quinta-feira, 22 de junho de 2017

ESTÁ A TERMINAR O PERÍODO DE NOJO

O período de nojo relativo à enorme tragédia de Pedrógão está a acabar. Não estou a falar do luto, este não acabará nunca, é muita a dor e muita a perda.
Vão começar a sair das bainhas as espadas da demagogia, da falta de pudor, da falta de memória e teremos a sobreutilização desta catástrofe para a luta pequena da partidocracia
Nada de novo, é quase sempre assim a política no Portugal dos Pequeninos.
Como é evidente este enunciado não tem rigorosamente a ver com uma profunda avaliação do que se passou, do que falhou, do apuramento de eventuais responsabilidades e respectivas consequências, do estabelecimento definitivo de dispositivos que minimizem os riscos destas tragédias se repetirem, etc.
Tem a só a ver com a náusea.

A TROCA DE IDEIAS E SABERES

A tragédia recente tem produzido na imprensa e nas redes sociais uma gigantesca chuva de ideias, opiniões, críticas, debates, etc., envolvendo especialistas reconhecidos, especialistas autodesignados, opinadores profissionais ou amadores, senadores(?), comentadores, achistas e tudólogos, os que sabem de tudo  e também, evidentemente de fogos florestais.
A forma como boa parte desta gente opina, e quase sempre quanto maior a ignorância maior se torna a arrogância, vem acentuar algo que do meu ponto de vista vai caracterizando o nosso quotidiano.
A evolução dos modelos de organização social, económica e cultural das sociedades conduziu a um progressivo abandono da troca, substituindo-a pela compra e venda. A concepção romântica da troca de produtos, já não passa de isso mesmo, de romantismo, tudo se compra e vende. Não digo isto por entender que deveria ser de outra forma, não vislumbro que pudesse ser de outra forma.
Apenas lamento que até a troca de ideias e saberes tenha sido substituída pela venda das ideias e do saber, real ou imaginado. Já é difícil assistir a uma conversa entre pessoas que pensam e sabem alguma coisa do que estão falar sem que os intervenientes assumam a postura de quem está a vender as suas ideias e não, apenas a trocá-las com os outros parceiros. Os debates, jogam-se mais em torno das técnicas de marketing, de venda, das ideias que dos conteúdos das mesmas. Cada vez consigo menos participar numa tertúlia, mais formal ou mais informal, sobre um qualquer tema, mais denso ou mais ligeiro, em que os companheiros de conversa não tentem vender as suas ideias e saberes, obrigando-me á sua compra.
Quase sempre encontro pessoas pouco dispostos a trocar as suas ideias e saberes com o que eu próprio carrego,  a experimentá-las, apreciá-las e, se for caso disso, também as usarem ou eu achar que as ideias e saberes (ou crenças) que me foram apresentadas, não impostas em agressivas e às vezes mal-educadas técnicas de convencimento, são interessantes conjugando-as ou substituindo as minhas.
Nas discussões as frases já começam pouco com “que achas?”, “que te parece” ou outra fórmula qualquer que ajude a aceder ao pensamento do outro. Começamos cada vez mais as frases com “É assim”, “Não, isso está errado, deve ser assim” e outras alternativas que apenas servem para apresentar a definitiva e indiscutível ideia e saber sendo que frequentemente a opinião é mascarada e vendida como saber.
Este cenário, pouca troca e muita venda agressiva, numa terra de achistas e opinadores profissionais empobrece-nos a todos, menos a alguns iluminados, os que vendem as ideias e os saberes.
No entanto, como se sabe, os mercados estão atentos e tudo é … mercado.

UMA GREVE ASSIM TIPO ... SEI LÁ

Ontem realizou-se uma greve de professores decidida pelas duas mais representativas forças sindicais da classe, a FENPROF e a FNE.
A greve foi decidida para um dia em que se realizavam exames nacionais do secundário e uma prova de aferição do 2º ano.
Uma greve de professores desencadeia habitualmente discursos de natureza diferente, conforme os interesses, face à sua justificação e, sobretudo, relativamente ao seu impacto. Quando tal acontece em dias de exames a discussão agudiza-se.
No entanto, o Governo de Passos Coelho conseguiu incluir a realização de exames nacionais nos critérios para a determinação de serviços mínimos o que se reflecte fortemente no impacto da “jornada de luta”.
Como é habitual nestes cenários, greves em sectores tão importantes na vida das pessoas, logo no início do período de greve desencadeia-se uma “guerra de números”, ou seja, qual o nível de adesão dos profissionais envolvidos.
Durante o dia de ontem e na imprensa de hoje procurei alguma informação nesse sentido e, estranhamente, não encontrei. Terei procurado mal? Nas fontes erradas? Existirá algum embargo a esta informação?
Encontrei apenas referências a casos pontuais de escolas em que se realizavam exames ou provas de aferição com a informação de que o processo estava a correr ou correu com normalidade e encontrei algumas referências, incluindo de estruturas sindicais, sobre o encerramento de “algumas escolas” onde não se realizavam exames e de resto, os exames e a prova, a decorrer com “normalidade”.
De tudo isto resulta o quê?
Uma greve será sempre uma decisão que resulta de um processo de negociação mal sucedido e deverá constituir uma prova de força, de motivação e empenho dos profissionais envolvidos relativamente aos objectivos definidos nas matérias em discussão. Assim sendo, a dinâmica e adesão conseguidas fortalecem ou enfraquecem essa capacidade de negociação.
Da forma que aparentemente decorreu a greve de ontem o que temos? O ME a poder afirmar que tudo, os exames e a prova de aferição, correu com normalidade. As famílias aliviadas porque tudo, os exames e aprova de aferição, correu com normalidade. Os alunos tranquilos porque tudo, os exames e a prova de aferição, correu com normalidade. E as estruturas sindicais terão desencadeado uma espécie de prova de vida e tentam ver um copo meio cheio num cenário em que apesar da greve tudo (quase) correu com normalidade.
E os professores? Que podem dizer os professores? Que ilações ou avanços retiram da greve?
Como muitas vezes afirmo, alguns dos problemas dos professores são também problemas nossos na medida em que se reflectem na qualidade do trabalho que realizam com os nossos filhos e netos. Deste ponto de vista o que também podemos concluir?
Este foi, de facto um processo estranho.
Socorrendo-me da linguagem dos mais novos … foi assim uma greve … tipo … sei lá.


quarta-feira, 21 de junho de 2017

UM ALEGADO PROBLEMA

A Inspecção Geral da Educação e Ciência e o Ministério Público vão investigar a alegada fuga de informação que terá permitido que uma alegada aluna divulgasse  alegados conteúdos do exame de Português que, efectivamente, saíram no exame.  Episódios desta natureza, reais ou não, raramente passam de alegados.
Também neste não creio que resulte algum esclarecimento real ou alguma alegada responsabilidade embora tenhamos que esperar por alegadas fugas de informação para ir conhecendo o seu resultado da investigação. Como sabemos, alegadas fugas de informação que não deveria fugir, são banais e fazem parte das estratégias de comunicação indirecta por muitos dos alegados intervenientes nestes alegados processos em diferentes áreas. No entanto, como de quando em vez acontece para mostrar que a coisa funciona, pode aconter que uma alegada fuga de informação deixa de ser alegada. A acontecer, alguma gente alegadamente responsável pode ficar alegadamente entalada.
Ainda assim estou convicto de que este episódio de alegada fuga de informação irá, provavelmente, parar à prateleira dos factos alternativos, alegadamente "fake news".
Portanto, o mais certo é que este alegado problema se transforme num não problema.


A HISTÓRIA DO BRINCALHÃO

Num tempo de chumbo lembrei-me do Brincalhão. O Brincalhão foi um companheiro de escola durante alguns anos. Não era o seu nome mas era assim que todos o tratávamos.
Era um tipo fantástico, com ele presente não havia depressão ou mau humor que resistisse. Percebia quando alguém do grupo não estava bem e encontrava sempre a melhor forma de, sem se tornar excessivo, recompor o ânimo mais em baixo.
Disponível para quase tudo, as conversas com o Brincalhão não tinham fim, discutia tudo com um empenho convicto mas sempre com um inultrapassável sentido de humor que só por si justificava a discussão.
Uma outra particularidade que mexia verdadeiramente connosco era o sucesso do Brincalhão junto das miúdas. Confesso que a inveja, coisa feia, era grande. Bem que tentávamos justificar o sucesso com o facto de ele ser um excelente palhaço e as miúdas gostarem de circo. A justificação não era de facto muito boa nem muito inteligente, mas não nos ocorria outra e sempre tentávamos, sem o conseguirmos, proteger a nossa auto-estima porque as miúdas gostavam quase todas do Brincalhão.
Para a realização de qualquer tarefa era importante a colaboração do Brincalhão, ajudava a organizar as dúvidas, a escolher os caminhos e sempre nos ríamos imenso. Era um tipo com uma sensibilidade enorme às injustiças, tinha uma visão quase romântica do mundo e da revolução que se deveria fazer. Com o fino e inteligente humor que o caracterizava minava qualquer discurso mais conservador.
O cumprimento das estradas de cada um levou de mansinho à dispersão do grupo. O primeiro a afastar-se e para longe, para muito longe foi o Brincalhão.
Com o tempo fomos percebendo todos que tínhamos perdido a pessoa mais séria que conhecemos.

FILHOS, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE MAS POUCO ACESSÍVEL

O relatório "Starting Strong 2017", agora divulgado pela OCDE, apesar de assentar em dados de 2013 vem reforçar algo que já era conhecido e que aqui tenho referido pelas suas várias e importantes implicações. As famílias portuguesas são das que realizam mais esforço para assegura educação pré-escolar. Dito de outra maneira, Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças em idade de pré-escolar.
A falta de respostas e recursos a preços acessíveis para o acolhimento a crianças dos 0 aos 3, creches ou amas, e dos 3 aos 6 anos, a educação pré-escolar, constitui-se como um dos grandes obstáculos a projectos familiares que incluam filhos, levando aos conhecidos, reconhecidos e preocupantes baixos níveis de natalidade.
A alteração dos estilos de vida, a mobilidade e a litoralização do país, levam à dispersão da família alargada de modo a que os jovens casais dependem quase exclusivamente de respostas institucionais que, ou não existem, ou são demasiado caras.
É sabido que nos últimos anos muitas famílias sentiram enormes dificuldades em assegurar a permanência dos miúdos nas creches por razões económicas. As Instituições procuram, apesar das dificuldades que elas próprias enfrentam, flexibilizar, até ao limite possível, custos e pagamento tentando evitar a todo o custo que os miúdos deixem de frequentar os estabelecimentos. Aumentaram significativamente a retirada de crianças de estabelecimentos de educação pré-escolar com o acentuar da crise com picos verificados em 2011, 2012 e 2013. Acresce a quebra da natalidade que a situação induz e parece, felizmente, estar em ligeira recuperação que desejamos consistente.
Neste quadro a intenção actual de garantir o acesso à educação pré-escolar aos três anos e criar respostas acessíveis, física e economicamente, às famílias para as crianças dos zero aos três anos é imprescindível e urgente.
Sabemos todos como o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos é fortemente influenciado pela qualidade das experiências educativas nos primeiros anos de vida, de pequenino é que ...
Assim, existem áreas na vida das pessoas que exigem uma resposta e uma atenção que sendo insuficiente ou não existindo, se tornam uma ameaça muito séria ao futuro, a educação de qualidade para os mais pequenos é uma delas.
No entanto, como há algum tempo escrevi no Público, a educação pré-escolar é bastante mais que a “preparação” para a escola e não deve enredar-se no entendimento de que é uma etapa na qual os meninos se preparam para entrar na escola embora se saiba do impacto positivo que assume no seu trajecto escolar.
Na verdade, as crianças estão a preparar-se para entrar na vida, para crescer, para ser. A educação pré-escolar num tempo em que as crianças estão menos tempo com as famílias tem um papel fundamental no seu desenvolvimento global, em todas as áreas do seu funcionamento e na aquisição de competências e promoção de capacidades que têm um valor por si só não entendidos como uma etapa preparatória para uma parte da vida futura dos miúdos, a vida escolar.
Este período, a educação pré-escolar, cumprido com qualidade e acessível a todas as crianças, será, de facto, um excelente começo da formação institucional de cidadãos. Esta formação é global e essencial para tudo que virão a ser e a fazer no resto da sua vida.

terça-feira, 20 de junho de 2017

PÉS DE BARRO ENTERRADOS NO LODO

O habitat pantanoso continua a incubar e fazer eclodir novos episódios de corrupção, desculpem, alegada corrupção. Mais um grupo de figuras graúdas do aparelhismo político está acusado de diversos crimes, aqueles designados por “colarinho branco”.
Dir-se-á que é a justiça a funcionar. A Ministra da Justiça poderá até vir afirmar que, finalmente, a justiça é cega, não distingue os mais ricos dos mais pobres, a gente do poder da outra gente, mas tudo isto é, evidentemente, mais do que um caso de polícia.
Não sei o que vai acontecer, como tudo irá acabar e importa não esquecer a presunção de inocência. Aliás, todos os envolvidos dirão estar de consciência tranquila e que tudo será devidamente esclarecido.
Sei “apenas” que a sucessão de episódios a que vamos assistindo envolvendo gente no topo da economia, da liderança política e da administração do estado, transforma a nossa sociedade num pântano e num lugar mal frequentado.
Esta é a pantanosa pátria nossa amada.

UMA BOA NOTÍCIA. MAS TALVEZ NÃO SEJA PARA TODOS

Uma parceria entre a delegação da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal de Viana do Castelo e a Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Viana do Castelo permitiu a criação de uma aplicação móvel que parece representar um ganho significativo na autonomia e mobilidade na deslocação no centro histórico da cidade e dos transportes públicos.
O conhecimento de novas ferramentas, dispositivos ou apoios que minimizem a corrida de obstáculos em que a vida das pessoas com deficiência e das suas famílias se transformou é sempre uma boa notícia.
Esperemos que se confirmem os indicadores de eficácia e que possa ser generalizado o seu uso.
No entanto, ao que parece, os custos do equipamento, smartphones, inibirão a sua generalização pelo que se procuram apoios que a viabilizem.
A impossibilidade de aceder a estes equipamentos por questões económicas será "apenas" mais um factor acrescido de exclusão.
Como sabemos e é reconhecido, os níveis de funcionalidade e autonomia das das pessoas com são dimensões críticas para a sua participação, tão alargada quanto possível, nas actividades das suas comunidades, que, aliás, constitui um critério essencial de inclusão.
É verdade que as pessoas com deficiência, as suas famílias, sabem, sobretudo sentem estas dificuldades. Fazem parte dos grupos sociais mais vulneráveis à pobreza e exclusão que, sublinhe-se, não decorre só das suas dificuldades específicas mas de imensas e grandes barreiras de outra natureza, incluindo o domínio das atitudes, dos valores, no fundo do cumprimento dos seus direitos.
É justamente por isso que o Estado Social é um avanço civilizacional que não pode nunca ser ameaçado ainda que, evidentemente, racionalizado e melhorado.

EXAMES FÁCEIS, EXAMES DIFÍCEIS? EXAMES ADEQUADOS? EXAMES DESADEQUADOS? DEIXEM LÁ VER

Em matéria de educação por estes dias é difícil fugir ao tema exames, apesar da reversão parcial estamos em plena época alta.
Como sempre, uma das grandes questões em apreço será a maior ou menor dificuldade dos exames.
Como é reconhecido, o presidente do Conselho Científico do Instituto de Avaliação Educativa admitiu-o em tempos numa entrevista, os exames têm sido uma arma privilegiada na gestão política do sistema educativo. Daí a necessidade de que a avaliação externa fosse da responsabilidade de uma estrutura verdadeiramente independente do poder político.
Neste contexto, através da "modulação", por assim dizer, da sua dificuldade, poder-se-á influenciar os resultados no sentido esperado e mais favorável a interesses de circunstância. Este entendimento minimiza o impacto das análises comparativas. Veja-se, por exemplo, a discussão recorrente e raramente consensual sobre o grau de dificuldade e adequação dos exames. Esta discrepância acontece, sem estranheza, até na apreciação do mesmo exame como repetidamente tem acontecido com os exames de Matemática registando-se diferentes opiniões entre a Associação dos Professores de Matemática e a Sociedade Portuguesa de Matemática.
Na época de exames deste ano lectivo temos ainda um dado que não é despiciendo, as próximas eleições pelo que ...
Em tal cenário não é irrelevante que resultados escolares mais positivos venham mostrar que “alunos e professores corresponderam com o seu trabalho” o que contribui para ratificar a “bondade das políticas educativas”.
Estes discursos aparecerão, evidentemente, sempre embrulhados em referências a rigor e a exigência.
Como diz o Velho Marrafa lá do Alentejo, “Deixe lá ver”, vamos ver como se segue a época de exames.
Em princípio, nada de novo, tudo de velho.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

É DEMAIS

A dor é demais.
A tristeza é demais.
A desolação é demais.
A ausência é demais.
O inferno é demais.
A perda é demais.
A desesperança é demais.
A impotência é demais.
As lágrimas são demais.

A incompetência é demais.
O voyeurismo é demais.
O vampirismo mediático é demais.
A tudologia ignorante do palpite é demais.
O despudor de alguns discursos é demais.
A indignidade da exposição da dor é demais.
O desrespeito ético é demais.
A hipocrisia é demais.

A dor é demais.

EXAMES PARA QUE VOS QUERO

Sem estranheza, estamos em plena época alta, o Público trazia ontem um extenso trabalho sobre os exames do secundário criando um espaço de reflexão em torno da sua existência, modelo e função.
Creio que no contexto actual a existência de exames nacionais no ensino secundário parece-me justificada como forma de regulação advinda de uma avaliação externa associada à avaliação interna. No que respeita ao seu modelo creio que seria interessante, tal como algumas opiniões expressam, caminhar para modelos de exame mais integrados em matéria curricular e menos centrados em mobilização instrumental de conhecimentos.
A terceira questão, a função, é que me parece carecer de reflexão e mudança.
Contrariamente ao que se passa em muitos países os resultados dos exames têm um peso muito significativo no acesso ao ensino superior o que contamina e enviesa aquela que me parecer a sua função central. Os exames nacionais destinam-se, conjugados com a avaliação realizada nas escolas, a avaliar e certificar o trabalho escolar produzido pelos alunos do ensino secundário. Não deveria ser mais do que isto.
Como tantas vezes tenho defendido, o acesso ao ensino superior é uma outra matéria que deveria ser da responsabilidade do ensino superior e estar sob a sua tutela.
A situação existente, não permite qualquer intervenção consistente do ensino superior na admissão dos seus alunos, a não ser a pouco frequente definição de requisitos em alguns cursos, o que até torna estranha a passividade aparente por parte das universidades e politécnicos, instituições sempre tão defensoras da sua autonomia. Parece-me claro que o ensino superior fazendo o discurso da necessidade de intervir na selecção de quem o frequenta não está interessado na dimensão logística e processual envolvida.
Os resultados escolares do ensino secundário deveriam constituir apenas um factor de ponderação a contemplar com outros critérios nos processos de admissão organizados pelas instituições de ensino superior como, aliás, acontece em muitos países.
Sediar no ensino superior o processo de admissão minimizaria muitos dos problemas conhecidos decorrentes do facto da média de conclusão do ensino secundário ser o único critério utilizado para ordenar os alunos no acesso e eliminaria o “peso” das notas inflacionadas em diversas circunstâncias e tantas vezes divulgado. Minimizaria também a forma como é percebida pelos alunos a importância de todas as disciplinas do secundário sobrevalorizando, naturalmente, as disciplinas específicas relativamente ao curso a que pretendem aceder.
Será que se chegará a algum consenso sobre esta questão?

domingo, 18 de junho de 2017

TRAGÉDIA NO INFERNO

Chegou o inferno. Chegou com uma violência brutal e trágica que não imaginávamos possível nos tempos que correm em consequência de um fogo florestal.
Todos os anos, como sempre de resto, se anunciam novas estruturas de resposta rápida e meios de combate, designadamente meios aéreos mais sofisticados e somos informados de melhorias nos dispositivos de prevenção e combate, no aumento de meios à disposição, na racionalização da gestão dos recursos, etc. etc.
Entretanto, quando se começa a verificar a ocorrência mais frequente de fogos surge o costume, a comunicação social, sobretudo a televisiva, de forma frequentemente sem pudor, respeito e competência, a mostrar o "terreno", o "cenário dantesco", a ouvir "moradores que passaram uma noite em branco", a ouvir o "senhor comandante dos bombeiros", a referir os "meios aéreos, dois Canadairs e um Kamov", a ouvir os "responsáveis locais ou regionais da protecção civil", a gravar despudoradamente imagens de dor, sofrimento e perda de gente anónima que tendo quase nada, vê arder o quase tudo. Um filme sempre visto e sem surpresas.
Este ano acresce a tragédia da morte numa tão grande dimensão que se torna difícil de acomodar.
É evidente que temperaturas muito altas e vento que nos caracterizam durante os meses de Verão são condições desfavoráveis, mas a falta de prevenção, a negligência e delinquência dão um contributo fortíssimo ao inferno que sobressalta cada Verão.
Sem nenhuma espécie de conhecimento destas matérias, para além do interesse e preocupação de um cidadão minimamente atento e preocupado com os custos enormes destes cenários de destruição, tenho alguma dificuldade, considerando a dimensão do nosso país, em compreender a inevitabilidade destes cenários. Os espanhóis têm por uso afirmar que os incêndios se combatem no inverno, nós combatemo-los no inferno.
Trata-se de um destino que não pode ser evitado? Trata-se de uma área de negócios, a fileira do fogo, que, pelos muitos milhões que envolve, importa manter e fazer funcionar sazonalmente? Trata-se "só" de incompetência na decisão política e técnica em termos de resposta e prevenção? Trata-se da falência de modelos de desenvolvimento facilitadores de desertificação e abandono, designadamente das áreas rurais?
O poeta falava de um fogo que arde sem se ver, é bonita a imagem. Mas quando um fogo arde e se vêem os seus efeitos devastadores e dramáticos, quando rouba a vida a tantas pessoas, dói, dói muito e não se perdoa. Não sabemos o quê nem a quem.
A dor é imensa.

sábado, 17 de junho de 2017

"DOPING" MENTAL

O bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, em entrevista ao Público, chama a atenção para aumento do consumo de fármacos na época das avaliações escolares.
Este consumo de fármacos não é um problema novo mas, do meu ponto de vista e como já o tenho referido aqui, é uma matéria que continua a exigir mais atenção e, sobretudo, intervenção. No entanto, como também afirma o bastonário, faltam os meios. Assim sendo … que venham as drogas. É uma questão de opção.
De facto, os ansiolíticos e o metifenidato (mais conhecido por uma das designações comerciais, Ritalina) são consumidos em níveis preocupantes que aparentemente ainda são mais elevados em época de exames. Aliás, o metilfenidato também é conhecido pelo “comprimido da inteligência” o que é ilustrativo.
Segundo estudo realizado pelo ISCTE e pela Egas Moniz – Cooperativa de Ensino Superior sobre Medicamentos e Consumos de Performance, divulgado em 2014, cerca de um quarto dos jovens portugueses, dos 18 aos 29 anos, assume ter consumido fármacos para melhorar a concentração e o mesmo número assume o consumo para descontrair e acalmar.
Este consumo e a forma de o minimizar têm de considerar alguns aspectos relativos aos estilos de vida actuais, bem como ao quadro de valores subjacente.
Em primeiro lugar e como tantas vezes tenho afirmado, a pressão para a excelência no desempenho escolar tem vindo a aumentar seriamente quer no contexto familiar quer também em muitas comunidades escolares, já não se confina à pressão para o alto rendimento desportivo, área em que a situação era mais conhecida. Acresce que em termos gerais, dadas as dificuldades e a competição, a pressão para o rendimento é algo de constante e abrangente.
Muitas pessoas, crianças, jovens ou adultos, lidam mal com esta enorme pressão para o alto rendimento e ambientes competitivos. A experiência tem-me mostrado variadíssimos casos de crianças evidenciando enorme dificuldade em gerir a pressão familiar para a excelência dos resultados escolares. Neste quadro germina facilmente quadros severos de ansiedade que são mais um “incentivo” à busca de uma ajuda química que a faça diminuir.
Por outro lado, são também conhecidos os excessos no consumo de álcool entre os adolescentes que entre si não aceitam facilmente ter um desempenho "inferior" ou medíocre em situações de grupo.
A esta pressão para o "alto rendimento" acresce a facilidade de acesso aos medicamentos e a atitude de automedicação que nos leva a sermos um dos países em que este comportamento mais prevalece e em que se consomem mais psicofármacos.
Finalmente, uma atitude genérica face ao trabalho, o trabalho escolar por exemplo, que nos faz remeter para a véspera o que deveria ser realizado de forma mais regular e espaçada no tempo. Tal facto, aumenta a sobrecarga e a pressão em curtos períodos de tempo que solicita então uma "ajudinha milagrosa" que algum colega sempre sugere e sempre se consegue.
O "doping mental" não é, no entanto, um problema dos estudantes, é, apenas, uma das muitas faces daquilo que são os nossos estilos de vida que, estes sim, deveriam merecer alguma atenção, designadamente nos programas educativos.
Seria também necessário que as escolas e agrupamentos contassem com os recursos necessários e competentes para minimizar este tipo de problemas. Como o bastonário também afirma o número de psicólogos que integrem as equipas de agrupamentos e escolas, bastante inferior às orientações internacionais sobre esta matéria, sendo que boa parte deles tem contratos provisórios para assumir funções e lidar com problemas que são permanentes e o recurso ao “outsourcing” para prestar serviços de psicologia nas escolas é um fingimento de resposta apesar do empenho e competência da generalidade dos psicólogos envolvidos que recebem muitas vezes uma indignidade que é mais um subsídio de sobrevivência que um salário e desenvolvem apoios contabilizados ao minuto e dificilmente suficientes e eficazes.
Ao que também é dito e conforme sucessivos anúncios está previso o aumento de técnicos para o próximo ano lectivo que, aliás, já deveria ter sido para este que está a terminar.
A ver vamos.

OIÇA UM BOM CONSELHO

que eu lhe dou de graça.
Apesar de não ser muito de dar conselhos não pude deixar de me lembrar do Chico Buarque.
Se puderem não andem a colher batatas com 40º, não é definitivamente a mais refrescante das actividades aqui no monte. Mas há que tirá-las da terra.
Como diz o Velho Zé Marrafa, é áspero que o calor "tá" bravo. No entanto ... tarefa cumprida.
São também assim os dias do Alentejo.
Fica o Chico ... soa sempre bem.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

DOS PROFESSORES

O universo da educação é reconhecidamente uma área em que se confrontam diversas visões de sociedade ou ideologias, onde se confrontam metodologias e argumentos com base em diversas áreas da ciência, onde se confrontam interesses de natureza exterior à educação e nem sempre coincidentes, antes pelo contrário, onde se confrontam as conveniências da partidocracia, onde se confrontam …
A conflitualidade decorrente não é um problema em si, é um fenómeno natural e mesmo uma oportunidade de mudança.
No entanto, neste universo tem emergido nos últimos anos uma outra dimensão de conflitualidade que por vezes me causa alguma perplexidade embora compreenda alguns dos seus fundamentos. Refiro-me à conflitualidade entre professores. Espero que os professores me desculpem ou me esclareçam se eventualmente estiver errado.
De há alguns anos para cá, com particular ênfase a partir da Ministra Maria de Lurdes Rodrigues e acentuando-se com a entrada no período mais severo do fundamentalismo austeritário com Nuno Crato no ME, vários aspectos das políticas educativas deram contributos sérios para um clima de crispação e instabilidade nas escolas e na profissão no qual germina e se alimenta a conflitualidade entre professores que, evidentemente, pode ser útil para a tutela política.
Recordo aspectos como a divisão entre professores titulares e professores outros, o processo de avaliação de professores lançado na mesma altura, a questão das quotas na avaliação, decisões em matéria de carreira, concursos, critérios, horários, gestão dos recursos e das cargas horárias, a sinistra PACC, etc, etc.
No entanto e apesar de tudo isto que poderia ser um contributo para criar alguma coesão mesmo com o risco de corporativismo, o que me pareceria ainda assim compreensível, vou assistindo com estranheza a dimensões de acrimónia e conflitualidade entre professores que tenho mais dificuldade em entender.
Acompanhar a imprensa mas sobretudo as redes sociais permite verificar isto mesmo, vejamos apenas alguns exemplos.
É frequente verificarmos professores de diferentes ciclos em guerra entre si, os do 1º ciclo e educação pré-escolar mais agrupados, o 2º e e 3º ciclo constituindo um outro grupo e os docentes do secundário também do outro lado da barreira numa troca de acusações sobre diferentes matérias que nem sempre consigo compreender.
É frequente um acantonamento por função e temos mais um foco de acesa discussão, por exemplo entre professores titulares de turma e professores de apoios educativos ou com outras funções. É também observável a crispação entre professores do sistema público e do sistema privado.
As discussões entre professores sobre os grupos disciplinares, os concursos, as regras, os critérios, a mobilidade como se o quadro definido fosse da responsabilidade individual de cada docente.
As críticas de professores a trabalho desenvolvido por outros professores quando esse trabalho parece ter algum reconhecimento.
As críticas frequentes de professores à formação de outros professores numa aligeirada definição entre bons e maus consoante a tipologia da formação que tiveram ou as instituições onde as obtiveram como se tudo acabasse onde na verdade apenas começa.
Bom, mais exemplos se poderiam dar.
Não defendo, muito pelo contrário, os falsos consensos e a unanimidade de opiniões e, como já disse, vejo os conflitos como oportunidades de desenvolvimento.
No entanto, o tanto que aproxima quem é Professor é muito mais do que separa quem é Professor.
Porquê e para quê este clima entre profissionais de educação?
Desculparão o atrevimento deste texto mas não serve desde logo aos professores, à sua valorização social, à sua coesão ou à promoção e divulgação da qualidade do seu trabalho.
Estarei errado?

quinta-feira, 15 de junho de 2017

UM RAPAZ CHAMADO SALTADOR

Era uma vez um rapaz chamado Saltador. Está mesmo a ver-se que com um nome destes se tratava de uma pessoa destinada a saltar. Pois foi essa a sua vida, sempre a saltar.
Passado pouco tempo de nascer saltou da família pois era negligenciado e maltratado. Saltou para uma instituição onde saltava de técnico em técnico sem se fixar em nenhum e sem ninguém se fixar nele. Aliás, até saltou de instituição devido a problemas na primeira. Entretanto o Saltador foi entregue a uma família de acolhimento de onde saltou porque as coisas não correram muito bem. Voltou a uma instituição e entrou na escola. Sem estranheza, os problemas com o Saltador começaram a acontecer, diziam que o saltador era instável, não se ligava às pessoas, que não se concentrava nas tarefas escolares, enfim, sempre a saltar de um lado para o outro. Nessa escola foi saltando de turma e de professores até que, tinha que ser, saltou de escola e para onde foi tudo recomeçou.
Ao crescer saltou da instituição e foi para casa de uma irmã mais velha que se dispôs a recebê-lo. O Saltador foi-se aguentando na casa da irmã, saltou definitivamente na escola e passou a saltar de trabalho em trabalho sempre precário e sempre a acabar quando começava a saber o que fazer.
Como ninguém gosta de andar só o Saltador encontrou um grupo de gente, tão saltadora quanto ele, e começou uma vida de saltos no escuro. A adrenalina e a tentação do ter facilmente motivaram saltos cada vez maiores.
Um dia, algo correu tragicamente mal e o Saltador deu o último salto da sua curta estrada. Saltou para o outro lado da vida.
Reparem na quantidade de gente que desde pequena leva a vida saltando, em sobressalto.

O BEM-ESTAR DOS MAIS NOVOS. O ESTADO DA ARTE VISTO PELA UNICEF

A imprensa de hoje faz referência ao Relatório da UNICEf “Building the Future - Children and the Sustainable Development Goals in Rich Countries” sobre o bem-estar das crianças nos 41 países considerados mais desenvolvidos que incluem UE e OCDE. Vale a pena a leitura.
Portugal aparece posicionado na 18ª posição considerando o conjunto dos critérios definidos.
De forma mais específica é importante a excelente apreciação no critério saúde e a baixa classificação no critério “erradicar a fome” ou “pobreza”.
O desempenho em educação está em termos médios.
Nesta síntese registo ainda para um baixo 27º lugar na “redução de desigualdades” e uma situação positiva relativamente às taxas de suicídio ainda que a ocorrência de episódios de bullying seja a oitava mais elevada neste relatório sobre 41 países.
Uma nota final para sublinhar que apesar de estarmos a analisar os países mais desenvolvidos uma em cada cinco crianças vive em pobreza relativa.
Em termos gerais, e sempre sobre os países mais ricos, o relatório da UNICEF mostra por exemplo que uma em cada cinco crianças vive em pobreza relativa e que uma em cada oito enfrenta insegurança alimentar.
O estudo cuidadoso destes indicadores no seu conjunto poderia contribuir para definir um sólido e necessário caderno de encargos em matéria de políticas que envolvam os problemas das diferentes dimensões  da vida dos mais novos.
Se assim fosse, o futuro poderia ser encarado com mais optimismo.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

ALUNOS COM NEE. E DEPOIS DOS 18 ANOS?

O Professor Filinto Lima tem ontem no DN um texto que coloca algumas questões pertinentes e dramaticamente actuais no que respeita aos alunos considerados com necessidades educativas especIais também já aqui abordadas. Uma delas é o que acontece depois dos 18 anos.
Filinto Lima refere o aumento constante do número destes alunos na escolas públicas e as implicações decorrentes. Assim tem acontecido com particular ênfase no secundário provavelmente devido ao alargamento da escolaridade obrigatória e a alguma mudança na visão sobre o trajecto educativo dos alunos com NEE. De acordo com a Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência este ano e considerando 2015/2016 o número de alunos subiu 18%, de 11062 para 13077.
Sabemos que alguns alunos passam por experiências de sucesso, felizmente que assim é. No então o período que se segue é um enorme túnel no qual poucas vezes se vislumbra uma luz. Começando pela continuidade no trajecto escolar a percentagem de alunos com necessidades especiais relativamente aos alunos que frequentavam o ensino superior em 2013/2014 era de 0.36%. No presente ano lectivo foram preenchidas apenas 14% das vagas do contingente especial para alunos com deficiência.
Se a estes dados acrescentarmos que a taxa de desemprego na população com deficiência é estimada em 70-75% e que o risco de pobreza é 25% superior à população sem deficiência e que Portugal se orgulha de ter perto de 98% dos alunos com NEE a frequentar as escolas de ensino regular no período de escolaridade obrigatória, temos um cenário que nos deve merecer a maior atenção.
Como tantas vezes tenho dito, aqui e nos espaços de contextos da lida profissional, a questão da presença dos alunos começa no que é feito no ensino básico e secundário, e existe muita matéria para reflectir e sobre as mudanças necessárias.
Por outro lado, é fundamental que com clareza, sem ambiguidades ou equívocos se entenda e após a escolaridade obrigatória os jovens, TODOS os jovens, têm três vias disponíveis formação profissional, formação escolar (ensino superior) ou mercado de trabalho (trabalho na comunidade).
A realidade mostra que os jovens com necessidades especiais estão significativamente arredados destas vias e, voltamos ao mesmo, em muitas circunstâncias ao abrigo de práticas e modelos de resposta sob a capa da … inclusão. Muitos deles ficam entregados (não integrados) às famílias no que Filinto Lima chama de Ministério Casa ou encaminham-se para instituições onde, apesar de algumas experiências interessantes, se recicla a exclusão.
Desculpem a enésima repetição mas um processo de inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.
As pessoas com NEE de diferente natureza depois dos 18 anos devem ser, estar, participar e pertencer aos contextos que todas as outras pessoas com mais de 18 anos estão. As instituições ou voltar para a família serão sempre um recurso e nunca uma via.
É também claro que no âmbito do ensino superior importa que se proceda a ajustamentos de natureza diversa, atitudes, representações e expectativas, oferta formativa, custos, acessibilidades e apoios ou, aspecto fundamental, promover melhor articulação com o ensino secundário
As questões mais complexas decorrem, os estudos e a experiência sugerem-no, das barreiras psicológicas e das atitudes, pessoais e institucionais, seja de professores, direcções de escola, da restante comunidade, incluindo, naturalmente, professores do ensino básico e secundário e de "educação especial", técnicos, os alunos com necessidades especiais e famílias
Também é minha convicção de que as preocupações com a frequência do ensino superior por parte de alunos com necessidades especiais é fundamentalmente dirigida aos alunos que manterão as capacidades suficientes para aceder com sucesso à oferta formativa tal como ela existe. Estou a referir-me, evidentemente, aos alunos que não têm “diagnóstico” de problemas de natureza cognitiva.
No entanto, como tantas vezes digo, esta preocupação deveria ser mais alargada, estamos a falar de inclusão e agora, se quiserem, da minha utopia.
Porque não podem frequentar estabelecimentos de ensino superior? Sim, frequentar o ensino superior onde estão jovens da sua idade e em que a oferta formativa se for repensada e a experiência de vida proporcionada podem ser importantes.
Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências noutras paragens mas também por cá mostram que não é utopia.
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.
Eu já disse e escrevi isto várias vezes. Peço desculpa mas continuarei a fazê-lo.

PERPLEXIDADE E INQUIETAÇÃO

Eu sei que se passa lá muito longe, do outro lado do mar. Também sei que no mundo em que vivemos o longe é cada vez mais perto.
Não é possível ler isto sem alguma perplexidade e inquietação embora se possa compreender o contexto que sustenta a decisão.
É que estamos a falar de educação, de escola, de professores, de alunos … do futuro.
O mundo anda feio.


terça-feira, 13 de junho de 2017

A ESCOLA FAZ A DIFERENÇA . Mais um exemplo

Mais uma vez.
Não é milagre, não é acaso, não é mistério, com recursos e visão a escola pode, deve, fazer a diferença e contrariar o destino de insucesso que aguarda, sobretudo, pelas crianças nascidas no lado menos confortável da vida.
Apesar de todas as dificuldades são possíveis as boas práticas que merecem divulgação e reconhecimento.
Apoios precoces, competentes e adequados às dificuldades percebidas pelos alunos são eficazes e não carecem de nenhuma inovação, a retórica que já cansa.


"Não há uma receita que eu possa dar, que se siga e está implementada. É preciso vencer várias barreiras ao longo do tempo", avisa Alberto Rodrigues (o director da escola). "A exigência é o caminho para o sucesso", considera, incluindo-se a si próprio e a todo o pessoal da escola nos alvos dessa exigência. E também os alunos, claro. Mas com uma regra básica: "A escola tem de ser um local onde as crianças se sentem bem e são felizes. Têm de ser felizes na escola para aprenderem."

BALCÕES DE INCLUSÃO

Em 21 de Abril de 2016 quando foi colocado em funcionamento o primeiro Balcão de Inclusão no Centro Distrital de Lisboa da Segurança Social, coloquei umas notas no Atenta Inquietude.
De há vários anos que os estudos e a experiência mostram que as pessoas com deficiência ou as suas famílias identificam como uma das áreas de necessidade frequentemente expressa a necessidade de informação relativa a diferentes dimensões.
Uma primeira dimensão remete para a necessidade expressa de obter informação clara e de forma acessível sobre o quadro normativo que lhes diz mais especificamente respeito considerando a natureza diferenciada dos problemas.
Uma segunda dimensão remete para necessidade de conhecer com clareza e de forma global, em todas as áreas, os dispositivos de apoio que estão disponíveis.
Em matéria, por exemplo, de funcionalidade e acessibilidades, segurança social e emprego ou saúde e educação, a experiência tem-me mostrado que muitas pessoas e famílias desconhecem a existência de alguns apoios que estão previstos.
Também sei que nem sempre o que é suposto existir ou o que está definido num normativo é o que se encontra e passa na realidade mas o conhecimento sobre o que existe permite uma cidadania mais cumprida e também mais exigente.
Neste contexto, a criação de uns designados Balcões de Inclusão dedicados ao universo das pessoas com deficiência é uma iniciativa positiva mas que carece de ser estendida a várias das dimensões que enunciei acima.
Esta necessidade é ainda mais premente num país como o nosso que possui um quadro legislativo complexo, tem o mau hábito de encharcar os normativos com doutrina o que dificulta a sua interpretação, as más-línguas dirão que intencionalmente. Acresce a esta característica a enorme dispersão de competências por milhentas entidades de vários ministérios, por vários patamares, regional e local que, só por si, constitui mais um enorme obstáculo, mais um, à acessibilidade.
Esta iniciativa representa um passo pequeno no caminho de cidadania mais robusta por conhecimento e acesso aos direitos e deveres que obrigam todos, todos, os cidadãos.
Em peça de hoje no Público sublinha-se o seu aparente sucesso, estão em funcionamento balcões de Inclusão nos 18 Centros Distritais da Segurança social e em 52 Câmaras tendo-se registado cerca de 12000 atendimentos neste ano de funcionamento.

PS - Como também afirmei não gosto particularmente da designação Balcões de Inclusão. O termo está tão desgastado que já nem sabemos bem o que significa. Conheço tantas práticas e tantos discursos que alimentam exclusão e que são desenvolvidas e e pronunciados  ... em nome da inclusão. Cada vez me lembro mais do Mestre Almada negreiros que na "cena do Ódio" fala da "Pátria onde Camões morreu de fome e todos enchem a barriga de camões".

segunda-feira, 12 de junho de 2017

DA CONDIÇÃO DOCENTE

Por alguma razão que me escapa um trabalho publicado em 9 de Junho de 2016 sobre a Recomendação aprovada nesse dia pelo Conselho Nacional de Educação, “A condição docente e as políticas educativas”, encontra-se actualmente entre as peças mais lidas na página online do Público. Sinto curiosidade sobre a razão desta reactualização.
De qualquer forma ainda bem que se assim é pois alguns dos problemas respeitantes às condições de exercício da função docente são também problemas nossos pois têm um impacto significativo na qualidade do trabalho de alunos e professores. Burocracia excessiva, número de alunos por turma, efeitos dos mega-agrupamentos  e dispersão por demasiadas turmas e espaços, etc. são alguns dos exemplos.
Será útil a leitura da recomendação e deixo umas notas dessa altura. Também me parecem ainda actuais.
Sem novidade, tenho para mim que miúdos e professores são os dois grupos em que assenta qualquer comunidade nas sociedades contemporâneas. Os miúdos porque são o futuro e os professores porque, naturalmente, o preparam, tudo passa pela escola e pela educação.
Raramente a profissão professor tem estado tanto em foco como nos últimos anos bem como a necessidade de defender a qualidade da escola pública sob ameaça significativa. Desencadearam-se múltiplas acções políticas que contribuíram para degradar a sua função, a sua imagem social e o clima e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas.
Opções políticas assumidas e em curso têm contribuído para uma atenção continuadamente dirigida para a educação e para os professores. Essa atenção advém de boas e más razões. Não cabe aqui um balanço alargado o, e entendo que, tal como os miúdos, os professores não têm sempre razão, ninguém tem. No entanto, gostava de deixar algumas notas.
Em primeiro lugar importa desde logo sublinhar que ser professor no ensino básico e secundário por razões conhecidas e por vezes esquecidas, é hoje uma tarefa de extrema dificuldade e exigência que social e politicamente justifica o maior reconhecimento que nem sempre é evidente. Vejamos.
Pensemos no que é ser professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.
Pensemos ainda na forma como milhares de professores cumprem a sua carreira, muitos deles sem a possibilidade de desenharem projectos de vida para si quando são os principais responsáveis por lançar projectos de vida para os miúdos com quem trabalham. Nos últimos anos milhares de professores, de bons professores e professores necessários, foram constrangidos à reforma e muitos ao desemprego por uma política de contabilidade inimiga da educação pública e da qualidade. Veja-se os sucessivos processos de colocação de professores e as situações dramáticas que a incompetência e a arrogância de diferentes equipas na 5 de Outubro produziram.
Pensemos em como os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma ignorante barbaridade qualquer, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.
Pensemos como é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Pensemos em como a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem.
Pensemos finalmente nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.
Gostava ainda de deixar uma ideia do enorme João dos Santos, “O Professor João, foi meu professor porque foi meu amigo” e uma convicção pessoal que a idade cada vez mais cimenta, qualquer professor ou educador, tanto ou mais do que aquilo que sabe, ensina aquilo que é.
A prova é que de todos os professores que connosco se cruzaram os que mais nos marcaram positivamente foi sobretudo pelo que eram e menos pelo que nos ensinaram.

NEM AS MOSCAS VARIAM

Duas notícias estimulantes.
A primeira referente às nomeações para a administração da TAP envolvendo o pessoal do costume na dança das cadeiras e sempre por critérios que decorrem da mais alta competência, foram nomeados três autênticos “aviadores” com larguíssima experiência no universo simples do transporte aéreo.
A segunda referência, divulgada no Sol sobre a alegada alteração por parte do ME dos mapas geográficos que sustentam o estabelecimento dos contratos de associação. Esta alteração, realizada depois do concurso em desenvolvimento terá permitido que um colégio com as ligações certas, agora ao PS, aceda a financiamento até 2020. Que eu saiba a notícia não foi desmentida, dou-a como confirmada. 
Como diz o povo “os amigos são para as ocasiões” e este pessoal que vai passando pelo poder político é amigo do seu amigo e favores com favores se pagam.
Ele há coisas que são estrutura, não são conjuntura, nem as moscas, às vezes, variam.
São assim as contas da partidocracia. Em alternância pois claro. Aliás, é absolutamente espantoso e um insulto à inteligência e memória ouvir as reacções de Passos Coelho e Assunção Cristas a estas duas notícias
Sim, eu sei que este enunciado tem uma ponta de demagogia mas não me parece ilegítima.

domingo, 11 de junho de 2017

ESTAS CRIANÇAS NÃO PÁRAM! ERRADO, ESTAS CRIANÇAS NÃO SE MEXEM

No Público surge uma referência a um estudo desenvolvido no âmbito de um projecto internacional, A Aliança “Active Healthy Kids”, que analisa o nível de desenvolvimento em matéria de estilos de vida saudáveis, designadamente no que respeita à actividade física de crianças e adolescentes.
O projecto decorre dos níveis de sedentarismo e obesidade preocupantes revelados por crianças e jovens e pretende estimular a definição nos diferentes países de políticas públicas mais favoráveis.
Sem estranheza face aos dados conhecidos de outros estudos, as crianças e jovens portugueses em nenhum dos nove domínios considerados atingem os indicadores mais positivos.
Apesar disto é curioso que uma das mais frequentes afirmações dirigidas ao comportamento das crianças e adolescentes é “Estas crianças não param”, ou algo no mesmo sentido. Na verdade, apesar da frequência da sua utilização, parece-me desajustada pois, de facto, as crianças não se mexem e, também por isso provavelmente ... "não páram". Este estudo vem mais uma vez comprovar isso mesmo. Mais alguma informação.
Segundo o Relatório “Health at a Glance: Europe 2016” em Portugal mais de uma em cada quatro crianças tem excesso de peso. Nas raparigas ultrapassa os 30% e nos rapazes temos 25%.
Acresce que no que respeita à actividade física e considerando a recomendação da OMS de uma hora diária de actividade física aos 11 anos só 16% das raparigas e 26% dos rapazes cumprem e aos 15 anos temos 5% das raparigas e 18% dos rapazes.
Creio ainda de sublinhar que estudos realizados em Portugal mostram que a obesidade infantil é já um problema de saúde pública, implicando por exemplo o disparar de casos de diabete tipo II em crianças.
Apesar de parecer uma birra ou teimosia acho sempre importante sublinhar a importância que deve merecer a questão dos hábitos alimentares e o combate ao sedentarismo, sobretudo nos mais novos.
Ainda no que respeita à actividade física, um trabalho da Universidade de Coimbra divulgado em 2013 sublinhava, mais uma vez, o impacto que o sedentarismo tem na saúde das crianças. Este estudo envolveu 17424 crianças entre os 3 e os 11 anos e mostrou a forte relação entre hábitos fortemente sedentários, ver televisão por exemplo, e obesidade infantil e óbvias consequências na saúde e bem-estar dos miúdos.
Um outro trabalho de 2012 da Faculdade de Motricidade Humana envolvendo cerca de 3000 alunos que evidenciava o efeito positivo da actividade física no rendimento escolar para além dos benefícios óbvios na saúde.
De registar ainda que apesar da simpatia do clima somos um dos países com menor prática de actividades de ar livre.
De facto, o quotidiano de crianças e adolescentes está excessivamente preenchido com actividades que solicitam pouca actividade física, numa escola a tempo inteiro em que, apesar de boas práticas que existem, passam horas sem fim em salas com actividades “fantásticas” sempre sentados ou, quase, parados.
Em casa, o cenário é do mesmo tipo só que em frente de um ecrã. Os estudos comprovam que o nível de actividade física de crianças e adolescentes está francamente abaixo do desejável para a sua faixa etária sendo, aliás, mais satisfatório em adultos e também baixo para os idosos. Por outro lado, este é o equívoco a que me referia, instalou-se a “ideia” de que as crianças e adolescentes não param, são muito activas, até mesmo hiperactivas” pelo que os desejos de muitos pais e professores é que estejam mais “calmas”, mais “sossegadas” e não tão “activas”, às vezes até se medicam para que se aquietem.
Por isso e de uma vez por todas, que crianças e adolescentes não parem, que as não envolvam e incentivem a actividade sedentária tantas horas por dia e que ajudemos todos pais e comunidades a construir alternativas que sejam atractivas para os tempos dos mais novos.
É uma questão de saúde, física e mental, para crianças e adolescentes e, também, para os adultos que lidam com eles.

MEDITAR NA ESCOLA

Por aqui no Alentejo assisto a uma peça na RTP sobre um projecto europeu que estuda o impacto do recurso à meditação nas salas de aula. Este projecto também envolve escolas e investigadores portugueses.
Ao que fomos ouvindo a investigação, sustentada nos fundamentos da psicologia positiva, parece repercutir-se no rendimento escolar, nos comportamentos, na saúde mental e, globalmente, no desempenho de alunos e professores.
Aguardo os resultados com expectativa também ela positiva pois creio que estamos no bom caminho.
Desde há muito que entendo que é fundamental meditar na escola.

sábado, 10 de junho de 2017

DAS VIDAS JOVENS SEM PROJECTO, SEM FUTURO

O Relatório da Comissão de Acompanhamento e Fiscalização dos Centros Educativos volta a sublinhar os problemas sérios destas instituições que recebem jovens com penas de internamento por comportamentos de delinquência cometidos antes dos 16 anos.
Um dos dados mais preocupantes é o agravamento significativo do número de jovens com problemas de saúde mental sem o diagnóstico e acompanhamento adequados.
Segundo o Relatório, 73,5% do total de rapazes e raparigas entre os 12 e os 16 anos que estão nos Centros Educativos apresentam estas problemáticas. Considerando os números temos 100 entre os 136 enquanto no ano de 2015 se contavam 82 em 186 jovens internados, 44%.
Algumas notas.
Parece importante considerar que conforme dados da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais diminuiu em 8.6% o número de jovens internados em centros educativos em Dezembro de 2016 face ao número de Dezembro de 2015, 186 para 136.
Este abaixamento, pode dever-se a uma alteração na administração da medida de internamento pois no mesmo período foram registados 1920 pedidos de apoio a medidas tutelares educativas na comunidade, representando um crescimento de 40,14% face a 2015. Assim, o abaixamento do número de internamentos não será explicado apenas pela diminuição dos comportamentos de delinquência entre jovens.
Na verdade, a experiência e os estudos relativos à reincidência mostram que apenas prender, ou internar no caso dos jovens, é muitas vezes insuficiente para alterar trajectos de delinquência o que o Relatório deste ano volta a sublinhar.
Considerando os 186 jovens que em Fevereiro de 2015 cumpriam medidas tutelares nos Centros Educativos, 144 estavam já sinalizados, referenciados, por processos de promoção e protecção. Dito de outra maneira, trata-se de jovens com um processo longo e conhecido de problemas e circunstâncias de vida bem adversas.
Recordo também que resultados do Projecto Reincidências – Avaliação da Reincidência dos Jovens Ofensores e Prevenção da Delinquência, da responsabilidade da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, e realizado entre Janeiro de 2013 e Janeiro de 2015 mostram que 33.2% dos jovens inquiridos e que já passaram por uma medida tutelar educativa que pode incluir internamento em Centro Educativo reincidem na prática de delitos.
Acresce que os Centros Educativos sentem ainda forte constrangimento em matéria de recursos humanos pelo que mais dificilmente cumprem o seu papel fundamental de reabilitação através da construção de programas de educação e formação profissional.
Ainda de acordo com um estudo divulgado há algum tempo realizado no âmbito do Programa de Avaliação e Intervenção Psicoterapêutica no Âmbito da Justiça Juvenil, promovido pela Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e co-financiado pela Comissão Europeia, a população que está nos Centros Educativos acumula, em geral, mais de três anos de chumbos na escola e em 80% dos casos é oriunda de famílias de baixo estatuto socioeconómico.
Sempre que estas matérias são discutidas, os especialistas acentuam a importância da prevenção e da integração comunitária como eixos centrais na resposta a este problema sério das sociedades actuais pelo que a resposta recentemente criada, (mas creio que ainda só no papel) “casas de autonomização” pode constituir-se como um contributo se dotada de recursos adequados.
As Comissões de Protecção de Crianças e Jovens sentem-se incapazes de acompanhar o volume de casos das respectivas comunidades, gerando situações, muitas conhecidas, com fim grave de crianças que depois ficamos a saber, os dados de hoje confirmam-no, que estavam “sinalizadas” ou “referenciadas”, mas sem resposta.
Sabemos que educação, prevenção e programas comunitários e de integração têm custos, no entanto, importa ponderar entre o que custa prevenir e cuidar e os custos posteriores do mal-estar e da pré-delinquência ou da delinquência continuada e da insegurança.
Parece ser cada vez mais consensual que mobilizar quase que exclusivamente dispositivos de punição, designadamente a prisão, parece insuficiente para travar este problema e, sobretudo, inflectir as trajectórias de marginalização de muitos dos envolvidos mais novos em episódios de delinquência.
No entanto a discussão sobre estas matérias é inquinada por discursos e posições frequentemente de natureza demagógica e populista alimentados por narrativas sobre a insegurança e delinquência percebida, alimentadora de teses securitárias.
Apesar de, repito, a punição e a detenção constituírem um importante sinal de combate à sensação de impunidade instalada, é minha forte convicção de que só punir e prender não basta.
É em todo este caldo de cultura que nascem e se desenvolvem as sementes de mal-estar que geram os os episódios que regularmente nos assustam e inquietam e com consequências sérias.
É urgente que nos questionemos e questionemos as instituições, em nome dos nossos filhos e dos filhos dos nossos filhos.
Recordo Brecht, "Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem".

MEU CARO PORTUGAL

Meu caro Portugal,

Neste 10 de Junho, dia em que te comemoras, aqui estou a escrever-te, de novo. Ainda sou do tempo em que se escreviam cartas aos amigos.
Se bem te recordas, a carta que te enviei o ano passado não era particularmente optimista. Apesar de algumas mudanças para melhor o ano foi complicado para muita gente. Tem vindo a registar-se alguma melhoria, muitos de nós temos mais confiança mas o mundo lá por fora também não está de forma a descansarmos, antes pelo contrário.
Como sabes, conhecemo-nos há umas décadas. Quando te conheci eras um tipo tristonho, cinzento, com a gente calada e com medo de quem em ti mandava. A partir de certa altura, entraste em guerra e a nossa relação complicou-se, assim como a situação de toda a gente. Nesses tempos, o resto do mundo vivia longe e todos nós, que te habitávamos, nos sentíamos distantes de tudo e tudo era difícil de conseguir.
Um dia, tu mudaste. De repente, ficaste a cores, o longe ficou perto, a tristeza ficou alegre, o impossível parecia possível. Foram os tempos da brasa, dizíamos. Tudo era depressa, tudo era ontem, até a guerra. Foi um tempo para descobrir, transgredir, aprender e progredir. Para a democracia, finalmente. Lembras-te? Fizemos as pazes.
Meu caro Portugal, a poeira entretanto começou a assentar e entrámos na chamada normalidade democrática, campanhas, eleições, mudanças de governo, desenvolvimento, etc. Apesar de alguns solavancos fomos mantendo uma relação tranquila. Então, juntaste-te a outros mais desenvolvidos, a União Europeia, e perdeste um bocado a voz que gostávamos de ouvir, por nós. Para um tipo pequeno como tu, pode ter sido boa ideia, embora, é preciso dizê-lo, a entrada na "CEE" também tenha estado associada a uma devastadora e irresponsável destruição nas áreas das pescas, agricultura e indústria de que ninguém assume a responsabilidade.
E aqui estamos meu caro, mais velhos, sabes que entretanto passei à condição mágica de avô, e vamos mantendo uma relação como a que os velhos amigos têm. Zangamo-nos, fazemos as pazes, zangamo-nos de novo e, de novo nos entendemos. Quando me afasto de ti sinto saudades, quando estou contigo aborreces-me e vamos andando nisto.
Nos últimos anos tenho-te sentido diferente. Tornaste-te mais desalentado, triste e com muita desesperança nos rostos. É certo que a situação à tua volta também não ajudava e não ajuda e contigo as coisas não vão bem, mas é importante que te sintas com futuro. Isso para nós é fundamental, para nos sentirmos bem contigo. Embora nos tenham dito para partir, é contigo que gostamos de estar. Por ti, pelos nossos filhos e pelos filhos dos nossos filhos. Felizmente agora pareces um pouco melhor, mais animado e mais confiante, esperemos que te mantenhas assim.
Se bem te lembras na carta que te enviei o ano passado já te dizia que não te sentia bem, achava-te em baixo, como diz o teu povo.
Nestes últimos anos continuou instalada por todo o mundo uma complicada situação a que tu também não tens conseguido fugir e que piorou. Muita gente sem trabalho, vamos envelhecendo sem esperança em dias melhores. Os tempos vão crispados, feios, marcados pela indignidade da pobreza. É verdade que mais recentemente se notam sinais positivos mas as pessoas ainda não sentem.
Com a mudança de cenário político em 2015 alguns, é o meu caso, criaram alguma em mudanças que em alguns aspectos já se verificam e noutros tardam. Para outra gente este novo cenário político não agrada e anunciam permanentemente a desgraça. Oxalá se enganem.
O problema, meu caro Portugal, é que boa parte das lideranças que acolhes, em diferentes áreas também não têm sido capazes de promover a esperança, parecem mais parte do problema que parte da solução. Aliás, poder-se-á dizer que muita desta gente que nos tem governado não tem currículo, tem cadastro.
Entretêm-se nos jogos da política pequenina, provavelmente por falta de competência para a política grande.
Como se não bastasse a crise instalada ainda foi aparecendo uma rapaziada, todos bons amigos, a gerir estruturas e empresas públicas que acumulam tantos prejuízos como essa rapaziada acumula prémios que, em decisões difíceis de entender, terão de ser pagos com o dinheiro e sacrifícios do cidadão, prejuízos e prémios. Na banca, como sabes, continuaram a acumular-se situações de delinquência e incompetência dos que a administram com as consequências habituais, pagamos nós.
Os casos de corrupção e manhosices dos pequenos e grandes poderes não têm fim e ninguém parece seriamente empenhado em contribuir para que terminem. Cada ano traz um caso novo, agora é a EDP.
Ao que nos foram vendendo, para colocarem as tuas contas em ordem, colocaram a nossa vida em desordem, chamaram-lhe austeridade e tinha que ser assim, custe o que custar, dizem. Disseram e insistiram que vivíamos acima das nossas possibilidades mas de há algum tempo para cá muitos portugueses vivem abaixo das suas necessidades.
A gente que agora chegou ao poder está a tentar fazer diferente, esperemos que consigam, por nós e por ti.
Como sabes, falámos disso na carta do ano passado, temos um Presidente da República novo, o conhecido Professor Marcelo. O homem não pára e não se cala. A coisa parece correr bem e eu até nem tinha grande expectativa. A verdade é que Cavaco Silva não me deixou saudades.
Pois é meu caro e velho Portugal, alguns com responsabilidade mas sem visão foram sugerindo que talvez fosse melhor ir embora de ti. Na verdade, é o que aconteceu a muita gente nova, procurar a sorte noutras paragens, noutras aragens, como cantava o Manuel Freire. O futuro aqui parece inacessível mas, como já te disse, é aqui que gostamos de ser gente.
Que está a acontecer meu velho? Podemos ter esperança? Com a tua história temos que ter confiança embora também não dependa só de nós.
Temos que dar a volta a isto. Apesar de pequeno tens que protestar, não podemos ser apenas uma feitoria de quem não considera as pessoas mas os mercados. Não podemos aceitar não ter futuro meu caro, temos que nos organizar para um projecto de futuro, temos que ser soberanos no nosso destino ainda que solidários com a outra gente. Para que te cumpras meu caro Portugal.
Espero que para o próximo ano te possa encontrar em melhor estado. Até lá recebe um abraço de confiança.

10 de Junho de 2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

AS NOVAS QUALIDADES DAS FAMÍLIAS

O Expresso de ontem apresentava uma interessante peça em vídeo que de forma muito simples evidenciava as mudanças muito significativas que a configuração das famílias tem vindo a acomodar.
São, aliás, frequentes as referências na imprensa às emergentes e diferentes dinâmicas de constituição, organização e funcionamento dos “novos” agregados familiares acentuando as alterações observadas, algumas das quais desencadeando enorme discussão, como é o exemplo da co-adopção por casais homossexuais em que se misturam valores e ciência para sustentar diferentes entendimentos.
No entanto, do meu ponto de vista, quase sempre me parece que as diferentes abordagens não valorizam, por vezes nem referem, um aspecto que entendo relevante e que considero dos mais complexos desafios sociais que actualmente enfrentamos, a educação familiar, ou seja, o que é, o que deve ser, como deve ser a educação familiar em contextos altamente diferenciados e em mudanças permanentes.
Esta minha questão releva do entendimento de que independentemente da configuração a família, a educação familiar, é um bem de primeira necessidade para todas as crianças.
A verdade é que as enormes alterações que temos vindo a constatar no universo das famílias implicam uma séria reflexão sobre as suas implicações e impacto na educação familiar. O paradigma clássico, a família educativa e a escola instrutiva, mudou substantivamente o que não significa, obviamente, a alienação do papel educativo da família, mas sim atentar nas novas qualidades que esse papel vai assumindo, parafraseando Camões.
Desde logo porque, por questões de logística e funcionalidade, o tempo familiar para as crianças encolheu de forma dramática, os miúdos passam tempos infindos na escola sob um princípio a que até o MEC se lembrou de chamar de forma infeliz “Escola a tempo inteiro”. As famílias expressam uma enorme dificuldade em compatibilizar o que ainda entendem ser o seu papel educativo com a pressa e o pouco tempo que assumem ter para o realizar. Tenho conhecido dezenas de pais que se sentem culpados e fragilizados por entenderem que não têm a disponibilidade de tempo e atitude que julgam necessária para os filhos. Esta culpa e fragilidade é, com frequência, a base inconsciente que impede alguns pais de serem consistentes e firmes na definição de regras e limites imprescindíveis às crianças, pois “temem estragar” o pouco tempo que têm com elas devido a um eventual conflito.
Uma outra questão prende-se com o modo e a dificuldade que muitos pais me referem sentir quando lidam com as crianças em situação de “duas famílias” mesmo em separações não litigiosas e com níveis de agressividade por vezes inquietantes. Mais uma vez, as inseguranças e algum sentimento de culpa estão presentes e contribuem para embaraços que levam os pais a pedir alguma ajuda. Como sempre digo, é preferível uma boa separação a uma má família, mas alguns pais sentem-se inseguros para construir cenários de educação familiar com qualidade quando têm a guarda das crianças repartida.
Tem vindo a crescer o número de situações de casais que apesar de separados continuam a coabitar o mesmo espaço ou que nem sequer assumem a separação, criando uma situação de "casados por fora" e "descasados por dentro", poderá implicar, quando existem filhos, algumas ansiedades e inquietações nos pais sobre a forma de lidar com um contexto em que aparentemente existe uma família, quando na verdade já são duas com uma ou mais crianças entre elas.
As crianças são resilientes e acomodam melhor eventuais dificuldades quando estão com adultos que delas cuidam e lhes dedicam afecto
A experiência mostra, como referi acima, que a educação familiar se constitui como uma área extremamente complexa, não existem dois contextos familiares iguais sendo que, para além de tudo, se trata de um universo extremamente sensível a valores e convicções.
Assim sendo, importa estarmos atentos e procurar disponibilizar apoios e orientações nas situações em que os pais revelam e exprimem mais insegurança e dificuldades e que muitas vezes são fonte de grande sofrimento para todos os envolvidos. Estas situações são bem mais frequentes e graves do que julgamos.
E envolvem famílias de diferentes configurações.

DEFINITIVAMENTE, NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES

A imprensa divulga algo que julgo constituir uma boa notícia no universo da educação. Existem mais alunos inscritos na próxima época de exames nacionais do secundário e também aumenta, ainda que ligeiramente, a percentagem de alunos que na altura da inscrição nos exames revela intenção de se candidatar ao ensino superior, de 55 para 56%, ainda assim baixa. Depois de alguns anos em se verificaram descidas é importante registar este aumento que esperemos ver confirmado e aumentado nos próximos anos.
A abordagem às razões para este cenário de preocupante desinvestimento na formação superior, politécnica ou universitária, remete quase sempre para as dificuldades económicas das famílias.
Dados disponíveis têm sustentado este entendimento mas, do meu ponto de vista, há ainda que considerar os eventuais efeitos de um discurso recorrentemente difundido de que, dada a enorme taxa de desemprego de jovens com qualificação superior, o investimento numa qualificação superior não compensa pois não existe mercado de trabalho, alguns empregos que surgem são precários e mal pagos e muita gente qualificada está a ser empurrada para fora por falta de futuro cá.
Por partes. Na verdade, Portugal, conforme alguns estudos demonstram, tem comparativamente a muitos outros países da Europa, um dos mais altos custos para as famílias a situação de um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior privado o esforço é ainda maior. Tem vindo a ser regularmente noticiada a desistência da frequência dos cursos por muitos alunos que, por si, ou os respectivos agregados familiares não suportam os encargos com o estudo.
Estas dificuldades são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Neste contexto, o abaixamento na intenção de prosseguir estudos superiores pode estar associado às dificuldades enormes que muitas famílias atravessam e o desemprego mais elevado entre os jovens, que poderia constituir uma pressão para continuar os estudos a que acresce a redução significativa das bolsas e apoios, tornam ainda mais difícil a realização de percursos escolares que promovam mobilidade social e que se traduz, por exemplo, no aumento das desistências ou mesmo na intenção e disponibilidade para estudar.
Relativamente aos discursos sobre “estudar não compensa”, o futuro é o desemprego, umas notas.
Como muitas vezes aqui tenho afirmado Portugal é o país da OCDE em que estudar mais compensa ao nível do estatuto salarial, segundo o Relatório da OCDE, "Education at a Glance 2012", a diferença salarial de jovens com licenciatura para jovens com formação a nível do secundário é de 69 %.
Não esqueço o altíssimo e inaceitável nível de desemprego entre os jovens, em particular entre os jovens com qualificação superior, mas esta questão decorre do baixo nível de desenvolvimento do nosso mercado de trabalho, de circunstâncias conjunturais e de erradas políticas de emprego e não da sua qualificação.
Neste cenário e como sempre afirmo, o discurso muitas vezes produzido no sentido de que "não adianta estudar" não colhe e não tem sustentação sendo, um autêntico tiro no pé de uma sociedade pouco qualificada como a nossa que, efectivamente e contrariamente à tão afirmada quanto errada ideia de que somos um país de doutores, continua, em termos europeus, com uma das mais baixas taxas de qualificação superior em todas as faixas etárias incluindo as mais jovens. Aliás, estamos longe de poder vir a cumprir a meta a que nos comprometemos com a UE para 2020, 40% de pessoas licenciadas entre os 30 e os 34 anos.
Conseguir níveis de qualificação compensa sempre e é imprescindível. Estudar e conseguir qualificação de nível superior compensa ainda mais.
O que acontece verdadeiramente é termos desenvolvimento a menos, não é qualificação a mais, temos um mercado de trabalho que a cegueira da austeridade e do empobrecimento tem vindo a proletarizar e que não absorve a mão-de-obra qualificada. Não podemos passar a mensagem de que a qualificação não é uma mais-valia.
É um tiro no pé.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

ESTUDA MIÚDO

Estuda miúdo, estuda muito.
Tens que estudar mais. Assim não irás a lado nenhum.
Estuda miúdo, estuda muito.
O mundo não é para gente com notas baixas, o mundo é para os bons.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não te distraias, olha os exames.
Estuda miúdo, estuda muito.
Lê com atenção, tira apontamentos, faz exercícios.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não te atrases para a explicação, põe as dúvidas todas.
Estuda miúdo, estuda muito.
Agora não tens tempo para essas coisas, agora é para estudar, estão aí os exames.
Estuda miúdo, estuda muito.
Já fizeste os exercícios todos? Procura na net, existem muitos, de todas as disciplinas.
Estuda miúdo, estuda muito.
Já sabes como é importante estudar e ser excelente. Só assim terás uma vida boa e serás alguém.
Estuda miúdo, estuda muito.
Estás cansado? Deixa-te de pieguices, é preciso sofrer para atingirmos o que queremos, para sermos alguém.
Estuda miúdo, estuda muito.
Brincar? Não miúdo, brincar é perder tempo. Os melhores não perdem tempo a brincar.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não aguentas? Aguentas sim, tens que aguentar, só os fortes é que chegam lá cima, não podes desistir.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não páres, não penses, não vivas …
Estuda miúdo, estuda muito.

PS - Boa sorte miúdo

AS PROVAS DE AFERIÇÃO

Depois do arranque com alguns sobressaltos da realização das provas de aferição no Ensino Básico, em Maio com as áreas das Expressões Artísticas e Expressões Físico-Motoras no 2º ano, realizam-se hoje provas de aferição do 5º e do 8º ano.
Como já aqui tenho escrito, este processo, reintrodução das provas de aferição, desenvolveu-se com vicissitudes dispensáveis e com conteúdos que me levantam alguma reserva embora considere genericamente que as provas de aferição são uma opção correcta.
A eliminação dos exames e a sua substituição pelas provas de aferição não ocorreu com o calendário e metodologia mais aconselhável, depressa e bem não há quem.
Como também tenho afirmado, continuo com muitas dúvidas sobre a realização das provas de aferição em anos intermédios dos ciclos, 2º. 5º e 8º. Uma aferição, creio, deverá ser realizada no final de um período de aprendizagem. Só nessa altura será possível “aferir” os resultados que se encontram face aos resultados que se esperam e ter uma visão global comparativa.
Uma avaliação durante um período de trabalho com o objectivo de detectar dificuldades e corrigir trajectórias é evidentemente um requisito de qualidade mas é, do meu ponto de vista, uma avaliação de diagnóstico, de regulação, não de aferição.
Por outro lado, no seu desenho e conteúdo, estas provas de aferição são mais completas que o modelo antigo o que me parece de sublinhar incluindo as áreas curriculares “Estudo do Meio” e Expressões. Estas já se realizaram em Maio com alguma perturbação noticiada.
No 5º e 8º também começam a ser avaliadas outras áreas curriculares para além de Português e Matemática. Aliás, realizam-se hoje as provas de História e Geografia de Portugal do 5º ano e de Ciências Naturais e Físico-Química do 8º.
É ainda relevante que em Português será também avaliada a componente da oralidade.
Uma outra questão que também já referi em textos anteriores é a disponibilização para pais e encarregados de educação de um Relatório detalhado do desempenho dos seus educandos nas provas de aferição. As escolas, terão também, naturalmente, a informação completa.
Entendo, claro, que os pais e encarregados de educação devem ser, tanto quanto possível, envolvidos e informados sobre o trajecto escolar dos seus educandos. No entanto, também sei das dificuldades sentidas neste envolvimento e o nível de literacia e qualificação escolar dos pais e encarregados de educação, factor que continua, aliás, a ser uma das variáveis mais fortemente associada ao desempenho escolar dos filhos.
Sendo provável que os alunos com desempenho mais baixo terão os pais com menor nível de qualificação escolar coloca-se uma questão em termos de educação familiar. Que farão os pais destes alunos com o “relatório” que receberão sobre o desempenho dos filhos nas provas de aferição? Partindo do pressuposto da sua dificuldade em os ajudar e da impossibilidade de recorrer a ajudas externas à escola fica a eterna questão, que fará a escola com estes resultados que, aliás, serão certamente coerentes com os resultados das avaliações realizadas em sala de aula pelos professores no âmbito do seu regular processo de trabalho?
Aqui surgem algumas dúvidas pois, defendendo as provas de aferição como instrumento regulador e imprescindível como ferramenta contributiva para o trabalho de alunos e professores, coloca-se uma questão, terá a generalidade das escolas recursos (tempo, docentes e técnicos) e autonomia para organizar dispositivos de correcção de trajectórias escolares de insucesso ou em risco detectadas nestas provas de aferição?
Gostava de ser optimista, quero ser optimista mas … espero para ver.