de organização e funcionamento das escolas e de uma séria reestruturação curricular, uma tarefa urgente.
Do meu ponto de vista, o argumento custos não é aceitável porque as consequências de não mudar são incomparavelmente mais caras. Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas, sendo necessário, já é tarde.
Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa, ou na escola, espaço onde passam um tempo enorme.
Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. 
O resultado pode ser trágico.

A VOZ DAS MINORIAS

Hoje assinala-se o Dia Nacional da Paralisia Cerebral. Nunca é demais reafirmar os inalienáveis direitos das pessoas com deficiência à autodeterminação, à autonomia e à participação, em nome da inclusão.
A voz das minorias é sempre muito baixa, ouve-se mal, existem variadíssimas áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente educação, saúde, apoio social, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são enormes.
Importa também sublinhar que os direitos fundamentais não são de geometria variável e hipotecados às oscilações de conjuntura.
Muito já se conseguiu, muito já se mudou.
Está ainda quase tudo para fazer.

MAIS DE UM MÊS SEM AULAS. QUE FAZER?

"Compensar alunos sim, mas sem mais aulas por semana e fora das pausas lectivas"

O Público contactou-me no sentido de colaborar numa peça sobre as consequências do catastrófico e incompetente arranque do ano lectivo que mais de um mês depois do seu início formal ainda não decorre com normalidade em muitas escolas.
Caberá, como sempre, às escolas, professores, alunos e pais tentar apagar um fogo que a arrogância e incompetência do MEC ateou e que, do meu ponto de vista, deixará marcas que a curto prazo dificilmente serão eliminadas, quando muito serão atenuadas. A compensação imprescindível é difícil e complexa.
Uma primeira nota para referir que boa parte das escolas afectadas sãoTEIPs, ou seja, comunidades educativas com variáveis de contexto que não são positivas, aliás, daí decorre a sua condição de TEIP, A situação criada acaba por despejar problemas para cima de problemas.
Creio que também temos de considerar uma outra variável. A organização e conteúdos curriculares, de natureza mais fechada e extensos, a que se junta um conjunto de metas curriculares que foram definidas de uma forma exaustiva e burocratizada torna bastante mais difícil a introdução de ajustamentos. Isto quer dizer que mais de um mês sem aulas implica que muitos conteúdos programáticos deveriam ter sido abordados e o tempo que resta estará, sem grande margem, hipotecado pelos conteúdos e extensão que nesta altura deveriam estar a ser trabalhados.
Aliás, recordo que foi notícia a decisão de algumas escolas de "aliviar", por assim dizer, alguns conteúdos dos programas o que, evidentemente, em anos de exame e no cumprimento das metas curriculares não deixará de ter efeitos.
Também é sabido que muitas famílias afectadas têm estado a recorrer a explicações para atenuar à falta de aulas. Percebe-se obviamente a decisão, mas também é claro que esta situação alimenta assimetrias e a desigualdade de oportunidades, quando, para complicar, se atravessa um período de enormes dificuldades para as famílias.
Têm sido referida como hipótese para atenuar toda esta situação promover mais trabalho diário para os alunos ou estender as aulas por mais algum tempo durante as férias.
Para além das implicações que estas medidas tenham paras escolas e para os professores, quando se sabe que os cortes têm criado enormes dificuldades às escolas, e do risco de acrescentar trabalho lectivo em dias já carregados ou no fim dos períodos, também me parece que mais uma hora por dia ou mais dois ou três dias de aula no final do período não substituem um mês e meio sem aulas.
Uma outra medida colocada pela jornalista seria o adiamento ou cancelamento de exames. A relação mágica do Ministro Nuno Crato com os exames não parece admitir este cenário que, do meu ponto de vista, pouco impacto teria neste problema. Serviria apenas para não "medirmos" os eventuais efeitos deste atraso e das diferenças prováveis entre os resultados de alunos que não tiveram todas as aulas e os seus colegas.
Como tive oportunidade de dizer e aqui reafirmo. creio que, na condição das escolas verem cumprida a promessa de Nuno Crato de terem recursos para as medidas que proponham, uma forma de minimizar danos seria recorrer a parcerias e coadjuvação nas salas de aula no sentido de promover "melhor trabalho" antes de enveredar por soluções de mais trabalho que poderiam funcionar como uma segunda intervenção se e quando fosse julgada necessária.
Com medidas de apoio inscritas no tempo que ainda temos pela frente, com uma avaliação regular dos efeitos destes apoios, poderíamos ir atenuando os efeitos de todo este processo.
Sendo optimistas e devemos sê-lo, a médio prazo a situação dos alunos agora envolvidos pode ser ajustada. No entanto, a curto prazo, estou a falar deste ano lectivo, julgo que podemos e devemos tentar conter danos, minimizar efeitos mas dificilmente tudo será "normalizado".
Uma palavra ainda para um grupo que tembém neste processo foi completamente atropelado e cuja sitação é menos divulgada, a dos alunos com necessidades educativas especiais que, por falat de professores e de técnicos têm estado em casa ou "entregados" em escolas em condições que contrariam o que legalmente está definido ou mesmo juntos numa sala sem a realização do trabalho educativo que por necessidade é imprescindível e a que têm direito.
Eu gostava, eu queria, ser optimista mas a prática do MEC não me deixa sê-lo. As escolas precisariam de recursos acrescidos para lidar com este problema. Não pode assentar na sobrecarga de professores que já estão no limite. O que irá fazer o MEC?

domingo, 19 de Outubro de 2014

PELO TEDxLisboaED 2014


QUALIFICAÇÃO, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE MAS MUITO CARO

"Portugal é um dos países que cobram mais propinas e dão menos bolsas"

Desculpem a insistência no tema mas creio que se justifica.
Segundo o Relatório "Sistemas Nacionais de Propinas no Ensino Superior Europeu", divulgado há dias pela Comissão Europeia e citado no DN, Portugal é um dos cinco países entre os 28 Estados membros da União Europeia que cobram propinas a todos os alunos do ensino superior. Integra também o grupo de países em que menos de metade acede a bolsas de estudo.
Recordo que no início do ano um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos mas não tem meios para os pagar. É também preocupante o abaixamento que se tem vindo a verificar de procura de ensino superior apesar deste ano se ter registado uma pequena subida. As dificuldades económicas são a principal razão para não continuar.
Por outro lado, talvez seja de considerar o impacto da tão perversa quanto errada ideia do "país de doutores" que se foi instalando com o precioso auxílio de uma imprensa preguiçosa e negligente pois não corresponde à verdade e que alimentando a ideia de que "estudar não vale a pena", representa um verdadeiro tiro no pé. Promove ainda o risco dos cidadãos desinvestirem em projectos de vida que passem pela qualificação, a verdadeira alavanca do desenvolvimento e, portanto, do futuro.
É ainda de relembrar que de acordo com o Relatório da OCDE, Education at a glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias, cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia, 23,6%.
Esta informação não é nova. Na verdade e como é do conhecimento das pessoas mais perto deste universo, o ensino superior em Portugal, contrariamente ao que muita gente afirma de forma leviana, tem um dos mais altos custos de propinas da Europa. Conforme dados de 2011/2012 da rede Eurydice, Portugal tem o 10º valor mais alto de propinas na Europa, mas se se considerarem as excepções criadas em cada país, tem efectivamente o terceiro custo mais alto no valor das propinas.
Ainda neste contexto, em 2012 foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior particular o esforço é ainda maior. Percebe-se assim a taxa altíssima de jovens que exprimem a dificuldade de prosseguir estudos.
As dificuldades pelas quais passam muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado, são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Para reforçar a ideia de qua não somos, definitivamente, um "país de doutores" importa sublinhar que, apesar dos progressos dos últimos anos, estamos muito longe de poder vir a cumprir a meta a que nos comprometemos com a UE para 2020, 40% de pessoas licenciadas entre os 30 e os 34 anos.
A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível.
No entanto, os tempos que atravessamos e o vento que sopra da 5 de Outubro não parecem muito amigáveis.

EPPUR SI MUOVE

O Sínodo dos Bispos centrado na família, realizado estes dias no Vaticano convocado pelo Papa Francisco, terminou sem que mudanças significativas sobre a relação dos homossexuais com a Igreja, a união de homossexuais e a possibilidade de que divorciados e recasados tivessem acesso à comunhão fossem aprovadas embora recolhessem apoio maioritário nos bispos presentes, incluindo posições públicas do Papa.
Sem surpresa, apesar de alguns discursos e comportamentos do Papa Francisco, a mudança na Igreja é difícil, muito difícil.
Recordo que há alguns meses um grupo de mulheres italianas escreveu ao Papa Francisco no sentido de promover a mudança da posição da Igreja face ao celibato dos padres. A posição do Papa Francisco ainda antes de ser Papa era contrária a essa mudança sendo, pois, muito provável que nada se altere.
A propósito das mudanças na Igreja, ou a sua ausência, considerando a influência que ainda mantém em muitas comunidades, recordo que D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, afirmava em 2012, em entrevista ao JN, que a Igreja não está à altura do momento, está "atrasada" e não presta atenção às "transformações do mundo".
A afirmação de D. Manuel Martins lembrou-me o conhecido enunciado, "no entanto ela move-se". Ao que a história ou a lenda rezam, no séc. XVII Galileu Galilei reagiu com esta mítica afirmação à sua condenação no Tribunal do Santo Ofício pela defesa do modelo heliocêntrico, a Terra move-se em volta do Sol.
Do meu ponto de vista, a reconhecida perda da influência da Igreja Católica, sobretudo nos países mais desenvolvidos, deve-se também ao seu imobilismo, à forma conservadora como não reage às óbvias mudanças sociais, políticas, económicas e culturais sustentando um progressivo afastamento da vida das pessoas, como reconhecia D. Manuel Martins.
Um dia, talvez a instituição Igreja aceite e perceba a importância e a necessidade de mudança no discurso e nas atitudes relativas ao divórcio e casamento, às uniões entre pessoas do mesmo sexo e adopção por parte destes casais, à anti-concepção, ao celibato dos padres, à abertura do sacerdócio às mulheres, o combate à ostentação visível em parte das estruturas da igreja, etc.
No entanto, considerando o que se tem ouvido e é conhecido das intervenções da hierarquia da Igreja, não creio que, apesar de alguns comportamentos e discursos do Papa Francisco e também da significativa mudança de estilo face ao seu antecessor Bento XVI, seja de esperar um movimento de alteração significativa nas posições da Igreja sobre estas matérias.
Eppur si muove.

SINALIZADAS, REFERENCIADAS, MAS A TRAGÉDIA ... ACONTECE

Intencionalmente, não escrevi estas notas logo que este drama foi notícia. Uma Menina de 13 anos morreu num incêndio na Amadora ao tentar salvar os irmãos mais novos que estavam à sua guarda durante a noite.
A Menina, a mais velha, de oito irmãos, não sobreviveu à tragédia que terá sido toda a sua vida e que, desta forma que não podia acontecer, terminou. Um elemento de uma Associação da zona afirmou à comunicação social que "A Menina e os irmãos andavam sempre cá. Pediam iogurtes, casacos e carinho". E carinho, sublinho eu.
Mais uma vez, como não é raro que a aconteça, esta família, estas crianças estavam "sinalizadas", "referenciadas" desde 2009, mas ... a tragédia aconteceu
De há muito e a propósito de várias questões, que afirmo que em Portugal, apesar de existirem vários dispositivos de apoio e protecção às crianças e jovens e de existir legislação no mesmo sentido, sempre assente no incontornável “supremo interesse da criança, não existe o que me parece mais importante, uma cultura sólida de protecção das crianças e jovens. Poderíamos citar a insuficiência e falta de formação de juízes que se verifica nos Tribunais de Família, as frequentemente incompreensíveis decisões ou demoras em casos de regulação do poder parental, etc.
Temos também em funcionamento as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens que procuram fazer um trabalho eficaz mas em difíceis circunstâncias, para além da falta de agilidade processual na articulação das múltiplas entidades envolvidas como também é frequente entre nós.
É verdade que existem situações que se desenvolvem, por vezes, de forma extremamente rápida e imprevisível, em ambos os casos parece existir nas mães alguma perturbação do foro da saúde mental o que torna tudo ainda mais difícil, mas também exige maior celeridade e atenção.
No entanto, boa parte das Comissões têm responsabilidades sobre um número de situações de risco ou comprovadas que transcendem a sua capacidade de resposta. A parte mais operacional das Comissões, a designada Comissão restrita, tem muitos técnicos a tempo parcial. Tal dificuldade repercute-se, como é óbvio, na eficácia e qualidade do trabalho desenvolvido, independentemente do esforço e empenho dos profissionais que as integram. Aliás, a CPCJ da Amadora é a que lida com maior número de casos de todo o universo das CPCJs.
Este cenário permite que ocorram situações, frequentemente com contornos dramáticos, envolvendo crianças e jovens que, sendo conhecida a sua condição de vulnerabilidade não tinham, ou não tiveram, o apoio e os procedimentos necessários. Ouve-se então uma das expressões que me deixam mais incomodado, a(s) criança(s) estava(m) “sinalizada(s)” ou “referenciada(s)” o que foi insuficiente para a adequada intervenção. Em Portugal sinalizamos e referenciamos com relativa facilidade, a grande dificuldade é minimizar ou resolver os problemas referenciados ou sinalizados.
Por isso, sendo importante registar a menor tolerância da comunidade aos maus tratos aos miúdos, também será importância que desenvolva a sua intolerância face à ausência de respostas e surgimento de tragédias como a da Amadora.
O que me dói ainda mais é que não é a primeira vez que escrevo sobre acontecimentos desta natureza e, provavelmente, não será a última.