Segunda-feira, 19 de Março de 2012

O AFECTO NÃO CHEGA

No Público deste Domingo surge um trabalho sobre o complexo problema da adopção em Portugal. A peça centra-se no "fracasso" do apadrinhamento civil previsto na lei. Desde que a possibilidade se instituiu,  levantou-se a questão de que o facto da lei não prever incentivos às famílias que apadrinhassem crianças institucionalizadas poderia suscitar fraca adesão. Prevaleceu o entendimento de que não seria desejável "pagar" algo que, entende-se, será da natureza dos afectos.
A medida do apadrinhamento civil teria como destinatários crianças que não tendo um projecto viável de adopção também não teriam condições de vivência na sua família biológica. Os casos foram residuais o que surpreende ainda assim alguns especialistas que procura a explicação na falta de informação e na eventual confusão entre o apadrinhamento e a adopção.
A questão é de facto complexa. É certo que já existem famílias de acolhimento que recebem temporariamente crianças durante processos de "reabilitação" das famílias biológicas, verificando-se situações em que o acolhimento dura até ao limite legal, 21 anos. Estas famílias recebem um montante pecuniário pelo "serviço" prestado às crianças.
Embora entenda as posições que recusam incentivos pecuniários às famílias penso que seria de considerar prever o incentivo colocando a possibilidade dos "padrinhos" dele prescindirem, como, aliás, sugere um especialista referido na peça do Público.
Um estudo recente realizado na Universidade do Minho aponta no sentido de que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.
A conclusão não questiona a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos.
Apesar de alguma evolução, ainda temos um número de crianças institucionalizadas, muitas das quais sem projectos de vida viáveis pese o empenho dos técnicos. Neste universo, acresce a dificuldade enorme de algumas crianças em ser adoptadas devido a situações como doença, deficiência, existência de irmãos ou uma idade já elevada. Assim, muitas crianças estarão mesmo condenadas a não ter uma família.
Neste cenário, diferentes modalidades que permitam que as crianças, sem possibilidade vivência nas sua famílias biológicas e sem condições de adopção, cresçam em contextos de natureza familiar mesmo que para tal se estabeleçam incentivos de natureza financeira, são, creio, de considerar com alguma abertura.
Em muitas circunstâncias, citando Betelheim, "l'amour ne suffit pas".

Domingo, 18 de Março de 2012

O REMADOR E OS TIMONEIROS

Uma vez, as diferentes terras decidiram realizar provas de canoagem. Cada canoa tinha onze tripulantes.
Depois de várias provas, verificava-se que a canoa que representava aquela terra onde acontecem coisas ficava quase sempre em último lugar. Tentando perceber a razão de tão magros resultados os responsáveis daquela terra criaram um grupo de trabalho, uma comissão, um conselho de orientação e uma estrutura de missão para analisar a questão e, naturalmente, propor soluções.
A profícua, demorada e cara análise das estruturas criadas mostrou que, de uma forma geral, as canoas das outras terras tinham um timoneiro e dez remadores enquanto a canoa da terra onde acontecem coisas tinha um director-geral, dois assessores, dois subdirectores-gerais, dois directores de serviço, três chefes de divisão e um remador.
Ao constatar tal cenário, as estruturas nomeadas perceberam a razão dos sucessivos maus resultados e produziu vários relatórios, estudos e planos estratégicos que sustentassem e permitissem operacionalizar as mudanças necessárias.
Assim e de acordo com as determinações dos vários serviços com tutela na matéria, a tripulação passou a contar com um director-geral, um assessor, dois subdirectores-gerais, dois directores de serviço, quatro chefes de divisão e procederam também à substituição do remador.
Acontece que nas provas seguintes os resultados continuaram a ser péssimos e sentiu-se a necessidade de se tomarem, finalmente, medidas drásticas. De acordo com os pareceres de todas as estruturas criadas para análise do problema, a toda a tripulação foi atribuído um aumento de vencimento e um prémio de gestão O remador foi despedido com justa causa após um processo que evidenciou inaptidão funcional.
Recordei esta história, que já aqui contei, ao ler no Público que desde a sua tomada de posse, em Junho de 2011, o Governo criou 23 grupos de trabalho, 14 comissões, 3 equipas, 3 conselhos, uma estrutura de missão e 1 equipa de missão.

OS CONSUMOS, DROGA DE VIDA

No Público de hoje está um trabalho extenso e muito interessante sobre a sempre actual questão da relação entre droga, adolescência e juventude. De todo o trabalho que merece leitura atenta, gostava de salientar dois aspectos, a inversão do abaixamento do consumo que vinha a verificar-se até 2010, agora está a subir, e o facto de quase ter duplicado a venda de droga na escola ou à volta da escola. Segundo os técnicos, o volume traficado poderá ser superior ao que se verifica nos contextos das discotecas.
É também de registar a aparente "normalidade" com que para muitos adolescentes é encarado o consumo e tráfico, embora se afirmem conscientes dos riscos. Pais e professores ouvidos evidenciam um discurso que varia entre o desconhecimento e a impotência resignada.
Deste quadro, releva uma questão que assume múltiplas dimensões que alguma vezes tenho abordado no Atenta Inquietude, o papel, a função, os limites da escola.
Nas últimas décadas, sobretudo devido às alterações dos estilos de vida, os miúdos têm vindo a passar cada vez mais tempo diário na escola e mais anos na escola. No que respeita ao tempo diário, a duração da estadia diária de algumas crianças e adolescentes na escola está francamente acima do desejável correndo-se o risco da intoxicação, "overdose" de que se começam a ver alguns efeitos.
Neste cenário e como é previsível, estando a vida dos miúdos tão ligada à escola, os problemas que os afectam, todos os problemas, acabam por se reflectir na escola, é lá que estão a maior parte do tempo. Percebe-se assim porque se aproxima da escola o tráfico e consumo de drogas, sobretudo as mais leves como o haxixe mas envolvendo outras substância.
Acontece então que a escola fica confrontada com múltiplos problemas que, verificando-se na escola, são de difícil solução por parte da escola, ou seja, a escola pode, e deve, fazer parte da solução mas não pode ser a solução.
O caso dos consumos é um bom exemplo, solicita a intervenção dos serviços vocacionados, em contenção de recursos e meios devido à "austeridade", envolve as forças de segurança (existe o crime de tráfico), solicita o envolvimento dos pais e, naturalmente solicita uma atenção ou intervenção por parte da escola que não é fácil. Solicita, por exemplo, formação, solicita recursos técnicos que possam mediar o contacto entre jovens e famílias (não exclusivamente nos casos de consumo e tráfico), solicita um papel muito mais activo dos directores de turma que, do meu ponto de vista deveriam ter mais tempo para trabalhar com os seus alunos e menos carga burocrática, etc.
Uma nota final para a questão das famílias. Em alguns casos de consumo (e não só de drogas) pode haver alguma negligência paternal mas, na maioria dos casos, trata-se de pais, que sabem o que se passa, “apenas fingem” não perceber, desejando que o tempo “cure” porque se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e como lidar com a questão. De fora parece fácil produzir discursos sobre soluções, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é muitas vezes sentida como maior que eles, justificando-se a criação de programas destinados a pais e aos adolescentes que minimizem o risco do consumo excessivo.
Existem áreas de problemas que afectam as comunidades em que os custos da intervenção são claramente sustentados pelas consequências da não intervenção, ou seja, não intervir ou intervir mal é sempre bastante mais caro que a intervenção correcta em tempo oportuno. Os consumos, droga e álcool, são exemplos dessas áreas.

Sábado, 17 de Março de 2012

MEGA-AGRUPAMENTOS, POTENCIAIS MEGA-PROBLEMAS

No novo modelo de gestão das escolas, entre outras alterações, insiste-se no caminho de constituição dos chamados mega-agrupamentos o que me parece inquietante e ao qual muitas vezes me referi no Atenta Inquietude.
Desde sempre tenho defendido que apesar de ser necessária uma reorganização da rede escolar, porque escolas de reduzidíssima dimensão, para além dos custos, não cumprem a sua função social com qualidade, seria absolutamente desejável que se não enveredasse pela criação de mega escolas ou mega agrupamentos. O MEC insiste nesse caminho e não estabelece limites à concentração que para o Governo anterior tinham como média 1700 alunos e como limite 3000.
De há muito que se sabe que um dos factores mais contributivos para o insucesso, absentismo e problemas de disciplina é o efectivo de escola. Não é certamente por acaso, ou por desperdício de recursos, que os melhores sistemas educativos, lá vem a Finlândia outra vez, e, por exemplo, mais recentemente o Reino Unido e os Estados Unidos na luta pela requalificação da sua educação, optam por estabelecimentos educativos que não ultrapassam a dimensão média de 500 alunos. Sabe-se, insisto, de há muito que o efectivo de escola está mais associado aos problemas que o efectivo de turma, ou seja, simplificando, é pior ter escolas muito grandes que turmas muito grandes.
É fundamental que a comunidade tenha consciência deste universo de modo a tentar travar o movimento de construção de autênticos barris de pólvora e contextos educativos que dificilmente promoverão sucesso e qualidade apesar do esforço de professores, alunos, pais e funcionários.
Não conheço nenhuma justificação de natureza educativa que sustente a existência vantajosa de escolas para crianças e adolescentes com 1500 lugares ou mais. A razão para a sua criação só pode, pois, advir da vontade de controlo político do sistema, a grande tentação de qualquer governo, menos escolas envolvem menos directores ou de questões economicistas que a prazo se revelarão com custos altíssimos pela ineficácia e problemas que se levantarão.
O insucesso sai sempre mais caro que o investimento no sucesso.

A HISTÓRIA DO CHUMBADO

Uma vez, o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, ia a passar no recreio da escola e reparou no ar triste de um miúdo, sozinho, sentado num banco de cimento, o único que estava à sombra.
- Estás triste?
- Estou.
- Como te chamas?
- Chumbado.
- Estás triste porquê?
- Não passei.
- Disseram-te os professores?
- Não, vi na pauta.
- Estavas à espera?
- Eu acho que tinha feito as coisas mais bem-feitas e até comecei a ter positivas. No primeiro período é que foi pior e acho que foi por causa disso que não passei.
- Porquê?
- Velho, houve setores que me disseram logo que não ia passar e acho que eles já não ligaram muito ao que eu fiz no terceiro período. Mas para o ano já sei como vou fazer. Vou ver se no primeiro período tento desenrascar-me melhor para os setores não ficarem à espera que eu chumbe.
- Fazes bem, Chumbado.
E o Professor Velho foi-se embora a pensar porque é que não se percebe que há miúdos que chumbam e miúdos que são chumbados.

Sexta-feira, 16 de Março de 2012

FAZER CERTAS AS COISAS E FAZER AS COISAS CERTAS

No universo da educação em Portugal, depois de Abril de 74, instalou-se uma das mais generosas e ingénuas ideias que o tempo das utopias gerou, todos os indivíduos deveriam ter formação universitária. Esta ideia, de trágicas consequências, quis combater a marca de classe presente nas escolhas entre liceu e escolas industriais e comerciais e, sobretudo, o baixo número de alunos que continuavam a estudar. O resultado foi criar um percurso que todos deveriam seguir e que só terminaria no fim do ensino superior universitário.
Com o aumento da escolaridade obrigatória e o aumento exponencial do número de alunos começou a perceber-se o erro trágico de um só percurso, muitos alunos chumbavam e abandonavam o sistema sem qualquer tipo de qualificação. Aliás, mesmo completando o ensino secundário, o 12º ano, as competências profissionais eram nulas, isto é, o 12º apenas ensinava, e mal, a continuar a estudar, coisa que entretanto era dificultada com a figura (lembram-se?) do "numerus clausus".
A partir de certa altura, timidamente, começaram a surgir ofertas de vias profissionais que, por má explicação política, foram sobretudo entendidas como uma estrada por onde vai quem não tem "jeito" ou competência para estudar. Neste contexto, famílias e alunos sentiram dificuldade em aderir a algo percebido como sendo de segunda. Entretanto, o nível inaceitável de chumbos e abandono no secundário continuava a envergonhar-nos.
Nos últimos anos, temos finalmente assistido a uma significativa diferenciação da oferta educativa, sobretudo depois do 9º ano, e essa oferta começa agora a perceber-se como uma alternativa à continuação de estudos mais prolongada, o ensino superior politécnico ou universitário. A oferta actual quase triplicou face a 2004/2005 o que tem contribuído para a descida muito significativa do abandono ao escolar neste patamar do sistema. Por outro lado, o crescimento exponencial da oferta tem vindo a levantar sérias reservas face à qualidade da formação providenciada e ainda não se conseguiu alterar significativamente a perspectiva desvalorizada de muitos professores, alunos e famílias.
O Ministro Nuno Crato reconhece isso mesmo e enuncia a intenção do MEC reverter a situação. Esperemos para ver como mas aquilo a que vamos assistindo não é animador.
Para além da questão da qualidade que importa escrutinar em avaliações independentes, não centradas fundamentalmente em número de alunos certificados mas envolvendo a avaliação das competências atingidas, deve ainda referir-se que em muitas escolas esta oferta diversificada é ainda gerida de forma classista, ou seja, os bons alunos são os que se encaminham para os cursos gerais e os outros são encaminhados para os cursos profissionais que assim continuam percebidos como de segunda.
O nível de desenvolvimento das sociedades actuais exige níveis de qualificação profissional sem os quais o risco de exclusão social é enorme, sempre digo que a exclusão escolar é a primeira etapa da exclusão social. Assim, conseguir que os alunos, todos os alunos, cumpram a etapa escolar saindo com qualificações profissionais é o grande desafio que o nosso sistema educativo enfrenta e para cujo sucesso é fundamental a oferta de percursos formativos diferenciados mas sérios e com qualidade.
Não basta fazer as coisas certas, é também necessário fazer certas as coisas.

CARTA DE INFELIZ PORTUGAL A PEDRO SANTANA LOPES

Meu caro Pedro Santana Lopes,
Peço-lhe desculpa do tratamento menos formal mas já nos conhecemos há umas décadas.
Acabei de saber que o Pedro admite, em entrevista ao Expresso, candidatar-se à Presidência da República tendo como grande objectivo ser um “mobilizador de vontades” que, creio, destina ao meu bem-estar o que me leva a escrever esta missiva.
Embora a sua afirmação “Tenho 55 anos, estou cansado de pregar sobre o que deve ser um Presidente da República desde os 22” seja apenas mais um exemplo da sua humildade e grandeza, por amor de Deus, saiba o Pedro que não sou merecedor de tal disponibilidade e sacrifício.
Sei bem que a sua generosidade desinteressada lhe irá custar imenso. Desde logo, compromete a sua extensa e bem-sucedida carreira profissional que culminou com a sua nomeação para Provedor da Santa Casa da Misericórdia um acto de justiça e reconhecimento ao seu enorme e inquestionável currículo neste universo, a solidariedade social.
Queria também lembrar-lhe que em termos pessoais os custos são elevadíssimos pois sei como o Pedro é um reconhecido amante da discrição e bem sabe o grau de exposição a que um Presidente da República está sujeito. Veja os recentes episódios que envolveram o Professor Cavaco Silva. Sei como o Pedro sofre com a exposição pública e não me julgo merecedor de tanto sacrifício.
Por outro lado, meu caro Pedro, sendo um homem experiente nestas andanças, sabe que há sempre ingratos e incultos que não reconhecem e entendem a sua grandeza, capacidade política, coerência de ideias, humildade e, enfim, competência e que, por inconfessáveis interesses, assumem ostensivos e deselegantes comportamentos de injusta crítica e até, como já aconteceu, pode sempre haver alguém disposto a impedir este nobilíssimo projecto de que continue a tomar conta de mim. Creio pois, que, embora lhe esteja profundamente reconhecido pela amabilidade e espírito de sacrifício, não é justo assumir nos seus ombros já cansados, são 30 anos de árdua pregação, mais esta missão.
Solicito assim, meu caro Pedro, que me não considere razão para esse seu imenso sacrifício.
Seu,
Infeliz Portugal

A RESISTÊNCIA DOS PORTUGUESES

No âmbito da reacção à hiper-mediatizada pandemia da Gripe A, o Governo da altura encomendou 6 milhões de vacinas que se juntariam aos comportamentos preventivos da quase histérica campanha dos cuidados comportamentais que proporcionaram, aliás, algumas histórias curiosas.
A campanha entretanto desenvolvida assumiu proporções nunca antes atingidas o que contribuía para nos convencermos que a ameaça era séria. Devo também dizer que não me sentia muito convencido de tudo o que era dito, face ao que ia acontecendo noutras paragens. Os números entretanto conhecidos e a evolução verificada vieram, felizmente, a demonstrar a benignidade do vírus e os seus efeitos ficaram muito aquém das previsões catastróficas que a pandemia “deveria” provocar.
Neste cenário, o Governo conseguiu reduzir a encomenda para dois milhões de vacinas, cerca de 15 milhões de contos.
Entretanto o pó assentou e o prazo de validade acabou. Resultado, mais de metade das vacinas destruídas e mais uns milhões de euros de desperdício despejados no nosso orçamento deficitário. Claro que a ninguém se imputará qualquer responsabilidade pois são insondáveis os desígnios dos vírus e temos que estar preparados para o que der e vier e, evidentemente, a indústria farmacêutica agradece.
Por outro lado, a actual Subdirectora Geral afirma que uma das razões que levou à não utilização das vacinas se deveu a uma “moderada actividade gripal”, num exemplo de que a questão da produtividade é complexa, e à fraca adesão dos portugueses à vacinação.
A questão é que, do meu ponto de vista, não é um problema de fraca adesão, trata-se de um problema de reforço do sistema imunitário. Na verdade, os últimos anos têm contribuído de maneira substantiva para o fortalecimento do sistema imunitário dos portugueses. Estamos mais do que habituados a lidar com variadíssimas estirpes de vírus e de diferentes naturezas.
Este permanente convívio com ameaças virais produz sistemas de defesa mais eficazes e resistentes. Estamos, por assim dizer, vacinados contra tudo e mais alguma coisa.
Só assim se pode explicar a resistência que temos demonstrado.
É certo que às vezes não nos sentimos lá muito bem, mas aguentamos.

A FALAR É QUE A GENTE SE ENTENDE

O Público de hoje apresenta um interessante e extenso trabalho sobre o estudo, a parte portuguesa, Health Behaviour in School-Aged Children, realizado no âmbito da Organização Mundial de Saúde, envolvendo mais 43 países e coordenado por Margarida Gaspar de Matos.
Neste espaço não cabe uma reflexão sobre a multiplicidade de dados mas não quero deixar de registar algo que reputo de muito relevante e que não é, evidentemente inesperado, a importância que a comunicação com os pais, pai e mãe, tem na minimização de comportamentos de risco e na protecção da saúde miúdos e adolescentes nas suas diferentes dimensões.
A comunicação entre pais e filhos, factor, obviamente determinante para a qualidade de vida de uns e outros, não pode ser desligada dos estilos de vida actuais.
Um estudo de há meses realizado em 14 países da Europa mostrava que os portugueses são os que mais dificuldades revelam em conciliar trabalho com vida pessoal. De facto, 84 % dos inquiridos revelam essa dificuldade sublinhando a falta de tempo para a família e amigos, para si próprios e companheiros e para actividades de lazer.
Já tenho referido aqui no Atenta Inquietude que uma das questões mais associadas aos estilos de vida que suportam os dados acima é o envolvimento dos pais no processo educativo, incluindo a escola onde os miúdos passam tempos sem fim.
Por outro lado, em muitas famílias, as dinâmicas de comunicação existentes são baixas, os miúdos estão muito sós, frequentemente fechados num ecrã, “acompanhados” de outros tão sós como eles.
Curiosamente, não há muito tempo o governo tinha como proposta, felizmente recusada, de aumentar os tempos de trabalho o que, naturalmente, se repercutiria nos tempos para a família.
Com as circunstâncias de vida diária actuais não é fácil, sobretudo em zonas urbanas, a presença dos pais na vida da educativa dos miúdos, com consequências óbvias. É certo que se verificarão algumas situações de negligência mas muitas das dificuldades decorrem da dificuldade de conciliar com a vida profissional.
Considerando este cenário, defendo há muito a pertinência de, em sede de Concertação Social, avançar com propostas de alteração legislativa, sobretudo, na organização horária do trabalho que poderia, essa sim, ter impacto na disponibilidade dos pais. Não me parece impossível que em muitas profissões os tempos de trabalho pudessem ter outra distribuição permitindo mais tempo com os filhos e menos tempo destes na escola.

NÃO E NÃO. Outro diálogo improvável

Pai, empresta-me o teu computador.
Ora Gonçalo, está fora de questão, tens o teu.
Pai o teu é mais rápido para este jogo.
Já te disse que o meu computador não é para os teus jogos.
Pai só hoje, que este jogo é mais fixe jogado num computador mais rápido.
Gonçalo, não sejas teimoso, já te disse que não usas o meu pc.
Pai, porque é que não me emprestas o computador, eu não estrago.
Gonçalo, não é porque estragues o computador, sei que não estragas. Não empresto porque tu tens o teu e deves utilizar as tuas coisas.
Pai, mas podias emprestar, em vez de seres um pai chato.
Não sou um pai chato, sou um pai que gosta das coisas feitas como devem ser.
Sim, mas o pai do Tiago também lhe empresta o computador  e ele fica contente com o pai.
Acho graça dizeres que eu sou um pai chato e tu é que não te calas para te emprestar o computador.
É verdade, se não fosses um pai chato emprestavas-mo.
Só para te mostra que não sou um pai chato, podes usar o computador, vai buscá-lo, toma cuidado e jogas só até à hora de jantar. E é só hoje, está bem claro?
Fixe pai, afinal és um pai fixe.
Eu também acho que sou, Gonçalo. 

Enquanto ligava o computador do pai, o Gonçalo pensava que desta vez lhe tinha dado mais algum trabalho mudar o "não e não" para sim.
Os pais estão a ficar mais difíceis.

Quinta-feira, 15 de Março de 2012

OS PARALELOS DO RITMO

A imprensa relata a situação de um cidadão que, tendo sido condenado em tribunal a entregar a sua carta de condução, requereu uma segunda via o que lhe foi providenciado.
A notícia deixará alguns surpreendidos e outros preocupados, pois com o alerta não poderão recorrer a este expediente que era conhecido. Como é de esperar, existe sempre alguém que descobre e usa os alçapões, fragilidades ou incompetências do nosso funcionamento administrativo.
O caso é explicado de forma simples, um serviço é responsável pela aplicação das contra-ordenações e um outro serviço é responsável pela emissão das licenças de condução. Como as respectivas bases de dados "não se encontram interligadas", lá está ...
Como é evidente, o problema parece de extrema dificuldade e talvez se torne necessário um Grupo de Missão, uma Comissão de Especialistas que estudem a situação e, finalmente, proceder à adjudicação directa a uma empresa de software, de preferência estrangeira, da sofisticadíssima tarefa de cruzar duas bases de dados.
Ao que consta, existe um Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado (PRACE), uma Agência para a Modernização da Administração (AMA), o SIMPLEX e, provavelmente uma série de outras estruturas, mais ou menos desconhecidas, que alimentam ... a dinâmica da inércia.
Esta edificante situação de quem, naturalmente, ninguém é responsável, faz-me recordar uma expressão que usava na adolescência, "estes tipos parecem os Paralelos do Ritmo, por mais que toquem ... nunca se encontram".

NOVOS INDIGNADOS

A rapaziada das forças armadas anda alvoroçada. Ao que parece, a rapaziada do Governo não os tem tratado muito bem. Estranho, deve ser o único grupo que se sente destratado. É claro que os diferentes grupos têm formas de manifestar o seu descontentamento que estão vedadas aos militares, a greve, por exemplo, embora façam umas passeatas curiosas. É certo que os militares, entre outras regalias, têm tido acesso a serviços de saúde em condições que a generalidade dos cidadãos não tem. Será verdade, estou certo, que terão objectivamente razões para descontentamento mas não são os únicos nem, provavelmente, os que mais razões terão para se queixar. Sobre este universo de descontentamento já surgiram os discursos dos incontornáveis Otelo e Vasco Lourenço a deixarem avisos claro que a “malta militar pá, se for preciso, pá, tá aí pá e agita isto tudo, pá”. São dois especialistas em revoluções e que avisam, ser bom não esquecer que quem já fez uma revolução faz duas. Aliás, Otelo voltou ontem a emitir um alerta no sentido em que as forças armadas podem derrubar o governo para restaurar a soberania.
Há poucas semanas a Associação dos Oficiais dasForças Armadas veio avisar o Governo de que nada "os obriga a serem submissos". É assim mesmo, juntem-se aos indignados, sempre ouvi dizer que “com a tropa não se brinca”. No entanto, hoje e a propósito das declarações de Otelo, a Associação vem afirmar o seu entendimento de que embora a soberania esteja a "esvair-se" os problemas podem resolver-se através dos mecanismos da democracia.
Recordo também um discurso recente de Ramalho Eanes que naquele seu jeito ágil e profundo consegue dizer que se está a “estar a criar uma situação que é insustentável até psicologicamente, porque os militares são indivíduos que têm determinados princípios e valores e um deles é cumprir com competência os trabalhos que lhes são entregues”.
É evidente que os civis, ou seja, o resto da população, é um pessoal que, provavelmente, não tem este hábito estranho e particular dos militares que é cumprir com competência os trabalhos que estão entregues. Será certamente para alimentar este espírito de competência exclusivo dos militares que as forças armadas portuguesas têm um número de oficiais superiores desproporcionalmente grande quando comparado com outros países, sendo que boa parte dos quais sem funções operacionais.
Ainda há poucos dias ouvimos o sempre estimulante pensamento de Ramalho Eanes, defendendo que o país tem de decidir se quer forças armadas ou não e, no caso de querer, para que as quer e como as sustenta. Bem visto, como sempre.
De modo que já sabem senhores governantes, muito cuidado. A propósito, também não estou nada satisfeito com algumas políticas sectoriais. Senhores do governo, não se esqueçam que tenho uma fisga e estou descontente. E deixo aqui um aviso, nada me obriga a ser submisso, nem a mim nem aos outros milhões de cidadãos.
Vejam lá, vejam lá. 

OS PROFESSORES, ESSA MALANDRAGEM A QUEM ENTREGAMOS OS NOSSOS FILHOS (take 2)

Uma vez que os dados do estudo PreparingTeachers and Developing School Leaders for the 21st century da OCDE ontem divulgado, continuam a ser referidos no Público, creio que se justificam mais algumas notas.
Ontem afirmava-se que os professores portugueses tinham "salário mais alto que os trabalhadores com a mesma qualificação" o que me mereceu algumas notas.
Curiosamente, hoje titula-se que os professores portugueses estão a ficar mais tempo nas escolas, mas não se sublinha em título, que estão mais horas nas escolas que a média, sempre a média, dos seus colegas dos países da OCDE. Trata-se, obviamente, de critério jornalístico, mas regista-se.
No entanto, depois de se mostrar que, no que respeita a "horários de trabalho, os professores portugueses também se situam acima da média da OCDE. Em Portugal, os docentes, do 1.º ciclo ao secundário, trabalham 1289 horas, quando a média da OCDE é de 1182 para os do 1.º ciclo, 1198 para os dos 2.º e 3.º ciclos, e de 1137 para os do secundário, nas escolas públicas professores estão mais tempo nas escolas que os seus colegas de outros países, em todos os níveis de ensino, usando o critério número de horas anuais", afirma-se que os professores trabalham menos uma semana do que a média, 37 e 38 respectivamente. Conclui-se a referência, afirmando que os dias de aula no nosso sistema são menos que a média na OCDE o que, evidentemente, não é da responsabilidade dos professores. Estes dados, assim referidos, são potencialmente geradores de equívocos e podem alimentar discursos ligeiros que são, aliás, vulgares quando se trata de educação.
Tal como ontem afirmei, julgo que seria necessário que a divulgação que me parece relevante, deste tipo de indicadores, fosse acompanhada de uma leitura contextualizada, com interpretações  e discussão que contribuísse para a criação de uma opinião pública mais informada e menos susceptível de discursos enviesados que, como afirmava, contribuem, ainda que não intencionalmente, para a degradação da imagem social dos professores.
Num país em que a comunidade desconfia, emite juízos de valor errados e desinformados sobre os professores dos seus filhos, a saúde, a qualidade, da educação, estará sempre em risco.

Quarta-feira, 14 de Março de 2012

OS PROFESSORES, ESSA MALANDRAGEM A QUEM ENTREGAMOS OS NOSSOS FILHOS

No Público pode ler-se que os professores têm "salário mais alto que os trabalhadores com a mesma qualificação". O título, aliás estranho, pois compara professores com trabalhadores, donde deve entender-se que os professores têm uma espécie de ocupação de tempos livres bem remunerada, decorre de um estudo da OCDE Preparing Teachers and Developing School Leaders for the 21st Century, que toma como valor comparativo um profissional com 15 anos de carreira.
Este estudo recupera dados do Relatório Education at a Glance de 2011, que já na altura mereceu algumas notas. Vejamos algumas breves reflexões.
Em primeiro lugar, não se consideram outros aspectos extremamente significativos inerentes à profissão professor. A título de exemplo, muitos milhares de professores têm muitos anos de serviço e não integram os quadros do MEC pelo que a sua condição de contratado se repercute nas remunerações e na ameaçadora situação de "descartável" ou ainda muitos outros que têm horários incompletos que os obrigam, por vezes, a pagar para trabalhar.
Seria necessário que o estudo analisasse quantos professores portugueses estão em cada escalão da carreira e não se usasse apenas como referência um professor do quadro com 15 anos. Os escalões iniciais têm níveis de remuneração muito baixos pelo que se tudo fosse considerado os resultados não seriam da mesma natureza. Lembro-me do gasto exemplo de que se considerarmos duas pessoas, uma das quais comeu dois frangos, a média dará o consumo de um frango por pessoa.
Não é este o espaço nem a forma ajustada para um tratamento adequado da questão, mas a informação que se reclama de referência não pode ser "preguiçosa", por assim dizer, e lançar informação avulsa que vai ao encontro de algo que frequentemente aqui abordo, os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso do ME, algum do discurso produzido pelos próprios representantes dos professores, o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, e uma imprensa mal preparada na abordagem a muitas matérias e com agendas que nem sempre são claras.
Estes ataques, intencionais ou não, sublinho, têm contribuído para uma desvalorização significativa da imagem social dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, designadamente de alunos e pais.
Esta desvalorização é um sério contributo para muitos dos problemas, designadamente ao nível da autoridade percebida nos professores, que afectam o nosso sistema educativo.
Devo, no entanto, reconhecer que "bater" nos professores, essa malandragem a quem entregamos os nossos filhos, resulta sempre, vende bem.

CARTÃO AMARELO

Como era esperado, dado o nosso ordenamento constitucional, a iniciativa que creio inédita de, sob a forma de petição dirigida à Assembleia da República, se exigir a demissão do Presidente da República, foi rejeitada. Apesar disso e como referi na altura, a petição tem algum significado para além do número, 40 000 assinaturas.
Em primeiro lugar, creio que a emergência de movimentos cívicos ou de opinião fora do enquadramento partidário é, por princípio, positiva. Na verdade, nas últimas décadas em Portugal construiu-se uma partidocracia que tem conseguido, salvo raras excepções, capturar a participação e envolvimento cívico dos cidadãos. Provavelmente, este cenário é uma das razões para o fortíssimo e progressivo afastamento de muitos de nós de formas de participação e envolvimento cívicos mais activos.
Por outro lado, importa sublinhar que esta iniciativa decorre sobretudo como reacção a algumas intervenções públicas do Presidente, sobretudo quando abordou aspectos relacionados com as suas pensões e a insuficiência de rendimentos face a despesas.
Algumas vozes referiram declarações "infelizes" o que me parece uma fraca explicação. O Presidente da República não tem intervenções "infelizes", não porque detenha o inexistente dom da infalibilidade, mas porque o peso e o impacto das suas declarações não se compadecem com a incompetência e insensibilidade que, não é raro, caracterizam as intervenções de Cavaco Silva que, além disso, reclama sistematicamente uma superioridade moral e estatuto ético exemplares o que, evidentemente não é assim tão linear se atentarmos à carreira política e situações em que tem sido envolvido e nem sempre claramente explicadas como o episódio das escutas em Belém, património imobiliário, acções e relações com a SLN/BPN, etc. culminando na estranha catilinária contra José Sócrates no prefácio do seu livro Roteiros VI que até parte da sua gente, como se diz na política à portuguesa, se manifestou surpresa e desagradada.
Nesta perspectiva, a petição, apesar de rejeitada, deve ser lida como sinal de indignação face a este tipo de comportamento e também um sinal de que pode ser possível uma maior exigência social sobre os comportamentos dos políticos que, de uma forma geral, têm um estatuto de impunidade, nos discursos e nos comportamentos.

SOMOS PARCEIROS. Pagas os prejuízos, eu recebo os lucros

O Secretário de Estado das Obras públicas afirmou no Parlamento que no acordo entre o Estado e a Lusoponte e a Mota-Engil, o Estado assume os custos com a variação de impostos. Creio que ninguém ficará surpreendido, lamentavelmente.
No final de ano passado, um relatório da Direcção-Geral do Tesouro e Finanças sobre as famosas Parcerias Público Privado, os encargos líquidos do estado, dos contribuintes, ascendem a qualquer coisa como 15,1 mil milhões de euros, uma ninharia que representa 8,8 % do PIB previsto para 2012.
Este conceito de PPP sempre me lembra a história da formiga que em amena cavaqueira passeava com o seu amigo elefante na savana africana e quando olhou para trás exclamou para o companheiro paquiderme, “Já viste a poeira que nós estamos a levantar”. Pois é, as PPPs são também uma estranha e assimétrica parceria, um parceiro assume os encargos e o outro parceiro recebe os lucros.
O que parece mais embaraçoso é que esta assimetria inaceitável entre quem se assume como “parceiro” tem vindo a ser sucessivamente denunciada mesmo de dentro do estado. Apesar disso, sucessivos governos têm apostado de forma despudorada, irresponsável e delinquente do ponto de vista ético, para ser simpático, no estabelecimento e fortalecimento destas Parcerias, contemplando empresas e grupos “amigos” com verdadeiros brindes à custa do erário público e dando um enorme contributo para a situação financeira que actualmente vivemos.
Mais grave, é continuar a assistir à defesa destes comportamentos, à impunidade dos responsáveis e ao aumento dos custos que esta ruinosa e irresponsável política envolve.
E não acontece nada.
É o Portugal dos Pequeninos.

A FORMAÇÃO NÃO É UM LUXO, É UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE

O Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas aprovou uma recomendação no sentido de que as instituições de ensino superior possam aumentar em 30 € o valor anual das propinas com o objectivo de apoiar estudantes em dificuldades.
As dificuldades pelas quais passam muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado, são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Há poucos dias foi divulgado um estudo da Universidade do Porto, segundo o qual, quase um quarto dos seus alunos abandona o curso durante os três primeiros anos. Os números dos diferentes cursos têm variações acima ou abaixo do valor médio, mas são muito elevados. Embora existam outros factores contributivos, as dificuldades económicas parecem constituir a razão fundamental para esta enorme taxa de abandono.
Face a este quadro, recordo um trabalho recente realizado pelo Público junto de um grupo significativo de estabelecimentos de ensino superior, em que se constatou que, face a igual período do ano passado, aumentou 6% o número de desistências do ensino superior por efeitos da crise. Esta percentagem corresponde a cerca de 3300 estudantes o que é significativo. As dificuldades económicas, a dificuldade no acesso a bolsas e o aumento de propinas são os motivos identificados. Na linha do que já aqui tenho referido, alguma notas.
Desde o início tenho afirmado que o processo de reforma no ensino superior mais conhecido pela "Reforma de Bolonha" radicou mais em questões económicas que de natureza científica, curricular ou de mobilidade envolvendo estudantes e professores. O encurtamento do chamado grau de licenciatura para três anos e a criação do 2º ciclo, o grau de mestrado, possibilitou que na grande maioria dos cursos passassem a ser as propinas dos alunos a financiar o 2º ciclo que em muitas instituições tem custos significativos, entrando num cenário a que alguns chamam o funcionamento do mercado.
Seria ingenuidade excessiva não perceber que as leis do mercado, sempre o mercado, teriam de chegar também ao ensino superior público e também entendo que compete a estudantes e famílias uma parte importante no investimento na formação e qualificação profissional.
No entanto, conhecendo o tecido social e cultural português, longe obviamente dos modelos americanos que alguns defendem, temo que esta entrega às leis do mercado e às capacidades das famílias, alimentem algo que é, ainda, uma característica do sistema educativo português e que os relatórios internacionais reconhecem, o baixo impacto da educação na mobilidade social. Dito de outra maneira, os indivíduos com origem em grupos sociais mais favorecidos são os que tendencialmente obtêm melhores níveis de qualificação e repete-se o ciclo. Neste quadro, a redução significativa das bolsas e apoios, as dificuldades enormes que muitas famílias atravessam e o desemprego mais elevado entre os jovens, que poderia constituir uma pressão para continuar os estudos, a que acrescem as elevadas propinas, designadamente no 2º ciclo, tornam ainda mais difícil a realização de percursos escolares que promovam mobilidade social e que se traduz, por exemplo, no aumento das desistências.
Quando se espera e entende que a minimização das assimetrias possa, também, depender da educação e qualificação, o seu preço  e as dificuldades actuais, longe de as combater, alimenta-as.
É preocupante.

A LAGARTIXA

Um dia destes, nas minhas deambulações desportivas, reparo que na direcção em que me deslocava, estavam duas figuras de aparente baixa estatura que, quase deitados no chão, espreitavam para o meio das pedras que ladeavam a vereda.
Quando passei por eles, a minha baixa velocidade de corrida permitiu-me captar algumas frases.
João, ela escondeu-se neste buraco, vamos ver se a topamos.
Pois foi Avô, a lagartixa fugiu para aí. És capaz de a apanhar?
Vou ver se consigo, mas é só para a vermos e depois fica aqui em casa, nas pedras.
Pois é, é só para a gente  ver e depois fica aí. Tinha umas cores mesmo fixes.
E lá ficaram a tentar apanhar a lagartixa que devia estar em pânico.
É curioso. Os velhos quando brincam com os miúdos e os miúdos quando brincam com os velhos, os avós, ficam parecidos. E felizes.

Terça-feira, 13 de Março de 2012

E É ESCREVER ASSIM DESACORDADAMENTE ...

Felizmente que a questão do Acordo Ortográfico permanece viva e enquanto assim for continuarei a afirmar a minha discordância.
Depois da agitação decorrente da decisão de Vasco Graça Moura de suspender a sua utilização no CCB, surgiu a notícia sobre a ausência de posição institucional da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e posteriormente o muito significativo editorial do Jornal de Angola com a expressão de uma opinião francamente desfavorável ao Acordo Ortográfico. Ainda bem.
Entretanto têm vindo a suceder-se iniciativas e tomadas de posição no sentido de tentar até ao limite contrariar a sua implantação, relembro que Angola e Moçambique ainda não o subscreveram, sendo, creio, pouco provável que após a posição expressa no Jornal de Angola, muito próximo do governo, as autoridades de Luanda o venham a fazer.
Ainda bem, torno a escrever.
Hoje noticia-se a decisão de um juiz de Viana do Castelo de não aplicar o Acordo Ortográfico nos textos produzidos no Tribunal. Como seria de esperar, o juiz fundamenta a sua decisão.
Neste quadro, enquanto a questão não estiver definitivamente encerrada retomo, e retomarei, a minha breve e não técnica reflexão sobre o que me parece estar em causa e expresso teimosamente o meu profundo desacordo com o Acordo.
Do que tenho lido e ouvido, nada me tem convencido da sua bondade ou necessidade. Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. Neste cenário, é clara a necessidade de ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma. Já estou cansado do argumento da “pharmácia” quando se pode verificar que em todos os países, e são muitos, em que o termo tem a mesma raiz, a grafia é com “ph” e nada de muito grave acontece. A introdução ou mudança na grafia tem acontecido em todas as latitudes e não tem sido necessário um Acordo com os conteúdos bizarros, alguns, que este contém.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. De facto não tenho conhecimento da perturbação e do drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual, longe disso, temos regularmente exemplos disso mesmo, e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Não é grave, errar é humano.
No entanto, como toda gente, não gosto de errar, pelo que preferia continuar a escrever desacordadamente.

ESTAS CRIANÇAS NÃO PARAM. Não, estas crianças não se mexem

“Estas crianças não param”, é uma das mais frequentes afirmações dirigidas ao comportamento das crianças. Na verdade, apesar da frequência da sua utilização, parece-me desajustada pois, de facto, as crianças não se mexem.
No Público pode ver-se a referência a um estudo que envolveu mais de 20 000 crianças e adolescentes de diferentes países, incluindo Portugal, e que evidencia, sem surpresa, o impacto positivo da actividade física na saúde dos mais jovens. O estudo reforça, naturalmente, o risco do sedentarismo.
Dados que têm sido divulgados pelo Observatório da Actividade Física e do Desporto vão também no sentido sublinhar a preocupação com o sedentarismo das crianças, mas não só. A título de exemplo, recordo que apesar da simpatia do clima somos um dos países com menor prática de actividades de ar livre.
De facto, e retomando o equívoco enunciado no início do texto, tenho para mim que o quotidiano de crianças e adolescentes está excessivamente preenchido com actividades que solicitam pouca actividade física, numa escola a tempo inteiro em que, muitas vezes, passam horas sem fim enfiados em salas com actividades “fantásticas” sempre sentados ou, quase, parados. Em casa, o cenário é do mesmo tipo só que em frente de um ecrã. Os estudos comprovam que o nível de actividade física de crianças e adolescentes está francamente abaixo do desejável para a sua faixa etária sendo, aliás, mais satisfatório em adultos e também baixo para os idosos. Por outro lado, este é o equívoco a que me referia, instalou-se a “ideia” de que as crianças e adolescentes não param, são muito activas, até mesmo hiperactivas” pelo que os desejos de muitos pais e professores é que estejam mais “calmas”, mais “sossegadas” e não tão “activas”, às vezes até se medicam para que se aquietem.
É exactamente o contrário, dados apresentados no XIV Congresso Português de Obesidade, referem que 22.6 % das crianças dos 10 ao 18 anos estão em situação de pré-obesidade e 7.8 % já são obesos, para além da óbvia menor qualidade de vida que níveis baixos de actividade provocam.
Por isso e de uma vez por todas, que crianças e adolescentes não parem, que as não enfiem em salas de aulas 8 a dez horas por dia e que se ajude os pais e as comunidades a construir alternativas que sejam atractivas para os tempos dos mais novos. É uma questão de saúde, física e mental, para crianças e adolescentes e, também, para os adultos que lidam com eles.

POR RAZÕES PESSOAIS E FAMILIARES

O Secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes, abandonou as suas funções por razões de ordem pessoal e familiar. Certo, está nos manuais da acção política actual que esta deve ser a fórmula usada para justificar … tudo.
Claro que em nome da transparência, da saúde da democracia que tão em baixo anda, da ética na acção cívica poderia ser interessante saber quais os verdadeiros motivos das alterações.
No caso do Secretário de Estado da Energia, era conhecida publicamente a intenção de alterar os subsídios pagos à indústria eléctrica, nomeadamente às empresas de energia eólica sendo a EDP particularmente afectada. Também é conhecido que Henrique Gomes criticava o que considerava serem as “rendas excessivas” pagas às empresas, especialmente à EDP e planeava, ao que se sabe, a renegociação de um terço dos subsídios e tarifas fixas a pagar este ano, o equivalente a cerca de 600 milhões de euros.
Este cenário permite, sem grande margem de erro identificar as razões pessoais e familiares que motivam o seu abandono.
A situação não é nova e, provavelmente, não será a última com estes contornos. O que embaraça é que tudo isto continue a acontecer sem qualquer espécie de sobressalto no Portugal dos Pequeninos.
Devo também confessar que me incomoda o facto de acharem que nós não merecemos informação transparente e séria sobre o que a todos nos diz respeito, o nosso papel é ignorar e pagar, custe o que custar. Por razões pessoais, irrita-me, estou cansado, e familiares, fico aflito para ajudar os miúdos da família a construir valores ajustados, exijo que as coisas sejam diferentes.

A VIRTUDE REPOSTA

O curioso episódio curioso do comandante da Polícia Municipal de Coimbra que, por lapso prontamente assumido com um pedido de desculpas, enviou um mail de felicidades para 2012 incluindo os votos de "sexo incrível" para os destinatários sendo, evidentemente, um "fait divers" acaba por também nos mostrar uma faceta curiosa da nossa vida cívica, alguma hipocrisia nos discursos e comportamentos.
O responsável da Polícia Municipal foi punido com a cessação da comissão de serviço e multa. Em consequência, as consciências sobressaltadas com o pecado do comandante aquietar-se-ão, a moral sossega e a vida continua.
Mantendo-nos no âmbito da vida autárquica talvez fosse interessante e desejável o mesmo nível de preocupação com a dívida imensa e a desregulação em que vive muito do mundo autárquico. O Dr. Paulo Morais, ex-vereador da Câmara do Porto tem vindo a mostrar como se desenvolve a prática habitual em muitas autarquias no que respeita a negócios imobiliários.
Sabe-se também como as autarquias e as empresas municipais, na maioria ineficazes e fonte de enormes prejuízos, são frequentemente privilegiadas extensões dos aparelhos partidários e pagamento de fidelidades, transformando-se em sorvedouros de dinheiro sem que sirvam de forma eficaz o bem comum, justificação primeira e última da sua existência.
Conhece-se e reconhece-se a teia de interesses pessoais e muitas situações, sobejamente conhecidas umas, e localmente comentadas outras, de enriquecimento sem justificação aparente de muitos autarcas ou a colocação de familiares ou "amigos" em lugares remunerados. Os casos comprovados em tribunal são residuais e mais habitualmente nada acontece como muitas vezes tem sido denunciado por algumas vozes.
Neste cenário, a condenação do comandante da Polícia Municipal de Coimbra, porque, por lapso mandou o mail errado, é um fingimento hipócrita. Para além disso, os votos do comandante para 2012 poderiam ser uma ajuda no combate ao inverno demográfico que atravessamos.

TRABALHO A PRÉMIO

Umas das expressões com que mais convivia nos meus tempos de miúdo na casa familiar era o "prémio". Já vos tenho dito, o meu pai foi serralheiro nos estaleiros do Arsenal do Alfeite. Em algumas alturas ele chegava contente a casa e dizia que ia começar um trabalho a prémio. Tanto quanto me lembro aparecia alguma tarefa mais urgente e as chefias decidiam propor a recompensa do trabalho feito em prazos mais curtos do que seria habitual.
O que nos mais deixava mais satisfeitos era que o prémio ia direitinho para as poupanças familiares que permitiam a participação numa excursão a realizar no Verão, quase sempre organizada pelo Sr. Fernando, o sapateiro, que, às vezes, até nos levava ao estrangeiro, a Sevilha ou a Badajoz, viagens longínquas, deve dizer-se, para os nossos horizontes da altura é claro.
Actualmente, a ideia do trabalho a prémio generalizou-se, sofreu mudança de nome, chama-se incentivo ou, de forma mais sofisticada, trabalho por objectivos, tudo isto, é claro, em nome da produtividade exigida pelo deus mercado.
De tal forma se generalizou, que chegou aos mais miúdos que cada vez mais são pressionados para a produção e ao nível da excelência. Esta excelência que é exigida é extensiva a todas as áreas em que os miúdos se envolvem, têm de ser excelentes a tudo.
Tal como se verificava com o meu pai, em muitas situações esta pressão sobre os miúdos é "envolvida" em incentivos que assumem valores e número diferentes, podem ser quase diários ou mais diferidos no tempo, mas muitos pais estão a começar agora o plano de incentivos, prémios, uma vez que o ano escolar está a aproximar-se da sua fase crítica, a das grandes decisões.
Todos conhecemos as promessas enunciadas  que vão do prémio grande no resultado final até ao pagamento em géneros ou espécie por comportamentos ou resultados escolares atribuídos com muita regularidade.
Também sabemos como muitos miúdos são bons negociadores e conseguem excelentes contrapartidas, prémios, incentivos o que lhes quisermos chamar e, como os meus pais, arranjam uns extras para acederem aos sonhos que outros preocupados com a produtividade lhes impingem.
No fundo, estamos todos a prémio, cada vez mais.

Segunda-feira, 12 de Março de 2012

A PROCISSÃO ÀS ARRECUAS

Hoje, D. Vitalino Dantas, bispo de Beja, em nota à imprensa lamentou a aparente falta de orações dos crentes para pedir chuva a Deus para combater o período de seca. Acrescentou que “a maioria” da população só acredita “na providência de Bruxelas”.
Na verdade, no Meu Alentejo existe a tradição de em anos de seca pedir à Senhora D'Aires os seus bons ofícios para que os céus enviem a água do sustento.
Lembro-me de que há uns anos, depois de um período prolongado de seca que levou à organização da procissão à Senhora d'Aires, a chuva ter aparecido em quantidade. O Mestre Marrafa, homem de fé, dizia-me com os olhos pequenos a brilhar, "ainda temos que ir fazer a procissão às arrecuas para parar a água".
A Ministra da Agricultura também já expressou a sua fé em que a chuva virá. À cautela já vai falando em interceder junto dos pequenos deuses caseiros, os homens de Bruxelas, que nos infernizam a vida e servem o deus mercado.
Como já escrevi, os campos do Meu Alentejo vão tristes de secura. Mas a chuva virá, ainda iremos precisar da procissão às arrecuas.

ABANDONO ESCOLAR IGUAL A EXCLUSÃO SOCIAL

No Público de hoje referem-se as enormes dificuldades sentidas nas escolas para manterem em funcionamento os grupos de alunos envolvidos no Programa para a Inclusão e Cidadania (PIEC) uma pareceria entre o Ministério da Educação, o Instituto de Segurança Social e o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). Este programa visa combater o abando no escolar sobre o qual se justifica algumas notas
Considerando dados da União Europeia relativamente ao abando no escolar, sendo certo que em Portugal diminuiu a taxa de abandono, temos que em 2009 a média da UE a 27 era de 14.4 % e em Portugal 31.2 %. Segundo o INE, em 2010 o abandono continuou a cair mas é ainda de 28,7 %, ou seja, o dobro da média em europeia. Tal indicador vem mostrar o que sempre afirmo, não somos um país de “doutores”, ideia falsa vendida até à exaustão por uma opinião publicada ignorante e apoiada em alguma comunicação social mais negligente.
Como muito frequentemente afirmo, o abandono escolar é frequentemente a primeira etapa da exclusão social. Nesta perspectiva, o combate ao abandono deve, tem de, ser um eixo central na política educativa. A eficácia nesta tentativa de baixar os níveis de abandono passa necessariamente pela diversificação dos percursos de educação e formação, o que habitualmente se designa por oferta educativa.
Deve sublinhar-se que têm sido realizados progressos bastante significativos na diversificação desta oferta embora, muitas vezes, as alternativas disponibilizadas sejam percebidas pelos alunos e pelas famílias como “formação de segunda”. Algumas escolas têm práticas que alimentam esta percepção, na medida em que canalizam preferencialmente os “maus alunos” para formação “alternativa”.
Na verdade, o que é absolutamente central é que os jovens ao sair do sistema se encontrem equipados com qualificação profissional, quer ao nível do ensino secundário, quer ao nível do ensino superior, que com o trabalho no âmbito do ensino politécnico tem condições para processos de qualificação mais curtos e mais diversificados.
Neste contexto, parece essencial que sejam acauteladas as iniciativas que combatam o abandono desde que, evidentemente, a sua avaliação revele a qualidade necessária e não mais um fonte de desperdício ou um programa inócuo para cumprir estatísticas.

DESAFIAR A SORTE NOUTRAS PARAGENS

O Público apresenta um trabalho sobre o que chama a "emigração parva", ou seja, a partida de pessoas ou de famílias para países que desconhecem, com uma língua que desconhecem, muitas vezes envolvidos em processos não devidamente acautelados em matéria de segurança, condições de vida e trabalho, acabando expostos a situações de risco e vulnerabilidade.
Há algum tempo o Sindicato da Construção de Portugal alertava para a existência de "redes mafiosas" que contratam trabalhadores portugueses para trabalho no estrangeiro onde são sujeitos a condições de trabalho que configuram escravatura. Numa altura e que, por razões óbvias aumentam os fluxos de emigração esta questão é importante. Sublinha-se ainda que entre os países referidos no alerta do sindicato se incluem França, Alemanha e Inglaterra.
É também conhecida a recorrente situação de trabalhadores portugueses explorados como escravos em trabalho agrícola realizado em Espanha.
A exploração e o tráfico de pessoas, um dos mais florescentes e rentáveis negócios em termos mundiais, alimenta-se da vulnerabilidade social, da pobreza e da exclusão o que, como sempre, recoloca a imperiosa necessidade de repensar modelos de desenvolvimento económico que promovam, de facto, o combate à pobreza e, caso evidente em Portugal, às escandalosas assimetrias na distribuição da riqueza.
As circunstâncias que atravessamos potenciam o risco e a vulnerabilidade, aliás, há poucos dias referia-se na imprensa o aumento da prostituição envolvendo mulheres em extrema dificuldade para assegurar meios de subsistência familiar.
As pessoas, muitas pessoas, apenas possuem como bem, a sua própria pessoa e o mercado aproveita tudo, por isso, compra e vende as pessoas dando-lhe a utilidade que as circunstâncias, a idade, e as necessidades de "consumo" exigirem.

POBREZA, FOME E DESPERDÍCIO

No Público pode ler-se (e ouvir-se) uma entrevista com Charles Godfray, da Universidade de Oxford, especialista em questões de alimentação e produção de alimentos que esteve em Lisboa para participar no ciclo de conferências em curso Na Fundação Gulbenkian sobre o futuro da alimentação.
Da entrevista relevam várias matérias a merecerem atenta reflexão, mas queria sublinhar nesta nota breve a referência aos níveis de desperdício em alimentação, curiosamente numa altura em que atravessamos uma profunda crise económica e social.
Há pouco tempo, Parlamento Europeu aprovou um relatório segundo o qual a União Europeia que tem 79 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, 15,8% da população, e desperdiça anualmente cerca de metade do que consome em alimentos. Este desperdício corresponde a 89 mil milhões de toneladas, um número verdadeiramente assombroso. O Parlamento Europeu estabelece como objectivo para a Comissão reduzir em 50% o desperdício até 2025.
Relembro que 2010 foi o Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão e o resultado está à vista, 79 milhões de pobres, cerca de 2,7 milhões em Portugal. Parece-me também oportuno recordar que recentemente também a Comissão Europeia publicou um relatório mostrando como as medidas de austeridade em Portugal estão a agravar as assimetrias sociais e, de forma extraordinária, o Primeiro-ministro já avisou que o caminho é o empobrecimento.
Quando tanto se fala de produtividade, em nome da qual, se ameaça a dignidade das pessoas e se lhes piora as condições de vida talvez fosse altura de também nos centrarmos no desperdício e nos seus efeitos devastadores.
Neste quadro releva a necessidade urgente de ponderar os modelos de desenvolvimento económico e social, combater desperdícios consequência desses modelos, diminuir efectivamente o fosso intolerável entre os mais ricos e mas pobres, caminhar no sentido da construção de uma dimensão ética que seja reguladora da atribuição de privilégios incompreensíveis e obscenos para poucos e tolerância face a situações de exclusão extrema para bastantes outros.
A totalidade da entrevista de Charles Godfray é um alerta muitíssimo relevante para a esta necessidade de repensar os modelos de desenvolvimento e a cultura em matéria de produção e consumo de produtos alimentares.
Provavelmente, escrever sobre estas questões em espaços desta natureza tem alcance zero, mas continuo convencido que é fundamental não deixar cair a preocupação, talvez seja melhor chamar-lhe a indignação, com a pobreza e exclusão para as quais os níveis inaceitáveis de desperdício dão um forte contributo.

O QUE SE PASSA NA SALA DE AULA

Num destes dias lá a escola a Professora Sónia, ainda nos primeiros anos de profissão, cruzou-se com o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros.
Olá Sónia, tudo bem?
Olá Velho, é como se costuma dizer, tem dias. E hoje tem ido cansativo, esta turma de agora então ... são mesmo irrequietos, é preciso estar sempre a chamar-lhes a atenção. Já no fim da aula ainda tive um episódio com o Bruno, até o Bruno, que é sempre tão certinho, hoje saiu-se com uma reacção para a Maria que tive de o repreender de forma muito séria, mas perde-se muito tempo com estas coisas.
Tens razão, às vezes acho que gastamos mais tempo a tomar conta dos miúdos que a ensiná-los.
És capaz de ter razão.
Mas olha uma coisa que a experiência me ensinou. É sempre fundamental estar muito atento ao que se passa na sala, os miúdos devem estar cientes de que tomamos atenção a "tudo" o que se passa. No entanto, temos de aprender que não precisamos de "ver" e de "ouvir" tudo. Por vezes acontecem coisas que não precisamos de "ver" e "ouvir" e outras que não podemos mesmo deixar de "ouvir" e "ver". Não te sei dizer quais, mas se estiveres atenta, pensares no que vai acontecendo e nas diferenças entre os miúdos, se conversares com os colegas sobre o trabalho, vais descobrir com perceber a diferença. Os bons professores conseguem mais facilmente perceber isso.
Então Velho, vai demorar muito tempo até eu conseguir.
Não creio Sónia, é já na próxima aula.

Domingo, 11 de Março de 2012

AINDA À RASCA, MAS MAIS GENTE

A propósito do dia 12 de março de 2011 e na altura escrevi estas notas. "Do meu ponto de vista, as grandes questões colocadas na manifestação, a precariedade e o desemprego de uma geração que é a mais qualificada de sempre, dificilmente serão significativamente alteradas sem algo de estruturalmente diferente em matéria de organização do trabalho, refrescamento da organização política e alterações culturais e éticas entre as elites políticas, culturais e económicas. O problema é que, entre os que em Portugal plausivelmente podem ascender ao poder nos tempos mais próximos, não se vislumbra projectos e visões que alterem significativamente o quadro instalado, são, diria, mais do mesmo. Políticas de flexibilização do trabalho, protecção ao sistema financeiro, endeusamento de um mercado que é amoral e não ético, esvaziamento do estado social, etc., são as receitas que se conhecem por parte de quem se assume como alternativa, portanto, nada de diferente do que neste momento acontece.
Neste cenário podem estabelecer-se duas perspectivas de continuação a curto e médio prazo. Uma primeira hipótese aceitando que o movimento que ontem emergiu ganha uma dinâmica suficientemente forte continua a escapar à tentativa de controlo por parte dos aparelhos partidários e consegue potenciar e agregar mais zonas e franjas de descontentamento criando uma pressão incomportável para o sistema que o obrigaria a alterações significativas, uma espécie de arabização de brandos costumes. Nesta primeira hipótese importa ainda considerar as reacções no quadro da União Europeia. Uma segunda hipótese aceitando que o movimento, nesta fase disperso, pouco estruturado, acabe engolido pelos meandros da partidocracia tendo representado apenas um sobressalto inconsequente.
A manifestação de 12 de Março de 2011 mostrou, entre outras coisas, que existe clima e disponibilidade para o envolvimento e participação cívica e política dos cidadãos de diferentes gerações fora do quadro partidário. Durante a preparação da manifestação e nos dias seguintes assistimos a algumas intervenções oriundas das esferas partidárias que, de forma mais ou menos explícita, procuravam “apanhar boleia” neste movimento com a óbvia intenção de o capturarem e manter sob controlo. Pode acontecer o movimento agora iniciado venha a constituir-se um instrumento fundamental de mudança pois, se suscitar níveis de envolvimento e mobilização significativos, obrigará a uma reflexão profunda dos partidos e da sua praxis.
Neste cenário pode acontecer que, ou os partidos promovem mudanças e modernizam organização, práticas e valores e continuam como pilares fundamentais da vida democrática associados a outras formas de organização cívica, ou continuam a fechar-se sobre si próprios e os respectivos aparelhos, vivendo de grupo do fiéis que face ao abstencionismo progressivo vão mantendo o poder, ainda que rotativo, até que entrem e implosão ou até que movimentos sociais de natureza mais radical e reactiva às formas de poder imponham mudanças.
No fundo, trata-se de perceber se a nossa democracia evoluirá com os partidos, apesar dos partidos ou, perigosamente, contra os partidos."
Um ano depois, confirmada a mudança de governo e a emergência de um quadro de enormes dificuldades e pobreza, com mais desigualdade, temos mais gente à rasca e os motivos da indignação crescem.

O IRRESPONSÁVEL DESPERDÍCIO

O que tem vindo a lume sobre a gestão da Parque Escolar, no âmbito de um processo que de início merecia absoluta concordância e correspondia à necessidade de modernização do parque escolar, em algumas situações inaceitavelmente degradado, é apenas mais um excelente exemplo do irresponsável desperdício de dinheiros públicos.
A verificada derrapagem nas contas, que se não estranha em Portugal, os custos excessivos em pessoal, são apenas e lamentavelmente a "rotina" das obras geridas por capitais públicos.
No caso particular da recuperação e modernização de edifícios escolares, a avaliação do que tem estado a ser feito mostra algo que muitas pessoas que conhecem as escolas tinham como claro, o desajustamento de algumas soluções técnicas, o novo-riquismo saloio de alguns equipamentos e materiais, o custo exorbitante de manutenção que as soluções adoptadas implicariam, etc.
Sublinho que a recuperação do parque escolar e o equipamento moderno das escolas é uma exigência no sentido de dotar alunos, professores e funcionário de condições de trabalho que sustentem a qualidade que todos desejamos, não é um privilégio que se concede à comunidade escolar.
Mais uma vez, para não variar, vejamos qual o nível de responsabilidade atribuída e cobrada aos gestores responsáveis pelo irresponsável desperdício de todo o processo.
Uma consequência óbvia e que já está a sentir-se é que devido à incompetente gestão e consequente falta de fundos, foram suspensas obras em curso em muitas escolas bem como projectos de recuperação absolutamente necessários.
Não é que estranhe o nada que acontece ou espere que agora seja diferente, mas a impunidade de quem de forma irresponsável e incompetente gere dinheiros públicos sempre me inquieta e revolta.

Sábado, 10 de Março de 2012

O MÁRTIR MÁRIO CRESPO

O mítico Mário Crespo não se conforma, as saudades dos Estados Unidos atormentam-no e não há governo que o mande para lá. Ele bem se agita, se insinua de acordo com a agenda e com os ventos, mas nada.
Zanga-se e depois atira contra tudo o que mexe.
Agora desanca o Expresso, jornal em que escreve, por causa da discussão entre Sousa Tavares e Luís Marinho da RDP sobre alegadas atitudes de censura.
O Expresso não gostou, diz que o Mário se esticou com erros e falsidades e dispensa-o de escrever mais umas crónicas em mais um episódio de “dispensa de cronista” a que nos vamos habituando.
Cala-se assim o Mário. Não é bonito o Expresso calar o Mário, é certo que nas mais das vezes o Mário não se pode ouvir. Ele gosta, é evidente.
Deixem Mário Crespo ir para os Estados Unidos, deixem o Mário Crespo emigrar e ser feliz.
Assim, é uma alma atormentada e silenciada.

ESTE PAÍS TEM QUE SER PARA VELHOS

Conforme intenção já há algum tempo anunciada, o Ministério da Solidariedade e Segurança Social irá promover "moderação" nas exigências e requisitos aplicados aos equipamentos sociais. Hoje noticia-se que, no que respeita a lares para idosos, os equipamentos poderão receber até 120 utentes e elimina-se a exigência de que os quartos sejam apenas individuais ou duplos. Não conhecendo a lei na sua totalidade, não sei se contempla a possibilidade também referida na altura de aceitar quartos triplos. Esperamos que não exista a tentação de instituir o modelo camarata.
Considerando a capacidade instalada, estas medidas poderão aumentar em 10 000 vagas, 20%, o volume da resposta.
Para quem lida com as respostas sociais em várias áreas, é claro que algumas exigências e requisitos legais são claramente desajustadas e não contribuem para a qualidade do serviço prestado, mas para o custo desse serviço sem que os eventuais benefícios justifiquem esses custos. Por outro lado, sabe-se da existência de listas de espera em muitas instituições. O aumento da oferta contribui também para combater a oferta clandestina.
Há poucas semanas o Público apresentou um extenso trabalho sobre um dos mais rentáveis nichos de mercado da economia paralela, os lares ilegais para idosos. Segundo dados da ALI - Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos, existem 1863 lares licenciados, cerca de 1000 em situação ilegal alimentando um mercado que valerá perto dos 40 milhões de euros. É ainda de considerar que teremos perto de um milhão de portugueses acima dos 75 anos e dado o envelhecimento progressivo, o futuro deste mercado parece assegurado. Aliás, na peça também se referia a existência de listas de espera significativas.
É pois essencial que a fiscalização e regulação funcionem, assegurando dentro dos padrões razoáveis a qualidade destas instituições.
Este universo, o acolhimento, institucional ou familiar dos velhos é uma questão complexa, como complexa e muitas vezes difícil é viver com a condição de velho. Não é fácil ser velho.
Começam por ser desconsiderados pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis, transforma os velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência. Continua com um sistema de saúde que deixa muitos milhares de velhos dependentes de medicação e apoio, sem médico de família.
Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades e estilos de vida, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução produzindo cada vez mais situações de solidão e isolamento entre os velhos, com consequências que têm feito manchetes, muitos velhos morrem de sozinhismo, de solidão. Estão em extinção as relações de vizinhança e a vivência comunitária, fontes privilegiadas de protecção dos mais velhos.
É certo que existe, felizmente, um pequeno número de idosos que além do apoio familiar, ainda possuem meios que lhes permitem aceder a bens e equipamentos que contribuem para uma desejável e merecida qualidade de vida no fim da sua estrada.
Lamentavelmente, boa parte dos velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice.
Não é um fim bonito para nenhuma narrativa.

O TÓQUIM NÃO VAI GOSTAR

Por proposta da Câmara de Lisboa e da Federação Portuguesa do Táxi, na praça que serve o Aeroporto da Portela só deverão exercer profissionais com boa apresentação e com carros recentes.
Ao que parece a proposta pretende evitar que quem chegue a Lisboa tenha de viajar num chaço a cair de podre e conduzido por um “motorista que não deve ter mangas à cava, chinelos de dedo e calções que deixam as pernas à mostra", nas palavras do Presidente da Federação pois, continua, “há um grupo de pessoas forte que domina aquilo e dá uma má imagem do sector”.
A proposta parece-me absolutamente discutível e, acho mesmo, atentatória dos direitos individuais. O meu amigo taxista, o Tóquim, não vai gostar, ele adora andar a conduzir os turistas com a sua camisolinha do glorioso e no verão as havaianas e calções dão muito jeito pois, como se sabe, Lisboa é uma cidade quente. Já o estou a ver com o palito ao canto da boca a mandar vir com os tótós que estão sempre a pensar como é que “lixam quem trabalha”.
É certo que os turistas poderão a bordo de carros modernos, com ar condicionado e conduzidos pelo Ambrósio, com farda e tudo, conhecer, por exemplo, as esburacadas ruas de Lisboa, passar pela vergonhosa Ribeira das Naus, apreciar a sujeira e a degradação de muitos dos edifícios de Lisboa. Podem ainda usufruir do cheirinho a humanidade que, por exemplo, o Bairro Alto exala nas noites de “movida”, enfim, verão a cidade de Lisboa no seu melhor.
Felizmente que o grande problema é mesmo a apresentação da malta dos táxis.

Sexta-feira, 9 de Março de 2012

IRREQUIETOS, CANSADOS OU COM SONO?

No Público noticia-se um estudo realizado nos EUA acompanhando durante seis anos 11 000 crianças e que encontrou fortes indícios de relação entre perturbações do sono e o desenvolvimento de problemas de natureza diferenciada no comportamento e funcionamento das crianças.
Esta questão, os padrões e hábitos de sono das crianças, é algo de importante que nem sempre parece devidamente considerada. Também entre nós, vários estudos sobre os hábitos e padrões de sono em crianças e adolescentes têm sido desenvolvidos, designadamente pela Professora Teresa Paiva. Citando alguns desses estudos é de referir que mais de metade dos adolescentes inquiridos apresentam quadros de sonolência excessiva e evidenciam hábitos de sono pouco saudáveis. Esta constatação vai no mesmo sentido de outros trabalhos com crianças mais novas. A falta de qualidade do sono e do tempo necessário acaba, naturalmente, por comprometer a qualidade de vida das crianças e adolescentes.
Várias investigações sugerem que parte das alterações verificadas nos padrões e hábito relativos ao sono remetem para questões ligadas a stress familiar e sublinham o aumento das queixas relativas a sonolência e alterações comportamentais durante o dia.
É certo que as situações de stress familiar serão importantes mas parece-me necessário não esquecer alguns aspectos relacionados com os estilos de vida. Durante o dia, as crianças e adolescentes passam boa parte do seu tempo saltitando de actividade para actividade, passam tempos infindos na escola e, muitos deles, são pressionados para resultados de excelência. Segundo alguns estudos, perto de 50% das crianças até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel.
Acontece que durante o período de sono e sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida.
Creio que, com alguma frequência, os comportamentos dos miúdos, sobretudo nos mais novos, que são de uma forma aligeirada remetidos para o saco sem fundo da hiperactividade e problemas de atenção, estarão associados aos seus hábitos e padrões de sono como, aliás, o estudo hoje citado parece sugerir.
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais, eles próprios com níveis baixos de alfabetização informática. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para que a utilização imprescindível e útil seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.

AFINAL ...

Não se admitirão "jobs for the boys".
Afinal, aconteceram as nomeações para a aumentada administração da CGD, em anunciado emagrecimento, e em que está claramente em causa um conflito de interesses em alguns dos novos administradores.
Actuação do estado será transparente. Afinal, o negócio com o BIC sobre o BPN não foi propriamente um modelo de transparência.
“A ser necessário um aumento de impostos incidirá sobre o consumo e não sobre o trabalho”, disse o Primeiro-ministro. Afinal, cerca de metade do subsídio de Natal foi, por assim dizer, cativado pelo Estado e este ano são dois os vencimentos cativados a trabalhadores da administração e pensionistas. E o mais que adiante se verá.
Os gabinetes ministeriais terão de ser exemplos de contenção e austeridade, disse-se. Afinal, aconteceram centenas de nomeações. Em alguns casos, a informação disponibilizada, designadamente no que se refere a vencimentos, mostra situações curiosíssimas com disparidades, no mínimo estranhas.
Acontece ainda que muitas das nomeações são de "especialistas", um processo que mais não passa de uma habilidade para fugir à impossibilidade de contratação por parte dos gabinetes e tem sido condenado pelo Tribunal de Contas. O número de nomeações é da mesma natureza dos governos de Sócrates, Santana Lopes e Durão Barroso.
Afinal, os administradores hospitalares ligados ao PS são substituídos por administradores hospitalares ligados ao PSD e CDS-PP.
Afinal para a Águas de Portugal são nomeados dois autarcas, um do PSD e outro do CDS-PP. Estranhamente o rapaz do PSD, Manuel Frexes, da Câmara do Fundão está em litígio com a AdP por causa de uma enorme dívida.
Afinal, hoje noticia-se que a Sra. Directora da Unidade de Saúde Local da Guarda nomeou para auditor interno desse serviço … o marido, num estranho e eticamente despudorado entendimento do que será apoio à família.
Afinal …
Afinal, lembro-me que nem sequer as moscas, algumas moscas, são muito diferentes.

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR, AOS PROFESSORES O QUE É DOS PROFESSORES

Ao que se lê no Público, a proposta do MEC sobre a gestão das escolas retira do Conselho Pedagógico os representantes de pais, alunos e funcionários, tornando-o, assim, exclusivamente constituído por docentes.
A proposta parece merecer acolhimento dos representantes dos professores, aguardamos outras reacções, sobretudo por parte das estruturas representativas dos pais.
Alguns comentários já presentes on-line expressam a preocupação com o enfraquecimento da “democracia” nas escolas que tal medida pode significar e, creio, que algumas opiniões se ouvirão no mesmo sentido.
A presença, sobretudo de alunos e pais, nos Conselhos Pedagógicos das escolas era, alimentada, do meu ponto de vista por um equívoco estabelecido em torno da ideia fundadora de “gestão democrática das escolas” que sendo um bem implicou, na verdade, alguns equívocos.
As competências genericamente inerentes aos Conselhos Pedagógicos exigem, em muitíssimas dimensões, competências e conhecimentos que, evidentemente, alunos e pais, não têm, nem será de esperar ou exigir que tenham. Neste quadro, a participação destes grupos em alguns processos de tomada de decisão eram, por assim dizer, um fingimento. Por outro lado, em algumas matérias era solicitado e definido que pais e alunos não participassem o que criava situações bizarras e constrangedoras ligas ao, “por favor agora podem sair, para procedermos à discussão deste ponto da OT”. Na qualidade de pai com assento no Conselho Pedagógico passei por situações deste tipo, algo que me parece pouco ajustado.
Acresce que alunos, pais e funcionários têm assento no Conselho Geral cujas competências me parecem solicitar, de facto, a participação e o envolvimento, são aspectos diferentes, dos diferentes grupos de actores da comunidade educativa.
Esta posição não decorre de, ou remete para qualquer entendimento corporativo mas assenta, simplesmente, no entendimento de que gerir, com níveis desejavelmente mais autónomos, o funcionamento pedagógico de uma escola é tarefa dos profissionais, dos profissionais que a escola, os professores entendam melhor preparados para tal função.
No entanto, é evidente, que o seu desempenho será tanto mais eficaz quanto mais se articule com o trabalho dos pais e com a atenção aos alunos assente em dispositivos de cooperação e diálogo regular, consistente e responsável.
Uma nota final para sublinhar a importância, também na actividade de gestão pedagógica, da existência de processos de avaliação e regulação adequados, sérios e com consequências, não necessariamente punitivas, mas reguladoras da organização, funcionamento e procedimentos.

OS INTERESSES DE OCASIÃO

O Presidente da República no livro Roteiros VI, ao que parece comemorativo(!) do seu primeiro mandato, desencadeia um profundo ataque a José Sócrates que acusa de lhe esconder a situação do país, de deslealdade política, usando uma linguagem particularmente dura e pouco habitual em livros sobre acontecimentos tão recentes.
Cavaco Silva está a atravessar do ponto de vista político o que será provavelmente a pior fase da sua carreira. Passou por uma série de episódios nebulosos e mal explicados, escutas em Belém, património imobiliário, acções e relações com o BPN, etc., culminando com declaração sobre as pensões que motivou uma inédita petição dirigida ao Parlamento solicitando a demissão do Presidente.
Acontece que Cavaco Silva desde sempre tem procurado assumir com uma soberba indisfarçável uma superioridade moral e estatuto ético exemplares que, evidentemente, lhe não assenta, de todo.
Neste quadro, o lançamento do livro com este discurso, no meio de uma profunda crise económica e social, não passa de mais um exemplo de definição de um "inimigo diabolizado” que branqueia falta de qualidade própria. Estas notas não pressupõem o esquecimento das responsabilidades de José Sócrates, mas não é essa a questão em cima da mesa.
O Presidente da República, cuja mediocridade política é pouco referida devido a uma reverencial aceitação da falsa imagem de homem íntegro, austero, infalível e acima dos famosos interesses de ocasião mostra, de novo, como lhes é sensível.
O insuspeito Carlos Abreu Amorim, deputado do PSD, tem razão, Cavaco Silva quando está calado … acerta.