terça-feira, 24 de Novembro de 2009

DEIXEM QUE AS CRIANÇAS BRINQUEM E SE SUJEM

Era o argumento que me faltava. Muitas vezes me tenho referido aqui no Atenta Inquietude a algum fundamentalismo a propósito das brincadeiras das crianças. Embora saiba que temos um número elevadíssimo de acidentes com crianças e, por isso, seja necessária uma enorme cautela com os riscos, também sei que as crianças precisam de brincar e de experiências que as ajudam a crescer, a estabelecer limites e a tornar-se autónomas. É bom para os miúdos brincarem em zonas de ar livre, se possível, sem problemas quanto a uma esfoladela no joelho ou à sujidade que se agarra na roupa e nas mãos.
Um estudo da School of Medicine da Universidade de San Diego na Califórnia, citado pelo I, vem mostrar que a pele contém bactérias que inibem infecções em feridas e protegem genericamente a pele pelo que uma excessiva preocupação com a limpeza pode tornar as crianças mais vulneráveis e, eventualmente, estar associada a alguns quadros de alergia.
Por isso, agora definitivamente, deixem que as crianças brinquem e se sujem, faz bem.

A HISTÓRIA DO TRAPAÇAS

Era uma vez um homem chamado Trapaças que vivia numa terra pequena. Sempre foi o tipo de indivíduo a que as pessoas chamam de “fino”. Desde miúdo se perceberam as qualidades, ou seja, as características, do Trapaças. Na escola ficaram célebres as suas desculpas para quando não fazia os trabalhos que lhe eram pedidos ou a forma como convencia os colegas a desenrascarem-no nas situações e trapalhadas em que se envolvia.
O seu percurso foi sempre construído através das habilidades e da capacidade que tinha para sem grande esforço e com muita manha ir conseguindo cumprir.
Os professores do Trapaças sempre acharam que mais cedo ou mais tarde ele iria acabar por falhar, os seus expedientes não poderiam sempre proporcionar-lhe formas de ultrapassar dificuldades e de atingir objectivos. Muitos dos colegas com quem se foi cruzando viam-no como uma pessoa que dificilmente seria bem sucedido. No fundo não acreditavam, como se costuma dizer, que o Trapaças fosse alguém na vida. Na verdade, toda gente queria e gostava de acreditar que um Trapaças não pode ser bem sucedido na vida.
Mas como sabem, algumas histórias não acontecem como as pessoas gostavam que elas acontecessem. O Trapaças com arte e com manha foi arranjando uns negócios e umas amizades que mudava, uns e outras, conforme as conveniências, fez fortuna e acabou mesmo por desempenhar funções importantes naquela terra.
Curiosamente, com vontade de que a história voltasse a ser como devem ser as histórias, isto é, acabar de forma positiva, a maior parte das pessoas daquela terra que conheciam o Trapaças começaram, de mansinho, a achar que ele era um exemplo de persistência e de criatividade, de capacidade de inovar e de construir projectos e até já o apontavam como modelo a seguir.
Como as histórias como deve ser têm que ter sempre “uma moral” pode dizer-se que “a trapaça que se passa, compensa mais do que se pensa”.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

A COMUNIDADE

Nos últimos anos parece ter vindo a inverter-se a tendência de recorrer às medidas de acompanhamento educativo e internamento institucional para lidar com os comportamentos de delinquência de crianças e jovens aumentando significativamente a aplicação de trabalho comunitário e obrigações como frequentar um curso de formação por exemplo. Parece-me um bom caminho embora algum pensamento mais conservador e securitário continue a fazer-se ouvir defendendo a prisão como a medida mais correcta o que comprovadamente, só por si, não funciona. Os estudos sobre a reincidência sugerem que as medidas de restrição de liberdade quando não acompanhadas por outro tipo de intervenção não a minimizam significativamente.
Parece-me, no entanto, claro que algumas situações extremas de risco mais elevado podem solicitar medidas mais restritivas mas sempre numa lógica de excepção e de transitoriedade.
Os comportamentos delinquentes são no fundo um desrespeito e agressão aos valores da comunidade pelo que parece lógico que em consequência desses comportamentos o seu autor seja colocado a desenvolver actividades que sirvam e “reparem” a comunidade “ofendida” e que, simultaneamente, forneçam sistemas de valores que possam influenciar e reabilitar os valores das crianças e jovens envolvidas.
Apesar deste caminho de alteração na forma como a jusante lidamos com os comportamentos delinquentes de crianças e jovens, é fundamental que percebamos o que a montante contribui para a emergência desses comportamentos, ou seja, as causas. E também nesta matéria me parece de privilegiar intervenções de natureza comunitária.

A SAÚDE E OS LIVROS, BENS DE PRIMEIRA NECESSIDADE

O saber popular costuma afirmar que de pequenino se torce o pepino. Sabendo nós como os hábitos de leitura estão pouco presentes nas nossas famílias, parece interessante e merece divulgação o Projecto em desenvolvimento no âmbito do Plano Nacional de Leitura em parceria com a Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral e a Sociedade Portuguesa de Pediatria. Este Projecto durante o ano passado mobilizou 121 Centros de Saúde e 731 médicos de família envolveu 18 400 crianças entre os seis meses e os seis anos.
Durante as consultas de rotina e ao mesmo tempo que se cuida do desenvolvimento é fornecido às crianças e famílias material de leitura que visa familiarizar o agregado com estes materiais e estimular a sua utilização. Alguns profissionais referem o impacto positivo registado nas crianças e nas práticas e atitudes familiares e até mesmo no decorrer das próprias consultas.
Parece-me o tipo de iniciativa interessante e que se justifica ser divulgada e multiplicada. Não requer meios sofisticados nem dsipositivos especiais, apenas materiais de leitura adequados às idades das crianças e uma atenção dos profissionais de saúde a estas questões.
Como referimos, os estudos mostram que os hábitos de leitura em família são baixos e programas desta natureza podem ser formas eficazes de promoção desses hábitos.
Gostava ainda de sublinhar a associação dos livros e da leitura aos cuidados básicos de saúde e desenvolvimento, finalmente.

O HOMEM QUE FALA SÓ

A maioria das pessoas daquele bairro conhece-o, o Homem que fala só. Conhecem-no exactamente por esta característica, fala só. No café à frente de um chá e de um livro ou de um jornal, no jardim, se o tempo o permite, ou mesmo quando deambula pelas ruas para desenferrujar o corpo, o Homem mantém consigo mesmo animadas conversas. Apenas se dirigia a outras pessoas para o indispensável do dia a dia e logo retornava á conversa consigo.
Claro que a generalidade das pessoas o achava esquisito, por assim dizer, na verdade em voz mais baixa pensavam que o juízo do Homem estava um bocado abalado, ninguém passa o tempo a falar só. Quando ele entrava em algum espaço as pessoas calavam-se e ficam discretamente a olhar e a ouvi-lo e depois comentavam como era triste alguém comportar-se assim, perder o juízo.
As pessoas não percebiam que o Homem se foi cansando de falar com pessoas que só têm certezas, não conversam com os outros, afirmam as suas ideias, gostos ou opiniões e nem sequer estão muito interessadas no que os outros têm a dizer pois bastam-se a si próprias. Não percebiam que o Homem continuava cheio de dúvidas sobre o que lia e ouvia pelo que discutia consigo mesmo essas dúvidas. E quanto mais lia, ouvia e discutia, mais dúvidas tinha pelo que mais discussões continuava a manter consigo mesmo.
As pessoas sem juízo são assim, estão sempre cheias de dúvidas.

domingo, 22 de Novembro de 2009

RUÍDO E INFORMAÇÃO

Não sou especialista em comunicação social e nem estou particularmente interessado nessa condição. Sou apenas um cidadão atento ao que o rodeia e que para isso não prescinde da comunicação social nos seus diferentes suportes.
Embora não sendo especialista sei, sabemos todos, que procurar definir isenção, neutralidade e objectividade em comunicação social é apenas uma forma de alimentar uma discussão sem conclusão. Os interesses políticos, partidários, económicos, pessoais, etc. são de tal forma pesados que tornam impossível a isenção e objectividade.
Neste quadro, a comunicação social em Portugal, sobretudo no que respeita ao que se passa cá por dentro, a que estou também mais atento, transformou-se numa emissão permanente de ruído no meio do qual circula alguma informação. A forma como os diferentes órgãos de comunicação social tratam as mesmas matérias, a gestão da informação que “estranhamente foge” de processos judiciais em curso, por exemplo, ou o discurso sobre as políticas do governo e as posições da oposição, os comentaristas que supostamente comentam mas que no fundo vendem as suas convicções político-partidárias são nas mais das vezes ruído e não informação.
É frequente a informação não relevar de factos mas de opiniões criando níveis altíssimos de toxicidade informativa.
Preferia que à semelhança do que se passa em muitos países os diferentes órgãos de comunicação social assumissem posições editoriais alinhadas quer politicamente quer em modelos ou “estilos” de comunicação social. Para nós cidadãos consumidores era mais transparente, sabíamos com que contar.

sábado, 21 de Novembro de 2009

POBREZA E SAÚDE MENTAL

Duas notas de reflexão num sábado com cara feia como feios são os conteúdos a que me vou referir.
Segundo dados de um estudo sobre pobreza infantil da Universidade Técnica de Lisboa, uma em cada quatro crianças vive em situação de pobreza. Para além do assustador número envolvido e das consequências óbvia e imediatas desta situação, importa não esquecer as consequências a prazo. Sabe-se que estas crianças serão as que mais risco de abandono e insucesso escolar correrão o que por sua vez implicará falta de qualificação e projectos de vida positivos e viáveis. Tal percurso alimentará o ciclo da pobreza produzindo mais pobres. É exactamente este ciclo que tem de ser quebrado.
A segunda nota refere para os indicadores que sustentam o aumento de problemas de saúde mental por questões ligadas ao desemprego. Já aqui afirmei que, do meu ponto de vista, roubar o trabalho a uma pessoa, para a maioria das pessoas, é roubar-lhe a dignidade. Uma ameaça sobre a dignidade é algo de extraordinariamente pesado e, por vezes, insuportável. Daí o aumento de casos de problemas de saúde mental, designadamente de depressão.
Por isso costumo dizer que a questão do desemprego envolve mais dimensões que o subsídio por mais necessário e importante que seja.

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

A CONTABILIDADE POR FAZER

Como era previsível, a aritmética parlamentar acabou com o famoso e incompetente Modelo e com a inenarrável e disparatada divisão dos professores introduzida no Estatuto da Carreira Docente.
No que me foi possível acompanhar, quer dos debates quer da imprensa, as análises têm andado sobre quem venceu, quem traiu, quem perdeu, quem mudou, quem resistiu, etc., e todo este juízo realizado, salvo raríssimas excepções, em cima das lógicas político-partidárias.
A minha questão é que uma legislatura praticamente completa com as escolas com climas altamente crispados entre professoras e estruturas directivas, com a relação entre os professores e a tutela a bater no fundo e sem um mínimo de confiança recíproca e capacidade de diálogo, com uma opinião pública mal informada e instrumentalizada pelo ME contra quem todos os dias toma conta dos seus filhos, os professores, implica e implicará consequências cujos efeitos não serão tangíveis mas são seguramente importantes e em várias dimensões.
Nesta contabilidade, do meu ponto de vista, os miúdos foram perdedores. Na Assembleia da República só soubemos o que parece ter acabado, resta saber o que vai começar, eventualmente mais uma aventura, com final feliz, espera-se.

DIREITOS E CULTURA

Por vezes assinalo aqui algumas datas, processo que designo por cumprimento da agenda das consciências. Na mesma linha, passam hoje 20 anos da adopção pelas Nações Unidas da Convenção dos Direitos das Crianças culminando um processo iniciado em 1959 com a Declaração dos Direitos da Criança. Por curiosidade e como refere o Público, trata-se do tratado mais ratificado da história, curiosamente apenas os Estados Unidos e a Somália não ratificaram a Convenção. Ao que consta, o Presidente Obama estará embaraçado com a situação e com a companhia.
Não é possível negar que se verificaram mudanças na qualidade e bem-estar na vida das crianças. Mas é também verdade que nesta matéria se verificam ainda enormes assimetrias fruto das desigualdades em muitas áreas entre o mundo dos países ricos e o dos países pobres e se assiste a situações absolutamente dramáticas.
Também em Portugal se podem registar alguns avanços por exemplo ao nível dos cuidados de saúde e o do nível de escolarização. No entanto, muito ainda está por fazer nos vários domínios da vida das crianças. Temos, por exemplo, um número excessivo de crianças institucionalizadas e sem projecto de vida ou casos de maus-tratos e negligência que não conseguimos prevenir e ou resolver adequadamente.
Apesar de todos discursos, de alguma legislação positiva, da cobertura do país por Comissões de Protecção de Crianças e Jovens ainda nos falta, embora não só a nós, uma verdadeira Cultura de protecção dos mais novos. Sem que a sociedade, nós, assumamos essa cultura de atenção e protecção dos miúdos dificilmente se cumprirão os desígnios da Convenção dos Direitos das Crianças.

UM HOMEM CHAMADO JUSTO

Era uma vez um homem chamado Justo. Era o tipo de pessoa de que a generalidade das pessoas que o conhecem gostam e mais, gostam de conhecer. Na relação que estabelecia com as pessoas, com todas as pessoas, mais conhecidas ou mais estranhas, mais velhas ou mais novas, colegas de trabalho mais próximos ou mais distantes procurava mostrar uma atitude de atenção que o tornava acolhedor.
Desenvolvia o seu trabalho de forma séria, procurando não cometer erros e estar disponível para ajudar quem com ele trabalhava sempre com algum incentivo que deixava as pessoas confiantes. Na função que exercia tinha que por vezes apreciar o trabalho e o comportamento de outros e fazia-o tranquilamente explicando a natureza das avaliações que fazia, que critérios usava e o que esperava que as pessoas fizessem com aquela avaliação.
O Justo era um excelente mediador nos naturais conflitos entre pessoas que convivem diariamente. Escutava diferentes pontos de vista e quase sempre conseguia estabelecer pontes de comunicação promotoras de avanço e ganho nas relações e no trabalho. Durante algum tempo o Justo desempenhou tarefas de chefia na instituição em que trabalhava e também aí mostrou as qualidades que o caracterizavam, decidia o que lhe competia decidir ainda que procurando ouvir o que outros teriam a dizer. Era capaz de identificar o que deveria ser melhorado e conseguia através do incentivo e de alguma persistência levar a mudanças. As pessoas realçavam a qualidade do trabalho que desenvolveu naquela função e como isso foi benéfico para todos.
Quando saiu, os alunos com que se cruzou, os pais que o conheceram e os colegas, professores ou outros, não tinham dúvidas de que o Justo foi um dos melhores professores que tinha passado por aquela escola.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

DIZ QUE É UMA ESPÉCIE DE AVALIAÇÃO

Desde o início do processo se percebeu que o modelo de avaliação imposto e enquadrado por um Estatuto de Carreira indefensável, estou a referir-me à divisão em professores titulares e outros, era incompetente e ineficaz. Tudo o que se seguiu foi fruto de uma estratégia política errada e arrogante escudada politicamente na existência de uma maioria absoluta e assente numa opinião pública criteriosamente “trabalhada” pelo ME e desfavorável aos professores. Devo dizer, como já disse, que em algumas circunstâncias os discursos dos representantes dos professores também contribuíram para tal cenário. Acresce a este quadro a tentativa de todos os partidos se apropriarem dos contornos políticos da educação e, como é habitual numa partidocracia, os interesses partidários tendem a sobrepor-se aos interesses gerais.
Com a mudança de equipa ministerial e com um consenso instalado, parece, sobre a necessidade de mudança, o que mais sensato haveria a fazer, do meu ponto de vista, era trabalhar, todos os intervenientes, no sentido de (re)construir os modelos de avaliação e de carreira adequados e definir um calendário de desenvolvimento do trabalho. Paralelamente, deveria estudar-se, não me parece difícil, a transição entre o que foi feito e o que virá a ser estabelecido, de forma a permitir, com um mínimo de sobressalto, o funcionamento das escolas.
Nesta perspectiva, todas estas questões de suspende, não suspende, há avaliação, não há avaliação, uns são avaliados de uma forma, outros de outra forma, uns docentes entregaram objectivos e são avaliados, outros não entregaram e são também avaliados apenas contribuem para prolongar o ruído, minar a credibilidade dos processos, aumentar a desconfiança e, por fim, alimentar pela negativa a nuvem de equívocos e perplexidades instalada na opinião pública o que, em última análise, é um péssimo serviço prestado à qualidade da educação, isto é, ao futuro dos nossos filhos.

ESTRANHA FORMA DE VIDA

Era uma vez um Rapaz que tinha uma estranha forma de vida. Aquilo que fazia, dizia ou pensava estava muitas vezes em desacordo com o que se desejava para gente da sua idade. Não gostava da maior parte das actividades escolares, apenas se envolvia em actividades desportivas e em algumas coisas ligadas a música. Em consequência já contava com alguns chumbos. Quando estava nas aulas, no intervalo das muitas faltas, o seu comportamento era mau, desafiador da autoridade dos professores e provocador dos colegas, de alguns colegas, sobretudo os que sobressaíam pelas qualidades escolares.
Nos tempos de intervalo na escola não era raro o envolvimento do Rapaz em brigas que quase sempre provocava.
Fora da escola, o Rapaz já não acatava bem as regras de casa, poucas e inconsistentes, e o seu comportamento passava pela provocação e pela habitual animosidade para com a generalidade das pessoas. Como seria de esperar, apenas se dava sem problemas com um grupo pequeno de amigos que liderava e com quem partilhava esta estranha forma de vida.
Quando se falava deste Rapaz, a maior parte das pessoas, na escola e no bairro, referiam-no como um destemido e indomável ser que não conhecia limites.
Ninguém sabia que o Rapaz quando falava de si para si, se sentia, ele próprio, nos limites. Em muitas noites adormecia com um enorme pavor de que no dia seguinte alguém percebesse o medo que sentia da sua estranha forma de vida e de se esquecer de vestir ao sair de casa a pele com que sobrevivia, a pele de um destemido e indomável Rapaz.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

OS MIÚDOS INFORMATIZADOS

Os resultados do estudo coordenado por Ana Nunes de Almeida, ”Crianças e Internet: usos e representações, a família e a escola” a ser divulgado no âmbito da Conferência de Educação da Gulbenkian merecem umas breves notas de reflexão.
Em primeiro lugar sublinhar o facto de a esmagadora maioria dos inquiridos ter contacto regular com os meios informáticos. Quando se fala do acesso dos mais novos às novas tecnologias de informação, veja-se muitos dos discursos a propósito do incontornável Magalhães, quase sempre surgem algumas vozes resistentes, desconfiadas e até críticas desta acessibilidade. O computador não vem substituir coisa nenhuma, carece, como todos os dispositivos de apoio às aprendizagens, de ser correctamente utilizado mas é, do meu ponto de vista, uma ferramenta que tem de estar presente no quotidiano dos miúdos.
Uma segunda nota e decorrente desta primeira para registar que as famílias mais escolarizadas são as que revelam obviamente maior nível de equipamento e utilização. Como seria de esperar, também o acesso a este universo tem uma marca social. Por isso, mais uma razão para que a comunidade, através do sistema educativo, promova a democratização do acesso a meios e recursos que se assim não fosse só estariam disponíveis a algumas franjas acentuando a desigualdade de oportunidades.
Por razões de espaço apenas mais uma nota, de acordo com o estudo, perto de 25% dos alunos nunca utiliza a Net na escola e apenas 20% a utiliza foras das aulas de Tecnologias de Informação e Comunicação. Tal facto evidencia que apesar do acesso mais facilitado ainda muito se pode fazer na utilização destes meios como ferramentas de trabalho e que apesar de alguns Velhos do Restelo, sem ser contra nada ou em vez de qualquer outra coisa, é este o caminho.

O MEU SONHO ACABA TARDE, ACORDAR É QUE EU NÃO QUERIA

O sonho será porventura a actividade mais democratizada da espécie humana. Parece acessível a todos os estatutos e condições. É certo que já me cruzei com pessoas que me impressionaram pela atitude de nada esperar da espécie de vida que têm e por não parecerem sequer capazes de comprar um sonho. Apesar da eventual discordância de alguns psicólogos, o sonho tem ainda a vantagem de permitir o acesso a tudo, não tem aparentemente limites, é completamente aberto, cada um pode sonhar o seu sonho, seja ele qual for.
Não é muito frequente recordar-me dos meus sonhos, dos bons e dos maus. É bastante mais usual sonhar quando estou acordado, bem acordado. E nestas ocasiões quase só me acontecem sonhos bons e sem limites.
Quando “acordo” e percebo que afinal foi apenas e de novo mais um sonho, lembro-me dos Madredeus e “o meu sonho acaba tarde, acordar é que eu não queria”. Mas não, acordamos e voltamos a alguns pesadelos à nossa beira.
Há algum tempo, um jovem com uma deficiência motora significativa foi questionado num documentário televisivo sobre se acreditava que alguma vez alguma vez teria possibilidade de uma viver uma vida “como a das outras pessoas”, família, emprego, etc. O rapaz respondeu que às vezes sonhava com isso, mas o problema é que, disse ele, “sonhar não custa, o que custa é viver”.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

CALMA, OS MIÚDOS ESTÃO ADOENTADOS

A preocupação em torno da Gripe A e dos seus efeitos não pára de se manifestar das mais variadas e curiosas maneiras, todas certamente legítimas, mas que, por vezes, parecem carecer de alguma reflexão. Agora, a inquietação decorre dos efeitos escolares que a estadia em casa dos meninos pode assumir e que é pertinente.
As escolas, como é natural, consoante os problemas com que se confrontam, organizam e organizarão alguns procedimentos e dispositivos no sentido de minimizar os efeitos, adequando o ritmo de desenvolvimento dos trabalhos, disponibilizando apoios através das plataformas das escolas, sugerindo algum trabalho em casa, etc.
As organizações representativas dos pais e encarregados de educação reagem de forma diferente, a Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação entende que as escolas poderão adoptar estratégias diferentes até porque nem todos os pais terão o mesmo entendimento e atitudes face ao trabalho escolar realizado em casa. A CONFAP, por seu lado, entende, que é preciso apostar no teletrabalho pois os “alunos não devem deixar de trabalhar quando estão em casa”.
Esta preocupação extrema com a “produtividade” dos meninos inquieta-me. Os miúdos estarão em casa cerca de uma semana. Obviamente, parece, estarão sob os efeitos do estado gripal, portanto fragilizados, e as pessoas querem assegurar a sua produtividade. É certo que esta preocupação é coerente com a defesa da estadia dos miúdos durante doze horas por dia na escola, mas é preciso bom senso. Também se sabe como é controverso o papel atribuído aos trabalhos de casa e como muitos pais têm a maior das dificuldades em acompanhar e apoiar os filhos nestas tarefas.
Neste contexto, se os miúdos estiverem doentes em casa precisam de tratamento adequado, companhia e apoio e algum trabalho eles farão. As escolas e os professores responsáveis saberão lidar com a situação sem stress e sem fundamentalismos de produtividade infanto-juvenil.

O CAJÓ E AS CEGADAS DA SUCATA

Hoje passei ao pé da oficina onde trabalha o meu amigo Cajó, o do Punto kitado, estava ele cá fora a matar o vício, deu para dois dedos de conversa.
Olá amigo Zé, tá-se bem? Até que deve tar, o seu glorioso este ano tá em grande.
Este ano é que é Cajó, tudo bem consigo? Vai aparecendo mais trabalho? Da última vez que o vi você estava um bocado aflito.
Vai dando p’ra desenrascar, o pessoal continua sem guito, só pedem cenas pequenas e só mesmo o que tem de ser.
Pois é a coisa anda mal.
Anda mal p’ra mim. Há aí bacanos que se safam bem. Tá a ver aquele que agora foi dentro, o gajo das sucatas. Parece que tá cheio da massa e oferecia Mercedes e tudo p’ra arranjar negócios. Eu ouvi na TVI e a minha Odete contou-me o resto. O man era só esquemas e cegadas mas é sempre a mesma cena. O gajo já ganhou o dele, deve tar bem guardadinho lá para fora e um destes tá lá a gozar a vida.
Pode ser que não Cajó.
Tá a brincar comigo, eu também ando aqui na sucata e não ganho para kitar o Punto, queria meter-lhe umas jantes bué da loucas que o Tózé me sacava com desconto a um bacano conhecido dele e não posso. Mas se arranjar algum caldinho a bófia aparece logo e tou feito. Os gajos de cima safam-se sempre. Eu acho é que isto tá tudo na sucata, só que uns safam-se e outros não. Pá agora tenho que ir mudar umas pastilhas ao Corsa daquele chavalo, senão você ia mas era chegar-se à frente e pagar uma mine.
Fica para a próxima Cajó.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

OS TRANSPARENTES

Fico sempre impressionado com aquelas pessoas que num acto de pagamento, por exemplo na fila do hipermercado, abrem a carteira e mostram ostensivamente um conjunto de cartões espalhados por várias ranhuras de volumosas carteiras.
Hoje fiquei a saber que perto de 250 000 famílias portuguesas não têm contas bancárias, a esmagadora maioria por não terem rendimentos que o justifiquem e suportem os encargos de abertura e manutenção de contas.
Nos tempos que correm até parece estranho que alguém, adulto, não tenha um cartãozinho de débito, já nem falo de crédito, chamado Multibanco, de um qualquer banco que possa ser mostrado e usado mesmo para a compra mais pequenina.
Eu acho que a maior parte de nós, assumo a minha parte, não tem consciência das dificuldades e os estilos de vida de parte significativa da nossa população. São aqueles a que costumo chamar os transparentes. Não os vemos, mesmo quando nos cruzamos com eles o nosso olhar passa através das pessoas, sem se deter e perceber quem habita naquele corpo e como vive.
Assim é melhor, dormimos mais tranquilos.

OS RESPIGADORES DO DESTELO E O APREGOADOR

Como costumo dizer uma das vantagens de ser velho é ter histórias para contar. Sempre que tenho oportunidade, é algo que me dá muito gozo, gosto de ouvir histórias da gente dos outros tempos para juntá-las às minhas. Uma das minhas fontes é o meu amigo, o Mestre Zé Marrafa que trabalha comigo lá no monte do meu Alentejo. Este fim-de-semana andámos juntos a desmoitar oliveiras e a traçar lenha, fizemos um intervalo na apanha da azeitona e, como sempre, o trabalho fica mais leve no meio de umas lérias, neste caso histórias de outros tempos.
Fiquei assim a conhecer algo de que nunca tinha ouvido falar, o destelo, e uma função, o Apregoador, há muito desaparecida no meu Alentejo. Vamos por partes, quando se considerava que a época da apanha da azeitona tinha terminado, o apregoador, já explico, avisava que se poderia ir ao destelo. O destelo é a busca de alguma azeitona que ficou para trás caída ou na oliveira e que as pessoas de menores recursos ainda vinham pacientemente, catar, colher e vender no lagar ou temperar para conserva. Lembrei-me do lindíssimo “Os Respigadores e a Respigadora” de Agnès Varda.
O Apregoador tinha uma função muito curiosa, cabia-lhe anunciar em quatro sítios diferentes da vila aquilo que lhe pediam para apregoar, desde um produto que estaria à venda no mercado, um monte ou uma herdade para vender, a realização de um qualquer evento, etc. Este trabalho pioneiro de publicidade e marketing realizava-se a troco de uma oferta por parte do interessado em apregoar.
O Velho Marrafa que em novo ainda andou ao destelo, estranha como as pessoas hoje não ligam a tantas coisas que deixam estragar sem aproveitar. Dói-lhe a alma de ver tanta azeitona a ficar nas árvores sem ser colhida e nós a importarmos azeite. Também a mim mas acho que se chama evolução.

domingo, 15 de Novembro de 2009

ATÉ QUANDO?

À medida que desfila aos nossos olhos o país político não consigo descrever com exactidão que sentimento me passa pela cabeça, vergonha, tristeza, revolta, indignação, indiferença resignada, etc. Provavelmente um pouco de tudo isto. Já não nos conseguimos surpreender com o que todos os dias nos entra em casa.
Do meu ponto de vista, já o tenho referido, a partidocracia que se instalou em Portugal levando a que os partidos, através dos respectivos aparelhos e consoante o calendário tomassem conta do país, minou dramaticamente a estrutura ética de uma democracia que estava ainda em maturação. A agenda dos partidos e os respectivos interesses, institucionais ou pessoais, sobrepõem-se despudoradamente ao bem comum.
Tal cenário não parece facilmente modificável pois, obviamente, os partidos capturaram o quadro normativo que regula a actividade política e, por isso, sendo parte do problema dificilmente serão parte da solução. Veja-se os casos recentes das alterações legislativas sobre o financiamento dos partidos e da falta de vontade política de combater a corrupção exemplificada com o tratamento ao chamado pacote Cravinho.
Os sucessivos casos que têm vindo a público, curiosamente o ultimo chamado Face Oculta, serão, pelo contrário, a face visível de tudo isto. As faces ocultas, muitas mais do que as conhecidas, permanecerão isso mesmo, ocultas, mas com muitos rabos de fora em todos os patamares e áreas da nossa sociedade.
Oiço os politólogos, espécie em proliferação e já quase praga que se juntou aos tudólogos, perorarem sobre o mal-estar da democracia de vários ângulos e com análises sempre muito interessantes mas sempre, do meu ponto de vista, ao lado, como se costuma dizer. Seria necessário um movimento forte da sociedade não alinhada nos aparelhos partidários a exigir mudanças e compromissos éticos às lideranças. É necessário uma militância activa no combate à partidocracia, denunciando, exigindo responsabilidades, a abstenção não chega. A imprensa teria aqui um papel fundamental se parte dela não tivesse também um compromisso mais ou menos evidente com as agendas partidárias.
Quando penso que tudo isto já bateu no fundo, surge algo ainda pior. Até quando?

sábado, 14 de Novembro de 2009

UM BOLLYCAO E UMA COLA

Hoje a agenda manda que se atente no Dia Mundial da Diabetes. É uma alternativa possível à inenarrável saga das escutas e do processo Face Oculta mais um retrato do degradante e degradado estado da Justiça em Portugal. Também permite que se não fale do acordo que nos bastidores parece tecer-se entre PSD e PS no que respeita à avaliação de professores, vamos a ver o que fica, isso é que me parece importante.
Voltando à questão da diabetes queria sublinhar algo que me parece fundamental e que aliás já abordei no Atenta Inquietude, os casos de diabetes têm disparado entre as crianças devido à obesidade. Diferentes estudos mostram que 30% das crianças portuguesas terão excesso de peso e 10% desenvolveram um quadro de obesidade.
Começa a emergir alguma preocupação com a qualidade de vida dos miúdos, designadamente no que respeita à alimentação e ao sedentarismo. Somos um dos países europeus que menos se envolve em actividades desportivas e de ar livre, nas escolas só agora começa a verificar-se alguns cuidados com o excesso de alimentação hipercalórica e o abuso de refrigerantes, mas os desequilíbrios são ainda regra.
Numa das circunstâncias em que me referi esta questão e à necessidade de lhe dar uma forte atenção, recebi alguns comentários sobre um eventual e fundamentalista discurso sobre as preocupações da saúde que pode bulir com os direitos individuais.
Continuo na minha, estou a falar de um grave problema de saúde pública que envolve os mais novos e com sérias repercussões na sua vida futura, não é uma intromissão, é um dever.

DÚVIDA

(Foto de João Monteiro)

Toda a gente me diz para eu fazer bem as coisas que vou crescer e ser feliz. Mas as pessoas parecem tristes, parecem infelizes.
Deve ser porque não fizeram bem as coisas.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

A ESCOLA NÃO PODE CONTINUAR A ENGORDAR

Fiquei a saber pela Antena 1 que se realiza hoje no Pavilhão Atlântico o I Fórum da Poupança e do Investimento organizado pela Associação das Instituições de Crédito Especializado. Pensei com os meus botões que nos tempos que correm parece positivo abordar tais matérias.
No seguimento da notícia surge então um elemento da Associação organizadora a sublinhar a importância de que estas questões também sejam abordadas com os mais pequenos, alguns, disse a senhora, não fazem a menor ideia de onde vem o dinheiro e que é finito, sendo, por isso importante, aprender a poupar, ou seja, a dar valor ao dinheiro como me explicava o meu pai. Também está bem pensei eu, os miúdos devem estar atentos e informados sobre as questões da vida de todos os dias.
De repente assustei-me, a senhora informou-nos que já foi proposto ao ME a criação no currículo escolar de uma disciplina de “Educação Financeira” para promover literacia financeira (a sério, foi o que ouvi) e informou que está praticamente pronto um manual que tem o acordo do ME e que seguramente estará nas escolas para o próximo ano lectivo.
Devo confessar a minha perplexidade. Até quando pensam inundar as escolas, os miúdos de disciplinas e de manuais? Uma disciplina de "Educação Financeira”? Com esta lógica tudo o que se possa transformar em saber poderia ser objecto de uma disciplina o que não faz o mínimo sentido. Estas questões podem muito bem, aliás devem, ser abordados com os miúdos, por pais e professores mas dispensam a existência de uma disciplina e de um manual.

A HISTÓRIA DO BEM-VINDO

Era uma vez um homem chamado Bem-vindo. O Bem-vindo nasceu numa família que muito desejava uma criança pelo que foi muito bem recebido ao entrar na vida. Foi um gaiato muito bem acolhido e ainda teve a sorte de crescer perto de um avô. O Bem-vindo frequentou um Jardim-de-infância daqueles em que as crianças estão num Jardim com Jardineiras e Jardineiros competentes que acolhem a miudagem com um aconchego que a faz sentir-se bem.
O tempo de escola do Bem-vindo correu serenamente, sem muitos momentos de excelência mas também com poucos problemas, apenas os que são de esperar em tais circunstâncias e idades. Contrariamente ao que acontece a muitos miúdos que se sentem mal na pele que têm e dão notícia desse mal-estar, às vezes de forma bem ruidosa, o Bem-vindo nunca sentiu mais do que as inquietações próprias de quem cresce, ou seja, sentiu-se sempre Bem-vindo. Assim, durante os anos que frequentou a escola foi chegando Bem-vindo aos saberes e aos valores que quando entrou no mundo do trabalho o fizeram sentir tal e qual era, Bem-vindo.
Entretanto, conheceu alguém que lhe pareceu a pessoa com quem queria partilhar a sua estrada. Ao fim de algum tempo de companhia e quando lhe propôs viajarem juntos ouviu, para seu contentamento e sustento, “Bem-vindo”.
Algum tempo depois, Bem-vindo e a sua companheira começaram a achar que a vida seria mais bonita se tivessem à sua beira alguém pequeno de quem cuidar e ajudar a crescer.
Começou aqui, de novo, a história do Bem-vindo, um homem com sorte.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

NÓS POR CÁ

De um olhar breve sobre a imprensa de hoje e com uma pontinha de demagogia que ajuda a sublinhar a mensagem, retirei algumas referências dispersas cuja leitura conjugada pode ser curiosa.
De acordo com o CM e o JN, os cinco maiores bancos portugueses e até Setembro aumentaram os lucros 4,25% o que se traduz em 1403.9 milhões de euros, qualquer coisa como 5.1 milhões por dia. Aqui introduzo uma notinha recordando o que tem custado ao cidadão português cuidar da banca, através da CGD que também, ainda assim, teve lucros.
No Público e no I, o Ministro da Economia afirma que aumentos salariais de 1.5% podem não ser sustentáveis. Este valor aplicado ao salário mínimo, 450 €, significaria o brutal aumento de 6.75 € ao mês.
Por outro lado, o DN refere que, segundo um estudo do Banco de Portugal, aumentou significativamente o número de famílias com mais do que um elemento desempregado, sendo agora de 21%, taxa que vista de uma forma mais fina permite verificar que passa para 40% nas famílias de menores recursos amplificando assim fortemente o risco de pobreza.
Curiosamente, o I apresenta um estudo sobre as intenções de consumo no próximo Natal concluindo que os consumidores portugueses inquiridos (de que não conhecemos o perfil) pensam gastar em média 390 € com presentes, jogos, livros e roupa e sapatos, os presentes mais referidos. Mais interessante é a previsão de gastar em média e no total da época natalícia cerca de 620 €. Como termo de comparação, os consumidores luxemburgueses prevêem gastar 1150 € e os holandeses, mais dados às poupanças, 400 €.
Tentei reflectir e interpretar a realidade de que estes dados são indicadores, mas sinto a maior das dificuldades. Alguém tem ideias?

COMPOSIÇÃO SOBRE O SUSTENTO

O Sustento é muito importante. A minha avó Leonor dizia que eu seria um homem quando ganhasse o Sustento. Há homens que não ganham o Sustento, estão desempregados, por isso a vida fica difícil, às vezes insustentável. Há muitos Sustentos. Há Sustentos para o corpo, Sustentos para a cabeça e Sustentos para o coração. Precisamos destes Sustentos todos.
Há muitas pessoas que não têm estes Sustentos. Falta-lhes os Sustentos para o corpo que, como sabem, são muito variados. Existem pessoas que vivem sós e não têm o Sustento que as outras pessoas dão. A minha avó Leonor quando vivia só, quis fazê-lo até quase ao fim, dizia que os netos eram o Sustento dela. E também há pessoas que não encontram em si o Sustento de que todos precisamos vindo de dentro para nos sentirmos melhor para fora.
O Sustento também é muito importante para os miúdos. Precisam de adultos à sua beira que os sustentem, com os Sustentos todos. Precisam de pais que sejam um Sustento. É engraçado que quando os pais são bons Sustentos para os filhos, estes também são Sustentos para os pais. Por isso é que a minha avó Leonor se sustentava dos netos.
É bom não esquecer que os miúdos também precisam de professores que sustentem o saber de que necessitam para, lá continuo a citar a avó Leonor, quando crescerem terem e serem um Sustento.
O Sustento é mesmo uma coisa muito, muito importante, torna-se até insustentável a falta do Sustento.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

O ENSINO MANUALIZADO

Dados recolhidos pelo Observatório dos Recursos Educativos junto de pais e alunos revela que 80 % dos pais preferem que os filhos estudem pelos manuais por se encontrar aí reunida a informação essencial e porque os manuais são o “guião de trabalho do professor”. Relativamente aos alunos, 70 % dos inquiridos prefere estudar pelo manual. Quanto aos aspectos negativos dos manuais é referido o preço e o peso aspectos que sendo importantes não são centrais.
Estes dados sublinham uma realidade a que já me tenho referido, uma excessiva manualização do ensino. Apesar da progressiva disponibilização de outras fontes de informação e do acréscimo de acessibilidade através das tecnologias de informação e de outros suportes, a utilização dessas fontes alternativas aos manuais é baixa e pouco valorizada por pais e alunos. De facto, apesar do abandono há já bastante tempo do “livro único” e de uma preocupação, ainda pouco eficaz, com a qualidade dos manuais, predomina a sua utilização e das respectivas fichas e instrumentos como materiais de apoio às aprendizagens e à “ensinagem”. Aliás, nota-se ainda no ensino superior a dificuldade que muitos alunos afirmam sentir quando percebem que não têm um “manual”.
Do meu ponto de vista, a minimização da dependência dos manuais passará, entre outros aspectos, por uma reorganização curricular, diminuindo a extensão de alguns conteúdos, por exemplo, o que permitiria a alunos e professores um trabalho de pesquisa e construção de conhecimentos com base noutras fontes, potenciando efectivamente a acessibilidade que as novas tecnologias oferecem.
É importante caminharmos no sentido de atenuar a fórmula única instalada, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.

AS MUDANÇAS E AS NOVAS QUALIDADES

Camões afirmava que “todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”. A sabedoria popular diria, sempre assim foi, sempre assim há-de ser. Também no nosso mundo se espera a mudança e novas qualidades. Algumas notas sobre as mudanças, ou a falta delas.
A nova equipa do ME mudou a atitude da anterior e, ao que parece, está receptiva a considerar novas qualidades no Estatuto da Carreira e no modelo de avaliação. É uma boa notícia, é preciso mudar o que está mau para que, neste caso, se ganhe qualidade.
Não muda o estado calamitoso da administração do sistema de justiça em Portugal. Agora temos uma despudorada troca de argumentos e meias palavras entre o Procurador-Geral e o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça sobre as gravações a Armando Vara que envolvem Sócrates. A mudança seria urgente e a falta de novas qualidades é gritante.
No último ano, por cada dois casamentos verificou-se um divórcio, o abaixamento da natalidade mantém-se ao nível do crescimento negativo ou perto disso, os casamentos pela igreja diminuíram muito significativamente, prepara-se legislação sobre o casamento entre pessoas do mesmo género, estará em discussão a adopção por casais homossexuais, a legislação sobre o testamento vital está na agenda, somos o país da UE em que a população envelhece mais depressa. Tudo isto evidencia as novas qualidades de um mundo em mudança.
Do meu ponto de vista, as novas qualidades que a mudança do mundo traz, umas mais positivas, outras bem negativas, exigem também mudança e novas qualidades na definição das prioridades políticas, na forma de fazer política, nos modelos de desenvolvimento económico e de organização social, etc. Aqui, lamentavelmente, a mudança é quase nula e as novas qualidades, frequentemente, são velhos defeitos.

A HISTÓRIA DO MARGINAL

Era uma vez um rapaz chamado Marginal. Era dos mais conhecidos na escola onde andava. Toda a gente falava do Marginal. Uns professores afirmavam que o Marginal não era como os outros alunos. Vinham alguns outros e diziam que ele não se comportava como os outros colegas da mesma idade, mostrava atitudes bizarras, achavam. Alguns professores referiam que o Marginal tinha gostos diferentes, ou gostava de músicas um bocado estranhas, ou andava com um visual também diferente ou, nas poucas vezes que se dispunha a participar em discussões nas aulas, as suas ideias eram também afastadas das dos seus colegas. No fundo, olhavam-no assim como a alguém que não é dali.
Os colegas dividiam-se sobre o Marginal. Alguns não gostavam do Marginal porque, diziam, era diferente e esquisito. Ao contrário, havia colegas para quem o Marginal era um tipo fixe, achavam-lhe piada e até sentiam uma pontinha de inveja de algumas coisas que viam no Marginal.
Neste universo e sem surpresa, o Marginal também se sentia um pouco do lado de fora e acabava por viver mais no seu mundo do que no mundo em que toda a gente habitava.
Curiosamente conhecia-se muito pouco do Marginal. Apenas se sabia que era de uma espécie de bairro pequeno e ignorado chamado À Margem onde, aliás, vivem quase todos os Marginais.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

SEM FACES OCULTAS

A última legislatura na educação ficou marcada pela crispação e clima instalados nas escolas através da imposição de uma inaceitável e inadequada divisão dos professores e de um modelo de avaliação que tem tanto de imprescindível como de incompetente.
Neste contexto, como frequentemente tenho afirmado aqui no Atenta Inquietude, a mudança é não só necessária como urgente.
No entanto, mais do que discussões de natureza semântica em torno se deve suspender ou mudar, o que me parece fundamental é que se construa. Que se construa um modelo de carreira que discrimine positivamente o mérito e corrija ou elimine a falta de qualidade. Que se construa um modelo de avaliação ágil, pouco burocratizado e eficaz, existem exemplos e conhecimentos que o permitem.
Parece-me também importante que se assegure equidade para todos os professores face ao atribulado e desigual processo de avaliação que, no que já foi realizado, se desenvolveu de formas diferentes em diferentes escolas.
Finalmente, como sempre tenho afirmado, parece-me fundamental que todos os intervenientes neste processo agora em desenvolvimento, chamado negocial, negoceiem sem faces ocultas, ou seja, que façam um esforço para não envolverem a agenda político-partidária. Que se negoceie de acordo com um desígnio de qualidade nas escolas públicas, de pacificação das escolas e de promoção e protecção do mérito e da competência.

A HISTÓRIA DA CRIANÇA FECHADA

Um dia destes a professora Teresa, de Língua Portuguesa, entrou na biblioteca para deixar os livros que tinha estado a trabalhar nas aulas e encontrou o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros.
Olá Velho, tudo bem contigo e com os teus livros?
Tudo bem e tu Teresa, estás bem?
Sim, olha foi giro, os miúdos, de uma forma geral gostaram deste trabalho e motivaram-se com os livros, eles lêem muito pouco, é preciso insistir e tentar que leiam mais. Mas o Tiago não aderiu muito, não se envolveu e pouco colaborou. Não entendo porquê, ele é uma criança muito fechada.
O que é uma criança fechada?
Ora Velho, estás a brincar comigo? É uma criança que fala pouco, não se envolve com os colegas, nem connosco. Sempre muito no seu canto com um ar um pouco ausente e às vezes até parece triste.
Não estou a brincar Teresa. É verdade que as crianças não são todas iguais, mas sabes que muitas vezes falamos assim de algumas crianças, “é fechada” e isso, julgamos, explica o que lhe observamos. Mas a questão é o porquê dela ser “fechada”. Foi ela que se “fechou”? E fechou-se porquê? Não gostou e assustou-se com o que viu ou sentiu dentro dela? Ou não gostou e assustou-se com o que viu ou sentiu do lado de fora. E se não foi ela que se “fechou” mas foi “fechada”? Quem é que a fechou? E porquê? Estás a ver Teresa, dizemos com muita facilidade que o Tiago é uma criança fechada e continuamos a não saber nada dele. Não fica fácil ajudá-lo a “abrir-se”, a não ser “fechado”.
Velho, se calhar é preciso encontrar uma chave que sirva.
Agora estás tu a brincar, mas é mesmo isso, muitas vezes, se estivermos atentos, consegue-se perceber qual é a chave.
Estás sempre com essa ideia de estar atento.
Não conheço melhor forma de perceber o que se passa com os miúdos mas, para complicar, é difícil ensinar ou aprender a estar atento.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

NEM ÀS PAREDES CONFESSO

A Faculdade de Medicina do da Universidade do Porto vai levar a cabo um estudo sobre violência doméstica, designadamente avaliar o impacto sobre a saúde mental e física das vítimas. Através da acção dos médicos de família procurar-se-á saber conhecer o lado menos visível desse universo, o lado que não aparece no episódio de violência que acaba na urgência hospitalar. Como é conhecido de muitos outros estudos, os casos revelados de violência doméstica são apenas uma pequena parte do que se admite passar e que não afecta apenas as mulheres. Os responsáveis pelo estudo admitem naturalmente que o mesmo permitirá caracterizar melhor a realidade. Este melhor conhecimento da realidade possibilitará, creio eu, que se desenhem estratégias preventivas mais eficazes, designadamente no âmbito dos programas educativos e de comportamentos saudáveis junto de adolescentes e jovens.
Parece-me também de registar a intenção de desenvolver um estudo semelhante mas direccionado para a violência dirigida a crianças de cujos valores também apenas se admite conhecer uma pequena parte.
A grande questão é se se conseguirão criar as circunstâncias de protecção e acolhimento que coloquem as vítimas suficientemente confiantes e disponíveis para formalizarem e revelarem as situações, frequentemente, terríveis em que passam parte da sua vida.

EU SEI O CAMINHO

(Foto de Luís Sarment0)

Às vezes, por eu ser pequeno, pensam que não sei o caminho, mas sei. O que eu preciso é que me ajudem a fazê-lo, a levantar-me quando tropeço ou a subir algum degrau mais alto.

domingo, 8 de Novembro de 2009

NÃO COMPLIQUEM

O Público apresenta hoje um trabalho sobre o comportamento dos portugueses que me impressionou. Acho notável o esforço de teorizar sobre uma espécie de “depressão pós-eleitoral” que estará a afectar o bom povo português levando-o a debater pouco a crise. É certo que, felizmente, o psicólogo opinante ainda não vê necessidade de acompanhamento terapêutico. Se já somos um dos países com maior consumo de anti-depressivos, tratar este pessoal todo seria coisa séria. Um outro opinante entende que a percepção de que a crise é importada contribui para inibir o debate.
Com o maior respeito pelas opiniões dos especialistas inclino-me mais a pensar que a partidocracia instalada leva a que coisa política circule pelo interior dos aparelhos partidários e respectiva clientela. A comunicação social, na maior parte dos casos, reflecte e amplia as agendas políticas dos interesses partidários, basta ver o clube dos opinadores nos diversos órgãos de comunicação social, sempre os mesmos e com o mesmo discurso.
Este cenário tem levado a um progressivo desinteresse e desmotivação da participação cívica e envolvimento dos cidadãos o que se traduz, por exemplo, no aumento sistemático da abstenção.
Por isso, não compliquem, o povo está é cansado “destes gajos todos”, temos dificuldade em perceber um rumo e, sobretudo, em sentir confiança nos rumos que nos tentam vender.
Não é um problema da saúde mental dos portugueses, é um problema da saúde da democracia portuguesa.

O TEMPO DA AZEITONA

É tempo de apanhar a azeitona no meu Alentejo. O lagar da vila já abriu e agora toca a apanhar. O mestre Zé Marrafa foi adiantando serviço e já lá vão 962 kg. Este é um ano bom de azeite, compensa o do ano passado que não deu para entregar um quilo que fosse para produzir azeite. Assim, depois de ter colhido azeitona que chegue para pisar, retalhar e para conserva agora é para fazer azeite, do bom.
O velho Marrafa tem um entendimento que eu não me atrevo a discutir sobre a apanha da azeitona aqui no monte, simultaneamente procede-se à limpeza das oliveiras. De modo que me transformo num agricultor em apuros, estendem-se os panos, colhe-se a azeitona numa catártica actividade de varejamento, corta-se o que há a cortar nas árvores com a motosserra, ensaca-se e carrega-se no tractor. Depois lá vamos a caminho do lagar para a pesagem e entrega.
O tempo de espera no lagar passa-se nas lérias, hoje até apareceu um bagaço que aqueceu a espera. O tema grande das conversas era o enleio criado sobre a forma como a azeitona seria aceite. Primeiro, não poderia vir em sacas, mesmo sacas limpas e novas. Só a granel nos carros de caixa ou nos atrelados. O pessoal que se tinha preparado com sacas, como eu, protestava, um atrelado podia ter carregado estrume ou adubo e depois trazer azeitona sem problema, eu e os outros companheiros que usámos sacas novas não poderíamos entregar a azeitona. Devem ser as decisões de protecção à lavoura como diz o Dr. Portas, o Paulo.
Como o meu amigo Manel Ilhéu estava no lagar com a sua carrinha de caixa a desenrascar um amigo, já tinha combinado com ele que se não me aceitassem a azeitona sairia do lagar, despejava as sacas para a carrinha dele e voltava a entrar. Mas chegou o bom senso. O engenheiro responsável do lagar depois de consultas telefónicas repôs a possibilidade de entrega da azeitona em sacas desde que de ráfia. Acho bem e lá me safei.
De maneira que nem sei muito bem o que se passou no país e o corpo não se cala a pedir descanso.
Só lá para o fim de Janeiro, quando voltar ao lagar para buscar o azeite novo, com o ambiente quentinho das enormes salamandras que impede o azeite de coalhar e o cheirinho do azeite novo é que me vou esquecer das agruras da apanha da azeitona e que ainda não terminou.

sábado, 7 de Novembro de 2009

TODOS TÊM A PERDER MAS, SOBRETUDO, TODOS TÊM A GANHAR

Parece que finalmente o ME se dispõe a analisar a situação que a desastrada PEC Política Educativa em Curso do governo anterior criou. Um dos efeitos mais perversos que essa política implicou foi a instalação de uma opinião pública genericamente desfavorável aos professores, “mérito” da Ministra Lurdes Rodrigues que considerou ter “perdido os professores mas ganho a opinião pública”. Também entendo e já o disse que frequentemente os discursos dos representantes dos professores também contribuem para tal.
Neste quadro, creio que a discussão com o ME deve ser feita com especial atenção e com uma preocupação de clarificar e divulgar junto de pais e restante comunidade a justeza das inquietações e reivindicações dos professores. Nesta perspectiva e considerando que a divisão dos professores em titulares e outros, foi a mais incompetente e insustentável decisão em matéria de política educativa nos últimos anos, esta questão merece especial atenção e inegociável revisão.
Por experiência pessoal, tem-me acontecido que quando explico a pessoas que conheço e que criticam as posições dos professores, a forma e os critérios que estão por detrás da divisão, essas pessoas entendem e aceitam que está obviamente errado. A questão da avaliação é bem mais fácil de resolver, os professores, contrariamente ao que se instalou em parte da opinião pública intoxicada pela PEC querem ser avaliados.
Diria que a divisão da carreira é o pecado original e, também já o referi, estranhei desde o início a relativa tranquilidade com que o Estatuto foi aceite. Parece que só quando se começou a aplicar as pessoas se deram conta da gravidade do seu conteúdo.
Esperemos que haja a lucidez política e o entendimento ajustado de todos os actores envolvidos do quanto está em jogo, a qualidade da educação.

PISAR O RISCO

Quando era miúdo uma das expressões que mais me lembro de o meu pai utilizar era “pisar o risco”. Ele definia com alguma clareza quais eram os riscos que não deveriam ser pisados e com a mesma clareza e assertividade fazia-me perceber e sentir quando um qualquer daqueles riscos estava a ser pisado ou em vias disso. Creio que na generalidade das famílias isto acontecia com maior ou menor animação, por assim dizer.
Actualmente os discursos dos pais, e não só, em torno dos riscos mudaram, em algumas famílias significativamente.
Muitos pais, a grande maioria, vive a sua parentalidade de forma extremamente assustada com os riscos que entendem estar presentes na vida dos filhos. Na verdade, as circunstâncias e modelos de vida e valores actuais justificam parte substantiva destas preocupações pois crianças e adolescentes estão efectivamente expostos a diferentes situações de risco. No entanto, também me parece que se verifica uma hiper-valorização destes riscos que sustenta estilos educativos altamente protectores, pouco estimulantes da autonomia dos miúdos tornando-os, por isso, mais vulneráveis e incapazes de lidar com os próprios riscos que inquietam os pais.
Curiosamente, os pais que fazem um discurso de sobrevalorização dos riscos são também os pais que revelam uma preocupante dificuldade em estabelecer para e com os seus filhos quais os riscos que não se podem, não devem, pisar. Em muitos ambientes familiares os miúdos crescem sem uma definição clara e equilibrada de regras e limites que os ajudem a organizar e regular autonomamente o seu comportamento. Os miúdos precisam de conhecer de forma nítida e sem ambiguidades os riscos que não são para pisar e os pais devem gerir as situações em que “o risco é pisado” com flexibilidade e bom senso.
Quanto mais consistente e claro for este processo mais equipadas estarão as crianças e adolescentes para lidarem com os riscos que os espreitam.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

SÃO PRIORIDADES PÁ

Como é evidente, os problemas de rendimento da equipa de futebol do Sporting, a posição de Paulo Bento e a decisão da administração da SAD têm trazido o país em suspenso e fortemente inquieto. Hoje quase tudo se clarificou. Paulo Bento apresentou a demissão, a administração aceitou e a equipa de futebol começará a render mais, espera-se.
O Jornal Televisivo da RTP1 das 13, na primeira meia hora, dedicou a esmagadora maioria do tempo a esta notícia, incluindo largos minutos na abertura, sem nada de relevante a não ser a informação da saída do treinador e a cobertura em directo e creio que integral da conferência de imprensa. No fim do Jornal a notícia foi ainda retomada por mais algum tempo.
Entretanto, foram passando umas minudências informativas como o termo da discussão e aprovação do programa do governo, os desenvolvimentos da operação Face Oculta, a questão da gripe A, coisas insignificantes de política internacional, etc.
Já aqui tenho dito que sou adepto de futebol pelo que neste discurso não existe preconceito mas não consigo entender a gestão das prioridades informativas, sobretudo ao nível do chamado serviço público. Claro que entendo que se trata de uma notícia e que obviamente caberia no universo da informação desportiva. Mas ouvir durante tanto tempo como primeira notícia a saída de Paulo Bento, as opiniões de variadíssimas pessoas sobre a saída de Paulo Bento, a informação prestada pelo Paulo Bento de que só as “suas senhoras” é que sabiam da decisão, que pretende ser “motorista das filhas e levá-las à escola”, que não está interessado para já em voltar ao trabalho, desculpem, é demais. Como se poderia dizer há mais vida para além do Paulo Bento.

SÓ ESTOU BEM ONDE NÃO ESTOU

Em diferentes circunstâncias lembro-me de alguns dos trabalhos notáveis de António Variações, acho muitas das letras que cantava excelentes retratos de uma sociedade que perdura, no melhor e no pior.
Hoje, ouvi alguns relatos e experiências de vida de algumas crianças e adolescentes e do mal-estar em que vivem. Este mal-estar traz dores, umas vezes mais mansas outras mais ruidosas e lembrei-me de novo do António Variações. Dizia ele em “Estou além” que “Vou continuar a procurar a minha forma, o meu lugar porque até aqui só: estou bem onde não estou …”. Acho lindíssima e feliz esta formulação que espelha muito bem como muitos de nós, sobretudo miúdos a quem falta, por exemplo, um aconchego familiar, se sentem, perdidos e, portanto, à procura.
À procura de si, à procura de outros, à procura de caminhos, à procura de um porto de abrigo, no fundo, à procura do seu lugar.
Esta procura cumpre-se às vezes sem fim, outras com mau fim e a maioria com sucesso, ou seja, cada um vai encontrar o seu lugar.
Enquanto não, só se está bem onde não se está, pelo que nunca se está bem. E nota-se. Nota-se os miúdos que não estão bem, não estão bem na escola, não estão bem em casa, não estão bem consigo, não estão bem com os outros. Só estão bem onde não estão.
Como não acredito no destino, acredito que é possível ajudar os miúdos a procurar o seu lugar. Como sempre, é preciso estar atento. Às dores, mesmo as mansas.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

OS PROFESSORES SÃO MEUS. NÃO, SÃO MEUS.

O Público on-line apresenta um título que me parece extremamente elucidativo de um dos mais fortes constrangimentos existentes sobre a qualidade do sistema educativo português, a apropriação político-partidária dos problemas e das decisões. Diz então o jornal que “PSD e CDS disputam liderança na avaliação de professores”. De facto também me parece que esta questão, como muitas outras, se relativiza aos interesses partidários e não aos interesses de professores, pais e alunos. Nos últimos dias os discursos, ainda com o silêncio da Ministra, mostram interessantes pontes entre o militante do PCP Mário Nogueira e o PSD que assume um discurso extraordinário através de um dos maiores bluffs que perora sobre educação em Portugal, um tal Santana Castilho que com uma tribuna oferecida pelo Público se entretém a preencher a agenda política do PSD com um discurso neo-liberal, composto de meia dúzia de banalidades num estilo trauliteiro e agressivo que vende, mas não tem substância. O CDS também quer ganhar e alia-se ao discurso de Mário Nogueira. Neste cenário inscreve-se o PS que depois da arrogante e incompetente legislação sobre avaliação e Carreira se vê agora entalado no sentido de perder para os outros partidos o controle da situação tentará, naturalmente, ganhar os professores perdidos por Maria de Lurdes Rodrigues e o Bloco não querendo perder boleia, também quer liderar o descontentamento dos professores. É que são muitos como sabem.
Neste quadro, seria interessante tentar ouvir os professores, estou a falar dos professores mesmo, perceber o que se faz em muitíssimos países em matéria de avaliação e organização da carreira e com sentido político, um desígnio de bem comum, promover uma inadiável definição de um competente modelo de avaliação e uma organização justa da carreira dos professores que discriminem o mérito e promovam a qualidade.

A TROCA DE IDEIAS

A evolução dos modelos de organização social, económica e cultural das sociedades conduziu a um progressivo abandono da troca, substituindo-a pela compra e venda. A concepção romântica da troca de produtos, já não passa de isso mesmo, de romantismo, tudo se compra e vende. Não digo isto por entender que deveria ser de outra forma, não vislumbro que pudesse ser de outra forma.
Apenas lamento que até a troca de ideias tenha sido substituída pela venda das ideias. Já é difícil assistir a uma conversa entre pessoas que pensam e sabem alguma coisa do que estão falar sem que os intervenientes assumam a postura de quem está a vender as suas ideias e não, apenas a trocá-las com os outros parceiros. Os debates, jogam-se mais em torno das técnicas de marketing, de venda, das ideias que dos conteúdos das mesmas. Cada vez consigo menos participar numa tertúlia, mais formal ou mais informal, sobre um qualquer tema, mais denso ou mais ligeiro, em que os companheiros de conversa não tentem vender as suas ideias, obrigando-me a comprá-las. Quase sempre encontro pessoas pouco dispostos a trocar as suas ideias com as minhas, experimentá-las, apreciá-las e, se for caso disso, também as usarem ou eu achar que as ideias que me foram apresentadas, não impostas em agressivas e às vezes mal educadas técnicas de convencimento, são interessantes conjugando-as ou substituindo as minhas.
Nas discussões as frases já começam pouco com “que achas?”, “que te parece” ou outra fórmula qualquer que ajude a aceder ao pensamento do outro. Começamos cada vez mais as frases com “É assim”, “Não, isso está errado, deve ser assim” e outras alternativas que apenas servem para apresentar a definitiva e indiscutível ideia.
Este cenário, pouca troca e muita venda agressiva, numa terra de achistas e opinadores profissionais empobrece-nos a todos, menos a alguns iluminados, os que vendem as ideias.