sábado, 7 de dezembro de 2019

O ESTADO DE SAÚDE DA CHAMADA EDUCAÇÃO INCLUSIVA.


Não, o título não indica um regresso a uma visão clínica, é apenas um indicador de preocupação.
O Público divulga os resultados de um inquérito realizado pela Federação Nacional de Educação (FNE) relativamente à aplicação do tal decreto, esse mesmo, o 54, o do novo regime jurídico da educação inclusiva
Com base na resposta de 615 docentes e 70 direcções de escolas e agrupamentos surgem alguns indicadores, 60% dos professores afirmam que “não se sentem preparados para esclarecer os encarregados de educação sobre as dúvidas acerca da aplicação do diploma”, em linha com o facto de que 52% dos professores afirmam que eles próprios “não compreendem as definições das novas nomenclaturas do diploma”, cerca de 58% dos inquiridos “afirmam não compreender ou ter dificuldades na compreensão deste princípio” (a abordagem multinível) ou que 91% entende “que o tempo necessário para que as escolas aplicassem o novo diploma não foi suficiente”.
Relativamente às direcções, cerca de 30% diz que as suas escolas e agrupamentos não estão a aplicar o diploma, 83,91% expressa dúvidas ou dificuldades na operacionalização do normativo e 61,39% considera não ter tido apoio no processo de aplicação.
A apreciação global é, de resto, crítica não só no processo como também sublinha o impacto negativo no apoio prestado aos alunos.
A natureza e características deste trabalho requer alguma prudência na sua análise embora os indicadores sejam de considerar seriamente. Aliás, vão no mesmo sentido de muito do que aqui tenho escrito e defendido publicamente sobre este universo.
Assim sendo, recupero notas que, lamentavelmente, são actuais e ganham mais sentido.
A alteração do quadro legal anterior (DL 3/2008) era necessária desde o seu início. Também em relação ao 54/2018 entendi que continua uma “tradição" que não me parece adequada, um normativo não tem que integrar doutrina científica ou modelos mas, fundamentalmente, princípios, orientações, definição de recursos e dispositivos de regulação. Recordo que estamos falar de um “regime jurídico”.
Também sabemos que os processos de mudança estão sujeitos a dúvidas e sobressaltos pelo que a gestão das políticas públicas deve ter isso em consideração. Também a forma como foi colocado em vigor me pareceu potenciar prováveis dificuldades, constrangimentos e dúvidas correndo-se o sério risco de hipotecar o potencial de mudança.
Inscrito também no mantra da flexibilização, as práticas em muitas comunidades educativas continuam associadas a uma “azáfama grelhadora” que burocratiza e desgasta sem que o benefício pareça compensar o custo.
Os testemunhos conhecidos em vários espaços e de diferentes formas sobre o que vai acontecendo pelas escolas nesta matéria e o trabalho agora divulgado pela FNE ilustram com clareza a enorme sombra de dúvidas e dificuldades que refere boa parte dos intervenientes, professores do ensino regular, docentes de educação especial, técnicos e pais que estão genuinamente empenhados em que todo corra o melhor possível.
Apesar dos bons exemplos que felizmente sempre conhecemos e também merecem divulgação, a realidade, recorrendo a uma terminologia presente no DL 54/2008, acomoda muitos professores e técnicos perdidos na mudança de paradigma, perdidos nas orientações e na inadequação dos recursos, nas medidas voluntaristas que quase parecem querer “normalizar” e “incluir” alunos, “entregando-os” nas salas de ensino regular, remetendo-os para "espaços outros" (agora já não se chamam "unidades") ou mesmo aconselhando a sua permanência em casa provocando exclusão e sofrimento, incumprimento de direitos, desespero nas famílias e também em professores e técnicos.
Às dúvidas, muitas, surgem respostas que com frequência começam por “eu acho …”, “nós decidimos …”, “na minha escola”, “no meu grupo …”, etc.
Existem muitos casos de alunos com necessidades especiais, sim com necessidades especiais, “entregados” na sala de aula em nome da inclusão e que …se sentem e estão excluídos.
Este cenário também está, do meu ponto de vista, associado ao referido “excesso de doutrina” que cria ruído e diferentes leituras com o óbvio risco de que “é preciso que tudo mude para que tudo fique (quase) na mesma”. Parte da formação que se tem desenvolvido neste contexto parece estar a contribuir para as dificuldades e não para as soluções. Aliás, registo também com muita curiosidade a forma com tanta gente que promoveu entusiasticamente o 3/2008 rapidamente aderiu à “revolução”, ao “novo paradigma” desencadeados pelo 54/2018.
Sim, também sei e reafirmo, há gente e escolas a realizar trabalhos notáveis como sempre aconteceu. Merecem divulgação e reconhecimento.
É insustentável afirmar como o ME insistentemente faz que apenas se verificam problemas pontuais. Não é verdade, não se verificam apenas alguns incidentes próprios dos processos de mudança, não me digam que estamos na antecâmara da educação de qualidade para todos embora registe o entusiasmo contagiante de alguns discursos sobre a “revolução” em curso e a construção da anunciada escola inclusiva de 2ª geração, algo que ainda não consegui perceber o que significará. Mas, certamente, serei mais um dos “desencantados” que não se convertem aos amanhãs que cantam.
Seria muito bom que eu estivesse errado mas a questão é que educação de qualidade para todos é bem mais exigente em recursos e apoios que uma sala de aulas para todos.
Continuo a entender que o processo de mudança ganharia se durante algum tempo, antes da publicação, o normativo estivesse em discussão e trabalho nas escolas, identificando e antecipando os processos decorrentes da mudança, as dificuldades e as necessidades em matéria de ajustamento de recursos, organização e procedimentos. Teria estimulado uma apropriação participada e permitiria construir com mais coerência e maior tranquilidade o trabalho a desenvolver pelas equipas das escolas quando, de facto, entrasse em vigor. Este entendimento também transparece no trabalho da FNE
Recordo que o DL 54/2018 foi publicado em Julho de 2018 para entrar em vigor em Setembro e a Lei 116/2019 foi publicada em 13/9/2019 ontem para entrar em vigor … a 14/09/2019.
Ao fim de mais de quarenta anos nesta lida o cansaço cresce e algum desencanto cresce. A idade também já não me permite optimismos ingénuos e aceitar que a realidade é o que me dizem que é e não o que nela vejo, oiço, leio.
Recorrendo a uma expressão aqui do Alentejo, deixem lá ver o que se segue.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

VOLTANDO AO PISA. HÁBITOS DE LEITURA


Voltando ao PISA 2018 também me parecem importantes os dados relativos aos hábitos de leitura dos alunos de 15 anos, 22% entende que “ler é uma perda de tempo” e 31% afirma que só lê quando é obrigado.
Nunca é demais sublinhar a importância dos livros e dos hábitos de leitura na vida das crianças. São ferramentas cruciais de construção pessoal e cívica, de construção e acesso ao conhecimento, informação e à cultura pelo que repesco umas notas.
São múltiplos os estudos que sublinham essa importância, no trajecto escolar e no trajecto pessoal, como também muitos trabalhos mostram que os hábitos de leitura são pouco consistentes entre as crianças, adolescentes e jovens como, sem surpresa, também o são entre a população em geral. Também se sabe que mesmo a leitura de obras integradas no trabalho escolar é substituída pelo recurso a resumos e fichas  que se encontram facilmente.
Sabemos ainda o quanto é positivo que os pais ou outros “mais crescidos” se envolvam com as crianças, mesmo em idade de jardim-de-infância, em práticas de leitura e de actividades com os livros para, por exemplo, contar histórias a partir das imagens. Lembro-me de ouvir o Mestre João dos Santos afirmar que as crianças aprendem a ler desde que abrem os olhos.
É verdade que os estilos de vida actuais ou a quantidade de tempo que muitas crianças passam nas instituições educativas podem minimizar a disponibilidade familiar para este tipo de actividades depois de dias muito compridos e cansativos para todos.
Também sei que os livros e materiais desta natureza têm uma concorrência fortíssima com outro tipo de materiais, jogos ou consolas por exemplo, e que nem sempre é fácil levar as crianças a outras opções, designadamente aos livros.
Apesar de tudo isto também sabemos todos que é possível fazer diferente, mesmo que pouco diferente e com mudanças lentas.
Como várias vezes tenho afirmado e julgo consensual, a questão central, embora importante, não assenta nos livros, bibliotecas (escolares ou de outra natureza) ou na presença crescente e atractiva dos "tablets", a questão central é o leitor, ou seja, o essencial é criar leitores que, quando o forem, procurarão o que ler, livros por exemplo, espaços ou recursos, biblioteca, casa ou escola e suportes diferente, papel ou digital.
Aliás e no que se refere suporte digital, o PISA 2018 também mostra que tem aumentado o tempo médio passado pelos alunos ligados à internet, média de 2.8 horas diárias durante a semana e 3.5horas ao fim-de-semana. Estes indicadores sugerem um caminho a explorar.
Creio que também estaremos de acordo que um leitor se constrói desde o início do processo educativo. Desde logo assume especial importância o ambiente de literacia familiar e o envolvimento das famílias neste tipo de situações, através de actividades que desde a educação pré-escolar e 1º ciclo deveriam, muitas vezes são, estimuladas e para as quais poderiam ser disponibilizadas aos pais algumas orientações.
Nos primeiros anos de escolaridade é fundamental uma relação estreita com a leitura, não só com os aspectos técnicos, por assim dizer, da aprendizagem da leitura e da escrita da língua portuguesa, mas um contacto estreito e regular com a actividade de leitura, seja do que for, considerando motivações e culturas diferenciadas apresentadas pelos alunos.
Só se aprende a ler lendo, só se aprende a escrever, escrevendo, etc.
A relação de muitas crianças com os materiais de leitura e escrita assentará, provavelmente de forma excessiva, nos manuais, na aquisição pressionada dos “objectivos” e "descritores" curriculares e pouco mais, apesar do esforço de muitos professores. Restará o tempo das AEC onde, apesar de algumas experiências interessantes, também nem sempre se encontram os conteúdos mais adequados e o tempo de casa que em muitas famílias, cada vez mais famílias, é curto.
Neste contexto, embora desejasse muito estar enganado, não é fácil construir miúdos ou adolescentes leitores que procurem livros em casa, em bibliotecas escolares ou outras e que usem o "tablet" também para ler e não apenas para uma outra qualquer actividade do mundo que tornam acessível.
Como tantas vezes tenho escrito, é fundamental criar leitores, eles irão à procura das bibliotecas e dos recursos para ler.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

DAS AGRESSÕES A PROFESSORES. OUTRA VEZ


Andam negros os tempos para os professores. Sempre que escrevo sobre esta questão, agressões e insultos a professores, e lamentavelmente faço-o com regularidade, é sempre com preocupação e mal-estar, daí a insistência repetitiva.
As notícias sobre agressões a professores, cometidas por alunos ou encarregados de educação, continuam com demasiada frequência embora nem todos os episódios sejam divulgados. Aliás, são conhecidos casos de direcções que desincentivam as queixas dado o “incómodo” e “publicidade negativa” que trará a divulgação.
Os testemunhos de professores vitimizados são perturbadores e exigem atenção e intervenção.
Cada um dos recorrentes episódios é, obviamente, um caso de polícia mas não pode ser “apenas” mais um caso de polícia e julgo que, mais do que ser notícia, importaria reflectir nos caminhos que seguimos.
Apesar da repetição é preciso insistir dada a frequência e gravidade das situações de agressão a docentes. Esta questão, embora seja objecto de rápidos discursos de natureza populista e securitária, parece-me complexa e de análise pouco compatível com um espaço desta natureza.
Começo por uma breve reflexão em torno de três eixos: a imagem social dos professores, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade que me parecem fortemente ligados a este fenómeno.
Já aqui tenho referido que os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso de gente dentro do universo da educação que tem, evidentemente, responsabilidades acrescidas e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes ou com agendas implícitas, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para alterações significativas da percepção social de autoridade dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, sobretudo, alunos e pais. Os últimos tempos têm sido, aliás, elucidativos. Quando o ME refere a existência de “casos pontuais” colabora na desvalorização destes episódios, um já seria grave.
Esta fragilização tem, do meu ponto de vista, graves e óbvias consequências, na relação dos professores com alunos e pais.
Em segundo lugar, tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os professores, entre outras profissões, polícias ou médicos, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição de professores, como fontes de autoridade. Tal processo alterou-se, o facto de se ser professor, já não confere, só por si, “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de desrespeito ou de agressão. O mesmo se passa, como referi, com outras profissões em que também, por razões deste tipo, aumentam as agressões a profissionais. Ainda há pouco foi notícia a subida de incidentes de agressão a pessoal da saúde, médicos e enfermeiros.
Finalmente, importa considerar, creio, o sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a grandes, o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”.
Considerando este quadro, creio que, independente de dispositivos de formação e apoio, com impacto quer preventivo, quer na actuação em caso de conflito, obviamente úteis, o caminho essencial é a revalorização da função docente tarefa que exige o envolvimento de toda a comunidade e a retirada da educação da agenda da partidocracia para a recolocar como prioridade na agenda política.
Definitivamente, a valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade sendo esta valorização uma das dimensões identificadas nos sistemas educativos melhor considerados.
É ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de avaliação ou julgamento, e a punição e responsabilização séria dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.

O ARRANJA MOINHOS


É impossível que não aconteça, a cada 5 de Dezembro lembro-me do meu Pai. Partiu há quarenta e quatro anos num dia de Sol e frio como o de hoje.
Uma das muitas razões pelas quais o meu pai foi meu pai, para além de ser um Homem Bom, foi pelo facto de contar imensas histórias, quase sempre criadas no momento.
Não tínhamos televisão, líamos algumas obras que ele trazia da biblioteca dos operários do Arsenal do Alfeite onde era serralheiro, ouvíamos alguma rádio, mas lembro-me sobretudo das histórias, todos os dias inventadas.
A memória destas histórias também se acendeu porque, em quase todas, entrava um personagem que dava pelo nome de Arranja Moinhos, não me perguntem porquê mas era esse o nome que o meu pai lhe dava e o meu pai fazia sempre as coisas bem-feitas.
Era um super-homem o “Arranja Moinhos”, sempre que a história entrava numa fase mais complicada, fosse qual fosse a situação ou as dificuldades que os personagens enfrentassem, lá aparecia o Arranja Moinhos que tudo resolvia, tudo tratava e a história, claro, acabava bem, para descanso dos fascinados ouvidores eu, o meu primo e, muitas vezes, mais um ou outro miúdo da vizinhança, naquele tempo havia mais miúdos e mais relações de vizinhança. Era certo, de vez quando lá tínhamos outra aventura do Arranja Moinhos, complicada e cheia de problemas, mas em que ele genial e cheio de saberes dava sempre a volta e se saía a contento.
Pensei como nos tempos que correm, em que tudo parece estar mal e sem conserto, daria jeito aparecer o Arranja Moinhos. Tenho a certeza que ele havia de encontrar uma maneira de nos ajudar a sair dela. O meu pai dizia que ele era capaz de resolver tudo.
E eu, eu continuo a acreditar no meu pai. É verdade, partiu cedo, demasiado cedo, mas ainda a tempo de me mostrar o que nunca viu e lugares onde nunca esteve.
Não conheceu os netos e, naturalmente, os bisnetos. Haveria de ficar contente, eles também.
Entretanto, vou eu contando histórias aos meus netos, algumas com o Arranja Moinhos, mas gostava que tivessem ouvido as dele e que ele lhas pudesse contar.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

DO PISA E PARA ALÉM DO PISA


A existência de avaliação externa nos sistemas educativos é uma ferramenta imprescindível de regulação e promoção da sua qualidade embora, só por si, não a garantam. Esta avaliação externa pode ser realizada em diferentes patamares e dispositivos de que exames, provas de aferição ou estudos comparativos internacionais de desempenho dos alunos como o PISA ou o TIMSS são exemplos.
Nesta perspectiva é sempre com interesse que se aguardam resultados destes dispositivos.
Vem esta introdução a propósito da divulgação dos resultados do PISA 2018. Em síntese telegráfica, globalmente verifica-se estabilidade no progresso que tem vindo a verificar-se em sucessivas edições e o abaixamento verificado em Ciências não parece significativo ainda que, naturalmente, mereça atenção.
Mais preocupante é a manutenção do peso das “mochila” sociodemográfica dos alunos no seu desempenho, ou seja, os alunos de famílias com menos recursos e qualificação continuam com desempenho médio muito baixo, apenas 10% atingem níveis elevados. Também me parece relevante os dados relativos aos hábitos de leitura e à forma como os alunos percebem as aulas e o clima de aprendizagem quer nos aspectos mais positivos, quer nos menos bons.
Como também é habitual quando se divulgam resultados e no âmbito da sempre presente conflitualidade de interesses da partidocracia na educação verifica-se uma corrida na apropriação dos bons resultados e uma atribuição de responsabilidade que nunca é própria nos menos positivos. Emergem também comentadores, especialistas ou não que, por vezes, e em função de agendas mais ou menos explícitas “vêem” relações de causa/efeito onde apenas se poderão encontrar associações ou correlações. Nada de novo.
Na verdade, não me parece que os resultados no PISA possam ser submetidos a algum teste de paternidade de forma a identificar os seus progenitores pelo que a discussão estará condenada à esterilidade e à retórica inconsequente. Como já tenho afirmado, a única ilação segura que se pode retirar é que o trabalho de alunos e professores tem sido melhor sucedido apesar de políticas públicas mais ou menos amigáveis em diferentes aspectos.
É verdade que o volume de resultados permitirá análises úteis e importantes em termo de acção mas não nos termos em que mais frequentemente se desenrola a discussão.
Do que se conhece, nada autoriza a sustentar a existência de uma relação de causa-efeito entre o número de exames e a subida de resultados, entre o número de alunos por turma e a subida de resultados, entre a diminuição do número de professores e subida nos resultados, entre sucesssivas mudanças curriculares e a subidade de resultados, entre o estabelecimento de 998 metas curriculares em Língua Portuguesa, por exemplo, e a subida de resultados, etc., etc.
Por outro lado, também nada autoriza a estabelecer nenhuma relação de causa efeito, por exemplo, entre dividir professores e criar um clima infernal nas escolas e a subida de resultados.
Estas notas não servem para um exercício gratuito de “contrismo”, estar contra tudo o que foi feito, designadamente, por Maria de Lurdes Rodrigues, Nuno Crato ou Tiago Brandão Rodrigues, não se trata disso. Trata-se se sublinhar que como já escrevi hoje os professores e os alunos vão cumprindo a sua parte, apesar de muitos aspectos negativos das políticas educativas cujos responsáveis se querem tornar donos de resultados positivos e enjeitar responsabilidades no que de menos bom acontece como, aliás, escrevi acima.
Quando a poeira assentar deixo um convite para gastar uns minutos de leitura de uma carta que me parece de recuperar e que foi publicada no The Guardian em 6 de Maio de 2014 dirigida a Andreas Schleicher, director do PISA, por um grupo alargado, significativo e de vários países de académicos e especialistas em educação ou representantes de entidades a operar neste universo. No documento é apresentada uma leitura muito interessante do PISA e também avançadas algumas sugestões de desenvolvimento.
Um pequeno excerto para apelar à leitura e, sobretudo, à reflexão.
Precisamos de não esquecer que existe educação para além do PISA.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

DO DIA INTERNACIONAL DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA


Umas notas sobre os resultados no Programme International for Students Assessment (PISA) de 2018 ficam para amanhã. Até lá vou lendo os estimulantes comentáros que chovem na comunicação social.
A agenda das consciências determina que hoje se cumpra o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. Como sempre, umas notas que de forma substantiva não se desactualizam, lamentavelmente.
Como é hábito nestes dias surgirão peças na comunicação social, ouvir-se-á alguma da retórica política aplicável à matéria em apreço com referência a iniciativas ou intenções, provavelmente teremos até alguns testemunhos, positivos e negativos, de pessoas com deficiência ou de entidades que "operam" nesta área. Aliás, a inclusão constitui-se como um nicho de mercado promissor em diversas vertentes.
Assistiremos a alguns eventos das instituições e movimentos que operam nesta área, referir-se-ão alguns avanços de natureza tecnológica, como se sabe as tecnologias mudam mais depressa que as pessoas e amanhã o mundo volta-se para outra questão que a agenda das consciências determine.
Em primeiro lugar deve dizer-se que, como acontece em outras áreas, a legislação portuguesa é globalmente positiva, embora a sua operacionalização mereça quase sempre um estudo de caso. Veja-se o que passa no mundo da chamada “educação inclusiva” e o arranque dos Centros de Apoio à Vida Independente. Na sua definição é promotora dos direitos das pessoas, mas a sua falta de eficácia e operacionalização é bem evidenciada na tremenda dificuldade que milhares de pessoas experimentam no dia-a-dia.
No entanto e como exemplo, é notória a falha na fiscalização e cumprimento das disposições legais relativas às questões das acessibilidades e barreiras nos edifícios, mobiliário urbano e acessibilidade em geral. As normas de construção não são respeitadas, mantendo-se em edifícios novos a ausência de rampas ou a sua existência com desníveis superiores ao estabelecido, constituindo, assim, um risco sério de queda.
O resultado é a existência de muitos serviços públicos e outro tipo de equipamentos de prestação de serviços com barreiras arquitectónicas intransponíveis, a que os cidadãos com deficiência só podem aceder com ajuda de terceiros e, mesmo assim, com dificuldade.
Os transportes públicos de diferente natureza também colocam enormes problemas na acessibilidade por parte de pessoas com mobilidade reduzida.
Para além deste quadro, suficientemente complicado, ainda há que contar com a prestimosa colaboração de muitos de nós que estacionamos o belo carrinho em cima dos passeios, complicando ou proibindo, naturalmente, a circulação de cadeiras de rodas. Os passeios, nem sempre com as medidas determinadas por lei, são, por vezes e quase na totalidade, ocupados com esplanadas que, claro, são só mais uma dificuldade para muita gente.
A vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que ampliam de forma inaceitável a limitação na mobilidade que a sua condição, só por si, pode implicar. No entanto, muitos dos obstáculos não têm a ver com barreiras físicas, remetem para a falta de senso, incompetência ou negligência com que gente responsável(?) lida com estas questões.
Na verdade, boa parte dessas dificuldades decorre do que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo, entendem ser os direitos, o bem comum e o bem-estar das pessoas, de todas as pessoas.
Também para as crianças com necessidades especiais e respectivas famílias a vida é muito complicada face à qualidade e acessibilidade aos apoios educativos e especializados necessários apesar do empenho e profissionalismo da maioria dos profissionais que trabalham nestas áreas. Os tempos que correm estão ainda marcados pelos sobressaltos das alterações legislativas que apesar de conterem aspectos positivos também suscitam alguma inquietação.
Como é evidente, existem muitas outras áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente apoios sociais, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são elevados traduzido em taxas de desemprego entre pessoas com deficiência muitíssimo superiores à verificada com a população sem deficiência.
Uma referência ainda ao que deve ser um princípio não negociável, a inclusão em todos os domínios da vida das comunidades.
É verdade que a questão da inclusão, em particular da inclusão em educação, é presença regular nos discursos actuais. É objecto de todas as apreciações, ilumina todas as perspectivas e acomoda todas as práticas, incluindo a “entregação” que manifestamente não promove inclusão, antes pelo contrário. Por vezes, demasiadas vezes, confunde-se colocação educativa, crianças com necessidades especiais na sala de aula regular, com inclusão. Aliás, a inclusão até se constitui como um nicho de mercado promissor.
O termo está tão desgastado que já nem sabemos bem o que significa. Não esqueço o que positivo se faz, mas conheço tantas práticas e tantos discursos que alimentam exclusão e que são desenvolvidas e enunciados ... em nome da inclusão. Tantas vezes me lembro do Mestre Almada Negreiros que na "Cena do Ódio" falava da "Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões".
A inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.
As pessoas com deficiência não precisam de tolerância, não precisam de privilégios, não precisam de caridade, precisam só de ver os seus direitos considerados. Os direitos não são de geometria variável cumprindo-se apenas quando é possível.
Este é o caderno de encargos que nos convoca a todos, todos os anos, todos os dias.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

DAS PALAVRAS QUE MARCAM OS TEMPOS


Por iniciativa habitual da Porto Editora está em curso o processo de escolha da palavra do ano, ou seja, palavras que possam marcar o ano que está a findar. As palavras candidatas serão “Desinformação”, “Jerricã”, “Lítio”, “Multipartidarismo”, “Influenciador”, “Nepotismo”, “Seca”, “Sustentabilidade”, “Trotinete” e “Violência”. Aguarda-se com ansiedade o resultado da votação online que decorrerá até ao final do ano.
Por curiosidade recordemos as palavras escolhidas nos anos anteriores como "retrato" do tempo. Em 2009 tivemos “esmiuçar”, em 2010 “vuvuzela”, em 2011 “austeridade”, em 2012 “entroikado”, em 2013 “bombeiro”, em 2014 “corrupção”, em 2015 “refugiado” em 2016 “geringonça”, em 2017 “incêndios” e em 2018 “enfermeiro”.
A propósito do significado e da escolha das palavras representativas de um tempo recordo a "Invenção do Dia Claro" em que Almada Negreiros dizia, "Nós não somos do século de inventar palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas”.
Talvez fosse mesmo boa ideia inventar outra vez palavras já inventadas e que não constam da lista final da qual sairá a palavra do ano.
Estou a pensar em como seria interessante inventar outra vez, desta vez mais a sério, palavras como solidariedade, equidade, justiça, ética, seriedade, humildade, democracia, dignidade, inclusão, tolerância, etc.
Mas ainda não será este o ano estas palavras marcarão os tempos.

domingo, 1 de dezembro de 2019

AS ESCOLAS SIMPÁTICAS


No Expresso lê-se que dos dois processos de inquérito conduzidos pela Inspecção-Geral da Educação e Ciência ao colégio Ribadouro já concluídos resultou, para já, a abertura de um processo disciplinar à directora pedagógica da instituição.
Estes inquéritos surgiram depois de terem sido divulgadas em Maio no blogue ComRegras do Alexandre Henriques várias pautas do 10º ano do Colégio Ribadouro (sempre bem posicionado nos rankings, claro) relativas a Educação Física em que nenhum aluno do 10º teve nota inferior a 18 no 2º período. Mais precisamente, de 248 alunos do 10º, 128 (52%) tiveram 20 valores, 108 alunos (44%) tiveram 19 e apenas 12 desajeitados alunos tiveram 18. Notável o desempenho dos alunos em Educação Física, tão notável quanto o desempenho da escola em rigor, seriedade, ética e manhosice.
Como escrevi na altura, esta notícia não trazia nada de novo na substância. É bem sabido e já referido em trabalhos do CNE ou relatórios da IGEC que vários estabelecimentos de ensino, designadamente no ensino privado, têm práticas avaliativas altamente generosas e simpáticas. Esta simpatia e generosidade é particularmente sentida no ensino secundário, as notas internas dos alunos são sobrevalorizadas dando um contributo "simpático" para a subida da média final do ensino secundário que continua a ser o critério quase exclusivo no acesso ao ensino superior.
Os negócios da educação têm destas coisas. E têm destas coisas porque apesar da alteração que se verificará no ensino profissional o acesso ao ensino superior continua a depender quase que exclusivamente da média final do secundário. Como, do meu ponto de vista bem, a nota de educação Física voltou a contar para o cálculo, o resultado estava à vista.
Como disse a situação não é nova, o que é novo, é esta despudorada vergonha com as notas de Educação Física. No final de 2018 foi divulgado um relatório da Inspecção-Geral de Educação e Ciência que analisou algumas escolas em que se tem verificado uma discrepância significativa entre os resultados dos alunos na avaliação externa, os exames, e a avaliação interna na qual a generosidade e simpatia dessas escolas inflacionam a classificação dos alunos. Salientava-se a forma como é “revista em alta” a classificação dos alunos, recorrendo à sobrevalorização de dimensões menos sujeitas a “medida” e, por outro lado, mostrou como são imprescindíveis os dispositivos de regulação.
Também o Relatório Anual do Conselho Nacional da Educação, “Estado da Educação 2016”, voltava a referir a “simpatia” e “generosidade” de algumas escolas que inflacionam as notas dos seus alunos. Dentro do padrão habitual, a maioria das situações ocorre em estabelecimentos privados o que o relatório da Inspecção veio a confirmar.
É público que em muitas zonas as escolhas de escola por parte das famílias, sobretudo privadas mas também públicas, se decidem também em função deste conhecimento.
Os responsáveis pelas escolas em que o “fenómeno” é mais evidente tentam explicá-lo de formas diferentes e em alguns aspectos até bastante curiosas, projecto pedagógico ou educativo da instituição, entendimento diferenciado sobre o próprio papel da avaliação interna, etc.
É também por razões desta natureza que, afirmo-o de há muito, a conclusão e certificação de conclusão do ensino secundário e a candidatura ao ensino superior deveriam ser processos separados. Esta questão associa-se aos rankings escolares e aos dividendos que daí podem advir. Devo dizer que me incomoda verificar que na generalidade dos suplementos dedicados pela imprensa aos rankings escolares, os resultados são mostrados misturados com publicidade a alguns estabelecimentos privados.
Os exames nacionais destinam-se, conjugados com a avaliação realizada nas escolas, a avaliar e certificar o trabalho escolar produzido pelos alunos do ensino secundário e que, obviamente, está sediado no ensino secundário. Neste cenário caberiam também as outras modalidades que permitem a equivalência ao ensino secundário, como é o caso do ensino artístico especializado ou recorrente em que também se verificam algumas "especificidades", por assim dizer.
O acesso ao ensino superior é um outro processo que deveria ser da responsabilidade do ensino superior e estar sob a sua tutela.
A situação existente alimenta este nicho de mercado sem que, os estudos mostram-no as notas de acesso dos alunos do ensino secundário privado não sustenta carreiras escolares no ensino superior no mesmo patamar.
No meu ponto de vista não está em causa a existência de exames finais no ensino secundário como algumas pessoas entendem quando se defende outro modelo de acesso ao superior. Julgo que a avaliação externa é imprescindível por várias razões incluindo a regulação de práticas como a do Ribadouro e outras instituições. O que me parece ajustado é que as classificações, internas e externas no ensino secundário deveriam constituir apenas um factor de ponderação a comsiderar com outros critérios nos processos de admissão organizados pelas instituições de ensino superior como, aliás, acontece em muitos países.
Isto também não significa que as instituições de ensino superior entrassem em roda livre no processo de selecção dos seus alunos abrindo, assim, portas agora à "simpatia" no acesso ao superior. Poder-se-ia pensar numa lógica de áreas científicas com dispositivos de selecção geridos de forma integrada pelas instituições, públicas e privadas, sendo a colocação dos alunos resultante das suas escolhas, naturalmente, mas também dos seus resultados neste dispositivo de avaliação gerido pelas instituições de ensino superior, da sua classificação final do ensino secundário (avaliação interna e externa) nas diferentes tipologias e, eventualmente, envolvendo alguns requisitos específicos para alguns cursos.
Sediar no ensino superior o processo de admissão minimizaria muitos dos problemas conhecidos decorrentes do facto da média de conclusão do ensino secundário ser o único critério utilizado para ordenar os alunos no acesso e eliminaria o “peso” das notas inflacionadas em diversas circunstâncias.
Enquanto não se verificar a separação da conclusão do secundário da entrada no superior corremos o risco de lidar com situações desta natureza embora a transparência as possa minimizar.

sábado, 30 de novembro de 2019

O DESTELO E O APREGOADOR


Como costumo dizer que uma das vantagens de ser velho é ter histórias para contar. Sempre que tenho oportunidade, é algo que me dá muito gozo, também gosto de ouvir histórias da gente dos outros tempos para juntá-las às minhas. Uma das fontes é o meu amigo, o Mestre Zé Marrafa que trabalha comigo cá no Monte. Acabada a apanha da azeitona ainda andamos a limpar oliveiras e depois teremos a lenha para esgalhar e traçar. Tarefa para mais uns dias.
Enquanto andamos na lida surgem as lérias, neste caso histórias de lá atrás no tempo. 
Fiquei assim a conhecer algo de que nunca tinha ouvido falar, o destelo, e uma função, o Apregoador, há muito desaparecida no meu Alentejo. Vamos por partes, quando se considerava que a época da apanha da azeitona tinha terminado, o apregoador, já explico, avisava que se poderia ir ao destelo. O destelo é a busca de alguma azeitona que ficou para trás caída ou na oliveira e que as pessoas de menores recursos ainda vinham pacientemente, catar, colher e vender no lagar ou guardar para conserva. Lembrei-me do lindíssimo “Os Respigadores e a Respigadora” de Agnès Varda.
O Apregoador tinha uma função muito curiosa, cabia-lhe anunciar em quatro sítios diferentes da vila aquilo que lhe pediam para apregoar, desde um produto que estaria à venda no mercado, um monte ou uma herdade para vender, a realização de um qualquer evento, etc. Este trabalho pioneiro de publicidade e marketing realizava-se a troco de uma oferta por parte do interessado em apregoar.
O Velho Marrafa que em novo ainda andou ao destelo, estranha como as pessoas hoje não ligam a tantas coisas que deixam estragar sem aproveitar. Dói-lhe a alma de ver tanta azeitona a ficar nas árvores sem ser colhida e nós a importarmos azeite.
Também a mim, mas acho que se chama evolução.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

DOS AUXILIARES DE EDUCAÇÃO. NÃO HÁ VOLTA A DAR


Não há volta a dar. O mundo da educação é um mundo de sobressaltos.
Para além das questões que todos os dias merecem atenção hoje temos o encerramento de escolas e agrupamentos devido à greve dos auxiliares de educação.
Relativamente à presença destes profissionais, a rotina dos últimos tempos tem sido escolas fechadas por falta de auxiliares de educação ou agrupamentos com escolas a funcionar em regime de rotatividade pelo mesmo motivo.
Como já aqui escrevi ainda não há muito tempo não consigo perceber que isto possa ser uma questão de finanças, é mesmo uma questão de incompetência e insensibilidade em matéria de políticas públicas. Tiago Rodrigues não tem porta-moedas e Mário Centeno não consegue perceber que um Excel com contas certas não garante qualidade na educação o que, prazo, … compromete as contas certas por comprometer o desenvolvimento e António Costa não lida com pormenores irritantes. A falta de auxiliares resulta da insuficiência de recursos e da elevada taxa de baixas médicas decorrente (também) das exigências acrescidas pela ... falta de recursos
Vou repetir-me, mas nunca é demais enfatizar o papel essencial que estes profissionais desempenham nas escolas e a necessidade de rácios adequados, qualificação, segurança e carreira que minimizem problemas que têm vindo a ser regularmente colocados por pais, professores e directores.
Seria desejável que a gestão desta matéria considerasse as especificidades das comunidades educativas e não se seguissem critérios cegos de natureza administrativa que são parte do problema e não parte da solução.
Para além da variável óbvia, número de alunos, é necessário que se contemplem critérios como tipologia das escolas, ou seja, o número de pavilhões, a existência de cantinas, bares e bibliotecas e a extensão dos recreios ou a frequência de alunos com necessidades especiais.
Mais uma vez, os auxiliares de educação, insisto na designação, desempenham e devem desempenhar um importante papel educativo para além das funções de outra natureza que também assumem e que exige a adequação do seu efectivo, formação e reconhecimento. No caso mais particular de alunos com necessidades educativas especiais e em algumas situações serão mesmo uma figura central no seu bem-estar educativo, ou seja, são efectivamente auxiliares de acção educativa.
A excessiva concentração de alunos em centros educativos ou escolas de maiores dimensões não tem sido acompanhada pelo ajustamento adequado do número de auxiliares de educação. Aliás, é justamente, também por isto, poupança nos recursos humanos, que a reorganização da rede, ainda que necessária, tem sido feita com sobressaltos e com a criação de problemas.
Os auxiliares educativos cumprem por várias razões um papel fundamental nas comunidades educativas que nem sempre é valorizado incluindo na estabilidade da sua contratação e formação.
Com frequência são elementos da comunidade próxima das escolas o que lhes permite o desempenho informal de mediação entre famílias e escola, têm uma informação útil nos processos educativos e uma proximidade com os alunos que pode ser capitalizada importando que a sua acção seja orientada, recebam formação e orientação e que se sintam úteis, valorizados e respeitados.
Os estudos mostram também que é nos recreios e noutros espaços fora da sala de aula que se regista um número muito significativo de episódios de bullying e de outros comportamentos socialmente desadequados. Neste contexto, a existência de recursos suficientes para que a supervisão e vigilância destes espaços seja presente e eficaz. Recordo que com muita frequência temos a coexistir nos mesmos espaços educativos alunos com idades bem diferentes o que pode constituir um factor de risco que a proximidade de auxiliares de educação minimizará.
Considerando tudo isto parece essencial o contributo dos auxiliares de educação para a qualidade dos processos educativos. Assim, é imprescindível a sua presença em número suficiente, que se mantenham nas escolas com estabilidade e que sejam formados, orientados e valorizados na sua importante acção educativa.
Qual será a parte que não se compreende?
A falta de auxiliares de educação, evidentemente.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

UM TRABALHO SOBRE INDISCIPLINA ESCOLAR


Face ao volume de referências a episódios de indisciplina escolar tentámos desenvolver um trabalho a partir de uma situação concreta.
Numa escola pública da periferia de Lisboa, um aluno do 9º ano envolveu-se numa discussão com um colega durante um trabalho de grupo na aula da Inglês e acabou por dizer um palavrão acompanhado de um gesto explícito a condizer. A cena foi, como de costume, registada num telemóvel e rapidamente apareceu no Youtube. Procurámos alguns comentários a mais este grave incidente que afectou o espaço escolar. Começámos pelo Parlamento.
Um deputado do PS referiu que graças à eficácia e à bondade das políticas educativas do governo do PS a situação estava incomparavelmente melhor pois tem a informação do Director da escola de que na semana anterior o mesmo aluno tinha dito dois palavrões na aula de Matemática.
Ouvimos uma deputada do CDS-PP que, depois de um "Oiça", disse que, tal como o CDS-PP sempre tem afirmado, o PS transformou o espaço escolar num espaço de delinquência e insegurança frequentado por imigrantes e filhos de utentes do Rendimento Social de Inserção, pelo que problemas desta natureza são frequentes e, também num tremer de pálpebras, citou Paulo Portas, "se não prendem esta gente, nada será como antigamente".
O deputado do PCP que ouvimos referiu-nos que até a própria juventude começa a dar sinais de contestação tomando posições firmes contra a ditadura das políticas de direita da 5 de Outubro. Um membro dos Verdes que ia a passar disse não ter mais nada a acrescentar.
Entretanto, uma deputada do Bloco manifestou a sua satisfação pela atitude não conformista do adolescente e a capacidade de erguer a sua voz minoritária para dizer o palavrão que mais ninguém disse.
Finalmente, ouvimos um deputado do PSD que nos referiu a falta de credibilidade do Primeiro-ministro como causa para incidente tão grave.
A deputada do Livre analisa o episódio à luz da defesa de uma identidade e no activismo promotor dessa identidade. Um deputado do PAN aponta na necessidade de que cada aluno possa ter um animal de estimação consigo o que minimizaria os riscos de indisciplina. O deputado da IL defendeu que era importante que todos os bons alunos, os que querem aprender e se portem bem, fossem para estabelecimentos de ensino privado pois aproveitariam melhor e as escolas públicas ficariam para os que não querem aprender e se portam mal.
Finalmente o deputado do Chega com a sua tshirt branca ainda vestida, defendeu que mais do que professores seria necessário um polícia em cada sala de aula e se assim não for, será uma vergonha.
Uma representante de um pensamento educativo conhecido por "eduquês", seja lá isso o que for, afirmou que se tratou de uma expressão positiva de desconforto por parte do adolescente, na afirmação da sua autonomia e competências interpessoais no quadro de uma sala de aula interactiva. Pois.
Conseguimos ainda a opinião de um reconhecido especialista, Miguel Sousa Tavares, que entende o episódio como mais uma prova de incompetência de uma classe que tem três meses de férias, não é avaliada e ganha balúrdios.
O conhecido opinador Santana Castilho, que ia a passar, disse também qualquer coisa que não se percebeu muito bem, mas clamava que estava contra e que tinha saudades do tempo em que foi Secretário de Estado e a educação em Portugal era um paraíso.
Desistimos do trabalho.
Agora mais a sério, indisciplina na escola e a sua gravidade são, também um espelho do clima social em que vivemos com reflexo na percepção de autoridade, estilos parentais, sistema de valores, etc. Algumas das dimensões relacionadas com o problema estão estudadas, são conhecidas. Vejamos algumas sem ordenação de importância, tempo de permanência excessivo dos alunos nos espaços escolares com actividades desadequadas, inexistência de recursos humanos de mediação de conflito envolvendo alunos, professores e pais, desajustamentos dos normativos e determinações processuais, inexistência ou insuficiência de dispositivos de apoio a docentes e alunos designadamente no que se refere a comportamento e relações interpessoais, fragilidades na liderança e autoridade em professores e directores escolares.
Sem se intervir seriamente nestas matérias, vamos sempre constatar que os episódios de indisciplina são demasiado frequentes, o que não é estranho, mas nada adianta.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

SIM, SÃO CAPAZES. MAIS UMA VEZ

No JN encontra-se uma peça sobre a vida de quatro jovens adultos sublinhando a sua dimensão profissional realizada com qualidade. Assim enunciado perguntar-se-á a razão da notícia, passar-se com muitíssimos outros jovens adultos.
A questão é que estes quatro jovens adultos têm síndrome de Down e, então, já se percebe uma peça na comunicação social que mostra que … afinal são capazes de aceder a estilos de vida “normais”, emprego por exemplo e, imaginem, desempenhar bem as funções que delas se esperam.
Sendo importante que existam, sublinho sem qualquer dúvida, o teor de boa parte destas notícias mostra um dos aspectos mais gravosos no quotidiano e qualidade de vida destas pessoas, sobretudo quando têm algum tipo de deficiência intelectual. Não acreditamos que sejam capazes, quando se percebe que são … é notícia.
Algumas notas repescadas.
A verdade, mais uma vez e sempre, é que sem ser por magia ou mistério quando acreditamos que as pessoas, mais novas ou mais velhas, com algum tipo de necessidade especial, são capazes, não se "normalizam" evidentemente, seja lá isso o que for, mas são, na verdade, mais capazes, vão mais longe do que admitimos ou esperamos, mesmo tão longe como qualquer outra pessoa. Não esqueço a gravidade de algumas situações mas, ainda assim, do meu ponto de vista, o princípio é o mesmo, se acreditarmos que eles progridem, que eles são capazes de ... , o que fazemos, provoca progresso, o progresso possível e níveis de realização significativos.
E isto envolve professores do ensino regular, de educação especial, técnicos, pais, lideranças políticas, empregadores e toda a restante comunidade.
No entanto, em algumas circunstâncias o trabalho desenvolvido com e por estes alunos é ele próprio um factor de debilização, ou seja, alimenta a sua incapacidade, numa reformulação do princípio de Shirky.
Tal facto, não decorre da incompetência genérica dos técnicos, julgo que na sua maioria serão empenhados e competentes, mas da sua (nossa) própria representação sobre este grupo de pessoas, isto é, não acreditam(os) que eles realizem ou aprendam. Desta representação resultam situações e contextos de aprendizagem e formação, tarefas e materiais de aprendizagem, expectativas baixas traduzidas na definição de objectivos pouco relevantes, que, obviamente, não conseguem potenciar mudanças significativas o que acaba por fechar o círculo, eles não são, de facto, capazes. É um fenómeno de há muito estudado.
Mais uma vez. A inclusão assenta em quatro dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade) e Aprender (como qualquer pessoa para potenciar as suas capacidades adquirindo competências e saberes). Estas dimensões devem ser operacionalizadas assentes em modelos de diferenciação justamente para que acomodem e respondam à diversidade das pessoas.
É neste sentido que devem ser canalizados os esforços e os recursos que deverão, obrigatoriamente, existir. Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências noutras paragens, mas também por cá como a que serve de base a este texto, mostram que não é utopia.
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

OS TEMPOS DA EDUCAÇÃO DE INFÂNCIA


Foi divulgado o estudo do CNE “Estado da Educação 2018”. Ainda não tive acesso mas do que se conhece, para além da confirmação do não cumprimento das metas de formação superior definidas para 2010, 40% para o grupo 30-34 anos, da ainda elevada taxa de retenção, da associação entre dados sociodemográficos e desempenho escolar ou o envelhecimento da classe docente, temos um dado merece algumas notas, em Portugal verifica-se um horário de permanência de crianças dos 0 aos 3 anos e dos 3 aos 6 em jardim-de-infância cerca de 10h mais elevado que a média europeia.  
As crianças até aos 3 estão, em média, 39,1 horas por semana, cerca de oito horas por dia, com amas ou em creches. As com três ou mais anos estão 38,5 horas semanais em instituição.
A média europeia é de 27,4 horas para os 0-3 e 29,5 horas para os 3-6 anos mais velhos.
Um outro dado relevante é que a oferta de creche de em Portugal, 36.7%, é ligeiramente superior à média quer da OCDE, 36.3%, quer da EU, 35.6%.
Este cenário parece-me traduzir uma das consequências da inconsistência das políticas de família, ou seja, baixo tempo de licenças parentais a colocar pressão nas famílias e na existência de respostas e estilos de vida e modelos de organização do trabalho que levam à permanência por tempo excessivo das crianças mais pequenas em instituição ou, caso dos 0 aos 3, também em amas.
Esta situação a que acresce a dificuldade em encontrar respostas e os custos elevados do acesso aos equipamentos, boa parte privada ou da rede social, dos mais altos no contexto europeu, veja-se o relatório "Starting Strong 2017", divulgado pela OCDE que já aqui citei, é reconhecidamente um dos factores associados à baixa natalidade e que, aliás, o relatório sublinha.
É recorrente a divulgação de informação referindo a existência de muitas crianças nas listas de espera de creches e jardins-de-infância no chamado sector social em que as mensalidades são indexadas aos rendimentos familiares. Esta situação afecta sobretudo zonas mais urbanas e a alternativa da resposta privada é inacessível para muitas famílias. Contribuindo para uma oferta clandestina bem conhecida mas não regulada.
Como tenho afirmado, não tenho certezas sobre a obrigatoriedade da frequência mas tenho a maior convicção no sentido de que garantir a universalidade do acesso à educação pré-escolar aos três anos e criar respostas de qualidade, acessíveis, logística e economicamente, às famílias para as crianças dos zero aos três anos é imprescindível e urgente. Acentuo também a ideia de que este período, até aos três anos, deveria também estar sob tutela do Ministério da Educação e não da Segurança Social pois o acolhimento das crianças deve estar abrangido por um forte princípio de intencionalidade educativa.
Sabemos como o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos é fortemente influenciado pela qualidade das experiências educativas nos primeiros anos de vida, quer familiares, quer institucionais, de pequenino é que ...
No entanto e como o Relatório do CNE mostra, começa a ser necessário repensar os tempos da escola, que caminha mesmo para "escola a tempo inteiro" com uma overdose que não é saudável para ninguém mas uma consequência das dificuldades de concertação entre vida familiar e vida profissional de muitas famílias. Sobra para as crianças e este entendimento não tem qualquer juízo de culpabilização para a maioria das famílias que, evidentemente, não têm alternativa.
Assim, existem áreas na vida das pessoas que exigem uma resposta e uma atenção que sendo insuficiente ou não existindo, se tornam uma ameaça muito séria ao futuro, a educação de qualidade para os mais, familiar e institucional insisto, é uma delas.
No entanto e mais uma vez, a educação pré-escolar é bastante mais que a “preparação” para a escola e não deve ser entendida como uma etapa na qual os meninos se preparam para entrar na escola embora se saiba do impacto positivo que assume no seu trajecto escolar.
Na verdade, as crianças estão a preparar-se para entrar na vida, para crescer, para ser. A educação pré-escolar num tempo em que as crianças estão menos tempo com as famílias tem um papel fundamental no seu desenvolvimento global, em todas as áreas do seu funcionamento e na aquisição de competências e promoção de capacidades que têm um valor por si só e não entendidos como uma etapa preparatória para uma parte da vida futura dos miúdos, a vida escola.
Este período, a educação pré-escolar, educação de infância numa formulação mais alargada, cumprido com qualidade e acessível a todas as crianças, será, de facto, um excelente começo da formação institucional das pessoas, dos cidadãos. Esta formação é global e essencial para tudo o que virão a ser, a saber e a fazer no resto da sua vida.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

GOSTEI DE LER, "CAÇAR COELHOS COM PAUS"


Gostei de ler o texto de Vítor Belanciano no Público, “Caçar coelhos com paus”, uma reflexão urgente e pertinente com implicações importantes nas concepções sobre o ensino superior e o papel das chamadas ciências sociais, por exemplo.
(…)
Por outro lado, se existiu algo que a última década provou foi que imaginar que a tecnologia só por si iria resolver os impasses do nosso tempo resultou num equívoco.
(…)

EDUCAÇÃO EM ALERTA VERMELHO. NÃO DÁ PARA ESPERAR

Em estudo solicitado ao CNE pela Assembleia da República, referido no Público, afirma-se que até 2030 mais de metade do corpo docente, 57,8%, sairá para a aposentação. Esta previsão decorre do facto de 52,9% dos professores têm 50 ou mais anos de idade e apenas 1,1% tem menos de 35. Para além da elevada idade média, onsiderando os modelos de selecção e recrutamento, matéria incluída do estudo, é ainda significativo que, como também já era conhecido, em cinco anos a inscrição de alunos em cursos de formação para a docência baixou para metade.
Como escrevi várias vezes a este propósito, num país preocupado com o futuro este cenário faria emitir, como agora se usa, um alerta vermelho e agir em conformidade. Retomo notas que, lamentavelmente, continuam actuais e sobretudo preocupantes pelo impacto no futuro próximo.
Recordo um trabalho já aqui referido e divulgado no final de 2018 pela OCDE, “Reviews of School Resources: Portugal 2018” retoma-se algo que tem vindo ser questionado nos últimos anos, designadamente nos dados divulgados pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência e em estudos do CNE, o envelhecimento significativo da classe docente e as potenciais consequências negativas que se agravam a cada ano que passa.
Ao perfil dos docentes em termos de idade acresce que como é reconhecido em qualquer país, a profissão docente e altamente permeável a situações de burnout, estado de esgotamento físico e mental provocado pela vida profissional, associado a níveis pouco positivos de satisfação profissional. Também o estudo da OCDE refere aspectos desta natureza e numa classe envelhecida o risco é, obviamente, mais elevado.
Na verdade, este cenário só pode surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam pela comunicação social perorando sobre educação e sobre os professores.
Também se sabe que as oscilações da demografia discente não explicam a saída de milhares de professores do sistema, novos e velhos, como também não explicam a escassíssima renovação, contratação de docentes novos. Sem estranheza, no universo do ensino privado é bastante superior a presença de docentes mais jovens. Não esqueçamos ainda a deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. Acresce que sucessivas equipas ministeriais têm desenvolvido políticas que contribuem para a desvalorização dos professores com impacto evidente no clima das escolas e nas relações que a comunidade estabelece com estes profissionais. Os últimos tempos têm sido particularmente elucidativos.
Sabemos que os velhos não sabem tudo e os novos nem sempre trazem novidade. Mas também sabemos que qualquer grupo profissional exige renovação por diferentes razões incluindo emocionais, de suporte, partilha de experiência ou pela diversidade.
Com a previsível aposentação de milhares de professores num prazo relativamente curto teremos uma significativa falta de docentes. O problema é que muito pelo contributo de opinadores e por efeitos de algumas das políticas públicas em matéria de educação a profissão de professor perdeu capacidade de atracção como o trabalho do CNE também sublinha.
Parece clara a necessidade de definir uma resposta oportuna a este trajecto.
Seria também desejável que não nos esquecêssemos que os sistemas educativos com melhor desempenho são também os sistemas em que os professores são mais valorizados, reconhecidos e apoiados.
Não parece difícil perceber porquê.

domingo, 24 de novembro de 2019

HISTÓRIA DE UM SEM-ABRIGO

Nasceu sem o abrigo de um colo que o esperasse.
Cresceu numa família que nunca foi um porto de abrigo.
Entrou numa escola de onde, passados muitos anos, saiu sem nunca ter encontrado abrigo.
Foi abrigar-se na rua onde encontrou outros desabrigados da vida.
Nunca encontrou o abrigo de um afecto.
Abrigava-se, quando podia e conseguia, nas sobras dos poucos que reparavam nos olhos tristes por desabrigo.
Arrastou-se, sem abrigo, até ao fim de uma vida feita de ruas desabrigadas em noites de inverno.
Encontrou, finalmente, abrigo num anónimo pedaço de chão.

sábado, 23 de novembro de 2019

A GENEROSIDADE DAS OLIVEIRAS


Um dia de sábado dedicado à limpeza das oliveiras. A terra, felizmente, está carregada de água, não dá para a trabalhar, os alhos que terão que esperar uns dias para irem para a terra.
Assim, sempre com a companhia do Mestre Zé Marrafa e colaboração indispensável mas barulhenta das motosserras e do tractor cá andamos.
Sempre que olho para as oliveiras, árvores que considero das mais bonitas, especialmente aquelas com muitos séculos como algumas aqui do Monte e que são dos tempos em que os mercados eram uma feira e não uns deuses, que já levam um tronco que dois homens não abraçam, admiro a sua generosidade.
Começam por dar as azeitonas que se comem em três variantes, pisadas, retalhadas e de conserva, qual delas a mais saborosa, este ano as pisadas e retalhadas que já estamos a consumir ficaram que nem vos conto. Toda a gente tem uma arte de as temperar e, claro, nós também já temos os segredos, aprendemos com o Mestre Marrafa.
As azeitonas vão para o lagar e virá o azeite, a alma do comer bom, e como tem alma o azeite do Meu Alentejo.
Para além da azeitona e do azeite, a oliveira ainda é a mais calorosa das árvores, sempre a aquecer-nos. Aquece-nos quando maldosamente lhe batemos, varejamos, para nos dar a azeitona, aquece-nos quando a limpamos de pés de burro e cortamos os ramos e troncos para assegurar a sua renovação, aquece-nos quando rachamos e arrumamos a lenha que nos deu e, finalmente, ainda nos aquece quando nas noites longas e frias do Inverno arde no lume de chão ou na salamandra.
Como bondade final, esta generosa capacidade de dar vive numa escala incomensurável para nós, dura séculos.
São tão bonitas e generosas as oliveiras.
São também assim os dias do Alentejo, vamos à lida.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS NA ESCOLA


Sucedem-se os episódios que sustentam a necessidade de uma atenção urgente, aprofundada e com consequências ao nível da acção relativamente a episódios de agressão nos contextos escolares, física ou de outra natureza,  envolvendo alunos, docentes, técnicos e auxiliares e, algumas vezes, com a participação de pais ou encarregados de educação.
O volume de episódios é dificilmente avaliável pois apesar do número de registos parecer diminuir sabe-se que por diferentes razões boa parte dos casos não é reportada.
Como ainda há pouco tempo aqui escrevi, tendo consciência dos problemas e da sua gravidade, também entendo que as escolas, não são o inferno e para além dos problemas inerentes aos processos e contextos educativos a escola é segura para a generalidade dos que nela diariamente convivem.
Parece-me também claro que os tempos são de natureza crispada nas relações, pouco regulados na convivialidade e contaminados por intolerância(s), com focos preocupantes de conflitualidade, caso da violência doméstica, por exemplo. É reconhecido que a escola pública espelha de alguma forma os contextos em que se inscreve.
No entanto, também sabemos que só a educação, só processos educativos de qualidade promovem desenvolvimento de competências e saberes escolares e profissionais mas também a formação pessoal considerando valores, atitudes e comportamentos.
Neste sentido, a defesa intransigente de políticas públicas de educação, traduzidas na defesa da escola pública é indispensável.
Sem hierarquizar ou esgotar umas notas alguns aspectos que julgo essenciais e de que aqui vou falando.
Importa valorizar profissionalmente e socialmente os professores e a sua acção. Isto não se promove com retórica nem por decreto, mas através de discursos positivos em torno do estatuto social dos docentes, de não “desprofissionalizar” os docentes, de valorizar carreiras e condições de exercício, de desenhar dispositivos de apoio e colaboração a e entre docentes.
Promoção de competência e regulação das direcções de agrupamentos e escolas. O modelo unipessoal tem vários riscos e sabe-se como lideranças competentes promovem modelos partilhados de liderança. Lideranças partilhadas e competentes sustentam climas institucionais mais positivos mais regulados com impacto nas relações e comportamentos de todos os actores, incluindo pais e encarregados de educação.
Importa que as escolas tenham recursos e apoios para programas de mediação e tutoria com condições de sucesso. Estes modelos de trabalho desde que dotados dos recursos necessários são ferramentas comprovadas de promoção do desempenho escolar e do comportamento socialmente adequado.
Sabemos que a autoridade dos professores não se estabelece por decreto mas promove-se no apoio que lhes é prestado, na insistente valorização do seu trabalho, na recusa da impunidade e ligeireza ou mesmo no anonimato a que muitos episódios são votados. Não pode alimentar-se um sentimento de impunidade que incrementa comportamentos.
Importa que os auxiliares de educação estejam nos espaços escolares em número suficiente, que sejam valorizados e apoiados com formação para um trabalho muito importante na promoção de comportamentos adequados nos contextos escolares.
Que as escolas e agrupamentos possam integrar projectos de natureza comunitária que valorizem a acção e o papel da escola, dos professores e importância futura do trabalho desenvolvido por todos. Esta é ma dimensão em que as autarquias e outras estruturas poderão ter uma acção importante.
Como é evidente trata-se de uma matéria complexa com implicações que envolvendo a escola está para além da escola.
No entanto, repetindo ou mudamos e melhoramos pela educação ou … dificilmente lá chegaremos. Ao futuro de gente de bem.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A LONGA MARCHA DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

Estou pelo Funchal para participar numas provas académicas que tem como questão de fundo a educação especial e a educação inclusiva.
Por coincidência vejo no Público uma peça relativa a um inquérito desenvolvido pela Fenprof junto de direcções escolares e professores sobre o efeito da entrada em vigor do tal decreto, o 54. Dos professores respondentes, 1192, 46.3% entende que piorou a situação existente e 21,5% dos professores respondem que “está na mesma”. As respostas de 92 direcções sugerem que 63% entende que a resposta melhorou.
Não conheço o estudo realizado mas creio que a sua robustez exige prudência na leitura, quer das opiniões mais positivas quer das mais negativas, mas ainda assim umas notas.
Como tantas vezes escrevi a alteração do quadro legal era necessária desde a saída do DL 3/2008. Também em relação ao 54/2018 entendi que continua uma “tradição" que não me parece adequada, um normativo não tem que integrar doutrina científica ou modelos mas, fundamentalmente, princípios, orientações, definição de recursos e dispositivos de regulação. Recordo que estamos falar de um “regime jurídico”.
Também sabemos que os processos de mudança estão sujeitos a dúvidas e sobressaltos pelo que a gestão das políticas públicas deve ter isso em consideração. Também a forma como foi colocado em vigor me pareceu potenciar prováveis dificuldades, constrangimentos e dúvidas correndo-se o sério risco de hipotecar o potencial de mudança.
Inscrito também no mantra da flexibilização, as práticas em muitas comunidades educativas continuam associadas a uma “azáfama grelhadora” que burocratiza e desgasta sem que o benefício pareça compensar o custo.
Os testemunhos conhecidos em vários espaços e de diferentes formas sobre o que vai acontecendo pelas escolas nesta matéria ilustram com muita clareza a enorme sombra de dúvidas e dificuldades que referem todos os intervenientes, professores do ensino regular, docentes de educação especial, técnicos e pais que estão genuinamente empenhados em que todo corra o melhor possível.
Apesar dos bons exemplos que felizmente sempre conhecemos e também merecem divulgação, a realidade, recorrendo a uma terminologia presente no DL 54/2008, acomoda muitos professores e técnicos perdidos na mudança de paradigma, perdidos nas orientações e na inadequação dos recursos, nas medidas voluntaristas que quase parecem querer “normalizar” e “incluir” alunos, “entregando-os” nas salas de ensino regular, remetendo-os para "espaços outros" (agora já não se chamam "unidades") ou mesmo aconselhando a sua permanência em casa provocando exclusão e sofrimento, incumprimento de direitos, desespero nas famílias e também em professores e técnicos.
Às dúvidas, muitas, surgem respostas que com frequência começam por “eu acho …”, “nós decidimos …”, “na minha escola”, “no meu grupo …”, etc.
Existem muitos casos de alunos com necessidades especiais, sim com necessidades especiais, “entregados” na sala de aula em nome da inclusão e que …se sentem e estão excluídos.
Este cenário também está, do meu ponto de vista, associado ao referido “excesso de doutrina” que cria ruído e diferentes leituras com o óbvio risco de que “é preciso que tudo mude para que tudo fique (quase) na mesma”. Parte da formação que se tem desenvolvido neste contexto parece estar a contribuir para as dificuldades e não para as soluções.
Sim, também sei e reafirmo, há gente e escolas a realizar trabalhos notáveis como sempre aconteceu. Merecem divulgação e reconhecimento.
É insustentável afirmar como o ME insistentemente faz que apenas se verificam problemas pontuais. Não se verificam apenas alguns incidentes próprios dos processos de mudança, não me digam que estamos na antecâmara da educação de qualidade para todos. Seria muito bom mas a questão é que educação de qualidade para todos é bem mais exigente em recursos e apoios que uma sala de aulas para todos
Continuo a entender que o processo de mudança ganharia se durante algum tempo, antes da publicação, o normativo estivesse em discussão e trabalho nas escolas, identificando e antecipando os processos decorrentes da mudança, as dificuldades e as necessidades em matéria de ajustamento de recursos, organização e procedimentos. Teria estimulado uma apropriação participada e permitiria construir com mais coerência e maior tranquilidade o trabalho a desenvolver pelas equipas das escolas quando, de facto, entrasse em vigor.
Agora é continuar a longa marcha da educação inclusiva.
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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

OS DIREITOS DA CRIANÇA, A AGENDA POR CUMPRIR


O calendário das consciências determina para hoje o Dia Internacional dos Direitos da Criança assente numa dupla comemoração, a proclamação da Declaração dos Direitos da Criança (1959) e adopção da Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
É verdade que nestes 60 anos, pensando sobretudo na realidade portuguesa, muito evoluímos também no que respeita ao universo dos mais novos. No entanto, os Direitos da Criança continuam uma agenda por cumprir em múltiplas dimensões e por muitas e diferentes razões.
Os ventos malinos que sopram e o enorme conjunto de dificuldades que atravessamos apesar de algumas melhorias, ancorados num quadro de valores que tende a proteger mercados e interesses outros que conflituam com os interesses e bem-estar da maioria das pessoas vão criando exclusão, pobreza e negação de direitos. Aliás, é frequente o entendimento de que os direitos devem ser entendidos como sendo de geometria variável, ou seja, dependem da conjuntura económica pelo que os que menos têm também terão os seus direitos diminuídos.
Neste cenário, conforme os estudos e a experiência mostram, os mais novos constituem um grupo especialmente vulnerável. Aliás, recordo uma expressão de Laborinho Lúcio considerando que entre nós e em muitas circunstâncias, os direitos dos menores também parecem direitos menores.
Nesta vulnerabilidade existem três áreas em que me parece que os direitos estão particularmente ameaçados, as crianças e adolescentes em risco de maus tratos, abusos e negligência, a pobreza infantil e o direito à equidade nas oportunidades de acesso à educação de qualidade para todas as crianças, sublinho, todas as crianças.
De uma forma geral, os discursos e a retórica política sempre acentuam a importância destas matérias mas é preciso ir um pouco mais longe. Por exemplo, dotar as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens dos meios suficientes e qualificados para a detecção e acompanhamento eficaz dos casos de risco, ou caminhar no sentido de diminuir o número de crianças institucionalizadas e sem projecto de vida.
No que respeita ao risco de pobreza, as crianças são sempre o elo mais fraco de uma sociedade com um fosso demasiado grande entre os mais ricos e os mais pobres. As políticas sociais não podem deixar de entender como prioritário, sobretudo nos tempos que atravessamos, os apoios sérios e fiscalizados aos problemas das famílias que envolvem, necessariamente, os mais novos. É o seu futuro que está em causa.
No que respeita à educação, a equidade e o objectivo de que todos atinjam o patamar possível de sucesso educativo e qualificação é o grande desafio. Os discursos políticos nunca esquecem o grande desígnio da educação ou a paixão pela educação. Os preâmbulos dos normativos são excelentes peças de retórica sobre direitos e qualidade.
No entanto, precisamos mesmo de caminhar de forma séria e não tentados pela sedução do sucesso estatístico, para a qualidade dos processos educativos que se traduz nos níveis de qualificação das pessoas (não da simples certificação), na diminuição das taxas de abandono e insucesso, enfim, na construção de projectos de vida viáveis e bem-sucedidos. Muitas crianças e adolescentes com necessidades especiais vêem atropelados os seus direitos a dimensões básicas da qualidade de vida, a educação, por exemplo.
A escassez de recurso de diferente natureza que permitam apoios suficientes, competentes e em tempo útil são constrangimentos grandes que ameaçam os direitos de crianças e adolescentes…
Torna-se imperativo promover a participação e fazer ouvir, escutando, a voz dos mais novos.
Continuamos com uma agenda por cumprir no que respeita ao seu bem-estar.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

PARTIU JOSÉ MÁRIO BRANCO



É inevitável a referência. Partiu José Mário Branco, um dos que, citando outro poeta, por obras valorosas se vão da lei da morte libertando.
José Mário Branco é um figura grande da música, da cultura portuguesa, marcando de forma muito impressiva muita gente da minha geração e, provavelmente, de outras gerações.
Fica um tema que não sendo certamente dos mais conhecidos, é dos que mais gosto, "Inquietação".
Este espaço tem o nome de Atenta Inquietude. 




segunda-feira, 18 de novembro de 2019

EDUCAÇÃO, SABER E OPINIÃO


O que tem sido discutido publicamente nas últimas semanas a propósito da retenção dos alunos no ensino básico mostra mais uma vez algo que tem vindo a acontecer há algum tempo. De facto, com uma impressionante regularidade continua a verificar-se a facilidade com que imensa gente, designadamente, a que tem acesso ou “reside” num qualquer meio de comunicação social emite comentários e análises sempre com um enunciado conclusivo sobre o universo da educação seja qual for a temática, agora a retenção, mas também recentemente as questões de natureza profissional que envolvem os professores ou a chamada "educação inclusiva". É verdade que o universo da educação, para além de outras áreas do conhecimento científico, envolve toda a comunidade, mas esta evidência não explica tudo.
Por outro lado, quando troco opiniões com pessoas com formação de áreas diferenciadas que não as Ciências Sociais, designadamente Educação ou Psicologia, áreas que conheço melhor, sobre matérias do seu universo de formação ou intervenção, percebo que frequentemente os meus interlocutores desvalorizam o que exprimo pois não lhe reconhecem “saber” ou “ciência”, apenas opinião.
No entanto, quando falo de assuntos da minha área de estudo de décadas, Psicologia e Educação, qualquer que seja a sua formação, muitos dos interlocutores afirmam com a maior das convicções opiniões sólidas e seguras sobre o que está em discussão e assumem com toda a segurança essas opiniões como “saber”.
Quando era mais novo ainda tentava argumentar com base no que a ciência nestas áreas vai produzindo, mas dada a falta de efeito vou desistindo, já não estranho os "eu acho" ou a variante "cá para mim".
Na verdade, “mete-me espécie” que engenharia, biologia, economia, medicina, etc., etc., sejam áreas de “saber” e que educação ou psicologia, como outras ciências chamadas "sociais", sejam percebidas não como áreas de saber mas como áreas de opinião que, naturalmente, qualquer pessoa pode expressar e, assim, passar a ser “saber”.
Aliás, até já tenho visto referências às Ciências da Educação escritas com aspas e, frequentemente, com sentido pejorativo. Foi patente nos últimos anos a emergência de discursos diabolizando as “ciências da educação” identificando-as como o eixo do mal responsável pelo que de mau vai acontecendo no mundo da educação. Elucidativo. Seria estranho, no mínimo, alguém afirmar que o que se sabe e estuda em engenharia num qualquer ramo é prejudicial … à engenharia.
“Mete-me espécie” ainda que o que afirmo dentro da minha área não seja percebido como saber, não seja percebido como conhecimento, seja uma opinião e, como tal, passível de discussão com base noutra opinião enquanto o discurso do meu interlocutor sobre a sua área de intervenção seja “saber” pelo que um leigo como eu não o pode abordar de forma séria.
Não é grave que se construa opinião sobre qualquer assunto da nossa vida. É desejável e estimulante para toda a gente que assim seja. O que me “mete espécie” é que se entenda que opinião é ciência ou, quando convém, que a ciência não é ciência é opinião e como tal deva ser tratada.
Ao fim de quarenta anos de lida profissional já estou mais habituado, mas lá que me “mete espécie” e cansa … é verdade. É a minha opinião.

domingo, 17 de novembro de 2019

A HISTÓRIA DO RAFAEL, O PREGUIÇOSO


Um destes dias, já depois das aulas terem começado a Graça, nova na escola e que tem um grupo do primeiro ano, encontrou o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, na sala de professores. Para não variar estava de volta do chá e, claro, sempre pronto para a conversa.
Posso sentar-me uns minutos?
Claro Graça, que tal achas a escola?
Simpática, bons colegas e com boas condições. Os miúdos arrumadinhos e com vontade de crescer, sabendo. Ainda é um bocadinho cedo mas convém estar atenta desde o início e o Rafael intriga-me um pouco. Velho, conheces o gaiato? Aqui não usam muito, mas lá no Alentejo é assim que falamos.
Não conheço o Rafael, o gaiato como lhe chamas, ele não estava no Jardim de Infância aqui da escola. Que te intriga?
A qualquer coisa que eu peça ou sugira ao Rafael para fazer, diz de imediato que não sabe ou não é capaz. Dificilmente e só estando muito por perto a incentivar é que faz qualquer coisa, sempre a contragosto. O que acho curioso é que, por vezes, se põe junto dos outros e dá dicas e ajudas para eles fazerem as coisas. Quando lhe peço eu volta ao não sabe ou não é capaz. Sabes o que me faz lembrar? Aquelas pessoas pouco amigas de trabalhar, há muitas assim, que quando vêem alguém a trabalhar na rua juntam-se logo e ficam por perto a assistir e a dar conselhos, palpites. Se lhes pedirem para fazer alguma coisa desaparecem rapidamente.
Como te disse não conheço o Rafael, mas, desculpa por isto, podes estar a ser um pouquinho injusta. Tenho encontrado miúdos como o Rafael que ao responder que não sabem ou não são capazes de fazer o que se lhes pede, estão a mostrar medo de não fazer bem, falta de confiança nas suas capacidades, por isso fogem de fazer. Se estiveram ao lado de colegas, com tarefas que não são suas, não se sentem ameaçados, por assim dizer e até mostram que na verdade são miúdos capazes.
Não tinha pensado nisso. Mas como faço para perceber melhor o Rafael?
Experimenta pedir-lhe que faça a coisa que melhor era capaz de fazer quando estava no Jardim de Infância. Creio que ele não dirá que não, vai fazer algo de bem feito o que te permite mostrar ao Rafael como ele é mesmo capaz de fazer coisas bem feitas. A gente só aprende a partir do que já sabe, não é do que ainda não sabe. De resto, como dizias há pouco, é preciso estar atento e mostrar confiança no "preguiçoso" do Rafael.
Não precisas de te meter comigo Velho. Até logo. Olha, o teu chá deve estar frio.

sábado, 16 de novembro de 2019

AS REFORMAS NA EDUCAÇÃO


A elevada média de idades dos docentes portugueses associada a níveis elevados de exaustão e stresse profissional comprovados por diversos estudos, a que acresce a instabilidade das políticas públicas de educação estará certamente ligada à questão que talvez seja a mais frequentemente formulada no pouco tempo que os docentes dispõem para passar na “sala de professores”, “quanto é que te falta para a reforma?”
Este cenário começa a traduzir-se num movimento reformista extraordinariamente significativo. Lê-se no Público que 2019 será o ano depois de 2014 em que mais professores se irão reformar e o Ministério das Finanças antecipa que até 2023 se reformarão 12.329 professores.
Percebem-se assim as dificuldades crescentes nas escolas resultantes da falta de docentes, já significativa em alguns grupos e níveis de ensino, agravadas pela tempestade perfeita associada a horários incompletos, a necessidade de deslocação e rendas incomportáveis para o salário disponível.
Talvez comecemos a perceber que a narrativa tão “vendida” dos professores a mais talvez não fosse tão evidente e que, como sempre em educação, também as contas sobre o número de professores necessários ao sistema nunca dão certo.
O problema é que muito pelo contributo de opinadores e por efeitos de algumas das políticas públicas em matéria de educação a profissão de professor perdeu capacidade de atracção.
Seria desejável que não nos esquecêssemos que os sistemas educativos com melhor desempenho são também os sistemas em que os professores são mais valorizados, reconhecidos e apoiados.
Não parece difícil perceber porquê.
Ainda não parece ser desta que um ímpeto reformista na educação vá correr bem.