sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O UNIVERSO TRANQUILO DA VIDA DOS DOCENTES


São agora conhecidos os resultados do estudo realizado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova em parceria com a Fenprof sobre as condições pessoais dos professores. Estão em estudo dimensões relativas ao “desgaste emocional, “burnout” incluído”, e sobre as condições em que estes trabalham - se há cansaço, desânimo, desmotivação ou, pelo contrário, alegria.”
Dos dados conhecidos relativos a 18420 respostas 47,8% dos professores revela sinais no mínimo preocupantes de exaustão emocional, 20,6% mostram sinais “preocupantes”, 15,6% revelam “sinais críticos” e 11,6% apresentam “sinais extremos” de esgotamento.
Cerca de 70% dos docentes inquiridos revela uma vontade “muito elevada” de reforma antecipada sendo que 84% dos docentes se reformava antecipadamente se não existisse penalização. Verifica-se também a elevada referência ao consumo de fármacos.
Cerca de 63% com preocupação com a indisciplina e é bastante significativa uma referência negativa à burocracia.
A importância destes resultados justifica o retomar de algumas notas.
Segundo o relatório “Perfil do Docente”, produzido pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência relativo ao ano 2016/2017 acentuou-se  o envelhecimento dos professores portugueses.
No universo da educação pré-escolar apenas 13 profissionais da rede pública têm menos de 30 anos, 0.1%, enquanto 6034 educadores de infância, 74% têm 50 ou mais anos. No 1º ciclo no sistema público, entre 24 435 docentes apenas 16 têm menos de 30 anos, 0.1% do total. Do outro lado, 38%, 9298 têm 50 ou mais anos.
No 2º ciclo, temos 19 398 docentes dos quais 872 têm menos de 30 anos, 4.5% e 10271 com 50 anos ou mais, 53%.
No 3º ciclo e secundário, em 63473 professores temos 290 com menos de 30 anos, 0.5%, e 30242 com 50 anos ou mais, 48%.
Um outro indicador, a idade média, mostra que na educação pré-escolar é de 52 anos, no 1º ciclo 47 anos, no 2º ciclo 50 anos e no 3º ciclo e secundário 49 anos.
Se considerarmos o grupo de professores com 40 anos ou mais, temos 96% na educação pré-escolar, 78% no 1º ciclo, 87% no 2º ciclo e 86% no 3º ciclo e secundário.
Os dados conhecidos estão em linha com os resultados de outros trabalhos que também relacionam o mal-estar e cansaço com a idade, a população com que se trabalha, é superior no secundário e as causas estão associadas a turmas com elevado número de alunos, o comportamento indisciplinado e desmotivação dos alunos, a pressão para os resultados, insatisfação com as condições de desempenho, carga horária e burocrática, falta de trabalho em equipa, falta de apoio e suporte das lideranças da escola.
Na verdade, os dados agora conhecidos só podem surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam pela comunicação social perorando sobre educação e sobre os professores. Aliás, esta situação verifica-se noutros países, sendo que para além dos professores, os profissionais de saúde e de apoios sociais também integram os grupos profissionais mais sujeitos a stresse e burnout.
Este quadro é inquietante, uma população docente envelhecida e a revelar preocupantes sinais de desgaste.
Sabemos que os velhos não sabem tudo e os novos nem sempre trazem novidade. Mas também sabemos que qualquer grupo profissional exige renovação pelas mais variadas razões incluindo emocionais, de suporte, partilha de experiência ou pela diversidade.
As salas de professores são cada vez mais frequentadas, quando há tempo para isso, por gente envelhecida, cansada que se sente desvalorizada, pouco apoiada, e que muitas vezes, demasiadas vezes, pergunta "Quanto tempo é que te falta?"
Na verdade, ser professor é uma das funções mais bonitas do mundo, ver e ajudar os miúdos a ser gente, mas é seguramente uma das mais difíceis e que mais respeito e apoio deveria merecer. Do seu trabalho depende o nosso futuro, tudo passa pela educação e pela escola.
Os sistemas educativos com melhores resultados são, justamente, os sistemas em que os professores são mais valorizados, apoiados e reconhecidos.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A CHAVE DO SUCESSO


O meu fim de tarde ontem passou-se na escola EB 2,3 Paulo da Gama para mais uma conversa com pais e encarregados de educação.
Desta vez o tema era a adolescência.
Partimos da ideia de que a adolescência não é a “idade” dos problemas e das inquietações, é “apenas” mais uma “idade”, com problemas e inquietações diferentes de outras “idades” mas com a mesma probabilidade de que apesar dos sobressaltos as coisas corram de forma positiva.
Falámos e discutimos matérias como “companhias”, “regras e limites”, “autonomia e regulação”, “consumos”, “desempenho escolar e papel dos pais” ou, na base de tudo, a relação e comunicação.
Foi bonita a conversa pá!
Mas gostei mesmo que me tivessem dado um símbolo da escola que é oferecido a todos os que fazem parte da comunidade educativa, a chave do sucesso.
São também isso a escola e a família.




quarta-feira, 17 de outubro de 2018

NOTÍCIAS DOS RANKINGS ESCOLARES

Agradecendo a divulgação feita pelo Paulo Prudêncio no blogue Correntes, registe-se a qualidade deste espaço da blogosfera, refiro algo que nos está longe mas merece atenção. Singapura decidiu abolir os rankings escolares com base nos resultados em exames bem como não divulgar outras informações de natureza comparativa sobre o desempenho escolar dos alunos.
A decisão, de acordo como o Ministro da Educação, Ong Ye Kung, assenta no princípio a promover junto dos alunos e famílias que “aprender não é uma competição”.
A decisão é ainda mais surpreendente considerando a posição cimeira habitualmente ocupada por Singapura nos estudos comparativos internacionais e na fortíssima cultura de defesa destes dispositivos.
Esta decisão merece umas notas pois muitas vezes aqui fomos abordando a questão dos rankings.
Na última vez que aqui me referi à questão afirmei que apesar de continuar com dificuldade em defender a sua bondade não tenho uma atitude fundamentalista face à sua construção, sobretudo considerando a evolução que se tem verificado nos últimos anos, quer na disponibilização de informação por parte do ME para além dos “meros” resultados da avaliação externa, quer na forma como essa informação é tratada e divulgada por diferentes entidades.
No entanto, apesar da muita informação revelada, os rankings mostram tudo, só não mostram o que se fará a seguir com a informação que os rankings mostram. Na verdade, também não mostram o que não se pode medir mas se pode avaliar e que é tão essencial como o que se mede. Dito de outra maneira, “Qual tem sido o contributo significativo da organização e divulgação destes “rankings” para a melhoria da qualidade do sistema?”.
Sendo um defensor intransigente de uma cultura e prática de exigência, avaliação e qualidade, parece-me bem mais importante o aprofundamento dos mecanismos de autonomia e responsabilização e a constituição obrigatória em todos os agrupamentos ou escolas de Observatórios de Qualidade (muitas têm) que integrem também elementos exteriores à escola. Existem capacidade técnica e recursos suficientes. O trabalho realizado por esses Observatórios, este sim, deveria ser divulgado e discutido em cada comunidade e passível de leituras cruzadas com dados nacionais.
Ainda a propósito, Gert Biesta da Universidade Stirling numa obra notável, "Good Education in a Age of Measurement - Ethics, Politics, Democracy", afirma que uma obsessão centrada na medida, assenta na gestão continuada de uma dúvida, "medimos o que valorizamos ou valorizamos o que medimos?". NO mesmo sentido e numa entrevista ao Público em 2011, o Professor Biesta afirmava sugestivamente, “Os rankings são muito antiquados e não devem ter lugar numa sociedade civilizada". Aliás, nesta altura assisti a uma sua notável conferência sobre a questão da medida e da avaliação em educação.
Uma pequena curiosidade relativa a Singapura. Em 2014 o Expresso dedicou um trabalho a alguns países asiáticos que habitualmente ocupam lugares cimeiros nos estudos comparativos internacionais. Foram referidas as experiências de famílias portuguesas com filhos nesses sistemas educativos. Uma mãe referiu que em Singapura uma das primeiras coisas que mais a impressionou foi a dimensão das filas de crianças à porta dos centros de explicações ao fim de semana, "parecem formigas", "No 6º ano os alunos são submetidos a um exame nacional, Só os mais bem classificados acedem às escolas secundárias de elite, a que todos aspiram". Uma outra mãe portuguesa também em Singapura afirmou "Há a assumpção de que todos têm de ser bem-sucedidos. Quem tem mais dificuldade é posto de parte. Estão a surgir cada vez mais casos de depressão entre as crianças".
Como escrevi na altura, não quero esta escola e esta educação para os meus netos e para todos os outros miúdos.
Pode ser que a decisão agora tomada mostreque é possível que a imprescindibilidade de avaliar e medir em educação não tem que a transformar numa competição exacerbada e promotora de mal-estar.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

EDUCAÇÃO E AUTONOMIA


Nas minhas regulares conversas com pais e encarregados de educação, seja qual for o pretexto do encontro, surgem inevitavelmente o que brincando chamo de perguntas proibidas. Quase sempre depois de uma pequena introdução começam assim “A partir de que idade o meu filho(a) pode …?”. Como calculam o final da questão tem múltiplas variações, “pode brincar na rua”, “pode sair à noite, “pode ir sozinho(a) para a escola?”, “pode ficar só em casa?”, etc.
Vem esta introdução a propósito  de uma peça no JN sobre a “idade certa para os filhos receberem a chave de casa”.
Já tenho colaborado em trabalhos na imprensa sobre estas questões e, na verdade, não entendo que existam respostas definitivas para questões desta natureza, sendo certo que a segurança e bem-estar das crianças devem ser uma prioridade absoluta. Daí referir-me a “perguntas proibidas”, os pais solicitam uma orientação precisa e que lhes transmita segurança o que se torna, evidentemente, impossível.
Para além de aspectos mais globais a que já volto, em muitas circunstâncias os estilos e condições de vida em pressionam os pais par decisões neste âmbito que que sentem como fáceis, recordo que no que diz respeito ao ficar só em casa que muitas famílias se confrontam com sérias dificuldades para assegurar a guarda dos filhos durante os prolongados horários laborais.
Retomando uma reflexão mais geral, do meu ponto de vista, a questão central nestes processos é a autonomia de crianças, adolescentes e jovens e a forma como a promovemos ... ou não.
De há muito e sempre que penso ou falo de educação me lembro de um texto de Almada Negreiros em que se afirma "... queria que me ajudassem para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si". Este enunciado ilustra, do meu ponto de vista, a essência da educação, seja familiar ou escolar, em qualquer idade.
De facto, o que se pretende num processo educativo será a construção de gente que sabe tomar conta de si própria da forma adequada à idade e à função que em cada momento se desempenha. Este entendimento traduz-se num esforço contínuo de promover a autonomia das crianças e jovens para que "saibam tomar conta de si próprios", no fundo, a velha ideia de, "ensinar a pescar, em vez de dar o peixe".
Parece-me fundamental que adoptemos comportamentos que favoreçam esta autonomia dos miúdos e dos jovens. No entanto, é minha convicção que por razões que se prendem com os estilos de vida, com os valores culturais e sociais actuais, com as alterações das sociedades, questões de segurança, por exemplo, estamos a educar os nossos miúdos de uma forma que não me parece, em termos genéricos, promotora da sua autonomia. A rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente), os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia. É neste contexto que devem ser colocadas, trabalhadas e decidas as dúvidas sobre o que criança ou adolescente pode ou não fazer só.
Por outro lado, os miúdos são permanentemente bombardeados com saberes e actividades que serão obviamente importantes para o seu desenvolvimento e para o seu futuro mas, ao mesmo tempo, são miúdos, pouco autónomos, pouco envolvidos nas decisões que lhes dizem respeito cumprindo agendas que lhes não dão margem de decisão sobre o quê e o porquê do que fazemos ou não fazemos. Acabam por se tornar menos capazes de decidir sobre o que lhes diz respeito, dependem da "decisão de quem está à sua volta, companheiros ou adultos.
Um exemplo, para clarificar. Um adolescente não habituado a tomar decisões, a fazer escolhas, mais dificilmente dirá não a uma oferta de um qualquer produto ou um a convite de um colega para um comportamento menos desejável. É mais difícil dizer não do que dizer sim aos companheiros da mesma idade. Num sala de aula é bem mais provável que um adolescente tenha um comportamento adequado porque "decida" que é assim que deve ser, do que por "medo" das consequências.
Só crianças, adolescentes e jovens autónomos, autodeterminados, informados e orientados sobre os riscos e as escolhas serão mais capazes de dizer não ao que se espera que digam não e escolher de forma ajustada o que fazer ou pensar em diferentes situações do seu quotidiano, na sala de aula, no bairro ou em casa. Este entendimento sublinha a importância de em todo processo de educação, logo de muito pequeno, em casa e na escola, se estimular a autonomia dos miúdos. É que se eles não tomarem bem conta se si passaremos, pais e professores, boa parte do tempo a "tomar conta deles" e ... muitas vezes não conseguimos.
Creio que este entendimento está pouco presente em muito do que fazemos em matéria de educação familiar ou escolar e para todos os miúdos.
Todos beneficiariam, miúdos e adultos.

A LER, "PAIS USAM TELEMÓVEIS E TABLETS COMO BABYSITTERS"


No Público está um trabalho interessante, “Pais usam telemóveis e tablets como babysitters”. Está em linha com o texto que há dois dias aqui deixei “ e em linha com que há dias aqui escrevi, “PAIS, FILHOS, SMARTPHONES, TABLETS, ...”.
Trata-se de facto de uma questão importante, o peso e o impacto destes dispositivos nos níveis de comunicação e interacção nos actuais contextos familiares, e para a qual muitos pais não estão suficientemente atentos ou, estando, pedem ajuda dadas as dificuldades que sentem.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O "PRESENTISMO" E OS "ESCOLANTES"


No Expresso encontra-se uma peça muito interessante sobre as condições de trabalho, a produtividade, a organização do trabalho, a dificuldade de conciliar vida familiar e carreira profissional, etc. A peça assenta num o inquérito sobre a qualidade de vida na Europa realizado em 2016 pela Eurofound, Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho.
Uma questão particularmente interessante é a presença significativa do “presentismo” na cultura das organizações. Dito de outra maneira, o trabalhador está presente no local de trabalho mesmo em situações horário prolongado mesmo que não esteja a fazer nada de relevante, não seja necessário ou não esteja em condições. O importante é estar presente. Creio que boa parte de nós já passou por situações desta natureza.
Esta situação também tem paralelo com o mundo da educação, muitos estudantes tendem a assumir a condição de “escolantes”, vão até à escola ou às suas imediações, por vezes até vão às aulas mas já não estudam, são escolantes vão à escola para “socializar” .
A partir de certa altura, perto de escolas de 2º e 3º ciclo ou secundário e no interior de estabelecimentos de ensino superior podemos verificar o número significativo de alunos que deambula pelos espaços da escola ou pelas imediações. Presumo que tal situação não se deva a absentismo de docentes pois as escolas costumam acautelar essa questão com actividades de substituição ou existem espaço de trabalho para além das salas de aula, exemplo que inclui o ensino superior. Acho que muitos dos alunos que vejo fora das salas de aula estão a caminho de perder a condição de "estudantes", e estarão em vias de passar a "escolantes", ou seja, os que já só vão à escola ou para perto da escola, já não estudam.
Acontece ainda que alguns destes alunos ainda frequentam algumas aulas mas sem grande motivação, envolvimento ou rendimento, cumprem o “presentismo”, estão lá.
É verdade que este cenário costuma não acontece apenas agora mas de facto torna-se mais evidente a partir do meio do segundo período, quando as expectativas de sucesso começam a baixar significativamente e levam à desmotivação, primeiro, e posteriormente para muitos, ao deixar de aparecer nas aulas, não vai servir de nada, já perderam o comboio, já "não vão lá". São os grandes candidatos ao empurrão para o ensino vocacional, não servem para o trabalho intelectual. No ensino superior vão cumprindo umas cadeiras, com maior ou menor facilidade, prolongam o tempo de curso que as bolsas familiares permitem ou acabam por desistir.
No entanto, continuam a deslocar-se diariamente para a escola, é lá que estão os seus amigos e, apesar de tudo, é lá que eles acham que devem estar apesar dos discursos negativos e agressivos que produzem com frequência sobre a escola. Ninguém gosta do fracasso, os discursos e os comportamentos nas mais das vezes mascaram o mal que se sentem pelo fracasso escolar e pelo que isso significa.
A tarefa de alunos e professores não é, longe disso, uma tarefa fácil. Tenho alguma esperança que com o reforço da autonomia das escolas, com alguns ajustamentos nos conteúdos e na gestão curricular, com dispositivos competentes e suficientes de apoio ao trabalho de alunos e professores possamos ajudar à reversão, mais uma reversão, na condição de “escolantes” de alguns adolescentes e jovens. Talvez pudessem reaver a sua condição de estudantes.
Seria bom para todos.

domingo, 14 de outubro de 2018

PAIS, FILHOS, SMARTPHONES, TABLETS, ...


A propósito do lançamento recente do seu livro” Pais Sem Pressa – O tempo na relação entre pais e filhos”, Pedro Strecht tem uma entrevista interessante no DN a que tem como cabeçalho “Quantas vezes não vemos famílias a jantar, cada um agarrado ao seu ecrã?”
Dá para perceber como é actual e pertinente a matéria em análise. Mais um contributo.
Um relatório muito recente do Pew Research Center a que também o DN fez referência mostrou alguns indicadores sobre a forma como pais e adolescentes percebem a sua relação com os dispositivos digitais e a forma como cada grupo, pais e filhos, avalia o comportamento do outro neste universo. Apesar de realizado com adolescentes e pais dos EUA, 743 adolescentes de 13 a 17 anos e 1048 pais, os dados são um bom contributo para a reflexão.
Do extenso volume de informação e pela menos frequente abordagem duas referências.
Cerca de 36% dos pais inquiridos entende que gasta demasiado tempo ao telemóvel enquanto 54% dos adolescentes também avalia como tempo excessivo a sua utilização.
Na relação entre si, 72% dos pais considera que os filhos estão mais focados no telemóvel quando tenta dialogar com os filhos enquanto destes (30% muito frequentemente), 51% entende que os seus pais estão mais centrados no telemóvel quando tentam estabelecer conversa (14% muito frequentemente).
Antes de umas notas parece-me oportuno recordar um trabalho também dos EUA divulgado em 2014 e que envolveu um número significativo de crianças com idades diferentes sobre a sua percepção das relações com os seus pais e das relações destes com dispositivos como telemóveis ou tablets.
O estudo sugeria que as crianças expressam de forma muito clara um aumento da distância, da desatenção e de dificuldades relacionais pois sentem os pais numa sobreutilização daqueles dispositivos em detrimento do contacto consigo e da atenção que lhes dedicam.
Estes estudos são importantes desde logo porque ouvem crianças e adolescentes e vêem ao encontro de outras investigações e das experiências que vamos conhecendo em muitas famílias.
A falta de disponibilidade e atenção para os miúdos, mesmo quando estão com eles, também contribuem para que muitíssimas crianças e jovens sintam que vivem à beira de pais para os quais passam completamente despercebidas, são as que eu chamo de crianças transparentes, olhamos para elas, através delas, como se não existissem. Não estando desaparecidas, estão abandonadas. Algumas delas não possuem ferramentas interiores para lidar com tal abandono e desaparecem, mantendo-se à nossa vista, no primeiro buraco que a vida lhes proporcionar, um ecrã onde até encontram outros companheiros tão abandonados quanto eles, o consumo de algo que lhes faça companhia ou a adrenalina de quem nada tem para perder.
Em boa parte das situações pode ficar difícil ir à procura destas crianças e adolescentes e, por vezes, alguns perdem-se de vez.
Como é evidente, estas duas abordagens, o uso excessivo de telemóveis ou de tablets e smartphones como “baby sitters” para as crianças, desde muito novas e sem controlo parental, bem como o também excessivo uso destes dispositivos por parte dos adultos contaminando negativamente a sua disponibilidade para os mais novos não visam diabolizar a sua utilização
Pretendem apenas que essa utilização obedeça tanto quanto possível a regras de bom senso e adequação e que não corra o risco de substituir a mais importante e potente das ferramentas educativas em contexto familiar, a relação, comunicação, entre pais e filhos.
Acresce ainda que os estilos e circunstâncias de vida actuais são poderosos inimigos do tempo disponível para esta relação o que mais sublinha a necessidade de o usar da melhor forma.

A TERRA ANDA ZANGADA


Imagino que a Terra comece a ficar cansada da irresponsabilidade delinquente desta gente que a povoa, sobretudo dos que lideram. Depois de tanta asneira insistem nos maus-tratos e não se entendem sobre a forma de mudar de rumo.
Dão-lhe cabo das entranhas, alteram-lhe o clima, mudam paisagens, esgotam-na, deixam-na estéril e sem sustento ou, pelo contrário, a água é muita, devasta o que apanha pela frente.
A Terra não está a aguentar e zanga-se. E nós também não aguentaremos.
A minha avó Leonor, mulher de sabedoria, costumava dizer que não era bom a gente meter-se com a Terra, com a natureza, e maltratá-la. A natureza vai ser sempre maior que a gente e não aceita que mandem nela.
Quando acorda zanga-se e quando se zanga os efeitos são devastadores. Apesar destes avisos não parece que a levem a sério.
Esta gente não aprende mesmo, já não espero que o fizessem em nome deles, os seus interesses imediatos não deixam. Mas podiam fazê-lo em nome dos filhos, dos filhos dos filhos, dos filhos dos filhos dos filhos, 

sábado, 13 de outubro de 2018

AINDA O ACORDO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO


Creio que passou despercebida a notícia de que a Academia Angolana de Letras solicitou ao Governo angolano que o Acordo Ortográfico de 1990 não seja ratificado. É um dado importante para estse processo dado que apenas Portugal, S. Tomé e Príncipe, Brasil e Cabo Verde procederam à ratificação.
Creio que vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. É uma questão de cidadania, de defesa da Cultura e da Língua Portuguesa.
Como tantas vezes tenho escrito, desculpem a insistência e não inovar, entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.
Não sou, evidentemente, um especialista mas parece-me que o cerne da questão reside, de facto, no entendimento, cito o presidente da Academia das Ciências de Lisboa, de que “Qualquer tentativa de uniformização ortográfica nos diversos países que usam a língua portuguesa como oficial é utópica” e que “o normal é o respeito pelas ortografias nacionais".
É esta perspectiva que informa o que se passa, por exemplo, com o inglês ou o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas ou na linguagem oral nos diferentes países em que são língua oficial, sem que daí advenha qualquer perturbação ou drama mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas ou com língua oficial castelhano/espanhol.
Acresce que as explicações que os defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade, antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até "incongruências" no AO, o que, aliás, me parece curioso, para ser simpático. Dito de outra maneira, desencadeamos um acordo com esta amplitude e implicações para manter "incongruências e imperfeições" que abastardam a ortografia da Língua Portuguesa.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence. Voltando ao exemplo do inglês e do castelhano/espanhol que têm diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, não parece sejam conhecidas particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for.
O que na verdade vamos conhecendo com exemplos extraordinários é a transformação da Língua Portuguesa numa mixórdia abastardada.
Como tenho escrito e repito, vou continuar a escrever assim, desacordadamente.

CRÓNICA DE UMA DEMISSÃO ANUNCIADA


Pronto, o Ministro da Defesa caiu. Desde o início todo o episódio das armas roubadas em Tancos e devolvidas na Chamusca era uma espécie de crónica de uma demissão anunciada.
Como é habitual nestas situações apesar da sua raridade vai falar-se de sentido de estado, responsabilidade e princípios, blá, blá, blá.
No entanto e como também é habitual, tanto mais num Ministro da Defesa, os ministros sempre que caem têm excelentes pára-quedas e “aterram” num lugar “fofo”. A sua competência, sentido de estado, princípios e ética republicana assim o determinam.
Às vezes também acontece que façam uma curta travessia do deserto para que a poeira assente. É sabido, como disse um ministro que também caiu, que “há muita fraca memória”. Aliás o autor também aterrou num lugar fofo depois da queda. 
A ver vamos onde aterra Azeredo Lopes.

PS - Reparei agora ao aceder ao Público online que este texto tem o mesmo título da peça de Manuel Carvalho sobre a mesma questão. Trata-se uma coincidência lamentável, até porque tinha escrito o texto ontem à noite para o divulgar hoje de manhã.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

OBRIGADO SENHORES DA MOODY'S


Obrigado senhores da Moody’s, já não nos chamam lixo, foi a última deste bando de abutres a retirar-nos do lixo. É muita generosidade e compreensão da vossa parte e da qual não somos merecedores. 
É verdade que ainda somos quase lixo, mas não somos lixo o que é muito importante.
Não é que não nos lixem na mesma.

A CERTIFICAÇÃO DE CONCLUSÃO DO SECUNDÁRIO E O ACESSO AO SUPERIOR


O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior reafirmou ao Público não será alterado o acesso ao ensino superior que assenta no concurso nacional com base quase exclusiva nos resultados dos exames finais do secundário. Não me parece o melhor caminho e quero acreditar que seja uma questão de tempo a verificação da alteração necessária.
A este propósito recordo que em Fevereiro deste ano Andreas Schleicher, director do Departamento de Educação da OCDE, expressou a “esperança de que Portugal acabe “por deixar cair” o sistema de exames nacionais ligado ao acesso ensino superior, uma realidade que identificou como um dos “principais problemas” do sistema educativo português, pela pressão que exerce sobre professores, alunos e famílias e pela uniformização do ensino que promove”.
Também os responsáveis pela Associação Nacional de Directores e Agrupamentos de Escolas Públicas e da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Filinto Lima e Manuel Pereira, bem como a CONFAP através do seu presidente têm expressado concordância com esta mudança. A mesma posição expressei em texto no Público em 2016.
Acresce que o peso dos exames nacionais no acesso ao superior ainda alimenta o continuado e reconhecido inflacionar de notas da avaliação interna, sobretudo em escolas privadas, de forma a melhorar as médias de candidatura como estudos do CNE e da Univ. do Porto mostraram e são conhecidos do ME. Aliás, o grupo de trabalho constituído pelo Governo para avaliar o regime de acesso ao superior propôs uma correcção das médias dos alunos que estudam em escolas que atribuem notas inflacionadas. Não se conhecem resultados e pelo que diz o ministro nada se alterará.
Retomo algumas notas de escritos anteriores.
Parece-me claro que a conclusão e certificação de conclusão do ensino secundário e a candidatura ao ensino superior deveriam ser processos separados.
Os exames nacionais destinam-se, conjugados com a avaliação realizada nas escolas, a avaliar e certificar o trabalho escolar produzido pelos alunos do ensino secundário e que, obviamente, está sediado no ensino secundário. Neste cenário caberiam também as outras modalidades que permitem a equivalência ao ensino secundário, como é o caso do ensino artístico especializado ou recorrente em que também se verificam algumas "especificidades", por assim dizer.
O acesso ao ensino superior é um outro processo que deveria ser da responsabilidade do ensino superior e estar sob a sua tutela minimizando também os efeitos pouco positivos reconhecidos pela OCDE na relação estabelecida por alunos, escolas e famílias com os exames e os efeitos dessa relação.
A situação existente, não permite qualquer intervenção consistente do ensino superior na admissão dos seus alunos, a não ser a pouco frequente definição de requisitos em alguns cursos, o que até torna estranha a passividade aparente por parte das universidades e politécnicos, instituições sempre tão ciosas da sua autonomia. Parece-me claro que o ensino superior fazendo o discurso da necessidade de intervir na selecção de quem o frequenta não está interessado na dimensão logística e processual envolvida.
Sublinho minimizando equívocos que a questão não está na existência ou importância dos exames finais do secundário que não me parece colocar grandes dúvidas. A questão é que os resultados obtidos nesses exames deveriam constituir apenas um factor de ponderação a contemplar com outros critérios nos processos de admissão organizados pelas instituições de ensino superior como, aliás, acontece em muitos países.
Sediar no ensino superior o processo de admissão minimizaria muitos dos problemas conhecidos decorrentes do facto da média de conclusão do ensino secundário ser o único critério utilizado para ordenar os alunos no acesso e eliminaria o “peso” das notas inflacionadas em diversas circunstâncias.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A HISTÓRIA DO VELHO PESCADOR

Lá naquela terra onde acontecem coisas havia um Velho Pescador que toda a gente considerava o melhor pescador que por lá tinha aparecido.
Não havia peixe que ele não conseguisse pescar só que o Velho Pescador tinha uma particularidade até um bocado estranha, pescava os peixes para falar com eles, passado algum tempo, voltava a colocá-los na água e ficava a vê-los ir à sua vida, nadando para longe à procura do seu mundo.
É claro que as pessoas não percebiam muito bem o Velho Pescador, primeiro porque raramente algum peixe lhe escapava e também porque, era mesmo esquisito, os peixes pareciam ficar tranquilos a ouvir o Pescador Velho o tempo que ele estivesse a falar para eles com um jeito manso.
O Velho Pescador quando lhe perguntavam como conseguia que os peixes se deixassem pescar e encantar por ele respondia que era uma questão de escolher bem o isco. Afirmava que é preciso estudar bem os peixes, cada peixe, e depois arranjar o isco que levaria cada um, mesmo os mais arredios a morder e a ficar cativados a ouvir e, depois, ir embora tranquilos.
Por isso é que naquela escola não havia aluno que não gostasse daquele professor.

O INQUÉRITO SOBRE A SEXUALIDADE

Tem causado algum sobressalto o episódio que relativo à passagem numa escola básica no Porto de um inquérito dirigido aos alunos com questões que suscitaram polémica sendo dirigidas aos alvos de atracção sexual sentidos pelas crianças.
A questão é complexa e como não podia deixar de ser desencadeou uma enorme onda de opiniões, muitas das quais verdadeiramente assustadoras pela ignorância e preconceito que, também como é hábito, são vomitadas de forma alarve, com um suposto humor patético e com a arrogância com se mascaram … ignorância e preconceito.
Algumas notas breves.
Do que foi conhecido do inquérito parece-me francamente mal concebido, com conteúdo e formulações evidentemente desadequadas à idade dos respondentes, de que são conhece os objectivos e que me parece violar claramente a protecção de dados. Não deveria ser utilizado como foi.
Quem no seu trabalho, é o meu caso, recorre com alguma regularidade à recolha de dados em contextos escolares envolvendo alunos, professores, pais, funcionários, etc. sabe que é exigida uma autorização da parte da Direcção-Geral de Educação através de uma plataforma http://mime.gepe.min-edu.pt/. O pedido é escrutinado considerando objectivos, destinatários, instrumentos, etc. Da minha experiência, a análise é criteriosa e em algumas situações tive de reformular pedidos mesmo entendendo que estariam adequados e aumentou o nível de exigência com a mais recente legislação sobre protecção de dados. Acresce que quando envolve alunos é expressamente exigida a informação e consentimento dos pais ou encarregados de educação.
Neste contexto, o inquérito agora conhecido, tal como o que há umas semanas foi divulgado que inquiria a origem étnica dos alunos, não terá sido objecto de análise prévia e dada a falta de adequação do mesmo a discussão surgiu e é pertinente.
No entanto, e isto remete para muitos dos comentários que li e ouvi, a questão da sexualidade incluindo a orientação sexual é um universo que faz parte da vida de toda a gente, desde pequeno à velhice, independentemente do nosso quadro de valores. As pessoas, pais ou profissionais, por exemplo, que lidam com crianças e adolescentes sabem como se torna necessário ir construindo com eles uma abordagem adequada à idade na linguagem e nos conteúdos relativos à dimensão da sexualidade, cujos conteúdos constam, do meu ponto de vista bem, no trabalho desenvolvido nas comunidades educativas escolares ou familiares.
Esta situação foi mais um episódio lamentável em que a regulação falhou, importa perceber porquê como, mas não serve para dar cobertura a discursos que de educação, valores, cidadania, etc., têm nada.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA. "ENTREGADOS" OU INTEGRADOS?


A referência a uma peça no Expresso sobre a longa caminhada da educação inclusiva e a forma como vão sendo experienciadas as mudanças introduzidas pelo DL 54/2018 para a qual me pediram uma pequena colaboração em que defendo o que tantas vezes tenho escrito e afirmado.
A legislação tem virtudes e é mais adequada que o DL 3/2008 embora tenha doutrina a mais. Do meu ponto de vista, a legislação deve ter princípios, regular procedimentos, ser o mais económica possível no estabelecimento de processos e não definir quadros teóricos.
Como aqui já tenho referido, o que vai acontecendo nas escolas, tenho e são conhecidos múltiplos relatos, não são situações pontuais, são situações graves de ausência de resposta educativa adequada e dos recursos e intervenção necessários e de eficiente regulação no período crítico de um processo de mudança.
Existem muitos casos de alunos com necessidades especiais “entregados” na sala de aula em nome da inclusão e …que se sentem e estão excluídos.
Apesar dos bons exemplos que felizmente sempre conhecemos e também merecem divulgação, a realidade, recorrendo a uma terminologia presente no DL 54/2008, acomoda professores e técnicos perdidos na mudança de paradigma, perdidos nas orientações e na inadequação dos recursos, nas medidas voluntaristas que quase parecem querer “normalizar” e “incluir” alunos, “entregando-os” nas salas de ensino regular, remetendo-os para "espaços outros" (agora já não se chamam "unidades") ou mesmo aconselhando a sua permanência em casa provocando exclusão e sofrimento, incumprimento de direitos, desespero nas famílias e também em professores e técnicos.
É esta realidade que me preocupa.

A SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES


Na agenda das consciências cumpre-se hoje o Dia Mundial da Saúde Mental que, como muitas afirmo, é o parente pobre das políticas de saúde. Os indicadores disponíveis mostram com as perturbações no âmbito da saúde mental constituem um problema grave em Portugal com impactos fortíssimos no bem-estar pessoal e familiar e económicos através da perda de funcionalidade e de gastos brutais em medicação de que somos dos maiores consumidores europeus.
Algumas notas repescadas a pensar sobretudo nos mais novos.
Dados do divulgados European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs de 2016 sugerem que 13% os jovens portugueses até aos 16 anos consome antidepressivos e tranquilizantes. O estudo envolveu 96043 jovens de 35 países, 3456 portugueses alunos de escolas públicas. O valor é impressionante, a média é de 8%.
Muitas vezes aqui tenho escrito sobre a questão grave da saúde mental de crianças e adolescentes portugueses que, do meu ponto de vista, tem sido uma área desvalorizada, aliás, a saúde mental tem sido um parente pobre das políticas de saúde pública.
Um estudo divulgado em 2015 realizado pela Faculdade de Psicologia e Educação da Universidade de Coimbra em colaboração com entidades estrangeiras apontava para que 8% por cento dos adolescentes portugueses que frequentam o 8.º e o 9 º ano apresentam sintomatologia depressiva e 19% estarão em risco de desenvolver a doença. O estudo contemplava também um programa de prevenção a promover em meio escolar, com a participação dos pais, que pareceu indiciar bons resultados.
Em Maio de 2014, o Expresso relatava que em 2013 se tinham registado cerca de 20 000 novas consultas de pedopsiquiatria, mais 30% que em 2011. Era um indicador preocupante e ainda mais preocupante pela inexistência de resposta adequada e acessível para muitas crianças e adolescentes.
Recordo também que em 2014 foi noticiada a interrupção dos apoios a crianças e adolescentes da região do Algarve pois o programa de que beneficiavam, Grupos de Apoio à Saúde Mental Infantil, que já tinha merecido prémios de boas práticas, foi suspenso em vez de ser generalizado. Esta suspensão foi obviamente sentida com grande inquietação por famílias e profissionais.
Em 2012 esteve em Portugal um especialista nesta área, Peter Wilson, que, naturalmente, referia a necessidade de que nas escolas e na comunidade próxima existam apoios aos professores, às famílias e às crianças com dificuldades emocionais, a única forma, entende, apoiado na sua experiência, de minimizar e ajudar neste tipo de problemas que, não sendo acautelados, têm quase sempre efeitos devastadores em termos pessoais e sociais. Segundo Peter Wilson, os estudos em Inglaterra sugerem a existência de três crianças com problemas do foro emocional em cada sala de aula pelo que o apoio é muito mais eficaz e económico prestado na escola ou na comunidade próxima a alunos, famílias e professores. Este entendimento é partilhado, creio, pela generalidade dos profissionais e famílias, também em Portugal e os dados conhecidos apontam nesse sentido.
Há algum tempo a imprensa referia a inexistência de camas nos serviços de pedopsiquiatria que possam acomodar adolescentes em tratamento o que leva a que em muitas circunstâncias adolescentes sejam internados em serviços de adultos o que na opinião dos especialistas pode ser uma experiência "traumatizante" sendo, aliás, contrárias às boas práticas de qualquer país civilizado em matéria de saúde mental.
Está nos livros e nas experiências que em situação de crise os mais vulneráveis, crianças e adolescentes, por exemplo, são, justamente, os mais sofredores com as dificuldades. Acresce que, actualmente, se verifica em muitos agregados familiares e em contextos escolares a emergência de discursos que pressionam os mais novos no sentido de atingirem a excelência nos resultados escolares ou em qualquer actividade “importante” pois será, dizem, a “única” forma de atingir um patamar de sucesso futuro.
Como se sabe e a experiência mostra, muitas crianças e adolescentes não suportam com tranquilidade esta pressão o que se repercute no seu bem-estar e na sua saúde mental. Para complicar um pouco mais, ainda se verifica que algumas pessoas desvalorizam estes fenómenos, entendendo que é preciso ser exigente e bem-sucedido e não entendendo o sofrimento de algumas crianças e jovens.
Por outro lado é também conhecida a enorme dificuldade que muitas instituições que acolhem menores estão a passar dificultando a resposta com a qualidade bem como a possibilidade de responder a novas situações.
Os miúdos, nas famílias preferencialmente, ou nas instituições, necessitam de um aconchego, um ninho, uma qualidade de vida que os cuidadores, por diversas razões, não sabem, não querem, não podem ou não são capazes de providenciar. Tal cenário implica riscos fortíssimos de compromisso do seu futuro pelo que os apoios e resposta são fundamentais mas não podem passar apenas pela medicação.
Como o povo diz, é de pequenino que se torce o … destino.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

E SE OS ALUNOS AVALIASSEM OS SEUS ENCARREGADOS DE EDUCAÇÃO?

No Blogue ComRegras, o Alexandre Henriques coloca a ideia dos alunos de que os alunos possam avaliar o desempenho dos seus encarregados de educação mostrando como exemplo dois instrumentos de avaliação que se realizaria no contexto escolar. O DN pediu opinião sobre a iniciativa a algumas pessoas que expressaram opiniões diferentes. Algumas notas.
Embora o que venha a seguir possa parecer paradoxal acho pouco sustentável a ideia. O sistema de relações familiares tem um conjunto de características que não me parecem compatíveis com avaliações formais dos filhos aos encarregados de educação/pais para mais desenvolvidas no contexto escolar. Não é desta forma que do meu ponto de vista se estimula a partir da escola a parentalidade competente e, naturalmente, a relação pais-escola e pais-filhos.
No entanto, agora o risco da contradição, a verdade é que diariamente, em múltiplas circunstâncias e em todas as idades os filhos avaliam os pais sem recorrer a dispositivos formais, estruturados ou a classificações ordenadas.
“Avaliam” de forma quase “intuitiva” o grau de consistência e firmeza das regras que lhes são “ditadas”, avaliam os contextos e sabem até onde ir para conseguir algo, avaliam as diferenças de estilo e funcionamento dos adultos que estão à sua beira, avaliam a vulnerabilidade de muitos pais “incomodados” com os estilos de vida que lhes roubam tempo para os filhos que procuram compensar “cedendo” ou “oferecendo”.
De facto, as crianças e adolescentes, na sua maioria, são muito perspicazes.
Acontece que esta perspicácia de avaliadores lhes rende “dividendos” pelo que desenvolvem as suas competências de empreendedores.
A grande questão, do meu ponto de vista, não é a avaliação que os filhos fazem dos pais e também de outros adultos, professores por exemplo, fazem sempre e sendo inteligentes adaptam-se. A grande questão é como ajudar os pais para que das avaliações produzidas pelos miúdos, mais pequenos ou mais crescidos, não resultem “dividendos” negativos mas indicadores eficientes de regulação dos comportamentos e das atitudes.
Como muitas vezes digo não se trata de uma educação para a santidade mas uma educação com valores e reguladora.
As crianças e adolescentes, sendo na sua grande maioria.crianças saudáveis sabem muito bem avaliar o que e quem está à sua volta e agir em conformidade, seja de forma positiva, seja de forma meno positiva.


É PRECISO INSISTIR, NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES


A imprensa refere a apresentação hoje em Bruxelas do Relatório, “Retrato de Portugal”. Entre muitos outros dados e no que se refere indicadores de educação temos que mais de metade dos empregadores portugueses, 54,6%, não frequentou o ensino secundário ou superior face a 16.6% na UE.
Por outro lado, perto de metade dos trabalhadores por conta de outrem, 43.3% não têm escolaridade superior ao 9º ano.
Mais uma vez se demonstra o quanto errada está a tão frequente afirmação de que somos um país de doutores. Sempre tal se afirma e se promove, implicitamente, que estudar não é importante, estamos a dar um tiro no pé e a comprometer o desenvolvimento do país e, fundamentalmente, das pessoas.
Temos pela frente o combate ao insucesso e ao abandono precoces, em que temos conseguimos progressos de registar e temos o enorme desafio de promover a qualificação ao longo da vida para muitas pessoas que estão no mercado de trabalho sem qualificação.
Não podemos perder tempo, é o futuro com mais desenvolvimento e bem-estar que está em jogo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

UMA HISTÓRIA DE VULCÕES


Há uns dias, numa escola lá daquela terra onde acontecem coisas e onde vive o Professor Velho, aquele que está na biblioteca e fala com os livros, um dos gaiatos, o Marco, desencadeou uma cena complicada de gerir. Sem razão aparente e de forma súbita tornou-se muito reactivo, com uma atitude e uma linguagem muito agressivas. Os colegas, um pouco perplexos, afastaram-se, um funcionário tentou intervir mas não foi bem recebido e apenas o aproximar de mansinho e a fala cativante da Professora Joana pareceram começar a tranquilizar o Marco.
O episódio foi, naturalmente, objecto de conversa, até porque nos últimos tempos já tinham acontecido outras situações da mesma natureza que alimentam o que a escola chama de onda de indisciplina.
Num grupo em que, de volta de um chá na sala de professores, se comentava o assunto o Professor Velho opinou daquela forma tranquila que talvez se tratasse de um problema de vulcões, poderia não ser essencialmente um problema de indisciplina. Face à estranheza que a afirmação provocou o Velho começou a falar de como se tem vindo a instalar em muitos miúdos um mal-estar que, quase sem darmos por isso, os vai preenchendo por dentro. Uns resistem e com alguma ajuda que lhes possamos dar, quando estamos atentos, vão acomodando defesas e ajudas e reorganizam-se, sobrevivendo. Outros, mais vulneráveis e a que não conseguimos estar atentos, acabam roídos por esse mal-estar entranhado e pode acontecer que se afundem, implodam, se deprimam e desistam de si e de lutar pela vida ou, foi o caso do Marco, que a pressão do mal-estar dentro deles se torne tão grande e insustentável que provoque a explosão, entrem em erupção descontrolada que liberte aquela mágoa que lhes rói o sentir. Depois dessas erupções podem entrar em período de acalmia até à próxima explosão.
É agora que teremos de ir à procura do Marco.

Nas escolas encontram-se imensos vulcões, uns em actividade, outros adormecidos e outros ainda em gestação. Os vulcanólogos, também conhecidos por professores, andam preocupados, falta-lhes tempo e apoios e um clima mais amigável. Como é reconhecido, as alterações climáticas tem efeitos negativos e o clima das escolas anda alterado. 

domingo, 7 de outubro de 2018

GOSTEI DE LER "AS PROFISSÕES INFERNAIS"

Desta vez também estou de acordo com Pacheco Pereira. O seu texto no Público, “As profissões infernais”, sobre o mundo dos professores e da escola é uma reflexão muito actual.
Como há dias escrevi “(…) ser professor no ensino básico e secundário por razões conhecidas e por vezes esquecidas, é hoje uma tarefa de extrema dificuldade e exigência que social e politicamente justifica um reconhecimento e valorização frequentemente negligenciadas. Acresce que é uma tarefa desempenhada por uma classe extremamente envelhecida e cansada. (…) e  (...) Raramente a profissão professor tem estado tanto em foco como nos últimos anos bem como a necessidade de defender a qualidade da escola pública sob ameaça significativa. Múltiplas acções e decisões políticas, bem como alguma imprensa e "opinion makers" têm contribuído para degradar a sua função, fragilizar a sua imagem social e comprometer o clima e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas.”

sábado, 6 de outubro de 2018

DE NOVO, "FAMÍLIA PRECISA-SE, MUITO URGENTE"


A entrevista de Robbie Gilligan no Público sobre a questão das crianças à guarda do Estado merece reflexão e, sobretudo, acção considerando que “Só 3% das crianças retiradas às famílias estão com famílias de acolhimento”.
Recordo que em 2015 foi publicada legislação que estabelece o quadro das famílias de acolhimento para crianças em risco mas, três anos depois a lei continua por regulamentar.
Esta situação inibe o desenvolvimento de projectos que colocar em contextos familiares crianças que por situações de risco foram retiradas às famílias biológicas e ainda não estão em processo de adopção e vivem em instituições.
A lei pretende contrariar que a institucionalização seja a resposta mais frequente, sobretudo no caso das crianças mais novas, até aos seis anos. 
Não sendo ainda conhecidos os dados de 2017, em 2016 estavam sob tutela do estado 8175 crianças, um número que continua demasiado elevado. Destas, apenas 261, 3.1%, estavam com famílias de acolhimento apesar da lei determinar a prioridade ao acolhimento numa família relativamente à estadia numa instituição e 18 tinham até 5 anos sendo que nesta idade 969 estavam institucionalizadas. A colocação numa família de acolhimento decorre enquanto se tenta a reintegração na família biológica ou a adopção.
O número de crianças nesta situação é demasiado baixo e, lamentavelmente, tem vindo a decrescer, em 2008 viviam com famílias 657 crianças.
Não tenho conhecimento que a situação tenha sido alterada, a lei não foi regulamentada, e o quadro actual é ineficaz e incompreensível e muito pouco amigável para o acolhimento familiar. Uma família de acolhimento de uma criança recém-nascida não tem direito a licença de parentalidade. Não tem protecção no trabalho para faltas em caso de doença da criança e não a pode considerar em sede de IRS. A criança não recebe abono de família nem acede aos dispositivos da Acção Social Escolar.
No que respeita a apoios económicos, sim, as crianças são particularmente caras em Portugal, as famílias recém um subsídio mensal de 153.40€ e mais 176.89€ da Segurança Social, pouco mais de 330€ mensais. Ainda passa recibo verde e paga três prestações de 157.
Curiosamente, ou talvez não, e de forma inaceitável pela disparidade de tratamento as instituições que acolhem crianças recebem em média 700€ por cada e as crianças têm acesso à Acção Social Escolar e abono de família(?!).
Percebe-se também por isto o baixo número de crianças em famílias de acolhimento e o número excessivo das que se mantêm institucionalizadas.
Em nome do seu bem-estar seria desejável que se conseguisse até ao limite promover a sua desinstitucionalização das crianças por múltiplas e bem diversificadas razões.
Recordo um estudo da Universidade do Minho mostrando que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.
A conclusão não questiona, evidentemente, a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção ou outros dispositivos como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos. Também deve acentuar-se o trabalho de grande qualidade que muitas instituições procuram desenvolver. Além disso, sabemos todos, que existem contextos familiares que por razões de ordem variada não devem ter crianças no seu seio, fazem-lhes mal, pelo que a retirada pode ser uma necessidade justificada pelo superior interesse da criança, um princípio estruturante das decisões neste universo.

#EleNão, JÁ TEMOS "ELES" QUE CHEGUEM

Amanhã realizam-se as eleições no Brasil
Um mundo com Duterte, Viktor Orbán, Salvini, Trump, Heinz-Christian Strache, Geert Wilders, Alexander Gauland, Erdogan, Jimmie Åkesson, Marine Le Pen, Jussi Kristian Halla-aho, Kim Jong-un, Kristian Thulesen Dahl, Maduro, Putin, Netanyahu, Bashar al-Assad, … e mais alguns nomes de diferentes geografias é inquietante quanto baste.
Democracia, direitos humanos, liberdade, tolerância são para esta gente valores (?) de geometria variável.
Não precisamos de acrescentar mais nomes a esta já sinistra lista que, como disse, está longe de ser exaustiva.
#EleNão, o Brasil não pode sofrer este castigo, Bolsonaro é uma, mais uma, ameaça.
O mundo está decididamente um lugar perigoso e mal frequentado.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

DIA MUNDIAL DO PROFESSOR


De acordo com o calendário das consciências, o 5 de Outubro é também o Dia Mundial do Professor. Algumas notas que sempre retomo.
Sem novidade, tenho para mim que crianças, enquanto grupo social, e professores, enquanto grupo profissional, constituem dois grupos centrais nas sociedades contemporâneas. Os mais novos porque são o futuro e os professores porque, naturalmente, o preparam, tudo passa pela escola e pela educação. Hoje em dia e em Portugal, este entendimento ainda me parece mais justificado porque, devido a ajustamentos na organização social e familiar e, é minha convicção, devido a políticas sociais a políticas educativas inadequadas, os miúdos passam tempo excessivo na escola, alterando a dinâmica educativa familiar o que sobrevaloriza o papel da escola através dos professores.
Raramente a profissão professor tem estado tanto em foco como nos últimos anos bem como a necessidade de defender a qualidade da escola pública sob ameaça significativa. Múltiplas acções e decisões políticas, bem como alguma imprensa e "opinion makers" têm contribuído para degradar a sua função, fragilizar a sua imagem social e comprometer o clima e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas.
A atenção que tem estado centrada nos professores advém de boas e más razões. Não cabe aqui um balanço, e entendo que, tal como os miúdos, os professores não têm sempre razão, os discursos dos seus representantes são, por vezes parte do problema e não parte da solução e também sei que existem alguns professores que o não deviam ser. No entanto, a verdade é que a esmagadora maioria dos docentes são ... Professores.. Algumas reflexões.
Em primeiro lugar importa desde logo sublinhar que ser professor no ensino básico e secundário por razões conhecidas e por vezes esquecidas, é hoje uma tarefa de extrema dificuldade e exigência que social e politicamente justifica um reconhecimento e valorização frequentemente negligenciadas. Acresce que é uma tarefa desempenhada por uma classe extremamente envelhecida e cansada.
Pensemos no que é ser professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística, nas políticas sociais e consequente guetização social produziram.
Pensemos ainda na forma como milhares de professores cumprem a sua carreira, muitos deles sem a possibilidade de desenharem projectos de vida para si quando são os principais responsáveis por lançar projectos de vida para os miúdos com quem trabalham. Nos últimos anos milhares de professores, de bons professores e professores necessários, foram constrangidos à reforma e muitos ao desemprego por uma política de contabilidade inimiga da educação pública e da qualidade.
Pensemos em como os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma qualquer ignorante barbaridade, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.
Pensemos como é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Pensemos que a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem.
Pensemos finalmente nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. 
Gostava ainda de deixar uma ideia do enorme João dos Santos, “O Professor João, foi meu professor porque foi meu amigo” e uma convicção pessoal que a idade cada vez mais cimenta, qualquer professor ou educador, tanto ou mais do que aquilo que sabe, ensina aquilo que é.
A prova é que de todos os professores que connosco se cruzaram os que mais nos marcaram positivamente foi sobretudo pelo que eram e menos pelo que nos ensinaram.

PS - O Dia Mundial do Professor é este ano marcado em Portugal por uma manifestação que bem mais do que a comemoração do dia e a afirmação da sua profissão é marcado pela existência de um conflito com o ME em torno da questão do descongelamento do tempo de serviço que ocorreu durante mais de nove anos.
Mais uma vez. Qualquer de nós no desempenho da sua profissão vê que não é considerado para os efeitos previstos no quadro legal que a regula parte do tempo que trabalhou. Defender que tal decisão não é adequada não é uma “exigência” é a expressão de um direito.
No entanto, esta forma de abordar a questão contribui, implícita ou explicitamente, para criar ruído e diabolizar a classe docente o que, lamentavelmente, não é raro como ainda ontem escrevi aqui.
Se a estrutura da carreira, do acesso, dos mecanismos de progressão e os efeitos no estatuto salarial não são adequados, justos, claros, etc. então que se desencadeiem os processos conducentes à sua eventual alteração, mas não misturemos tudo para criar confusão.
O quadro legal em vigor, gostemos ou não, é o que deve ser cumprido, é uma questão de direito. Entender o contrário é um risco embora saibamos que em Portugal existe alguma tendência para entender a lei como indicativa e não como imperativa, ou seja, é de geometria variável.
O que estará em causa é o modo e o faseamento no cumprimento da lei. E isto, mais uma vez, só se consegue negociando. Ponto.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

AS CAIXAS DE COMENTÁRIOS


Faz parte das minhas rotinas uma passagem de olhos pela generalidade da imprensa portuguesa e também de alguns títulos internacionais. Embora procure fugir das caixas de comentários nas peças sobre educação nem sempre resisto e espreito. Prometo sempre a mim mesmo que não o volto fazer pois boa parte das vezes e com uma parte muito grande dos comentários fico algures entre o perplexo, o amargurado, o preocupado ou … agoniado.
Alguns exemplos breves, no Público numa notícia sobre a greve dos professores “Os professores estão ensinando o socialismo em vez de ensinar o civismo …” Também no Público numa peça sobre o conhecimento que os alunos têm sobe a greve dos professores. “Não sabem? Simples, estão de greve porque já começaram as aulas!”
No Observador numa peça sobre o vencimento dos professores, “A prova de que ganham bem acima da média dos restantes licenciados da função pública é que, desde Janeiro até agora já fizeram cerca de trinta dias de greve, não recebendo, supostamente, nem salário nem subsídio de refeição. Os outros licenciados não aguentariam o corte de tantos dias nos seus ordenados.”, “Torna-se urgente rever a nossa Constituição, no sentido de travar esta loucura da classe docente. Na prática, não deixa de ser uma ditadura dos professores sobre o resto da sociedade. Isto é uma caricatura da democracia e há que colocar um ponto final a esta pouca vergonha!”, “Três meses de férias por ano componentes lectivas de 20 horas, 50 dias de greve não á duvida que é muita canseira.”, “Claro que ganham demais pois à maioria dos nossos professores aplica-se a máxima que QUEM NÃO SABE FAZER ENSINA.” No JN a propósito também da greve dos docentes e de declarações do líder da FENPROF, “Este parasita, que nunca trabalhou e quem o acompanha nas greves não são mais nem menos chulos dos restantes trabalhadores, esta cambada estão-se nas tintas para os Pais que tem filhos na escola, e nos problemas que causam às pessoas que vivem e trabalham neste pobre País.” (corrigi algumas gralhas ou erros na escrita).
Eu sei que também aparecem comentários de outra natureza mesmo quando são em tom crítico ou expressando posições diferentes.
No entanto, tanta ignorância e preconceito, tanta raiva dirigida aos professores, são difíceis de perceber.
Será que esta gente tem filhos ou netos? Será que acham mesmo que os professores dos seus filhos ou netos são aquelas pessoas sobre as quais e os seus problemas falam daquela maneira? Será que acham que os  discursos que produzem sobre os docentes contribuem para que os seus filhos ou netos respeitem e valorizem os professores que diariamente têm à sua frente?
Tenho dificuldade em entender. Eu sei que também existem situações incompetência, nenhuma dúvida. Sei ainda que muitas peças sobre a educação em alguma imprensa e de acordo com as suas linhas editoriais também criam, sem surpresa como é óbvio, um contexto “amigável” para os comentários desta natureza.
Mas é mau, muito mau, para todos.  

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A LONGA MARCHA DA INCLUSÃO

Texto escrito em 7 de Julho.

“Finalmente apareceu a nova legislação sobre a educação inclusiva.
Bolas, não era sem tempo.
Agora sim acaba-se com a exclusão e a guetização de alunos em espaços curriculares, CEIs, ou em instituições que promovem vida activa.
Já não vão acontecer situações de “entregação” mas todas serão de verdadeira inclusão. Boa!
Assim sim, com inovação, com um novo paradigma, com uma escola inclusiva x.0 acabou-se o ensino especial para alunos especiais providenciado por professores especiais que lidam ainda com os pais especiais dos alunos especiais.
Os agrupamentos e escolas terão as suas equipas preparadas, recursos suficientes e competentes e os técnicos necessários a projectos educativos que acomodem a diversidade dos alunos.
Estarão montados os dispositivos de regulação do trabalho desenvolvido e a formação necessária, quem sempre fez de uma certa maneira não muda só porque a legislação se altera, é claro.
Finalmente, as famílias participam efectivamente nos processos educativos.
Acaba-se os “CEIs, os “redutores”, os “nees” e outras designações que, apesar de raramente acontecer, ainda se ouviam.
Tudo isto vai acontecer a tempo para o próximo ano lectivo.
Também já não …
Porra, que música é esta?! Ah, é o telemóvel a tocar … mas hoje é sábado, não precisava de acordar,  até estava a sonhar um sonho lindo.
Ando mesmo cansado disto tudo.

PS – Foi publicado Decreto-lei nº 54/2018, de 6 de Julho que estabelece o Regime Jurídico para a Educação Inclusiva.
Quero muito que do processo de alteração resulte mais qualidade nos processos educativos de todos os alunos, menos exclusão, tantas vezes em nome da … inclusão, mais participação de todos os alunos nas actividades comuns, mais apoios e de qualidade aos professores de ensino regular, os actores centrais nos processos educativos de todos os alunos para além dos pais, a disponibilização de recursos suficientes, adequados e em tempo oportuno e dispositivos de regulação do trabalho desenvolvido que minimizem os efeitos em que, perdoem-me o excesso e a repetição, da dimensão o sistema é verdadeiramente inclusivo, coexistem sem um sobressalto práticas excelentes com práticas e discursos que atentam contra os direitos de alunos, famílias e docentes.
Um melhor quadro normativo é necessário e uma boa base de trabalho mas mais recursos e apoios de qualidade aos professores de ensino regular, os actores centrais nos processos educativos de todos os alunos para além dos pais, a disponibilização de recursos suficientes, adequados e em tempo oportuno e dispositivos de regulação do trabalho desenvolvido são aspectos críticos.
O que será que efectivamente se altera com um novo quadro legislativo? Que vai acontecer no próximo ano lectivo nas condições em que todo o processo de finalização deste e preparação do próximo está decorrer.”

Continuam a aparecer publicamente e recebo informalmente muitos relatos do que se vai passando nas escolas desde o início do ano lectivo. Estes relatos e apreciações evidenciam com regularidade um elenco de dificuldades e constrangimentos referidos por professores e directores e, sobretudo, por pais com muitos alunos em situações muito sérias inadequadas que de educação têm pouco de de inclusão têm nada. Por outro lado, a tutela, assumindo dificuldades pontuais e já corrigidas, refere que globalmente o processo correu e está a correr bem, estamos num período de transição e adaptação e tudo irá decorrer positivamente.
Como há dias escrevi, também gostava de apanhar o comboio do “wishfull thinking” e achar que tudo vai bem. Não, não vai tudo bem. O normativo tem aspectos positivos de que relevam, por exemplo, o fim de algo insustentável, a questão da “elegibilidade”, ideia que em educação é incompreensível, a distinção sem sentido entre nee permanentes ou transitórias ou ainda uma bizarrice grave o CEI, entre outros aspectos. No entanto e como é habitual, tem excesso de doutrina e teoria, em vez da economia mais eficiente de definir princípios e regulação, o que acaba por entrar em conflito com a realidade.
Contrariamente ao que muitos decisores políticos acreditam a realidade não é a projecção dos nossos desejos, é … a realidade. E a realidade, recorrendo a uma terminologia presente no DL 54/2008, acomoda professores e técnicos perdidos na mudança de paradigma, perdidos nas orientações e na inadequação dos recursos, nas medidas voluntaristas que quase parecem querer “normalizar” e “incluir” alunos, “entregando-os” nas salas de ensino regular, remetendo-os para "espaços outros" (agora já não se chamam "unidades") ou mesmo aconselhando a sua permanência em casa  provocando exclusão e sofrimento, incumprimento de direitos, desespero nas famílias e também em professores e técnicos.
E a realidade preocupa-me.
Mas ... sou optimista.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

HISTÓRIAS DA AVOZICE. A FORMAÇÃO CÍVICA


O meu neto entra em casa vindo com a avó não tendo ficado na “escola” devido à greve dos docentes.
Então Simão, não foste à escola?
Não, voltámos para casa, há greve.
Greve? Isso é o quê?
É quando as professoras estão zangadas umas com as outras.
Não é animador, aos olhos de um gaiato de cinco anos o mundo está em greve, toda a gente anda zangada com toda a gente.
Procurei contribuir para a sua formação cívica, não sei se terei sido bem-sucedido. A ver vamos.

DO RISCO DA RITALINIZAÇÃO


O PAN apresentou um Projecto de lei no Parlamento cuja discussão será marcada amanhã no sentido de proibir a prescrição de metilfenidato e de atomoxetina a crianças com menos de seis anos. Os dois princípios mais conhecidos pelo seu nome comercial (Ritalina, Concerta, Rubifen no caso do metilfenidato) e  Strattera no caso da atomoxetina, são frequentemente usados para tratamento de situações de hiperactividade com défice de atenção.
A fundamentação para a proposta do PAN assenta nas afirmações contidas nas bulas dos medicamentos onde se afirma, "Ritalina LA não se destina a ser utilizado como tratamento para a PHDA em crianças com menos de 6 anos. Desconhece-se a segurança e eficácia da utilização deste medicamento em crianças com idade inferior a 6 anos." No caso do fármaco Strattera lê-se  "não deve ser utilizado como tratamento da PHDA em crianças com menos de 6 anos e desconhece-se se o medicamento resulta ou se é seguro neste grupo de pessoas".
Como já aqui tenho afirmado o consumo destes fármacos e o diagnóstico das situações para as quais são prescritos requerem uma enorme prudência. No entanto, parece-me pouco defensável que seja o Parlamento a estabelecer regras de prescrição farmacológica em actos médicos.
Retomo algumas notas pois o consumo destes fármacos envolve muitos milhares de crianças e adolescentes.
Como já referi, esta medicação é usada na terapêutica das situações de alegados problemas de comportamento, hiperactividade, défice de atenção ou instabilidade. No entanto, é também usada como “auxílio” aos resultados escolares sendo também conhecida pelo “comprimido da inteligência”.
Esta preocupação tem sido objecto de intervenções recorrentes. Recordo que no Relatório anual do Conselho Nacional de Educação “Estado da Educação 2015” chamava-se a atenção para a questão do consumo de medicação por parte de crianças e adolescentes para alegados problemas de comportamento, hiperactividade, défice de atenção ou instabilidade.
Em 2010 prescreveram-se no SNS 133 562 e em 2016 o número foi 270 492. É ainda de considerar que em 2015 63% do volume do fármaco foi usado entre os 10 e os 19 anos e 26% até aos 9 anos. Os adultos consumiram “apenas” 7% do volume total de prescrições.
São valores impressionantes e altamente preocupantes e que estão em linha com os dados do Infarmed que tem alertado para o disparar do consumo do metilfenidato com os nomes correntes de Ritalina, Concerta ou Rubifen.
Face a este cenário e em diferentes intervenções públicas, especialistas como Mário Cordeiro, Gomes Pedro ou Ana Vasconcelos  têm revelado sempre uma atitude cautelosa e prudente face esta hipermedicação ou sobrediagnóstico e alertado para os riscos destas práticas que, aliás, não se verificam em todos os países. Este tipo de discurso, cauteloso e prudente, que subscrevo, contrasta com a ligeireza, que não estranho, de Miguel Palha que referia há algum tempo no Público as “centenas” de crianças que na sua clínica solicitam “diariamente” o fármaco. A pressão enorme que envolve pais, professores, técnicos e clínicos face ao comportamento de algumas crianças ajuda a perceber a tentação da medicação.
Conheço de forma directa algumas situações verdadeiramente preocupantes.
Pedindo desculpa ela repetição de escritos anteriores, a forma como olhamos, intervimos e exigimos dos comportamentos e resultados escolares dos mais novos mostram que de há uns tempos para cá uma boa parte dos miúdos e adolescentes parece ter adquirido uma espécie de prefixo na sua condição, o "dis", passam a "dismiúdos".
Se bem repararem a diversidade é enorme, ao correr da lembrança temos os meninos que são disléxicos em gama variada, disgráficos, discalcúlicos, disortográficos ou até distraídos.
Temos também as crianças e adolescentes que têm (dis)túrbios ou perturbações. Estes também são das mais diferenciadas naturezas, distúrbios do comportamento, distúrbio do desenvolvimento, distúrbios da atenção e concentração, distúrbios da memória, distúrbios da cognição, distúrbios emocionais, distúrbios da personalidade, distúrbios da actividade, distúrbios da comunicação, distúrbios da audição e da visão, distúrbios da aprendizagem ou distúrbios alimentares.
Como é evidente existem ainda os que só fazem (dis)parates e aqueles cujo ambiente de vida é completamente (dis)funcional ou se confrontam com as (dis)funcionalidades dem muitos contextos escolares, número de alunos por turma excessivo, currículos desajustados, falta de apoios, etc.
Pois é, há sempre um "dis" à espera de qualquer miúdo e senão, inventa-se, "ele tem que ter qualquer coisa".
De forma propositadamente simplista costumo dizer que algumas destas crianças não têm perturbações do desenvolvimento ou dificuldades de aprendizagem, experimentam perturbações no envolvimento e sentem dificuldades na “ensinagem”.
Agora um pouco mais a sério, sabemos todos que existe um conjunto de problemas que pode afectar crianças e adolescentes, esses problemas devem ser abordados, se necessário com medicação, evidentemente, mas, felizmente, não são tantos as situações como por vezes parece. Inquieta-me muito a ligeireza com que frequentemente são produzidos "diagnósticos" e rótulos que se colam aos miúdos, dos quais dificilmente se libertarão e que pela banalização da sua utilização se produza uma perigosa indiferença sobre o que se observa nos miúdos. Aliás, é curioso perceber o que se passa noutros países, França, por exemplo, nesta matéria.
Inquieta-me ainda a ligeireza com que muitos miúdos aparecem medicados, chamo-lhes "ritalinizados", sem que os respectivos diagnósticos conhecidos pareçam suportar seguramente o recurso à medicação. A sobreutilização ou uso sem justificação do metilfenidato e de outros fármacos tem riscos, uns já conhecidos, outros em investigação.
Esta matéria, avaliar e explicar o que se passa com os miúdos e adolescentes, exige um elevadíssimo padrão ético e deontológico além da óbvia competência técnica e científica.
Não se pode aligeirar, é "dis"masiado grave.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

PARTIU CHARLES AZNAVOUR


Partiu Charles Aznavour um nome grande da “chanson française”
A minha geração foi ainda muito marcada pela influência da cultura francesa e, naturalmente, tivemos como companhia musical os grandes nomes de uma das tribos dessa cultura, a “chanson française”, de que Charles Aznavour fez e fará parte. 
“Il faut savoir”, uma canção dos amores perdidos.



DO BULLYING


Como muitas vezes afirmo os problemas das minorias não são problemas minoritários pelo que retomo uma questão que já aqui tenho abordado, o bullying homofóbico em contexto escolar.
O Público faz referência a um trabalho do CIS-IUL - Centro de Investigação e de Intervenção Social do Instituto Universitário de Lisboa segundo o qual as vítimas de bullying  relacionado com a orientação sexual, real ou percebida, têm menos hipóteses de ter ajuda por parte dos colegas que outras vítimas de bullying. Estando presente a questão óbvia do preconceito os colegas receiam efeitos de contágio, ou seja, serem também considerados homossexuais. A questão da ajuda é importante pois a generalidade dos estudos aponta para que em mais de 80% das situações de bullying existam assistentes que podem ter um papel importante na contenção das agressões. Aliás, é hoje aceite que uma parte significativa da intervenção e prevenção do bullying deve envolver os assistentes.
Um trabalho divulgado este ano pela Associação ILGA Portugal — Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo divulgou o “Estudo Nacional Sobre o Ambiente Escolar — Jovens LGBTI+ 2016/2017” realizado ISCTE e pela U. do Porto envolvendo perto de 700 jovens com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos também tem dados pertinentes.
Mais de 62% dos inquiridos reporta comentários negativos feitos de pessoal docente e não docente de natureza ocasional e 28.5% refere regularidade nesses comentários.
Os comentários negativos são sobretudo produzidos por colegas, 75.1%.
Sendo a maioria das agressões de natureza verbal também se relatam agressões físicas, 7.7%.
De registar ainda que 73,6% refere ter sentido alguma forma de exclusão intencional por parte dos colegas e quase 65% foi alvo de rumores ou mentiras sobre si na escola.
É ainda relevante que apenas um em cada dez inquiridos denunciou regularmente a situação de vitimização e constata-se que em escolas onde se desenvolve trabalho sobre estas questões a situação é mais positiva.
Todos estes dados estão em linha com a realidade, são frequentes os discursos ou comportamentos discriminatórios face à orientação sexual ou identidade de género em contexto escolar.
Em 2017 a Agência para os Direitos Fundamentais da União Europeia referia que 94% dos jovens LGBT ouvem ou testemunham comentários e comportamentos negativos em contexto escolar em Portugal". Já se referia também que a apresentação de queixa por parte das vítimas é rara.
Com demasiada frequência os problemas das minorias são eles próprios percebidos como problemas  minoritários, menores ou mesmo como não problemas.
Em 2014 foi divulgado um estudo referindo as dificuldades das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens em lidar com crianças e jovens com orientações sexuais diferentes, um problema que raramente é abordado mas que é fonte de sofrimento para muitas crianças, adolescentes famílias.
Um Relatório da Rede Ex-Aequo referia que no ano de 2012 se registaram 37 denúncias de homofobia e transfobia, sendo que 42 % da juventude lésbica, gay ou homossexual afirmou ter sido vítima de bullying homofóbico, 67% dos jovens declarou tê-lo presenciado e 85% afirmou já ter ouvido comentários homofóbicos na escola que frequenta. Em muitas situações desta natureza emergem quadros “baixa auto-estima, isolamento, depressões e ideação e tentativas de suicídio”, contribuindo ainda para o insucesso e para o abandono escolar de muitos jovens. O mesmo relatório referia ainda episódios recorrentes de bullying homofóbico em contextos de praxes académicas, situação que já aqui também comentei.
Recordo que em Novembro de 2011, dados da UNESCO referiam que cerca de 70 % de alunos homossexuais afirma ser vítima de bullying.
De facto, parece evidente o risco de sofrimento por parte destes adolescentes e jovens.
Sabemos também que tanto como intervir na remediação e apoio é fundamental entender que o público mais jovem terá de ser sempre ser um alvo privilegiado, é de "pequenino que se torce o pepino".
Esperemos que face à dimensão dos incidentes de bullying dirigidos a um alvo em particular a que acrescem os outros comportamentos da mesma natureza, sejam uma preocupação não ideológica mas de direitos e de natureza civilizacional no contexto das políticas e processos educativos.