segunda-feira, 2 de março de 2015

DA INCLUSÃO

"Músicos com síndrome de Down e autismo vão representar a Finlândia na Eurovisão"

Peço desculpa pela insistência mas retomo umas notas sobre um notícia que ontem também aqui tinha referido numa primeira reacção. No entanto, dada a relevância que do meu ponto de vista apresenta, volto à questão.
Na Finlândia, o público votou numa banda musical, Pertti Kurikan Nimipäivät, constituída por pessoas com trissomia 21 e com quadro clínico de autismo para representar o país no Festival da Eurovisão.
Esta situação é de um significado fortíssimo.
Em primeiro lugar, deve registar-se que resulta da eleição pelo público num concurso aberto e não a nomeação que poderia estar contaminada por outras intenções.
Como muitas vezes aqui tenho referido, o verdadeiro critério de inclusão é a participação nas actividades comuns da comunidade. Em muitas circunstâncias, os eventos que em que participam pessoas com deficiência são-lhes exclusivamente dedicados, apenas envolvem pessoas com deficiência.
Confesso que estou cansado de assistir a encontros, escolas por exemplo,  mas também iniciativas das instituições, em que, em nome da Inclusão, no meio de um conjunto de actividades, aparece a "actuação" de um grupo de miúdos ou graúdos só constituído por gente "especial", a cuja actuação assiste a população "normal" e que parecem um erro de "casting". Não percebo porque os grupos que "actuam" não podem ser heterogéneos e em iniciativas abertas como, por princípio, é qualkquer actividade humana.
Eles, os "especiais" são capazes, como ontem afirmava. Muitos dos outros, de nós, os "normais", têm, temos, dificuldade em acreditar. Enquanto assim for é mais difícil estruturar actividades de inclusão em que a participação seja real e não um fingimento.
Boa sorte para os Pertti Kurikan Nimipäivät.

domingo, 1 de março de 2015

O CAMINHO FAZ-SE CAMINHANDO

"Finlândia leva à Eurovisão banda punk 

formada por cantores com défice cognitivo"

Apesar das dificuldades,
Apesar dos obstáculos.
Apesar da intolerância.
Apesar da exclusão em nome da inclusão.
Apesar da discriminação disfarçada de caridade.
Apesar da retórica que alimenta a inércia.
Sim, eles são capazes.
Sim, eles são capazes.
Sim, eles são capazes.
O caminho faz-se caminhando, como diria António Machado.

O SONHO DAS GRAVATAS

Um dia destes, ou uma noite destas, não me lembro se foi a sonhar a dormir se foi a sonhar acordado, vejo-me, não sei porque razão, a assistir a uma reunião para discutir os destinos do mundo.
Tanto quanto consigo recordar, estavam os responsáveis pelos países donos da globalização, não estavam os globalizados, e estavam pessoas das instituições globalizantes, grandes empresas e organizações. Coisa importante mesmo e eu meio perdido sem perceber porque estava ali.
Quando começaram os trabalhos, procurei seguir com atenção o que iria acontecer, sempre se tratava de decidir o que fazer com o mundo.
Estava com a sensação de que algo não estava bem. De repente, percebi que aquelas figuras todas eram apenas fatos, cinzento ou azul-escuro, com uma gravata, a sério, não se via corpo algum dentro dos fatos e eram as gravatas que falavam. Entretanto, também percebi que a linguagem utilizada pelas gravatas era estranha, indecifrável.
Já aflito, levantei-me e procurei interromper a reunião mas as gravatas continuavam a falar sem eu as entender, até que duas fardas sem polícia dentro me tiraram da sala e eu despertei.
Desde então, fico inquieto sempre que me lembro do mundo a ser dirigido por uma mão cheia de gravatas sem cabeça dentro e a falar uma linguagem que ninguém entende e de que quase todos sofrem os efeitos.

PARTAM, O FUTURO NÃO MORA AQUI

"Ministra das Finanças relativiza emigração jovem: "Se quiserem fazer opções lá fora devem fazê-lo""

A Ministra das Finanças mostrou ontem mais um exemplo de palavras (mal)ditas. Afirmou que devemos relativizar o fenómeno da emigração jovem, "Se quiserem fazer opções lá fora devem fazê-lo", acrescentou.
Não é nada disto, a maioria dos jovens que parte, conforme os estudos apontam, não o faz porque quer “fazer opções lá fora”, partem porque não têm opções cá dentro e este êxodo não pode ser “relativizado” ou desvalorizado, é um drama para o país e um drama para muitas famílias.
Na verdade, a emigração parece estar a constituir-se como via quase exclusiva para aceder a um futuro onde caiba um projecto de vida positivo e viável, algo que por cá não é fácil de definir. Aliás, vários outros inquéritos a estudantes universitários mostram como muitos admitem emigrar em busca de melhores condições de realização pessoal e profissional apesar de muitos afirmarem que pretendem voltar.
Somos um país de emigrantes de há séculos pelo que este movimento de partida, só por si, não será de estranhar. No entanto, creio que é preocupante constatarmos que durante muitos anos a emigração se realizava na busca de melhores condições de vida, a agora a emigração realiza-se à procura da própria vida, muita gente, sobretudo jovens não tem condições de vida, tem nada e parte à procura, não de melhor, mas de qualquer coisa. Este vazio que aqui se sente é angustiante, sobretudo para quem está começar, se sente qualifica e com o desejo de construção de um projecto de vida viável e bem sucedido.
Por outro lado e como é reconhecido, de uma forma geral, o ensino superior e a investigação em Portugal têm uma qualidade que internamente nem sempre é reconhecida e que se evidencia na frequência com que em diversas áreas se assiste à contratação de jovens que estudaram em Portugal para trabalho em empresas ou em investigação em diferentes países, onde se incluem, por exemplo, a Inglaterra, a Alemanha ou os Estados Unidos que não são propriamente países com baixo nível de desenvolvimento científico.
Neste quadro, torna-se ainda mais preocupante a partida para o estrangeiro de muitos milhares de jovens, com formação superior de elevada qualidade, porque em Portugal um projecto de vida viável e com sucesso é uma miragem. Este êxodo tem, obviamente, com profundas consequências para um país como Portugal.
Em primeiro lugar, porque sendo um país com uma fortíssima necessidade de qualificação nas empresas, vê partir os que mais preparados estariam o que terá, evidentemente, um impacto económico significativo. Aliás e curiosamente, este entendimento é recorrentemente afirmado por um Governo com forte responsabilidade pela emigração forçada de milhares de jovens com formação superior, designadamente trabalhadores na área científica, que não vislumbram o futuro em Portugal.
Em segundo lugar, porque importa não esquecer que os custos da formação dos jovens qualificados em Portugal são suportados por todos os nós no caso do ensino público e das famílias ou dos próprios na formação em estabelecimentos privados embora, considerando também o ensino público, os custos para as famílias na frequência de ensino superior em Portugal seja dos mais altos na Europa. Isto significa que Portugal, o estado e as famílias, suporta os custos da formação e os outros países aproveitam essa qualificação uma vez que os jovens não conseguem desenvolver o seu trabalho  em Portugal.
E o futuro? O futuro não mora aqui.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

OS BONS ALUNOS

Maria Luís: “Não devemos ter vergonha de ser bom aluno”

Não Senhora Ministra das Finanças, não devemos ter vergonha de ser bom aluno. Aliás, gostamos que os alunos sejam bons alunos.
Mas muito de nós não gostamos que "bons alunos" sejam acríticos submissos que imponham um qualquer diktat aos seus concidadãos tendo como consequência miséria, pobreza, desemprego e exclusão e ainda entendam que é o caminho certo.
Muitos de nós não gostamos que os "bons alunos" se comportem como cães de guarda que obedecem cegamente a "his master's voice".
Muitos de nós não gostamos que os "bons alunos" se deixem cair na inaceitável situação de serem mostrados pelo "professor" no circo mediático como pombas amestradas.
É uma questão de dignidade Senhora Ministra. Sabe o que é?

PAGAR CONTRIBUIÇÕES E IMPOSTOS? UM CONTO DE CRIANÇAS

"Passos Coelho acumulou dívidas à Segurança Social durante cinco anos"

Ao que se lê no Público, Passos Coelho acumulou dívidas de contribuições para a Segurança Social durante cinco anos. Questionado pelo jornal afirmou que não foi notificado pela Segurança Social e, entretanto, liquidou parte dessa dívida. Como sempre nestas ocasiões e de acordo com o “script” clássico, está de “consciência tranquila”. Acredito que esteja pois, para este pessoal, “consciência” não significa o mesmo que para maioria das pessoas.
É por demais evidente que para boa parte desta gente, contribuições, impostos, legalidade, etc., são “contos para crianças”, coisas, por assim dizer, para “tótós”, nós.
Tecnoformices, relvices, amigos mecenas, negócios manhosos e corrupção, tráfico de influências e amiguismo e outras habilidades da mesma natureza são ferramentas diariamente usadas por esta família alargada e diversa que há décadas ocupou um largo espectro do nosso contexto político, social e económico.
Até quando se manterá assim esta pantanosa pátria nossa amada? 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A RELAÇÃO PERTURBADA DE NUNO CRATO COM A REALIDADE

Nuno Crato diz que o país "melhorou" na Educação e Saúde desde 2011

Nuno Crato afirmou ontem que de 2011 para cá o País está melhor na Educação e na Saúde.
Ao que parece o Ministro terá afirmado isto sem sorrir.
É evidente que os especialistas podem ajudar a entender este processo de negação da realidade que é transformada nos desejos de quem para ela olha, mas a verdade é que, lamentavelmente, a realidade, sempre a maldita realidade desmente o discurso de Nuno Crato.
A educação e a escola públicas não estão melhor, antes pelo contrário.
As escolas perderam autonomia e enfrentaram problemas que deixam marcas importantes veja-se o caso do processo de colocação de professores no início deste ano lectivo.
Os resultados dos alunos estão em processo de abaixamento quer nas avaliações externas quer nos estudos comparativos internacionais contrariando um trajecto de melhoria que se vinha verificando.
Muitos milhares de professores foram empurrados para fora do sistema, não porque sejam incompetentes, não porque não façam falta mas porque a política educativa se transformou num exercício de contabilidade.
No mesmo sentido verificou-se o aumento do número de alunos por turma o que, em muitos dos nossos territórios educativos, aumenta a dificuldade para o trabalho de alunos e professores.
Os apoios e recursos para alunos com necessidades educativas especiais são insuficientes e inadequados conforme sucessivos relatórios da Inspecção-geral de Educação e do Conselho Nacional de Educação comprovam. Cada vez são mais frequentes as situações de ausência de resposta minimamente adequada e emerge um movimento no sentido de empurrar para fora da sala de aula do ensino regular estes alunos.
A examocracia instituída em nome da qualidade e do rigor está a produzir exclusão e uma franja significativa de alunos que são empurrados para um ensino vocacional através de um modelo criticado pela UNESCO e OCDE.
O ensino superior e a investigação foram submersos por um gigantesco corte nos recursos pondo em causa o funcionamento das instituições conforme sucessivas tomadas de posição do Conselho de Reitores ilustram. Milhares de jovens desistem da frequência do ensino superior por falta de meios e verificam-se menos candidaturas ao ensino superior por falta de recursos das famílias. A situação é dramática para um país que continua com um dos mis baixos níveis de qualificação superior da UE.
Nas escolas faltam assistentes operacionais cujo presença é importante  por exemplo na segurança e supervisão dos espaços de recreio.
O clima das escolas, variável reconhecidamente importante na qualidade da educação, está de há muito em alerta vermelho para usar uma expressão corrente.
Mais aspectos poderiam ser referidos.
No entanto, apesar deste cenário, o Ministro consegue dizer que a educação está melhor.
O despudor e falta de seriedade intelectual parecem não ter limites.

RELVICES

"Licenciatura de Relvas por decidir no tribunal há mais de ano e meio"

A questão relativa à licenciatura em modo "rapidinha" do "Dr." Relvas, também conhecido pelo "Facilitador", aguarda decisão do tribunal há um ano e meio. Provavelmente, a demora dever-se-á à dificuldade sentida pelos juízes em analisar o extenso e denso trajecto académico do "Dr." Relvas.
Entretanto neste espaço de tempo, o "Dr." Relvas concluiu com o habitual brilhantismo um doutoramento em "Facilitação e Influência" com uma Tese intitulada "Como produzir um Primeiro-Ministro".

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

DO DESPUDOR

De Fevereiro de 2014.

De Fevereiro de 2015
"Bruxelas diz que os cortes nas prestações sociais tiveram um impacto desproporcionado sobre os muito pobres. Sistema de proteção social é inadequado e não foi capaz de lidar com subida do desemprego."
De sempre, o despudor e a irresponsabilidade dos burocratas.

A INDIGNIDADE DA ESTALADA

"IPO de Lisboa confirma caso de agressão de médica a uma criança"

Apesar do Papa Francisco entender que quando um pai bate num filho e não lhe bate na cara está a bater com dignidade, respeita a criança, não vejo como um comportamento de violência dirigido a uma criança possa ser algo de digno.
No entanto e dito isto, também entendo que comportamentos inadequados ou incompetentes não significam necessariamente que estamos perante pessoas más ou incompetentes.
Todos nós, alguma vez agimos de uma forma menos ajustada ou adequada com os nossos filhos e isso não nos transforma em pessoas más, significa que somos apenas pessoas.
Assim sendo, creio que devemos ser cautelosos quer na defesa da "estalada educadora" quer na diabolização definitiva de uma médica ou de um pai que numa situação eventualmente esporádica assumem um comportamento de que podem ser os primeiros a arrepender-se.
Esta nota, não branqueadora ou desculpabilizante de nada,  pode não ser particularmente simpática mas estou cansado, tanto de discursos de legitimação do efeito "educativo" da violência dirigida a crianças, como de discursos demagógicos e, por vezes hipócritas, que clamam pelo "crucificação" cega de uma pessoa, o outro que bate, mas são desatentos ou mesmo autores de outros comportamentos dirigidos a miúdos tão indignos quanto a "estalada" ainda que menos visíveis. 

O ACESSO AO ENSINO SUPERIOR

A proposta do Conselho Coordenador dos Institutos Politécnicos no sentido de retirar peso às notas dos exame nacionais do ensino secundário no acesso ao ensino superior politécnico vais, do meu ponto de vista, acentuar a representação de do esino superior politécnico como uma via de "segunda", Não será, aliás, por acaso que os quatro maiores politécnicos, Lisboa, Porto, Coimbra e Leiria que acomodam cerca de metade do número total de estudantes deste sector não votaram favoravelmente a proposta que serve, aparentemente os institutos com menor capacidade de recrutamento.
Também sem estranheza as universidades não vêem inconveniente na medida desde que se clarifique melhor as diferenças entre politécnicos e universidades, ou seja, que se sublinhe a diferença de formação e "qualificação".
Como tenho dito é importante uma reorganização da rede do ensino superior envolvendo o universitário e politécnico e também alguma diferenciação na natureza da oferta. No entanto, não deve ser seguido um caminho que sugira um trajecto de "segunda" para alunos com notas mais baixas e outra via, de "primeira", para alunos com notas mais altas. Depois da "meia licenciatura" para compôr estatísticas este seria um outro passo na direcção errada.
Na verdade e do meu ponto de vista, a questão central é de outra natureza, a conclusão e certificação de conclusão do ensino secundário e a candidatura ao ensino superior deveriam ser processos separados.
Os exames nacionais destinam-se, conjugados com a avaliação realizada nas escolas, a avaliar e certificar o trabalho escolar produzido pelos alunos do ensino secundário e que, obviamente, está sediado no ensino secundário.
O acesso ao ensino superior é um outro processo que deveria ser da responsabilidade do ensino superior e estar sob a sua tutela.
A situação existente, não permite qualquer intervenção consistente do ensino superior na admissão dos seus alunos, a não ser a pouco frequente definição de requisitos em alguns cursos, o que até torna estranha a passividade aparente por parte das universidades e politécnicos, instituições sempre tão ciosas da sua autonomia. Parece-me claro que o ensino superior fazendo o discurso da necessidade de intervir na selecção de quem o frequenta não está interessado na dimensão logística e processual envolvida.
Os resultados escolares do ensino secundário deveriam constituir apenas um factor de ponderação a contemplar nos processos de admissão organizados pelas universidades como, aliás, acontece em muitos países.
Sediar no ensino superior o processo de admissão minimizaria muitos dos problemas conhecidos decorrentes do facto da média do ensino secundário ser o único critério utilizado para ordenar os alunos no acesso e eliminaria o “peso” das notas inflacionadas em diversas circunstâncias bem conhecidas. Todos nós conhecemos os clássicos exemplos de alunos que se dirigem a medicina porque as suas altíssimas notas assim o sugerem, acabando por reconhecer não ser esse o seu caminho e, por outro, um potencial excelente médico que deixará de o ser porque por três vezes ficou a décimas da média de entrada.
Enquanto não se verificar a separação da conclusão do secundário da entrada no superior corremos o risco de lidar com situações desta natureza.

O "CACHET" DO ARTISTA

"Durão Barroso pede 75 mil € para falar"
Cumpridos os dois mandatos na Comissão Europeia, Durão Barroso entrou na bolsa de conferencistas internacionais a preço de estrela.
Que terá Durão Barroso a dizer que justifique o "cachet"? Grande artista!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

HISTÓRIA DE FAMÍLIA COM PROFESSOR NO MEIO

Vou-vos contar uma história que, devo confessar, não me agrada nada contar mas é real, passou-se com um amigo meu e é um preocupante sinal dos tempos.
Estava este meu amigo num café, quando entrou uma família com um gaiato de nove ou dez anos. Ao pé do balcão, o miúdo começou a pedir, a exigir como agora fazem muitos miúdos, determinada pastilha, bolo ou qualquer coisa do género. Os pais não acediam ao pedido e quando a mãe, de forma mais veemente, negou pela enésima vez a exigência, o miúdo disparou um sonoro, “vai à merda”. A mãe, zangada, levantou a mão e ameaçou ruidosamente, “levas uma estalada, pensas que sou a tua professora?”. Extraordinário.
A história, em si, dispensa obviamente comentários, mas o que significa é perturbador. Entendo que todos, professores incluídos, temos alguma responsabilidade neste abastardamento progressivo da imagem social de uma classe profissional que, nos tempos que correm, assegura uma dimensão muito significativa do processo de educação e formação das pessoas.
O grande desafio que enfrentamos é inverter este trajecto e devolver aos professores uma imagem de respeito e confiança, sem a qual a sua tarefa é impossível. É o que se espera de todos, incluindo professores, quem os representa e quem gere o seu trabalho.

DA CORRUPÇÃO

A Procuradora-geral da República afirma hoje em entrevista ao Público que existem estruturas, uma “rede”, que se aproveitam do aparelho de Estado e da administração pública para “actos ilícitos, muitos na área da corrupção”.
É surpreendente a afirmação, não tínhamos dado por isso. Algumas notas.
Num trabalho do I de há algum tempo referia-se que em 4 anos apenas se registaram 5 casos de condenação a prisão efectiva por crime de corrupção. É algo de elucidativo quando são regularmente conhecidos casos que envolvem este tipo de ilícito, alguns com forte mediatização devido ao envolvimento de figuras públicas. No entanto, como já tenho referido esta situação parece-me quase inevitável no actual quadro social e político.
Recordo que em Fevereiro de 2014 a Comissão Europeia afirmava num relatório que em Portugal “não existe uma estratégia nacional de luta contra a corrupção em vigor”.
Segundo um estudo divulgado, creio que em 2013, realizado,  conjuntamente pela Universidade de Lisboa e pelo Movimento Transparência e Integridade, 70 % dos portugueses inquiridos consideram ineficaz o combate à corrupção, sendo que 78 % consideram que este problema se agravou nos últimos dois anos, o pior resultado da União Europeia de acordo com o trabalho da Transparency International, representada em Portugal pela TIAC -- Transparência e Integridade, Associação Cívica.
A maioria dos inquiridos, oito em dez, entendia que o “o Governo está nas mãos de um conjunto restrito de grupos económicos” e 60% dos portugueses afirma que os conhecimentos pessoais são importantes para obter serviços ou acelerar processos na administração pública.
Nada de novo, infelizmente, também nestes dados. Em 2013 tornou-se público que o Conselho de Prevenção da Corrupção, estrutura criada pela Assembleia da República e a funcionar junto do Tribunal de Contas, deixou de tentar envolver as organizações partidárias na sua acção, pois estas entendem que o Conselho não tem competência sobre as suas actividades e funcionamento, designadamente na sensível questão do financiamento.
A Transparência e Integridade, Associação Cívica tem vindo recorrentemente a lamentar “a reiterada falta de progressos na luta contra a corrupção por parte das autoridades portuguesas, sublinhada mais uma vez no último relatório de avaliação do Grupo de Estados Contra a Corrupção”, do Conselho da Europa, designadamente no que respeita a alterações legislativas no âmbito da corrupção e do tráfico de influências. Também um Relatório anterior das mesmas entidades indiciava que o combate à corrupção em Portugal apresenta “resultados mais baixos do que seria de esperar num país desenvolvido”, concluindo, entre muitos outros aspectos, que a “troca de favores” e a “cunha estão institucionalizadas “entre colegas do mesmo governo” bem como identificava Portugal como dos 21 países em que existe "pouca ou nenhuma implementação" da Convenção anti-corrupção da OCDE. 
No entanto, está sempre presente nos discursos partidários, sobretudo à entrada de cada novo governo, a retórica que sustenta o fingimento da luta contra a corrupção e a promoção da transparência na vida política portuguesa e, regularmente, emergem umas tímidas propostas que mascaram essa retórica, entram na agenda e rapidamente desaparecem até ao próximo fingimento. 
Do meu ponto de vista, nenhum dos partidos do chamado “arco do poder”, está verdadeiramente interessado na alteração da situação actual, o que, aliás, pode ser comprovado pelas práticas desenvolvidas, por todos, quando foram ocupando o poder. A questão, do meu ponto de vista, é mais grave. Os partidos, insisto no plural, mais do que NÃO QUERER mexer seriamente na questão da corrupção, NÃO PODEM e vejamos porque não podem.
Nas últimas décadas, temos vindo a assistir à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos uma partidocracia instalada que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do estado. Esta teia associa-se à intervenção privada sobretudo nos domínios, e são muitos, em que existem interesses em ligação com o estado, a banca e as obras públicas são apenas exemplos. Os últimos tempos têm sido particularmente estimulantes nesta matéria.
A manutenção deste quadro, que nenhum partido está evidentemente interessado em alterar, exige um quadro legislativo adequadamente preparado no parlamento e uma actividade reguladora e fiscalizadora pouco eficaz ou, utilizando um eufemismo, “flexível”. Assim, a sobrevivência dos partidos, tal como estão, exige a manutenção da situação existente pelo que, de facto, não podem alterá-la. Quando muito e para nos convencer de que estão interessados, introduzem algumas mudanças irrelevantes e acessórias sem, obviamente, mexer no essencial. Seria um suicídio para muita da nossa classe política e para os milhares de boys de diferentes cores que se têm alimentado, e alimentam do sistema.
O combate à corrupção, parece, assim, um problema complicado. De quem faz parte do problema, não podemos esperar a solução. Nem da Procuradoria-geral da República, provavelmente.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

NÃO PERTURBEM AS ACTIVIDADES LECTIVAS

"O ministro da Educação Nuno Crato explicou hoje que decidiram agendar a segunda fase da prova de avaliação de professores para as férias da Páscoa de forma a “não perturbar as actividades lectivas”."
Confesso que fiquei sensibilizado com a explicação de Nuno Crato para a marcação da parte específica da sinistra Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades para os candidatos à carreira de professores. Diz o Senhor Ministro, presumo que com um ar sério, que a prova decorre nas férias da Páscoa para não perturbar as actividades lectivas.
No entanto, acho curiosa a afirmação vinda de quem é o grande responsável pela ... perturbação das actividades lectivas.
Alunos sem professores durante meses, escolas sem funcionários, falta de recursos e apoios, exames a meio do período, etc.
Talvez a marcação da Prova para as férias não seja alheia a uma tentativa de minimizar iniciativas de constestação mais dificilmente mobilizadoras em tempo de férias.
Um Cra...que na manhosice.

A PERCEPÇÃO SOCIAL DE AUTORIDADE

"Violência contra profissionais de saúde mais que duplicou em 2014"

Segundo a Direcção-Geral de Saúde, entre Janeiro e Outubro de 2014 (DGS) registaram-se 477 casos de violência contra profissionais de saúde no local de trabalho. Este número é mais do que o dobro dos casos reportados em 2013, 202. Este tipo de episódios tem vindo a aumentar significativamente desde 2007 com 35 registos.
São referidos como eventual explicação para estes fenómenos, os potenciais efeitos que a situação de grande dificuldade e económica que atravessamos, incluindo dificuldades específicas no âmbito do SNS, que tornarão as pessoas mais stressadas, mais instáveis e agressivas.
Sem minimizar estes efeitos de natureza mais psicológica que alguns especialistas também sustentam, creio que importa reflectir numa outra perspectiva.
Em primeiro lugar sublinhar que os profissionais da saúde não são os únicos destinatários  de emergentes e regulares comportamentos de agressividade. Há algum tempo representantes de forças policiais vieram a público apresentar o mesmo problema e são demasiado frequentes e graves os episódios de agressão a professores.
Por outro lado, é minha convicção que, para além dos efeitos da crise, vale a pena considerar dois aspectos que me parecem essenciais, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade, que me parecem fortemente ligados a estes fenómenos.
Uma observação minimamente atenta às mudanças sociais, culturais e económicas nas últimas décadas, permite, creio, constatar como tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os médicos e enfermeiros, entre outras profissões, professores ou polícias, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição profissional, como fontes de autoridade, como também os velhos, curiosamente. Tal processo alterou-se, a profissão ou a idade já não conferem “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de agressão. Dito de outra maneira, a identificação como médico ou enfermeiro, através da "bata", polícia com a "farda" ou professor com o "peso social" da função e da escola, já não são, por si sós, reguladores dos comportamentos. Estas mudanças implicam uma reflexão profunda, pois sendo um fenómeno "novo", não poderemos recorrer unicamente às soluções "velhas".
O segundo aspecto que me parece de considerar remete para um ambíguo e abrangente sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a "grandes", o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”.
Considerando este quadro, parece importante um trabalho no âmbito da formação cívica sobretudo no sistema educativo e na formação profissional dos grupos profissionais para a gestão e prevenção de situações de conflito, bem como um discurso político e social consistente de valorização da autoridade, não do autoritarismo.
Por outro lado e finalmente é ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de punição e responsabilização séria dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.

A EXCLUSÃO É CARA

"Chumbos custam 660 milhões/ano"

Do meu ponto de vista, muitas vezes aqui afirmado, a questão central no nosso sistema educativo é a qualidade na escola pública. Esta qualidade deverá assentar em três eixos fundamentais, a qualidade considerando resultados, processos, apoios a alunos e professores e gestão optimizada de recursos, segundo eixo, qualidade para todos, a melhor forma de combater os mecanismos de exclusão e a desigualdade de entrada e, terceiro eixo, diversificação dos percursos de educação e formação.
Muitas vezes também aqui tenho referido que se a qualidade e o investimento na educação têm custos, o insucesso, o abandono e a exclusão são incomparavelmente mais caros.
É só fazer contas. E nisso, Nuno Crato é especialista.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

DE TANTO CHUMBAR ... UM DIA APRENDES

"Chumbos são “a situação mais grave do sistema de ensino em Portugal”"

Numa recomendação hoje divulgada o Conselho Nacional de Educação retoma a questão do volume da retenção escolar em Portugal cuja gravidade já tem referenciado tal como a OCDE. O objectivo da recomendação será a sensibilização política para esta matéria. Não estou particularmente optimista com a "sensibilidade" da actual equipa do MEC para esta questão, antes pelo contrário, creio que boa parte das actuais políticas educativas são ainda parte do problema e não parte da solução.
De facto, Portugal é o terceiro país da União Europeia com maiores percentagens de chumbos, 34.3% dos alunos em 2012 tinham reprovado pelo menos um ano, abaixo da Bélgica e do Luxemburgo com36,1% e 34,5%, respectivamente. De 2011 para cá, depois de um período de melhoria de resultados, os níveis de retenção voltaram a agravar-se em todos os anos de escolaridade. Em média chumbam por ano cerca de 150 000 alunos dos ensinos básico e secundário.
Por outro lado, em países como a Lituânia, Reino Unido, Islândia e Finlândia estas percentagens não chegam aos 4% sendo que a Noruega apresenta uma taxa de retenção nula.
Na verdade, tal como a recomendação do CNE aponta, muitos estudos, nacionais e internacionais, mostram que os alunos que começam a chumbar, tendem a continuar a chumbar, ou seja, a simples repetição do ano, não é para muitos alunos, suficiente para os devolver ao sucesso. Os franceses utilizam a fórmula “qui redouble, redoublera” quando referem esta questão.
Nesta conformidade e do meu ponto de vista, a questão central não é o chumba, não chumba e quais os critérios, mas sim que tipo de apoio, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional. Como é evidente este tipo de discurso não tem rigorosamente a ver com "facilitismo" e, muito menos, com melhoria "administrativa" das estatísticas da educação uma tentação a que nem sempre se resiste.
Neste cenário a insistência na introdução de mais exames como panaceia da qualidade corre, do meu ponto de vista, o risco do trabalho escolar se organizar centrado na preparação dos alunos para a multiplicidade de exames que realizam, ou seja, como me dizia há tempos um professor do ensino secundário, "o trabalho com os alunos é muito interessante mas a partir de certa altura sou eu e eles contra os exames".
Esta perspectiva, mais exames como fonte de qualidade, parece decorrer da estranha convicção de que se medir muitas vezes a febre, esta irá baixar o que é, no mínimo, ingénuo.
A qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, naturalmente, mas também com a avaliação do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc. É o que acontece, genericamente, nos países com mais baixas taxas de retenção como também é referido na recomendação CNE.
O problema é que de há muitos anos a educação anda à deriva das agendas políticas.
A defesa de mais exames, como muitas vezes é feita, corre o risco de sustentar um discurso demagógico, as referências a exigência e a rigor vendem bem, mas deixa de lado os aspectos mais essenciais.

DO ABANDONO ESCOLAR

"Abandono escolar já baixou para os 17,4% mas o ritmo da melhoria está mais lento"

Segundo dados do INE divulgados pelo MEC, o abandono escolar precoce, percentagem de indivíduos que entre os 18 e os 24 anos não concluíram pelo menos o ensino secundário e não estão a frequentar qualquer ensino formal , baixou para 17.4% em 2014 o que deve ser registado.
No entanto é preocupante o ritmo de abaixamento tem vindo a diminuir nos últimos anos.  De 2011 para 2012, a descida foi de 2,5 pontos percentuais; um ano depois, tinha baixado mais 1,6%; e finalmente, entre 2013 e 2014 registou-se a variação de 1,4 pontos.
Este trajecto pode comprometer a meta estabelecida para 2020 de chegar aos 10% de abandono escolar precoce.
Para compreender as razões para que a variação seja menor talvez sejam de considerar os efeitos de algumas medidas e orientações em matéria de política educativa e as consequências da crise económica que se abateu sobre as famílias.
Um modelo educativo progressivamente assente na examocracia, no aumento do número de alunos por turma, na falta de dispositivos de apoio ao trabalho de alunos e professores não pode deixar de ter efeitos. Acresce que a oferta educativa alternativa para esta população, embora se tenha vindo a diversificar, é insuficiente, em muitos casos existe apenas no papel e na intenção, as escolas não têm recursos e, em muitas circunstâncias ainda é percebida como formação de segunda por famílias, alunos e, também, professores o que diminui a sua capacidade de atracção.
Por outro lado, mesmo para os alunos que terminaram o secundário e estão dentro desta faixa etária, importa considerar que Portugal é, comprovadamente, um dos países em que a frequência de ensino superior é mais cara e mais suportada pelas famílias. Deste quadro resulta o abandono de muita gente da frequência do ensino superior e o abaixamento que se tem vindo a verificar nos últimos anos do número de estudantes que terminam o secundário e não prosseguem estudos.
Apesar de sistematicamente nos dizerem que a realidade está enganada os sinais que vão emergindo do sistema educativo em muitas áreas não são particularmente animadores.

AVÓS, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE

"Avós são fundamentais no pão e na educação dos netos"

A imprensa tem vindo a fazer referência a um estudo, Fórum da Criança, que será divulgado na terça-feira no seminário "Kids & Teens" sob o tema "a Reinvenção da família alargada", em Lisboa, em que se caracteriza o papel dos avós na vida dos miúdos.
É de registar o número significativo de famílias que contam com a ajuda altamente valorizada dos avós no cuidar dos miúdos e mesmo no apoio económico.
Aliás, este envolvimento e proximidade intergeracional parece estar a aumentar, em parte, como consequência dos problemas de emprego e baixos salários de casais mais jovens que inibem o acesso a casa própria, bem como dos custos e acessibilidade a equipamentos e serviços para a infância.
Como muitas vezes aqui tenho referido, considero de especial relevo este contacto entre avós e netos. Eu próprio entrei ainda há pouco mais de uma ano neste mundo mágico da avozice e ainda não consegui acomodar os sentimentos e a magia de acompanhar de perto, tão de perto quanto possível, o crescimento de um gaiato que tem uma geração pelo meio. Tem sido um divertimento, uma descoberta permanente e a percepção de um outro sentido para uma vida que já vai comprida e também, desculpem a confissão, cumprida.
É por isso que retomo a minha proposta, bizarra eu sei, de ser legislado o direito aos avós. Isto quer dizer, simplesmente, que todos os miúdos deveriam, obrigatoriamente, ter avós e que todos os velhos deveriam ter netos.
Num tempo em que milhares de miúdos passam muito tempo sós, mesmo quando, por estranho que pareça, têm pessoas à beira, e muitos velhos vão morrendo devagar de sozinhismo, a doença que ataca os que vivem sós, isolados, qualquer partido verdadeiramente interessado nas pessoas, sentir-se ia obrigado a inscrever tal medida no seu programa ou, porque não, inscrevê-la nos direitos fundamentais.
Com tantas crianças abandonadas dentro de casa, institucionalizadas, mergulhadas na escola tempos infindos ou escondidas em ecrãs, ao mesmo tempo que os velhos estão emprateleirados em lares ou também abandonados em casa, isolados de tal forma que morrem sem que ninguém se dê conta, trata-se apenas de os juntar, seria um dois em um. Creio que os benefícios para miúdos e velhos seriam extraordinários como o estudo agora divulgado também sublinha
Um avô ou uma avó, de preferência os dois, são um bem de primeira necessidade na vida dos miúdos.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

ESTÁS REQUALIFICADO. Eras um empregado passas a ser um desempregado

"Requalificação: 630 trabalhadores com a vida virada do avesso"

Quando eu era miúdo e como muitas vezes acontecia com connosco, se estávamos onde não devíamos logo algum adulto soltava um "ponham-se a mexer daqui" e nós ... púnhamo-nos a mexer dali, quase sempre a contragosto.
Mais recentemente e com a emergência da preocupação com os estilos de vida saudáveis, entrou no léxico uma outra referência à ideia de movimento, "pela sua saúde, mexa-se" e muita gente se mexe pela rua ou pelos ginásios à procura de melhor qualidade de vida.
Entretanto e nos últimos tempos surgiu a mais curiosa das utilizações da ideia de movimento, isto é, uma figura inventada pela administração pública que retoma o discurso dos adultos do meu tempo mas em vez de soltar um assertivo "ponham-se a mexer daqui", cria um sistema de mobilidade, uma figura curiosa para colocar os funcionários descartáveis em movimento, isto é, dali para fora.
De facto, o Governo entende que existem funcionários público a mais, algo que as comparações internacionais não suportam, uma vez que parece mais um problema de gestão e qualificação do que de excedentes, quer despedi-los, mas a lei, a Constituição, sempre a Constituição, atrapalham e então é criada uma estranha figura, o sistema de mobilidade, justamente para pôr os funcionários a "mexer dali".
No entanto, em termos de marketing e comunicação política,  a terminologia não é muito simpática e muda-se de sistema de mobilidade para sistema de requalificação, uma sala de espera passageira para onde se enviam os funcionários descartáveis a quem se dá uns trocos durante alguns meses e pronto, eles põem-se definitivamente a mexer.
Na verdade, a última designação parece a mais acertada, o novo sistema vai proceder à requalificação da pessoas, perdem a qualificação de empregados e ganham, uau! a qualificação de desempregados com a qual ficarão pobres mas felizes para sempre. A questão é que não ficam felizes para sempre, cai-lhes o céu em cima da cabeça, vêem e sentem a sua vida e dignidade a afundar-se como o trabalho de hoje do Público mostra.
A isto chama-se, dizem, convergência de sistemas e procedimentos, ou seja, a pobreza quando nasce é para todos (quase), há que democratizar o acesso à condição de pobre.
Volto a recordar os adultos do meu tempo, era altura de pôr esta gente a mexer dali para fora. O problema é a gente que a seguir virá.

HIS MASTER´S VOICE

"Imprensa alemã diz que Maria Luís pediu dureza a Schäuble"

Apesar dos desmentidos, depois da imprensa grega, do Ministro Varoufakis, da imprensa inglesa também a imprensa alemã refere a ortodoxia e a insistência de Maria Luís Albuquerque em travar o acordo a estabelecido entre o Eurogrupo e a Grécia.
Não percebo muito bem como pode esta posição servir os interesses portugueses pois alguns ajustamentos no plano de assistência aos gregos poderia ter reflexos positivos para os outros países intervencionados, designadamente Portugal, e cuja dignidade foi maltratada conforme Juncker afirmou.
Esta gente pequena que é dura com os pequenos e de uma fidelidade canina aos seus donos não vai nunca perceber, coma mais ou menos poder, que política tem a ver com pessoas, com o bem estar das pessoas. Assumem com empenho e sem um sobressalto de inquietação o que sentem ser His Master´s Voice e nada os faz mudar.
De vez em quando recebem uma festa na cabeça e são mostrados como obedientes e bem comportados nos espectáculos do circo mediático. É uma figura triste.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

PELA NOSSA SAÚDE


"Hospitais públicos com menos 430 camas em três anos


Existem notícias que quase dispensam comentários embora justifiquem a indignação. A maldita realidade teima em não obedecer aos nossos desejos.
No entanto, sempre me recordam a afirmação de Michael Marmot, reconhecido especialista em saúde pública, que há algum tempo esteve em Portugal, "todas as políticas podem, ou devem, ser avaliadas pelos seus impactos na área da saúde."
Pela nossa saúde.

DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA


Um inquérito conduzido pela Universidade do Porto sobre a educação Pré-escolar, apesar de algumas limitações relativas à representatividade do universo de educadores que responderam, evidencia alguns dados que deverão merecer profunda reflexão.
Desses dados salientaria a referência a inúmeras de salas de jardim de infância que acomodam crianças com necessidades educativas especiais, sem qualquer apoio. Na rede pública as situações reportadas variaram entre uma e sete crianças numa sala.
Aliás, a necessidade de formação e apoio para o trabalho com crianças com necessidades especiais foi, justamente, uma das grandes prioridades identificadas pelas educadoras inquiridas.
O cenário é alarmante mas não, lamentavelmente, inesperado.
A falta de recursos e dispositivos de apoio para os alunos com necessidades especiais e para as escola ou jardins de infância que os acolhem é uma matéria recorrente e objecto de referência em sucessivos relatórios da Inspecção-Geral de Educação ou do Conselho Nacional de Educação, por exemplo.
Se considerarmos este cenário, crianças com necessidades especiais em idade de educação pré-escolar sem apoios adequados é fácil e terrível imaginar as consequências para o seu desenvolvimento e progresso que transportarão ao longo da sua estadia de 12 anos na escolaridade obrigatória.
Num país em que a retórica da educação inclusiva informa quase toda legislação e os discursos políticos a situação real mostra como, de facto, o bem estar das crianças e o trabalho de dos educadores e educadoras está altamente comprometido.
Como muitas vezes aqui tenho afirmado, embora Portugal tenha um nível muito elevado de crianças com necessidades especiais em estruturas de ensino regular, boa parte destas crianças não estão incluídas, integradas, estão "entregadas". Os seus professores ou educadores e famílias também estão entregues a si próprios.
Apesar do esforço e do empenho da esmagadora maioria dos professores, de ensino regular e de educação especial, de técnicos e das famílias, em muitas situações, a educação, a escola inclusiva é um fingimento.
Não era com isto que gostava de começar o dia.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

GOSTEI DE LER

o texto de Filinto Lima, "A educação ao sabor dos ventos". Uma reflexão lúcida sobre o universo da educação.

A HISTÓRIA DO AZARADO

Era uma vez um homem chamado Azarado. Toda a sua vida foi um conjunto de circunstâncias desencontradas. Nasceu rapaz, os pais desejavam uma rapariga e nasceu no meio do Verão contrariando o esforço de planeamento dos pais que o queriam no Inverno. 
Na escola o Azarado sempre encontrou os professores menos simpáticos e não havia jogo que conseguisse ganhar. Nos testes acontecia sistematicamente que esperava por umas questões e apareciam outras. O Azarado desesperava, é que não se pode saber tudo e ele nunca acertava.
A rapariga mais bonita que ele conheceu e por quem sentia uma paixão tão grande como aquelas que vêm nos livros, não lhe ligava nem um bocadinho, era com se ele não existisse. No entanto, tinha que fugir de uma miúda que o adorava mas de que ele só gostava ao longe, muito ao longe.
Na sua profissão, vendedor de Projectos, perdeu a grande oportunidade porque furou a caminho da entrevista que mudaria a sua vida.
O Azarado apresentou um dia a mulher ao seu colega mais amigo. Desse encontro, resultou um amor que o deixou sem mulher e sem amigo.
Viveu só o resto dos dias, sempre em desencontro com as circunstâncias. Uma manhã, o Azarado não acordou.
Os amigos comentaram, “Que sorte a do Azarado, ficou-se que nem um passarinho”.

QUE SE LIXE A DIGNIDADE

"Passos diz que "dignidade de Portugal nunca esteve em causa""

Existem palavras que não deveriam ser usadas por boa parte das lideranças políticas, sociais e económicas.
Dignidade, consciência, ética, seriedade, solidariedade, são alguns exmplos.
Não sabem o que significam.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

ELA SABE O QUE É UM MELRO!

Deixem-me partilhar uma micro-história que uma Mãe trouxe cá para casa.
A Filha é uma adolescente, com um diagnóstico de atraso cognitivo que frequenta uma escola inclusiva, dizem.
A Mãe foi buscar a filha à escola e quando iam a sair a filha exclama “Olha um melro, é da Primavera”.
Perto estavam duas auxiliares e uma delas afirmou para que Mãe e Filha ouvissem, “Olha! Sabe o que é um melro! Não é tão parva como a gente pensa”.
Na verdade, as pessoas, mais pequenas ou maiores não são tão parvas como a gente pensa.
Muitas vezes tenho afirmado que o conjunto de convicções e expectativas que estão presentes na comunidade educativa influenciam o trabalho desenvolvido com estes alunos ao ponto desse próprio trabalho ser um factor de debilização, ou seja, alimenta a sua incapacidade.
Tal facto, não decorre da incompetência genérica dos técnicos, julgo que na sua maioria serão empenhados e competentes, mas da sua própria representação sobre este grupo de alunos, isto é, não acreditam que eles realizem ou aprendam. Desta representação resultam situações e contextos de aprendizagem, tarefas e materiais de aprendizagem, expectativas baixas traduzidas na definição de objectivos pouco relevantes, que, obviamente, não conseguem potenciar mudanças significativas o que acaba por fechar o círculo, eles não são, de facto, capazes. É um fenómeno de há muito estudado.
O que acontece, sem ser por magia ou mistério, é que quando nós acreditamos que os miúdos são capazes, eles não se "normalizam" evidentemente, mas são, na verdade, mais capazes, vão mais longe do que admitimos. Não esqueço a gravidade de algumas situações mas, ainda assim, do meu ponto de vista, o princípio é o mesmo, se acreditarmos que eles progridem e são capazes de ... , o que fazemos, provoca progresso, o progresso possível.
E isto envolve professores do ensino regular, de educação especial, técnicos e pais.

A SÉRIO?!

Troika "pecou contra dignidade" dos cidadãos de Portugal e Grécia

Confesso que até fiquei emocionado. O Presidente da Comissão Europeia vem agora dizer que a Troika "pecou contra dignidade" de portugueses, gregos e irlandeses. E então? Que vai fazer Sr. Juncker? Nada que contrarie a Sra. Merkel, evidentemente.
Na verdade, um pecador arrependido é sempre uma boa jogada de marketing político.
A hipocrisia e o despudor não têm limites.

QUEM PARTE E REPARTE ...

"Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte", diz o velho provérbio. Numa versão actualizada podemos ter um enunciado como "a austeridade quando nasce não é para todos".

"Políticos e dirigentes superiores ganham mais do que há três anos

Na verdade, esta gente de tolo tem nada, são uns verdadeiros artistas.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

DO AJUSTAMENTO QUE FUNCIONA

Risco de pobreza em Portugal aumenta e afeta quase dois milhões

"Portugal voltou aos níveis de pobreza de há dez anos"

Segundo os discursos produzidos pelo Governo falando do Lado A da realidade, os portugueses estão melhor, até já compram mais carros o que deixa a Ministra das Finanças particularmente satisfeita mesmo que lhe custe mais problemas no trânsito.
No entanto, olhando para o Lado B da realidade temos o INE a mostrar que o risco de pobreza aumentou e afecta quase dois milhões de portugueses sendo particularmente preocupante o caso das crianças sempre um grupo mais vulnerável..
Como sempre, alguém virá dizer que a realidade está enganada e os discursos é que estão certos.
Entretanto a vampiragem:

"Schäuble diz que Portugal prova que ajustamento funciona"

"FMI aconselha Governo a manter cortes nos salários e nas pensões"

DOS INTERESSES

"Descentralização. Maioria das câmaras que avançam são do PSD e do CDS"
Mais um exemplo, só mais um, do que me parecer ser um dos grandes problemas que, do meu ponto de vista, aflige a educação em Portugal, a captura dos interesses gerais pelos interesses da "partidocracia", isto é, a educação é um território privilegiado da gestão dos interesses partidários conjunturais.
A conflitualidade política ou corporativa não é por si só um problema, antes pelo contrário, mas deve considerar o interesse geral.

A ESCOLA FAZ A DIFERENÇA ou TAL PAI, TAL FILHO?

É conhecida a relação forte entre o nível de escolarização dos pais e os resultados escolares dos filhos.
É também conhecido que a escola pode fazer a diferença e contrariar o destino que aguardará algumas crianças oriundas de famílias pouco escolarizadas.
Será também conhecido que para que tal aconteça a escola necessita de visão, meios, recursos e modelos de organização e funcionamento, adequados, autonomia, por exemplo.
É, finalmente, conhecido, apesar dos muitos ganhos que fizemos nos últimos anos estamos a correr o sério risco de que as escolas não consigam fazer a diferença. Aliás, acho mesmo que podemos estar a caminhar no sentido de acentuar a diferença e continuaremos a ter ... tal pai, tal filho.
Do meu ponto de vista a capacidade das escolas de acomodar a diferença entre os alunos estará a diminuir fruto de políticas de "normalização", cortes nos recursos e dispositivos de apoio, restrições na autonomia, etc.

DAS FORÇAS DE BLOQUEIO

"Conselho das Escolas critica MEC e transferência de competências para as câmaras"

Continuam a ouvir-se vozes desfavoráveis ao caminho de municipalização da educação em desenvolvimento pelo MEC. Estranhamente, não conseguem vislumbrar a bondade deste caminho.
Na verdade, parece claro que os conteúdos do normativo do MEC retiram autonomia às escolas e deixam-nas numa imprudente deriva que abre caminho, evidentemente, a interesses que não têm a ver com o a escola e a educação públicas.
Agora conhece-se a posição muito crítica e não surpreendente do Conselho de Escolas.
Num processo voltado para dentro, com um fingimento de diálogo e de audição aos actores envolvidos o MEC enjeita responsabilidades e entrega-as ao cataventismo de boa parte do poder local. Muitas das experiências conhecidas neste universo são um mau augúrio para o que aí vem.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

BAILE DE MÁSCARAS

Está a acabar o Carnaval. Para o ano há mais, com tolerância e sem tolerância.
Já podemos desafivelar as divertidíssimas máscaras próprias da época e substituí-las pelas que usamos no nosso quotidiano. Algumas são divertidas, outras, muitas, não.

Que siga, portanto, o Baile de Máscaras.

DA AMIZADE

Na verdade os amigos são para as ocasiões. Neste caso a coisa acabou por não correr bem pois a imprensa divulgou. Só para atrapalhar. 
Apesar de ter desaparecido do currículo a Educação Cívica o culto da amizade e da solidariedade continua no MEC.
"Candidato a delegado de Educação mora com o presidente do júri"

A DEMOCRACIA SEGUNDO WOLFGANG SCHÄUBLE

Não oiço, não vejo, não falo e não penso.
Voto em quem os senhores mandarem.
Os senhores é que mandam e sabem o que é melhor para nós. Não queremos incomodar e agradecemos a vossa generosa ajuda. que, aliás, não merecemos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O CORSO

Ao que prevê a meteorologia, felizmente, para amanhã o Sol vai aparecer para aquecer e iluminar o Corso. Ainda bem, o Carnaval e o Corso precisam do Sol. Os figurantes irão, certamente, sentir-se melhor.
O Corso tem andado em preparação de há muito e nos últimos dias parece ter atingido o auge da capacidade de animação das gentes que, com ou sem tolerância, não toleram não ver o Corso.
Os personagens e intervenientes no Corso são de uma variedade e riqueza que deixarão a concorrência internacional roída de inveja.
Podem encontrar malabaristas com números que fazem com que estes digam tudo o querem ouvir. Temos ilusionistas que mostram realidade e truques que nos fazem duvidar dos nossos olhos. Temos pantomineiros que contam histórias e lengalengas que nos fazem rir ou chorar conforme a natureza. Temos vendedores de banha da cobra que todos os problemas prometem resolver.
Temos gigantes que se acham omnipotentes e têm pés de barro e figuras pequeninas que usam andas para se tornar visíveis. Temos inquisidores justiceiros e virgens ofendidas na sua falsa virtude.
Também entram os mascarados com a autoridade que não têm e os fingidores de um saber que não possuem. Não faltam oráculos, adivinhadores do futuro e profetas da desgraça.
No meio do Corso não faltam bobos que ainda mais animação procuram promover. Enfim, ainda bem que o Sol vai aparecer para que o Corso prossiga.
Entretanto, o povo que assiste já sente as mãos a doer.
Não, não é de aplaudir, é de as apertar. De inquietação.

Nota - Registo de interesses, não gosto do Carnaval.

GOSTEI DE LER

o texto de Paulo Guinote, "Municipalização da Educação: uma reforma necessária e coerente?" sobre os (des)caminhos da chamada "municipalização" um dos grandes equívocos fabricados pela PEC - Política Educativa em Curso e que atenta contra autonomia das escolas.

"Municipalização da Educação: uma reforma necessária e coerente?"

NEM A MEIA LICENCIATURA

"Apenas 13% das vagas de cursos curtos foram preenchidas no primeiro ano"

"AMI cria fundos para ajudar estudantes a pagar propinas"

Talvez a este cenário não seja alheio o facto de que, entre os países da OCDE, Portugal é o terceiro país com taxa de desemprego jovem mais elevada ou ainda que segundo os últimos dados conhecidos Portugal, tem cerca de 440 000 jovens entre os 15 e os 34 anos que nem estudam nem trabalham, um grupo social que vai sendo designado por geração “nem, nem”, um termo e uma dimensão devastadora que nos deveria embaraçar.
Acresce ainda que se está a verificar também a utilização abusiva e escandalosa de estágios profissionais não remunerados, sobretudo de jovens qualificados, situação que permite aos empregadores aceder a mão-de-obra gratuita por alguns períodos de tempo que podendo ter impacto nas estatísticas não muda a vida das pessoas.
Nem a formação parece já constituir um contributo acessível e sólido para a construção de um projecto de vida positivo e viável.