sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

UM RAPAZ CHAMADO ESCONDIDO

Era uma vez um rapaz chamado Escondido. Tinha aí uns catorze ou quinze anos que, como se lembram, é uma idade em que muitos de nós, ou nos mostramos em demasia, gostamos de ter as pessoas, sobretudo os amigos, a olhar para nós, ou, pelo contrário, nos escondemos demasiado com medo que os outros reparem naquilo que achamos não ser ou não ter.
Pois o Escondido era dos que não gostava que olhassem para ele. Desde que acordava, o Escondido passava o tempo a tentar esconder-se.
Como era um tipo esperto arranjava muitas maneiras de o conseguir. Escondia-se atrás de um boné a cair para os olhos. Também gostava de usar blusões com carapuço que punha sobre a cabeça e os olhos no chão. Ninguém o “via”. Também não dispensava o telemóvel com os phones nas orelhas não o interpelavam e ele, claro, continuava Escondido.
Na escola, escondia-se na última fila, atrás de um livro aberto que não lia e de um ar ausente de quem estava a viajar bem longe dali. Aos intervalos, o Escondido deslizava para um qualquer canto da escola onde se arrumava, discretamente, a jogar no telemóvel.
Escondia-se de tal maneira o Escondido, que nem olhava o espelho tal era com medo de se descobrir a ele próprio.
Existem miúdos assim, escondidos, com medo, desesperados por serem encontrados.

DO COMBATE À CORRUPÇÃO. ENTRE O NÃO PODER E O NÃO QUERER

A agenda das consciências assinala hoje o Dia Internacional de Combate à Corrupção. Contrariamente ao que é habitual com outras datas esta passa despercebida, como se sabe a corrupção é discreta.
Recordo os dados de 2015 do Barómetro Global da Corrupção, da responsabilidade da Transparency International, a rede global de Organizações Não-Governamentais que em Portugal é representada pela Transparência e Integridade, Associação Cívica (TIAC). O Barómetro considera 42 países da Europa e Ásia Central e os indicadores para Portugal continuam preocupantes. Mais de 80% dos inquiridos entende que o Estado é influenciado pelos cidadãos com maior poder económico. O Parlamento, as autarquias e o mundo empresarial são as áreas percebidas como mais vulneráveis à corrupção.
Imediatamente depois da economia e emprego e saúde, a corrupção é considerado o problema que requer mais atenção.
48% dos inquiridos entende que os níveis de corrupção pioraram no último ano e 39% não encontra melhorias nos índices de corrupção em Portugal.
É ainda relevante que o Parlamento é a instituição mais negativamente percebida, considerando 34% dos inquiridos que todos ou a maioria dos deputados estão envolvidos em corrupção.
Na sequência de relatórios anteriores os dados são devastadores. Sabe-se que na grande maioria dos casos registados e investigados não resultam condenação, são frequentes as referências à falta de meios e recursos humanos no sistema judicial mas a coisa não se altera significativamente.
Recordo que em Fevereiro a Comissão Europeia afirmava num relatório que em Portugal “não existe uma estratégia nacional de luta contra a corrupção em vigor”.
No entanto, está sempre presente nos discursos partidários, sobretudo à entrada de cada novo governo, a retórica que sustenta o fingimento da luta contra a corrupção e a promoção da transparência na vida política portuguesa e, regularmente, emergem umas tímidas propostas que mascaram essa retórica, entram na agenda e rapidamente desaparecem até ao próximo fingimento.
Do meu ponto de vista, nenhum dos partidos do chamado “arco do poder”, está verdadeiramente interessado na alteração da situação actual, o que, aliás, pode ser comprovado pelas práticas desenvolvidas enquanto poder. A questão, do meu ponto de vista, é mais grave. Os partidos, insisto no plural, mais do que NÃO QUERER mexer seriamente na questão da corrupção e do seu financiamento, NÃO PODEM e vejamos porque não podem.
Nas últimas décadas, temos vindo a assistir à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos uma partidocracia instalada que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do estado. Esta teia associa-se à intervenção privada sobretudo nos domínios, e são muitos, em que existem interesses em ligação com o estado, a banca e as obras públicas são apenas exemplos. Os últimos anos foram particularmente estimulantes nesta matéria.
A manutenção deste quadro, que nenhum partido está evidentemente interessado em alterar, exige um quadro legislativo adequadamente preparado no parlamento e uma actividade reguladora e fiscalizadora pouco eficaz ou, utilizando um eufemismo, “flexível”. Assim, a sobrevivência dos partidos, tal como estão, exige a manutenção da situação existente pelo que, de facto, não podem alterá-la. Quando muito e para nos convencer de que estão interessados, introduzem algumas mudanças irrelevantes e acessórias sem, obviamente, mexer no essencial. Seria um suicídio para muita da nossa classe política e para os milhares de boys de diferentes cores que se têm alimentado, e alimentam do sistema.
O combate à corrupção, parece, assim, um problema complicado. De quem faz parte do problema, não podemos esperar a solução.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

UMA OUTRA VISÃO DO PISA

Agora que a poeira começa a assentar depois da divulgação dos resultados do PISA que nos deixaram globalmente satisfeitos ao mesmo tempo que abriram uma guerra sem fim e sem pudor sobre a paternidade do que de positivo se entende ter acontecido, gostava de vos fazer um convite.
Trata-se gastar uns minutos de leitura de uma carta que me parece de recuperar e que foi publicada no The Guardian em 6 de Maio de 2014 dirigida a Andreas Schleicher, director do PISA, por um grupo alargado, significativo e de vários países de académicos e especialistas em educação ou representantes de entidades a operar neste universo. No documento é apresentada uma leitura muito interessante do PISA e também avançadas algumas sugestões de desenvolvimento.
Um pequeno excerto para apelar à leitura e, sobretudo, à reflexão.

EXISTEM BRINQUEDOS PERIGOSOS MAS CUIDADO COM A NEGLIGÊNCIA E DESATENÇÃO

Segundo a imprensa de hoje a ASAE apreendeu nos últimos dois anos mais de 10 000 brinquedos perigosos. Foi proibida ainda a comercialização de mais 10 brinquedos e aumenta a fiscalização nesta época.
A avaliação de cerca de 400 brinquedos mostrou que mais de metade são “maus” ou “medíocres” no que toca a critérios de segurança. Para sublinha a importância desta matéria a DECO recorda que “No espaço europeu, os brinquedos estão na origem de cerca de 52 mil acidentes por ano”.
É verdade que existem riscos em alguns brinquedos e que tal como a Associação para a Promoção da Segurança Infantil já os tem referido, a DECO refere nas mais recentes avaliações que o facto de estar no brinquedo o símbolo CE não é suficiente como garantia de segurança sendo que no espaço europeu se registam cerca de 52000 acidentes por ano com origem nos brinquedos. A DECO tem também alertado para o risco da compra de brinquedos através da net.
Neste cenário, mais do que o trabalho da ASAE, os alertas da DECO ou da Associação para a Promoção da Segurança Infantil, importa sublinhar o papel dos pais como os "verdadeiros inspectores" da segurança dos brinquedos. No entanto, parece-me, como sempre, necessário usar de algum bom senso e evitar excessos de zelo que também não são positivos, ainda que em matéria de segurança infantil o excesso seja melhor que o defeito.
Esta referência à segurança nos brinquedos é importante e oportuna, estamos já muito perto do espírito natalício, a preocupação com os brinquedos, mas gostava de reforçar o facto de continuarmos a ser um dos países da Europa com taxa mais alta de acidentes domésticos envolvendo crianças, de que as quedas de janelas ou varandas, os afogamentos ou o contacto com materiais perigosos não devidamente acondicionados, são apenas exemplos tragicamente frequentes.
O que me parece importante registar é que num tempo em que os discursos e as práticas sobre a protecção da criança estão sempre presentes, em que é recorrente a referência aos perigos dos brinquedos, também se verifica um número altíssimo de acidentes o que parece paradoxal.
Por um lado, protegemos as crianças de forma que, do meu ponto de vista, me parece excessiva face às suas necessidades de autonomia e desenvolvimento e, por outro lado e em muitas circunstâncias, adoptamos atitudes e comportamentos altamente negligentes e facilitadoras de acidentes que, frequentemente, têm consequências trágicas.
E não vale a pena pensar que só acontece aos outros.

O NATAL ESTÁ CHEGAR

Umas notas na Visão alusivas à entrada no espírito natalício e na chuva de presentes que envolve, sobretudo, os mais novos apesar das dificuldades que se atravessam.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

CENA DE MAUS COSTUMES

Posso jogar à bola com vocês?
Não, tu jogas pouco.
Isso é discriminação e estás a dar cabo da minha auto-estima. Vou fazer queixa.
Experimenta fazer queixas só por causa disto. Levas.
Isso é uma ameaça, chama-se bullying. Se me baterem chamo os meus amigos lá da rua.
Mas assim isto fica uma luta de gangues, não pode ser.
Não quero saber, quero é jogar à bola, já não consigo estar quieto.
És hiperactivo?
Não, só gosto de jogar à bola.
Mas agora a aula vai começar, já não dá.
Faltamos.
Não pode ser, isso é absentismo. Só se a gente entrasse, depois desatinava e a setôra punha-nos na rua e já jogávamos á bola.
Mas isso é indisciplina.
A escola está chata bué, não se pode fazer nada.
Ganda seca, bacano.

OS BONS RESULTADOS DO PISA E DO TIMSS. E AGORA?

A discussão sobre a paternidade dos resultados positivos do PISA e do TIMSS vai manter-se sem que nada de útil daí advenha para além da gestão de interesses da partidocracia interessada em aproveitar-se dos resultados positivos. O texto do opinador Alexandre Homem Cristo no Observador, sem surpresa, ou de a entrevista na Visão a Jorge Buescu, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, são bons exemplos, tentando provar o que não está provado.
Julgo que os dados positivos que os estudos evidenciam devem ser sublinhados e ficarmos satisfeitos com a melhoria de resultados no trabalho de alunos, professores e escolas.
Não quero ser desmancha-prazeres mas o caderno de encargos continua pesado.
Portugal é um dos três países europeus em que mais de 30% dos alunos de 15 anos têm pelo menos uma retenção escolar. Fazem-nos companhia a Turquia, Bélgica e Espanha.
Vê-se ainda no quadro, que de 2009 para 2015, apesar de ter baixado este indicador, a diferença é bem menor do que seria desejável, considerando que a média da CDE é de 13%.
É a grande tarefa que nos desafia. 



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

DE QUEM SÃO OS RESULTADOS DO TIMSS E DO PISA?

A conflitualidade de interesses da partidocracia na educação está em ebulição.
Está a verificar-se uma desenfreada corrida na apropriação dos bons resultados conseguidos pelos alunos portugueses nos estudos recentemente divulgados, o TIMSS e o PISA, apesar, sublinhe-se, da manutenção de desigualdades e níveis de retenção preocupantes.
Não me parece que os resultados no PISA e no TIMSS possam ser submetidos a algum teste de paternidade de forma a identificar os seus progenitores pelo que a discussão está condenada à esterilidade e à retórica inconsequente. Como já disse, a única ilação segura que se pode retirar é que o trabalho de alunos e professores foi melhor sucedido.
É verdade que o volume de resultados permitirá análises úteis e importantes em termo de acção mas não nos termos em que actualmente se desenrola discussão.
Do que se conhece, nada autoriza a sustentar a existência de uma relação de causa-efeito entre o número de exames e a subida de resultados, entre o aumento de alunos por turma e a subida de resultados, entre a diminuição do número de professores e aumento de resultados, entre o estabelecimento de 998 metas curriculares em Língua Portuguesa, por exemplo, e a subida de resultados, etc., etc.
Por outro lado, nada autoriza a estabelecer nenhuma relação de causa efeito, por exemplo, entre dividir professores e criar um clima infernal nas escolas e a subida de resultados
Estas notas não servem para um exercício gratuito de “contrismo”, estar contra tudo o que foi feito, designadamente, por Nuno Crato ou Maria de Lurdes Rodrigues, não se trata disso.
Trata-se se sublinhar que como já escrevi hoje os professores e os alunos vão cumprindo a sua parte, apesar de muitos aspectos negativos das políticas educativas cujos responsáveis se querem agora tornar donos destes resultados.

PROFESSORES E ALUNOS VÃO FAZENDO A SUA PARTE

Ontem no DN encontrava-se uma entrevista com o Professor David Justino, presidente do Conselho Nacional de Educação direccionada para a questão sempre urgente do sucesso educativo.
Nessa entrevista, David Justino, para além de referir um conjunto de variáveis contributivas para o cenário que temos reafirma a reafirma a associação entre os níveis de escolaridade dos pais e o sucesso escolar dos filhos.
Regista os progressos realizados e expressos nos resultados dos estudos comparativos internacionais, veja-se o caso do TIMSS recentemente conhecido e pelos do PISA de 2015, hoje conhecidos e a que voltarei. Sublinha o contributo para este trajecto positivo do trabalho de alunos e professores e sintetiza, “as melhores escolas são aquelas que através do seu trabalho conseguem contrariar o aparente determinismo que a origem social dos alunos parece operar”.
A relação entre variáveis de natureza económica e social está estuda de há muito, recordo apenas o recente estudo realizado pela Direcção-Geral de Estatísticas de Educação, este sobre o 2º ciclo, “Desigualdades Socioeconómicas e Resultados Escolares – 2.º ciclo do ensino público geral” ou uma análise da OCDE, cruzando os resultados escolares dos alunos de diferentes países no Estudo comparativo PISA relativos a 2012 com as profissões dos pais, mostra que em Portugal, mais do que noutros países, os filhos de pais mais qualificados têm melhores resultados.
A situação sempre assim foi, ainda me lembro de quando era pequeno, haver quem se admirasse dos meus pais, um serralheiro e uma costureira, terem decidido que eu continuaria a estudar.
Apesar deste cenário, temos observado melhorias substantivas de resultados e apesar de patéticas tentativas de apadrinhamento político do que se conseguiu, do meu ponto de vista,  essas melhorias assentam sobretudo no trabalho de alunos e professores e diferentes escolas e professores têm feito, de facto, a diferença.
A questão é como a escola pode, ou não fazer a diferença. Há dias afirmei no Expresso, "A escola tem de fazer a diferença, contrariar o destino e permitir mobilidade social. Mas as que servem populações mais vulneráveis não podem responder com os mesmos recursos e da mesma forma que as restantes. Têm de ter autonomia e meios."
Do meu ponto de vista, tantas vezes aqui afirmado, a questão central será a qualidade na escola pública. Esta qualidade deverá assentar em três eixos fundamentais, a qualidade considerando resultados, processos, autonomia e gestão optimizada de recursos, segundo eixo, qualidade para todos, a melhor forma de combater os mecanismos de exclusão e a desigualdade de entrada e, terceiro eixo, diferenciação de metodologias, diferenciação progressiva e não prematura dos percursos de educação e formação. Esta diferenciação de percursos deve passar, temos registado progressos nesta área, por uma oferta bastante mais variada ao nível do secundário possibilitando a muitas jovens completar este nível de ensino com competências profissionais, isto é que é fundamental. Também ao nível do ensino superior, com o trabalho no âmbito do ensino politécnico se criam condições para processos de qualificação mais curtos e mais diversificados.
Ora é neste quadro, a definição de políticas educativas, que me parece residir a maior fragilidade e ameaça ao sucesso educativo. É que os resultados também mostram que mais de 30% dos alunos portugueses já apresenta uma retenção e muitos mais do que uma. Temos uma das mais altas taxas de retenção, quase o triplo da média da OCDE, cerca de 13%.
Gosto muito de uma metáfora. Havendo um fogo na floresta o colibri atarefava-se transportando água no bico para lançar sobre as chamas. Um passarão grande cruzou-se com ele e perguntou, “Que estás a fazer colibri?”, “Estou a apagar o fogo, levo água no bico e despejo”, “Com um bico desse tamanho? É para rir”. “Estou a fazer a minha parte” respondeu o colibri.
Na verdade, se alunos e professores vão cumprindo a sua parte, quem há tantos anos não vem fazendo a sua? 
Urge a definição de uma política educativa para um prazo mais alargado do que ciclos eleitorais, estabelecida com base no interesse de todos, com definição clara de metas, recursos, processos e avaliação. A continuar na deriva a que nas última décadas nos entregamos, daqui a algum tempo um novo estudo de dentro ou de fora virá dizer exactamente o mesmo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O ARRANJA MOINHOS

É impossível que não aconteça, a cada 5 de Dezembro lembro-me do meu Pai. Partiu há quarenta e um anos num dia de Sol como o de hoje.
Uma das muitas razões pelas quais o meu pai foi meu pai, para além de ser um Homem Bom, foi pelo facto de contar imensas histórias, quase sempre criadas no momento.
Não tínhamos televisão, líamos algumas obras que ele trazia da biblioteca dos operários do Arsenal do Alfeite onde era serralheiro, ouvíamos alguma rádio, mas lembro-me sobretudo das histórias, todos os dias inventadas.
A memória destas histórias também se acendeu porque, em quase todas, entrava um personagem que dava pelo nome de Arranja Moinhos, não me perguntem porquê mas era esse o nome que o meu pai lhe dava e o meu pai fazia sempre as coisas bem-feitas.
Era um super-homem o “Arranja Moinhos”, sempre que a história entrava numa fase mais complicada, fosse qual fosse a situação ou as dificuldades que os personagens enfrentassem, lá aparecia o Arranja Moinhos que tudo resolvia, tudo tratava e a história, claro, acabava bem, para descanso dos fascinados ouvidores eu, o meu primo e, às vezes, mais um ou outro miúdo da vizinhança. Era certo, de vez quando lá tínhamos outra aventura do Arranja Moinhos, complicada e cheia de problemas, mas em que ele genial e cheio de saberes dava sempre a volta e se saía a contento.
Pensei como nos tempos que correm, em que tudo parece estar mal e sem conserto, daria jeito aparecer o Arranja Moinhos. Tenho a certeza que ele havia de encontrar uma maneira de nos ajudar a sair dela. O meu pai dizia que ele era capaz de resolver tudo.
E eu, eu continuo a acreditar no meu pai. É verdade, partiu cedo, demasiado cedo, mas ainda a tempo de me mostrar o que nunca viu e lugares onde nunca esteve.
Não conheceu os netos e, naturalmente, os bisnetos. Haveria de ficar contente, eles também.
Entretanto, vou eu contando histórias aos meus netos, algumas com o Arranja Moinhos, mas gostava que tivessem ouvido as dele e que ele lhas pudesse contar.

ALGUNS DOS PROBLEMAS DOS PROFESSORES SÃO TAMBÉM PROBLEMAS NOSSOS

No DN de hoje aborda-se um dos aspectos que merece séria atenção no nosso sistema educativo, o envelhecimento dos professores e o desgaste e mal-estar que se faz sentir neste grupo profissional.
No que respeita ao envelhecimento, segundo o Relatório “Perfil do Docente”, dados de 14/15, divulgado pela Direcção-Geral das Estatísticas da Educação e Ciência há pouco tempo, apenas 1.4% dos docentes que leccionam em escolas públicas têm menos de 30 anos, não chegam a 500.
Acresce que o grupo etário com mais de 50 anos é o mais representado, 39.5%. Se a este grupo adicionarmos o escalão imediatamente anterior, 40 aos 49, temos que 77,3% dos docentes estão nos dois grupos mais velhos.
Num país preocupado com o futuro este cenário faria emitir, como agora se usa, um alerta vermelho e agir em conformidade.
No que respeita al clima e bem-estar recordo dois trabalhos que aqui referi na altura em que foram divulgados.
A primeira referência para os resultados de um trabalho coordenado por Joaquim de Azevedo desenvolvido pela Fundação Manuel Leão, “As preocupações e as motivações dos professores”.
Ao inquérito realizado responderam 2910 docentes e a percepção que têm sobre os seus problemas, as dificuldades, a falta de reconhecimento e valorização, a desmotivação traçam um quadro preocupante. Os dados estão disponíveis, não cabem aqui mas importa registar que estamos todos envolvidos nesta situação de mal-estar, alunos, famílias, lideranças políticas, comunicação social, etc. pelo que, como sempre digo, muitos dos problemas dos professores são também problemas nossos.
Uma segunda referência a um estudo recente realizado pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA-IU) segundo o qual cerca de 30% dos perto de 1000 professores inquiridos revela risco de burnout.
Os professores mais velhos, do ensino secundário ou os que lidam com alunos com necessidades educativas especiais apresentam níveis mais elevados de burnout e sentem mais a falta de reconhecimento profissional.
Como causas mais contributivas para este cenário de stresse profissional são identificadas turmas com elevado número de alunos, o comportamento indisciplinado e desmotivação dos alunos, a pressão para os resultados, insatisfação com as condições de desempenho, carga horária e burocrática, falta de trabalho em equipa, falta de apoio e suporte das lideranças da escola.
Este cenário só pode surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam pela comunicação social perorando sobre educação e sobre os professores. Já aqui tenho referido que os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso de responsáveis da tutela ou de representantes dos professores que evidentemente, têm responsabilidades acrescidas e também o discurso desses opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para alterações significativas da imagem social dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos de muitos alunos e pais.
Aliás, uma rápida passagem de olhos pela caixa de comentários às várias referências na imprensa online a esta matéria para se perceber e entender melhor a razão dos resultados.
Este quadro é profundamente inquietante, uma população docente envelhecida e a revelar preocupantes sinais de desgaste.
Importa inda considerar o impacto da deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. Acresce que sucessivas equipas ministeriais têm empreendido um empenhado processo de desvalorização dos professores com impacto evidente no clima das escolas e nas relações que a comunidade estabelece com estes profissionais
Sabemos que os velhos não sabem tudo e os novos nem sempre trazem novidade. Mas também sabemos que qualquer grupo profissional exige renovação pelas mais variadas razões incluindo emocionais, de suporte, partilha de experiência ou pela diversidade e também sabemos que os recursos são finitos
As salas de professores são cada vez mais frequentadas, quando há tempo para isso, por gente envelhecida, cansada, que se sente desvalorizada, pouco apoiada e que muitas vezes pergunta "Quanto tempo é que te falta?"
Na verdade, ser professor é uma das funções mais bonitas do mundo, ver e ajudar os miúdos a ser gente, mas é seguramente uma das mais difíceis e que mais respeito e apoio deveria merecer. Do seu trabalho depende o nosso futuro, tudo passa pela educação e pela escola.
Felizmente, o sentido ético e a competência da grande maioria dos docentes fazem com que cumpram o seu trabalho diário com resultados genericamente reconhecidos nos estudos comparativos internacionais, veja-se o recentemente divulgado TIMSS, e vêem o seu trabalho reconhecido pelos alunos como também os dados mostram.
No entanto, é bom não esquecer que os sistemas educativos com melhores resultados são, justamente, os sistemas em que os professores são mais valorizados, apoiados e reconhecidos.

domingo, 4 de dezembro de 2016

PODE A ESCOLA CONTINUAR A ENGORDAR?

Até hoje está em discussão pública o Referencial de Educação para a Saúde elaborado pela Direcção-geral de Educação e pela Direcção-Geral da Saúde,
Trata-se de um texto orientador, não prescritivo, destinado ao trabalho com as crianças da educação pré-escolar e os alunos do 1º, 2º, 3º ciclos e ensino secundário no âmbito da Educação para a Saúde.
As escolas poderão desenvolver iniciativas de natureza mais transversal envolvendo outras áreas disciplinares ou conteúdos dedicados. São considerados cinco domínios: Saúde Mental e Prevenção da Violência, Educação alimentar, Actividade Física, Comportamentos Aditivos e Dependências e Afectos e Educação para Sexualidade.
Parece-me claro que não está minimamente em discussão a importância de qualquer das matérias na formação global de crianças e jovens no entanto creio que se justificam umas notas breves.
Por diversas ocasiões tenho aqui manifestado a minha reserva face ao entendimento de que tudo o que possa de alguma forma dizer envolver os mais novos deve ser ensinado na escola. Esta visão obesa da escola não funciona, nem tudo deve ser transformado em disciplinas e conteúdos escolares, para além de que a escola tem um conjunto de funções incontornáveis que tornam finita a sua capacidade de responder.
Por outro lado, tem vindo a desenhar-se, não só em Portugal mas também em Portugal, a ideia de uma educação, de uma escola, fundamentalmente centrada em competências instrumentais, em saberes “úteis”, "essenciais" como lhes chamava Nuno Crato, destinada sobretudo a formar “técnicos” e não “cidadãos” qualificados. Os currículos são progressivamente aliviados de conteúdos que não sejam “práticos”, promotores de “produtividade”, “domínio de técnicas” como seja toda a área da formação cívica, da educação para a saúde, dos valores, das expressões e conteúdos artísticos, etc.
A escola deve formar empresários, poucos, e técnicos qualificados e de formação estreita, muitos.
Estas ideias traduziram-se, traduzem-se apesar de algumas mudanças indiciadas e afirmadas, nos conteúdos curriculares, nos modelos de avaliação, nas concepções do que deve ser o trabalho dos professores, na organização do sistema educativo, selectivo, prescritivo e incapaz de acomodar diferenças entre os alunos, etc.
No entanto e independentemente das opções e visões ideológicas, uma das questões que no universo a educação estarão sempre em aberto é a que envolve os conteúdos e organização curricular. De facto, a velocidade de produção e acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento, as mudanças nos sistemas e no quadro de valores das comunidades determinam a regular reflexão e ajustamento sobre o que a escola deve ensinar, sobretudo durante a escolaridade obrigatória.
Por outro lado, o tempo da escola e a competência da escola são finitos, isto é, a escola não tem tempo nem pode ou deve ensinar tudo. Lembram-se certamente das discussões sobre se matérias como educação sexual, educação cívica ou educação para a saúde, agora em apreciação, para citar apenas alguns exemplos, deverão, ou não, constituir-se como "disciplinas" e integrar os currículos escolares.
Em princípio, independentemente dos conteúdos poderem ser mais ou menos pertinente, vejo sempre com alguma reserva as propostas de introdução de mais uma disciplina, mais conteúdos, mais um manual, como se a escola, o currículo escolar, as suas competências, pudessem continuar a engordar indefinidamente. E não se trata de um problema de recursos ainda que seja de considerar.
Como é evidente, pode dizer-se sempre que os conteúdos propostos no Referencial para a Educação para a Saúde poderão integrar o trabalho escolar considerando até que os alunos passam um tempo imenso, diria excessivo, nas escolas. Aliás, tal acontece em muitas escolas e agrupamentos.
A questão central, do meu ponto de vista, é que as competências da  escola, os conteúdos que nela são trabalhados, integrando ou não formalmente os currículos, não pode mesmo aumentar continuamente. Urge uma reflexão serena, participada e com tempo sobre o ajustamento dos conteúdos, a sua integração e organização, a forma como podem acomodar a diversidade dos alunos e a necessidade de diferenciação dos professores, a formação global e não exclusivamente competências instrumentais, etc.
Somar conteúdos e competências à escola sem ajustamento dos conteúdos e organização existentes, pode promover problemas e não soluções, de tanto que lhe exigem corre risco de não providenciar o que lhe compete.
Na verdade, nem tudo o pode ser interessante saber terá de caber numa disciplina da escola e nem tudo o que se pode saber se aprende na escola. A dificuldade é que os alunos estão muito tempo na escola e a tentação é óbvia, a escola que faça.

CHEGAR A VELHO É MAIS FÁCIL, VIVER VELHO É AINDA MUITO DIFÍCIL

O Público faz referência a um estudo sobre a forma como os mais velhos percebem o que foi e é a sua vida, “Envelhecimento em Lisboa, Portugal e Europa: uma perspectiva comparada”, recentemente publicado pelo Instituto do Envelhecimento do Instituto de Ciências Sociais.
Os dados sugerem que apenas um quarto dos velhos olha para o seu passado com “alegria”, só 29.9% afirma ter tido uma vida feliz “muitas vezes” e os restantes “raramente” ou “nunca” se sentiram felizes.
Os velhos portugueses estão também entre os que mais dificuldades exprimem em termos de saúde, em particular de saúde mental e no consumo de fármacos, recursos económicos e actividade física e social. Evidenciam também de forma significativa baixas expectativas face ao futuro.
Quando se comparam os indicadores relativos à esperança de vida, em que realizámos um progresso notável, com a manutenção de vida saudável nessa última fase, em que ocupamos os lugares mais baixos a Europa, ou seja, vivemos mais mas mais doentes, sobretudo as mulheres, importa não esquecer as condições de vida, um indicador com influência muito significativa. A definição deste nível de vida não se liga apenas a recursos económicos mas, sobretudo, a recursos educacionais, nível de informação, acessibilidade a apoios, etc.
Este cenário sublinha duas questões que parecem fundamentais e que nem sempre parecem suficientemente valorizadas. Em primeiro lugar há que considerar a importância decisiva que em todas as dimensões da vida das pessoas assumem a qualificação e a informação. Melhores níveis de formação promovem melhor qualidade nos estilos de vida o que estudo agora divulgado também acentua.
Na verdade as condições de vida de boa parte dos nossos velhos são complicadas.
Começam por ser desconsiderados pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis, transforma os velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência. Continua com um sistema de saúde que deixa muitos milhares de velhos dependentes de medicação e apoio, sem médico de família e com dificuldades evidentes no acesso aos cuidados de saúde. Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução.
Finalmente, as instituições, muitas delas, subordinam-se ao lucro e escudam-se numa insuficiente fiscalização além de que, com frequência, os equipamentos de qualidade são inacessíveis aos rendimentos de boa parte dos nossos velhos.
Por outro lado, é também de referir que as alterações dos estilos de vida e dos valores produzem cada vez mais situações de solidão e isolamento entre os velhos, com consequências que têm feito manchetes. Estão em extinção as relações de vizinhança e a vivência comunitária, fontes privilegiadas de protecção dos mais velhos.
É certo que existe, felizmente, um pequeno número de idosos que além do apoio familiar, ainda possuem meios que lhes permitem aceder a bens e equipamentos que contribuem para uma desejável e merecida qualidade de vida no fim da sua estrada.
No entanto, lamentavelmente, boa parte dos velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice.
Não é um fim bonito para qualquer narrativa.

sábado, 3 de dezembro de 2016

UM DIA DE INVERNO

Pode parecer estranho e peço desculpa aos que sentem a sua vida complicada mas já tinha saudades de um dia assim, cabaneiro, chuva forte, cinzento, frio.
Os velhos como eu gostam de dizer “como os invernos de antigamente”, conversa de velho, é claro.
É um tempo que convida a ler coisas que estavam em lista de espera, a escrever algo não urgente, a ouvir sons que menos habituais, a arrumar o que aguardava oportunidade, sobretudo, disponibilidade, a um chá bem quente.
São assim os dias de Inverno.

DIA INTERNACIONAL DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

A agenda das consciências determina que hoje se cumpra o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. Como sempre, umas notas que não se desactualizam, lamentavelmente.
Provavelmente, é habitual, durante o dia de hoje surgirão peças na comunicação social, ouvir-se-á alguma da retórica política aplicável à matéria em apreço com referência a iniciativas ou intenções, teremos até alguns testemunhos, positivos e negativos, de pessoas com deficiência.
Assistiremos a algumas eventos das instituições e movimentos que operam nesta área, referir-se-ão alguns avanços de natureza tecnológica, como se sabe as tecnologias mudam mais depressa que as pessoas e amanhã o mundo volta-se para outra questão que a agenda das consciências determine.
Em primeiro lugar deve dizer-se que, como acontece em outras áreas, a legislação portuguesa é globalmente positiva (no caso da educação tem alguns aspectos a carecer de ajustamento pois são facilitadores de exclusão como muitas vezes tenho defendido) e promotora dos direitos das pessoas, mas a sua falta de eficácia e operacionalização é bem evidenciada na tremenda dificuldade que milhares de pessoas experimentam no dia-a-dia que decorre, por exemplo, da falta de fiscalização relativa às questões das acessibilidades e barreiras nos edifícios, mobiliário urbano e acessibilidade em geral.
De facto, existem ainda muitos serviços públicos e outro tipo de equipamentos de prestação de serviços com barreiras arquitectónicas intransponíveis, a que os cidadãos com deficiência só podem aceder com ajuda de terceiros e, mesmo assim, com dificuldade.
Os transportes públicos de diferente natureza também colocam enormes problemas na acessibilidade por parte de pessoas com mobilidade reduzida.
As normas de construção não são respeitadas, mantendo-se em edifícios novos a ausência de rampas ou a sua existência com desníveis superiores ao estabelecido, constituindo, assim, um risco sério de queda.
Para além deste quadro, suficientemente complicado, ainda há que contar com a prestimosa colaboração de muitos de nós que estacionamos o belo carrinho em cima dos passeios, complicando ou proibindo, naturalmente, a circulação de cadeiras de rodas. Os passeios, nem sempre com as medidas determinadas por lei, são, por vezes e quase na totalidade, ocupados com esplanadas que, claro, são só mais uma dificuldade para muita gente.
A vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que ampliam de forma inaceitável a limitação na mobilidade que a sua condição, só por si, pode implicar.
Também para as crianças com deficiência e respectivas famílias a vida é muito complicada face à qualidade e acessibilidade aos apoios educativos e especializados necessários apesar do empenho e profissionalismo da maioria dos profissionais que trabalham nestas áreas. Os tempos que correm são particularmente gravosos nesta matéria como muitas vezes tenho afirmado.
Como é evidente, existem muitas outras áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente apoios sociais, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são elevados traduzido em taxas de desemprego entre pessoas com deficiência muitíssimo superiores à verificada com a população sem deficiência.
Uma referência ainda ao que deve ser um princípio não negociável, a inclusão em todos os domínios da vida das comunidades.
É verdade, como escrevia há pouco que a questão da inclusão, em particular da inclusão em educação, é presença regular nos discursos actuais. É objecto de todas as apreciações, ilumina todas as perspectivas e acomoda todas as práticas, incluindo, cá está a inclusão, o que manifestamente não promove inclusão, antes pelo contrário. O termo está tão desgastado que já nem sabemos bem o que significa. Conheço tantas práticas e tantos discursos que alimentam exclusão e que são desenvolvidas e enunciados ... em nome da inclusão. Cada vez mais me lembro do Mestre Almada Negreiros que na "Cena do Ódio" falava da "Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões".
A inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.
Este é o caderno de encargos que nos convoca a todos.
Termino com uma afirmação que recorrentemente uso, os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como lidam com as minorias e as suas problemáticas.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

OS ADOLESCENTES E JOVENS E OS CONSUMOS

A lei que proibiu a venda e consumo de qualquer tipo de álcool a menores de 18 anos entrou em vigor há quase um ano e meio. Neste espaço de tempo foram identificados apenas 198 jovens por consumo de álcool em espaços públicos e instaurados 226 processos por venda.
Por outro lado, os responsáveis por serviços de urgência pediátrica estão preocupados com o número e gravidade de episódios de recurso à urgência por excesso de consumo de álcool.
Existem queixas sobre a falta de recursos de inspecção mas creio que o problema é mais complexo do que isso. Aliás, quem lida com adolescentes e jovens e visita os circuitos nocturnos por onde passam percebe com clareza que a questão não se centra no número de inspectores.
O consumo de diferentes substâncias, aqui consideremos o álcool, em quantidade e em grupo por adolescentes e jovens, sobretudo ao fim-de-semana, é muitas vezes entendido e sentido como o factor de pertença ao grupo, potenciando a escalada desse consumo, juntos bebemos ou fumamos mais do que sós, como é óbvio e o "estado" que se atinge é sentido como um "facilitador" relacional.
Por outro lado, a acessibilidade aos diferentes produtos não é complicada, antes pelo contrário, processa-se com a maior das facilidades. Muitos adolescentes, ouvidos em estudos nesta matéria, referem ainda a ausência de regulação dos pais sobre os gastos, sobre os consumos ou sobre as horas de entrada em casa, que muitas vezes tem que ser discreta e directa ao quarto devido ao “mau estado” do protagonista.
Como é evidente, já muitas vezes aqui o tenho referido com base na minha experiência de contacto com pais de adolescentes, não estamos a falar de pais negligentes. Podem acontecer situações de negligência mas, na maioria dos casos, trata-se de pais, que sabem o que se passa, “apenas fingem” não perceber desejando que o tempo “cure” porque se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e como lidar com a questão.
De fora parece fácil produzir discursos sobre soluções, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é muitas vezes sentida como maior que eles.
É preciso que a comunidade esteja atenta a estes adolescentes que, por vezes ainda antesos dos 13 ou 14 anos “acedem” às “litrosas”, aos shots, a qualquer outro produto para fumar ou consumir e também aos seus pais que estão tão perdidos quanto eles.
Para além da legislação de natureza proibicionista, parecem-me imprescindíveis, evidentemente, a adequada fiscalização e, sobretudo a criação de programas destinados a pais e aos adolescentes que minimizem o risco do consumo excessivo das diferentes substâncias.
A proibição, como sempre, não basta e se prevenir e cuidar é caro que se façam as contas aos resultados do descuidar.

UM RAPAZ CHAMADO HOMENZINHO

Era uma vez um rapaz chamado Homenzinho. Desde pequeno que assim era, um Homenzinho. A família achava-lhe imensa graça, tão pequeno e já um Homenzinho.
Ele não brincava com os seus colegas, tomava conta deles, e até de forma mais cuidadosa que alguns adultos. O Homenzinho mostrava um sentido de responsabilidade e um tipo de comportamento próprios, claro, de um Homenzinho e não da idade que tinha.
Os adultos incentivavam e o Homenzinho cada vez mais e mais depressa parecia um Homenzinho.
Na escola, a sua acção era do mesmo tipo, muito responsável para a idade, diziam alguns dos professores. Muito maduro e equilibrado afirmavam outros professores verificando que o Homenzinho não mostrava falhas.
Não tinha muitos amigos, aliás, não tinha amigos, os colegas achavam o Homenzinho um chato desinteressante.
Na escola, apenas uma pessoa, o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, não se deixava fascinar pela forma como o Homenzinho funcionava. E ia avisando, o Homenzinho está a esquecer-se de algo que lhe faz muita falta antes de chegar a grande. Ninguém parecia entendê-lo.
Um dia, sem se perceber muito bem porquê o Homenzinho começou a fazer disparates e a mostrar comportamentos que nunca ninguém lhe vira. Ninguém conseguia segurá-lo e ainda hoje continua.
O Professor Velho tinha razão, o Homenzinho crescera tão depressa que se esquecera de brincar e agora não conseguia parar,  sem sabia como brincar, fazia disparates a sério.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

AO CUIDADO DE PASSOS COELHO

O Dr. Passos Coelho que se cuide. O Dr. Santana Lopes anunciou não ser candidato à Câmara de Lisboa. Estará aberta a campanha contra Rui Rio e Passos Coelho pela liderança do PSD.
Que dirá o vidente Marques Mendes?
Ah, é verdade, também temos a Presidência da República, a cadeira de sonho do Menino Guerreiro. Mas não, Marcelo fará dois mandatos, é muito tempo de espera.
E pronto, também jogo às adivinhas.

SOS

Hoje não saio desta temática, a inclusão.
No âmbito das “Comemorações do Dia Internacional da Pessoa com Deficiência”, dia 3 de Dezembro, recebi um gentil convite para participar numa VII Gala da Inclusão.
A minha resposta de há minutos foi, “Agradeço o convite mas não me imagino a participar numa Gala da Inclusão”.
A minha questão é que não sei bem explicar porquê e gosto de, tanto quanto possível pois não é tarefa fácil, ter ideias claras.
Podem-me ajudar-me a perceber(me) porque respondi assim?
Estarei a não ser capaz de compreender algo que devia? 
Foi deselegante, inadequada ou pouco inclusiva?
Obrigado.

INCLUSÃO E ENSINO SUPERIOR

A questão da inclusão, em particular da inclusão em educação, é presença regular nos discursos actuais. É objecto de todas as apreciações, ilumina todas as perspectivas e acomoda todas as práticas, incluindo, cá está a inclusão, o que manifestamente não promove inclusão, antes pelo contrário. O termo está tão desgastado que já nem sabemos bem o que significa. Conheço tantas práticas e tantos discursos que alimentam exclusão e que são desenvolvidas e enunciados ... em nome da inclusão. Cada vez mais me lembro do Mestre Almada Negreiros que na "Cena do Ódio" falava da "Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões". 
No entanto, no universo da educação existe uma área que tem menos presença e visibilidade, a presença de alunos com necessidades especiais no ensino superior. É verdade que a recente discussão do OGE para 2017 e a proposta de isenção de propinas no ensino superior para alunos com necessidades especiais por iniciativa do BE chamou a atenção para este universo mas, saudando-se  a decisão, merece reflexão mais alargada. Algumas notas.
A percentagem de alunos com necessidades especiais relativamente aos alunos que frequentavam o ensino superior em 2013/2014 era de 0.36%. No presente ano lectivo foram preenchidas apenas 14% das vagas do contingente especial para alunos com deficiência.
Se a estes dados acrescentarmos que a taxa de desemprego na população com deficiência é estimada em 70-75% e que o risco de pobreza é 25% superior à população sem deficiência e que Portugal se orgulha de ter perto de 98% dos alunos com NEE a frequentar as escolas de ensino regular no período de escolaridade obrigatória, temos um cenário que nos deve merecer a maior atenção.
Como tantas vezes tenho dito, aqui nos espaços de contextos da lida profissional, a questão da presença dos alunos começa no que é feito no ensino básico e secundário, ainda há pouco escrevi e falei sobre isso.
Por outro lado é fundamental que com clareza, sem ambiguidades ou equívocos se entenda e após a escolaridade obrigatória os jovens, TODOS os jovens, têm três vias disponíveis formação profissional, formação escolar (ensino superior) ou mercado de trabalho (trabalho na comunidade).
A realidade mostra que os jovens com necessidades especiais estão significativamente arredados destas vias e, voltamos ao mesmo, em muitas circunstâncias ao abrigo de práticas e modelos de resposta sob a capa da … inclusão.
De novo, a inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais)  e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.
As pessoas com NEE de diferente natureza depois dos 18 anos devem ser, estar, participar e pertencer aos contextos que todas as outras pessoas com mais de 18 anos estão.
É também claro que no âmbito do ensino superior importa que se proceda a ajustamentos de natureza diversa, atitudes, representações expectativas, oferta formativa, custos, acessibilidades, e cursos e apoios ou, como disse, promover melhor articulação com o ensino secundário
Em Abril, deputados do PS apresentaram um projecto de resolução, Nº 358/XIII/1ª, "Estudantes com Necessidades Educativas Especiais no Ensino Superior", no sentido de tornar a frequência do ensino superior mais “amigável”, por assim dizer, a alunos com necessidades especiais. Não tenho conhecimento dos desenvolvimentos desta iniciativa.
Este projecto de resolução envolve a disponibilização de apoio pedagógico personalizado e adequação do processo de matrícula, das unidades curriculares, do processo de avaliação. É ainda referido o incremento das ”potencialidades da era digital”.
Como disse na altura, por princípio, qualquer iniciativa no sentido de minimizar a longa corrida de obstáculos que é a vida das pessoas com necessidades especiais é bem-vinda e merece registo.
Dados de 2014 mostram que em 94 de 291 instituições do ensino superior afirmaram a existência de serviços de apoio para alunos com deficiência. Actualmente a esmagadora maioria dos estabelecimentos, públicos e privados afirma disponibilizar esses serviços.
No entanto, para além de aspectos mais evidentes como a acessibilidade, creio que o apoio pedagógico e a utilização de dispositivos diferenciados nos materiais de apoio das unidades curriculares, da diferenciação nos processos de avaliação ou o recurso às tecnologias, não serão os grandes obstáculos. Tenho alguma experiência de docência no superior com alunos com necessidades especiais e não sinto que sejam estas as questões centrais.
Também não creio que a questão central seja a existência obrigatória de “serviços de apoio” a alunos com deficiência embora tal possa depender da dimensão da instituição. Do meu ponto de vista, procurar responder da forma a adequada às necessidades de TODOS os seus alunos é a essência do trabalho de qualquer instituição educativa e de qualquer docente, com maior ou menor dificuldade.
A questão mais importante decorrerá, creio, das barreiras psicológicas e das atitudes, pessoais e institucionais, seja de professores, direcções de escola, da restante comunidade, incluindo, naturalmente, professores do ensino básico e secundário e de "educação epecial" técnicos, os alunos com necessidades especiais e famílias
Também é minha convicção de que as preocupações com a frequência do ensino superior por parte de alunos com necessidades especiais é fundamentalmente dirigida aos alunos que manterão as capacidades suficientes para aceder com sucesso à oferta formativa tal como ela existe. Estou a referir-me, evidentemente, aos alunos que não têm “diagnóstico” de problemas de natureza cognitiva.
No entanto, como disse, esta preocupação deveria ser mais alargada, estamos a falar de inclusão e agora, se quiserem, da minha utopia.
Porque não podem frequentar estabelecimentos de ensino superior? Sim, frequentar o ensino superior onde estão jovens da sua idade e em que a oferta formativa se for repensada e a experiência de vida proporcionada podem ser importantes.
Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências noutras paragens mas também por cá mostram que não é utopia.
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.

INDEPENDÊNCIA E SOBERANIA

Hoje é dia 1 de Dezembro. É feriado, de novo. Assinala a Restauração da Independência de Portugal, lá para os idos de 1640.
Como se sabe, o feriado de 1 de Dezembro tinha sido engolido na manhosa e equivocada ideia de que o caminho é mais trabalho em vez de melhor trabalho, o que vai ao arrepio do que se passa noutras latitudes donde curiosamente são quem habitualmente ordena sobre ... o que se passa connosco.
Na verdade, lembrarmo-nos da independência nacional quando o cenário mostrava e mostra uma soberania revista em baixa até seria, por assim dizer, estranho. Daí, nada de comemorar independência.
O feriado foi reposto. Realizar-se-ão algumas iniciativas destinadas a registar a independência e ficaremos em paz e com um dia para adiantar compras de natal ou apanhar ar apesar do tempo pouco convidativo.
Curiosamente, terminou ontem a visita oficial dos Reis de Espanha que mereceu birra dos deputados e das deputadas do BE na sua ida ao Parlamento, como sempre na primeira linha das grandes causas.
Tratemos agora de recuperar o que de soberania tem sido alienado.
É mais difícil do que repor o feriado do dia primeiro do mês de Dezembro.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A SAGA DOS "DRS. DA MULA RUÇA"

Continua a narrativa dos actores políticos, figuras menores por mais importantes que sejam, que compõem os seus relevantes currículos com licenciaturas obtidas de forma enviesada, por assim dizer,  inexistentes ou até com a patética referência “frequentei a universidade mas não acabei o curso porque tinha muito que fazer".
Basicamente, estes "Drs." ou "Engs." terão feito a sua formação universitária nas Universidades de verão montadas pelo aparelhismo partidário, especializam-se em alpinismo político com sólidas carreias dentro desses aparelhos e integram como especialistas e assessores os inúmeros gabinetes da administração central ou local.
Parece-me bem, um país não pode, não deve, desperdiçar os seus mais talentosos e preparados cidadãos. Nesta perspectiva, tenho até alguma dificuldade em compreender porque se demitem, perdão, pedem a exoneração.
Não estando nas funções que desempenham pela formação adquirida, não a adquiriram, só pode ser por outros talentos de que são detentores. Estes talentos não deveriam ser desperdiçados.
Enfim, relvices e outras manhosices do Portugal dos Pequeninos em que ser doutor ou engenheiro é frequentemente visto como uma condição necessária e importante para usar colada ao nome e passar a fazer parte da identidade.
Este cenário alimenta-se de contextos desregulados pela falta de arquitectura ética de parte das nossas lideranças, da referida a importância social atribuída ao "canudo de Dr." e menos ao conhecimento, e a promiscuidade de interesses e dos lóbis (aliás, uma das 4 cadeiras feitas pelo "Dr." Miguel Relvas) que promove muitos casos de trânsito entre universidades privadas, e não só, e a classe política, sendo muito frequente que uma figura qualquer com currículo partidário ou a ocupação de um cargo político passe em seguida a “Professor universitário” sem currículo nem competência que o justifique, mas de cuja ligação se espera que todos ganhem, seja lá o que for.
Quando era miúdo ouvia com frequência uma expressão que era dirigida a quem se queria “armar” no que não era, chamavam-lhe “doutor da mula ruça”. É o caso destes “doutores da mula ruça”.

23 MILHÕES DE CRIANÇAS POBRES NA EUROPA. E O FUTURO?

De acordo com um estudo do European Institute for Gender Equality, ontem divulgado. a Europa tem mais pobres do que em 2010, cerca de 122 milhões de pessoas em 2014 e 23 milhões são crianças. Os grupos de maior risco de pobreza são os jovens, pessoas sós, migrantes, pessoas com deficiências e famílias com três ou mais filhos.
Recordo que no início do deste mês foi também conhecido um trabalho da Fundação Bertelsmann, "Social Justice in the EU – Index Report 2016 Social Inclusion Monitor Europe" que já com dados de 2015 apontava para cerca 25,2 milhões de crianças e adolescentes, 26.9% da população, em risco de pobreza ou exclusão social nos 28 países da União Europeia.
Nos países do Sul a situação é mais grave, afecta um em cada três.
A estes dados acresce que 4.6 milhões de jovens entre os 15 e os 24 anos, 20.4%, estão sem emprego sendo a taxa superior nos países mais afectados pela crise. Temos também que 17,3% dos jovens da UE entre os 20 e os 24 anos não estudavam nem trabalhavam.
Ainda uma referência final para sublinhar que o risco de pobreza afecta mesmo em pessoas com trabalho remunerado decorrente de abaixamento de salários, precariedade ou outras formas “atípicas” de emprego.
Como já escrevi, estamos num tempo de perplexidade dúvida face ao crescimento de discursos populistas e demagógicos, apelando à intolerância, ao xenofobismo e a valores de direita radical. A recente eleição de Trump, o que se tem vindo a passar na Europa do Norte, Central ou na América do Sul tal como o “Brexit” são exemplos deste caminho que nos deixa inquietos face ao futuro.
Acontece que provavelmente este caminho se alimenta no cenário descrito em cima.
Milhões de excluídos e pobres e de jovens sem presente e sem futuro são um alvo fácil para os discursos populistas radicais. As sementes de mal-estar que estes milhões de pessoas incubam desde criança são muito facilmente capitalizadas e mobilizadas.
Como tantas vezes tenho afirmado, a mediocridade da generalidade das lideranças e o que lhes permitimos fazer criaram a actual União (?!) Europeia onde, grosso modo, 25% da sua população mais nova e 18% da sua população mais velha é pobre ou corre risco de exclusão e pobreza.
É aqui que nasce o que nos assusta.
Não quero fazer concorrência aos politólogos mas parece-me claro que um projecto europeu só sobrevive assente numa Europa para as pessoas, com políticas sociais que combatam assimetria, desigualdade, exclusão e pobreza.
É esta a batalha que não podemos perder.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

AINDA OS RESULTADOS DOS ALUNOS DO 4º ANO NO TIMSS

Voltando ao TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study) um olhar breve sobre os resultados.
Como é sabido Portugal participou neste estudo em três edições, 1995, 2011 e 2015.
Sendo que o ponto de referência da escala é 500 pontos, entre 1995 e 2011 os alunos portugueses do 4º subiram 90 pontos em Matemática, de 432 para 522. Em 2015 subiram 9 pontos para 531, estando na 13ª posição. Em Ciências a subida entre 1995 e 2011 foi de 70 pontos, de 452 pontos para 522. No entanto, em 2015 verificou-se uma descida de 14 pontos, baixando-se para a 32ª posição.
Deve sublinhar-se que Portugal registou a maior subida global a Matemática entre 1995 e 2015.
São ainda de referir e dentro do que é esperado resultados superiores dos alunos das escolas privadas, melhores resultados dos rapazes, a existência de assimetrias regionais que importa estudar e padrões de maior fragilidade na aplicação dos conhecimentos e resolução de problemas que solicitam análise e dispositivos de ajustamento.
Não me parece muito relevante a já iniciada tentativa de apadrinhar os resultados, sobretudo a Matemática. Uns fazem-nos assentar nos efeitos do Plano de Acção para a Matemática de Maria de Lourdes Rodrigues, outros olham para a aposta nos saberes “estruturantes” e no “rigor avaliativo” de Nuno Crato. Não estranho, a educação é um terreno habitual e tentador para o jogo de interesses da partidocracia mas a avaliação da educação e formação de uma geração de alunos é bem mais do que estes resultados. Eu sei que as políticas educativas são relevantes, evidentemente, mas são apenas uma variável ainda que central de um processo que complexo e multidimensionado.
Parece-me mais pertinente sublinhar o bom trabalho de alunos e professores, a necessidade de atentar na descida dos resultados em Ciências contrária à tendência verificada noutros países, identificando e divulgando boas práticas e definindo dispositivos de apoio diferenciados e também analisar a definir estratégias face ao padrão de dificuldades emergente em Matemática e que não é inédito.
Julgo ainda que talvez os resultados do PISA que irão ser também revelados no final deste ano forneçam indicadores complementares úteis também para melhor compreender e ter uma perspectiva integrada face aos dados agora conhecidos no TIMSS. 

PROFESSORES EMPENHADOS

Foram divulgados os resultados relativos a 2015 do estudo comparativo internacional TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study) realizado pela International Association for the Evaluation of Educational Achievement (IEA)  avaliando a área de Matemática e Ciências nos alunos de 4º ano.
Numa primeira nota breve para registar que 88% dos alunos portugueses demonstram um “elevado” sentimento de pertença face à escola e consideram os seus professores como “muito empenhados”.
Na verdade, se considerarmos os tempos atribulados que a escola tem vivido, em particular no período em análise, é fundamental registar o trabalho dos professores na promoção de bom clima de sala de aula e de melhor desempenho nas aprendizagens.
Os resultados merecem um outro comentário mas num clima de desvalorização dos professores, de crispação e perda no seu universo profissional, merece desde já registo o seu sentido ético, profissional e competência que permite que os alunos do 4º ano considerem de forma esmagadora os seus professores como empenhados e muitos empenhados e revelem sentimentos positivos face à escola.
Recordo sempre uma afirmação de 2000 do Council for Exceptional Children, "O factor individual mais contributivo para a qualidade da educação é a existência de um professor qualificado e empenhado".
É saber que assim é.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A TERNURA DO MESTRE ZÉ

Não há vida que se cumpra e percorra sem o apoio ou suporte de alguém, na verdade de muitos “alguéns".
Nos últimos anos, no Alentejo, a minha vida e a da família tem contado como o apoio o suporte de um Homem, o Mestre Zé marrafa, de quem várias vezes aqui conto histórias e que traz todo o Alentejo nos seus setenta e quatro anos.
Sabe de tudo o que respeita à Terra, às modas e ao Cante. Nunca o vi de mal com a vida e há sempre uma léria e um riso.
É Mestre no ensinar e temo-nos esforçado por aprender. Ele acha que eu chego lá mas ainda me falta ser capaz de charruar terra a direito, sem entortar o rego. Eu creio que ainda me falta bastante mais mas ele é generoso.
Este fim-de-semana o Mestre chegou ao Monte com duas obras, dois cajadinhos, para os meus netos.
O Mestre Zé Marrafa é dos que entende que os gaiatos devem ter sempre um apoio por perto. Pode também ser o apoio de um cajadinho feito pela ternura do Mestre Zé Marrafa.
O Simão e o Tomás vão ser capazes de agradecer o cajadinho ao Mestre Zé Marrafa.
Eu já lhe agradeci o que fez para mim há já uns anos.

SEMINÁRIO "ANTES E DEPOIS DA ESCOLA" - NOTAS DA CONVERSA

No fim da semana que passou participei num Seminário promovido pela Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial e da Associação Pais em Rede sobre o tema “Na Escola e depois da Escola” no que respeita a alunos NEE.
Deixo aqui umas notas de suporte à conversa que realizei.
Uma pequena referência inicial ao cenário pós-escolar – desemprego estimado entre a população com deficiência 70/75% - risco de pobreza 25% superior nas pessoas com deficiência – poucos alunos com deficiência no ensino superior e nas escolas profissionais
Os dados sugerem que muitos alunos “transitam” para a vida activa mas não ficam – passam mesmo por ela em trânsito.
. A função do percurso de educação/formação é justamente a construção de um projecto de vida
(exemplo da tese de mestrado – 13 adultos com pc – 2 empregados, 3 desempregados e os outros nunca trabalharam – 3 com ensino superior – 9 institucionalizados)
Parece claro o enorme desafio e a questão começa antes, mesmo antes dos 15 anos – algumas inquietações e utopias
Quando falamos de inclusão falamos sem equívocos ou dúvidas de:
SER
ESTAR
PARTICIPAR
PERTENCER
APRENDER
E de dois princípios – AUTODETERMINAÇÃO – INDEPENDÊNCIA E AUTONOMIA
- Qual a situação neste entendimento? Muito a fazer.
- Que regulação do sistema – latitude de práticas – regularmente recebo relatos, alguns verdadeiramente inquietantes
Uma outra inquietação – o currículo
- O currículo é uma ferramenta fundamental de promoção de inclusão - a sua concepção e conteúdos devem ser adequados no sentido de acomodar a diversidade dos alunos.
- O modelo curricular actual e a sua gestão cumprem esta função? Não, não cumprem
Currículo Específico Individual – deve existir? Não, não faz sentido e muito menos faz sentido a existência de “turmas de CEIs(?!) (Aliás, como afirmo desde que surgiu, nem se entende  o “conceito”, um currículo “individual” não será “específico”?)
Que função cumpre uma matriz curricular que estabelece que na “Formação académica” os objectivos devem ser definidos pela escola e ter como referência os currículos nacionais e na área da “Capacitação” define como objectivos “vestir-se” ou “alimentar-se” (para alunos de 15 anos?!).
Por outro lado e no mesmo plano estão definidos objectivos de natureza e complexidade bem diferentes?
A questão da funcionalidade - a dimensão de funcionalidade não deve ser uma característica de qualquer currículo? Alguns dos entendimentos de funcionalidade podem traduzir-se em actividades pouco adequadas e muito menos inclusivas.
A Unidades especializadas - Quem verdadeiramente as frequenta? Promovem inclusão?
(dados de trabalhos que tenho desenvolvidos são pouco animadores) De novo a questão da regulação.
Finalmente - Depois da escolaridade obrigatória os jovens, todos os jovens, têm três vias.
- Formação profissional – escolas profissionais
- Percurso escolar – ensino superior
- Mercado de trabalho – Actividade comunitária
O trajecto pós-escolar dos jovens com NE tem que ser, imperativamente, uma destas três vias
A resposta “institucionalização” não pode ser vista como uma outra via e prevalecente – é uma resposta a um número muito pequeno que deve ser regulada e apoiada de acordo, também com critérios de inclusão.
As instituições poderão, deverão, assumir uma responsabilidade clara e monitorizada no apoio ao acesso e percurso dos jovens com NE nas três vias comuns? Como avançar neste sentido? Quem tutela?
Como disse de início, esta foi uma das circunstâncias em que senti maior dificuldade senti em preparar algo de estruturado e que pudesse, imodestamente, ser um contributo positivo para um caminho que tantas vezes me, nos, desencanta, mas que do qual não conseguimos sair.
Temos, creio, isso sim, de fazer diferente.
O empenho, a competência e as boas práticas que existem para terem efeitos multiplicadores, alargados e persistentes podem não ser suficientes.
O copo estará meio cheio … mas não podemos esquecer a parte que está meio vazia.

domingo, 27 de novembro de 2016

O FIM DA HISTÓRIA. CUSTOS?

Após cinco semanas de polémica, António Domingues demitiu-se da Caixa

O fim de uma história de que nenhum dos actores se sai bem e que não podia ter acontecido. Resta saber os custos desta novela manhosa.
Quam os pagará sabemos.

BRINCAR É A ACTIVIDADE MAIS SÉRIA QUE AS CRIANÇAS REALIZAM

O Natal aproxima-se. Entre outros aspectos, a época de Natal caracteriza-se por uma valorização temporária dos brinquedos e do brincar.
Digo temporária porque brincar e brinquedos têm vindo a ficar arredados da vida dos mais novos.
Estes empos que não são de brincar, são de trabalhar, muito, em nome da competitividade e da produtividade, condição para a felicidade, entendem alguns. Roubaram aos miúdos o tempo e o espaço que nós tínhamos e empregam-nos horas sem fim nas fábricas de pessoas, escolas, chamam-lhes. Aí os miúdos trabalham a sério, a tempo inteiro, dizem, pois só assim serão grandes a sério, dizem também.
Às vezes, alguns miúdos ainda brincam de forma escondida, é que brincar passou a uma actividade quase clandestina que só pais ou professores “românticos”, “facilitistas”, “eduqueses” ou “incompetentes” acham importante.
Muitos outros miúdos vão para umas coisas a que chamam “tempos livres”, que de livres têm pouco, onde, frequentemente, se confunde brincar com entreter e, outras vezes, acontece a continuação do trabalho que se faz na fábrica de pessoas, a escola.
Também são encaixados em dezenas de actividades fantásticas, com nomes fantásticos, que promovem competências fantásticas e fazem um bem fantástico a tudo e mais alguma coisa.
Era bom escutar os miúdos. Se perguntarem aos miúdos, vão ficar a saber que brincar é a actividade mais séria que eles fazem, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que virão a ser.
Vem este texto a propósito de uma peça no Público sobre duas empresas que em Portugal produzem brinquedos, um bem de primeira necessidade. Uma mais antiga, a Majora, felizmente recuperada da falência (lá está, brinquedos não são produtos interessantes) que reaparece com muitos dos brinquedos e jogos que acompanharam a infância de muitos de nós.
A outra referência a uma empresa mais moderna, a Science4you, mais voltada para os tempos actuais e para a ligação entre a ciência e os brinquedos.
Num clima em que o tempo para brincar vai rareando importa sublinhar a importância dos brinquedos.
O brincar da infância vai-se encurtando, algum dia os miúdos vão nascer crescidos para já não precisarem de brincar.
No entanto, como sempre digo, brincar é a coisa mais séria que as crianças fazem. No brincar põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que vão ser.

DELINQUÊNCIA E INDISCIPLINA ESCOLAR

Dados do MAI ontem conhecidos mostram o aumento do registo de ocorrências criminais em contexto escolar no ano lectivo 2015/2016. Este aumento vem na linha do verificado em anos anteriores.
Trata-se de um universo complexo e, como tudo em educação, sem situações milagrosas.
Como é sabido e reconhecido a instituição escola é de alguma forma um espelho das comunidades em cada momento da história pelo em comunidades com índices de criminalidade significativos, com níveis de desesperança e dificuldades, com alterações nos quadros de valores, não será estranho que tal clima se reflicta no contexto escolar.
No entanto, a escola não pode ser responsabilizada e considerada competente por e para todo o universo de problemas nos comportamentos dos mais novos. Para situações de pré-delinquência ou perturbações do comportamento, por exemplo, pode, evidentemente, dar contributos mas não assumir a responsabilidade pelo que importa clarificar a análise.
Neste sentido, importa definir dimensões diferentes ainda que associadas, a delinquência verificada em contexto escolar ou nas proximidades e a indisciplina escolar que, aliás também parece em crescimento
Neste quadro tal como nos resultados escolares, também se deseja que a escola possa fazer a diferença em matéria de comportamentos.
Para que tal possa acontecer é necessário mais do que o desejo, a retórica e a boa vontade e empenho de direcções, professores, técnicos, funcionários, alunos e pais.
Algumas notas avulsas e sem hierarquia de importância.
Apesar de sabermos que o trabalho desenvolvido no âmbito da Formação Cívica seria pouco interessante em algumas escolas o seu desaparecimento dos conteúdos curriculares obrigatórios não poderia ter acontecido.
Muitas escolas procuram desenvolver projectos e iniciativas neste âmbito mas faltam recursos docentes e técnicos.
Nos espaços curriculares existentes dificilmente cabem abordagens mais diferenciadas face à pressão decorrente de programas demasiado extensos e prescritivos. A esta situação acresce o número de alunos por turma que se verifica em muitos territórios educativos apesar das habilidades na referência a rácios que não espelham a realidade. Não é certamente por acaso que na generalidade das instituições de ensino privado que conheço continuam a existir espaços curriculares e actividades dedicadas à formação pessoal dos alunos a existir mas o desinvestimento na escola pública tem, evidentemente, consequências.
Faltam professores que possam desenvolver projectos com impacto nos comportamentos dos alunos, faltam técnicos, psicólogos por exemplo que podem ser um contributo para minimizar risco de comportamentos desajustados e mediar o trabalho com famílias.
Faltam funcionários, assistentes operacionais, que com alguma formação permitam melhor acompanhamento de recreios e outros espaços escolares minimizando o risco de comportamentos desajustados.
Falta uma menor carga burocrática em cima do trabalho de docentes e um clima de maior serenidade nas escolas, uma variável reconhecidamente com impacto nos comportamentos de todos os que nela vivem.
Procurar responder desde cedo aos riscos de comportamento socialmente inadequado o que é um investimento com retorno garantido.

No entanto, como sempre, é uma questão de opção política.

sábado, 26 de novembro de 2016

POLÍTICA E PERPLEXIDADE

O momento político actual tem sido caracterizado por algumas surpresas. Contrariando sondagens, ensaios, previsões, opinadores e politólogos emergem situações surpreendentes, recorde-se o Brexit e mais recentemente a eleição de Trump nos Estados Unidos.
No entanto, mais surpreendente ainda é que a geringonça que nos governa aguentou um ano e, perplexidade das perplexidades, a coisa não está a correr mal mesmo na opinião de surpreendidas e desagradadas entidades como Comissão Europeia, agências de rating, Presidência da República e  até daquela coisa indefinida e tenebrosa que dá pelo nome de Mercados.
Só pode mesmo ser coisa do Diabo, ele anda aí.

A ESCOLA FAZ A DIFERENÇA

Referência a uma colaboração no Expresso num trabalho sobre  os rankings escolares e novos dados disponibilizados pelo ME a serem considerados na sua elaboração.
(...) "A escola tem de fazer a diferença, contrariar o destino e permitir mobilidade social. Mas as que servem populações mais vulneráveis não podem responder com os mesmos recursos e da mesma forma que as restantes. Têm de ter autonomia e meios." (...)


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A SAÚDE MENTAL DOS PORTUGUESES REVISTA EM BAIXA

Em estudo realizado por Caldas de Almeida, presidente do Lisbon Institute of Global Mental Health, a apresentar no Fórum Gulbenkian de Saúde Mental, com o tema “Crises Socioeconómicas e Saúde Mental: da Investigação à Acção”, comprova-se a relação entre a situação de crise económica e de dificuldades das famílias com a saúde mental.
Em 2008, a prevalência de doenças mentais na população portuguesa era de 19,8%,  em 2015 subiu para 31,2%.
Segundo o autor, “Confirma-se que, de facto, os determinantes económicos e financeiros têm uma influência muito grande na saúde mental das pessoas”.
Os dados, na linha de outros estudos, mostram também que no mesmo período subiu significativamente o consumo de psicofármacos, designadamente, de antidepressivos e ansiolíticos. O estudo mostra ainda que uma percentagem muito significativa dos inquiridos teve dificuldade em assumir os custos dos cuidados de saúde. Apenas 40% teve acesso aos cuidados de saúde adequados.
Os indicadores não surpreendem. Estudos divulgados em 2016 realizados pela Universidade Coimbra dos quais releva um aumento da procura das consultas de psiquiatria e o aumento de alguns quadros de problemas, designadamente, a referência à intenção de cometer suicídio, entre outros aspectos. Os estudos estabelecem também alguma associação entre este aumento e a degradação das condições de vida das famílias pois foram os grupos sociais mais atingidos os que justamente mais procuraram apoio.
Nada de surpreendente, é reconhecida alta prevalência de problemas de saúde mental e ainda mais evidente o fortíssimo consumo de psicofármacos por parte dos portugueses.
Recordo que o Relatório Portugal – Saúde Mental em Números 2014, na linha dos dados dos últimos anos, evidenciava o peso fortíssimo que as patologias no âmbito da saúde mental têm no âmbito da designada carga global de doença.
Estima-se que as perturbações do foro psiquiátrico afectem mais de um quinto dos portugueses, 22.9%, umas das taxas mais altas da Europa. O Relatório sublinha a inexistência de respostas ajustadas, equipas comunitárias de saúde mental por exemplo, o que potencia o recurso aos fármacos mesmo em situações não recomendáveis clinicamente. Este recurso excessivo à medicação torna-nos num dos maiores consumidores de psicofármacos com custo económicos brutais.
A propósito recordo que de acordo com o relatório "Portugal Saúde Mental em Números 2013", só 16,2% das pessoas com perturbações mentais ligeiras e 33,8% das que sofrem de perturbações moderadas recebem tratamento em Portugal.
São também referidas no Relatório de 2014 as dificuldades de resposta em saúde mental para crianças e adolescentes levando, por exemplo, a que em muitas situações os internamentos neste grupo etário ocorram em serviços vocacionados para adultos algo que, evidentemente, não deveria acontecer.
Num cenário de retracção dos investimentos nas políticas de saúde que tantas vezes referi no Atenta Inquietude, a experiência tem mostrado que a doença mental é, nas mais das vezes, um parente pobre no universo das políticas de saúde.
Quando a pobreza das pessoas aumenta e a pobreza dos meios e recursos também aumenta, o quadro é ainda mais grave.