segunda-feira, 25 de junho de 2018

PROMULGADO O REGIME JURÍDICO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA


No final da semana que passou o Presidente da República promulgou o Regime Jurídico para a Educação Inclusiva. Como muitas vezes afirmei, a necessidade imperiosa de alteração do quadro legislativo anterior era uma necessidade imperiosa.
No entanto, a par de algumas mudanças positivas tenho expressado algumas inquietações, de natureza teórica e prática, sobre o seu impacto real na resposta à diversidade dos alunos com qualidade e sustentada em princípios de educação inclusiva.
Insisto que quero muito que do processo de alteração resulte mais qualidade nos processos educativos de todos os alunos, menos exclusão, tantas vezes em nome da … inclusão, mais participação de todos os alunos nas actividades comuns, mais apoios e de qualidade aos professores de ensino regular, os actores centrais nos processos educativos de todos os alunos para além dos pais, a disponibilização de recursos suficientes, adequados e em tempo oportuno e dispositivos de regulação do trabalho desenvolvido que minimizem os efeitos em que, perdoem-me o excesso e a repetição, da dimensão o sistema é verdadeiramente inclusivo, coexistem sem um sobressalto práticas excelentes com práticas e discursos que atentam contra os direitos de alunos, famílias e docentes.
O grande risco é que apesar de uma “nova lei” se mantenha o “velho” quadro que referi acima, escolas, professores e técnicos a desenvolver trabalhos de qualidade e assentes numa perspectiva de educação inclusiva e que assim continuarão a tentar fazer, seja qual for o quadro legal e escolas, professores e técnicos envolvidos em práticas que, seja qual for o quadro legal, guetizam, excluem, não promovem direitos, participação, pertença e aprendizagem, os verdadeiros critérios de educação inclusiva que transformam a “integração” em “entregação”, os alunos estão “entregados”, não integrados.
Por estas razões parece-me ainda indispensável a existência de dispositivos de avaliação e regulação que não se confundam com as competências da Inspecção-Geral da Educação e Ciência.
Ilustrando estas reservas, em texto de há algumas semanas mostrei um exemplo sublinhando que não me queria sentir o Waldorf ou o Statler, os velhos dos Marretas que estão sempre na crítica mas a verdade é que julgo que só mudar mesmo que num caminho ajustado não significa … mudar.
. O regime de matrícula e de frequência no âmbito da escolaridade, Despacho Normativo 6/2018 de 12 de Abril deste ano, no Artigo 11.º “Prioridades na matrícula ou renovação de matrícula no ensino básico” refere com segunda prioridade os alunos “Com necessidades educativas especiais de caráter permanente não abrangidos pelas condições referidas na prioridade anterior e com currículo específico individual, conforme definido no artigo 21.º do Decreto -Lei n.º 3/2008, de 7 de janeiro, na sua redação atual ou do diploma sobre educação inclusiva que lhe venha a suceder”.
Desde 2008 que entendo que o Currículo Específico Individual é uma das maiores ferramentas de exclusão do DL3/2008, foi muitas vezes utilizado de uma forma desregulada empurrando crianças e adolescentes para trajectos que de inclusão têm nada. A sua própria designação sempre me surpreendeu, um “currículo individual” só pode, acho eu, ser “específico.
Como é que um novo “paradigma”, a eliminação da categorização, o fim das “necessidades educativas especiais”, educação inclusiva x.0 vai acomodar, para usar um termo em moda, o CEI, esta aberração perigosa.
O exemplo é um mau prenúncio e leva-me a manter alguma reserva apesar de preferir o optimismo e a confiança.
Ainda a propósito desta questão cito o testemunho de uma mãe de um adolescente com necessidades especiais QUE logo no início do ano escolar e depois de uma mudança de escola ouve algo como  “Este para mim ele é um CEI” e durante todo o ano o aluno foi … tratado como um “CEI” e remetido para actividades funcionais de que não precisa. Sim, o testemunho é credível e eu próprio conheço várias situações de alunos atropelados por esse “rótulo” e por práticas e discursos incompatíveis com a retórica da inclusão.
Será que vai mudar com um novo quadro legislativo?
Creio que nos últimos anos, na generalidade dos nossos territórios educativos, mesmo em cada comunidade, tivemos, temos e é o meu receio, teremos, crianças excluídas da escola, excluídas na escola, crianças integradas na escola e também, felizmente, crianças incluídas na escola e na comunidade. Aqui sim, como digo, o sistema é verdadeiramente inclusivo.
Por isso as minhas inquietações. Repito o que acima escrevi. Um melhor quadro normativo é necessário e uma boa base de trabalho mas mais recursos e apoios de qualidade aos professores de ensino regular, os actores centrais nos processos educativos de todos os alunos para além dos pais, a disponibilização de recursos suficientes, adequados e em tempo oportuno e dispositivos de regulação do trabalho desenvolvido são aspectos críticos.

domingo, 24 de junho de 2018

OS MIÚDOS E OS CARROS


Um dia destes, estava num grupo de que faziam parte algumas crianças que se entretinham de forma variada. Um deles, num canto, não largava a consola. Aproximei-me e vi o gaiato, uns oito anos, a conduzir um bólide por uma pista cheia de outras bombas. Percebendo a minha curiosidade resolveu mostrar as suas habilidades de condução na consola. O miúdo era mesmo bom.
Os carros sempre fascinam os miúdos. Quando eu tinha aquela idade também me atraíam. Para mais na família nem sequer tínhamos automóvel o que mais longe os deixava e aumentava a atracção.
O mais curioso é que naquele tempo a maioria de nós, sobretudo os rapazes, como sabem os carros eram coisa para rapazes, arranjávamos carro, os carros de rolamentos de esferas. Cada um tinha o seu e, às vezes, até mais do que um. Com pouco dinheiro conseguia-se uns rolamentos, o meu pai de vez em quando trazia lá do trabalho dele, era serralheiro, ou, em alternativa, nos sucateiros do Gato Bravo também se encontravam variados e em conta. As tábuas, bem, as tábuas arranjavam-se numa visita nocturna a alguma obra na zona porque aquelas tábuas grossas das cofragens eram as melhores.
Os meus carros ficavam sempre um espectáculo, desculpem a imodéstia, e faziam sucesso. Por vezes, quando não se destinavam a corridas até tinham bancos, forrados com uns restos de alcatifa, coisa fina, como vêem. Tinham travões, as ruas onde andávamos com os carrinhos assim o obrigavam, que eram feitos com os saltos de borracha dos sapatos que proporcionavam travagens eficientes. Sempre pintados com as tintas que se surripiavam aos pais, até tinham faróis, tampas de latas pregadas nos sítios adequados simulavam-nos de forma excelente. Tratava-se do mais genuíno tunning.
Quanto à condução, era adrenalina da pura. Na velha Rua I, inclinada quanto baste e sem muito trânsito, grandes corridas ali se fizeram e também grande “malhanços” se produziram e, devo confessar, o alcatrão queima e esfola que não é brinquedo.
Mas é assim, mudam-se os tempos, tudo fica diferente, mas devo confessar, enquanto o gaiato corria um qualquer Grand Prix na consola, a mim consola-me a lembrança dos meus carrinhos de rolamentos.
Mas isto é mesmo uma história de velho, hoje não se pode brincar na rua e os carros de rolamento não andam em casa.
Resta mesmo o consolo da consola. Será?
Não, definitivamente não, podemos e devemos fazer melhor.

sábado, 23 de junho de 2018

GOSTEI DE LER, "O PEQUENO CHORA, O GRANDE ROSNA

Desta vez estamos de acordo, Pacheco Pereira, “O pequeno chora, o grande rosna”.


Apesar dos tempos negros que nos assombram, preciso de sentir algum optimismo e acreditar que o tempo actual pode representar uma janela de oportunidade, (a última?) para reconstruir uma visão para a Europa e para o Mundo.
Não podem, não podemos falhar, percebem? Trata-se do futuro dos nossos filhos, dos filhos dos nossos filhos, dos ....

BRINCAR É A ACTIVIDADE MAIS SÉRIA QUE AS CRIANÇAS REALIZAM


Um pequeníssimo excerto, “Hoje não há dúvidas sobre isto: quase todos os indivíduos que tiveram sucesso, foram felizes e empreendedores, tiveram infâncias felizes.”
Como tantas vezes escrevo e afirmo, brincar é a actividade mais séria que as crianças realizam, na qual põem tudo o que são e constitui a base de tudo o que virão a ser.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

CRÓNICA DE UMA GREVE SEM FIM À VISTA


Continua sem fim à vista o conflito entre professores e ME. Os novos capítulos que se vão conhecendo não permitem antecipar quando e como terminará. Como já tenho escrito e insisto, só há uma forma de resolver conflitos de forma positiva, negociar, negociar. Ponto.
O ME continua em fuga para a frente e vai-se apoiando na tentativa de torcer o quadro legislativo no sentido de conter ou minimizar as consequências da greve em curso.
Paralelamente é divulgada informação e produzida opinião em dois sentidos, sublinhar o prejuízo causado aos alunos e diabolizar a greve e os professores recorrendo à produção de opinião, e números com esse objectivo.
Parece clara dificuldade em realizar uma greve que não tenha algum impacto na comunidade, esse é, justamente, uma das componentes do próprio processo da greve, seja em que sector de actividade for.
Parece-me também claro que os professores, na sua esmagadora maioria, prefeririam certamente não sentir motivos para realizar a greve com consequentes dificuldades para pais e alunos e para o seu próprio trabalho, as avaliações serão necessariamente realizadas. Muitos esquecerão que boa parte dos professores também tem filhos.
É também claro que muitos professores se sentem suficientemente maltratados por alguns aspectos das políticas que os envolvem para que possam enveredar pela greve, dentro do quadro legal existente, com as consequências previsíveis.  
A eternização deste conflito não serve a ninguém. Negociar com seriedade servirá a todos.

NOTÍCIAS DA BALEIA AZUL


Depois do impacto mediático dos primeiros casos, as referências ao fenómeno que dá pelo nome de “Baleia Azul” foram desaparecendo da agenda. No entanto, não desapareceu do inferno que é a vida de alguns adolescentes e jovens. Assim, a imprensa de hoje refere a detecção sete casos de adolescentes entre os 11 e os 14 anos, residentes na mesma zona, envolvidos em comportamento de automutilação no âmbito do fenómeno “Baleia azul”.
Recordo que uma notícia de Junho do ano passado reportava que nos últimos dois meses as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens tinham registado uma subida do número de situações com forte probabilidade de se relacionarem com aquele “desafio”. Foram reencaminhados para o Departamento Central de Investigação e Acção Penal 34 casos, o triplo de registos anteriores.
Continuo convencido que esta situação é apenas uma ponta do "iceberg" de mal-estar que atinge muitos adolescentes e jovens.
Assim, importa insistir na atenção que merece. Em primeiro lugar recuso firmemente designar por jogo. Logo depois, já se conhecem outras referências, surgirá outro fenómeno da mesma natureza.
Muita coisa já foi divulgada a este propósito, sobre a forma como se desenrola, sobre os riscos das redes sociais e cuidados a ter por pais e educadores, sobre a intervenção das autoridades que já transformou o episódio também num caso de polícia, etc.
Assim e neste contexto, não me parece necessário insistir na referência ao episódio Baleia Azul, parece-me essencial, isso sim, reflectir sobre o conjunto de razões pelas quais adolescentes e jovens se envolvem em situações desta natureza com riscos graves, incluindo automutilação e suicídio e que atingem dimensões verdadeiramente preocupantes.
Segundo os últimos dados do estudo “A Saúde dos adolescentes Portugueses”, divulgado no ano passado e que integra o estudo internacional Health Behaviour in School-aged Children, da responsabilidade da OMS, um em cada cinco alunos (20,3%), entre os 13 e os 15 anos já se magoou a si próprio, de propósito, nos últimos 12 meses, sobretudo cortando-se nos braços, nas pernas, na barriga... Referiram que se sentiam “tristes”, “fartos”, “desiludidos” quando o fizeram.
Este indicador, preocupante como é evidente, é-o tanto mais quando representa um aumento de quase cinco pontos percentuais do grupo dos que fazem mal a si próprios considerando o Relatório anterior.
Na verdade, os comportamentos de automutilação em adolescentes são mais frequentes e graves do que muitas vezes pensamos e devem ser encarados com preocupação. E os casos que vão sendo conhecidos são apenas isso, os conhecidos, a ponta do iceberg.
É justamente por esta dimensão e as suas potenciais consequências que me parece fundamental entender tudo isto como um sinal muito forte do mal-estar que muitos adolescentes e jovens sentem e a verdade é que em muitas situações não conseguimos estar suficientemente atentos. Este mal-estar e o que daí pode emergir decorrem de situações de sofrimento com as mais diversas origens, relações entre colegas, bullying por exemplo nas suas diferentes formas ou relações degradadas na família que facilitam a instalação de sentimentos de rejeição, ausência de suporte social que serão indutoras de comportamentos autodestrutivos.
Começa também a surgir como causa deste mal-estar a dificuldade que algumas crianças e adolescentes sentem em lidar com situações de insucesso escolar. Estas dificuldades são frequentemente potenciadas pela pressão das famílias e pelo nível de competição que por vezes se instala.
Os tempos estão difíceis e crispados para muitos adultos e também para os miúdos a estrada não está fácil de percorrer.
Como disse, alguns vivem, sobrevivem, em ambientes familiares disfuncionais que comprometem o aconchego do porto de abrigo, afinal o que se espera de uma família.
Alguns percebem, sentem, que o mundo deles não parece deste reino, o mundo deles é um espaço, nem sempre um espaço físico, insustentável que, conforme as circunstâncias, é o inferno onde vivem ou o paraíso onde se acolhem e se sentem protegidos mas perdidos.
Alguns sentem que o amanhã está longe de mais e que um projecto para a vida é apenas mantê-la ou que nem isso vale a pena.
Alguns convencem-se ou sentem que a escola não está feita para que nela caibam e onde podem ser vitimizados.
Alguns sentem que podem fazer o que quiserem porque não têm nada a perder e muito menos acreditam no que têm a ganhar fazendo diferente.
Alguns transportam diariamente um fardo excessivamente pesado e que os torna vulneráveis.
Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas é necessário pois muitos destes adolescentes e jovens terão evidenciado no seu dia-a-dia sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa ou na escola, espaço onde passam boa parte do seu tempo. Aliás, alguns testemunhos ouvidos no âmbito dos recentes e mediatizados casos mostram isso mesmo.
De facto, em muitos casos, designadamente, em comportamentos de automutilação ou estados mais persistentes de tristeza e isolamento, pode ser possível perceber sinais e comportamentos indiciadores de mal-estar. Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. É também importante que pais e professores atentos não hesitem nos pedidos de ajuda ou apoio para lidar com este tipo de situações.
O sofrimento e mal-estar induzem uma espiral de comportamentos em que os adolescentes causam sofrimento a si próprios o que promove mais sofrimento num ciclo insuportável e com níveis de perplexidade, impotência e sofrimento para as famílias também extraordinariamente significativos.
Não, não tenho nenhuma visão idealizada dos mais novos nem acho que tudo lhes deve ser permitido ou desculpado. Também sei que alguns fazem coisas inaceitáveis e, portanto, não toleráveis. Só estou a dizer que muitas vezes a alma dói tanto que a cabeça e o corpo se perdem e fogem para a frente atrás do nada que se esconde na adrenalina dos limites.
Alguns destes miúdos carregam diariamente uma dor de alma que sentem mas nem sempre entendem ou têm medo de entender.
Espreitem a alma dos miúdos, sem medo, com vontade de perceber porque dói e surpreender-se-ão com a fragilidade e vulnerabilidade de alguns que se mascaram de heróis para uns ou bandidos para outros, procurando todos os dias enganar a dor da alma.
Eles não sabem, eu também não, o que é a alma. Um adolescente dizia-me uma vez, “dói-me aqui dentro, não sei onde”.
Muitos pais, mostra-me a experiência, sentem-se de tal forma assustados que inibem um pedido de ajuda por se sentirem impotentes e perplexos.
O resultado de tudo isto pode ser trágico e obriga-nos a uma atenção redobrada aos discursos e comportamentos dos adolescentes e dos jovens."
Desculpem a repetição mas é preciso insistir.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

AS CONTAS QUE NUNCA DÃO CERTO


Acho particularmente interessante que numa área como a educação e seja qual for a matéria em análise as contas nunca batam certo.
Agora, trata-se dos custos com a resolução do problema do congelamento da carreira dos docentes, como já se tratou dos custos de cada aluno no sistema público ou no sistema privado, como já se tratou do número de docentes necessários no sistema educativo público, só para referir dois aspectos muito relevantes embora haja muitos mais.
Como parece claro, o problema deste desencontro de contas não é uma questão de aritmética e também não me parece que na sua essência seja uma questão de euros embora não esqueça que os recursos são finitos e as necessidades são grandes e em muitas áreas do funcionamento das comunidades.
No entanto, a questão central é de opções em matéria de políticas públicas, de gestão de interesses que muitas vezes estarão para lá do interesse público e mais perto de outras corporações de interesses de que a forma como a banca é tratada é um bom exemplo.
No fundo é mesmo um problema de opções políticas e assim sendo a calculadora não ajuda a ter certas as contas que nunca dão certo no mundo da educação.

OS PROBLEMAS DAS MINORIAS NÃO SÃO PROBLEMAS MINORITÁRIOS


A Associação ILGA Portugal — Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo divulgou o “Estudo Nacional Sobre o Ambiente Escolar — Jovens LGBTI+ 2016/2017” realizado ISCTE e pela U. do Porto envolvendo perto de 700 jovens com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos.
Alguns dados, mais de 62% dos inquiridos reporta comentários negativos feitos de pessoal docente e não docente de natureza ocasional e 28.5% refere regularidade nesses comentários.
Os comentários negativos são sobretudo produzidos por colegas, 75.1%.
Sendo a maioria das agressões de natureza verbal também se relatam agressões físicas, 7.7%.
De registar ainda que 73,6% refere ter sentido alguma forma de exclusão intencional por parte dos colegas e quase 65% foi alvo de rumores ou mentiras sobre si na escola.
É ainda relevante que apenas um em cada dez inquiridos denunciou regularmente a situação de vitimização e constata-se que em escolas onde se desenvolve trabalho sobre estas questões a situação é mais positiva.
Os dados agora divulgados vêm em linha com a realidade, são frequentes os discursos ou comportamentos discriminatórios face à orientação sexual ou identidade de género em contexto escolar.
Em 2017 a Agência para os Direitos Fundamentais da União Europeia referia que 94% dos jovens LGBT ouvem ou testemunham comentários e comportamentos negativos em contexto escolar em Portugal". Já se referia também que a apresentação de queixa por parte das vítimas é rara.
Com demasiada frequência os problemas das minorias são eles próprios percebidos como problemas  minoritários, menores ou mesmo como não problemas.
Em 2014 foi divulgado um estudo referindo as dificuldades das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens em lidar com crianças e jovens com orientações sexuais diferentes, um problema que raramente é abordado mas que é fonte de sofrimento para muitas crianças, adolescentes famílias.
Um Relatório da Rede Ex-Aequo referia que no ano de 2012 se registaram 37 denúncias de homofobia e transfobia, sendo que 42 % da juventude lésbica, gay ou homossexual afirmou ter sido vítima de bullying homofóbico, 67% dos jovens declarou tê-lo presenciado e 85% afirmou já ter ouvido comentários homofóbicos na escola que frequenta. Em muitas situações desta natureza emergem quadros “baixa auto-estima, isolamento, depressões e ideação e tentativas de suicídio”, contribuindo ainda para o insucesso e para o abandono escolar de muitos jovens. O mesmo relatório referia ainda episódios recorrentes de bullying homofóbico em contextos de praxes académicas, situação que já aqui também comentei.
Recordo que em Novembro de 2011, dados da UNESCO referiam que cerca de 70 % de alunos homossexuais afirma ser vítima de bullying.
De facto, parece evidente o risco de sofrimento por parte destes adolescentes e jovens.
Sabemos também que tanto como intervir na remediação e apoio é fundamental entender que o público mais jovem terá de ser sempre ser um alvo privilegiado, é de "pequenino que se torce o pepino".
Parece também claro que face à dimensão dos incidentes de bullying, de discriminação ou de má abordagem, que continuam a verificar-se dirigidos a um alvo em particular a que acrescem os outros comportamentos da mesma natureza, esta questão se transforme numa preocupação não ideológica mas de direitos e de natureza civilizacional no contexto das políticas e processos educativos.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

SUPERPROTECÇÃO EM EDUCAÇÃO FAMILIAR


Para fugir um pouco à agenda da educação, o conflito entre docentes e um ME que parece em fuga para a frente tardando um processo de negociação sem o qual todos muito provavelmente perderão, incluindo alunos, umas notas sobre pais e filhos.
A imprensa de hoje faz a referência a um estudo divulgado recentemente na Developmental Psychology que acompanhou durante oito anos um grupo de 422 crianças, entre os 2 e os 10 anos, e respectivas mães. Os dados sugerem que excesso de controlo, superprotecção, parece promover comportamentos e emoções menos reguladas nas crianças, ter impacto no ajustamento escolar e nas estratégias de auto-regulação à entrada na pré-adolescência.
O estudo, cuja metodologia sugere alguma reserva no estabelecimento de relações de causa-efeito merece, no entanto, alguma reflexão.
Os que por aqui vão passando reconhecem a frequência com que abordo a importância da promoção da autonomia das crianças como um dos princípios fundadores da educação familiar. O mesmo discurso e a forma de intervir neste sentido nos contextos familiares preenchem também boa parte do trabalho que realizo com pais e com futuros profissionais meus colegas.
Algumas notas repescadas de textos anteriores.  De facto, um processo educativo terá com eixo estruturante a construção de gente que sabe tomar conta de si própria da forma adequada à idade e à função, actividade ou contexto em que se encontra. Este entendimento traduz-se num esforço contínuo de promover a autonomia das crianças e jovens para que "saibam tomar conta de si próprios", no fundo, a velha ideia de, "ensinar a pescar, em vez de dar o peixe".
Parece-me fundamental que adoptemos comportamentos que favoreçam esta autonomia dos miúdos e dos jovens. No entanto, é minha convicção que por razões que se prendem com os estilos de vida, com os valores culturais e sociais actuais, com as alterações das sociedades, questões de segurança, por exemplo, estamos a educar os nossos miúdos de uma forma que não me parece, em termos genéricos, promotora da sua autonomia e auto-regulação.
Parece-me fundamental que adoptemos comportamentos que favoreçam esta autonomia dos miúdos e dos jovens. No entanto, é minha convicção que por razões que se prendem com os estilos de vida, com os valores culturais e sociais actuais, com as alterações das sociedades, questões de segurança, por exemplo, estamos a educar os nossos miúdos de uma forma que não me parece, em termos genéricos, promotora da sua autonomia apesar das inúmeras habilidades e competências que desde muito cedo revelam.
A rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente), os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia. É neste contexto que devem ser colocadas, trabalhadas e decidas as dúvidas sobre o que criança ou adolescente pode ou não fazer só.
Por outro lado, os miúdos são permanentemente bombardeados com saberes e actividades que serão obviamente importantes para o seu desenvolvimento e para o seu futuro mas, ao mesmo tempo, são miúdos, pouco autónomos, pouco envolvidos nas decisões que lhes dizem respeito cumprindo agendas que lhes não dão margem de decisão sobre o quê e o porquê do que fazemos ou não fazemos. Acabam por se tornar menos capazes de decidir sobre o que lhes diz respeito, dependem da "decisão de quem está à sua volta, companheiros ou adultos.
Um exemplo, para clarificar. Um adolescente não habituado a tomar decisões, a fazer escolhas, mais dificilmente dirá não a uma oferta de um qualquer produto ou um a convite de um colega para um comportamento menos desejável. É mais difícil dizer não do que dizer sim aos companheiros da mesma idade. Num sala de aula é bem mais provável que um adolescente tenha um comportamento adequado porque "decida" que é assim que deve ser, do que por "medo" das consequências.
Só miúdos autónomos, autodeterminados, informados e orientados sobre os riscos e as escolhas serão mais capazes de dizer não ao que se espera que digam não e escolher de forma ajustada o que fazer ou pensar em diferentes situações do seu quotidiano. Este entendimento sublinha a importância de em todo processo de educação, logo de muito pequeno, em casa e na escola, se estimular a autonomia dos miúdos.
Creio que este entendimento está pouco presente em muito do que fazemos em matéria de educação familiar ou escolar e para todos os miúdos.
Todos beneficiariam, miúdos e adultos.

DIA MUNDIAL DO REFUGIADO


Voltamos à agenda das consciências. Hoje, dia 20 de Junho, devemos pensar no Dia Mundial do Refugiado. Qual refugiado?
Do refugiado da fome, da miséria e da guerra? Ou do que se refugia na abundância obscena?
Do refugiado do fundamentalismo religioso intolerante? Ou do que, com medo de existir, se refugia num Deus?
Do refugiado em si? Ou do refugiado entre a gente?
Do refugiado político? Ou do que se refugia na política?
Do sem-abrigo, refugiado da rua? Ou do refugiado, abrigado, em condomínio fechado?
Do trabalhador escravo da miragem de um refúgio? Ou que se refugia no trabalho para não sonhar a miragem?
Do refugiado que envelhece refugiado?
Da criança refugiada na rua? Ou da criança refugiada numa instituição?
Do miúdo colocado, refugiado, em mil actividades? Ou do miúdo refugiado no mundo de um ecrã?
Das crianças e adultos refugiados na indiferença perante a diferença?
Dos Direitos Humanos refugiados? Ou dos refugiados sem Direitos Humanos?
Do refugiado de uma insuportável existência? Ou da insuportável existência do refugiado?
Não sei. É o Dia Mundial dos Refugiados.

Post Scriptum - Donald Trump consegue ainda refugiar crianças já refugiadas de vida numa gaiola separadas dos pais. Não há palavras! 

terça-feira, 19 de junho de 2018

A EDUCAÇÃO E A ESCOLA PÚBLICA SOB FORTES ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

O clima instalado entre professores e ME parece continuar numa trajectória que inibe a negociação, única forma de recuperar alguma estabilidade, um bem de primeira necessidade em educação.
Este clima é propício e também se alimenta de discursos que ao abrigo de diferentes agendas muitos comentadores e figuras públicas vão produzindo.
Boa parte destes discursos promove de forma mais ou menos explícita a diabolização dos professores cavalgando o processo de reivindicação relativo à carreira, à progressão e ao estatuto salarial que, de acordo com o quadro legal, é justo na sua essência. Além disso, insistem em negar o óbvio, a carreira de professor tem especificidades que a torna ... específica e não demagogicamente comparada a todas (quase todas, evidentemente, com algumas não convém) as outras carreiras da administração. 
No âmbito destes discursos foi com alguma perplexidade e inquietação que vi mais um passo nesta escalada de instabilidade e ataque aos professores e à escola pública. A CONFAP alerta em comunicado que partindo das óbvias preocupações que decorrem da actual situação a reacção dos pais pode passar por ““repensar a política educativa sobre os contratos de associação ou outras formas que permitam a todas as famílias poderem fazer a sua escolha pela escola”, incluindo a escolha pelos colégios privados”, lê-se no Observador, claro, acrescento eu.
É evidente que a situação é preocupante, daí a exigência da negociação como única saída.
No entanto, uma nota para que acentuar que a esmagadora maioria dos professores desenvolve diariamente uma outra luta, a luta pelo desenvolvimento e sucesso do trabalhos dos alunos. Esta luta é desenvolvida muitas vezes em condições e com recursos pouco amigáveis, para ser simpático, mas a que a competência e sentido ético e deontológico tentam responder.
Sim, eu sei que temos ainda muitos problemas, um ainda pesado caderno de encargos. No entanto diariamente se processam trabalhos notáveis.
Apenas dois exemplos para que não nos esqueçamos.  
Uma primeira referência ao número muito significativo em termos comprados de alunos com notas de excelência e que frequentam escolas públicas.
Uma segunda nota para referir mais uma escola, apenas mais uma, em que o trabalho desenvolvido em circunstâncias adversas faz a diferença na vida dos alunos, promove competência, desenvolvimento, sucesso, alicerçando projectos de vida positivos, incluindo nos alunos que nascem para "cumprir o destino", o insucesso.

ESTAS CRIANÇAS NÃO PARAM. NÃO! ESTAS CRIANÇAS NÃO SE MEXEM.


Agora na Visão online. Umas notas sobre as rotinas de boa parte das nossas crianças nas quais estão pouco presentes, a brincadeira, a actividade física e, de uma forma geral, as actividades de ar livre.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

O MUNDO ANDA UM LUGAR ESTRANHO

Na verdade a coisa anda estranha ... ou talvez não.
O PCP coloca-se ao lado do CDS-PP e determina para os seus deputados o vota contra a legalização da eutanásia por considerar que seria um "retrocesso civilizacional".
O PSD elogia sindicatos dos professores e defende as suas posições no conflito com o ME.
O PCP vê com maus olhos a Iniciativa Legislativa de Cidadãos que pretende obrigar o Parlamento a posicionar-se no mesmo conflito, esta coisa dos cidadãos pretenderem pensar e agir fora de uma agenda partidária é um bocado embaraçante.
Assim, não está fácil.


ESTÁ ABERTA A ÉPOCA DE EXAMES


De há uns tempos para cá o universo da educação é ciclicamente abanado por algo a que podemos chamar "os exames".
De facto, sobretudo com o Ministro Nuno Crato, um homem que parece ter uma relação fetichista ou mágica com os exames, chegada a altura as escolas entram em modo exames e é o "tudo" da vida de professores, alunos e famílias.
Este "tudo", como é evidente, sai das escolas, entra pela casa dos alunos inquietando as famílias, pelos centros de explicações, naturalmente, e chega também à comunicação social.
Os exames são o grande tema de conversa, a bondade da sua realização, o calendário, os efeitos, as condições de realização, a sua maior ou menor dificuldade e adequação, os resultados e finalmente os rankings. Depois resta aguardar por novo ciclo.
Também a comunicação social tem acompanhado este "tudo". Regularmente em cada época temos trabalhos sobre o comportamento a adoptar por alunos, as estratégias de preparação, a actuação dos pais, etc. Eu próprio tenho solicitações frequentes no sentido de contribuir para estas abordagens. Todos os conselhos serão úteis, espera-se mas a minha convicção é que, independentemente dos resultados a generalidade dos alunos saberá os procedimentos a adoptar com base no seu trabalho anterior e no trabalho dos seus professores.
No entanto, o "tudo" que os exames passam a ser não se confina aos aspectos mais próximos da vida escolar. 
No Público de Domingo aparecia uma peça sobre o tema exames, claro, que incluía os cuidados de alimentação a ter na época de exames. Devo confessar que vejo isto com alguma curiosidade.
Não está em causa, evidentemente, a qualidade da alimentação de crianças e jovens, um problema de todos os dias e não da época de exames. O que me assusta é este discurso excessivo, centrado nos exames que, do meu ponto de vista, por melhor intencionado que seja, corre o risco de fazer parte do problema e não parte da solução. Estou a imaginar alguns pais mais extremosos e ou preocupados com a excelência dos resultados escolares a estabelecerem "Programas alimentares" ou "Dietas" que obrigarão os seus filhos a cumprir escrupulosamente como meio para atingir o sucesso nos exames.
Querendo colaborar e no mesmo sentido talvez seja necessário estar atento ao tipo de música que os alunos ouvem quando estudam (se ouvirem música é claro). Não deverá ser uma música qualquer, deverá ser uma música que potencie a aprendizagem e que promova a concentração.
Já agora parece importante pensar na roupa que usam, deve ser confortável, não muito apertada para não dificultar a circulação sanguínea, nem muito larga que o implica andar sempre a compô-la e a perder tempo.
Merece ainda reflexão a qualidade dos ambientes de estudo, a cor das paredes, a iluminação, o mobiliário, a qualidade acústica e térmica dos espaços, etc.
Uma outra variável que poderá ser controlada será o estudo "acompanhado". Talvez seja de sugerir que cada aluno só estude com outros alunos mais competentes (com os melhores é que se aprende, dizem), nada de estudar com amigos chegados e, muito menos, com namorados ou namoradas. Podem ser uma fonte de distracção "fatal".
Bom, mais a sério, como muitas vezes tenho escrito e defendido publicamente, não tenho nenhuma convicção de que os exames, muitos exames, só por existirem e nos termos em que existem, melhorem a qualidade, longe disso. Mas sempre tenho dito que a generalidade dos miúdos, mais pequenos ou mais crescidos, lidam com os exames com alguma serenidade.
Os discursos de muitos adultos, pais ou professores, e a forma como é referido e analisado este "tudo", os exames, é que podem constituir-se como fontes de instabilidade.
Estou a lembrar-me dos Pink Floyd, "Deixem as crianças em paz". Elas são resilientes.

O EXAME

Este ano a época de exames é bem mais abrangente.
Para além das competências dos alunos nas diferentes áreas disciplinares e dos diferentes anos, está em avaliação a competência negocial do ME e dos representandes dos professores. Negociar é a única forma de recupera alguma estabilidade no sistema educativo.
Oxalá todos os examinados tenham bons resultados. 
Ganhamos todos.

domingo, 17 de junho de 2018

E AGORA?


Uma iniciativa legislativa de cidadãos lançou via net a recolha de 20000 assinaturas, as necessárias para obrigar o Parlamento a votar a contagem integral do tempo de serviço docente prestado pelos professores que não foi contabilizado em períodos anteriores a 2018, para efeitos de progressão na carreira e remuneração. O número foi atingido pelo que a questão ser discutida na Assembleia da República.
Uma nota para registar a natureza da iniciativa e o objectivo alcançado.
Quanto ao resultado da votação, lamento mas acho que o sentido do voto das diferentes bancadas será genericamente decidido pela avaliação que cada grupo parlamentar faça dos seus interesses e dos potenciais dividendos com a decisão, temos eleições em 2019, e menos da avaliação da bondade dos objectivos da iniciativa.
Nada de novo, são as contas da partidocracia.
No entanto e por razões da mesma natureza qualquer que seja o sentido da votação na AR, o resultado influenciará seguramente o inevitável processo negocial, única forma de ultrapassar o conflito instalado.

DEFICIÊNCIA E EMPREGO


Um docente da U. de Coimbra, Jorge Leite, afirmou publicamente que nem as instituições públicas nem o sector privado cumprem a quota de 5% estabelecida da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra Jorge Leite estabelecidas legalmente como forma de promoção do emprego de pessoas com deficiência.
Como frequentemente aqui refiro, a questão do emprego é crítica para muitos milhares de pessoas e suas famílias e com pouco eco no espaço mediático, como sempre as vozes das minorias soam baixo.
Recordo que com dados de Dezembro de 2017, a Administração Pública contratou desde 2010 46 pessoas com deficiência em 24 mil vagas e até essa altura ainda não teria sido contratado ninguém nesta condição.
Elucidativo das preocupações do chamado estado social.
A este propósito também é de registar que nas Grandes Opções do Plano para 2018 o Governo identificou a inclusão de pessoas com deficiência ou incapacidade como uma prioridade central. Nesta perspectiva, afirmava-se pretender desenvolver políticas que sustentem a igualdade de oportunidades definindo medidas como o estabelecimento de quotas no mercado de emprego destinadas a pessoas com deficiência ou incapacidade ou acções de formação profissional no sistema regular de formação e o incremento de estágios profissionais em empresas e organizações do sector público e social.
Por princípio, não simpatizo com o recurso ao estabelecimento de quotas para solução ou minimização de problemas de equidade ou desigualdade. As razões parecem-me óbvias, justamente no plano dos direitos, da equidade e na igualdade de oportunidades.
No entanto, também aceito que o estabelecimento de quotas possa ser um passo e um contributo para minimizar a discriminação. No entanto, é estranho, ou nem por isso, que seja a Administração a não cumprir o que para si estabeleceu em 2010.
E na verdade a questão do emprego de pessoas com deficiência é uma questão de enorme relevância. Apesar de evidente recuperação nos níveis de desemprego as pessoas com deficiência continuam altamente vulneráveis a este problema.
Um Relatório de 2014, "Monitorização dos Direitos Humanos das Pessoas com Deficiência em Portugal", divulgado no âmbito da terceira conferência anual da Associação Europeia de Estudos da Deficiência, indiciava que existem empresas que usam indevidamente os apoios estatais para a contratação de pessoas com deficiência obrigando estes trabalhadores a estágios sucessivos e a uma situação de precariedade. Este expediente é, aliás usado com outros grupos, jovens, por exemplo.
As pessoas com deficiência em Portugal têm uma taxa de risco de pobreza 25% superior à das pessoas sem qualquer deficiência e o desemprego neste grupo social terá aumentado cerca de 70 % face a 2011 estimando-se actualmente que ronde os 75 %, uma taxa catastrófica.
Sabemos que os recursos são finitos e os tempos de contenção, mas pode-se afirmar que para as pessoas com deficiência os tempos sempre foram de recursos finitos e de contenção, ou seja, as dificuldades são recorrentes e persistentes.
Creio também que é justamente no tempo em que as dificuldades mais ameaçam a generalidades das pessoas que se avoluma a vulnerabilidade das minorias e, portanto, se acentua a necessidade de apoio e de políticas sociais mais sólidas, mais eficazes e, naturalmente, mais reguladas.
Os números sobre o desemprego nas pessoas com deficiência são dramaticamente elucidativos desta maior vulnerabilidade. A vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, em variadíssimas áreas como mobilidade e acessibilidade, educação, emprego, saúde e apoio social, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são enormes.
Assim sendo, exige-se a quem decide uma ponderação criteriosa de prioridades que proteja os cidadãos dos riscos de exclusão, em particular os que se encontram em situações mais vulneráveis.
As pessoas com deficiência e as suas famílias fazem parte deste grupo.

sábado, 16 de junho de 2018

A INDÚSTRIA DO SUCESSO


O terceiro período está terminar e aproxima-se a época de exames. Como costumo dizer, estes são o tempo das explicações, procura-se a “recuperação” que evite o “chumbo”, o “saltinho” até à excelência ou a preparação para os exames.
Andar pela proximidade de muitas escolas escolas mostra a abundância da oferta de “explicações” com variadíssimas designações como “Centros de Estudo”, “Sala de Estudos”, “Academias”, “Ginásios”, etc., que provavelmente terão mais efeito “catch” no sentido de atingir o “target”.
O mercado está sempre atento.
Com alguma regularidade desloco-me a um local perto de uma escola básica integrada de dimensão significativa. Como não podia deixar de ser existem vários espaços para “explicações”.
Um deles, mesmo em frente à escola, divulga numa enorme montra um impressionante conjunto de serviços.
Começa por afirmar que recorre a metodologias divertidas para aprender melhor.
Depois temos o elenco de respostas:
Explicações de todos os níveis
Centro de alto rendimento escolar
Preparação para exames
Estratégias educativas
Motivação e auto-estima
Gestão de ansiedade
Stresse nos exames
Mindfulness terapia
Actividades de férias
Confesso que fiquei esmagado. Escola e professores para quê?
Apesar de nada ter contra a iniciativa privada, desde que regulada e com enquadramento legal, várias vezes tenho insistido no sentido de entender como desejável que os apoios e ajudas de que os alunos necessitam fossem encontrados dentro das escolas e agrupamentos. O impacto no sucesso dos alunos minimizaria, certamente, eventuais custos em recursos que, aliás, em alguns casos já existem dentro do sistema.
Esta minha posição radica no entendimento de que a procura “externa” de apoios, legítima por parte das famílias, tem também como efeito o alimentar da desigualdade de oportunidades e da falta de equidade como sucessivos relatórios nacionais e internacionais referem e de que aqui já falei.
A ajuda externa ao estudo como ferramenta promotora do sucesso não está ao alcance de todas as famílias pelo que é fundamental que as escolas possam dispor dos dispositivos de apoio suficientes e qualificados para que se possa garantir, tanto quanto possível, a equidade de oportunidades e a protecção dos direitos dos miúdos, de todos os miúdos.
As necessidades dos alunos poderiam ser atenuadas com o recurso a professores que já estão no quadro ou com contratos sucessivos. Também por estas razões a narrativa dos professores a mais é ... isso mesmo, uma narrativa.
De uma vez por todas, é necessário contenção e combate ao desperdício, mas em educação não há despesa há investimento.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

TÊM DE NEGOCIAR. QUAL DESTAS PALAVRAS NÃO ENTENDEM?


Têm de negociar. Qual destas palavras não entendem?
Fugir para frente, torcer o quadro legal para minimizar protestos ou tomar posições irredutíveis não será certamente a melhor forma de gerir um conflito. O que está em risco é muito superior ao custo da negociação.
Os custos de promover justiça são sempre mais baixos que o seu valor facial em euros.
Post Scriptum - Acho particularmente interessante ouvir figuras proeminentes do PSD, David Justino ou Fernado Negrão, afirmar que as promessas do Governo têm de ser cumpridas. Eu  também acho mas vindo das lideranças do PSD ... Como dizia outra figura de grande peso no cenário politico "Há muita fraca memória".

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O NÚMERO DE PROFESSORES NO SISTEMA


A imprensa de hoje refere dados da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência segundo os quais de 15/16 para 16/17 tivemos menos 20281 alunos no ensino básico e mais 3228 docentes.
Ressuscita-se, certamente por coincidência, o número de professores no sistema e, sobretudo, a ideia de professores a mais. Alguns dos títulos são bons exemplos.
Antes de algumas notas convém não esquecer que segundo a Fenprof estima-se que estarão de baixa médica cerca de 12000 professores.
Talvez seja também de recuperar, pensando nas consequências a curto/médio prazo, que conforme o Relatório “Perfil do Docente” também da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação de 2016 e considerando dados de 14/15, apenas 1.4% dos docentes que leccionam em escolas públicas têm menos de 30 anos, não chegam a 500.
Acresce que o grupo etário com mais de 50 anos é o mais representado, 39.5%. Se a este grupo adicionarmos o escalão imediatamente anterior, 40 aos 49, temos que 77,3% dos docentes estão nos dois grupos mais velhos.
Como escrevi há uns dias se juntarmos o baixo número de saídas para aposentação num país preocupado com o futuro este cenário faria emitir, como agora se usa, um alerta vermelho e agir em conformidade.
Como já tenho referido, parece-me claro que a questão do número de professores necessário ao funcionamento do sistema é uma matéria bastante complexa que, por isso mesmo, exige serenidade, seriedade, rigor e competência na sua análise e gestão, justamente o que tem faltado nesta matéria, incluindo a alguns discursos de representantes dos professores.
Para além da questão da demografia escolar, muitas vezes usada de forma demagógica, importa não esquecer que existem muitos professores deslocados de funções docentes, boa parte em funções técnicas e administrativas que em muitos casos seriam dispensáveis pois fazem parte de estruturas do Ministério pesadas, burocráticas e ineficazes.
Por outro lado, os modelos de organização e funcionamento das escolas, com uma série infindável de estruturas intermédias e com um excesso insuportável de burocratização, retiram muitas horas docentes ao trabalho dos professores que estão nas escolas.
No entanto e do meu ponto de vista, o “excesso” de professores no sistema e sem trabalho deve ser também analisado à luz das medidas Política Educativa que há anos têm vindo a ser seguidas.
Conhecendo os territórios educativos do nosso país, julgo que faria sentido que os recursos que já estão no sistema, pelo menos esses e incluindo os contratados com muitos anos de experiência, fossem aproveitados em trabalho de parceria pedagógica, que se permitisse a existência em escolas mais problemáticas de menos alunos por turma ou ainda que se utilizassem em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades.
Os estudos e as boas práticas mostram que a presença de dois professores na sala de aula são um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos.
Sendo exactamente estes os dois problemas que afectam os nossos alunos, talvez o investimento resultante da presença de dois docentes ou de mais apoios aos alunos, compense os custos posteriores com o insucesso, as medidas remediativas ou, no fim da linha, a exclusão, com todas as consequências conhecidas. Talvez fosse também um caminho para a promoção de mais qualidade e inclusão, ou, dito de outra maneira, para combater o insucesso e o abandono.
É só fazer contas mas, não apenas para um ano.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O RAPAZ QUE NÃO SABIA CANTAR


Desde o início se notou que o Rapaz não funcionava como as outras pessoas. Em bebé chorava com um choro estranho, pouco habitual nos outros bebés. As suas primeiras palavras também não soavam como as dos seus companheiros de creche, tinham uns sons por vezes esquisitos. Quando entrou na escola as diferenças mantiveram-se, o Rapaz tinha uma linguagem perceptível, um vocabulário ajustado à idade, mas as palavras ditas por si tinham frequentemente uma entoação estranha que o distinguia dos outros.
A situação ficou mais evidente quando colocaram o Rapaz em actividades em que tinha de cantar. Todo a gente achava um pesadelo, nunca se tinha visto, ou melhor, nunca se tinha ouvido um rapaz com tanta falta de jeito para cantar.
Os professores destas áreas foram-lhe pedindo para nem sequer tentar cantar porque, diziam, era insuportável ouvir aquele som que o Rapaz tenta esforçadamente produzir.
O Rapaz foi-se assim habituando a ficar calado e só quando não podia deixar de ser comunicava com alguém e cantar deixou mesmo de o fazer. Na verdade, quando estava só ensaiava cantar e achava que o que os seus ouvidos lhe mostravam não era assim tão mau como lhe diziam. O seu comportamento, discreto, calado, tornou, assim, suportável a sua presença junto das pessoas.
O Rapaz aprendeu que o mundo não gosta de desafinados, percebeu que dificilmente faria parte de qualquer coro. Ficou algo desconsolado porque gostava muito de música e de cantar, como quase toda a gente.

E DEPOIS?


Dizem os manuais sobre resolução de conflitos que, de uma forma simples, a melhor solução é “ganhar, ganhar”, todas as partes envolvidas entendem que obtiveram o melhor resultado possível.
Para que esta solução seja conseguida exige-se bom senso, vontade de entendimento, legalidade, justiça, transparência, seriedade e uma visão sobre um bem maior.
Neste momento, a actual situação de conflito entre professores e ME, tendo começado mais confinada a uma questão de euros, reposição justa de salários e carreira congelados durante mais de nove anos, já não é “só” uma questão de euros e tem vindo a verificar-se uma perigosa fuga para a frente por parte do ME que ameaça seriamente o resultado final para além de que algumas das decisões acrescentam mais problemas e não soluções.
Negociação não é o que se está a acontecer.
Os riscos de não acabar bem avolumam-se e creio que poderemos chegar uma solução de “perder, perder”. Ganharão os arautos da desgraça, os do "quanto pior, melhor". Esquecem-se que têm filhos  e netos
E depois?

terça-feira, 12 de junho de 2018

DO "SUPERIOR INTERESSE DA CRIANÇA" E DO "NÃO PREJUDICAR OS ALUNOS"


Após quatro décadas de ligação profissional ao universo da educação, em vários contextos e com intervenção de natureza diferente, já me cansa ouvir falar do “superior interesse da criança” ou na sua variante escolar “não prejudicar os alunos” para justificar tudo e mais alguma coisa, incluindo o que desrespeita o "superior interesse" da ... criança e aluno. Em boa parte das circunstâncias o recurso a estas fórmulas apenas mascara ou pretende mascarar decisões, comportamentos e atitudes que não servem crianças  e alunos, directa ou indirectamente.
Em termos globais, o que acautela “o superior interesse da criança” ou “não prejudica” os alunos são políticas públicas sectoriais competentes, com visão a prazo, com sustentabilidade ainda que com rigor e sem desperdício, com definição de prioridades que sirvam de facto os destinatários, que capacitem, regulem, valorizem e avaliem de forma adequada toda a acção desenvolvida pela generalidade dos actores envolvidos, que se libertem de agendas de interesses corporativos ou partidários mas não ideológicos (sim, a conflitualidade de visões é uma base de desenvolvimento e regulação que é importante existir), etc.
O caminho é por aqui, se assim o decidirmos.
Não é nada de extraordinário, creio. Trata-se “apenas” de defender o “superior interesse da criança” e “não prejudicar os alunos".

ELA HÁ COISAS


Ele há coisas mesmo curiosas.
Ontem comentei o título de uma peça do Público sobre o Relatório divulgado também ontem pela OCDE, “Effective Teacher Policies”. Dizia assim, “OCDE defende avaliação de professores para detectar e melhorar falhas” que justifica uma leitura atenta e aprofundada que ainda não realizei, dei uma rápida vista de olhos.
Como referi, curiosamente o relatório assenta, entre outros dados, nos resultados do PISA que mostraram uma melhoria significativa dos resultados dos alunos portugueses que também se verificou no TIMSS de 2015. 
Como não acredito que os alunos tenham estado em autogestão parece claro que a esmagadora maioria dos professores é competente mesmo quando enfrentam políticas educativas pouco amigáveis o que, evidentemente, desagrada a alguns opinadores.
Hoje, também com base no Relatório da OCDE é o Correio da Manhã que coloca em 1ª página “Professores perdem 10% do salário e alunos têm melhores resultados”. Muito interessante esta habilidosa associação considerando os tempos que correm e os problemas profissionais que os docentes sentem.
E assim se produz opinião.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

DOS PROFESSORES


A OCDE divulgou hoje um relatório “Effective Teacher Policies” sobre a condição professor que justifica uma leitura atenta e aprofundada que ainda não realizei, apenas uma viagem superficial sobre os conteúdos.
Fica o resumo do Relatório:
Teachers are the most important resource in today’s schools. In every country, teachers’ salaries and training represent the greatest share of expenditure in education. And this investment in teachers can have significant returns: research shows that being taught by the best teachers can make a real difference in the learning and life outcomes of otherwise similar students. Teachers, in other words, are not interchangeable workers in some sort of industrial assembly line; individual teachers can change lives – and better teachers are crucial to improving the education that schools provide. Improving the effectiveness, efficiency and equity of schooling depends, in large measure, on ensuring that competent people want to work as teachers, that their teaching is of high quality and that high-quality teaching is provided to all students. This report, building on data from the Indicators of Education Systems (INES) programme, the Teaching and Learning International Survey (TALIS) and the Programme for International Student Assessment (PISA), explores three teacher-policy questions: How do the best-performing countries select, develop, evaluate and compensate teachers? How does teacher sorting across schools affect the equity of education systems? And how can countries attract and retain talented men and women to teaching?”
A propósito da publicação deste relatório o Público tem como título “OCDE defende avaliação de professores para detectar e melhorar falhas” numa das peças que lhe dedica. Vem mesmo "a calhar" esta referência aos professore que "não são avaliados" segundo alguns opinadores
Curiosamente, o relatório assenta nos dados do PISA que mostraram uma melhoria significativa dos resultados dos alunos portugueses que também se verificou no TIMSS de 2015.
Como não acredito que os alunos tenham estado em autogestão e sejam autodidactas, parece claro que a esmagadora maioria dos professores é competente e empenhada mesmo quando enfrentam políticas educativas pouco amigáveis. É também claro que algumas agendas impedem que tal seja reconhecido por alguma da opinião publicada.
Dito isto acrescento que sim, é importante melhorar a avaliação e regulação do trabalho docente, sim é importante ajustar permanentemente a sua formação inicial e contínua. É normal em qualquer profissão.
No entanto, o Relatório foca outros aspectos que são menos “lembrados” mas que são críticos como a valorização dos professores, a sua compensação salarial, a estabilidade das equipas docentes das escolas, a autonomia das escolas, a liderança, etc. Mas esta coisa da "avaliação dosprofessores" é sempre uma matéria que rende.
Voltaremos a isto.

domingo, 10 de junho de 2018

E DE REPENTE RECORDEI-ME


Segundo o Público, à boleia da questão em torno da reposição dos salários dos professores, o Governo começa a considerar a alteração da carreira docente, designadamente os mecanismos de progressão e avaliação. Algumas vozes já se vão ouvindo preparando o caminho.
Não me parece estranho que se actualizem enquadramentos legais, lembrando Camões, o mundo é composto de mudança tomando sempre novas qualidades.
Já me parece mais curioso que venha o argumentário dos “privilégios” face a outras carreiras da administração e a questão da avaliação, justamente o núcleo duro da agenda dos “homens da luta” contra os professores.
A verdade é que, de facto, a carreira dos professores tem especificidades que a distinguem de outros grupos profissionais e comparar o incomparável é demagógico mas pode render apoios e os opinadores do costume terão a cartilha preparada.
Quanto à avaliação, a proposta de Maria de Lourdes Rodrigues levantou sérias reservas não porque estivesse em causa a importância da avaliação do trabalho dos professores como instrumento imprescindível à qualidade. Os professores sabem isto melhor que ninguém, faz parte do seu trabalho diário.
O que estava em causa é que o modelo proposto era profundamente incompetente e estava a associado a uma insustentável divisão dos professores entre titulares e “outros” que minou o lima das escolas.
Fiquei inquieto com o que li e parece desenhar-se, fez-me recordar Maria Lurdes Rodrigues e a sua famosa afirmação, “Perdi os professores, mas ganhei a opinião pública”.
Será mau se for este o caminho. As mudanças substantivas fazem-se com as pessoas não contra as pessoas.

sábado, 9 de junho de 2018

O CANTO DA SEREIA


O texto de João Miguel Tavares hoje no Público parece suscitar alguma aceitação e convites à reflexão, incluindo no universo da educação.  
Aparentemente procura ajustar, amaciando, as suas habituais e quase sempre pouco conhecedoras opiniões sobre educação. É dos que entende que basta ter filhos na escola para conhecer o tudo da educação e dos professores. Não é o único, a educação em Portugal é considerada matéria de opinião não de saber e conhecimento. Basta ter filhos, ter andado na escola ou conhecer algum professor e já está, opina-se de cátedra.
A prosa de hoje faz-me lembrar o mito do canto da sereia.

A GUERRA É A GUERRA


Boa parte do que a imprensa e muitos opinadores tudólogos têm produzido sobre educação nos últimos dias, para além da indignação pela falta de seriedade intelectual, (não acredito na ignorância), tem-me causado alguma tristeza.
A questão da carreira dos professores é uma situação complexa sobretudo pelo impacto da reposição dos efeitos de congelamento verificado. Não estranho, pois, a discussão que tem gerado e a dificuldade de encontrar compromissos.
O que me parece mais curioso é que esta discussão seja alimentada também por uma agenda que dela se serve para diabolização dos professores, as pessoas a quem entregamos os nossos filhos todos os dias.
A discussão serve também para que se possa atacar a escola pública e o esforço e a competência da esmagadora maioria dos que nela trabalham.
Continuam a aparecer na comunicação social nos seus vários formatos intervenções que produzidas pelos “falcões” habituais ou caceteiros de ocasião são intelectualmente desonestas, escondendo realidades sobre os professores e o seu trabalho e o trabalho de alunos e escolas e recorrendo às tão em moda “fake news”, factos alternativos.
Como escrevi vejo muita gente ligada à educação considerar como ignorantes as afirmações de muitos desses opinadores. Não sejamos ingénuos, não é ignorância, é guerra política pura e dura.
Como cantava o Fausto, “a guerra é a guerra”.
A educação e a sua qualidade são ferramentas essenciais de desenvolvimento. Apesar do que falta fazer e de situações que não deveriam acontecer, de políticas de sinal errado, alunos e professores têm evoluído positivamente no seu trabalho e constroem saber, ou seja, constroem o futuro.
Como diz Ordine no estimulante ”A utilidade do inútil”, “Só o saber pode desafiar uma vez mais as leis do mercado. Eu posso comungar com os outros os meus conhecimentos sem empobrecer…. Ensinar é um processo virtuoso que enriquece. Ao mesmo tempo, quem dá e quem recebe”.
Não, não é um discurso ingénuo ou romântico, estes anos todos de estrada dão-me alguma lucidez, creio. Os Professores e Educadores e de uma forma geral quem passou pela escola e não tem preconceitos ou agendas implícitas reconhece que é verdade.
No entanto, sei também que acontecem verdadeiros atropelos no quotidiano escolar. Entendo de há muito que um dos pecados estruturais do sistema é justamente a falta de dispositivos de regulação o que permite que coexistam na mesma escola a excelência e a mediocridade sem sobressaltos aparentes.
É assim triste que tantos e tão manhosamente ataquem quem, na sua esmagadora maioria, lhes leva os filhos ao futuro e os trouxe ao presente que têm.
Uma comunidade que não valoriza os seus professores e o seu trabalho é uma comunidade certamente mais pobre e menos desenvolvida. A Educação, o Conhecimento, a Formação são ferramentas de construção e distribuição de riqueza. Os professores e os alunos, futuros adultos, são os obreiros desta empresa. Respeitem-nos!

sexta-feira, 8 de junho de 2018

PAS DE CELLULAIRES, S'IL VOUS PLAIT

Conforme já tinha sido anunciado foi aprovado ontem pela Assembleia Nacional a proibição já no próximo ano lectivo do uso de telemóveis nas escolas básicas e secundárias sendo que a proibição também envolve os professores. O Ministro da Educação refere a aprovação de uma “lei da desintoxicação”, 90% das crianças francesas a partir dos 12 anos tem telemóvel.
Os dispositivos podem ser usados para “fins educacionais” ou por alunos com necessidades especiais para os quais sejam imprescindíveis.
O Ministro defende “Hoje em dia, as crianças já não brincam no recreio, porque estão todas à volta do seu smartphone e entende que a decisão é "uma mensagem de saúde pública para as famílias".
Embora a razão que a sustenta, o uso excessivo deste tipo de dispositivos por parte de crianças e adolescentes com risco directos e indirectos reconhecidos, seja óbvia a decisão não é consensual.
Ao que parece existem pais que se inquietam com a impossibilidade de contactar com os filhos e também levantam algumas questões de funcionalidade.
se colocam questões de natureza logística, como recolher, guardar e devolver a quantidade de telemóveis no entanto esta é a parte que me parece menos discutível se bem que a dificuldade logística seja evidente.
Acresce que a utilização dos smartphone e telemóveis nas salas de aula como ferramenta de trabalho e de suporte à aprendizagem e ao conhecimento está aí e está para se incrementar o que me parece natural. Fica algo estranho que nas aulas possam trabalhar com os dispositivos e no intervalo sejam proibidos de os utilizar.
Não tenho nenhuma convicção que esta estratégia de proibição devolva crianças e adolescentes à conversa e aos “jogos tradicionais” embora seja imprescindível a regulação do seu uso.
A questão estará a montante, a utilização que nós todos damos a estes dispositivos. Seria bastante mais interessante que se discutisse a sério nas comunidades educativas a regulação dos comportamentos e definição de regras e limites, sem “supernannys”, sem “superdaddys” ou “superstores”. No entanto esta discussão tem de ser acompanhada pela nossa, adultos e profissionais, regulação da sua utilização. Se olharmos para muitas famílias em “convívio” ou para muitos contextos profissionais em “reunião” e repararmos o que está acontecer nos ecrãs que muitos terão à sua frente perceberemos o que está por fazer, comportamento gera comportamento.
Apesar de bem-intencionada a decisão de proibição não me parece eficaz e, mais do ue isso, poderá levantar novos problemas. conflitualidade, por exemplo.
Tenho alguma curiosidade sobre a apreciação que os docentes das nossas escolas farão da medida e do seu potencial de eficácia.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A EDUCAÇÃO EM ALERTA VERMELHO


Num exercício simplista poderia dizer que a prazo desinvestir na educação sai mais caro que salvar um banco dos desmandos delinquentes de administrações e de mercados desregulados.
O clima de instabilidade que está instalado no universo da educação decorrente das questões profissionais que afectam os professores, mas não só, justificaria um alerta vermelho.
Nesta matéria estamos todos envolvidos, alunos, famílias, lideranças políticas, comunicação social, etc., pelo que, como sempre digo, muitos dos problemas dos professores são também problemas nossos na medida em que se repercutem de diferentes formas na qualidade do trabalho de alunos e professores.
Neste quadro, parece-me sempre importante sublinhar algo que de tão óbvio por vezes se esquece, a importância essencial e a responsabilidade que o trabalho dos professores assume na construção do futuro. Tudo passa pela escola e pela educação.
Alguns dos discursos que de forma ligeira e muitas vezes ignorante ocupam tempo de antena na imprensa, parecem esquecer a importância deste trabalho e das circunstâncias em que se desenvolve bem como das condições profissionais do desempenho dos professores.
Como há dias escrevi, um dos grandes problemas que aflige a educação em Portugal é que a educação é um terreno altamente permeável e apetecível para as lutas de poder e controlo da partidocracia vigente, muito divido entre quintais, corporações e umbiguismos que lhe retira serenidade e alimenta uma gestão de interesses e das políticas educativas com agendas de múltipla natureza.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade.
Os sistemas educativos com melhores resultados são, justamente, os sistemas em que os professores são mais valorizados, apoiados e reconhecidos.

NÃO SOMOS UM "PAÍS DE DOUTORES", NÃO TEMOS QUALIFICAÇÃO A MAIS, TEMOS DESENVOLVIMENTO A MENOS


De acordo com dados ainda não definitivos divulgados pelo ME e contrariamente ao que tinha acontecido em 2017, voltou a baixar apesar de pouco significativamente o número de alunos que na inscrição para os exames nacionais do secundário deste ano manifestaram a intenção de prosseguir estudos no superior, de 56% para 55%. São também em menor número os alunos já inscritos, de 161 306 para 159650.
A abordagem às razões para este cenário de preocupante desinvestimento na formação superior, politécnica ou universitária, remete quase sempre para as dificuldades económicas das famílias.
Dados disponíveis têm sustentado este entendimento mas, do meu ponto de vista, há ainda que considerar os eventuais efeitos de um discurso recorrentemente difundido de que, dada a enorme taxa de desemprego de jovens com qualificação superior, o investimento numa qualificação superior não compensa pois não existe mercado de trabalho, alguns empregos que surgem são precários e mal pagos e muita gente qualificada tem sido empurrada para fora por falta de futuro cá.
Por partes. Na verdade, Portugal, conforme alguns estudos demonstram, tem comparativamente a muitos outros países da Europa, um dos mais altos custos para as famílias a situação de um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior privado o esforço é ainda maior. Tem vindo a ser regularmente noticiada a desistência da frequência dos cursos por muitos alunos que, por si, ou os respectivos agregados familiares não suportam os encargos com o estudo.
Estas dificuldades são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Neste contexto, o abaixamento na intenção de prosseguir estudos superiores pode estar associado às dificuldades enormes que muitas famílias atravessam e o desemprego mais elevado entre os jovens, que poderia constituir uma pressão para continuar os estudos a que acresce a redução significativa das bolsas e apoios, tornam ainda mais difícil a realização de percursos escolares que promovam mobilidade social e que se traduz, por exemplo, no aumento das desistências ou mesmo na intenção e disponibilidade para estudar.
Relativamente aos discursos sobre “estudar não compensa”, o futuro é o desemprego, umas notas.
Como muitas vezes aqui tenho afirmado Portugal é o país da OCDE em que estudar mais compensa ao nível do estatuto salarial, segundo o Relatório da OCDE, "Education at a Glance 2012", a diferença salarial de jovens com licenciatura para jovens com formação a nível do secundário é de 69 %.
Não esqueço o altíssimo e inaceitável nível de desemprego entre os jovens, em particular entre os jovens com qualificação superior, mas esta questão decorre do baixo nível de desenvolvimento do nosso mercado de trabalho, de circunstâncias conjunturais e de erradas políticas de emprego e não da sua qualificação.
Neste cenário e como sempre afirmo, o discurso muitas vezes produzido no sentido de que "não adianta estudar" não colhe e não tem sustentação sendo, um autêntico tiro no pé de uma sociedade pouco qualificada como a nossa que, efectivamente e contrariamente à tão afirmada quanto errada ideia de que somos um país de doutores, continua, em termos europeus, com uma das mais baixas taxas de qualificação superior em todas as faixas etárias incluindo as mais jovens. Aliás, estamos longe de poder vir a cumprir a meta a que nos comprometemos com a UE para 2020, 40% de pessoas licenciadas entre os 30 e os 34 anos.
Conseguir níveis de qualificação compensa sempre e é imprescindível. Estudar e conseguir qualificação de nível superior compensa ainda mais.
O que acontece verdadeiramente é termos desenvolvimento a menos, não é qualificação a mais, temos um mercado de trabalho que a cegueira da austeridade e do empobrecimento proletarizou e precarizou e que não absorve a mão-de-obra qualificada. Não podemos passar a mensagem de que a qualificação não é uma mais-valia.
É um tiro no pé.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

DAS PROVAS DE AFERIÇÃO


Já foram divulgados os resultados das provas de aferição que, naturalmente, mostram indicadores mais positivos e menos positivos em todas as áreas avaliadas incluindo a Expressão Físico-motora no1º ciclo.
Não creio que aqui tenhamos algo que surpreenda quem conhece os nossos territórios educativos.
Também não vale a pena inventar a roda e “inovar”, sempre a inovação” através de alterações entre notas, níveis e relatórios, Tudo isto é conhecido de toda a gente e sendo importante não me parece que seja o essencial.
Como tenho escrito o que me parece crítico é discutir o que fazemos com os resultados, com os relatórios, nas suas várias formulações.
Como disse desde o início deste ciclo, continuo com muitas dúvidas sobre a realização das provas de aferição em anos intermédios dos ciclos, 2º, 5º e 8º. Uma aferição, creio, deverá ser realizada no final de um período de aprendizagem. Só nessa altura será possível “aferir” os resultados que se encontram face aos resultados que se esperam e ter uma visão global comparativa.
Uma avaliação durante um período de trabalho com o objectivo de detectar dificuldades e corrigir trajectórias é evidentemente um requisito de qualidade mas é, do meu ponto de vista, uma avaliação de diagnóstico, de regulação, não de aferição. Ora esta avaliação diagnóstica será e deverá ser realizada diariamente pelos professores na gestão dos processos e actividades de aprendizagem.
Ainda assim deveremos olhar para estes resultados não esquecendo a sua eventual contaminação pela representação que os discursos sobre as provas de aferição podem ter provocado nos alunos e famílias  no sentido da sua desvalorização.
Também é aceite que apesar do peso das variáveis relativas aos alunos e contexto social, económico e cultural, o trabalho na e da escola e dos professores é um factor significativamente explicativo do sucesso dos alunos mais vulneráveis e capaz de contrariar ou minimizar o peso dessas variáveis.
Este trabalho da e na escola envolve dimensões como organização e funcionamento, clima, níveis de colaboração e cooperação, estilo e competência das lideranças, por exemplo e, definitivamente, o trabalho em sala de aula em que surge a diferença produzida pelo professor, pelos professores.
Quando abordo estas questões cito com frequência uma afirmação de 2000 do Council for Exceptional Children, "O factor individual mais contributivo para a qualidade da educação é a existência de um professor qualificado e empenhado". É uma estranha coincidência falar da valorização dos professores quando boa parte da classe se sentirá profundamente desconsiderada.
Quanto ao que fazer, a questão central, começam as dúvidas.
Terá a generalidade das escolas recursos (tempo, docentes e técnicos) e autonomia para organizar dispositivos de correcção de trajectórias escolares de insucesso ou em risco detectadas nestas provas de aferição?
Também sabemos que o sucesso se constrói identificando e prevenindo dificuldades de forma precoce, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio eficazes, competentes e suficientes a alunos e professores, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados e reais de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, com a valorização do trabalho dos professores, com práticas de diferenciação e expectativas positivas face ao trabalho e face aos alunos, com melhores níveis de trabalho cooperativo e tutorial, quer para professores quer para alunos, etc.
Sabemos tudo isto. Nada é novo.
Só falta um pequeno passo.
Construir para todos os miúdos trajectórias de sucesso. Não, não é uma utopia. Tal como o insucesso não é uma fatalidade do destino.

terça-feira, 5 de junho de 2018

NÃO LHES TIREM TAMBÉM A SESTA


Há muitos anos tinha o meu filho entrado no jardim-de-infância da rede social, onde esteve globalmente muito bem acompanhado, a adaptação estava a correr bem mas ele começou a pedir para que se possível o fôssemos buscar logo a seguir ao almoço. Para abreviar a história só algum tempo depois é que percebemos que o gaiato, na altura com quatro anos e ainda um sesto-dependente, se sentia muito desconfortável por ter de dormir calçado, isso mesmo, calçado. Falámos com a educadora e com a auxiliar, a situação alterou-se, a sesta ficou tranquila e o João feliz. É um exemplo de miúdo para o qual a sesta era importante e foi-o mais algum tempo, ainda nos rimos hoje cá em casa porque era frequente quando passeávamos ter que me sentar num banco de jardim onde ele adormecia facilmente durante um tempinho, ficando pronto e em forma para o resto do dia.
Vem esta introdução a propósito do facto de em muitas instituições, por várias razões, se determinar a idade, quase sempre aos três anos, a partir da qual se retira às crianças a possibilidade da sesta, proibindo-a.
Como em muitos outros aspectos as crianças não têm padrões de sono/vigília iguais pelo que umas, mais cedo que outras, começam a dispensar a sesta e algumas, é bom não esquecer, a adquirir estilos de vida que não sendo contrariados pelas famílias as levam rapidamente a viver com menos horas de sono do que seria desejável com várias consequência menos positivas. Por outro lado, a alternativa que em muitas instituições é oferecida para ocupar este tempo é absolutamente inacreditável, por exemplo na penumbra a ver televisão, como há alguns meses a comunicação social referia e muitos pais sabem.
Além disto, deve ainda considerar-se que boa parte das crianças que estão em instituições de educação durante um número de horas significativo pelo que a sesta poderia ser um factor de repouso e corte numa presença institucional diária de longa duração.
Assim, parece uma questão de bom senso e qualidade educativa, permitir que no jardim-de-infância e sem o limite rígido da idade as crianças cumpram uma sestazinha que só faz bem e que deixa muitos de nós cheios de inveja.