quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

UM PAÍS DE TAMPAS AOS SALTOS

Sempre achei graça à expressão “salta-me a tampa” no sentido em que mais frequentemente é utilizada, significando a ideia de se ficar numa situação algures entre o perplexo, o reactivo e desorganizado. De facto, se imaginarmos qualquer objecto que use tampa sem a mesma, ficamos com a sensação desconfortável do à vista, do exposto, no fundo, do destapado.
É por este tipo de questões, ridículas certamente, que me inquietam os cenários em que vivemos e que a toda a hora nos fazem “saltar a tampa”, ou seja, ficamos perplexos, com vontade de … seja o que for, a quem for, sem saber o que fazer e para onde nos virarmos em busca de um rumo.
Ouvimos declarações de gente com a responsabilidade de nos governarem ou de gente com vontade disso, que são assustadoras e nos fazem “saltar a tampa”.
Assistimos e tomamos conhecimento de comportamentos e atitudes que são um atentado à ética e à seriedade que nos fazem “saltar a tampa”.
Convivemos com situações de desrespeito por direitos básicos e pela sagrada dignidade das pessoas que nos fazem “saltar a tampa”.
Todos os dias sentimos que nos “salta a tampa” ou nos cruzamos com gente a quem “salta a tampa”.
Reparem na cacofonia em que este país se transformou, com tantas “tampas aos saltos”.

terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

QUERER

Todos os dias as dramáticas condições em que muitas pessoas (sobre)vivem nos fazem acreditar em milagres. De facto, parece altamente improvável que se possam suportar situações que afligem muita gente miúda, mais crescida ou mais envelhecida e continuar vivos. Aliás, não é raro de um de nós, mais privilegiados, ouvir qualquer coisa como “eu não aguentava” face a um relato de sofrimento.
Esta introdução vem a propósito de ainda ter sido encontrado um sobrevivente no meio dos destroços do Haiti perto de um mês depois da catástrofe conforme notícia no Público. Esta sobrevivência desafia os limiares e as probabilidades de resistência humana. E é esta resistência cujos limites sempre nos surpreendem que, simultaneamente, nos indiciam a infinita dimensão do querer. Do querer viver, por exemplo.
Nas áreas em que me movo tenho tido acesso e ou conhecimento de situações absolutamente devastadoras presentes na vida de algumas crianças e jovens que, contra tudo o que seria de esperar e apesar da imensidão do sofrimento, sobreviveram e são. São pessoas, são sobreviventes, porque quiseram ser, pessoas.
São as pessoas assim, tão grandes, que me fazem sentir pequeno. Eu não aguentava.

NOVA VIAGEM, NOVA CORRIDA

Devo dizer que não tenho acompanhado com atenção a questão dos protestos das pessoas ligadas aos equipamentos de diversão. Creio que, como em tudo o que respeita ao consumo, se deve estabelecer um equilíbrio entre os direitos dos consumidores, designadamente a segurança, e os regulamentos e exigências que se querem eficazes e razoáveis.
Quando ouvi que a situação ameaça a actividade do sector fiquei inquieto. Uma das memórias da minha infância é a ida à feira e andar nos "carrinhos de choque", o meu preferido. Não simpatizava muito com os carrosséis nem com aqueles que nos obrigavam a andar alto e depressa como as cadeirinha presas a correntes ou outros do mesmo tipo, os que mais entusiasmavam muitos dos meus amigos, mais corajosos, naturalmente.
Há dezenas de anos que não voltei a andar nos carrinhos, mas ainda tenho na cabeça o "nova viagem, nova corrida" que indicava o início de mais um período, depois de introduzida a moedinha, é claro.
Estes equipamentos de feira parecem-me ainda de certa forma uma metáfora da vida que levamos, o gozo, o susto, a companhia, o risco, o inesperado, os altos e os baixos, o lento e o rápido. Não é, aliás, raro a referências ao carrossel em que muitas vezes a nossa vida se transformou.
Por isso, desejo ardentemente que se estabeleça, também aqui, um entendimento que possibilite que uns milhares de miúdos larguem por um tempo as consolas e o ecrã e andem, seguros espera-se, nos carrosséis, carrinhos de choque ou seja lá o que o for numa qualquer feira.

GOSTAVA DE TE ADICIONAR COMO AMIGO

Nos últimos tempos tenho andado francamente entusiasmado com a quantidade de pessoas que se me dirigem convidando-me para amigo e propondo-me a integração numa rede social. De facto, numa época em que nos referimos, aqui no Atenta Inquietude tenho-o feito com frequência, ao isolamento em que muita gente parece estar, surpreende-me a disponibilidade solidária com que tanta gente encara o risco de eu estar sem, ou com poucos amigos. A surpresa é tanto maior quando verifico que a esmagadora maioria dos convites vem de pessoas que não tenho ideia de conhecer de lado algum.
Já pensei que será gente que assumiu uma espécie de missão em regime de voluntariado na qual se empenham em oferecer amizade a eventuais necessitados. É bonito e cria uma ilusão de esperança na humanidade, afinal as pessoas continuam a empenhar-se na relação com o outro e a preocupar-se com a amizade.
Por outro lado, uma das fórmulas divulgadas "gostava de te adicionar como amigo" é particularmente feliz, eu acho. A ideia de ir somando amigos, chegando a centenas ou, quem sabe, a milhares, permite sonhos de popularidade e amizade nunca antes imaginados. Estou completamente rendido.
Por favor, não desistam de enviar a toda a gente, a mim também, as fantásticas mensagens que contêm os criativos e solidários "gostava de te adicionar como amigo" ou "tituxa enviou-te um Pedido de Amizade".
Bem-haja pela atenção.

segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

O SONO E A NET

A imprensa de hoje aborda a questão da qualidade do sono de crianças e adolescentes. Alguns estudos citados sustentam que os mais novos estarão a dormir menos que gerações anteriores. A falta de qualidade do sono e do tempo necessário acaba, naturalmente, por comprometer a qualidade de vida das crianças e adolescentes. Alguns especialistas ouvidos remetem esta alteração para questões ligadas a stress familiar e sublinham o aumento das queixas relativas a sonolência e alterações comportamentais durante o dia.
É certo que as situações de stress familiar serão importantes mas parece-me necessário não esquecer alguns aspectos relacionados com os estilos de vida. Segundo alguns estudos, perto de 50% das crianças até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel.
Acontece que durante o período de sono e sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida. Esta questão, utilização excessiva e não regulada pelos pais da net é, aliás, tratada pelo Público a propósito da realização de trabalhos escolares que frequentemente não passam de plágios realizados a partir de operações "copy e paste".
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais, eles próprios com níveis baixos de alfabetização informática. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais de forma a que a utilização imprescindível seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.

HISTÓRIA COM PODER DENTRO

Finalmente no meu Alentejo o tempo permitiu que se semeassem as favas e ervilhas, tarefa dura que a terra está muito carregada. No fim da lida, um copo e umas lérias com o Velho Marrafa. No meio, a propósito das voltas da vida e dos trambolhões das pessoas, o Velho Marrafa contou a história parecida de duas pessoas, o Manel Soldado e o Zé Curto mas vamos por partes. O Manel Soldado era um manajeiro, um homem que, como certamente saberão, angariava o pessoal para o trabalho nas herdades. Naquele tempo era coisa de muito poder, decidia quem trabalhava e quanto recebia, ganhando aliás com isso. Pois o Manel Soldado era tratado com o maior respeitinho, as pessoas descobriam-se à sua chegada e calavam-se para ouvir a sua voz, os que têm mais poder têm mais voz, diz o Velho Marrafa. Havia até muita gente que o tratava por Parente Manel Soldado o que, de acordo com o Mestre Marrafa, significava o apreço que lhe queriam mostrar.
Acontece que devido às mudanças na vida a herdade desfez-se e o Manel Soldado perdeu o lugar de manajeiro, ou seja, perdeu o poder. Passava então o tempo na taberna onde sempre tinha sido uma presença especial. Só que se alguém perguntava quem estava na taberna, a resposta que se ouvia era, ninguém, só o Manel Soldado. O Velho Marrafa mostrava como sem o poder o respeitado Parente Manel Soldado passou a Ninguém.
A outra história é quase uma repetição, apenas muda o personagem, o manajeiro Zé Curto, homem que, quando chegava a cavalo e devido ao poder que tinha, logo apareciam três ou quatro homens a oferecer-se para segurar o cavalo, também era tratado por Parente Zé Curto. Tal como na história do Manel Soldado, os tempos mudaram, a vida complicou-se e o Zé Curto passou a andar aos fretes com um carroça e uma besta e a fazer alguma "searita" que lhe davam. Deixou de ser o Parente Zé Curto e ganhou até a estranha alcunha do Tarraia.
O Velho Marrafa concluiu que são lérias que vieram de histórias que aconteceram. Ele sabe e nós também que estas histórias continuarão a acontecer, algumas viram lérias.

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

IRRESPONSABILIDADE IMPUNE

Os números hoje divulgados num excelente trabalho do Público sobre os custos de manutenção dos estádios de futebol construídos para o Euro 2004 são uma (in)feliz amostra de algo que marca Portugal nas últimas décadas, irresponsabilidade e desperdício.
Não é a primeira vez que abordo este tipo de questões e não pretendo assumir um olhar de santidade e demagogia sobre estas matérias. Sou um grande adepto de futebol mas nunca percebi a necessidade de dez estádios, a própria UEFA achava que seis seriam suficientes. Os interesses regionais e a irresponsabilidade impune levaram a que se construíssem dez elefantes brancos sem um cêntimo de rentabilidade e com custos de manutenção astronómicos, 20 milhões ano. Não adianta a conversa de alguns, enunciada também na recente discussão sobre a lei das finanças regionais, de que, no fundo, esta verba não passa de "trocos". É uma questão de princípios, competência, responsabilidade e racionalidade na gestão da coisa pública.
Quer da responsabilidade do governo central, quer da responsabilidade do poder autárquico, o país está pejado de exemplos desta natureza. Obras de fachada, inúteis, dispendiosas na construção e manutenção que apenas alimentam a feira de vaidades e o umbigo de quem manda.
A peça jornalística tenta ouvir opiniões sobre o que fazer com este problema mas não aborda um aspecto essencial, de quem a responsabilidade e o que acontece a quem decidiu o que obviamente seria um desastre. É esta cultura de impunidade e de irresponsabilidade que constituem a verdadeira asfixia democrática. E atenção, o eterno Madail já fala na remodelação de estádios a propósito da candidatura luso-espanhola à organização do Mundial de 2018.
Livrem-nos desta gente, ou melhor, livremo-nos desta gente.

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

CIDADANIA SOLIDÁRIA

A campanha relativa ao Ano Europeu Contra a Pobreza e a Exclusão Social inicia-se hoje com uma cerimónia na Fundação Gulbenkian. Começa bem.
Não consta que os dois milhões de pobres existentes em Portugal tenham sido convidados o que se deverá certamente a questões de logística.
Inicia-se assim oficialmente a retórica dirigida à pobreza. É melhor que nada. Sabendo-se que os apoios financeiros têm um impacto reduzido na redução da pobreza, a retórica tem apenas a vantagem de manter a pobreza na agenda e ajudar a descansar algumas consciências.
Apesar da situação económica não ser favorável é ela também responsável por parte significativa dos números da pobreza e, por isso, deve ser também a economia a suportar parte dos custos da pobreza, por exemplo através do aprofundar da responsabilidade social das empresas que, mais do que incentivada, deveria ser “obrigatória”.
O combate à pobreza, para além dos apoios económicos transitórios e casuísticos, deveria ter como eixos fundamentais, a formação, o trabalho e a promoção da dignidade.
Estes princípios deveriam servir de guarda-chuva a todas as iniciativas que também deveriam ser concertadas evitando a dispersão e o carácter avulso e voluntarista muito frequente.
Finalmente, seria desejável que se desenvolvesse uma perspectiva de cidadania solidária de que fala Fernando Nobre e que as lideranças políticas percebessem que o combate à pobreza é infinitamente mais importante que os interesses partidários.

ANJO DA GUARDA

    (Foto de Mico)

Eu tenho um guarda
Que é um anjo
Que me protege
De noite e de dia
A toda a hora
E em todo lado
Posso contar
Com a sua vigia
Não usa arma
Não usa a força
Usa uma luz
Com que ilumina
A minha vida

(António Variações)

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

O MENINO ESTÁ CHOCADO

Na primeira página do I, logo abaixo da referência à eventual crise com a lei das finanças regionais, podia ler-se “Estou chocado” afirmação do Cristiano Ronaldo. Com curiosidade de saber o que tinha chocado o génio li e percebi. O Génio está chocado porque, diz, o governo não apoia a ida de outro menino, Álvaro Parente, provavelmente também um génio, para a fórmula 1.
Fiquei, fico sempre, impressionado quando assisto a atitudes, discursos ou comportamentos de solidariedade entre os mais novos. Devolvem-me a esperança num futuro melhor.
Reparem que em causa estará apenas uma verba entre 4 e 5 milhões de euros a providenciar pelo Turismo de Portugal para que o menino Parente pudesse guiar um fórmula 1 do Sr. Branson, sim o dono da Virgin. Não se tratam assim os desejos dos meninos. É por isso que com toda a razão o menino Ronaldo ficou chocado com a maldade feita ao Menino Parente.
Não bastam todos os sacrifícios que estes meninos têm de fazer para logo o Governo que tem a responsabilidade sobre o bem-estar dos meninos cometer estes abusos.
O menino Cristiano Ronaldo subiu mais uns pontos no apreço que já sinto de há muito pelos seus dotes de probidade e solidariedade para com as outras crianças.
Gracias Cristiano Rónaldo.

ACTIVOS TÓXICOS

No início da crise financeira e depois económica, de que ainda não saímos, surgiu uma expressão, para mim desconhecida, que invadiu a comunicação social e o dia a dia. Refiro-me aos chamados activos tóxicos que, dizem os especialistas, estiveram na base de boa parte dos nossos problemas. Continuo sem ter grande conhecimento destas matérias mas assim como apareceu, desapareceu, não voltámos a ouvir referências aos activos tóxicos.
Hoje, depois de um dia comprido tentei saber que tinha acontecido no mundo e assisti numa estação televisiva a um inenarrável debate entre dois deputados, Guilherme Silva do PSD e Vítor Baptista do PS sobre, tinha de ser, a Lei das Finanças Regionais a votar amanhã no Parlamento.
Ao ouvir aquelas duas figuras lembrei-me dos activos tóxicos e compreendi, deve ser isto. Aquela gente produziu uma cacofonia ininteligível e inaudível, cheia de insultos corteses e de demagogia despudorada. Os argumentos de qualquer dos lados pareceram-me imperceptíveis e sobretudo alinhados com estratégias partidárias que, como se sabe, tendem a não coincidir com o interesse geral.
Como é óbvio o cidadão está farto destes activos tóxicos e essa atitude traduz-se na demissão face actividade cívica e na desconfiança sobre a classe política que mina a cidadania e a democracia.
Será que serão recicláveis? É destino ou castigo?

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

NÃO ESTRAGUEM

É sabido que apesar de algumas agressões pontuais, o litoral alentejano é, pode dizer-se, a zona de costa que ainda temos em melhores condições. É certo que ao longo de toda a costa é possível encontrar alguns nichos preservados mas, globalmente, o litoral alentejano tem estado mais a salvo dos crimes urbanísticos e da destruição.
O Plano Regional de Ordenamento do Território, instrumento que se pretende de regulação, vem limitar o número de camas turísticas passíveis de instalação na região. O autarca de Grândola insurge-se e, ao que parece, outros responsáveis por municípios também protestam contra a limitação que até o próprio estado entende não cumprir ao utilizar os famosos PIN, Projectos de Interesse Nacional, para contornar os planos de ordenamento do território e viabilizar os atentados ambientais que se podem constatar, por exemplo, no Algarve. Os autarcas protestam contra uma eventual discriminação, se uns construíram nós também queremos construir, e são capazes de com uns PIN aprovados levar a água ao seu moinho. Esta situação estará certamente associada ao facto de uma parte significativa do financiamento das autarquias depender da construção que, aliás, é confundida com desenvolvimento. Este equívoco gera o caos que conhecemos em muitos concelhos do país. Desenvolvimento deve estar associado a qualidade de vida e esta qualidade de vida não se promove destruindo o que de mais bonito e sólido existe numa região.
Por isso espero que prevaleçam os verdadeiros interesses nacionais e que a costa alentejana continue a ser o que é, uma das zonas mais bonitas e preservadas do país o que, repito, não é incompatível com desenvolvimento regional e com a qualidade de vida de quem lá vive ou a visita.

O DONO DA BOLA

Quando era miúdo, aí pelos dez, doze anos, era o Pedro o dono da bola. Há sempre um dono da bola, ainda hoje, mesmo quando já não se trata da bola mas lá chegaremos.
Como ia dizendo, da presença do Pedro dependia o sonho, perdão, o jogo, é que sem bola não há jogo. Nenhum de nós tinha possibilidades de ter uma bola daquelas, de cauchu, só o Pedro e é claro que quando ele aparecia com aquela preciosidade era o mais festejado dos amigos.
Como também é habitual nestas histórias, o Pedro não tinha qualquer jeito para o futebol, nenhum mesmo. No entanto, o dono da bola tem que jogar e lá se fazia um esforço para o integrar numa das equipas. Não era fácil, ninguém quer ter na equipa um "pé de pedra". Procurávamos até que o Pedro rodasse para que o "problema" não fosse sempre para os mesmos.
Era pois assim, o Pedro, só tinha amigos quando trazia a bola. Eu acho que ele percebia isso e nós também. Éramos apenas amigos da bola do Pedro.
Actualmente já quase não se joga à bola na rua mas continua a haver muitos Pedros, ou seja, miúdos que "compram" amigos, de muitas maneiras.
Se bem estivermos atentos, vamos encontrar nas escolas, por exemplo, muitos comportamentos como pequenos roubos, agressões ou insultos e indisciplina em sala de aula, realizados por miúdos que procuram, assim, ser aceites em grupos ou fazer parte das relações próximas de colegas mais populares. Muitas destas crianças são pessoas sós, pouco confiantes em si próprios e que precisam de atenção e uma relação para ser gente, no fundo como todos nós.
Eu acho que o Pedro gostava e precisava de acreditar que tinha um "monte" de amigos com quem jogava à bola.

quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

PROFESSOR BAMBO

Peço desculpa por não falar da eventual crise a propósito da lei das finanças regionais e de também não falar dessa tragicomédia que envolve o mítico Mário Crespo que em pouco tempo terá passado da gestão de um tempo de antena do Governo no Jornal das Nove a "problema a solucionar", não percebendo eu, aliás, que problema é que Mário Crespo exactamente constitui.
No meio deste mundo de problemas reparei no DN que o Professor Bambo, o vidente, não vai a julgamento. Fiquei mais descansado. Envolvido num processo de alegadas burlas a 16 pessoas, 15 destes queixosos desistiram das acusações a troco de compensações financeiras. É edificante, o homem não vai a julgamento por não ter burlado mas pelo facto de os eventuais burlados terem sido compensados. Claro que se não estranha, tudo se compra, tudo se vende, até a justiça. Mas insisto, fiquei descansado.
Da forma que as coisas estão precisamos dos dotes do Professor Bambo em acção. É certo que o Professor Manuel Machado regressou mas, consta, o Professor Marcelo vai abandonar a RTP. Que Professor é que fica então encarregue de adivinhar o futuro e de nos providenciar as mezinhas necessárias para enfrentar os problemas?
Num mundo tão complicado não poderemos viver sem a tranquilidade da adivinhação do que aí vem.
Por isso e aproveitando a ocasião, Professor Bambo que vai acontecer nesta terra?

TGV

Um dos temas mais discutidos nos últimos tempos tem sido o TGV. Uns são favoráveis, sempre foram. Outros são desfavoráveis, sempre foram. Alguns outros são favoráveis ou desfavoráveis conforme o tempo e a circunstância. Também tenho, naturalmente, a minha opinião sobre o TGV, não sou particularmente adepto desta ideia e da atitude que se instalou, TGV, Tudo a Grande Velocidade.
De facto, acho que vivemos a vida a uma velocidade que lhe retira qualidade.
O tempo, bem cada vez mais escasso e precioso, não chega para toda a “montanha” de coisas “super-importantes” e “fantásticas” que temos de fazer pelo que “passa a correr”.
Corremos para o trabalho e para casa, falta o tempo para os miúdos que correm para a escola e da escola para “imensas” actividades que fazem “super-bem” a “montes” de aspectos.
Tudo é urgente, tudo é para ontem. Com dúvidas sobre o amanhã, tudo tem que acontecer hoje.
Comemos à pressa, em pé, dormimos à pressa, falamos, quando falamos, à pressa, amamos à pressa. O problema, como se sabe, é que depressa e bem, não há quem.
É por isso, e porque cada dia dou mais valor ao tempo, que não simpatizo com o TGV, Tudo a Grande Velocidade.

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

Já aqui tenho referido que, apesar de as referências às alterações climáticas se centrarem no planeta Terra, também me preocupam as alterações climáticas que envolvem as pessoas desta terra.
A imprensa de hoje divulga um estudo do Observatório Português de Boas Práticas Laborais (entidade que confesso desconhecer) em que 36,5% dos inquiridos entendem que o estado das relações laborais em termos genéricos é mau. Curiosamente, 40% entendem que na sua empresa a situação é positiva. É um dado interessante sobre a percepção do clima, ou seja, na minha empresa a coisa é positiva mas de uma forma geral a situação é má. O estudo diz ainda que os inquiridos expressam maior preocupação com a igualdade de oportunidades do que com salários e carreira o que também é de salientar, as pessoas parecem mais sensíveis à justiça e ao bom tratamento que a questões de salário.
Este tipo de conclusões não é inédito, outros trabalhos nacionais e internacionais mostram como, contrariamente ao que por vezes se entende, as pessoas precisam e esperam reconhecimento e bom relacionamento mais do que dinheiro ou estatuto.
Nos tempos que correm, com altíssimos níveis de precariedade laboral e de desemprego, é óbvio que a percepção das relações laborais em termos genéricos tenderá a ser negativa.
É por isso que, tanto quanto os eventuais riscos do alegado aquecimento global, me preocupam os riscos do arrefecimento global das relações entre as pessoas.

DESESPERADOS

Na linguagem corrente uma pessoa desconfiada é uma pessoa que não tem confiança, assim como uma pessoa desarmada é alguém que não tem arma ou ainda um desocupado será alguém que não tem ocupação.
Assim sendo, um desesperado será alguém que não tem espera, porque nunca a teve, porque a perdeu ou porque lha tiraram. Em qualquer dos casos a situação inquieta.
Há gente, sabemo-lo, que nasce sem poder esperar, ou quase. Cumprem o seu destino igual ao dos seus pais. Basicamente limitam-se a aceitar que alguém se lembre deles, no fundo é essa a sua espera. Muitos destes são transparentes, não se vêem, e, por isso, quase ninguém se lembra deles.
Outro grupo de desesperados, gente que não tem a espera, é constituído pelos que a perderam. Actualmente e como exemplo, existem muitas pessoas que com o trabalho que lhe tiraram levaram agarrada a espera. É gente que já teve espera, chamava-se esperança, em algum tempo da sua vida e que vê essa espera, esperança, fugir, perdida.
Finalmente o grupo a quem roubaram a espera. É um grupo que engrossa vítima de uma desregulação de valores em que a pessoa é um número e não uma pessoa e a quem retiram a possibilidade de aceder as direitos básicos da dignidade e do afecto.
Os desesperados, as pessoas sem espera, velhos e novos, homens e mulheres, podem um dia decidir reclamar a espera, a esperança, que não têm. Serão dias duros.

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

UM PROBLEMA DE ESTATUTO

No meio da turbulência gerada pela discussão em torno da avaliação dos professores e do Estatuto da Carreira Docente passou relativamente despercebido o Estatuto do Aluno. Tal peça legislativa é, também, um bom indicador do que foi o consulado da equipa liderada por Maria de Lurdes Rodrigues.
Não sei se fruto da pressa, do famoso ímpeto reformista, ou apenas de alguma incompetência e, seguramente, muita arrogância, o Estatuto do Aluno forneceu os sinais que não podia, ou seja, passou um sinal de irrelevância no que respeita às faltas de assiduidade, introduziu da pior forma dispositivos chamados de provas de recuperação que "branqueiam" faltas de assiduidade e implicam uma carga burocrática acrescida no trabalho dos professores que já não é pequena.
No que se refere aos comportamentos de indisciplina também os processos e orientações previstos no Estatuto do Aluno estão fortemente comprometidas na sua eficácia, sobretudo devido, de novo , à excessiva carga burocrática e complexidade.
Dado que a actual equipa do ME já anunciou disponibilidade para a revisão da legislação, suspeito que teremos, tal como na avaliação e no Estatuto da Carreira Docente, mais uma prova de que a arrogância e incompetência, aliás premiadas, da anterior equipa causaram ruído e perturbações no sistema absolutamente desnecessárias. Vamos ver o que dá.

MAL DE SAÚDE

Segundo o DN, as pessoas de uma localidade no concelho de Paredes, passam a noite em frente à porta do centro de saúde para conseguir marcar uma consulta para a semana seguinte. Começam a chegar às 23 e por volta das 5 da madrugada a maioria das vagas disponíveis estão ocupadas.
Há poucas semanas foi anunciado com a devida amplificação que, no seguimento da revolução tecnológica em curso, a marcação de consultas nos centros de saúde em todo o país poderiam ser realizadas através da net. Provavelmente este “todo o país” deve ter um significado diferente do habitual. Ou então esqueceram-se de dizer que se podem marcar consultas pela net quando existem médicos, pois muitos milhares de portugueses continuam sem médico de família.
Sou um defensor, não podia deixar de ser, da utilização de todo o potencial das novas tecnologias, mas também me incomoda o deslumbramento pacóvio com o “choque tecnológico” conviver com a situação de muitos cidadãos terem que passar a noite, sujeitos a agravar os seus problemas, para conseguirem uma consulta, objectivo que, mesmo nestas circunstâncias, não é garantido.
Ainda a propósito das questões da saúde o CM relata o caso de um cidadão com diabetes que está há ano e meio à espera de uma consulta da especialidade no Hospital do Litoral Alentejano (HLA) sendo que a última vez que foi visto por especialistas foi em Junho de 2008.
Neste cenário torna-se mesmo imprescindível prever com bastante antecedência os nossos problemas de saúde e começar já a marcar as respectivas consultas.

E SE A MINHA PROFESSORA CHUMBA?

A semana passada estava o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, a tomar o chá da manhã na sala de professores e, como acontece com frequência, juntou-se-lhe a Joana, uma das professoras mais novas lá na escola, dá aulas a um grupo do 2º ano.
A conversa ia decorrendo sobre a vida dos professores e das incidências dos últimos tempos, sobretudo nas repercussões que o processo de discussão com o Ministério teve na vida das escolas, como não podia deixar de ser. A Joana falava da sua esperança em que os próximos tempos fossem de alguma tranquilidade e entendimento.
O Professor Velho não estava assim tão optimista argumentando que a excessiva partidarização das matérias da educação dificilmente permitiria essa tão necessária serenidade e, a propósito, contou uma história à Joana.
Um dia, já perto do final do ano o Manel, o teu aluno, entrou na biblioteca e veio ter comigo com cara de preocupado.
Olá Manel, que cara é essa, que te aconteceu?
Não sei Velho, posso perguntar uma coisa?
Claro, o que é?
Os professores andam todos a falar da avaliação, só falam da avaliação e eu não percebo muito bem. Tu achas que a minha professora vai chumbar? Ela estava a dizer a outra professora que a avaliação está mal feita e prejudica os professores. E se a Professora chumba? Eu gosto dela e os outros também, ele ensina bem as coisas e a gente aprende. A gente não quer outra professora.
Se é isso que te preocupa, podes ficar descansado, a tua professora não chumba, palavra de Professor Velho.
Acredito em ti e vou dizer aos outros.

domingo, 31 de Janeiro de 2010

APOIOS EDUCATIVOS, DE NOVO

Há já algum tempo que aqui não abordava as questões dos apoios educativos a crianças com dificuldades. Hoje surgem na imprensa dois bons pretextos para voltar à questão.
O Público refere-se à falta de eficácia dos planos de recuperação e acompanhamento previstos na legislação para apoiar alunos em risco de retenção. Um primeiro dado fortemente significativo é o facto destes planos envolverem cerca de um terço da população escolar, 227 839 em 764 000. Por outro lado, a eficácia é baixa, cerca de um quarto dos alunos envolvidos acaba mesmo em situação de insucesso. Importa pois perceber as razões deste cenário. Professores ouvidos no trabalho do Público referem-se à burocracia envolvida, conteúdos e extensão dos programas, falta de recursos, etc. A Confap, através do eterno Albino Almeida, sublinha as dificuldades do envolvimento das famílias.
Quem conheça o contexto de funcionamento das nossas escolas percebe que dificilmente os resultados poderiam ser diferentes, independentemente do maior ou menor empenho dos docentes. Muitas vezes, por falta de recursos que permitam uma correcta avaliação da natureza das dificuldades os planos de recuperação são um elenco (uma grelha) de orientações como "estar atento", "fazer trabalhos de casa", "ser assíduo" etc. a que se acrescentam algumas orientações de "responsabilização da família" . Do ponto de vista pedagógico, mobilizam-se ideias como "diferenciação pedagógica" que, na prática por falta de formação e recursos, resultam em "mais do mesmo". Entendo que para além da mudança anunciada nos programas, a aposta no que respeita à "recuperação" deverá passar por uma correcta avaliação das dificuldades dos alunos permitindo assim que o apoio seja dirigido para essas dificuldades, o que torna necessária formação. Em sala de aula, a utilização de parcerias pedagógicas parece uma medida potencialmente eficaz. Deveria aligeirar-se a burocracia envolvida, com custos razoáveis de tempo, e, finalmente, criar dispositivos de regulação e avaliação dos planos que permitam a sua correcção e eficácia.
Também o DN de hoje se refere aos apoios a alunos com necessidades educativas especiais. Como sempre afirmámos, em resultado das incompetentes decisões de um delinquente ético, Valter Lemos, de 50 000 crianças apoiadas passámos, através da criminosa utilização do conceito de elegibilidade, para 34 000 o que corresponde a 2.85% do universo dos alunos. As orientações do Dr. Lemos, ainda não se conhece o pensamento da actual equipa sobre esta questão, iam no sentido de apoiar apenas 1,8% dos alunos pelo que será de esperar ainda menos alunos em apoio. Sabe-se que internacionalmente se aceita que existirão entre 8 e 12% de alunos com necessidades educativas especiais mas o Dr. Lemos entendeu que em Portugal, porque ele assim decretava, só teríamos cerca de 1,8%. O resultado que sempre denunciámos é este, milhares de crianças com necessidades e sem apoios.
Talvez não se recordem mas o Dr. Lemos afirmou um dia que não era coisa que o preocupasse. Nós demos por isso.
Agora aguardamos o que dirá a nova equipa do ME sobre esta realidade.

sábado, 30 de Janeiro de 2010

A GRIPE A E O DÉFICE

Quando surgiram as primeiras informações sobre a Gripe A tive, como creio que qualquer cidadão minimamente atento, a preocupação de me informar sobre riscos e implicações. A campanha entretanto desenvolvida assumiu proporções nunca antes atingidas o que contribuía para nos convencermos que a ameaça era séria. Devo também dizer que também não me sentia muito convencido de tudo o que era dito face ao que ia acontecendo noutras paragens. Os números entretanto conhecidos e a evolução verificada vieram, felizmente, a demonstrar a benignidade do vírus e os seus efeitos ficaram muito aquém das previsões catastróficas que a pandemia “deveria” provocar. Recentemente, as dúvidas levantadas por elementos do Conselho da Europa vieram recolocar as reservas sobre toda a abordagem à questão da Gripe A. Ao que parece, também em Portugal se procede à renegociação da encomenda de vacinas e o fabricante não quer, obviamente, perder receita pelo que o eventual excedente pode ser trocado por outros produtos.
Numa outra área, soubemos que o Ministro das Finanças e o Governador do Banco de Portugal não estavam de todo à espera do défice atingido pelas contas públicas o que, mais uma vez, me deixa algo perplexo.
Se as autoridades competentes e os especialistas não conseguem prever de forma minimamente eficaz os desenvolvimentos em áreas que tutelam e de que são responsáveis, como poderá o cidadão comum confiar nas lideranças e acreditar nos seus discursos. Se não duvidarmos da sua competência, poderá então colocar-se a sua seriedade e a existência de outros interesses que nos escaparão. Ou talvez não.

Ó SENHOR

(Foto de Mico)

Ó Senhor. Ó Senhor.
Era para dizer … Era para dizer … Era para dizer …
Era para dizer que não se esqueça da gente. A gente precisa.

sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

MEDIATIZAÇÃO DA POBREZA

Não quero julgar intenções nem ferir susceptibilidades, mas confesso que fiquei embaraçado. Num jornal televisivo assisti a uma peça onde se anunciava que, dando cumprimento a uma antiga tradição, a Santa Casa da Misericórdia do Porto convidou cinco pobres da cidade para almoçar. Tudo bem, é simpático e de acordo com a missão. A peça ia mostrando, entretanto, dezenas de bem produzidas figuras, presumo daquilo a que se costuma chamar sociedade civil, que, certamente no mesmo espírito de solidariedade, vieram fazer companhia aos pobrezinhos que foram convidados para almoçar e que mal parece comerem sós.
Mais emocionado fiquei quando um dos pobrezinhos, bem vestido para a ocasião e ouvido para a reportagem, agradeceu o convite e falou dos seus colegas, creio que ele falava dos seus colegas pobrezinhos e não dos seus colegas de mesa.
Talvez a forma como a peça foi produzida e apresentada possa gerar equívocos mas creio que um pouco de pudor e dignidade evitariam um espectáculo de mediatização da pobreza que me incomodou.
Deve ser um problema de hipersensibilidade a merecer tratamento.

O VÉU

Nos últimos tempos desencadeou-se um grande alarido sobre a utilização do véu. Algumas vozes acham bem que se proíba enquanto outras, naturalmente, estão a favor da utilização do véu. Tenho sempre alguma prudência quando se trata de legislar valores e direitos individuais mas também me parece que andaríamos melhor se não se utilizasse tanto o véu pelo que veria com simpatia a abolição do seu uso.
As lideranças políticas deveriam ser impedidas de usar o véu com que vêem a realidade, descrevendo-a de uma forma que o cidadão comum não a encontra no dia a dia. Também não poderiam usar o véu populista com que vendem promessas que sabem não poder cumprir. É claro que não se serviriam do véu para mascarar comportamentos e decisões lesivas do bem comum.
Também nós cidadãos comuns abandonaríamos o véu com que olhamos para muitas pessoas à nossa volta e que nos impede de perceber o quanto sofrem para viver decentemente. Sem o véu ficaria bem mais nítida a situação de miúdos e velhos, grupos sempre mais vulneráveis, e seríamos obrigados a ver mesmo.
A comunidade teria certamente um ambiente mais saudável sem o véu que torna a impunidade uma regra e não a excepção.
Sem o véu do preconceito seríamos pessoas mais parecidas, mais nítidas, mais focadas.
Nesta perspectiva, parece-me claro que a abolição do uso do véu é mesmo uma ideia que justifica reflexão.

quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

A TELEVISÃO NÃO É PARA TODOS

Embora esteja definido a partir da Lei de Televisão um plano que permita a acessibilidade gradual das pessoas com deficiência aos conteúdos televisivos das estações que emitem em canal aberto, RTP, SIC e TVI, e a entidade reguladora tenha estabelecido o cumprimento desse plano, a SIC e TVI impugnaram-no e a RTP cumpre residualmente. A Secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação entende que este não cumprimento constitui uma violação grosseira dos direitos das pessoas.
Muitas vezes nos temos referido aqui no Atenta Inquietude à forma como em múltiplas circunstâncias as pessoas com deficiência enfrentam situações de discriminação negativa atentatória dos seus direitos. Muitos de nós acharão certamente que existirão aspectos muito mais graves e preocupantes para todos que o facto de uma minoria não aceder à programação televisiva genérica sendo, portanto, possível, defenderão, estabelecer uma hierarquia de prioridades. O problema é que na condição de minoria nunca os problemas envolvidos serão uma prioridade para a maioria. A atenção aos problemas das minorias não pode decorrer da definição de prioridades mas do cumprimento de direitos.
Como sempre digo, o nível de desenvolvimento das comunidades também se afere pela forma como as minorias são tratadas.

A HISTÓRIA DO BICHO-DA-SEDA

Existem invariantes que preenchem o calendário anual de muitos miúdos. Um desses invariantes é a época do bicho-da-seda. Já era assim no meu tempo de gaiato e ainda hoje vejo, na altura certa, muitas pessoas, sós ou com os miúdos, de volta de umas amoreiras que existem, vamos ver até quando, na minha zona apanhando as folhas para alimentar os bichos-da-seda. Eu e os meus amigos, tal como o meu filho e os miúdos de hoje tínhamos os bichinhos em caixas de papelão, não faltávamos com as folhas de amoreira que os faziam crescer, transformar em casulos e depois, com as caixas tapadas, esperava-se o fim do ciclo, as borboletas que punham uma imensidade de ovos que, de novo, traziam os bichos-da-seda.
Lembrei-me deste quadro porque acho que alguns miúdos parecem seguir eles próprios o ciclo do bicho-da-seda. Pequeninos, desenvolvem-se do que os adultos vão providenciando, pão e afecto, e mais crescidos começam a construir casulos. Alguns conseguem não ficar dentro e continuam, mas outros ficam mesmo aprisionados nesses casulos opacos e quase inacessíveis.
Só que destes casulos não emergem borboletas. Emergem pessoas infelizes, amargas, à procura de si e de um lugar que nem sempre encontram.
Vamos lá cuidar bem de todos os bichos-da-seda que andam à nossa beira.

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

AS BOAS E AS MÁS NOTÍCIAS

Comecemos pelas boas notícias. No Orçamento de Estado para 2010 está prevista a entrada em funcionamento de 180 novas creches e pretende-se que até 2013 se instalem cerca de 600 o que permitirá atingir a meta de uma taxa de cobertura de 33%, considerada ajustada em termos europeus sendo actualmente de 18% a taxa de cobertura. De salientar também o aumento da dotação orçamental para a educação pré-escolar.
Do meu ponto de vista, o aumento da capacidade de resposta ao nível da creche e educação pré-escolar e também da acessibilidade das famílias em termos de custo e horários a estas respostas, são um bom contributo para o combate ao chamado inverno demográfico, a baixa natalidade preocupante verificada no nosso país. É sabido que a falta de instituições que recebam bebés e crianças pequenas, bem como as respectivas condições de acessibilidade são um obstáculo para muitas famílias. Assim sendo, esta opção parece algo no sentido certo no que respeita política de família.
Agora as más notícias. Talvez não seja uma situação muito grave pelos valores que envolve, mas entendo-a como um retrato do que de mau hoje temos em Portugal, abuso de poder e impunidade. Segundo o I e confirmado oficialmente, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras marcou mesa para um almoço de funcionários num conhecido restaurante. Após a refeição, substantiva que as autoridades carecem de alimento, como dizem os miúdos, os senhores agentes de autoridade "baldaram-se". O proprietário não se intimidou e exigiu junto do SEF o pagamento devido. A resposta veio com uma exigência burocrática bizarra e também com a exigência de demonstração da situação tributária do estabelecimento ou da autorização para que fosse consultada pelo SEF. Ao que parece proprietário continuou sem se assustar e divulgou a situação. Quando contactado pelo I o SEF procedeu à liquidação a dívida, Portugal no seu melhor.
Esta gentinha pequena que detém, pensam, algum poder não entende, e não é por burrice, os estragos à cidadania que comportamentos delinquentes como estes implicam. Certamente não saberemos, mas aposto que nada acontecerá aos senhores envolvidos.

AOS PAPÉIS

Um dia destes alguém contava que o grupo completamente amador onde faz teatro por gosto e entretenimento se encontrava envolvido numa acesa discussão porque alguns elementos não estariam satisfeitos com a distribuição de papéis realizada pelo encenador. Achavam que os papéis atribuídos não eram importantes, eram secundários, com poucas deixas, ou sejam, apareciam pouco. Não será de estranhar a situação, de uma forma geral todos gostamos de desempenhar papéis importantes, até mesmo os principais. Como é natural há sempre muita gente que não fica satisfeita com o papel que lhe cabe. Tudo isto é normal nas diferentes encenações.
No entanto, para além da distribuição dos papéis com intervenção e sabemos que nem sempre os critérios têm a ver com a qualidade dos actores, há uma imensidão de gente que não passa de figurantes e outra imensidão ainda que nem sequer entra nas peças, são os excluídos, não passam em nenhum casting.
A esmagadora maioria destas pessoas já nem consegue ter voz para protestar com os papéis.
Talvez vá chegando o tempo de aqueles que têm alguma capacidade de influenciar a distribuição de papéis entenderem que toda a gente precisa de um papel, uma voz e um corpo, não tem de ser a glória, trata-se apenas de participar, existir.

terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

PELA NOSSA SAÚDE

Um estudo hoje divulgado pela DECO sobre a acessibilidade dos portugueses aos serviços de saúde revela alguns dados inquietantes.
Em primeiro lugar, seis em cada dez famílias exprimem dificuldades em suportar as despesas com a saúde. Destas, quase metade adiaram o início de terapias e cerca de 40% nem pondera iniciá-las por questões económicas. Cerca de 20% contraíram créditos para este efeito, a maioria no último ano.
Sabemos também que contamos com cerca de 18% de pessoas em situação de risco de pobreza, sendo que entre a população idosa o número é maior, 22%.
Este cenário evidencia as dificuldades enormes que milhões de portugueses sentem no que respeita ao acesso a um direito, o direito a cuidados básicos de saúde. Esta situação é hoje reconhecida pela Ministra Ana Jorge.
Quando se pensa nesta situação e na dimensão social do estado exercida através das políticas sociais que muitos querem ver reduzidas, fica evidente como um Serviço Nacional de Saúde eficaz e verdadeiramente UNIVERSAL é imprescindível. Não vão fáceis os tempos para a preocupação com o outro, neste caso com a saúde do outro, Obama que o diga face às dificuldades que tem experimentado no alargamento do acesso à saúde algo de que milhões de americanos têm estado arredados.
Mas é também por questões desta natureza que se afere o grau de desenvolvimento das sociedades. Estou a falar de ética e valores e não, fundamentalmente, de PIB.

AS CONTAS ERRADAS

Um dia destes ouvia um gaiato do 1º ciclo a queixar-se que de vez em quando não acertava nas contas, a professora chateava-se e ele ficava aborrecido. Fiquei a pensar na preocupação do gaiato com as contas certas.
Pensando bem, as contas que envolvem os miúdos dão muitas vezes, demasiadas vezes, resultados errados. Algumas vezes basta ver, como se diz na escola, as contas armadas para perceber que não vão dar certas, o resultado vai ser completamente desastrado.
Curiosamente acho que nós adultos erramos mais as contas que os miúdos apesar de na nossa idade já podermos recorrer às calculadoras. Nem assim.
Não sei se esta propensão para falharmos as contas se deverá a um trabalho menos competente dos nossos professores mas creio que as razões serão outras. Creio até que quando estávamos na escola acertávamos mais do que em adultos.
Vejam como os analistas e economistas falharam redondamente nas contas com o resultado trágico que está à vista. Reparem como tanta gente se vê com as contas completamente furadas e com a vida do avesso. Também podemos lembrar a quantidade de erros que as lideranças políticas evidenciam nos seus cálculos porque cálculos fazem, e muitos.
O mais curioso disto tudo é que o gaiato parecia-me mais preocupado com o facto de errar nas contas que fazia na escola do que os adultos que também erram.
Provavelmente quando crescer deixa de se incomodar. Ou talvez não, espero.

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

"UM REI FRACO FAZ FRACA A FORTE GENTE", CAMÕES

O sistema educativo português na sua errática mudança avançou no âmbito da chamada autonomia. Hoje em dia, as escolas, os agrupamentos, podem decidir sobre um conjunto de matérias fundamentais ao bom andamento do seu trabalho e à qualidade do mesmo. Muito ainda muito está por fazer em matéria de autonomia e, portanto, importa avaliar o caminho percorrido e a melhor forma de prosseguir.
O nível de autonomia apesar de tudo conseguido e o actual modelo de gestão com a introdução, controversa face à tradição, da figura director veio acentuar o papel que a liderança desempenha. Não é nada de novo, em todos os domínios os estudos evidenciam o impacto que a qualidade das lideranças tem no desempenho qualitativo das instituições. No que respeita ao universo da educação sabe-se que lideranças de qualidade estão associadas a escolas com melhor clima de funcionamento, com menos absentismo docente e discente, com melhores resultados escolares e menos problemas de natureza disciplinar, com maiores níveis de cooperação entre profissionais, com melhor envolvimento com outras parceiros das comunidade, etc., só para citar alguns dos aspectos de maior relevância na vida das escolas e na qualidade da educação.
No entanto, existe sempre um mas, são conhecidas situações em que a definição e eleição para a função director de escola ou agrupamento foram permeáveis a outros critérios que não mérito e competência, o que também não se estranhando face ao cenário português, não deixa de inquietar.
Relembremos Camões que, sem estudos na área da liderança e gestão de recursos humanos, afirmava que um fraco rei faz fraca a forte gente.

É TALVEZ O MELHOR

No fim da semana que passou, a lida levou-me uma vez mais a Silves. Algum tempo e a vontade de pôr as pernas a mexer levaram-me a um passeio pela cidade, bonita, como sabem. No meio da deambulação passei por um restaurante que, para além da exposição de vários quadros com a indicação, aliás habitual, de pratos e preços, tinha um outro em posição de destaque apenas com uma frase, "É talvez o melhor bife", assim, sem mais, nem o preço.
Deixou-me a pensar, esta eventual prudência e cautela traduzidas no "talvez". Creio que muitíssimos restaurantes publicitarão que têm o melhor bife das redondezas mas porque haveria alguém de dizer a eventuais clientes que terá o que "talvez" seja o melhor.
Haverá certamente quem defenda que é necessária assertividade que promova a decisão. Por outro lado, acho bonita a ideia de alguém de apurado sentido ético e de humildade que embora entenda ter o melhor bife da cidade, acha que não lhe fica bem afirmá-lo e opta por um cuidadoso e discreto, "é talvez o melhor bife".
Estando mergulhados num mundo em que constantemente somos bombardeados até à exaustão com mensagens publicitárias agressivas e intrusivas, acho que merece registo a atitude de um "vendedor" que, quase pedindo desculpa, nos sugere a possibilidade de provarmos o que será, talvez, o melhor bife de Silves.
Na próxima ida lá estarei.

domingo, 24 de Janeiro de 2010

PARA SER É PRECISO TER, MESMO A DEVER

Um dos mais preocupantes sinais dos tempos é a quantidade de famílias em situação de sobreendividamento e o nível altíssimo da dívida face aos orçamentos familiares.
De acordo com a DECO, as famílias em dificuldade que a si recorrem evidenciam frequentemente uma taxa de esforço cerca dos 90%, ou seja, ao receberem 1000 €, 900 estão destinados ao pagamento de créditos. Como é óbvio, trata-se duma situação insustentável e mesmo com taxas de esforço mais baixas basta uma pequena perturbação ou algo de imprevisto para que se rompa o equilíbrio e as famílias entrem em incumprimento, com as previsíveis consequências. A DECO recomenda 40 % como a taxa de esforço aceitável e prudente.
Parece-me claro que este cenário não decorre, como muitas vezes ouvimos, da situação de crise económica que atravessamos. Radica, do meu ponto de vista, nos modelos económicos e sistema de valores que nos envolvem.
Como já tenho referido no Atenta Inquietude, instalou-se a ideia de que "és o que tens". Bem podemos afirmar que cada um de nós não olha assim para a vida mas na verdade é difícil resistir à pressão para o consumo e para a ostentação de alguns bens o estilos de vida que "atestem" como "somos" gente. Também é verdade que muitos dos mais pequenos, "vá lá saber-se porquê", já assim funcionam, querem "aqueles" ténis, porque "são os que todos os colegas têm". É certo que se ouvem discursos como o do Daniel, 12 anos, que na sexta feira em Silves me dizia que isto "é um bocado estúpido, porque dois meses depois querem comprar outros e os ténis ainda estão novos", mas o Daniel também tem as consolas, o telemóvel e os jogos que todos têm.
Por outro lado, as instituições financeiras que concedem crédito são bastante mais atentas aos seus próprios interesses que aos das pessoas que a elas recorrem. Assim, taxas e spreads são pouco "simpáticas" e a preocupação sobre o que as pessoas devem e o seu orçamento é, entendem, do "cliente" não da instituição.
Este tipo de problemas é apenas mais um indicador de como se torna necessário repensar valores e modelos de organização e desenvolvimento. Eu sei que não é fácil e pode parecer ingénuo, mas se não falarmos e não nos inquietarmos com isto, então é que nada mudará. Nunca.

sábado, 23 de Janeiro de 2010

IRRESPONSABILIDADE E DESPERDÍCIO

Ontem, a propósito do pedido do Presidente do Conselho de Prevenção da Corrupção, Guilherme d’ Oliveira Martins, para que os deputados fizessem leis claras e fáceis, entendi o pedido como ingénuo ou vindo de alguém que não conhece o país. Por coincidência, o Expresso divulga hoje o que custam ao país as leis mal feitas. Uma técnica da Presidência do Conselho de Ministros estima em 7,5 mil milhões de € embora um especialista da Universidade do Illinois entenda que o montante está subavaliado. Os problemas com a produção legislativa são de natureza diferenciada e uma das causas apontadas remete para o facto de parte substantiva dessa produção decorrer fora da Assembleia da República, no interior dos grandes escritórios de advogados que, posteriormente, são os principais beneficiados da má qualidade das leis que eles próprios produzem.
Continuo a entender que não existe manifestamente vontade política de combater este cenário. Para além das implicações económicas agora apreciadas, parecem-me bem mais importantes, mas não quantificáveis, as consequências na confiança dos cidadãos no sistema de justiça e nas instituições.
De facto, más leis são um mau serviço à cidadania e, para não variar, ninguém será responsabilizado por tanta incompetência e desperdício.

UM DIA


 (Foto de Mico)

Um dia … Um dia … Um dia, também vou saber ler. Vou mesmo. Mas quem me vai ensinar? A minha professora diz que eu não sou capaz. Mas eu sou, sou mesmo. Preciso que me ensinem.

sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

INGÉNUO OU EMIGRANTE

O presidente do Conselho de Prevenção da Corrupção, Guilherme d' Oliveira Martins, em declarações na Comissão Parlamentar para o combate à corrupção onde fez o balanço dos Planos de Gestão de Risco do Risco de Corrupção, reparem na organização, pediu aos deputados para que produzam "leis claras e fáceis". O Dr. d' Oliveira Martins ou é ingénuo ou não vive em Portugal.
Se assim não fosse, saberia que a produção legislativa em Portugal, certamente sem intenção, é produzida com alçapões e uma arquitectura complexa que exigem fortíssimas competências técnico-jurídicas para a sua interpretação que pode, aliás, sempre ser de natureza diferenciada. Muitas dessas leis são, é sabido, produzidas com o recurso aos grandes escritórios de advogados que, após a aprovação dessas leis, são contratados por diferentes partes para usarem e interpretarem os alçapões e a tal arquitectura complexa conforme os interesses que circunstancialmente estão a servir.
Acho bem, naturalmente, que o Presidente do Conselho de Prevenção da Corrupção peça aos deputados da Comissão Parlamentar para combate à corrupção que produzam leis claras e simples. O que eu não acho é que se queira, de facto, combater a corrupção, a grande corrupção, não a corrupção do "pilha-galinhas".

HISTÓRIA DO VENDEDOR

Era uma vez um homem chamado Vendedor, era o Vendedor mais bem sucedido naquela terra. Por onde quer que aparecesse, a qualquer dia ou hora e em qualquer lugar, mal o Vendedor surgia logo as gentes começavam a aparecer, como que adivinhando a sua presença, o Vendedor nem se fazia anunciar.
Ordeiramente as pessoas faziam uma fila, esperavam a sua vez e partiam sempre de ar satisfeito com a compra que tinham realizado. Era curioso que apareciam pessoas de todas as idades, de todas as profissões e de todas as condições, para todas as motivações e necessidades o Vendedor parecia encontrar algo de adequado.
O Vendedor não parecia ter problemas de abastecimento pois nunca deixou uma pessoa por atender.
Outra característica que este Vendedor parecia ter é que os seus produtos não eram muito caros, como se disse, havia para todas as bolsas.
De tal maneira o Vendedor começou a ser importante para a gente daquela terra, que não admitiam sequer que ele pudesse não aparecer para vender o seu produto.
Com o tempo tinham-se tornado praticamente dependentes das compras ao Vendedor que, naturalmente, ficava bem contente.
Assim sendo aquela terra e aquela gente, o Vendedor continuou a vender promessas por muitos e bons anos. As pessoas gostam de promessas, compram sempre.

quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

OS PROFESSORES, ESSA "MALANDRAGEM" INDISPENSÁVEL AOS NOSSOS FILHOS

Depois da aparente acalmia posterior ao acordo entre ME e representantes dos professores surge a discussão sobre os horários e o conteúdo do trabalho dos professores. Esta discussão suscita reacções no mínimo curiosas, basta atentar na maioria dos comentários on-line sobre estas matérias. Os conteúdos desses comentários oscilam entre a ignorância e a boçalidade, entre o insulto à inteligência e a desregulação dos valores. Neste contexto e correndo o risco de desencadear novos comentários, aqui fica um excerto de um texto que em tempos publiquei no Atenta Inquietude e que volto a considera oportuno.
Pensemos então na importância essencial e na responsabilidade que o trabalho dos professores assume na construção do futuro. Tudo passa pela escola e pela educação.
Pensemos no que é ser professor hoje, em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.
Pensemos em como os valores, padrões e estilos e vida das famílias se alteraram fazendo derivar para a escola, para os professores, parte do papel que compete à família.
Pensemos na forma como milhares de professores cumprem a sua carreira de poiso, em poiso, sem poiso e sem condições. E não nos esqueçamos também da imprescindível necessidade de que o seu trabalho seja avaliado.
Pensemos nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.
Pensemos em como os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma ignorante barbaridade qualquer, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.
Pensemos como é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Pensemos em como a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêm e os discursos que fazem.
Pensemos, finalmente, como ser professor deve ser uma das funções mais bonitas do mundo, ver e ajudar os miúdos a ser gente.

NA LINHA

Quando era miúdo o meu pai e os outros pais usavam muito a expressão “andar na linha”. Nós percebíamos, com maior ou menor dificuldade qual era a linha e de uma forma geral seguíamos essa linha. É certo que nem todos o fazíamos com o mesmo rigor e empenho, ainda bem digo eu agora que o meu pai já não me ouve. Muitas vezes era uma linha dura e difícil de seguir, outros tempos.
Hoje raramente se ouve a expressão, não sei se se trata de uma questão de passagem de moda do termo ou se de uma questão de linha. Inclino-me para a segunda hipótese, embora o termo também possa ser actualizado. Na verdade, creio que perdemos um pouco a noção de linha, de rumo. Existem muitos pais que revelam a maior das dificuldades em estabelecer uma linha, um rumo, e orientar os miúdos mediante essa linha, esse rumo. Sinto, aliás, que, com frequência, os próprios pais se sentem perdidos, também não têm uma linha, um rumo. Emergem discursos e comportamentos erráticos, estabelece-se uma latitude excessiva e desreguladora do que deve ou não deve ser feito e, em último recurso, uma birra bem feita, dá a volta a qualquer linha tenuemente estabelecida.
Os próprios miúdos, com alguma frequência, se sentem perdidos, por um lado, com tantas linhas que do lado de fora se oferecem e, por outro, com uma ausência de linha que organize, que defina caminhos, no fundo, que balize a estrada da sua vida.
A grande questão é que os miúdos precisam desesperadamente de uma linha, não a linha que no meu tempo nos era imposta, mas sim a uma linha consistente ainda que flexível, dialogada mas decidida, definida com clareza nos seus limites mas que entende os desacordos.
Como sou um optimista moderado, acho que nós e os miúdos somos capazes de descobrir a linha, as linhas.