sábado, 22 de Novembro de 2014

ASSIM UMA COISA DO "TIPO COISA". ENTENDEM?

Um dia destes, no meio de uma deambulação profissional entrei num café grande e produzido, por assim dizer. Estava de namoro com a bica e bati com os olhos em alguns cartazes que me deixaram a pensar. Um dizia, “temos pão do tipo Mafra”, um outro afirmava, “temos pão do tipo alentejano” e um outro ainda convidava, “prove os nossos bolos com massa do tipo bolo-rei”. Não reparei se haveria outros cartazes do tipo “estes que referi”, mas achei curioso.
Estes discursos parecem muito elucidativos de algumas particularidades do nosso funcionamento. De facto, parecemos ter uma especial apetência para nos não preocuparmos se as coisas são ou não são, podem apenas parecer, aproximar-se, ser quase iguais, etc., ou seja, não são coisas mesmo coisas, são coisas do tipo coisas, o que é notável.
Também acho particularmente apelativos os anúncios que nos informam sobre a venda de carros semi-novos o que me parece ser uma ideia interessante a explorar. Este conceito do carro semi-novo poderia transformar-se em qualquer coisa como, “vende-se um carro tipo novo”.
Mas esta capacidade de transformar algo, em qualquer coisa do tipo algo, faz mesmo escola. Se estivermos atentos notamos como ouvimos discursos assim “do tipo de discursos” e assistimos a comportamentos do “tipo comportamentos”.
Aliás, até acho que o Governo tem desenvolvido umas políticas, do “tipo políticas” e vai-nos transformando assim num país, “tipo País”.

(SOBRE)VIVÊNCIAS

"Mais de 52.500 crianças perderam o direito 

ao abono de família nos últimos dois meses"

Entre Agosto e Outubro de 2014 cerca de 52500 crianças perderam o acesso ao abono de família. Desde 2009 serão mais de 500 000 os casos de perda do abono de família.
Como é sabido o número de beneficiários de todas a prestações e apoios sociais têm vindo a diminuir substantivamente.
Dado que não se tem verificado qualquer subida significativa nos rendimentos familiares, antes pelo contrário, o abaixamento tão evidente do número global de pessoas a beneficiar de apoios sociais não decorre da melhoria das condições de vida das famílias mas, obviamente, dos cortes no universo dos apoios sociais.
Este cenário impressionante, que pode agravar-se com a sempre anunciada reforma do Estado, isto é, cortes nas suas funções sociais, coloca uma terrível e angustiante questão. Os milhares, muitos, de pessoas envolvidas vão (sobre)viver de quê?

PÉS DE BARRO ENTERRADOS NO LODO

"José Sócrates passou a noite nos calabouços da PSP e será ouvido hoje"

O pântano pariu mais um episódio. José Sócrates está detido acusado de vários crimes corrupção, branqueamento de capitais, falsificação e evasão fiscal.
Dir-se-á que é a justiça a funcionar, A Ministra da Justiça virá dizer que finalmente a justiça é cega, não distingue os mais ricos dos mais pobres, mas tudo isto é mais do que um caso de polícia. 
Não sei o que vai acontecer, como tudo irá acabar e importa não esquecer a presunção de inocência. 
Sei que a sucessão de episódios que a que vamos assistindo, que envolve gente no topo da economia, da liderança política e da administração do estado, transforma a nossa sociedade num pântano e num lugar mal frequentado. 
Esta é a pantanosa pátria nossa amada. 

sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

TODOS BATEM NOS PROFESSORES (enésimo episódio)

"Segurança reforçada em escola de Braga após agressão a professora"

As notícias sobre agressões a professores, designadamente cometidas por encarregados de educação, vão chegando com alguma frequência à comunicação social. Hoje em Braga, numa escola básica.
De novo, algumas notas. Esta questão, embora sempre objecto de rápidos discursos de natureza populista e securitária, parece-me complexa e de análise pouco compatível com um espaço desta natureza. No entanto, uma breve reflexão em torno de três eixos: a imagem social dos professores, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade, que me parecem fortemente ligados a este fenómeno.
Já aqui tenho referido que os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso de responsáveis da tutela que evidentemente, têm responsabilidades acrescidas e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para alterações significativas da imagem social dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, sobretudo, alunos e pais. 
Esta fragilização tem, do meu ponto de vista, graves e óbvias consequências, na relação dos professores com alunos e pais pelo impacto na percepção social de autoridade.
Em segundo lugar, tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os professores, entre outras profissões, polícias ou médicos, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição de professores, como fontes de autoridade. Tal processo alterou-se, o facto de se ser professor, já não confere “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de desrespeito ou de agressão. O mesmo se passa, como referi, com outras profissões em que também, por razões deste tipo, aumentam as agressões a profissionais.
Finalmente, importa considerar, creio, o sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a grandes, o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”.
Considerando este quadro, creio que, independente de dispositivos de formação e apoio, com impacto quer preventivo quer na actuação em caso de conflito, obviamente úteis, o caminho essencial é a revalorização da função docente tarefa que exige o envolvimento de toda a comunidade e a retirada da educação da agenda da partidocracia para a recolocar como prioridade na agenda política.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.
É ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de punição e responsabilização séria dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.

30 000 PROFESSORES A MENOS

É também reconhecido que a variação da demografia escolar, o número de alunos, não explica este êxodo significativo de professores. Esta saída acontece mais por consequência da PEC - Política Educativa em Curso que da alteração do número de alunos.
Como já tenho referido, parece-me claro que a questão do número de professores necessário ao funcionamento do sistema é uma matéria bastante complexa que, por isso mesmo, exige serenidade, seriedade, rigor e competência na sua análise e gestão, tudo o que tem faltado nesta matéria, incluindo a alguns discursos de representantes dos professores.
Para além da questão da demografia escolar que, aliás, o MEC sempre tratou de forma incompetente e demagógica, importa não esquecer que existem muitos professores deslocados de funções docentes, boa parte em funções técnicas e administrativas que em muitos casos seriam dispensáveis pois fazem parte de estruturas do Ministério pesadas, burocráticas e ineficazes.
Por outro lado, os modelos de organização e funcionamento das escolas, com uma série infindável de estruturas intermédias e com um excesso insuportável de burocratização, retiram muitas horas docentes ao trabalho dos professores que estão nas escolas.
No entanto e do meu ponto de vista, o “excesso” de professores no sistema deve ser também analisado à luz das medidas da PEC – Política Educativa em Curso. Vejamos alguns exemplos.
Em primeiro lugar, a mudança no número de professores necessário decorre do aumento do número de alunos por turma que, conjugado com a constituição de mega-agrupamentos e agrupamentos leva que em muitas escolas as turmas funcionem com o número máximo de alunos permitido e, evidentemente, com as implicações negativas que daí decorrem.
As mudanças curriculares com a eliminação das áreas não curriculares que, carecendo de alterações registe-se, também produzem um desejado e significativo “corte” no número de professores, a que acrescem outras alterações no mesmo sentido.
O Ministro “esquece-se” obviamente destes “pormenores”, apenas se refere à demografia e aos recursos disponíveis para, afirma, definir as necessidades do sistema.
Este conjunto de medidas, além de outras como o que se desenha em torno da chamada “municipalização da educação”, sairão, gostava de me enganar, muito mais caras do que aquilo que o MEC poupará na diminuição do número de docentes, que ficaram e ficarão no desemprego, muitos deles tendo servido o sistema durante anos.
Ficarão sem trabalhar, não porque sejam incompetentes, a maioria não o é, não porque não sejam necessários, a maioria é, mas “apenas” porque é preciso cortar, custe o que custar.
Conhecendo os territórios educativos do nosso país, julgo que faria sentido que os recursos que já estão no sistema, pelo menos esses e incluindo os contratados com muitos anos de experiência, fossem aproveitados em trabalho de parceria pedagógica, que se permitisse a existência em escolas mais problemáticas de menos alunos por turma ou ainda que se utilizassem em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades.
Os estudos e as boas práticas mostram que a presença de dois professores na sala de aula são um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos.
Sendo justamente estes os dois problemas que mais afectam os nossos alunos, talvez o investimento resultante da presença de dois docentes ou de mais apoios aos alunos, compense os custos posteriores com o insucesso, as medidas remediativas ou, no fim da linha, a exclusão, com todas as consequências conhecidas.
É só fazer contas. E nisso o Ministro Nuno Crato é especialista.

DECLARAÇÃO DE SALAMANCA: 20 ANOS DEPOIS

Num dia lindíssimo após tantos dias de chuva, estou no Funchal para participar no Congresso do Sindicato dos Professores da Madeira. O convite gentil envolve abordar “A Declaração de Salamanca: 20 anos depois”.
A Declaração emanada na reunião de Salamanca, em 1994, depois da Conferência de Jomtiem em 1990 sob o lema "Educação para Todos", lançou os fundamentos e os compromissos políticos para a promoção da Educação Inclusiva.
A educação inclusiva não decorre de uma moda ou opção científica, é matéria de direitos pelo que deve ser assumida através das políticas e discutida na sua forma de operacionalizar. Aliás, poderá afirmar-se, citando Biesta, que a história da inclusão é a história da democracia, a história dos movimentos que lutaram pela participação plena de todas as pessoas na vida das comunidades, incluindo, evidentemente a educação.
Nesta perpectiva, os tempos que vivemos são tempos de exclusão, de competição, de desregulação ética e de oscilação de valores que atingem, evidentemente, os mais frágeis, caso das crianças e jovens com necessidades educativas especiais e as suas famílias. As políticas educativas em curso são particularmente inquietantes deste ponto de vista.
Vejo mais razões para recordar os princípios da Declaração de Salamanca do que para comemorar a Declaração de Salamanca.
Vamos ver o que acham os colegas professores da Madeira.

quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

QUEM PARTE E REPARTE E NÃO FICA COM A MELHOR PARTE ...

"PSD e PS aprovam juntos o fim da suspensão das subvenções vitalícias a políticos"

O Presidente da República pode mandar produzir fumo branco para sair pela chaminé do Palácio de Belém, “habemus consenso”.
Depois de tantas homilias presidenciais, de tantos avanços, recuos e hesitações foi finalmente possível estabelecer um consenso entre PS e PSD.
Por proposta de dois pesos pesados da tralha parlamentar, Couto dos Santos e José Lello, foi aprovado pelos dois partidos o fim da suspensão das subvenções vitalícias a ex-políticos, que vão voltar a ser pagas mas, fica sempre bem, serão sujeitas a uma contribuição extraordinária de 15% sobre o montante que exceda os 2000 euros. O CDS-PP absteve-se e PCP e BE votaram contra.
Depois da contribuição de Francisco Assis a defender a aliança PS/PSD aqui está um exemplo que nos deixa mais tranquilos. Quando os verdadeiros problemas dos portugueses estão em jogo, os grandes partidos são capazes de ultrapassar divergências e encontrar consensos.
Como diz o povo “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte”.
Na verdade esta gente de tolo tem nada, mas são uns verdadeiros artistas.

O VISIONÁRIO CARLOS MOEDAS

"... O Horizonte 2020 atrai cérebros para a Europa e eu (Carlos Moedas) estou aqui como comissário europeu, portanto o meu ponto é que os cérebros europeus estejam na Europa. Temos de pensar em termos de Europa.”

Carlos Moedas, o comissário europeu da Investigação, Ciência e Inovação, em afirmações de hoje em Lisboa desvaloriza a partida de milhares de jovens investigadores portugueses pois continuam na Europa, é, portanto, irrelevante o risco de esvaziamento de instituições e centros de investigação portugueses ou a impossibilidade construir em Portugal projectos pessoais de vida sólidos e positivos com o empobrecimento e gasto de recursos que esta situação também implica.
Temos que pensar em grande, a nossa terra é a Europa, que coisa provinciana e mesquinha pensar que é importante que os mais qualificados consigam ficar em Portugal a trabalhar em estruturas portuguesas ainda que, desejavelmente, numa rede com outros países. Obrigado pela visão Comissário Moedas.
Portugal não conta. Nós somos Europa.
Na verdade, temos vindo a dar conta disso mesmo. Por lá, quem manda, até acha que temos licenciados a mais.

A EDUCAÇÃO? QUE SE MUNICIPALIZE.

“Municipalização das escolas” deverá avançar já em Janeiro

Ao que parece a opaca discussão que envolve municípios e MEC dará origem a que em Janeiro avance a tal de "municipalização da educação" em muitas autarquias.
Não atentei nos avisos mas acho que se pode dizer que a educação deverá entrar em alerta, pelo menos, laranja.
Os conteúdos que vão sendo conhecidos desta opaca discussão levantam sérias inquietações.
Embora alguns autarcas a contestem, parece manter-se a ideia de "premiar" os municípios que consigam prescindir de professores considerados necessários até ao limite de 5%, pois alguns professores farão mesmo falta para entreter a criançada. Esta medida assenta em "factores de eficiência" uma pérola do "neoliberalês" que vai substituindo o "eduquês".
Ainda não consegui saber se na mesma linha, eficiência, estarão também previstos prémios por cada funcionário necessário mas eliminado, por cada escola necessária mas fechada, por cada apoio educativo necessário mas eliminado, etc., etc.
Continuo a pensar que este movimento deveria ser decidido e analisado com prudência e retomo algumas notas.
 Em primeiro lugar seria desejável, mas confesso que não espero que tal aconteça, que se analisasse com atenção os resultados de experiências de municipalização realizadas noutros países nos termos em que Nuno Crato se vai referindo a este movimento, e cujos resultados estão longe de ser convincentes.
Por outro lado, o que se vai passando no sistema educativo português no que respeita ao envolvimento das autarquias nas escolas e agrupamentos, designadamente em matérias como as direcções escolares, nos Conselhos gerais e na colocação de funcionários e docentes (nas AECs, por exemplo) mostra variadíssimos exemplos de caciquismo, tentativas de controlo político, amiguismo face a interesses locais, etc. O controlo das escolas é uma enorme tentação. Podemos ainda recordar as práticas de muitas autarquias na contratação de pessoal, valorizando as fidelidades ajustadas e a gestão dos interesses do poder.
Assim sendo, talvez seja mesmo recomendável alguma prudência.
Ainda nesta matéria e dados os recursos económicos disponíveis, poderemos correr o risco de se aumentar o "outsourcing" e a promoção de PPPs que já existem nas escolas, muitas vezes com resultados pouco positivos, caso de apoios educativos  e do recurso a empresas de prestação de serviços, (de novo o exemplo das AECs).
Finalmente, uma referência a um equívoco habitual entre autonomia das escolas e municipalização. O imprescindível reforço da autonomia das escolas e agrupamentos não depende da municipalização como muitas vezes se pretende fazer crer.
Confundir autonomia com municipalização é criar um equívoco perigoso que frequentemente não passa de uma cortina de fumo para mascarar os caminhos dos negócios da educação.

OS DIREITOS DA CRIANÇA, A AGENDA POR CUMPRIR

No calendário das consciências está hoje registado que em 20 de Novembro de 1959 a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração dos Direitos da Criança. É verdade que nestes 55 anos, pensando sobretudo na realidade portuguesa, muito evoluímos também no que respeita  ao universo dos mais novos. No entanto, os Direitos da Criança continuam uma agenda por cumprir para muitos milhares por variadíssimas razões.
Os ventos malinos que sopram e o enorme conjunto de dificuldades que atravessamos, ancorados num quadro de valores que tende a proteger mercados e interesses outros que conflituam com os interesses e bem-estar da maioria das pessoas vão criando exclusão, pobreza e negação de direitos. Aliás, é cada vez mais frequente a afirmação de que os direitos devem ser entendidos como sendo de geometria variável, ou seja, dependem da conjuntura económica pelo que os que menos têm também terão os seus direitos diminuídos.
Neste cenário, conforme os estudos e a experiência mostram, os mais novos constituem um grupo especialmente vulnerável.
Nesta vulnerabilidade existem três áreas em que me parece que os direitos estão particularmente ameaçados, as crianças e adolescentes em risco de maus tratos, abusos e negligência, a pobreza infantil e o direito à equidade nas oportunidades de acesso à educação de qualidade.
De uma forma geral, os discursos e a retórica política sempre acentuam a importância destas matérias mas é preciso ir um pouco mais longe. Por exemplo, dotar as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens dos meios suficientes e qualificados para a detecção e acompanhamento eficaz dos casos de risco, ou caminhar no sentido de diminuir o número de crianças institucionalizadas e sem projecto de vida.
No que respeita aos risco de pobreza, as crianças são como que o elo mais fraco de uma sociedade com um fosso demasiado grande entre os mais ricos e os mais pobres, cerca de dois milhões em risco. As políticas sociais não podem deixar de entender como prioritário, sobretudo nos tempos que atravessamos, os apoios sérios e fiscalizados aos problemas das famílias que envolvem, necessariamente, os mais novos. É o seu futuro que está em causa.
No que respeita à educação, a equidade e a tentativa de que todos atinjam o patamar possível de sucesso educativo e qualificação é o grande desafio. Os discursos políticos nunca esquecem o grande desígnio da educação ou a paixão pela educação. Precisamos de caminhar de forma séria e não tentados pela sedução do sucesso estatístico, para a qualidade dos processo educativos que se traduz nos níveis de qualificação das pessoas (não da simples certificação), na diminuição das taxas de abandono e insucesso, enfim, na construção de projectos de vida viáveis e bem sucedidos. Muitas crianças e adolescentes com necessidades especiais vêem atropelados os seus direitos a dimensões básicas da qualidade de vida, a educação, por exemplo.
Continuamos com uma agenda por cumprir em matéria de bem-estar dos mais novos.

quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

HÁ ESCOLHAS QUE DÃO CERTO, OUTRAS ... NÃO

"Programa Escolhas considerado "uma das mais eficientes políticas públicas""

Uma notícia positiva é um bem de primeira necessidade nos tempos que correm.
O Observatório Internacional de Justiça Juvenil atribuiu ao Programa Escolhas, em operação desde 2001, o prémio bienal Justiça Juvenil sem Fronteiras, considerando-o, “uma das mais eficientes e efectivas políticas públicas de promoção da inclusão social de crianças e jovens em risco”.
O Programa Escolhas partindo do objectivo inicial de intervir na prevenção da delinquência juvenil tem vindo a globalizar a sua acção, incluindo a dimensão educativa escolar, social e vocacional. Com dezenas de milhares de crianças, adolescentes e jovens envolvidos ao longo destes anos os resultados são encorajadores e o prémio é um reconhecimento disso mesmo.
Há escolhas que dão certo, pode afirmar-se.
Também é verdade que há escolhas que correm sério risco de dar errado.
O desinvestimento em educação, a redução brutal em apoios sócio educativos que combatam a exclusão, a redução de docentes e técnicos que promovam a qualidade e o sucesso dos trajectos educativos, são escolhas que têm todas as condições para não dar certo.
Seria desejável que o reconhecimento que o Programa Escolhas recebeu pudesse ser um contributo para que Nuno Crato e o Governo reconsiderassem as suas escolhas.
Não podendo deixar de dizer isto, também não posso deixar de dizer que não acredito nessa mudança.
Os objectivos e a visão que informam o Programa Escolhas não coincidem com os objectivos e visão que informam Nuno Crato.
É uma questão de escolhas, como sempre.

O FACILITISMO DO ENSINO SUPERIOR "LOW COST", A "MEIA LICENCIATURA"

A coberto das bolonhesas ideias que já tinham permitido uma espécie de "meio mestrado" surgiu a formulação da "meia licenciatura" que não sendo um grau académico, pudera, é um curso superior que compõe estatísticas, uma tentação de sempre de quem habita o poder e, de caminho, disponibiliza-se um balão de oxigénio ao ensino politécnico, cuja procura baixou significativamente.
Assim, jovens com o secundário incompleto, podem vir a completá-lo simultaneamente à frequência da "meia licenciatura" acedem, sem exame de candidatura, a um curso superior, é sempre social e politicamente relevante, ajudam a completar as metas europeias para os níveis de qualificação e satisfazem por encomenda das empresas as suas necessidades de mão-de-obra qualificada pois, afirmava na altura do lançamento o Secretário de Estado do Ensino Superior, "o número de alunos a admitir vai depender das carências identificadas por cada região em parceria com as empresas da zona, “que terão o papel crucial de dizerem as necessidades de formação e de acolherem os jovens a fazer estágio”., afirma o Secretário de Estado do Ensino Superior.  
O último semestre da formação será a realização de um estágio nas empresas que, certamente, encomendaram a formação dos "meio licenciados".
No entanto, contra a expectativa do MEC, numa primeira fase o Conselho Coordenador dos Institutos Politécnicos teve a sensatez de exprimir sérias reservas face do modelo proposto de formação superior "low cost", em dois anos, a "meia licenciatura" como o Secretário de Estado a designou, o MEC insistiu, deu um passo em frente e acenou com 140 milhões em sete anos avançou com 20 milhões. As reservas dos Politécnicos atenuaram-se, naturalmente, e apesar dos atrasos significativos na aprovação dos Cursos Técnicos Superiores Profissionais, as primeiras edições estão a iniciar-se ou em fase de candidatura.
Como alguns especialistas em ensino superior e na altura o próprio Conselho Coordenado têm vindo a afirmar, a "meia licenciatura" não é muito diferente dos Cursos de Especialização Tecnológica já existentes. Tem, no entanto, uma vantagem muito importante, conta para a estatística da formação superior e permite tentar atingir a meta definida pela Comissão Europeia. Curiosa medida, obviamente “facilitista”, vinda do MEC gerido pelo arauto e farol do combate ao facilitismo de anos anteriores, Nuno Crato. Se bem repararmos fica bem mais barato financiar cursos de dois anos do que cursos de três e o efeito estatístico é o mesmo. As contas foram bem feitas.
Para além de não acrescentar nada de significativo aos CETs, ainda me parece que se pode estabelecer um conflito potencial com a oferta de licenciaturas já existentes nos politécnicos, adquiridas em três anos,  uma vez que o MEC afirma que depois da "meia licenciatura" o aluno pode ingressar numa licenciatura através de uma "prova local" da responsabilidade de cada instituto. Tal situação no actual quadro de abaixamento demográfico e de sobredimensionamento da rede vai, evidentemente, significar ... mais facilitismo.
Acresce que o mesmo MEC que tem vindo a proceder a um claro desinvestimento no Ensino Superior, politécnico e universitário, consegue encontrar verbas, europeias, claro, disponíveis para financiar estas "Novas Oportunidades" em modo ensino politécnico. Dá-se sempre um jeito.
Na verdade, é justo que se reconheça, lata e manhosice criativa são dois atributos em que o MEC é de uma competência notável.

OS TEMPOS DA ABSURDIDADE E DO SEU AGENTE, O INCARACTERÍSTICO

O estimulante artigo que hoje se lê no Público da autoria do Professor Reis Torgal, "O Reino da Estupidez" levou-me a recordar uma obra, lamentavelmente pouco divulgada, do Professor António Bracinha Vieira, um homem enorme, um mestre que me marcou e com quem ainda há poucos dias me cruzei e ouvi demonstrando a sabedoria e lucidez de sempre.
O livro, "Ensaio sobre o termo da história - trezentos e sessenta e cinco aforismos contra o Incaracterístico" é um notável ensaio sobre o que Bracinha Vieira chama de tempo da Absurdidade em que predomina o Incaracterístico e organiza-se em 365 parágrafos antológicos, os "aforismos", que combatem esse personagem dominante, o Incaracterístico. A primeira edição do livro é de 1994, foi objecto de alguma discussão num círculo diminuto e é evidente em muitos dos aforismos uma espéce de premonição do que agora vivemos
Partilho convosco os aforismos 15 e 18.
"Instalou-se no jargon cripto-anglófono do Incaracterístico uma inversão radical do sentido das palavras liberal, liberalismo (ainda presas a um étimo comum com liberdade) insinuando sob o totalitarismo da Absurdidade uma negaça de democracia. Decidido a desnaturar conceitos prestigiosos dos quais nem sequer consegue discernir o alcance, o Incaracterístico investe esses termos de um significado oposto ao que lhes cabia."
"A democracia da Absurdidade exerce-se num cenário oposto ao da cidade-estado: o Incaracterístico elege o Incaracterístico, e todas as alternativas em jogo a ele conduzem. Os sujeitos cujos nomes são designados logo surgem nos ecrãs-circo da Grande Absurdidade, preenchendo hiatos entre a publicidade mercantil, sem se aperceberem que são mercadoria de outras espécies. Dali debitam os seus sirénicos e sorumbáticos cantos. e a escolha entre eles é o fiel da liberdade do Incaracterístico".
A pensar.

terça-feira, 18 de Novembro de 2014

A HISTÓRIA DO ANTIGAMENTE

Era uma vez um homem chamado Antigamente. O seu discurso sobre qualquer questão acabava invariavelmente por concluir que noutros tempos era diferente, sempre para melhor.
Se olhava para os miúdos, rapidamente aparecia algo como “dantes é que os jovens se comportavam como deve ser”. Falava-se de escola ou de educação e ele considerava que no passado é que as coisas funcionavam bem.
Assistia aos noticiários televisivos e os comentários sucediam-se, sempre expressando a recorrente ideia de que dantes tudo se passava de forma bem mais positiva. O Antigamente afirmava que já não existem políticos como os de outrora e a música do passado é que, de facto, era música, o que não acontece com essas coisas sem jeito que agora se ouvem.
A sua grande preocupação estava virada sobretudo para ideias, comportamentos e costumes. Nesta matéria é que o Antigamente se convencia, e queria convencer os outros, de que no passado é que as pessoas agiam como devem, falavam de forma correcta, vestiam de forma decente e com bom gosto e, enfim, não se viam, como ele dizia, as desgraças que agora não paramos de ver.
O Antigamente tinha a maior das dificuldades em entender muito do que hoje acontecia, como tantas coisas são permitidas e concluía que o mundo não iria por bom caminho se não voltasse aos velhos tempos.
Na última vez que me falaram do Antigamente, disseram-me que andava extremamente preocupado com esta questão, que naturalmente não havia dantes, do aquecimento global. O Antigamente tem medo que o aumento da temperatura o possa descongelar. Não será capaz de viver no presente.

AS AULAS AINDA NÃO CHEGARAM. Calma, ainda falta um mês para terminar o período

"A um mês do fim do primeiro período ainda 

há alunos sem aulas de compensação"


Com chamada a primeira página o DN noticia que algumas escolas ainda não viram aceites e decididos pelo MEC os planos que propuseram para compensar o catastrófico processo de colocação de professores que originou a inexistência de aulas durante quase dois meses para milhares de alunos.
Estamos a um mês do fim das aulas do primeiro período.
É evidente que o MEC estará preocupado com a organização de mais uma edição da sinistra PACC pelo que não terá tido tempo e meios para viabilizar as propostas das escolas. As iniciativas das escolas dificilmente resolverão o problema criado pela incompetência do MEC, apenas procuram minimizá-lo e a sua operacionalização deveria ser uma urgência. No entanto, o MEC terá a sua gestão de prioridades, evidentemente.
Este processo centralizado, burocratizado. moroso e ineficiente de análise e decisão sobre o que cada escola ou agrupamento se propõe realizar para compensar os alunos pela falta das aulas é mais mais um excelente exemplo de rigor, competência e autonomia.
Aliás, é de recordar que as escolas afectadas por este enorme problema, para além das que integram TEIPs, são justamente as que têm contratos de autonomia. Autonomia? Em modo Crato, obviamente.

segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

A SINISTRA PACC ESTÁ DE VOLTA

"Professores contratados voltam a responder à prova de avaliação e podem ter que ir fazê-la às universidades"

Ao que parece está de volta a sinistra Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades para o acesso à carreira de professores que, coisa estranha, até já são professores, muitos dos quais submetidos a avaliação de desempenho ao longo do tempo que leccionam. Anda aí essa assombração.
Ao que parece também, o MEC estará a pensar colocar a cereja em cima do bolo deste processo delirante. As instituições de ensino superior das quais Nuno Crato desconfia, afirmou-o publicamente embora viesse posteriormente afirmar que se tratou do "aproveitamento despropositado de um conjecturável ambiguidade", serão o local de realização da sinistra PACC.
Como provocação é bem pensado. Estou, no entanto, curioso com a reacção dos estabecimentos de ensino superior a confirmar-se a intenção do MEC. Aliás, esta ideia até pode ser uma cortina de fumo para atraira a atenção para o acessório, o local, e passar mais tranquilamente o essencial, a realização deste tipo de prova.
Como comportamento já não surpreende.

FILMES HARDCORE

"Governador do Banco de Portugal lamenta falta de poder para afastar Ricardo Salgado mais cedo"

"Saída de Miguel Macedo força Passos a remodelar o Governo"

AVISO
Num qualquer ecrã perto de si estão em exibição, que se antecipa prolongada, dois filmes, "A Queda do Espírio Santo" e  "Só Vistos", cuja visão não se recomenda a cidadãos com elevada sensibilidade ética.
O consumo excessivo destes produtos pode provocar habituação e dessensibilização cívica.



A MAÇÃ É BOA, TEM BICHO

No âmbito de uma peça sobre empreendedorismo social o Público retoma a referência a uma iniciativa que me parece verdadeiramente interessante. O aproveitamento de fruta e legumes que não entram no mercado de distribuição por não terem uma apresentação perfeita, são "feios".
Num tempo em que burocracia, europeia e portuguesas, e os mercados normalizam tudo o que podem e em que, como nunca "os olhos também comem", uma quantidade brutal de produtos  não correspondem a normas de aspecto e calibragem mas mantêm a intacta a qualidade.
Algumas notas sublinhando desde logo que é positiva  e um bom sinal a adesão que este aproveitamento está a merecer por parte de muitos consumidores, para além do benefício para os produtores.
A Organização para a Alimentação e a Agricultura, da ONU, estima que 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos, um terço do que é produzido, são desperdiçadas com um custo de anual de 570 mil milhões de euros para a economia global, permitiriam alimentar 925 milhões de pessoas que passam fome todos os dias. Vivemos num mundo estranho.
Recordo que no Ciclo de Conferências realizado pela Gulbenkian em 2013, foi apresentado um trabalho “Do Campo ao Garfo – Desperdício Alimentar em Portugal" que avaliava em um milhão de toneladas o desperdício de alimentos entre a produção e o consumo, o que parece verdadeiramente significativo num tempo de pobreza e dificuldades, nacionais e internacionais.
Creio que muitas vezes achamos que desperdício é coisa de gente rica, os pobres não desperdiçam o que, obviamente, não corresponde à realidade como os estudos evidenciam. O desperdício é um subproduto dos modelos de desenvolvimento e dos sistemas de valores que deveria merecer uma fortíssima atenção estabelecendo como objectivo reduzir em 50% o desperdício até 2025. Na verdade, de acordo com esse relatório a União Europeia que tem 79 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, 15,8% da população, e desperdiça anualmente cerca de metade do que consome em alimentos. Este desperdício corresponde a 89 mil milhões de toneladas, um assombro.
Voltando aos produtos com mau aspecto, um trabalho há tempos divulgado avaliava em 30% os produtos que reunirão a qualidade exigida mas que os consumidores devido ao seu aspecto não adquirem pelo que a distribuição também não os compra aos produtores.
Na verdade, seja pelas estapúrdias exigências, entretanto aligeiradas, das normas europeias, seja pela "esquisitice" dos consumidores, muita fruta e hortícolas de boa qualidade são desaproveitados e criminosamente desperdiçados.
A este propósito, lembrei-me de uma história passada no Meu Alentejo em que um dos companheiros que estava nas lérias afirmava que só comia fruta que tinha bicho, "é a que presta".
Perante a nossa estranheza explicou, "essa fruta que se vê aí grande e a brilhar e sem bicho não presta, Então nem o bicho lhe pega e vou eu comê-la? Isso é que era bom, se a fruta não é boa para o bicho, é boa para mim?"
Sendo certo que os olhos também comem, o embrulho nem sempre corresponde ao conteúdo.

domingo, 16 de Novembro de 2014

NEGÓCIOS ESTRANGEIROS

"Estado vende o pouco que resta sem ganhar dinheiro"

O processo de privatizações que tem vindo a ser seguido, com a alienação de algumas das chamadas "jóias da coroa" e o que desse processo tem resultado e irá resultar, recorda-me sempre uma afirmação muito interessante de Nuno Brederode dos Santos numa crónica antiga no Expresso, “Os Negócios Estrangeiros em Portugal raramente são bons negócios mas quando o são, então são, de facto, estrangeiros”.
Será destino?

ESTA É A PANTANOSA PÁTRIA, NOSSA AMADA

"Ministro da Administração Interna demite-se "para defender o Governo""

Os chamados vistos "gold" são, do meu ponto de vista uma aberração ética. A compra da cidadania em troca de uma casa no valor de meio milhão de euros é algo de inaceitável. 
Eu sei que o dinheiro não tem alma, ética ou moral pelo que num tempo em que tudo se vende e tudo se compra, porque não vender o direito de cidadania e ao mesmo tempo empurrar para fora cidadãos portugueses, sem dinheiro para ser, isso mesmo, cidadãos portugueses de direitos e com um projecto de vida.
Eu sei que outros países aceitam este tipo de processos, como também sei que outros países têm leis e princípios que de há muito abandonámos, a pena de morte ou a discriminação legal das mulheres, por exemplo. 
Algo que nasce torto, tarde ou nunca se endireita, diz o povo. Um dinheiro de que não se controla a origem também não se controla a circulação e, como sabem, a carne é fraca. Ao circular vai comprando o seu percurso, serve a todos, incluindo os que vão tomando decisões que quanto mais simpáticas forem mais um "miminho" recebem. Mas aqui é dinheiro grosso, nem vale pena tentar falar de robalos.
Neste lamaçal pantanoso em que vivemos, a agitação provocada pela descoberta do esquema de corrupção que a ninguém surpreende, evidentemente, soltou uns salpicos que atingiram  o Ministro Miguel Macedo levando-o a pedir demissão.
Claro que se ouvirão, a liturgia política obriga, elogios à dignidade do gesto e à inocência de Miguel Macedo.
Nada diz que Miguel Macedo tenha algum envolvimento directo no esquema de corrupção em investigação, mas a responsabilidade política é diferente de responsabilidade criminal e o entendimento dessa responsabilidade é, em primeiro lugar pessoal e, em segundo lugar, do Primeiro-ministro. Nesse sentido, também me parece que Miguel Macedo assumiu a responsabilidade política da forma que deve ser assumida. Ponto.
Não fora o pântano em que vivemos e a falta de solidez ética que por aí anda e outros Ministros já teriam tido o mesmo gesto há muito tempo.
Será que Passos Coelho aproveita a necessidade de substituir o Ministro da Administração Interna para tentar arejar o pântano?

NA TERRA DOS ALPINISTAS

O estado da meritocracia em Portugal

O Público de hoje traz um trabalho interessante procurando responder a questões como “Portugal é uma meritocracia ou a república da “cunha”, do nepotismo e do amiguismo? Consegue o emprego ou a promoção quem é melhor ou quem tem amigos? Nas empresas, na administração pública, no ensino, nas instituições ou nos partidos, são os mais competentes, talentosos e trabalhadores que têm êxito? Ou esses são afastados?
Deixem-me recordar um realizado na Universidade de Aveiro, divulgado em Fevereiro, que investigou as nomeações, cerca de 11 000 em 15 anos, dos governos de diferentes cores partidárias para a hierarquia da administração pública e concluiu, de forma completamente inesperada, que o critério predominante é o cartão partidário, com o objectivo de controlar as políticas públicas e pagar ou antecipar o pagamento de favores, serviços e fidelidades.
A questão é que nas últimas décadas, temos vindo a assistir à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos uma partidocracia instalada o que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do estado. Esta teia associa-se à intervenção privada sobretudo nos domínios, e são muitos, em que existem interesses em ligação com o estado, a banca e as obras públicas são apenas exemplos. Aliás, os últimos tempos têm sido particularmente estimulantes nesta matéria e já não forneçam dados para o estudo.
Este cenário é desde cedo preparado e alimentado através de uma das formas mais eficazes de progressão social e profissional existente em Portugal, a pertença a uma juventude partidária, sobretudo, naturalmente, nos partidos do chamado arco do poder, Passos Coelho é apenas um exemplo. Há algum tempo, também o Público fez um levantamento da rapaziada mais novinha, sem currículo relevante, académico ou profissional que enxameia gabinetes ministeriais e os números são curiosos. Como característica comum têm a pertença à "sua" jota onde desempenharam cargos que os catapultam para assessores ou deputados e são o início de uma bela e promissora carreira, numa despudorada utilização da administração pública, central, local e empresarial para a distribuição de alguns jobs para os promissores boys e girls. A sociedade portuguesa está cheia de exemplos deste tipo de percursos nas suas diferentes fases.
Um deles é a história do meu amigo Alpinista. Nasceu numa terra pequena onde muita gente gostava de praticar a subida, na vida, é claro. Uns conseguiam subir alguma coisa, outros nem tanto, mas tinham pena.
O Alpinista, foi um rapaz discreto sem de início revelar algumas especiais capacidades ou dotes que o habilitassem ao sucesso, subir na vida. No entanto, tinha alguma capacidade discursiva, era perspicaz e assertivo, conseguia perceber sem grande dificuldade o caminho a seguir e fazia-o de forma convicta.
Durante a adolescência e olhando para o que se passava naquela terra, tudo o que era lugares importantes eram ocupados de acordo com o aparelho partidário do partido que ocupasse o poder naquela altura e verificando que outros lugares exigiriam um mérito a que ele não acederia rapidamente, decidiu-se pela via partidária. Analisou a oferta e optou pelo partido que lhe pareceu com maior probabilidade de ocupar o poder durante mais tempo inscrevendo-se na juventude partidária. Diligentemente, o Alpinista cumpria as tarefas que lhe eram cometidas e com a sua capacidade discursiva foi subindo na hierarquia, tendo chegado a um patamar que lhe garantiu um lugar nas listas de deputados em representação da juventude. Entretanto inscreveu-se numa daquelas universidades em que a exigência em certos cursos, sobretudo para figuras de algum relevo público, não é muito grande, mas que, para compensar, as notas são mais altas e passou a Dr. Alpinista. O bom desempenho no aparelho do partido e a fidelidade canina no Parlamento, levaram-no a uma irrelevante Secretaria de Estado durante alguns mandatos. A sua acção, socialmente insignificante, mas partidariamente relevante, valeu-lhe, à saída do Governo, um lugar na administração de uma empresa de capitais públicos de uma área que ignorava por completo.
Alguns anos depois, poucos naturalmente, o Alpinista reformou-se, retirando-se para uma das propriedades que faziam parte do património que entretanto tinha adquirido e dedicou-se à escrita.
O livro que produziu, autobiográfico, rapidamente se transformou num enorme sucesso, tem por título, “O Manual do Alpinista” e consta obrigatoriamente das bibliografias distribuídas nas Universidades de Verão dos diversos partidos.
Dito isto tudo e apesar disto tudo, importa sublinhar que vale a pena não esquecer que também há lugar para o mérito e qualificação em que vale sempre a pena investir.

DEFINITIVAMENTE, ESTUDAR COMPENSA

Desculpem a insistência mas a questão justifica. Num inquérito a 2200 alunos de 30 escolas de 11 municípios portugueses realizado pela EPIS – Associação de Empresários pela Inclusão Social, divulgado no Expresso, constata-se que apenas 54.5% dos inquiridos tem intenção de frequentar o ensino superior, o valor mais baixo dos 3 anos em que decorreu o inquérito. Na mesma linha, aumenta o número de alunos que pretende ficar pelo 12º, 39.5%, e dos que nem sequer pretendem passar do 9ºano, 6%. Aos dados dos alunos acresce um abaixamento das expectativas das famílias de que os seus filhos entrem no ensino superior.
Estes dados são preocupantes como várias vezes tenho aqui referido pois esta tendência vem sendo registada.
Presumo, há também indicadores nesse sentido, que as dificuldades económicas não serão alheias às intenções manifestadas. No entanto, temo que o número relativamente baixo de alunos com a intenção de adquirir formação de nível superior possa também estar ligado à perversa e errada ideia do “país de doutores” que, muitas vezes com o auxílio de uma imprensa preguiçosa e negligente, se foi instalando a propósito do número de jovens licenciados no desemprego e da conclusão de que “não vale a pena estudar”, um verdadeiro tiro no pé e que não corresponde de todo à verdade.
Em primeiro lugar, os jovens licenciados não estão no desemprego por serem licenciados, estão no desemprego porque temos um mercado pouco desenvolvido e ainda insuficientemente exigente de mão-de-obra qualificada e muitos estão no desemprego porque, por desresponsabilização da tutela, a oferta de formação do ensino superior é completamente enviesada distorcendo o equilíbrio entre a oferta e a procura.
Também não esqueço, recorrente o afirmo, que é urgente aprofundar a estruturação de percursos formativos diferenciados, nem todos têm que acabar no ensino superior, evidentemente, mas esta diferenciação na oferta formativa e na duração dos percursos de educação e qualificação não pode assentar na ideia de percurso de "primeira", para os mais dotados, e de percursos de "segunda" para os outros. Mais grave ainda é o abandono escolar sem qualificação.
É ainda importante recordar que, segundo o Relatório da OCDE, "Education at a Glance 2012", já aqui citado, a diferença salarial de jovens com licenciatura para jovens com formação a nível do secundário, é de 69 %, um bom indicador para o impacto da qualificação. Aliás, Portugal é um dos países em que mais compensa adquirir formação e qualificação.
Neste cenário e como sempre afirmo, o discurso muitas vezes produzido no sentido de que "não adianta estudar" não colhe e não tem sustentação, sendo um autêntico tiro no pé de uma sociedade pouco qualificada como a nossa.

sábado, 15 de Novembro de 2014

O HERÓI (José Manuel Fernandes) E OS COBARDES (Conselho Científico do ICS)

"Revista Análise Social vai ser posta em circulação com o ensaio dos graffiti"

"Chantagem moral e cobardia intelectual"

O Conselho Científico do Instituto de Ciências Sociais decidiu por unanimidade, repito, por unanimidade, levantar a suspensão da divulgação do número da Revista Análise Social tomada pelo Director do Instituto devido a um ensaio que continha graffitis com conteúdos que considerou impróprios e não conforme as regras científicas, apesar de aprovado pelo Conselho Editorial da Revista.
Esta tomada de posição do Conselho Científico acompanhando a reacção que no meio académico teve a decisão do Director, deixa, por assim dizer, entalado o genial trauliteiro e farol do neoliberalismo, José Manuel Fernandes, que perorou no Observador sobre a “imposição por radicais de uma agenda ideológica, não académica, e a intimidação moral dos que se lhe opõem”.
Como homem talhado para iluminar caminhos e lutar sem temor e desfalecimento contra os “radicais ideológicos”, José Manuel Fernandes não cede à “cobardia intelectual” e defendeu a censura sobre a publicação do ensaio. Temos homem, feito da fibra de que se fazem os heróis.
Lamentavelmente, os cobardolas que integram o Conselho Científico do ICS acham mesmo que a revista deve circular com o ensaio da polémica. Cambada de vendidos e de intimidados morais dobrados à “agenda ideológica” dos radicais. Falta-lhes a têmpera de José Manuel Fernandes, são uns fracos.
Não deixa de curioso, ler José Manuel Fernandes a discorrer sobre a “agenda ideológica” dos radicais e acompanhar a sua visão sobre o mundo. Este homem vai longe.

O PRESIDENTE DO CONSELHO DE REITORES, ANGELA MERKEL E AS PROPINAS

"Subida das propinas faz sentido mas só com aumento das bolsas escolares", (Presidente do CRUP)
O novo Presidente do Conselho de Reitores afirma em entrevista no I que "Aumento (das propinas) poderia fazer sentido apenas e só se fosse acompanhado de um aumento significativo do grau e abrangência da acção social escolar".
Gostava de recordar que Segundo o Relatório "Sistemas Nacionais de Propinas no Ensino Superior Europeu", divulgado em Outubro pela Comissão Europeia, Portugal é um dos cinco países, entre os 28 Estados membros da União Europeia, que cobram propinas a todos os alunos do ensino superior. Integra também o grupo de países em que menos de metade acede a bolsas de estudo.
Recordo que no início do ano um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos mas não tem meios para os pagar. É também preocupante o abaixamento que se tem vindo a verificar de procura de ensino superior apesar deste ano se ter registado uma pequena subida. As dificuldades económicas são a principal razão para não continuar.
É ainda de relembrar que de acordo com o Relatório da OCDE, Education at a glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias, cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia, 23,6%.
Está pois justificado o “sentido” que faria o aumento de propinas mesmo que acompanhado de um reforço das bolsas que, evidentemente, nunca compensaria o efeito.
Ainda a propósito de propinas no ensino superior vale a pena lembrar algo que, provavelmente, alguns não saberão. Na Alemanha, a terra da Senhora Merkel que acha que nós temos licenciados a mais, não existem propinas nas universidades. Nos últimos dias, a Baixa Saxónia foi o último estado a abolir as propinas. Deixem-me partilhar a afirmação da Ministra da Ciência e da Cultura deste estado que justificou a decisão de tornar gratuito a frequência do ensino superior “Livramo-nos das propinas porque não queremos que o Ensino Superior dependa da riqueza dos pais”.
Parece, na verdade, um discurso e um entendimento um pouco diferente do Presidente do Conselho de Reitores.
Será que este abrir de portas para um aumento de propinas é já um contributo para baixar o número de licenciados por determinação da patroa Merkel?

sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

E É ESCREVER, ASSIM, DESACORDADAMENTE ...

"Acção judicial popular contra Acordo Ortográfico"

Um conjunto de personalidades de diferentes áreas, académicos, escritores, músicos, actores ou políticos de vários posicionamentos, intentou, no Supremo Tribunal Administrativo uma acção judicial popular contra a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 ao sistema de ensino público, do ensino primário ao secundário.
Aqui está uma boa notícia, um bem de primeira necessidade nos tempos que correm e que desejo ardentemente que tenha sucesso.
Felizmente, a questão do Acordo Ortográfico permanece viva e enquanto assim for continuarei a afirmar a minha discordância. Quero acreditar que esta iniciativa possa constituir um passo decisivo para que se pudesse reconsiderar este processo incompreensível e para muita gente insustentável.
Neste quadro, enquanto a questão não estiver definitivamente encerrada retomo, e retomarei, a minha breve e não técnica reflexão sobre o que me parece estar em causa e expresso teimosamente o meu profundo desacordo com o Acordo. Embora já o tenha feito várias vezes, entendo que a defesa da Língua Portuguesa, nas suas importantes variações, o justifica.
Do que tenho lido e ouvido, nada me tem convencido da sua bondade ou necessidade. Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. Neste cenário, é clara a necessidade de ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma. Já estou cansado do argumento da “pharmácia” quando se pode verificar que em todos os países, e são muitos, em que o termo tem a mesma raiz, a grafia é com “ph” e nada de muito grave acontece. A introdução ou mudança na grafia tem acontecido em todas as latitudes e não tem sido necessário um Acordo com os conteúdos bizarros, alguns, que este contém.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto, não tenho conhecimento de alguma perturbação ou drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas. O mesmo se passa entre a comunidade dos países com o castelhano como língua oficial.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual, longe disso, temos regularmente exemplos disso mesmo, e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe. Aliás, é interessante analisar a natureza da argumentação dos especialistas favoráveis ao Acordo. Algumas vezes assenta, sobretudo, no porque sim, porque é novo. É pobre.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Não é grave, errar é humano.
No entanto, como toda gente, não gosto de errar, pelo que preferia continuar a escrever desacordadamente.

NORMALIDADE E AUTONOMIA ESCOLAR

Na última terça-feira, dia 11 de Novembro participei na reunião do Conselho Geral de um Agrupamento escolar destinado a apreciar e aprovar um conjunto de documentos exigidos pelos normativos em vigor.
Aqui ficam algumas notas.
Nesse mesmo dia, 11 de Novembro, tinha chegado à escola sede o último professor a ser colocado, a 11 de Novembro repito, dois meses depois do início do ano lectivo. Desde o início do ano várias turmas não tiveram todos os docentes havendo turmas em que faltavam simultaneamente docentes para Português Matemática. É dispensável qualquer comentário sobre os potenciais efeitos desta situação.
É importante referir que este Agrupamento "perdeu" em três anos cerca de 50 docentes mantendo praticamente a mesma população de alunos. Esta "perda" terá sido em nome dos "factores de eficiência", um "mantra" do "neoliberalês" e do abaixamento do número de alunos que, por acaso, mas só mesmo por acaso, neste Agrupamento nem se verificou, só para arreliar Nuno Crato.
Na mesma data ainda faltavam 2 funcionários, perdão, dois assistentes operacionais,
Este cenário é assim desenhado num contexto de absoluta normalidade e com o maior rigor e competência, claro.
O Agrupamento tem contrato de autonomia. No entanto, é exigida a mesma enorme carga de burocracia que a todas as escolas e agrupamentos, sendo ainda solicitado um outro conjunto de informação redundante, extensa e parte dela inútil da forma que é requerida.
A produção desta informação consome centenas de horas de trabalho a docentes roubadas à essência do seu trabalho.
O nível de informação solicitada e as regras impostas de funcionamento e organização mostra, de facto, um sistema altamente centralizado, burocratizado e com a tentação de manter um controlo absoluto sobre a organização e funcionamento das escolas. Em nome da autonomia, estranhamente.
Durante a reunião fiquei até surpreendido, pelo facto de que em algumas obras de beneficiação dos espaços escolares, pintura de paredes por exemplo, ter sido possível que os alunos escolhessem as cores.
O volume de informação produzido por exigência do quadro normativo global e do contrato de autonomia ocupava um espaço virtual de 4 MB que estariam em análise, impossível, evidentemente, na reunião do Conselho Geral. É obra e o problema é que tinha pouco de virtual.
O desgaste e desperdício de tempo e esforço investidos na produção desta informação que, sendo lida algures no MEC também implicará mais uma enorme carga de trabalho mas que alimenta a máquina, não podem deixar de ter custos significativos na qualidade do trabalho das escolas.
Não posso ainda deixar de sublinhar o empenho e o profissionalismo com a equipa docente e os funcionários procuram desenvolver com alunos e pais o melhor trabalho possível, apesar do MEC.
Uma nota final para referir algo que merce atenção. Os professores que asseguram as AECs recebem 100€ por mês para prestar 1h de trabalho por dia, ou seja, 5€ por hora. Sem entrar em considerações sobre o modelo e organização desta resposta, apenas um dado comparativo que deveria criar algum embaraço. A senhora que nos ajuda na lida aqui em casa, ganha mais do 5€/h e ao Mestre Marrafa que nos ajuda na lida do Monte no Alentejo é isso que lhe pago e não me parece demais. Sem comentários.

O MUNDO É UM LUGAR ESTRANHO

Estava a olhar para múltiplas referências que se encontram na imprensa ao caso de corrupção em torno dos chamados vistos "gold" que envolve figuras destacadas da Administração Interna e Justiça e recordava o debate em que ontem tive o gosto de participar com Rui Tavares, o dirigente do Livre e ex-eurodeputado, e o jornalista António Costa Santos no âmbito de um Colóquio sobre Psicologia, Ética e Poder.
Na verdade, este caso, o dos vistos "gold" é um bom exemplo da enorme ambiguidade e latitude ética, por assim dizer, no exercício do poder, dos poderes.
Em primeiro lugar, se bem repararmos, ainda ontem era notícia, apesar do sucesso proclamado por Paulo Portas do negócio dos vistos "gold", seria interessante fazer as contas relativamente ao que perdemos com a partida de muitos milhares de jovens altamente qualificados que depois de cá adquirirem formação se sentem obrigados a partir em busca de um futuro que por cá não vislumbram. As portas estão fechadas e recebem um visto dark de partida. São muitos, demasiados, milhões de euros que se perdem, no investimento feito e nas consequências económicas e sociais da partida, muitas vezes definitiva.
Eu sei que a economia é um universo demasiado sofisticado para que um cidadão comum possa entender os seus meandros, mas este não pode ser o caminho.
Por outro lado, como tem sido repetidamente afirmado, defendido e comprovado, é  para os interesses dos investidores estrangeiros que devem orientar-se a nossa Constituição, a nossa economia, os nossos recursos, as nossas empresas (as mais lucrativas, evidentemente) e mesmo nós portugueses que deveremos ser submissos e cooperantes com esses interesses. Por coincidência, o Secretário dos Transportes, Sérgio Monteiro, afirmou, lê-se no DN, a propósito da compra da PT que "O que interessa é o projeto para a PT, não a origem do dinheiro". Elucidativo.
Os investidores estrangeiros com os seus interesses devidamente acautelados trarão, assim, os amanhãs que cantam, a banda sonora da nossa pobreza. Acontece ainda que este investimento estrangeiro, algum de origem duvidosa como tem sido noticiado, veio alimentar um nicho de mercado altamente atractivo e rentável ente nós, a corrupção.
Finalmente, uma referência a uma tragédia com episódios sucessivos e sem vista à vista, que se passa no Mediterrâneo em morrem muitas centenas de pessoas vindas do outro lado para tentar a entrada em Itália ou Espanha,  e que arriscam a vida para procurar um futuro que possa ser diferente do inferno de pobreza, miséria e desesperança que vivem.
Por cá, mas não só, oferecem-se uns vistos "gold" com acesso ao espaço europeu a uma rapaziada que traga uns sacos de dinheiro não importa de onde nem como foi arranjado.

O mundo é, na verdade, um lugar estranho.

quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

INGLÊS PARA TODOS

"Governo já aprovou sete anos obrigatórios de Inglês"

Após um parto difícil nasceu finalmente o ensino do Inglês obrigatório para todos os alunos a partir do 3º ano a iniciar no ano lectivo 2015/2016.
Parece-me também importante a intenção de que o ensino de Inglês neste escalão etário seja assegurado por docentes com qualificação para tal, minimizando situações como as que se verificavam em muitas circunstâncias com o ensino do Inglês no âmbito das Actividade de Enriquecimento Curricular em que as metodologias e actividades eram desadequadas a crianças com menos de 11 anos.
O MEC estabeleceu também um cenário de transição e reconhecimento de competências detidas pelos docentes, formação complementar para alguns e a criação de um Mestrado direccionado especificamente para o ensino de Inglês no 1º ciclo.
Habituados que estamos a surpresas ministeriais vamos ver como corre todo este processo.

MALTRATAR NÃO É GOSTAR

"Dez por cento das queixas de violência doméstica são de jovens com menos de 16 anos"

De acordo com a presidente da Associação Democrática de Defesa dos Interesses e da Igualdade das Mulheres, das 27.318 queixas de violência doméstica realizadas em apresentadas em 2013, 10% foram participadas por menores de 16 anos.
Estes dados são inquietantes e, como já aqui tenho referido, vão ao encontro de vários estudos realizados em Portugal que, de facto, evidenciam um elevado índice de violência presente nas relações amorosas entre gente mais nova mesmo quando mais qualificada, estudantes universitários, por exemplo.
Acresce que muitos dos inquiridos remetem para um perturbador entendimento de normalidade o recurso a comportamentos na relação amorosa que claramente configuram agressividade e abuso ou mesmo violência.
Estas constatações mostram-nos o caminho, longo e duro, que está por realizar.
Através da educação, é claro.

UMAS NOTAS SOBRE O ABAIXAMENTO DO ABANDONO ESCOLAR PRECOCE

"Portugal foi o país que mais reduziu o 

abandono escolar"

De acordo com o Relatório "Education and Training Monitor 2014" a ser divulgado hoje pela UE, Portugal foi o país da União Europeia que mais progrediu, entre 2010 e 2013, no combate ao abandono escolar precoce, passando de 28, 3% para 18,9% o número de jovens entre os 18 e os 24 anos que deixaram a escola sem concluir o ciclo em que se encontravam.
No entanto, apesar deste salto ainda continuamos nos últimos lugares e muito longe da meta estabelecida pela UE de 10% de abandono precoce para 2020.
É importante registar esta diminuição no abandono escolar precoce, a exclusão escolar é, quase sempre a primeira etapa da exclusão social e em países mais desenvolvidos e, portanto, como maiores exigências de qualificação dos seus cidadãos, o sucesso educativo é uma questão central e a base de um futuro melhor.
No entanto, julgo pertinente chamar atenção para que não se caia na tentação, está acontecer, de que a manutenção dos jovens no sistema educativo, que por princípio é boa, naturalmente, seja promovida em torno de modelos de elitização do ensino e de uma resposta de "segunda" para os outros.
Como muitas vezes afirmo temos que estruturar percursos formativos diferenciados, nem todos têm que acabar no ensino superior, evidentemente, mas esta diferenciação na oferta formativa e na duração dos percursos de educação e qualificação não pode assentar na ideia de percurso de "primeira", para os mais dotados, e de percursos de "segunda" para os outros.
Os estudos, mostram sem surpresa, aqui a tradição ainda é o que era, que o abandono precoce têm ainda uma profunda marca de classe, ou seja, atinge predominantemente  as famílias menos qualificadas e de menor estatuto social, económico e cultural. Se estes jovens são empurrados para vias de "segunda" a mobilidade social" está evidentemente comprometida. As experiências de outros países mostram claramente estes riscos, veja-se o caso da Alemanha e os efeitos do seu modelo de ensino dual.
Recordo também o Programa Novas Oportunidades que partiu de uma boa ideia e se abastardou quando passou a ser uma ferramenta de promoção rápida de certificação escolar para criar estatísticas s simpáticas, mas sem corresponder a efectiva qualificação, pois certificar à pressa, não é qualificar.
Vamos acompanhando.

O ABAIXAMENTO DA TAXA DE DESEMPREGO

"Só no ano passado emigraram 110 mil portugueses"

No último ano emigraram 110 000 portugueses e em 2012 cerca de 95 000. Se considerarmos ainda os milhares de cidadãos que estão envolvidos em programas de estágios e formação inconsequentes e aqueles que já nem nas estatísticas existem, percebe-se melhor como o abaixamento da taxa  de desemprego, que todos desejaríamos que fosse efectiva, é fruto de algumas habilidades com os números.
Esta gente está a ir embora, muitos deles dando saltos no escuro e correndo sérios riscos de exclusão nos países de destino como, aliás, vai sendo regularmente noticiado, na expectativa de um futuro que por cá não vislumbram.
"Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados
Virão um dia
(...)
ou não."



quarta-feira, 12 de Novembro de 2014

O MEU AMIGO PROCURANTE

Um dos meus amigos é um tipo bem peculiar. Há muito que lhe chamamos o Procurante. Perguntarão o porquê de tão insólito chamamento. Deve-se ao facto do meu amigo fazer da sua vida uma procura.
É o tipo mais inquieto que conheço e a sua permanente procura deve-se a esse desassossego.
O Procurante anda atrás daquele livro que ainda não leu e que será o mais interessante, antes de procurar o próximo ainda mais interessante.
O Procurante busca o filme que, de tão estimulante, o deixe à procura de outro que justifique ainda mais a sua atenção.
O meu amigo Procurante trabalha e creio que emprego é a única coisa que deixou de procurar, escreve, sobrevive da escrita e de algumas traduções mal pagas. Ainda assim, embora não procure outro emprego o Procurante continua a tentar escrever o livro que venha a ser O seu Livro.
O Procurante ainda não encontrou numa só mulher tudo o que procura nas mulheres e, por isso, continua à procura.
Em múltiplas viagens e mudanças, o Procurante tem tentado encontrar o seu mundo em muitos cantos, mas ainda procura o seu canto no mundo.
Quando nos encontramos para uns copos e umas discussões acesas, a palavra que o Procurante mais usa é “porquê”. Ri-se sempre que um de nós propõe uma qualquer resposta para um dos seus porquês e, sem percebermos se ri de nós ou para nós, pergunta porquê, sem fim.
Quando penso no Procurante fico na dúvida. Será o Procurante o mais infeliz de nós porque nunca encontra ou, pelo contrário, o mais feliz porque ainda procura, sempre.

DA SELECÇÃO NATURAL, AGORA NO SUPERIOR


Lê-se e torna-se difícil de acreditar embor o MEC evidencie uma inesgoável capacidade de nos surpreender.
Desta vez coube ao Secretário de Estado do Ensino Superior avançar com uma ideia notável. Em entrevista ao Diário Económico, ao abordar as questões relativas ao acesso ao ensino superior e as propostas de mudança, urgentes, diga-se, em que o MEC está a trabalhar, José Ferreira Gomes adiantou este monumento, diferenciar o grau de exigência para frequentar o ensino superior, mais exigência para as Universidades e, naturalmente, menos exigência para os Institutos Politécnicos, concretizando, passo a citar, "Podíamos exigir, por exemplo, 14 a Matemática e Física a quem quisesse entrar em alguns cursos universitários. E podíamos exigir só 10 a quem quisesse entrar nos politécnicos".
Não sei qual será a reacção de Reitores e Presidentes dos Politécnicos mas tenho uma forte reserva em aceitar uma medida desta natureza que, aliás, se inscreve de forma muito clara no modelo de educação subscrito pelo MEC, a elitização, a selecção dos "mais competentes" para vias mais valorizadas de educação e formação e o empurrar dos "outros", os mais fracos, menos dotados ou preguiçosos, para percursos ou formações que acabam percepcionadas como de "segunda". A coisa está em andamento no ensino não superior, empurrar alunos com baixo rendimento para vias profissionais desde muito cedo, só faltava mesmo estender esta visão "neodarwinista" ao ensino superior.
Se assim for, os alunos com notas mais altas podem ir para a Universidade, os alunos com notas mais baixas terão de se contentar com um curso de Politécnico. Partindo da proposta do MEC, deveremos concluir que um aluno com 14 de nota final a Matemática no Ensino Secundário poderá ser engenheiro formado por uma Universidade, mas um colega seu que acabou com 13,4 o Ensino Secundário só é "capaz" de estudar engenharia num Politécnico, as suas competências matemáticas não são suficientes para a Universidade.
Já tenho dito muitas vezes que seria absolutamente necessário separar o processo de finalização do secundário do acesso ao ensino superior, até porque são conhecidos alguns expedientes na composição das notas finais quando não se considera apenas o valor do exame.
Esta separação implicaria por exemplo, atribuir mais autonomia aos Estabelecimentos de Ensino Superior nesse processo de acesso, no qual a nota final do Secundário seria, evidentemente, um dos critérios a considerar, mas não o único. Também sei que neste momento apenas se exige a nota mínima, 9.5 da escala considerada positiva e qualquer linha de corte implica discussão. No entanto, aqui estamos falar do lado positivo da escala enquanto na proposta do MEC a questão tem, do meu ponto de vista, outros contornos que são, do meu ponto de vista, insisto, pouco defensáveis, nada garante que um "aluno de 12 ou 13" a Matemática seja incapaz de formação científica na Universidade como também nada garante que um "aluno de 14 ou 15" venha a ser um excelente estudante.
Conhecemos todos múltiplos exemplos.

ACTIVIDADES EXPRESSIVAS: CONTEÚDO ESSENCIAL, COMPLEMENTO EDUCATIVO OU FORMAÇÃO DE ARTISTAS

"Quando a escola pública também é um lugar de encontro com a arte"

Contrariamente à visão tantas vezes expressa, implicita ou explicitamente, por Nuno Crato, as actividades expressivas não são um complemento da actividade escolar envolvendo os "conhecimentos essenciais". Enquanto "complemento" estas actividades podem, até, tornar-se residuais ou, no limite, dispensáveis em nome do que é mesmo "importante", ideia que de mansinho se vai instalando. Se bem repararem, as actividades expressivas apesar de integrarem o currículos estão a "deslizar" para espaços como as AECs, ateliers, etc, ou seja, espaços fora da sala de aula, o espaço onde se trabalham as "coisas" que verdadeiramente interessam. Uma pequena nota para referir que o miserável e humilhante pagamento que em muitos casos é realizado aos professores e técnicos que realizam este tipo de actividades no âmbito das AECs é também um forte indicador da desvalorização de que são alvo.
Como é evidente, não estão em causa as variadíssimas experiências interessantes e ricas que se vão realizando neste universo mas que tendem a acontecer "ao lado" da sala de aula, por assim dizer.
Na verdade as actividades expressivas têm um papel central no desenvolvimento de crianças e adolescentes, são importantes para o contexto glogal das aprendizagens, de todas as aprendizagens, e envolvem dimensões tão importantes a formação pessoal, social e cultural. Por isso mesmo constam do currículo.
Também importa, do meu ponto de vista, que as actividades expressivas, imprescindíveis para qualquer criança não sejam confundidas com formação de artistas. Trata-se de um equívoco presente com alguma frequência nos discursos e práticas neste universo e que acabam por mal servir as próprias crianças.

MIÚDOS EM SOFRIMENTO, ADULTOS EM SOFRIMENTO

"Carrilho acusa Governo de acto “ilegal e inconstitucional” ao convidar ex-mulher para jornadas"

Os sucessivos episódios com divulgação mediática, alguns com contornos pouco vulgares, envolvendo a separação de um ex-ministro e de uma apresentadora de televisão apesar se constituir, evidentemente, de matéria que deveria ser mantida na esfera pessoal, levam-me a um pequena nota de inquietação que decorre deste caso mas considera muitíssimas outras situações da mesma natureza mas com menos visibilidade.
Apesar de em algumas separações conjugais as pessoas continuarem a viver em conjunto por dificuldades económicas, os estudos na área da sociologia familiar têm vindo a evidenciar um aumento do número de divórcios, relativizado ao número de casamentos, que parece ligado, entre outras razões, a alterações na percepção social da separação, menos “punitiva” e “culpabilizante” para os envolvidos. Estará a criar-se assim uma situação mais favorável, até do ponto de vista legal, à facilidade do processo de divórcio o que poderá levar a decisões, cuja bondade não avalio, que podem ser apressadas, por decisão não assumida por ambos e não antecipando a necessidade de minimizar eventuais impactos, sobretudo quando existem filhos como é o caso que motiva estas notas.
Neste quadro, podem emergir nos adultos, ou num deles, situações de sofrimento, dor e/ou raiva, que “exigem” reparação e ajuda. Muitos pais lidam sós com estes sentimentos pelo que os filhos surgem frequentemente como o “tudo o que ficou” ou o que “não posso, não quero e tenho medo de também perder”. Poderemos assistir então a comportamentos de diabolização da figura do outro progenitor, manipulação das crianças tentando comprá-las (o seu afecto), ou, mais pesado, a utilização dos filhos como forma de agredir o outro o que torna necessária a intervenção reguladora de estruturas ou serviços que se deseja oportuna no tempo e eficaz na ajuda. Este tipo de situações que tem sido bem patente em vários episódios envolvendo a separação deste casal e os seus filhos pode atingir limites sem retorno como temos vindo a assistir com alguma regularidade.
É obviamente imprescindível proteger o bem-estar das crianças, o superior interesse da criança, o princípio fundador do olhar actual sobre crianças e jovens mas não devemos esquecer que, em muitos casos, existem também adultos em enorme sofrimento e que a sua eventual condenação, sem mais, não será seguramente a melhor forma de os ajudar. 
Ajudando-os, os miúdos serão ajudados e protegidos. Também aqui a imprensa deveria sentir-se obrigada a não esquecer o superior interesse da criança. já que os pais, em sofrimento por demasiados centrados em si mesmos, perdem lucidez para o fazer.
Quero ainda sublinhar que, por princípio, prefiro uma boa separação a uma má família.

AS PALAVRAS (MAL)DITAS

OE 2015. Classe média é "a grande sacrificada"
A Ministra das Finanças afirmou hoje que no âmbito do orçamento para 2015 e tal como tem acontecido, "A classe média acaba por ser a grande sacrificada, porque se procura sempre proteger quem tem menos recursos e porque, infelizmente, ricos temos poucos. Se tivéssemos mais, facilitaria, mas em Portugal, de facto, não há muitos.
Só lhe faltou retomar o mítico slogan "os ricos que paguem a crise".
Acontece que o enunciado de Maria Luís Albuquerque não tem correspondência com a realidade. Nos últimos anos e assim vai continuar a acontecer por opção política do Governo, o empobrecimento foi definido como a salvação. O resultado, os indicadores mostram-no,  foi o aumento da pobreza, da envergonhada e da visível, e da exclusão, os grupos mais vulneráveis, velhos e crianças duramente atingidos, um desemprego brutal, a falência de milhares de pequenas e médias empresas, etc. Do outro lado da escala, os indicadores também evidenciam, a assimetria na distribuição da riqueza aumentou e os ricos, poucos, evidentemente, tornaram-se mais ricos.
Posso discordar das políticas mas não me choca que Maria Luís Albuquerque as defenda, é responsável e co-responsável. Já me embaraça o despudor e a insensibilidade das palavras utilizadas.

terça-feira, 11 de Novembro de 2014

"A ESTUPIDEZ É CAUSADA POR UM VÍRUS"

"É normal a estupidez propagar-se... é um vírus"


Está aberto, dizem, o caminho para uma autência revolução epistemológica e para a explosão de um novo nicho de mercado, a produção de anti-vírus que combata a estupidez humana. Sim, leram bem, produzir um anti-virus que combata a estupidez.
Foi divulgada um investigação da Universidade Nebraska nos EUA que conclui pela existência de um vírus, o ACTV-1 que inibe, por assim dizer, a aprendizagem e a memória, afectando o desempenho em testes de capacidade intelectual.
Está portanto, definida, afirmam, a causa de tantas inquietações que sofremos por causa da estupidez, dos outros, evidentemente, estão atacados por um vírus.
Investigadores de todo o mundo. uni-vos, encontrai rapidamente o milagroso anti-vírus que nos liberte das garras da estupidez e, já agora, uma vacina que nos coloque a salvo dessa terrível pandemia, a estupizes humana.
Mais a sério. Talvez fosse desejável algum cuidado na forma como são elaborados alguns textos na imprensa. Estaremos mesmo a falar de estupidez? Estupidez significa exactamente o quê?