quinta-feira, 17 de agosto de 2017

CHOQUE E HORROR, AGORA EM BARCELONA

Desta vez em Barcelona.
Como já escrevi e não posso deixar de repetir, vão faltando as palavras para falar do horror e da barbaridade que no mar e em terra vai acontecendo cada vez mais perto de nós, que, provavelmente, acreditávamos estar a salvo de tamanhas tragédias.
A merda de lideranças actuais da generalidade dos países que põem e dispõem no xadrez do poder mundial e de tantos outros subservientes e submissos que, em muitos casos, de pessoas não sabe nem quer saber, permite, sem um sobressalto e com palavras que de inócuas são um insulto, que se assista à barbaridade que as imagens e os relatos mostram e o muito que se imagina mas não se vê.
Apesar da complexidade é evidente para toda a gente com um pouco de senso que nada disto se resolve com muros ou vedações, com bombardeamentos cegos, com milhares de mortos e de refugiados, com a manipulação de emoções e interesses de circunstância ou combatendo alguns e depois apoiar esses alguns ao sabor dos movimentos da luta pelo poder
Crescem muros, chovem bombas, a barbaridade estende-se de maneiras que não suspeitávamos, o horror é imenso e, por vezes, nem a retórica da condenação é convincente e muitos menos, evidentemente, eficaz.
A questão é séria, os ventos sempre semeiam tempestades e as tempestades num mundo global não ficam confinadas nos epicentros. E são tempestades que por mais policiado que um estado seja não se conseguem evitar.
Não existe terror mau e terror bom. Não existe horror mau e horror bom. Não existe terrorismo bom e terrorismo mau.
Como é possível que tal horror aconteça e tanta gente com responsabilidades assobie para o ar e se fique pelas palavras de circunstância ou mesmo de relativização.
Estou a lembrar-me de Rafael Alberti e o seu "Nocturno".
(...)
Las palabras entonces no sirven, son palabras...
Siento esta noche heridas de muerte las palabras.
(…)
Não, não é para estragar o dia. É só porque é neste mundo que vivemos, vivem os nossos filhos e viverão os nossos netos.

DO SONO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

No Público encontra-se uma entrevista com a Professora Teresa Paiva, uma referência nos estudos e intervenção sobre o sono, que merece leitura e reflexão.
A qualidade e higiene do sono são, de facto, matérias de grande importância no bem-estar e qualidade de vida das pessoas e em todas as idades. No entanto nem sempre têm a atenção devida.
É conhecido o aumento exponencial do consumo de produtos para “ajudar” a dormir e ao facto de muitos trabalhos evidenciarem a insuficiência do tempo de sono presente no estilo de vida de muitos de nós. Esta situação é particularmente importante nos mais novos e muitas vezes aqui a tenho referido. De novo algumas notas.
Recordo um estudo de 2016 da Universidade do Minho que sugere que cerca de 72% de mais de quinhentas crianças e adolescentes inquiridos, dos 9 aos 17, dormem menos do que seria recomendável para as suas idades. Aliás, estudos liderados pela Professora Teresa Paiva mostram isso mesmo.
Para além das questões ligadas aos estilos de vida e às rotinas, uma das causas apontadas é a presença de aparelhos como computadores, tablets ou smartphones no quarto.
O período de férias que ainda decorre leva, e é bom que assim seja, a alteração nas rotinas da vida dos mais novos. No entanto, estando a aproximar-se mais um ano lectivo talvez seja de considerar estas questões
Em 2013, um estudo da University College of London mostrava o impacto negativo que a ausência de rotinas como deitar à mesma hora podem ter no bem-estar e saúde das crianças afectando, por exemplo, o processamento da aprendizagem.
Um estudo recente realizado nos EUA acompanhando durante seis anos 11 000 crianças encontrou fortes indícios de relação entre perturbações do sono e o desenvolvimento de problemas de natureza diferenciada no comportamento e funcionamento das crianças.
Esta questão, os padrões e hábitos de sono das crianças e dos adolescentes, é algo de importante que nem sempre parece devidamente considerada.
A falta de qualidade do sono e do tempo necessário acaba, naturalmente, por comprometer a qualidade de vida das crianças e adolescentes, incluindo o rendimento e comportamento escolar. Todos nos cruzamos frequentemente nos Centros Comerciais, por exemplo, com crianças, mais pequenas ou maiores, a horas a que deveriam estar na cama e que, penosa mas excitadamente, deambulam atreladas aos pais.
Algumas evidência sugere que parte das alterações verificadas nos padrões e hábito relativos ao sono remete para questões ligadas a stresse familiar e sublinha o aumento das queixas relativas a sonolência e alterações comportamentais durante o dia.
As situações de stresse familiar serão importantes mas parece-me necessário não esquecer alguns aspectos relacionados com os estilos de vida, com as rotinas ou com a utilização nem sempre regulada das novas tecnologias. Durante o dia, as crianças e adolescentes passam boa parte do seu tempo saltitando de actividade para actividade, passam tempos infindos na escola e, muitos deles, são pressionados para resultados de excelência. Muitos trabalhos mostram também que boa parte das crianças e adolescentes terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel e smartphones.
Acontece assim que durante o período que seria dedicado ao sono, sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes continuam diante de um ecrã. Como é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida.
Creio que, com alguma frequência, alguns comportamentos e dificuldades escolares dos miúdos, sobretudo nos mais novos que por vezes, sublinho por vezes, são de uma forma aligeirada remetidos para problemas como hiperactividade ou défice de atenção, podem estar associados aos seus estilos de vida ou aos modelos educativos, universo onde se incluem os hábitos e padrões de sono como, aliás, alguns estudos e a experiência de muitos profissionais parecem sugerir.
Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para estas questões e que apesar a utilização imprescindível e útil destes dispositivos seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes
A experiência mostra-me que muitos pais desejam e mostram necessidade de alguma ajuda ou orientação nestas matérias.

SÓ FALTAVA TREMER A TERRA

A terra tremeu na zona centro do País. Recordei-me da minha Avó Leonor, mulher sábia, que nos alertava sempre para que deveríamos ouvir e estar atentos à natureza. Ela também se zanga.
Os tempos vão complicados. A vida de muitas pessoas continua tremida, a esperança no futuro ainda treme para muitos jovens. É impossível ouvir alguns discursos e assistir a algumas tragédias sem um estremecimento de inquietação.
Só faltava tremer a terra. Felizmente apenas assustou as pessoas.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

DA SAÚDE MENTAL

Vai entrar em discussão pública a proposta para extensão do Plano Nacional de Saúde Mental para 2020. O programa estava definido para o período de 2007 a 2016 e a extensão terá com aspecto relevante a finalização da transição das respostas em hospital psiquiátrico para rede de serviços locais de saúde mental em processo de definição e criação de serviços de internamento em hospitais gerais.
A este propósito recordo que em Fevereiro deste ano foi divulgado que através de protocolos com 17 instituições vão ser criadas 366 vagas para cuidados continuados de saúde mental.
Parece assim esquecida de vez a opção pelo recurso a equipas comunitárias comprovadamente mais eficazes e menos onerosas. Esperemos pelo conhecimento do documento em discussão.
Segundo o Relatório do programa da União Europeia "Joint Action on Mental Health and Well-being" divulgado em 2015, Portugal está muito longe do desejável no que respeita à prestação de cuidados no domicílio e serviços na comunidade a pessoas com doença mental. Estima-se que menos de 20% dos doentes tenha acesso a este tipo de cuidados.
A ausência de respostas adequadas leva a um recurso excessivo à prescrição de psicofármacos mesmo em situações não justificadas como tem sido recorrentemente demonstrado.
Também de 2015, o estudo Trajectórias pelos Cuidados de Saúde Mental em Portugal, promovido pela Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental defendia que o encerramento, positivo entenda-se, dos hospitais psiquiátricos não foi acompanhado da criação de serviços na comunidade pelo que a desinstitucionalização falhou e “agravou os problemas de muitos doentes”. Afirmava-se no Relatório que a Rede de Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental não se concretizou e escasseiam os recursos.
Entretanto, o Governo anunciou o arranque deste Projecto. No entanto e com alguma surpresa o programa assenta fundamentalmente na construção de unidades e aumento do número de camas na tutela de Misericórdias e instituições religiosas, algumas sem experiência. Ficam de fora instituições com experiência nesta área e capacidade para estruturar resposta de proximidade. Alguns especialistas definiram a opção como a promoção de mais uma área de negócio. Sem estranheza.
A opção foi e é criticada pelo director do Programa Nacional para a Saúde Mental que entende por mais ajustado a aposta em equipas comunitárias e apenas um número reduzido de camas para situações mais críticas de adultos ou crianças para as quais faltam de facto, camas levando ao seu inaceitável internamento em serviços para adultos.
Na verdade, as orientações actuais e matéria de saúde mental, quer do ponto de vista científico, quer do ponto de vista dos custos, determinam que a qualidade e eficácia deste tipo de apoios, deve, tanto quanto possível, assentar em estratégias de proximidade, aproximando, assim, o serviço clínico da comunidade e da vida quotidiana das pessoas.
Os modelos defendidos pela comunidade científica actual, a defesa dos direitos humanos e da qualidade de vida, tornaram insustentável a manutenção das grandes instituições psiquiátricas que encerravam muitas câmaras de horrores e casos de isolamento e privação. Ainda me lembro do incómodo causado por visitas realizadas no início da minha formação ao Hospital Júlio de Matos. Este universo é bem retratado no mítico “Jaime” de António Reis e Margarida Cordeiro.
No entanto, este movimento de retirada das pessoas com doença mental das grandes instituições não está a ser devidamente suportado pela criação de unidades locais que providenciem apoio terapêutico, social e funcional tão perto quanto possível das comunidades de pertença dos doentes e com o mínimo recurso ao internamento.
Tal opção, parece claro, cria sérios obstáculos aos processos de reabilitação e inserção comunitária acentuando ou mantendo os fenómenos de guetização das pessoas com doença mental e respectivas famílias.
Não estranho, os doentes mentais são os mais desprotegidos dos doentes, pior, só os doentes mentais idosos. Os custos familiares e sociais da guetização são enormes e as consequências são também um indicador de desenvolvimento das comunidades.

PÉS DE BARRO ENTERRADOS NO LODO DO PÂNTANO

O habitat pantanoso continua a incubar e fazer eclodir episódios de corrupção, desculpem, alegada corrupção e delinquência económica. Mais um grupo de figuras graúdas do aparelhismo político e do tecido económico está acusado de diversos crimes, aqueles designados por “colarinho branco”.
A roda livre de impunidade e incumprimento dos mais elementares princípios éticos quando não da lei, produziu nas últimas décadas uma família alargada que, à sombra dos aparelhos partidários e através de percursos políticos, se movimentam num tráfego intenso entre cargos, entidades e empresas públicas e entidades privadas, promovendo frequentemente negócios que nos insultam e empobrecem.
Esta família alargada envolve gente de vários quadrantes sociais e políticos com uma característica comum, os negócios, alguns obscuros, de natureza multifacetada e de escala variável, desde o jeitinho para o emprego para o amigo até aos negócios de muitos milhões.
Acontece ainda e isto tem tido efeitos devastadores que muitos dos negócios que esta família vai realizando envolve com frequência dinheiros públicos e com pesados encargos para os contribuintes.
Esta família conta ainda com a cooperação de um sistema de justiça talhado à sua medida pelo que raramente se assiste a alguma consequência significativa decorrente dos negócios da família.
Curiosamente mas sem surpresa, todos os membros desta família, quando questionados sobre os seus negócios ou envolvimento em algo, afirmam, invariavelmente que tudo é feito tudo dentro da lei, nada de incorrecto e, portanto, estão sempre de consciência tranquila.
Veremos o que dará mais este episódio. Como de costume e provavelmente, uns incómodos com a imprensa e com as idas a tribunal e depois os escritórios de advogados, sempre os mesmos, assegurarão os expedientes suficientes para que nada aconteça.
Para a próxima terão cuidados redobrados e coisa compõe-se.
Alguém poderia explicar a esta gente que, primeiro, não somos parvos e, segundo, o que quer dizer consciência.
Esta é a pantanosa pátria nossa amada.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

SER PEQUENO

Dado o inexorável movimento dos dias cumpro hoje mais um marco de uma estrada que já vai ficando longa. Na minha terra era costume, creio que ainda é muito frequente em Portugal, referir que quando se celebra um aniversário, se é "pequeno". Assim sendo, hoje sou "pequeno", coisa que não é nada fácil imaginar e muito menos conseguir.
Embalado por essa ideia lembrei-me de quando era mesmo pequeno, tentação que parece inevitável cada vez que ficamos mais velhos.
Lembrei-me de como brincava, ao que brincava e com quem brincava, quase sempre na rua.
Depois lembrei-me de como brincava com o meu filho, quando ele era pequeno, grandes viagens em grandes brincadeiras.
Agora brinco com os meus netos, são eles os pequenos. Muito a gente se diverte. E havemos de nos divertir ainda mais a brincar. Palavra de avô.
A este propósito e com já vos tenho dito e, certamente, alguns estranharão, acho que por estes dias os miúdos brincam pouco.
Eu sei que os tempos são diferentes e os estilos de vida mudaram significativamente. No entanto, não me parece que sejam razões suficientes. A questão é, creio, de outra natureza.
As brincadeiras já não brincadeiras, passaram a chamar-se actividades. E os miúdos têm muito pouco tempo para brincar, é quase todo destinado a actividades, muitas actividades, que, dizem, são fantásticas, fazem bem a tudo e mais alguma coisa, promovem competências extraordinárias e é preciso ser excelente.
Deixem os miúdos brincar, faz-lhes bem, é mesmo a coisa mais séria que fazem e, como sabem, é importante lidar desde pequeno com coisas sérias.
Hoje não vai dar, é tempo de férias que também nos separam, mas se fosse brincar os meus netos ainda nos divertíamos mais. Hoje sou pequeno ainda melhor nos entenderíamos.
Fica para depois.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

DOS AUXILIARES DE EDUCAÇÃO

O ME anunciou hoje a contratação de 250 assistentes operacionais para as escolas e que está em fase de conclusão a revisão da portaria que define o rácio de alunos por assistente operacional.
Espera-se que conforme foi afirmado numa audição em Maio na AR, a alteração da portaria não seja apenas assente no número de alunos e considere, por exemplo, a tipologia das escolas ou seja, o número de pavilhões, a existência de cantinas, bares e bibliotecas e a extensão dos recreios ou a frequência de alunos com necessidades especiais.
A confirmar-se trata-se de uma medida positiva e necessária mas insuficiente.
Já aqui tenho escrito sobre as condições em que muitos destes assistentes operacionais chegam às escolas mas estas notas são para enfatizar os riscos da insuficiência do seu número.
Na verdade, os auxiliares de educação, insisto na designação, desempenham e devem desempenhar um importante papel educativo para além das funções de outra natureza que também assumem e que exige a adequação do seu efectivo, formação e reconhecimento. No caso mais particular de alunos com necessidades educativas especiais, em algumas situações os assistentes operacionais serão mesmo uma figura central no seu bem-estar educativo, ou seja, são mesmo auxiliares de acção educativa.
A excessiva concentração de alunos em centros educativos ou escolas de maiores dimensões não tem sido acompanhada pelo ajustamento adequado do número de auxiliares de educação. Aliás, é justamente, também por isto, poupança nos recursos humanos, que a reorganização da rede, ainda que necessária, tem sido feita com sobressaltos e com a criação de problemas.
Os auxiliares educativos cumprem por várias razões um papel fundamental nas comunidades educativas que nem sempre é valorizado.
Com frequência são elementos da comunidade próxima das escolas o que lhes permite o desempenho informal de mediação entre famílias e escola, têm uma informação útil nos processos educativos e uma proximidade com os alunos que pode ser capitalizada importando que a sua acção seja orientada, recebam formação e orientação e que se sintam úteis, valorizados e respeitados.
Os estudos mostram também que é nos recreios e noutros espaços fora da sala de aula que se regista um número muito significativo de episódios de bullying e de outros comportamentos socialmente desadequados. Neste contexto, a existência de recursos suficientes para que a supervisão e vigilância destes espaços seja presente e eficaz. Recordo que com muita frequência temos a coexistir nos mesmos espaços educativos alunos com idades bem diferentes o que pode constituir um factor de risco que a proximidade de auxiliares de educação minimizará.
Considerando tudo isto parece essencial e um contributo para a qualidade dos processos educativos a presença em número suficiente de auxiliares de educação que se mantenham nas escolas com estabilidade e que sejam orientados e valorizados na sua importante acção educativa.

A DANÇA DAS CADEIRAS

As notícias diárias sobre as eleições autárquicas recordam-me com demasiada frequência do nosso jogo de infância a dança das cadeiras. Vamos andando pela sala ouvindo música e quando ela se cala cada um tenta encontrar uma cadeira, o que não conseguir sai do jogo e retira-se uma cadeira prosseguindo até encontrar o vencedor.
No entanto, esta versão grotesca para adultos tem outras regras, vale tudo por assim dizer, atropelam-se para se colocarem melhor posicionados à partida, roubam as cadeiras, mudam de lugar o jogo conforme a conveniência, insultam-se, empurram-se e ameaçam-se pela posse da cadeira, apelam à ajuda dos amigos e dos padrinhos para conseguir a cadeira, etc.
Passado algum tempo, quatro anos, tudo recomeça com os mesmos jogadores, os mesmos comportamentos.
É assim boa parte da política no Portugal dos Pequeninos.

domingo, 13 de agosto de 2017

O ENSINO DOMÉSTICO - a minha mãe é a minha professora e o meu mundo

O JN de ontem trazia um trabalho sobre o ensino doméstico, encarado como um percurso educativo alternativo à frequência da escola.
Esta opção por parte de algumas famílias radica numa recusa ou reserva das famílias relativamente aos conteúdos curriculares centralizados e massificados gerados pela escolaridade obrigatória e universal, entendimento que também se associa por vezes a convicções religiosas e também a uma apreciação negativa dos ambientes escolares e dos seus eventuais impactos nas crianças e adolescentes.
Não discuto a legitimidade das opções familiares embora se saiba que em alguns países não é permitida, sei também das experiências positivas que alguém terá sempre para contar mas em termos de princípio tenho algumas reservas sobre este processo e algumas das suas implicações. Uma análise profunda não cabe neste espaço embora me pareça que, por um lado, é uma opção a que poucas famílias podem aceder por razões óbvias e por outro, os muitos problemas e de diferente natureza que a escolarização coloca se devem minimizar, melhorando, para todos, insisto para todos, a qualidade dos processos.
No entanto e de forma breve, uma referência não exaustiva a questões que se podem colocar, a densidade e natureza da rede social experienciada pelas crianças e adolescentes, a diversidade de actividades, o desempenho e contacto com diferentes papéis e diferentes contextos, a autonomia, os “limites” na acção didáctica (não educativa) dos pais que leva à necessidade de “orientadores” também conhecidos por “explicadores”.
Acresce ainda que se pode discutir o tempo para esta opção. Na peça do JN a Professora Inês, Peceguina, do Movimento Educação Livre fala na possibilidade de que o ingresso na escola possa vir a ser apenas no ensino superior. E porque não continuar também o ensino doméstico durante a formação superior? 
O que me faz reflectir, e inquieta, é o que parece significar este tipo de opções. Senão vejam.
Não se desloque às livrarias - encomende via net;
Não se desloque para comprar discos – encomende via net;
Não vá ao cinema – compre o DVD ou veja nos canais disponíveis em casa;
Não vá a concertos – veja o DVD, o YouTube e todas as outras opções.
Compre casa num condomínio fechado com espaço de convívio!!, e campo de jogos, piscina, etc.
Não se desloque às compras – encomende via net;
Não vá ao banco – tem o homebanking;
Não saia para trabalhar – está aí o tele-trabalho;
Não saia para estudar – tem e-learning:
Não saia para conversa e convívio – tem a conversa na net, aliás com várias opções;
Não saia para … - a televisão traz.
Se a gente não sai… que caminho é o nosso? Vamos juntos ou vamos fechados?

sábado, 12 de agosto de 2017

GOSTEI DE LER, "OS COMENTÁRIOS DOS LEITORES"

Gostei de ler o texto de ontem do António Guerreiro no Público, “Os comentários dos leitores”. Produz uma reflexão interessante e pertinente sobre a forma como são usadas por boa parte das pessoas as caixas de comentários da imprensa online.
Já aqui tenho referido essa questão sobretudo a propósito de matérias ou notícias respeitantes à educação.
Julgo que seria interessante um estudo com algum rigor que procedesse à análise de conteúdo dos comentários. Apesar da dificuldade de identificar os autores, seria um forte contributo para perceber a forma como o universo da educação é percebida pela parte da comunidade que lê a imprensa e comenta o que lê.
De uma forma geral é algo de inquietante. Muitos comentários, favoráveis ou desfavoráveis, estão cheios de agressividade, insultos, ignorância arrogante e preconceito que assustam. Pensar que esta gente que assim expressa opiniões sobre educação e professores pode ser responsável pela educação de filhos ou netos é assustador e ajuda a perceber, também, a forma como alguns dos mais novos percepcionam os seus professores e a escola.
Como sublinha António Guerreiro, apesar das excepções, esta utilização das caixas de comentários mina o sentido da sua existência, a partilha e discussão de ideias pela comunidade de leitores. É também algo que se passa nas redes sociais apesar de diferenças óbvias entre os dois suportes. Algumas publicações estão mesmo a eliminar a existência de comentários.
É pena mas compreende-se.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

E-SONHO DE UM DIA DE VERÃO

O sonho será porventura a actividade mais democratizada da espécie humana. Parece acessível a todos os estatutos e condições. É certo que já me cruzei com pessoas que me impressionaram pela atitude de nada esperar da espécie de vida que têm e por não parecerem sequer capazes de comprar um sonho. Apesar da eventual discordância de alguns psicólogos, o sonho tem ainda a vantagem de permitir o acesso a tudo, não tem aparentemente limites, é completamente aberto, cada um pode sonhar o seu sonho, seja ele qual for.
Não é muito frequente recordar-me dos meus sonhos, dos bons ou dos maus. É bastante mais usual sonhar quando estou acordado, bem acordado. E nestas ocasiões quase só me acontecem sonhos bons e sem limites.
Como este que de acordo com os tempos que correm é um e-sonho de um dia de Verão.
Um dia, os miúdos terão pela frente uma banda larga onde caiba o seu projecto de vida.
Um dia, os miúdos estarão ligados a redes sociais que os protejam.
Um dia, os miúdos poderão navegar sem problemas a caminho do futuro.
Um dia, os miúdos não estarão, quase que exclusivamente, acompanhados por um ecrã.
Um dia, os miúdos apenas receberão e enviarão sms com boas notícias.
Um dia, conseguiremos que a felicidade não seja, para muitos miúdos, apenas realidade virtual.
Um dia, os miúdos poderão realizar downloads e uploads de afecto.
Um dia, haverá um GPS capaz de evitar que algum miúdo se perca.
Um dia, o mundo terá um ambiente mais amigável para os miúdos.
Um dia, os miúdos terão um antivírus eficaz no combate ao conhecido vírus “maus-tratos”.
Um dia, não teremos conflitos de software, os programas de apoio aos miúdos serão compatíveis com as suas necessidades.
Um dia, o bem-estar será portátil e acessível, qualquer miúdo o pode usar.
Um dia, os miúdos poderão chumbar pais ou professores que não correspondam ao que deles se espera.
Um dia, não precisaremos de bater sempre na mesma tecla, “Lembrem-se dos miúdos”.
Um dia ...

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

INDEPENDÊNCIA E AUTONOMIA, UMA QUESTÃO DE DIREITOS

O Conselho de Ministros de hoje aprovou um conjunto de medidas de apoio às pessoas com deficiência.
De entre várias importantes decisões, parece-me de sublinhar, finalmente, a definição de um Modelo de Apoio à Vida Independente que possibilita que as pessoas com deficiência dispor de assistente pessoal que permite maior grau de autonomia e funcionalidade.
A lei confere às pessoas a participação na escolha dos cuidadores mas impede que sejam da sua família. Embora possa compreender as razões deste limite julgo que seria desejável assumir na legislação um princípio de confiança. Sabemos que em muitas circunstâncias os familiares das pessoas com deficiência são já seus cuidadores em termos informais e sem contar com qualquer tipo de apoio.
A operacionalização do modelo assenta numa rede de instituições não-governamentais com estatuto de IPSS, CAVI - Centros de Apoio à Vida Independente, que funcionarão com um mínimo 10 e um máximo de 50 pessoas apoiadas e com uma equipa técnica de apoio. Deverão integrar nos seus órgãos e equipas pessoas com deficiência. Será uma questão de cultura, promove-se a vida independente e criam-se instituições que a tutelem e apoiem. Aliás, a construção do previsto Plano Individual de Assistência é definido com cada pessoa e com o acordo do CAVI.
Como é evidente, este discurso não pretende tornar dispensáveis as instituições, são necessárias particularmente em situações de crise ou de problemáticas mais severas, mas, simplesmente, defender que as pessoas são, por princípio, capazes de tomar conta de si próprias, incluindo a gestão dos apoios que a sua situação possa justificar.
No fundo, é, simplesmente, uma questão de direitos individuais e sociais.
Esperemos que o caminho aberto por este Modelo de Apoio à Vida Independente não se se estreite nem se deturpe e se evolua no sentido certo, o respeito pela autonomia e direitos individuais e sociais das pessoas com deficiência, designadamente, o direito à independência e autodeterminação.


"AS ESCOLAS VÃO ESCOLHER COMO ENSINAR OS ALUNOS". É MESMO?

O Público dedica de novo algum espaço ao Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular. Afirma em título que “Mais de 20% das escolas vão poder escolher como ensinar os alunos”. No mesmo sentido, o Observador titula “230 escolas vão poder escolher como querem ensinar os alunos” e o DN afirma “236 escolas vão mudar a maneira de ensinar já em Setembro”.
Será?
Antes de mais reafirmar a necessidade de mudanças em matéria de currículo, de autonomia, de recursos e organização das escolas, etc., dispensando-me de retomar as razões para este entendimento. Também reafirmar a ideia de que a mudança deve ser testada e avaliada antes de generalizada. A forma como este processo está a decorrer não parece suficientemente tranquilizadora
Por outro lado, e como também já disse, não simpatizo com a recorrente referência à necessidade de inovação em educação ou de uma "nova forma de ensinar" e, muito menos, à "revolução" que virá.
O Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, embora não se conheça a lista de escolas, envolverá, segundo o Público, algumas turmas de 236 escolas, 171 públicas, 61 privadas e 4 portuguesas no estrangeiro, As turmas escolhidas serão do 1º, 5º, 7º, 10º ano, e de 1º ano de formação de cursos organizados em ciclos de formação.
O Projecto tem, do meu ponto de vista, alguns aspectos que me parecem ir no caminho que entendo como mais ajustado para defender a qualidade dos processos educativos e para todas os alunos mas ainda haverá muita estrada para andar. Este caminho deverá ter com eixos estruturantes, entre outros, autonomia das escolas e dos professores que sustentem diferenciação em processos e metodologias, ajustamentos nos conteúdos e organização dos currículos e, porventura, dos ciclos de ensino, recursos humanos e dispositivos de apoio competentes, adequados e oportunos, regulação do sistema. Ora o Projecto, embora, como disse tenha aspectos positivos está longe de, tal como está desenhado, poder ser a mudança, será, espero, um passo, apenas um passo.
Neste sentido e sabendo que se mantém toda a esttrutura curricular em vigor entender que as escolas envolvidas vão “poder escolher como ensinam os alunos” é manifestamente exagerado e levanta até uma outra questão.
O que vai acontecer em Setembro a todas as outras turmas dos 713 agrupamentos e 95 escolas não agrupadas, além sistema privado e de outras instituições? Os professores e direcções ficarão condenados ao sofrimento por falta de um Projecto que lhes permita ter alguma decisão sobre o que acontece na sala de aula?
Esta espécie de “pensamento mágico “ face ao Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular entendendo que a autonomia e a diferenciação chegam em Setembro a alguns eleitos justifica alerta, a realidade não é a projecção dos nossos desejos, é mais complexa que isso.
Não podemos alimentar a ideia de um sistema dividido em TEIP, Territórios Educativos de Intervenção do Projecto e Territórios Educativos de Intervenção Possível. Nos primeiros escolhe-se como ensinar os alunos, nos outros ... aturam-se os alunos com o arsenal pedagógico e didactico de sempre com um currículo não flexibilizado para algumas turmas. Aliás, como é sabido em muitíssimas escolas acontecem diariamente excelentes trabalhos, com muito bons resultados que não devia ser esuecidos, antespelo contrário. Daí o meu cansaço face à narrativa da "inovação".
Uma nota final para reafirmar o desejo de que tudo corra o melhor possível. Já vai sendo tempo e já merecemos, sobretudo alunos e professores.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

INCLUSÃO E ENSINO SUPERIOR

A produção de “Recomendações” parece estar em alta na Assembleia da República. A “recomendação” tem um preço político mais baixo que legislar e permite sempre aliviar consciências. No entanto, registem-se as recomendações.
Foi hoje publicada em DR a “Resolução da Assembleia da República n.º 195/2017” que “Recomenda ao Governo que apoie os estudantes com necessidades educativas especiais”. Muito bem. E agora?
De facto, a presença e as questões levantadas pela frequência de ensino superior por alunos com necessidades especiais não têm merecido a visibilidade e reflexão que justificam, a sua ”voz” é baixa.
A percentagem de alunos com necessidades especiais relativamente aos alunos que frequentavam o ensino superior em 2013/2014 era de 0.36% o que talvez ajude a perceber a falta de “voz” para os seus problemas. No ano lectivo que terminou foram preenchidas apenas 14% das vagas do contingente especial para alunos com deficiência. Foi hoje divulgado que pela primeira vez desde 2009 na primeira fase de candidatura ao ensino superior a procura é maior que a oferta o que é bom, a qualificação é um bem de primeira necessidade, para TODOS.
Se a estes dados acrescentarmos que a taxa de desemprego na população com deficiência é estimada em 70-75% e que o risco de pobreza é 25% superior à população sem deficiência e que Portugal se orgulha de ter perto de 98% dos alunos com necessidades especiais a frequentar as escolas de ensino regular no período de escolaridade obrigatória, temos um cenário que nos deve merecer a maior atenção.
Como tantas vezes tenho dito, aqui e nos espaços e contextos da lida profissional, a questão da presença dos alunos começa no que é feito no ensino básico e secundário.
Por outro lado é fundamental que com clareza, sem ambiguidades ou equívocos se entenda que após a escolaridade obrigatória os jovens, TODOS os jovens, têm três vias disponíveis formação profissional, formação escolar (ensino superior) ou mercado de trabalho (trabalho na comunidade, incluindo a economia social).
A realidade mostra que os jovens com necessidades especiais estão significativamente arredados destas vias e, voltamos ao mesmo, em muitas circunstâncias ao abrigo de práticas e modelos de resposta sob a capa da … inclusão. Muitos deles ficam entregados (não integrados) às famílias, o que alguém já designou como Ministério Casa ou encaminham-se para instituições onde, apesar de algumas experiências interessantes, se recicla a exclusão. As pessoas com NEE de diferente natureza depois dos 18 anos devem ser, estar, participar e pertencer aos contextos que todas as outras pessoas com mais de 18 anos estão. As instituições ou voltar para a família serão sempre um recurso e nunca uma via.
De novo, a inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.
As pessoas com NEE de diferente natureza depois dos 18 anos devem ser, estar, participar e pertencer aos contextos que todas as outras pessoas com mais de 18 anos estão.
É também claro que no âmbito do ensino superior importa que se proceda a ajustamentos de natureza diversa, atitudes, representações expectativas, oferta formativa, custos, acessibilidades, e cursos e apoios ou, como disse, promover melhor articulação com o ensino secundário
Dados de 2014 mostram que 94 de 291 instituições do ensino superior afirmaram a existência de serviços de apoio para alunos com deficiência. Actualmente a esmagadora maioria dos estabelecimentos, públicos e privados afirma disponibilizar esses serviços.
No entanto, para além de aspectos mais evidentes como a acessibilidade, creio que o apoio pedagógico e a utilização de dispositivos diferenciados nos materiais de apoio das unidades curriculares, da diferenciação nos processos de avaliação ou o recurso às tecnologias, não serão os grandes obstáculos. Tenho alguma experiência de docência no superior com alunos com necessidades especiais e não sinto que sejam estas as questões centrais.
Também não creio que a questão central seja a existência obrigatória de “serviços de apoio” a alunos com deficiência embora tal possa depender da dimensão da instituição. Do meu ponto de vista, procurar responder da forma a adequada às necessidades de TODOS os seus alunos é a essência do trabalho de qualquer instituição educativa e de qualquer docente, com maior ou menor dificuldade.
A questão mais importante decorrerá, creio, das barreiras psicológicas e das atitudes, pessoais e institucionais, seja de professores, direcções de escola, da restante comunidade, incluindo, naturalmente, professores do ensino básico e secundário e de "educação especial" técnicos, os alunos com necessidades especiais e famílias
Também é minha convicção de que as preocupações com a frequência do ensino superior por parte de alunos com necessidades especiais é fundamentalmente dirigida aos alunos que manterão as capacidades suficientes para aceder com sucesso à oferta formativa tal como ela existe. Estou a referir-me, evidentemente, aos alunos que não têm “diagnóstico” de problemas de natureza cognitiva.
No entanto, como disse, esta preocupação deveria ser mais alargada, estamos a falar de inclusão e agora, se quiserem, da minha utopia.
Porque não podem frequentar estabelecimentos de ensino superior? Sim, frequentar o ensino superior onde estão jovens da sua idade e em que a oferta formativa se for repensada e a experiência de vida proporcionada podem ser importantes.
Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências noutras paragens mas também por cá mostram que não é utopia.
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.

OS INDEPENDENTES E OS DEPENDENTES

Depois de terminada a entrega das candidaturas para as próximas autárquicas parece verificar-se um aumento de candidaturas de cidadãos ou movimentos independentes para além da habitual presença de “independentes” nas candidaturas partidárias. Esta situação acontece apesar das disposições da Lei Eleitoral Autárquica serem ainda mais amigáveis para candidaturas com origem nos aparelhos partidários.
Em princípio e do meu ponto de vista, este movimento pode reforçar a saúde da democracia que não deve esgotar-se nas estruturas partidárias. Aliás, a designação é curiosa, os independentes, serão os que estão fora dos aparelhos partidários e os, presumo que "dependentes", serão os que "dependem" das estruturas partidárias. Teremos, pois, que nos decidir por independentes ou por dependentes.
No entanto, é de referir que um número significativo de “independentes” que se apresentaram e apresentarão a eleições enquanto tal, o fizeram por não terem sido objecto de escolha dos partidos a que pertenciam ou em situação de litígio, ou seja, se tivessem sido os escolhidos ou não tivessem tido algum desaguisado partidário ter-se-iam candidatado pelo “partidinho”. Esta nota não retira a importância de candidaturas verdadeiramente fora dos aparelhos partidários.
A verdade, muitas vezes o tenho escrito, é que no actual quadro político-administrativo é muito difícil a intervenção cívica, no sentido político, fora da tutela dos aparelhos partidários cuja praxis criou uma “partidocracia” que minou a confiança e tem provocado o afastamento dos cidadãos pelo que se percebe a afirmação da necessidade de mudança.
Verifica-se também que a capacidade de mobilização dos partidos se dirige, sobretudo, a uma minoria de pessoas que emerge dos respectivos aparelhos que, assim, podem aceder e manter alguma forma de poder e a uma maioria que enche autocarros, recebe uns brindes e tem um almocinho de borla. A partidocracia não atrai porque os partidos se tornam donos da consciência política das pessoas, veja-se o espectáculo deprimente da Assembleia da República e o desempenho de boa parte dos deputados, salvo honrosas excepções vota-se o que o partido manda, independentemente da consciência.
Reconhece-se hoje que as camadas mais novas, sobretudo mas não só, atravessam uma situação complexa envolvendo os valores, a confiança nos projectos de vida, os estilos de vida, etc. Neste quadro, a adesão à intervenção política, tal como se verifica genericamente em Portugal, parece mais uma parte do problema, é velha a partidocracia para responder a problemas novos, que um caminho para a solução.
Creio que o descontentamento e desconfiança de muitos dos cidadãos, traduzidos em percentagens de abstenção acima dos 50%, mostram que importa pensar numa participação política para lá dos partidos. Várias manifestações com grande mobilização que escaparam à lógica da partidocracia, bem como iniciativas de grupos de cidadãos mobilizados por causas ou algumas candidaturas verdadeiramente fora do espectro partidário, dão sinais nesse sentido.
De tudo isto resulta, como muitas vezes refiro, o afastamento das pessoas pelo que a construção de outras formas de participação cívica parece ser a única forma possível de reformar o quadro político que temos, ou seja, os partidos ou definham ou mudam, pela pressão do exterior.
Existe, tem que existir política para além dos partidos, que se reformam ou tenderão a implodir com riscos para própria democracia cuja saúde já está debilitada.
De qualquer forma, como se diz no Meu Alentejo, deixe lá ver.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O CARRO-VASSOURA

Está na estrada, como dizem na televisão, a Volta a Portugal.
Creio que a Volta a Portugal já não tem hoje nem o espaço nem, talvez, o encanto de há alguns anos mas continua a atrair muita gente para a beira das estradas por onde passa. O período de férias, mais tranquilo, é amigo da memória e recordei a Volta a Portugal em bicicleta lá para trás no tempo.
Quando eu era miúdo a caravana da Volta a Portugal em bicicleta passava pertinho da minha terra. Quase sempre iniciava-se uma etapa em Cacilhas ou na Cova da Piedade e dirigia-se para sul, nessa altura, se bem me lembro a Volta era mesmo a Portugal, de cima a baixo.
Íamos ver passar a Volta no Laranjeiro, na EN 10 em frente à mítica loja de bicicletas do Jorge Pereira, tenho ideia que até havia uma meta com um prémio para o ciclista que a passasse em primeiro lugar.
Era dia de romaria, ia-se cedo para encontrar o melhor local de visão e o melhor acesso aos brindes distribuídos pelos "carros dos anúncios", como lhes chamávamos.
A passagem da caravana era breve e marcada pela tentativa de saber quem passava à frente na meta. Conhecíamos os ciclistas como hoje conhecemos os futebolistas, João Roque, Firmino Bernardino, o incontornável Joaquim Agostinho pelo Sporting ou os do Benfica, Américo Silva, Peixoto Alves, Wenceslau Fernandes, (pai da atleta de triatlo Vanessa Fernandes), por exemplo e sem ter a certeza de todos os nomes.
O segundo grande momento era a passagem, antes dos ciclistas, dos "carros dos anúncios" e a distribuição de ninharias cuja caça era uma tarefa complicada mas um desafio irresistível. O terceiro momento mais aguardado era a passagem do carro-vassoura que nos deixava sempre um pouco a pensar e a discutir entre nós como deveria ser difícil desistir, não poder seguir com os outros e ser recolhido numa viatura com o "simpático" nome de carro-vassoura. Quase sempre chegávamos à conclusão que um ciclista deveria mesmo sentir-se mal quando nele entrava, o que nos fazia ter "respeito", como dizíamos, pelo carro-vassoura.
Com esta memória da Volta a Portugal acesa de repente lembrei-me dos miúdos que vão entrar na escola daqui a umas semanas e que, de mansinho, mais cedo ou mais tarde, por uma razão ou por outra, começam a não ser capazes de acompanhar os outros e vão acabando, também eles, por entrar nos diferentes carros-vassoura que a vida vai pondo à frente dos que não acompanham o ritmo, seja ele qual for.
O problema é que, contrariamente ao que se passava no carro-vassoura da Volta a Portugal de onde se sai no fim de cada corrida para iniciar uma outra, muitos dos miúdos vão passar boa parte da sua vida nalgum carro-vassoura.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

DO PROJECTO DE AUTONOMIA E FLEXIBILIDADE CURRICULAR

Na página da DGE já está disponível informação sobre as Aprendizagens Essenciais a promover nos alunos das escolas que integram o Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular.
As AE serão desenvolvidas nas turmas de 1.º, 5.º, 7.º, 10º ano, e de 1º ano de formação de cursos organizados em ciclos de formação.
As AE constituem a "orientação curricular base na planificação, realização e avaliação do ensino e da aprendizagem que promovam o desenvolvimento das competências inscritas no Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória" também já aprovado.
As AE são definidas para cada ano e área disciplinar/disciplina estabelecendo os conhecimentos, as capacidades e atitudes a desenvolver por todos os alunos.
Ainda falta imenso tempo, mais de um mês, para o início das aulas mas registe-se que apenas se conhecem as AE para algumas áreas disciplinares/disciplinas, por exemplo, as AE para Português do 1º e 5º ano ainda não se encontram na página da DGE. Não sendo especialista em matéria de currículo aguardo as apreciações de professores e investigadores aos conteúdos que já se conhecem.
Por outro lado, também não são ainda conhecidas as cerca de 140 escolas que desenvolverão o Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular.
As restantes escolas continuam a trabalhar com os planos curriculares em vigor que em termos de concepção parecem algo diferentes do modelo subjacente ao Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular.
Como já referi entendo ajustado um período experimental nos processos de mudança em educação. Esse período experimental deve ser bem estruturado, planeado ao nível da formação, das práticas, dos recursos e dos dispositivos de monitorização e avaliação.
No entanto, num número tão elevado de escolas parece difícil com tão pouco tempo de preparação promover uma experimentação adequada, monitorizada e capaz de produzir orientações de generalização. Temo que este processo de “experimentação” seja mais a primeira fase de generalização assumindo que o que agora se “experimenta” será o que se segue apenas perdendo a designação experimental.
A história recente mostra que as dezenas de alterações que em matéria de currículo se foram produzindo sempre aconteceram sem que se assegurasse a avaliação séria do que está em vigor e qual o sentido da mudança. A experiência mostra ainda que as sucessivas alterações foram produzidas sem que se procurasse, não digo um consenso pois sei que em educação e em Portugal é quase impossível face a agendas e corporações de interesses, mas o envolvimento e participação dos diferentes actores intervenientes nos processos educativos na construção das alterações.
Finalmente, mostra ainda que os calendários e a metodologia das mudanças raramente permitiram que se processassem sem sobressaltos e com um mínimo de estabilidade.
A visão de currículo parece-me caminhar num sentido diferente para melhor, não porque seja nova, continuo a achar excessiva tanta referência a inovação que de inovação tem pouco, mas porque tenderá a minimizar o impacto negativo de um currículo demasiado extenso, prescritivo, normativo e pouco amigável para a diversidade entre os alunos pois “normaliza” em excesso.
No entanto creio que seria desejável alguma prudência. Não me parece que as comunidades educativas tenham a informação suficiente para que se entenda, discordando ou concordando, a natureza e alcance das mudanças. Ainda não estabilizou a definição do Perfil do Aluno no final da escolaridade obrigatória.
Apesar de se afirmar que a coexistência de dois “modelos curriculares”, por assim dizer, não terá impacto na avaliação externa tenho alguma curiosidade de ver como se processará nas provas de aferição mas, sobretudo, quando envolver o 9º com exames nacionais.
Tenho também algumas dúvidas sobre como será gerido o tempo dos docentes dada a sua “arrumação” por grupos disciplinares e a forma como está organizada a sua carreira e formação?
Com que efectivo de turma iremos trabalhar em “projecto”? O efectivo de turma tem impacto comprovado no nível de diferenciação das práticas pedagógicas, no clima de aprendizagem ou na acomodação da diversidade dos alunos.
Neste contexto preferia que tivéssemos mais algum tempo de construção da mudança antes de a operarmos mesmo que em regime experimental e em escala mais pequena.
Existindo dúvidas produz-se ruído para além do que sempre emerge do contrismo ou do imobilismo que sendo habitual, não é positivo. Não seria desejável que possamos correr o risco de, mais uma vez, de perder uma oportunidade e esperar que novo ciclo eleitoral traga nova(s) mudança no(s) currículo(s).
Estou, no entanto, a torcer para que tudo corra o melhor possível. Já vai sendo tempo e já merecemos, sobretudo os alunos e professores.

domingo, 6 de agosto de 2017

DA VIOLÊNCIA ENTRE JOVENS

O Público de ontem e de hoje aborda a questão da violência e agressão entre adolescentes e jovens. As peças recuperam dois dos episódios mais graves e mais mediatizados envolvendo este tipo de comportamentos. Considerando a gravidade, implicações e frequência (apesar dos episódios conhecidos serem apenas uma parte dos que ocorrem), parece-me sempre importante reflectir sobre eles pelo que retomo algumas notas.
Os comportamentos agressivos e abusos entre jovens em contexto escolar, bullying por exemplo, ou fora deles são de sempre ainda que os estudos destes fenómenos sejam mais recentes. O volume e a gravidade de alguns episódios e, sobretudo, a sua mediatização através das redes sociais dão também uma maior visibilidade ao fenómeno.
Na verdade e com alguma preocupação, em vários estudos ultimamente realizados constata-se que os adolescentes tendem a encarar a violência entre si e de uma forma geral, como normal o que não surpreenderá os mais atentos. A sociedade da informação e os sistemas de valores actuais banalizam a violência, não são os adolescentes que a banalizam.
Por outro lado, a escola e o meio circundante, por serem os espaços onde os adolescentes e jovens passam a maior parte do seu tempo são, naturalmente, os espaços onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que os alunos carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola, família e outros actores da comunidade devem assumir responsabilidades.
No entanto, sem desresponsabilizar as famílias importa não esquecer que alguns pais se sentem tão perdidos quanto os filhos, têm elas próprias dificuldades e disfuncionalidades que são parte do problema e não da solução pelo que também elas precisam de apoio, só responsabilizá-las não chega.
No que respeita à violência entre jovens, um fenómeno complexo, existem ainda duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos alunos, ou adultos, vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações e encontrar dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa, sobretudo entre os mais novos. É importante também que os actores da escola e da comunidade saibam detectar nos alunos sinais que indiciem vitimização.
Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada ao agressor. As escolas, tal como a comunidade em geral podem e devem assumir atitudes e discursos que, visivelmente, mostrem um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.
É também importante que famílias e escolas estejam atentas e que estas possam ser dotadas de meios e recursos suficientes e competentes que permitam o desenvolvimento de iniciativas no plano da formação e apoio aos adolescentes e jovens, integrados ou não nos conteúdos curriculares que, tanto quanto possível, minimizem o risco de incidentes como os que estão retratados.
Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem-intencionados, não são um bom serviço à minimização destes incidentes que minam a qualidade cívica da nossa vida.

AOS NOSSOS LUGARES, VAI COMEÇAR O CAMPEONATO

O campeonato de futebol tem hoje a sua "rentrée", por assim dizer, com um Desportivo das Aves-Sporting e Vitória de Setúbal-Moreirense. Apesar da final da Supertaça ontem disputada, agora é que é.
No entanto, a minha paixão pelo futebol vai resistindo mal aos tratos que a modalidade vai recebendo. São recorrentes e progressivamente mais radicalizados e incendiários os comportamentos e discursos que a envolvem para além da componente negócio que também desempenha um papel importante no clima criado.
Não será improvável, antes pelo contrário, que tenhamos mais episódios graves fruto da irracionalidade e do ambiente de hostilidade e ódio instalado.
A mediocridade da generalidade dos dirigentes produz discursos e comportamento que inflamam muitos dos apoiantes, apoiam e organizam as suas actividades. Servem-se deles para os jogos de poder e devem-lhes isso. As direcções, os seus discursos, comportamentos e decisões são parte do problema, provavelmente não conseguirão, quererão ou poderão ser parte da solução.
É um mundo onde não existem santos e pecadores. Talvez a bola seja o elemento mais são deste universo apesar de tantas vezes também ser maltratada.
Já dificilmente me mobilizo para ir a um estádio, não consigo assistir aos milhentos programas televisivos onde opinadores avençados, salvo algumas raras excepções, vão papagueando agendas encomendadas e se envolvem em obscenas trocas de mimos e boçalidades que são mais um alimento para o clima instalado.
O problema é que não consigo não continuar fascinado com esse jogo estranho chamado futebol. Por isso me inquieta tudo isto.
Não sendo novidade a cor da minha alma futebolística gostava que este campeonato terminasse com o mesmo resultado do anterior. Que me desculpem os muitos amigos adeptos de outras camisolas.
Deixem lá ver, como diz o Velho Marrafa.

GOSTEI DE LER, "DO SORRISO DE FEHÉR"

Gostei de ler o texto de Ana Sousa Dias no DN, “Do sorriso de Fehér”, sobre a imprensa, designadamente, os directos televisivos em situações de tragédia.
Na verdade, regularmente nos deparamos com práticas e discursos de um sentido ético e deontológico miserável, de um baixo nível de competência, de um despudor e desrespeito por pessoas e sentimentos que nos insultam. Tudo isto estará certamente ligado a uma luta selvagem por audiências na qual vale (quase) tudo.
Como é evidente não está de todo a causa a liberdade de informação e de opinião bem como o papel insubstituível da imprensa como um dos pilares das sociedades abertas e democráticas.
Estão em causa os critérios editoriais e o sentido ético da missão de informar e formar.
Os tempos mais recentes têm sido particularmente elucidativos. Boa parte dos conteúdos jornalísticos na imprensa …não é jornalismo, por vezes é mesmo um insulto à inteligência e sensibilidade de muitos de nós embora, são produtos tóxicos, fazem mal.
No entanto, tenho que o admitir, esse lixo vende e o “mercado” é sagrado. Por outro lado, sublinho que é também pela forma como estão no "mercado" que os bons jornalistas e órgãos da comunicação social se distinguem.

sábado, 5 de agosto de 2017

MAIS ALUNOS NO ENSINO SUPERIOR

Com o processo ainda em curso e faltando duas fases de candidatura, os dados sugerem que de novo se verifica um aumento do número de candidatos à frequência do ensino superior. A confirmar-se trata-se do terceiro ano consecutivo em que aumenta o número de alunos que pretende aceder a formação superior.
É, sem dúvida, uma boa notícia.
No ano passado e a propósito da subida que já se verificou alguns especialistas defenderam que a subida se deveria a maior sucesso no ensino secundário, a melhoria na condição económica de algumas famílias e ao aumento de confiança na formação superior.
Espero que sejam estas razões continuem a sustentar a subida deste ano mas aguardemos o resultado final do acesso ao superior
É importante recordar que, contrariamente ao muitas vezes se entende, as famílias portuguesas enfrentam um dos mais caros sistemas de ensino superior da UE e da OCDE.
Por outro lado, tem vindo a instalar-se a perigosa e falsa ideia de que "somos um país de doutores". Na verdade, apesar da recuperação, temos uma das mais baixas taxas de pessoas com formação superior entre os países da OCDE. É fundamental insistir que não temos licenciados mais, temos desenvolvimento a menos e daí alguma dificuldade na absorção de mão-de-obra qualificada.
Aliás, não cumpriremos certamente o objectivo de formação superior estabelecido na UE para 2020 mesmo com a ajuda de habilidades na oferta formativa como a "meia licenciatura". Por outro lado, é fundamental não esquecer que Portugal ainda é um dos países em que mais compensa a qualificação superior.
Neste quadro, saber que está a aumentar o número de estudantes que pretende frequentar o ensino superior é mesmo uma boa notícia.

A PROVA DE OBSTÁCULOS

Apenas mais um exemplo, agora com cobertura mediática da prova de obstáculos diária que a esmagadora maioria das pessoas com mobilidade reduzida enfrentam.
Recordo que terminou em 8 de Fevereiro deste ano o prazo de 10 anos para que fosse cumprida a legislação que tornasse os espaços, equipamentos e vias públicas acessíveis a cidadãos com deficiência.
Conforme assinalam o Observatório para a Deficiência e Direitos Humanos e a Confederação Nacional dos Organismos de Deficientes são múltiplas e significativas as dificuldades enfrentadas diariamente por pessoas com mobilidade reduzida e de deslocação no acesso a vias, espaços e equipamentos públicos. É certo que muito foi feito mas muito mais está por cumprir.
São regularmente organizadas iniciativas que que procuram alertar a comunidade as entidades responsáveis para esse conjunto de dificuldades mas o impacto é baixo e lento. Os problemas das minorias são, evidentemente, problemas minoritários.
A questão afecta muitos cidadãos e envolve áreas como vias, transportes, espaços edifícios, mobiliário urbano e, sublinhe-se, a atitude e comportamento de muitos de nós.
Boa parte dos nossos espaços urbanos não são amigáveis para os cidadãos com necessidades especiais mesmo em áreas com requalificação recente. Estando atentos identificam-se inúmeros obstáculos.
Quantas passadeiras para peões têm os lancis dos passeios rampeados ou rebaixados ajustados à circulação de pessoas com mobilidade reduzida que recorrem a cadeira de rodas?
Quantas passadeiras possuem sinalização amigável para pessoas com deficiência visual?
Quantos obstáculos criados por mobiliário urbano desadequado?
Quantas dificuldades no acesso às estações e meios de transporte público?
Quantas caixas Multibanco são acessíveis a pessoas com cadeira de rodas?
Quantos passeios estão ocupados pelos nossos carrinhos, com mobiliário urbano erradamente colocado, degradados, criando dificuldades enormes a toda a gente e em particular a pessoas com mobilidade reduzida e inúmeros obstáculos?
Quantos programas televisivos ou serviços públicos disponibilizam Língua Gestual Portuguesa tornando-os acessíveis à população surda?
Quantos Centros de Saúde ou outros espaços da Administração central ou local criam problemas de acessibilidade?
Quantos espaços de lazer ou de cultura mantêm barreiras arquitectónicas?
Quantos …?
Na verdade, apesar do muito que já caminhámos, as crianças, jovens e adultos com necessidades especiais, bem como as suas famílias e técnicos sabem, sentem, que a sua vida é uma árdua e espinhos prova de obstáculos muitos deles inultrapassáveis.
Lamentavelmente, boa parte dessas dificuldades decorre do que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo, entendem ser a geometria variável dos direitos, do bem comum e do bem-estar das pessoas, de todas as pessoas.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

AS FALTAS DOS "GAJOS", DOS DEPUTADOS

Se existe em Portugal uma marca característica da nossa vida política é a baixa confiança que o cidadão comum tem na classe política quando comparada com outros grupos. Se atentarmos em sucessivos e recentes trabalhos percebe-se que a classe é regularmente das que merece menos confiança e credibilidade.
É verdade que a classe, em Portugal mais conhecida pelos “gajos”, bem se esforça para não perder esse privilégio, a mais absoluta falta de confiança dos seus concidadãos, estranhamente, os seus eleitores. De entre os “gajos”, o povo tem especial apreço pelas virtudes dos deputados, trabalhadores, intervenientes, uma vida de sacrifícios, horários arrasadores, artroses e problemas de coluna de tanto levantar e sentar para intervenções e de se dobrar face à orientação do líder e problemas nos dedos de tanto carregar nos botões e nas teclados, problemas das cordas vocais pelas frequentes intervenções que todos fazem, reformas miseráveis, insultos dos colegas de outras bancadas, etc., etc. Existem evidentemente em todas as bancadas alguns “gajos” que são percebidos como não sendo como os outros “gajos” mas … alguém vira sempre dizer, “os gajos” são todos iguais.
Eu sei que haverá por aqui uma ponta de demagogia e populismo mas … sinais dos tempos.
Vem esta introdução a propósito da divulgação das faltas dos deputados.
E no fundo, quem nunca faltou porque … não lhe apeteceu ir aturar os “gajos” lá no emprego que tem.

DA SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

No Público está uma peça em que se aborda a enorme falta de psicólogos nos centros de saúde e hospitais, o número está muito longe de corresponder a indicadores internacionais de cobertura. Um grupo de trabalho constituído para o efeito propõe a dotação das instituições da saúde com os recursos adequados sublinhando as implicações do actual cenário na saúde mental dos portugueses. Sabemos que as políticas de saúde têm custos mas também está quantificado e estudado o impacto económico e social da doença mental que tem sido, aliás, o parente pobre das políticas de saúde.
Dada a minha maior proximidade com este universo umas notas mais direccionadas para a questão da saúde mental de crianças e adolescentes desde logo sublinhando também a necessidade e a urgência de criar nas comunidades mais e melhores respostas no âmbito da saúde mental.
Dados do European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs de 2016 sugerem que 13% os jovens portugueses até aos 16 anos consome antidepressivos e tranquilizantes. O estudo envolveu 96043 jovens de 35 países, 3456 portugueses alunos de escolas públicas. O valor é impressionante, a média é de 8%. Fenómenos como o mediatizado "Baleia Azul" não podem dissociar-se deste quadro.
Muitas vezes aqui tenho escrito sobre a questão grave da saúde mental de crianças e adolescentes portugueses que, do meu ponto de vista, tem sido uma área desvalorizada, aliás e como disse acima, a saúde mental tem sido um parente pobre das políticas de saúde pública.
Um estudo divulgado em 2015 realizado pela Faculdade de Psicologia e Educação da Universidade de Coimbra em colaboração com entidades estrangeiras apontava para que 8% por cento dos adolescentes portugueses que frequentam o 8.º e o 9 º ano apresentam sintomatologia depressiva e 19% estarão em risco de desenvolver a doença. O estudo contemplava também um programa de prevenção a promover em meio escolar, com a participação dos pais, que pareceu indiciar bons resultados.
Em Maio de 2014, o Expresso relatava que em 2013 se tinham registado cerca de 20 000 novas consultas de pedopsiquiatria, mais 30% que em 2011. Era um indicador preocupante e ainda mais preocupante pela inexistência de resposta adequada e acessível para muitas crianças e adolescentes.
Recordo também que em 2014 foi noticiada a interrupção dos apoios a crianças e adolescentes da região do Algarve pois o programa de que beneficiavam, Grupos de Apoio à Saúde Mental Infantil, que já tinha merecido prémios de boas práticas, foi suspenso em vez de ser generalizado. Esta suspensão foi obviamente sentida com grande inquietação por famílias e profissionais.
Em 2012 esteve em Portugal um especialista nesta área, Peter Wilson, que, naturalmente, referia a necessidade de que nas escolas e na comunidade próxima existam apoios aos professores, às famílias e às crianças com dificuldades emocionais, a única forma, entende, apoiado na sua experiência, de minimizar e ajudar neste tipo de problemas que, não sendo acautelados, têm quase sempre efeitos devastadores em termos pessoais e sociais. Segundo Peter Wilson, os estudos em Inglaterra sugerem a existência de três crianças com problemas do foro emocional em cada sala de aula pelo que o apoio é muito mais eficaz e económico prestado na escola ou na comunidade próxima a alunos, famílias e professores. Este entendimento é partilhado, creio, pela generalidade dos profissionais e famílias, também em Portugal e os dados conhecidos apontam nesse sentido.
Há algum tempo a imprensa referia a inexistência de camas nos serviços de pedopsiquiatria que possam acomodar adolescentes em tratamento o que leva a que em muitas circunstâncias adolescentes sejam internados em serviços de adultos o que na opinião dos especialistas pode ser uma experiência "traumatizante" sendo, aliás, contrárias às boas práticas de qualquer país civilizado em matéria de saúde mental.
Está nos livros e nas experiências que em situação de crise os mais vulneráveis, crianças e adolescentes, por exemplo, são, justamente, os mais sofredores com as dificuldades. Acresce que, actualmente, se verifica em muitos agregados familiares e em contextos escolares a emergência de discursos que pressionam os mais novos no sentido de atingirem a excelência nos resultados escolares ou em qualquer actividade “importante” pois será, dizem, a “única” forma de atingir um patamar de sucesso futuro.
Como se sabe e a experiência mostra, muitas crianças e adolescentes não suportam com tranquilidade esta pressão o que se repercute no seu bem-estar e na sua saúde mental. Para complicar um pouco mais, ainda se verifica que algumas pessoas desvalorizam estes fenómenos, entendendo que é preciso ser exigente e bem-sucedido e não entendendo o sofrimento de algumas crianças e jovens.
Por outro lado é também conhecida a enorme dificuldade que muitas instituições que acolhem menores estão a passar dificultando a resposta com a qualidade bem como a possibilidade de responder a novas situações.
Os miúdos, nas famílias preferencialmente, ou nas instituições, necessitam de um aconchego, um ninho, uma qualidade de vida que os cuidadores e técnicos, por diversas razões, não sabem, não querem, não podem ou não são capazes de providenciar. Tal cenário implica riscos fortíssimos de compromisso do seu futuro pelo que os apoios e resposta são fundamentais mas não podem passar apenas pela medicação.
Como o povo diz, é de pequenino que se torce o … destino.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

AS MORADAS FALSAS E A SELECÇÃO DE ALUNOS

O Público aborda de novo a questão das matrículas nas escolas públicas a propósito da situação de falsificação das moradas, um expediente de que algumas famílias se servirão para tentar matricular os filhos em escolas da sua preferência, consideradas melhores escolas, e não na área de residência. Na peça de hoje acrescenta-se a situação de algumas escolas procederem à “selecção” de alunos com base no desempenho escolar. A situação pode ter cobertura legal como critério de desempate mas representantes dos Directores negam que seja prática generalizada. Não, não será prática generalizada mas nas áreas com maior pressão demográfica é um fenómeno bem conhecido, não vale a pena negá-lo.
Como já afirmei, todos os critérios de prioridade que estão definidos legalmente, podem ser discutíveis, evidentemente, e também entendo que me parece legítima a vontade dos pais de que os seus filhos frequentem as escolas que consideram melhores. Por outro lado, temos um sistema altamente centralizado, com gestão economicista de recursos e com falta de autonomia das escolas e agrupamentos, pelo que, para além da capacidade, existente ou não, dos equipamentos as escolas dificilmente poderão aumentar a capacidade de resposta aumentando a complexidade da questão pelo que o problema é complexo e de difícil solução a não ser em casos pontuais. Menos defensável é a “selecção” feita pelas escolas com base no desempenho escolar. Provavelmente o entendimento é de que é mais fácil trabalhar com bons alunos do que com alunos com menor rendimento a que se acrescenta a pressão para resultados, a questão da avaliação externa, da elaboração dos “rankings”, etc., mas não parece aceitável que tenhamos escolas públicas que “rejeitem” alunos porque não são alunos de excelência.
Considerando tudo isto é minha forte convicção de que o caminho só pode ser incentivar e criar condições para que TODAS as escolas possam ser escolas públicas de qualidade acomodando TODOS os alunos. Para isso precisam de recursos, autonomia e dispositivos de regulação para ajustarem a sua resposta às necessidades das populações que servem, uma variável fortemente associada à qualidade dos processos educativos.
É a única forma de garantir equidade e igualdade de oportunidades. 

DOS ANJOS DA GUARDA

De acordo com legislação ontem publicada as crianças e jovens com menos de 18 anos que tenham de realizar cirurgias podem estar acompanhadas por um dos pais ou alguém em sua substituição sua substituição no período inicial da anestesia e também no momento do recobro.
É uma decisão que apenas peca por tardia e se regista com agrado.
Não creio que seja necessário ter passado por este tipo de situação para perceber quanto desconforto, insegurança e ansiedade gera, quer no início, quer no recobro. Apesar da genérica competência e empatia dos técnicos de saúde a presença de alguém próximo da criança ou do jovem é, evidentemente, um factor decisivo de tranquilidade se não for o caso de surgirem pais ou acompanhantes que são eles próprios fonte de ansiedade.
Esperemos que as instituições hospitalares possam cumprir as necessárias adaptações para que tão rápido quanto possível e nuca depois do prazo definido a situação agora legislada seja posta em prática em todas os serviços de cirurgia.
Os anjos da guarda são mesmo importantes na vida dos mais novos ... e dos outros também.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

OS MILHÕES DO FUTEBOL

A imprensa, toda a imprensa, de ontem, de hoje e, provavelmente, dos próximos dias coloca em forte destaque a "transferência" de Neymar do Barcelona para o PSG.
Os valores envolvidos podem atingir, depende das fontes, os 500 milhões de euros, isso mesmo, 500 milhões de euros.
Fico perplexo com a facilidade e disponibilidade com que nos tempos que correm se movimentam milhões, muitos milhões, neste negócio que não se percebe muito bem como se alimenta, as assistências nos estádios são baixas em termos médios, o mercado publicitário parece em recessão e a economia não está na melhor saúde sendo que também é conhecido o volume dos passivos da esmagadora maioria, para não dizer a totalidade, dos clubes, nacionais ou estrangeiros. É certo que segundo consta o poço de dinheiro para a transferência é no Qatar, um delírio de um qualquer afortunado dos petrodólares. No entanto, por cá e na devida escala o cenário é o mesmo.
O circo da compra e venda de jogadores e treinadores continua a envolver muitos milhões, não parou, não pára e compõe regularmente as páginas dos jornais, em particular nesta altura, o defeso, ou a janela de transferências como se diz em futebolês.
Sempre que falo de futebol reafirmo a minha incurável paixão pelo jogo mas, sem demagogia, estes negócios e os valores movimentados, no contexto em que ocorrem e com os actores que envolvem, chegam a ser obscenos, insultuosos e uma indignidade quando olhamos à nossa volta.
O mundo é mesmo um lugar estranho.

COISAS DE IRMÃOS

No DN encontra-se uma peça muito interessante sobre uma questão pouco abordada fora dos círculos familiares, a vivência dos irmãos de pessoas com necessidades especiais. Merece leitura e reflexão.

“Aprenderam cedo a pensar mais nos outros do que em si, a tornar-se autónomos para não sobrecarregarem os pais, a ser melhores pessoas quando foram tocados pela deficiência na família. Transformaram a fraqueza em força. Mas os outros filhos, irmãos de pessoas com deficiência, nem sempre se sentem compreendidos e valorizados.”

DO JORNALISMO QUE É JORNALISMO E DO QUE NÃO É

O Sindicato dos Jornalistas propôs ao Ministério da Educação uma parceria para desenvolver em sete escolas um projecto-piloto sobre “literacia mediática no ensino secundário".
O Projecto que que contará com o patrocínio do Presidente da República terá como objectivo, entre outros, mostrar junto dos mais novos a relevância do jornalismo pois “as novas gerações têm dificuldade em destrinçar o que é jornalismo do que não é”.
Considerando os tempos que vamos vivendo no universo da comunicação social e o baixo consumo dos "media" em Portugal a iniciativa parece extraordinariamente pertinente.
Julgo mesmo que deveria ter também como destinatária a própria classe dos jornalistas pois muita gente considerada como tal parece ter uma enorme “dificuldade em destrinçar o que é jornalismo do que não é”.
Como é evidente não está de todo a causa a liberdade de informação e de opinião bem como o papel insubstituível da imprensa como um dos pilares das sociedades abertas e democráticas. No entanto, todos os dias nos deparamos com práticas e discursos de um sentido ético e deontológico miserável, de um baixo nível de competência, frequentemente ao serviço de agendas mais ou menos explícitas e numa luta selvagem por audiências em que vale (quase) tudo. Os tempos mais recentes têm sido particularmente elucidativos.
E não, boa parte dos conteúdos jornalísticos na imprensa …não é jornalismo, por vezes é mesmo um insulto à inteligência e sensibilidade de muitos de nós embora, tenho que o admitir, possa ser do agrado de outros de nós.
Como sempre é uma questão de escolha, o que se serve, como se serve, quem se serve, por que razão se serve, entre outros critérios.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

MAIS UM CONTRIBUTO

Mais um contributo para discussão pública do Regime Legal da Inclusão Escolar. Texto de David Rodrigues no Público. Importa aprofundar a discussão, a proposta e as suas implicações justificam que assim seja. Será também muito relevante a contribuição dos docentes de ensino regular e dos pais e encarregados de todas as crianças.

Um olhar para a Inclusão nas escolas

DA EDUCAÇÃO

A discussão que está na agenda, sempre esteve e estará, sobre as mudanças em educação,  também sempre na perspectiva da “inovação”, que cansaço, recordou-me uma pequena passagem do imperdível “Mataram a Cotovia” de Harper Lee.

“ … O Jem não era o melhor exemplo: não havia sistema pedagógico inventado pelo homem que o conseguisse impedir de chegar aos livros. Quanto a mim, eu nada sabia, a não ser a informação que ia conseguindo reunir da revista Time e tudo o que pudesse deitar a mão lá em casa. Porém, à medida que ia sendo morosamente triturada pelo sistema escolar de Maycomb County, não podia deixar de ter a impressão de que me estavam a esconder qualquer coisa. Independentemente do que soubesse ou não, jamais poderia acreditar que aqueles doze anos de tédio ininterrupto eram tudo o que o estado tinha em mente para mim.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

PROLONGADA A DISCUSSÃO PÚBLICA DO "REGIME GERAL DA INCLUSÃO ESCOLAR"

No Portal da DGE encontra-se a informação de que a consulta pública do “Regime Legal da Inclusão Escolar”, a proposta de alteração do DL 3/2008, foi prolongada até 30 de Setembro.
Parece uma medida de bom senso, o mesmo bom senso que se espera relativamente ao calendário e metodologia de eventuais alterações. Na verdade e como o povo diz, depressa e bem não há quem.
Como tenho defendido, entendo que um melhor enquadramento legislativo é uma ferramenta crítica na mudança positiva do que se passa em matéria de resposta à diversidade dos alunos. O DL 3/2008 carecia, carece, de mudanças significativas e por isso vejo com agrado alguns ajustamentos contidos na proposta que um destes dias mais leves em termos profissionais comentarei por aqui.
No entanto, os processos de mudança estão para além das alterações legislativas, são muito complexos e nem sequer envolvem “apenas” aspectos da educação. Peço desculpa de uma nota mais profissional mas, por exemplo, as dimensões psicológicas dos processos de mudança e a forma mais ou menos participada como são promovidos, têm um papel fortíssimo e que em cada contexto terá de ser trabalhado, mudar gera frequentemente inseguranças que inibem alterações.
Os processos de mudança devem ser apoiados e regulados.
O “wishful thinking” ou, por outro lado, o “contrismo” que também (me)nos tenta por voluntarismo e convicção não são amigáveis dos processos de mudança. Requerem o tempo e o modo.