sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

NÃO SE DIZEM PALAVRÕES

O que fazer quando os filhos dizem palavrões? Desvalorizar

O trabalho de hoje no DN sobre uma situação que todos conhecemos, quando os miúdos dizem palavrões, recordou-me uma história cá de casa, já de há de alguns anos que rapidamente se conta.
Uma vez, depois de terminar umas pinturas realizadas com marcadores com ponta de feltro, o meu filho, aí por volta dos 5 anos, tentava tapar um dos marcadores mas a coisa não lhe estava a correr bem e os dedos já estavam a ficar esborratados. Como reacção ouviu-se um sonoro palavrão, daqueles que os adultos tentam explicar às criancinhas “que é feio dizer”. 
Pai empenhado na boa educação do rebento, “peguei” no violino e em pianíssimo procurei explicar que aquelas “palavras não se devem dizer”. O problema é que o gaiato olhou tranquilamente para mim e devolve, “mas tu dizes a jogar à bola”. 
Com o tempo acabou por aprender como todos nós, quase todos, que as palavras, todas as palavras, podem ser ditas, às vezes até sabe mesmo bem dizer algumas daquelas que libertam, vocês sabem, não devem é ser ditas em todos os locais e em todas as circunstâncias. 
É verdade que uma vez numa conversa com professores em que eu perguntava se qualquer de nós em algum contexto não dizia um palavrão, um dos professores presentes olhou para mim com um ar tão perplexo quanto incomodado e assertivamente afirmou "Eu não, nunca". Confesso que fiquei muito embaraçado, eu digo algumas vezes palavrões, quando posso, e quando não posso ... penso cada um. Desculpem.
Servem estas histórias para ilustrar a necessidade de que os processos educativos se centrem num princípio estruturante, a autonomia, ideia que sistematicamente defendo. Os miúdos devem ser solicitados a tomar conta de si dentro dos limites e regras que nos compete estabelecer com clareza e consistência e das quais eles têm uma imprescindível necessidade para crescer saudáveis.
Não se trata de uma educação para a santidade onde tudo é perfeito e a transgressão proibida e culpabilizante, mas de uma educação para valores em que os miúdos percebem as regras e os limites e são capazes de mobilizar os comportamentos adequados aos contextos em que se movem. Não nos comportamos num estádio de futebol como nos comportamos ao assistir a uma aula, não nos comportamos num concerto de verão como no cinema, etc., etc.
A questão é que os miúdos, muitos miúdos, parecem crescer numa desregulação por ausência de limites e regras que os deixa perdidos e sem referências, entrando frequentemente numa roda livre em que tudo parece normal e permitido em qualquer contexto.

O problema é que com muitos de nós, adultos, passa-se, basicamente, o mesmo.

PELO DN. QUE VÊEM OS MIÚDOS NO CINEMA E NA TELEVISÃO

Pelo DN, com colaboração numa peça sobre a relação dos miúdos e dos pais com alguns produtos cinematográficos ou televisivos.

"Como avaliar os filmes e séries que os filhos 

podem ver"



quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

O DESCONFORTO DO SR. DR. CASANOVA

"Ministério assume “desconforto” com “erro lamentável” na colocação de professores"

De facto, parece não haver limites para o despudor e irresponsabilidade. 
Uma figurinha que à boleia do cartão partidário, é quase sempre uma essência curricular,  ocupa o lugar de Secretário de Estado da Administração Escolar, o Sr. Dr. Casanova de Almeida, veio hoje afirmar que "Estamos (MEC) desconfortáveis porque aquele trabalho que deveria ter sido feito detectou um erro e esse erro é lamentável” referindo-se, evidentemente, ao processo catastrófico da colocação de professores.
Insistindo na tecla desde o início batida, já só falta resolver situações muito pontuais e o que aconteceu não é muito diferente de anos anteriores, a figurinha continua a mostrar a maior das irresponsabilidades e a falta de uma coisa que o meu pai sempre referia, espinha.
Milhares de alunos sem aulas há um mês e meio com as inevitáveis consequências noS processos e resultados da aprendizagem, um clima de instabilidade que afecta alunos e professores mesmo os não envolvidos directamente, centenas de professores atropelados na sua dignidade, situação pessoal e profissional, um clima de escola virado do avesso e a figurinha fala de "desconforto". Desconforto?!
Uma situação desta natureza seria mais do que suficiente para gente com um mínimo de dignidade, sentido ético, competência e responsabilidade tomar a primeira decisão que em termos políticos se exige, a demissão.
Mas não, o seu ex-colega Director-geral bateu com a porta devido à "fórmula errada", o seu ex-colega Secretário de Estado da Educação bateu com a porta porque plagiou um trabalho sobre a "Dimensão moral da profissão docente" e a figurinha fala de como o MEC se sente "desconfortável" por estes pormenores relativos à colocação de professores.
Relativamente às formas de compensação para os problemas causados a alunos e professores, sabe-se que se não adiam exames mas não se sabe de mais. O que é dito, por assim dizer, traduz-se em linguagem cratesa por, "as escolas que se desenrrasquem", talvez com ajuda do voluntariado dos docentes e da capacidade económica de algumas famílias para proporcionar explicações aos miúdos como já está a acontecer,
Tudo isto faz com que me sinta não "desconfortável", mas nauseado e indignado.

O SUPERIOR INTERESSE DO ALUNO

"O superior interesse do aluno"

Esta é umas das raras vezes em que estou, quase, de acordo com a Opinião de João Miguel Tavares, o génio que substituiu outro Génio, Pedro Lomba, numa coluna de Opinião no Público.
No entanto, embora esteja de acordo com a forma como é descrito o catastrófico processo da colocação de professores, não estou de acordo com a razão que JMT apresenta para todo este enleio.
No final do artigo afirma, "E isto não tem nada a ver com asneiras em concursos – tem a ver com uma visão da escola errada e com as suas prioridades manifestamente trocadas".
Em primeiro lugar existe, de facto, de facto uma enorme incompetência em tudo o que tem sido feito. Tal constatação não parece suscitar dúvidas por parte de quem acompanhe minimamente o processo.
Em segundo lugar, JMT afirma que as prioridades estão "trocadas", existe a defesa do "superior interesse do professor" e não o "superior interesse do Ministério da Educação". Refere, noutra formulação, que se protege o "direito ao posto de trabalho" e não o "direito ao ensino".
Não, não me parece que se passe assim. Existe na verdade uma conflitualidade significativa, naturalmente, com contornos corporativos e contaminada pelos interesses da partidocracia.
No entanto, se existe uma dimensão que pode caracterizar a política educativa mais recente é, justamente, um corte brutal no que JMT chama de "direito ao posto de trabalho", milhares e milhares de professores empurrados para fora do sistema, não porque não façam falta, não porque não sejam competentes mas, "simplesmente" porque é preciso cortar na despesa em educação e este é um caminho que parece fácil.
Estaremos de acordo que "o superior interesse do aluno" não está acautelado, mas não porque seja acautelado o "superior interesse do professor".
Esta política educativa(?), em termos de gestão dos professores, não protege alunos como não protege, globalmente, professores. Esta constatação também me parece não merecer grande discussão.
Protegerá, isso sim, um outro conjunto de interesses e uma visão de sociedade e de educação que vai estando progressivamente mais clara, mas não na forma que JMT a coloca.
Aliás, estou mesmo convencido que Nuno Crato e JMT terão visões razoavelmente próximas sobre educação e escola.

UMA HISTÓRIA DE TERROR

Uma história digna de de filme e ilustrativa do que não pode ser a intervenção clínica em matéria de saúde mental e de como a vida de um cidadão se transformou num inferno e num caso de polícia sem razões que o justificassem.
Um indivíduo é sujeito a internamento compulsivo em psiquiatria, medicado fortemente, sem quadro clínico que sustentasse tal decisão e passa meses da sua vida encarcerado até que consegue ser considerado "normal".
Uma história de terror.

"Carlos ficou três meses num manicómio onde só ele não estava doido"

quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

UM HOMEM CHAMADO TRANQUILO

Era uma vez um homem chamado Tranquilo. Nasceu de uma gravidez tranquila, desejada e no meio de uma família tranquila como poucas.
Entrou tranquilamente na escola e, com alguma tranquilidade, finalizou a sua formação. Durante a juventude o Tranquilo envolveu-se, sempre serenamente é claro, nas actividades típicas da sua idade.
Conheceu uma rapariga chamada Calma com quem constituiu uma família tranquila, como a sua.
A sua vida continuou um paradigma de tranquilidade, no emprego, sem sobressaltos, cumpria o que dele se esperava, sendo, por isso, suficientemente remunerado para viver sem sobressaltos. Sempre encontrava tempo para, tranquilamente, estar com os filhos, amigos e para actividades que não dispensava, como ler ou ouvir música.
O Tranquilo entrou na velhice com a serenidade de sempre, ao lado da companheira Calma junto de quem vivia, calmamente, cada hora de cada dia, espreitando o mundo que se agitava do lado de fora deles. Era também com enorme serenidade que contava histórias aos netos que ficavam a ouvi-las sem agitação.
Um dia, de mansinho, tranquilamente, o Tranquilo abalou.
Algumas das pessoas que com ele se cruzaram nas esquinas da vida disseram, “Este tipo sempre foi um acomodado, um fracassado”.
Onde quer que seja que o Tranquilo estivesse, ouviu-as e sorriu.
Serenamente.

FAMÍLIA PRECISA-SE. MUITO URGENTE

"Número de crianças em instituições em Portugal "é uma anomalia sem paralelo na Europa""

Em Portugal existem, dados de 2013, 8142 crianças institucionalizadas de um universo de 8500 retiradas às famílias, cerca de 96%. Este elevado número traduz-se num dos mais elevados índices europeus de institucionalização. No mesmo sentido Portugal tem um dos mais baixos valores no que respeita a colocação de crianças em acolhimento familiar, 4% face aos 30% verificados em Espanha ou 66% em França. No Reino Unido a taxa de acolhimento familiar é ainda mais elevada, 77%, mas este indicador deverá ser analisado à luz de algumas particularidades que estes processo apresentam e que têm sido objecto de algumas reservas.
Apesar da evolução que se tem constatado, continuamos com uma elevada quantidade de crianças institucionalizadas, muitas das quais sem projectos de vida viáveis pese o empenho dos técnicos. Seria desejável que se conseguisse até ao limite promover a sua desinstitucionalização das crianças por múltiplas e bem diversificadas razões. Recordo um estudo da Universidade do Minho mostrando que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.
A conclusão não questiona, evidentemente, a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção ou outros dispositivos como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos. Também deve acentuar-se o trabalho de grande qualidade que muitas instituições procuram desenvolver. Além disso, sabemos todos, que existem contextos familiares que por razões de ordem variada não devem ter crianças no seu seio, fazem-lhes mal, pelo que a retirada pode ser uma necessidade justificada pelo supremo interesse da criança, um princípio estruturante das decisões neste universo.
Acontece ainda que se verifica uma enorme dificuldade de algumas crianças em ser adoptadas devido a situações como doença, deficiência, existência de irmãos ou uma idade já elevada. Assim, muitas crianças estarão mesmo condenadas a não ter uma família. Curiosamente, existem famílias interessadas na adopção de bebés que esperam até cinco anos porque entre os mais pequeninos passíveis de adopção, o número é menor, situação que se mantém, os candidatos à adopção preferem as crianças abaixo dos 3 anos.
Como é óbvio, um processo de adopção é algo cuja qualidade não pode em momento algum ser hipotecada minimizando o risco de "devolução" de crianças em processo de adopção, situação altamente penalizadora para todos os envolvidos. No entanto, parece claro que o processo carece de agilização de modo a que os candidatos à adopção não desistam assustados com a morosidade. Muito recentemente o Governo anunciou a intenção de introduzir mudanças nos processos de adopção.
Como repararão os mais atentos, sempre que aqui me refiro a este tipo de questões, julgo justificado umas notas sobre os contextos familiares das crianças.
Por estranho que possa parecer, existe uma outra realidade, menos perceptível em termos globais, mas conhecida por aqueles que lidam de mais perto com as crianças e que remete para a quantidade enorme de situações de crianças abandonadas e rejeitadas dentro das famílias, algumas destas famílias até com um funcionamento aparentemente normal.
Pode parecer surpreendente esta abordagem, mas muitas crianças vivem em famílias, diferentes tipos de família, que, por variadíssimas razões, as não desejam, as não amam, apenas as toleram, cuidam, pior ou melhor, sobretudo nos aspectos "logísticos". Em alguns casos, são mesmo crianças a que "não falta nada", dizem-nos. Na verdade falta-lhes o essencial, o abrigo de uma família.
Quando penso nestas situações lembro-me sempre de uma expressão que ouvi já há algum tempo a Laborinho Lúcio num dos encontros que tenho tido o privilégio de manter com ele.
Dizia Laborinho Lúcio que "só as crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas pelos seus pais”. Na verdade, muitas crianças não chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas.
Existem mais crianças a viver narrativas desta natureza, abandonadas e ou rejeitadas dentro da família, do que se pode imaginar.

NA TERRA DO FAZ DE CONTA

Zeinal Bava recebe um doutoramento "honoris causa" pela Universidade da Beira Interior.

"Zeinal Bava é distinguido e lembra capacidade da "PT para superar as adversidades""


A Ministra das Finanças não vê de que forma o colapso do BES possa ter impacto na economia.

"Ministra: "Não vejo como o BES pode ter 

impacto na economia""


E nós fazemos de conta que acreditamos. É assim a terra do faz de conta.

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

TODOS BATEM NOS PROFESSORES

"Professora agredida numa escola onde dezenas de pais acorreram devido a falso caso de ébola"

As notícias sobre agressões a professores, designadamente cometidas por encarregados de educação, vão chegando com alguma frequência à comunicação social. Hoje foi no Porto, uma mãe entendeu agredir a professora que tinha tirado o telemóvel ao seu rebento de 12 anos que o ligou durante aula.
De novo, algumas notas. Esta questão, embora sempre objecto de rápidos discursos de natureza populista e securitária, parece-me complexa e de análise pouco compatível com um espaço desta natureza. No entanto, uma breve reflexão em torno de três eixos: a imagem social dos professores, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade, que me parecem fortemente ligados a este fenómeno.
Já aqui tenho referido que os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso de responsáveis da tutela que evidentemente, têm responsabilidades acrescidas, algum do discurso produzido pelos próprios representantes dos professores e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para alterações significativas da imagem social dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, sobretudo, alunos e pais. 
Esta fragilização tem, do meu ponto de vista, graves e óbvias consequências, na relação dos professores com alunos e pais pelo impacto na percepção social de autoridade.
Em segundo lugar, tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os professores, entre outras profissões, polícias ou médicos, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição de professores, como fontes de autoridade. Tal processo alterou-se, o facto de se ser professor, já não confere “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de desrespeito ou de agressão. O mesmo se passa, como referi, com outras profissões em que também, por razões deste tipo, aumentam as agressões a profissionais.
Finalmente, importa considerar, creio, o sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a grandes, o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”.
Considerando este quadro, creio que, independente de dispositivos de formação e apoio, com impacto quer preventivo quer na actuação em caso de conflito, obviamente úteis, o caminho essencial é a revalorização da função docente tarefa que exige o envolvimento de toda a comunidade e a retirada da educação da agenda da partidocracia para a recolocar como prioridade na agenda política.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.
É ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de punição e responsabilização séria dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.

A QUEDA DE UM ANJO (enésimo episódio)

Desta vez em Albergaria-a-Velha. Uma criança de quatro anos caiu de uma altura de 15 metros, o terceiro andar do metros no prédio onde vive com a família. Ao que parece, na altura estava na altura à guarda de uma tia de 13 anos, repito, 13 anos.
O povo costuma dizer que “ao menino e ao borracho, põe Deus a mão por baixo". Desta vez não aconteceu, o menino está em situação muito grave. Esperemos que melhore.
Dada a regularidade destes episódios, algumas notas, de novo.
De acordo com a Associação para a Promoção da Segurança Infantil, dados de 2013, em dez anos, mais de 100 crianças morreram e 40 mil foram hospitalizadas devido a quedas, grande parte das quais em edifícios (varandas ou janelas) e quedas de escadas.
Também as piscinas continuam anualmente a ser palco de acidentes com enorme gravidade ou fatais.
Continuamos a ser um dos países europeus em que acontecem maior número de acidentes domésticos com crianças. Nas mais das vezes verifica-se alguma negligência ou excesso de confiança da nossa parte, adultos, na vigilância dos miúdos a que se junta a inexperiência e o à vontade próprios dos mais pequenos.
A dor e a culpa que alguém pode carregar depois de episódios desta natureza serão, creio, suficientemente fortes para que deixemos de lado o aspecto da culpabilização que aqui nada acrescenta.
O que me parece importante sublinhar é que num tempo em que os discursos e as práticas sobre a protecção da criança estão sempre presentes, também se verifica um número altíssimo de acidentes, por vezes mortais, o que parece paradoxal. Por um lado, protegemos as crianças de forma e em circunstâncias que, do meu ponto de vista, me parecem excessivas e, por outro lado, em muitas situações adoptamos atitudes e comportamentos altamente negligentes e facilitadoras de acidentes que, frequentemente, têm consequências trágicas.
E não adianta pensar que só acontece aos outros.

MIÚDOS A CRESCER

Pelo DN numa trabalho sobre a autonomia dos mais novos. A promoção da sua autonomia é a melhor forma de os ajudar a crescer e a ser.


O SUPER-PROFESSOR E OS PROBLEMAS RESOLVIDOS

O professor que numa fase anterior tinha sido colocado em 75 escolas apesar de ter desistido do concurso foi agora contemplado com 95 horários.
Nada de extraordinário. Mostra como o processo de colocação de professores está no andamento certo, os problemas resolvidos graças à competência e empenho do Ministro Nuno Crato, publicamente elogiado por Passos Coelho.
Verifica-se ainda, no entanto, um pequenìssimo pormenor. Quase um mês e meio depois do início das aulas, existem ainda milhares de alunos sem aulas em condições adequadas.
É, evidentemente, uma irrelevância, Os problemas estão resolvidos porque Passos Coelho e Nuno Crato disseram que estavam resolvidos. A realidade está enganada, eles é que estão certos.
E não acontece nada.

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

A NÁUSEA

Liguei a televisão e caí no Prós e Contras.
Fiquei, ouvi duas ou três intervenções do Sr. Dr. Pedro Cunha, dirigente do MEC, da nova responsável pela tutela sobre a colocação de professores, do Eng. Couto dos Santos, ex-ministro da Educação e ... não aguentei. Despudor, incompetência e demagogia para além do que a alma humana permite.
Após um dia de lida comprido a náusea é insuportável.
Desliguei a televisão.

SOS BULLYING

A agenda das consciências assinala hoje o Dia Mundial de Combate ao Bullying. Algumas notas na linha do que frequentemente aqui tenho escrito.
Nos contextos educativos, dada a gravidade e frequência com que ocorrem episódios de bullying nas suas diferentes formas, torna-se imprescindível que lhes dediquemos atenção ajustada, não sobrevalorizando, nem tudo é bullying, o que promove insegurança e ansiedade, nem desvalorizando. pode negligenciar riscos e sofrimento.
Importa considerar desde logo que a ocorrência de situações de bullying é bem superior ao número de casos que são relatados. A UNICEF estima que uma em cada três crianças e adolescentes será vítima de bullying.
Uma das características do fenómeno, nas suas diferentes formas, incluindo o emergente cyberbullying, é justamente o medo e a ameaça de represálias a vítimas e assistentes que, evidentemente, inibem a queixa pelo que ainda mais se justifica a atenção proactiva e preventiva de adultos, pais, professores ou funcionários.
Considera-se que nos últimos três anos o fenómeno tenha provocado pelo menos 12 suicídios nos Estados Unidos. Recordo ainda que foi anunciado em Setembro de 2013 que a Direcção-geral de Saúde iria promover em várias escolas do país durante este ano lectivo um projecto de prevenção do suicídio dirigido a adolescentes. Felizmente, a taxa de suicídio adolescente em Portugal não é muito alta, embora um só caso já seja uma tragédia. No entanto, os comportamentos de natureza auto-destrutiva são bem mais prevalentes do que se pensa. Em algumas circunstâncias, mais tarde estes comportamentos podem culminar em suicídio.
Neste universo importa considerar dois eixos fundamentais de intervenção por demais conhecidos, a prevenção e a intervenção depois dos problemas ocorrerem. Esta intervenção pode, por sua vez e de forma simplista, assumir uma componente mais de apoio e correcção ou repressão e punição, sendo que podem coexistir. Com alguma demagogia e ligeireza a propósito do bullying, as vozes a clamar por castigo ou a desvalorizar ocorrências têm, do meu ponto de vista, falado mais alto que as vozes que reclamam por dispositivos de prevenção, intervenção e apoio para além da óbvia punição, quando for caso disso.
Relembro que o Portal sobre o bullying teve durante o seu primeiro ano de funcionamento cerca de 650 000 visitas e respondeu a 700 solicitações.
Esta utilização mostra a necessidade de dispositivos de apoio e orientação absolutamente fundamentais para que pais, professores e alunos possam obter informação e apoio. Lamentavelmente, este serviço é exterior às escolas e ilustra a falta de resposta estruturada e global do sistema educativo, para além das insuficiências na formação de técnicos e de professores sobre esta complexa questão, desde logo para o seu reconhecimento. A existência de dispositivos de apoio sediados nas escolas, com recursos qualificados e suficientes é, a par de ajustamentos nos modelos de organização e funcionamento das escolas e de uma séria reestruturação curricular, uma tarefa urgente.
Do meu ponto de vista, o argumento custos não é aceitável porque as consequências de não mudar são incomparavelmente mais caras. Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas, sendo necessário, já é tarde.
Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa, ou na escola, espaço onde passam um tempo enorme.
Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. 
O resultado pode ser trágico.

A VOZ DAS MINORIAS

Hoje assinala-se o Dia Nacional da Paralisia Cerebral. Nunca é demais reafirmar os inalienáveis direitos das pessoas com deficiência à autodeterminação, à autonomia e à participação, em nome da inclusão.
A voz das minorias é sempre muito baixa, ouve-se mal, existem variadíssimas áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente educação, saúde, apoio social, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são enormes.
Importa também sublinhar que os direitos fundamentais não são de geometria variável e hipotecados às oscilações de conjuntura.
Muito já se conseguiu, muito já se mudou.
Está ainda quase tudo para fazer.

MAIS DE UM MÊS SEM AULAS. QUE FAZER?

"Compensar alunos sim, mas sem mais aulas por semana e fora das pausas lectivas"

O Público contactou-me no sentido de colaborar numa peça sobre as consequências do catastrófico e incompetente arranque do ano lectivo que mais de um mês depois do seu início formal ainda não decorre com normalidade em muitas escolas.
Caberá, como sempre, às escolas, professores, alunos e pais tentar apagar um fogo que a arrogância e incompetência do MEC ateou e que, do meu ponto de vista, deixará marcas que a curto prazo dificilmente serão eliminadas, quando muito serão atenuadas. A compensação imprescindível é difícil e complexa.
Uma primeira nota para referir que boa parte das escolas afectadas sãoTEIPs, ou seja, comunidades educativas com variáveis de contexto que não são positivas, aliás, daí decorre a sua condição de TEIP, A situação criada acaba por despejar problemas para cima de problemas.
Creio que também temos de considerar uma outra variável. A organização e conteúdos curriculares, de natureza mais fechada e extensos, a que se junta um conjunto de metas curriculares que foram definidas de uma forma exaustiva e burocratizada torna bastante mais difícil a introdução de ajustamentos. Isto quer dizer que mais de um mês sem aulas implica que muitos conteúdos programáticos deveriam ter sido abordados e o tempo que resta estará, sem grande margem, hipotecado pelos conteúdos e extensão que nesta altura deveriam estar a ser trabalhados.
Aliás, recordo que foi notícia a decisão de algumas escolas de "aliviar", por assim dizer, alguns conteúdos dos programas o que, evidentemente, em anos de exame e no cumprimento das metas curriculares não deixará de ter efeitos.
Também é sabido que muitas famílias afectadas têm estado a recorrer a explicações para atenuar à falta de aulas. Percebe-se obviamente a decisão, mas também é claro que esta situação alimenta assimetrias e a desigualdade de oportunidades, quando, para complicar, se atravessa um período de enormes dificuldades para as famílias.
Têm sido referida como hipótese para atenuar toda esta situação promover mais trabalho diário para os alunos ou estender as aulas por mais algum tempo durante as férias.
Para além das implicações que estas medidas tenham paras escolas e para os professores, quando se sabe que os cortes têm criado enormes dificuldades às escolas, e do risco de acrescentar trabalho lectivo em dias já carregados ou no fim dos períodos, também me parece que mais uma hora por dia ou mais dois ou três dias de aula no final do período não substituem um mês e meio sem aulas.
Uma outra medida colocada pela jornalista seria o adiamento ou cancelamento de exames. A relação mágica do Ministro Nuno Crato com os exames não parece admitir este cenário que, do meu ponto de vista, pouco impacto teria neste problema. Serviria apenas para não "medirmos" os eventuais efeitos deste atraso e das diferenças prováveis entre os resultados de alunos que não tiveram todas as aulas e os seus colegas.
Como tive oportunidade de dizer e aqui reafirmo. creio que, na condição das escolas verem cumprida a promessa de Nuno Crato de terem recursos para as medidas que proponham, uma forma de minimizar danos seria recorrer a parcerias e coadjuvação nas salas de aula no sentido de promover "melhor trabalho" antes de enveredar por soluções de mais trabalho que poderiam funcionar como uma segunda intervenção se e quando fosse julgada necessária.
Com medidas de apoio inscritas no tempo que ainda temos pela frente, com uma avaliação regular dos efeitos destes apoios, poderíamos ir atenuando os efeitos de todo este processo.
Sendo optimistas e devemos sê-lo, a médio prazo a situação dos alunos agora envolvidos pode ser ajustada. No entanto, a curto prazo, estou a falar deste ano lectivo, julgo que podemos e devemos tentar conter danos, minimizar efeitos mas dificilmente tudo será "normalizado".
Uma palavra ainda para um grupo que tembém neste processo foi completamente atropelado e cuja sitação é menos divulgada, a dos alunos com necessidades educativas especiais que, por falat de professores e de técnicos têm estado em casa ou "entregados" em escolas em condições que contrariam o que legalmente está definido ou mesmo juntos numa sala sem a realização do trabalho educativo que por necessidade é imprescindível e a que têm direito.
Eu gostava, eu queria, ser optimista mas a prática do MEC não me deixa sê-lo. As escolas precisariam de recursos acrescidos para lidar com este problema. Não pode assentar na sobrecarga de professores que já estão no limite. O que irá fazer o MEC?

domingo, 19 de Outubro de 2014

PELO TEDxLisboaED 2014


QUALIFICAÇÃO, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE MAS MUITO CARO

"Portugal é um dos países que cobram mais propinas e dão menos bolsas"

Desculpem a insistência no tema mas creio que se justifica.
Segundo o Relatório "Sistemas Nacionais de Propinas no Ensino Superior Europeu", divulgado há dias pela Comissão Europeia e citado no DN, Portugal é um dos cinco países entre os 28 Estados membros da União Europeia que cobram propinas a todos os alunos do ensino superior. Integra também o grupo de países em que menos de metade acede a bolsas de estudo.
Recordo que no início do ano um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos mas não tem meios para os pagar. É também preocupante o abaixamento que se tem vindo a verificar de procura de ensino superior apesar deste ano se ter registado uma pequena subida. As dificuldades económicas são a principal razão para não continuar.
Por outro lado, talvez seja de considerar o impacto da tão perversa quanto errada ideia do "país de doutores" que se foi instalando com o precioso auxílio de uma imprensa preguiçosa e negligente pois não corresponde à verdade e que alimentando a ideia de que "estudar não vale a pena", representa um verdadeiro tiro no pé. Promove ainda o risco dos cidadãos desinvestirem em projectos de vida que passem pela qualificação, a verdadeira alavanca do desenvolvimento e, portanto, do futuro.
É ainda de relembrar que de acordo com o Relatório da OCDE, Education at a glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias, cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia, 23,6%.
Esta informação não é nova. Na verdade e como é do conhecimento das pessoas mais perto deste universo, o ensino superior em Portugal, contrariamente ao que muita gente afirma de forma leviana, tem um dos mais altos custos de propinas da Europa. Conforme dados de 2011/2012 da rede Eurydice, Portugal tem o 10º valor mais alto de propinas na Europa, mas se se considerarem as excepções criadas em cada país, tem efectivamente o terceiro custo mais alto no valor das propinas.
Ainda neste contexto, em 2012 foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior particular o esforço é ainda maior. Percebe-se assim a taxa altíssima de jovens que exprimem a dificuldade de prosseguir estudos.
As dificuldades pelas quais passam muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado, são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Para reforçar a ideia de qua não somos, definitivamente, um "país de doutores" importa sublinhar que, apesar dos progressos dos últimos anos, estamos muito longe de poder vir a cumprir a meta a que nos comprometemos com a UE para 2020, 40% de pessoas licenciadas entre os 30 e os 34 anos.
A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível.
No entanto, os tempos que atravessamos e o vento que sopra da 5 de Outubro não parecem muito amigáveis.

EPPUR SI MUOVE

O Sínodo dos Bispos centrado na família, realizado estes dias no Vaticano convocado pelo Papa Francisco, terminou sem que mudanças significativas sobre a relação dos homossexuais com a Igreja, a união de homossexuais e a possibilidade de que divorciados e recasados tivessem acesso à comunhão fossem aprovadas embora recolhessem apoio maioritário nos bispos presentes, incluindo posições públicas do Papa.
Sem surpresa, apesar de alguns discursos e comportamentos do Papa Francisco, a mudança na Igreja é difícil, muito difícil.
Recordo que há alguns meses um grupo de mulheres italianas escreveu ao Papa Francisco no sentido de promover a mudança da posição da Igreja face ao celibato dos padres. A posição do Papa Francisco ainda antes de ser Papa era contrária a essa mudança sendo, pois, muito provável que nada se altere.
A propósito das mudanças na Igreja, ou a sua ausência, considerando a influência que ainda mantém em muitas comunidades, recordo que D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, afirmava em 2012, em entrevista ao JN, que a Igreja não está à altura do momento, está "atrasada" e não presta atenção às "transformações do mundo".
A afirmação de D. Manuel Martins lembrou-me o conhecido enunciado, "no entanto ela move-se". Ao que a história ou a lenda rezam, no séc. XVII Galileu Galilei reagiu com esta mítica afirmação à sua condenação no Tribunal do Santo Ofício pela defesa do modelo heliocêntrico, a Terra move-se em volta do Sol.
Do meu ponto de vista, a reconhecida perda da influência da Igreja Católica, sobretudo nos países mais desenvolvidos, deve-se também ao seu imobilismo, à forma conservadora como não reage às óbvias mudanças sociais, políticas, económicas e culturais sustentando um progressivo afastamento da vida das pessoas, como reconhecia D. Manuel Martins.
Um dia, talvez a instituição Igreja aceite e perceba a importância e a necessidade de mudança no discurso e nas atitudes relativas ao divórcio e casamento, às uniões entre pessoas do mesmo sexo e adopção por parte destes casais, à anti-concepção, ao celibato dos padres, à abertura do sacerdócio às mulheres, o combate à ostentação visível em parte das estruturas da igreja, etc.
No entanto, considerando o que se tem ouvido e é conhecido das intervenções da hierarquia da Igreja, não creio que, apesar de alguns comportamentos e discursos do Papa Francisco e também da significativa mudança de estilo face ao seu antecessor Bento XVI, seja de esperar um movimento de alteração significativa nas posições da Igreja sobre estas matérias.
Eppur si muove.

SINALIZADAS, REFERENCIADAS, MAS A TRAGÉDIA ... ACONTECE

Intencionalmente, não escrevi estas notas logo que este drama foi notícia. Uma Menina de 13 anos morreu num incêndio na Amadora ao tentar salvar os irmãos mais novos que estavam à sua guarda durante a noite.
A Menina, a mais velha, de oito irmãos, não sobreviveu à tragédia que terá sido toda a sua vida e que, desta forma que não podia acontecer, terminou. Um elemento de uma Associação da zona afirmou à comunicação social que "A Menina e os irmãos andavam sempre cá. Pediam iogurtes, casacos e carinho". E carinho, sublinho eu.
Mais uma vez, como não é raro que a aconteça, esta família, estas crianças estavam "sinalizadas", "referenciadas" desde 2009, mas ... a tragédia aconteceu
De há muito e a propósito de várias questões, que afirmo que em Portugal, apesar de existirem vários dispositivos de apoio e protecção às crianças e jovens e de existir legislação no mesmo sentido, sempre assente no incontornável “supremo interesse da criança, não existe o que me parece mais importante, uma cultura sólida de protecção das crianças e jovens. Poderíamos citar a insuficiência e falta de formação de juízes que se verifica nos Tribunais de Família, as frequentemente incompreensíveis decisões ou demoras em casos de regulação do poder parental, etc.
Temos também em funcionamento as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens que procuram fazer um trabalho eficaz mas em difíceis circunstâncias, para além da falta de agilidade processual na articulação das múltiplas entidades envolvidas como também é frequente entre nós.
É verdade que existem situações que se desenvolvem, por vezes, de forma extremamente rápida e imprevisível, em ambos os casos parece existir nas mães alguma perturbação do foro da saúde mental o que torna tudo ainda mais difícil, mas também exige maior celeridade e atenção.
No entanto, boa parte das Comissões têm responsabilidades sobre um número de situações de risco ou comprovadas que transcendem a sua capacidade de resposta. A parte mais operacional das Comissões, a designada Comissão restrita, tem muitos técnicos a tempo parcial. Tal dificuldade repercute-se, como é óbvio, na eficácia e qualidade do trabalho desenvolvido, independentemente do esforço e empenho dos profissionais que as integram. Aliás, a CPCJ da Amadora é a que lida com maior número de casos de todo o universo das CPCJs.
Este cenário permite que ocorram situações, frequentemente com contornos dramáticos, envolvendo crianças e jovens que, sendo conhecida a sua condição de vulnerabilidade não tinham, ou não tiveram, o apoio e os procedimentos necessários. Ouve-se então uma das expressões que me deixam mais incomodado, a(s) criança(s) estava(m) “sinalizada(s)” ou “referenciada(s)” o que foi insuficiente para a adequada intervenção. Em Portugal sinalizamos e referenciamos com relativa facilidade, a grande dificuldade é minimizar ou resolver os problemas referenciados ou sinalizados.
Por isso, sendo importante registar a menor tolerância da comunidade aos maus tratos aos miúdos, também será importância que desenvolva a sua intolerância face à ausência de respostas e surgimento de tragédias como a da Amadora.
O que me dói ainda mais é que não é a primeira vez que escrevo sobre acontecimentos desta natureza e, provavelmente, não será a última.

sábado, 18 de Outubro de 2014

POR ONDE ANDA O JUÍZO DE ALGUNS JUÍZES?

"Juízes que já passaram os 55 anos decidem que sexo nesta idade não é assim tão importante"

A notícia já é de ontem mas ainda umas notas sobre a decisão do Supremo Tribunal Administrativo que baixou a indemnização solicitada por uma mulher que, em consequência de um acto cirúrgico mal realizado, ficou impedida de ter relações sexuais.
O que verdadeiramente espanta é a sustentação da decisão dos meritíssimos juízes. Entendem no seu douto pensamento e saber que como a mulher "já tinha 50 anos e dois filhos", ou seja, escrevem,  "uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança”, o erro é menos grave pelo que o ressarcimento à vítima deve ser menor.
Não vale a pena argumentar em cima da decisão, o direito à vida tem o mesmo valor aos 10, aos 30 ou aos 70 anos.
O que merece verdadeira reflexão é a base de valores que informa a decisão que, aliás, vai no mesmo sentido de decisões de outros Tribunais Superiores com um exemplo paradigmático do Tribunal da Relação do Porto que em 2011 absolveu um psiquiatra que, comprovadamente, sublinho comprovadamente, violou uma paciente que acompanhava num quadro de depressão. A justificação para a absolvição foi que o psiquiatra criminoso violou a paciente mas não usou de violência. Notável e criminosa esta decisão.
Recordo ainda algumas sentenças que conheço no âmbito dos Tribunais de Família relativas à guarda parental ou a decisão de uma Procurador-adjunta do Ministério Público, em Viana do Castelo, que dispensou uma miúda de 13 anos de frequentar a escola por razões culturais, era cigana, pelo que a ilustre Magistrada a dispensou do Direito à Educação.

Por onde anda o juízo de alguns juízes?

NO TEDxLISBOAED

Vou estar hoje no TEDxLISBOAED 2014 conversando a propósito de "Se houvera quem me ensinara ... quem aprendia era eu".
Depois dou notícias.

sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

FELIZMENTE HÁ NORMALIDADE

"Pais em vigília no Ministério da Educação"

"Director escolar demite-se devido a instabilidade na colocação de professores"

"Pelas contas de Nuno Crato, corte real na Educação é de cerca de 200 milhões"

"Secretário de Estado demite-se por “imperativos de consciência” após notícia do PÚBLICO sobre plágio"

A lida profissional fez-me chegar tarde tarde a casa e sem informação actualizada. Uma vista de olhos pela imprensa online e fico a saber que os pais protestam pelo caos no arranque do ano lectivo, um director escolar bate com a porta porque não consegue gerir a instabilidade gerada pela incompetência do MEC, o Matemático Nuno Crato tenta torcer os números para sustentar que um corte orçamental de 700 milhões é em termos "reais" 200 milhões e um Secretário de Estado do MEC demite-se por motivos pessoais, isto é, cedeu à tentação do "copy, paste" e plagiou trabalhos académicos.
Não há nada como a normalidade em que felizmente vivem as nossas escolas.

A MAÇADORIA DOS DEPOIMENTOS INDICIARIAMENTE INVERDADEIROS

O léxico do politquês é de uma riqueza e diversidade sem limites e está em permanente evolução.
Ao que parece, o PS queixa-se de que o depoimento de Paulo Portas no âmbito do filme policial "O estranho caso dos submarinos" contém elementos "indiciariamente inverdadeiros". E esta? Como diria o saudoso Fernando Peça. Que pérola!
Aliás, a qualidade deste enunciado está em consonância com outros momentos brilhantes como a "incorrecção factual" com que Rui Machete quis branquear as suas relações com a SLN/BPN ou a "conjecturável ambiguidade" que Nuno Crato viu na leitura de uma afirmação sua, tão clara quanto leviana, sobre a qualidade do trabalho das escolas de formação de professores.
Como Chefe de equipa Passos Coelho não pode ficar arredado da contribuição para o brilho do léxico do politiquês e numa entrevista à SIC em Abril afirmou querer poupar aos telespectadores uma "maçadoria". Nem mais, já basta de maçadorias.
Tudo isto acabou por estimular a criatividade genial da segunda figura do Estado, a Presidente da Assembleia da República, que num discurso histórico se sentiu a entrar num "estado frustacional" devido a um "inconseguimento" o que na verdade é uma "maçadoria".

Socorro, tirem-nos deste filme.

COPY, PASTE

"Secretário de Estado plagiou textos sobre a “dimensão moral” da profissão docente"

O Público de hoje dá relevo a uma intervenção académica do actual Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, João Grancho, num evento científico em Espanha em que é evidente o plágio com cópias extensas de excertos de publicações de outros autores não citados nem referenciados.
Em comunicado, o MEC desvalorizou com uma embaraçante ligeireza a óbvia fraude académica. Sinais dos tempos.
Recordo um estudo da Universidade Coimbra que, creio, estar anda em curso, cujos dados já conhecidos sugerem uma forte predisposição de alunos do ensino superior para a fraude académica.  Alguns dados, 44% dos alunos inquiridos admitiram que copiariam num exame, 52% admitiram que copiariam por um colega, 73% apresentariam o mesmo trabalho em diferentes disciplinas e 65,3% "ajudaria" um colega num exame. É ainda interessante que  37.6 % dos inquiridos aceita a fraude desde que “não prejudique ninguém”.
Merece ainda registo um estudo da Universidade do Minho há tempos divulgado referindo que as situações de algum tipo de “copianço” envolvem três em cada quatro estudantes.
Também um estudo da Universidade Católica de Braga envolvendo sete países sobre as questões do plágio, segundo o qual, entre 40 e 60% dos alunos do ensino secundário admitiram ter recorrido a tal procedimento.
De facto, o plágio é um dos tipos de fraude académica mais em alta também no ensino superior, realidade que conheço melhor, mas não só, a título de exemplo já tive textos do blogue plagiados. Considerando o volume crescente de situações muitas instituições têm vindo a adoptar dispositivos de despiste e regulamentos que minimizem o risco de tais práticas.
É verdade que de há uns tempos para cá, felizmente, tem vindo a emergir e entrar na agenda a questão da utilização da informação disponível, designadamente na net, na produção fraudulenta ou nos limites da ética de trabalhos académicos e científicos da mais variada natureza. Neste âmbito, conheceu-se o primeiro caso, creio, em Portugal de uma Tese de Doutoramento apresentada na Universidade do Minho e anulada por motivo de plágio. Este tipo de comportamentos e os discursos produzidos sobre eles em todos os níveis de ensino, do básico à formação pós-graduada, doutoramentos incluídos, bem como artigos científicos, remete, creio, para a natureza da relação ética que estabelecemos com o conhecimento e que os alunos replicam. Aliás, no estudo da U. do Minho, dos alunos que admitiam copiar, 90 % afirmavam fazê-lo desde sempre.
O conhecimento será entendido como algo que se deve mostrar para justificar nota ou estatuto, não para efectivamente integrar, ou seja, importante mesmo é que a nota dê para passar, que o curso se finalize, que a tese fique feita e se seja doutorado ou que se possa acrescentar mais um artigo à produção científica num mundo altamente competitivo, ou, que se alinhave uma comunicação com material que não se produziu e do qual não se identifica a fonte.
Que tudo isto possa acontecer à custa da manhosice, do desenrasca mais ou menos sofisticado, são minudências com as quais não podemos perder tempo. O comunicado do MEC sobre esta caso é um bom exemplo desta atitude.
Não sendo um exclusivo do sistema educativo constitui uma preocupação séria e justifica que as escolas, do básico ao superior, se envolvam na tentativa de que todos tenhamos uma relação sólida do ponto de vista ético com o conhecimento, a sua produção e divulgação.
O caminho passa pelo estabelecimento obrigatório de códigos de conduta com implicações sancionatórias severas e com uma atitude formativa e preventiva e próxima dos alunos durante as aulas, como aliás o estudo agora conhecido sugere.
O trabalho será sempre difícil pois o actual contexto ao nível dos valores e da ética dos comportamentos e funcionamento social é, só por si, um caldo de cultura onde o copianço e o plágio, por vezes, não passam de "peanuts".

É a cultura do desenrascanço, não importa como.

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

MAS AS CRIANÇAS, SENHOR

"Crianças mais expostas à pobreza desde 2010 em Portugal"

Segundo o INE e reportando dados de 2012, o risco de pobreza passou a atingir 24,4% das crianças portuguesas, quando essa proporção era de 21,8% em 2011.  Na população total aumentou de 17,9% em 2011 para 18,7% em 2012.
De acordo com os especialistas, considerando o abaixamento significativo das transferências sociais o cenário tenderá a agravar-se apesar da retórica do Governo relativamente à melhoria nas condições de vida dos portugueses.
As dificuldades das famílias e o que dessas dificuldades penaliza e ameaça os mais pequenos, é demasiado importante para que não insistamos nestas questões. Todos os estudos e indicadores identificam os mais novos como o grupo mais vulnerável ao risco de pobreza que, como vimos, continua a  aumentar.
As dificuldades que afectam directamente a população mais nova são algo de assustador. Esta realidade não pode deixar de colocar um fortíssimo risco no que respeita ao desenvolvimento e ao sucesso educativo destes miúdos e adolescentes e portanto, à construção de projectos de vida bem sucedidos. Como é óbvio, em situações limite como a carência alimentar, exploração sexual, mendicidade, insucesso educativo, estaremos certamente em presença de outras dimensões de vulnerabilidade que concorrerão para futuros preocupantes.
É por questões desta natureza que a contenção das despesas do estado, imprescindível, como sabemos, deveria ser feita com critérios de natureza sectorial e não de uma forma cega e apressada, custe o que custar, naturalmente mais fácil mas que, entre outras consequências, poderá empurrar milhares de crianças para situações de fragilidade e risco com implicações muito sérias.
As palavras de Augusto Gil de 1909 estão tragicamente actualizadas.
(...)
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!..

(...)

A LIQUIDAÇÃO, PERDÃO, AVALIAÇÃO DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA EM PORTUGAL

"Opinião enfurece fundação europeia que avaliou ciência portuguesa para a FCT"

A coisa resume-se facilmente. A Fundação para a Ciência e Tecnologia contratou uma moribunda European Science Foundation para um trabalho extraordinário, liquidar parte significativa das estruturas de investigação existentes em Portugal.
Definiu à partida que metade das entidades deveriam ser eliminadas logo na primeira fase e a ESF  que fizesse o trabalho. Para dar suporte às decisões recorreu-se de forma absolutamente delirante à tirania dos índices bibliométricos através da Elsevier e constituíram-se equipas de avaliadores que sem dar a cara se dispuseram a fazer o trabalho sujo, eliminar 50% dos centros e laboratórios da passagem à fase seguinte da avaliação, objectivo constante do contrato estabelecido como veio a saber-se posteriormente.
O resultado deste tenebroso processo é conhecido, pode aceder-se a muitos exemplos no blogue Rerum Natura e na imprensa onde têm sido reportados sucessivos exemplos de avaliações e tomas de posição de investigadores e estruturas.
Nas avaliações realizadas verificou-se de tudo, critérios ambíguos e falta de transparência, avaliação de áreas científicas por avaliadores fora dessa área e sem peso científico, avaliações completamente contraditórias, mal fundamentas, sobre o mesmo trabalho, ignorância sobre algumas temáticas em avaliação, desconhecimento das variáveis contextuais, etc.
O resultado pretendido pela FCT foi atingido, boa parte do tecido de investigação em Portugal foi, vai ser, destruído. Muitos Laboratórios e Centros de investigação com resultados importantes e reconhecidos têm fortemente comprometido, quando não impossibilitado, o seu trabalho. É uma irresponsabilidade etica e politicamente delinquente.
Nada disto quer dizer, evidentemente, que a investigação não deva ser avaliada e escrutinados os apoios financeiros. A questão é que esta avaliação deve ser séria e competente, com critérios claros e por avaliadores reconhecidos e competentes  nas áreas  que avaliam.
Também sem surpresa e na linha das apreciações do Ministro Nuno Crato, o Presidente da FCT, Miguel Seabra, afirmou que o processo foi competente e adequado, promove a excelência, o rigor ... blá, blá, blá. Trata-se do estranho entendimento de normalidade que faz escola no MEC. 
Agora, depois de múltiplas críticas nacionais e internacionais a este processo a ESF ameaça com um procedimento legal uma investigadora espanhola que referiu em artigo na Nature este sórdido processo.
É a cereja em cima do bolo. Não se pode opinar desfavoravelmente aos inquisidores, como lhes chamou José Vítor Malheiros em artigo no Público. Eles zangam-se e ameaçam com os tribunais. Um filme negro já visto.

A EDUCAÇÃO INCLUSIVA EM REGRESSÃO? NÃO, A EDUCAÇÃO EM REGRESSÃO

“A escola está a regredir em relação às questões da inclusão”

Certamente a propósito da conferência promovida hoje pela Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre "A Inclusão nas escolas" a que, lamentavelmente, a lida profissional não me deixa assistir, o Público entrevistou o Professor David Rodrigues, um dos oradores na Conferência, que, com chamada a título da peça, afirma "A escola está a regredir em relação às questões da inclusão".
Algumas notas sobre esta matéria que, recorrentemente, aqui abordo.
Uma primeira referência para uma discordância de enunciado, não de princípios, com David Rodrigues. Do meu ponto de vista a escola não está regredir em relação às questões da inclusão, é mais complexo, a escola, ou melhor, o que estão a fazer da escola pública, está regredir em relação às questões da EDUCAÇÃO.
Na verdade, é mais difícil falar sobre uma "escola inclusiva" num tempo em que a Educação, no sentido mais nobre e vasto do termo, está revista em baixa. A EDUCAÇÃO está a transformar-se cada vez mais em Aprendizagem de competências instrumentais normalizadas e que de Inclusiva tem muito pouco? No feliz enunciado em inglês do Professor Biesta, caminhamos de "Education" para "Learnification".
Logo de muito novos os miúdos começam a passar por sucessivos crivos, exames escolares ou Classificações de outra natureza.
Muitos são identificados por etiquetas, "repetentes", "dificuldades de aprendizagem", "necessidades educativas especiais permanentes", "hiperactivos" "autistas", etc., agrupam-se os miúdos com base nessas etiquetas, do ensino vocacional, às unidades ou escolas de referência e guetizam-se por espaços, entre a escola e as instituições, de novo e cada vez mais.
É verdade que também temos excelentes exemplos de trabalho em comunidades educativas que, tanto quanto possível e com os recursos de que dispõem, se empenham em estruturar até ao limite ambientes educativos mais inclusivos em que todos, mesmo todos, participem. Como sempre afirmo, a participação é um critério essencial de inclusão.
Devemos, então, falar do copo meio ou do copo meio vazio? Sublinhando o que de bom fazemos, enquanto existirem, e existem cada vez mais, copos por encher é preciso insistir. insistir.
Existem miúdos que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que estão, não “integrados” mas “entregados”, por várias razões e nem sempre por dificuldades próprias.
Existem pais que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que os seus filhos cumprem os dias.
Existem professores que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa onde se empenham e querem trabalhar apesar dos meios e recursos tantas vezes insuficientes e desadequados.
Existem orientações normativas e políticas que, sempre em nome da inclusão, acabam por promover ou facilitar a exclusão. É também de recordar o desinvestimento continuado nos apoios a alunos com necessidades educativas especiais com falta de recursos humanos qualificados, suficientes e disponibilizados em tempo oportuno, falta de técnicos especializados e funcionários nas escolas, problemas de acessibilidade, turmas com um número de alunos acima do definido legalmente, falta de formação adequada, etc. Estes problemas têm vindo a ser continuadamente referidos pela Inspecção-geral de Educação e também pelo CNE em Relatório divulgado em Junho. referi.
Existem direcções, poucas evidentemente, que gostariam de ver as suas escolas ou agrupamentos mais “bem frequentadas”, alguns miúdos só criam dificuldades e atrapalham os resultados das escolas.

O espaço aconselha contenção e por isso, apenas, uma nota final, os princípios da educação inclusiva, quando devidamente enunciados, estão comprometidos, é verdade. Mas também está a ser gravemente comprometida a EDUCAÇÃO para TODAS as crianças.

A IMPORTÂNCIA DA COLUNA

"Sete dicas para cuidar das costas do seu filho"

A agenda das consciências é de uma diversidade surpreendente. Ontem à tarde fui surpreendido por um telefonema de uma jornalista do Observador que, no âmbito do Dia Mundial da Coluna hoje assinalado, preparava um trabalho sobre os cuidados a ter com a coluna dos mais novos para o que solicitava a colaboração de alguém ligado ao universo da educação. 
Sendo o Dia Mundial da Coluna dediquemos então umas notas breves a esta questão e numa linha diferente da abordagem do Observador.
Os tempos que atravessamos são paradigmáticos relativamente aos problemas de coluna, de postura.
Não estou a pensar em termos musculo-esqueléticos e ortopedia ou fisiatria, sei nada sobre isso, mas creio que muita gente apresenta problemas de coluna.
Quando eu era pequeno, ouvia o meu pai, recorrendo a uma linguagem mais própria daqueles tempos, sublinhar nas nossas conversas a importância de andar com as costas direitas. Queria ele dizer que deveíamos ser sérios e responsáveis, ter palavra como também afirmava. 
Sempre me dizia que nunca fazemos tudo bem feito, evidentemente, mas quando erramos temos de assumir os erros e as responsabilidades. Gente séria, nas suas palavras, tem a espinha direita.
Um exercício breve de olhar à volta, ouvir muitos discursos e assistir a comportamentos recorrentes de muitas figuras mostra como tanta gente terá problemas de coluna. Aliás alguns parecem mesmo nem sequer ter coluna, são enguias.
Talvez não tivessem sido bem cuidados quando cresciam.
Ou então, eu e outras pessoas como eu estamos erradas e fora do tempo.
Provavelmente é mesmo isso, falta-nos flexibilidade na coluna.

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

O ORÇAMENTO PARA A EDUCAÇÃO REVISTO EM BAIXA. OUTRA VEZ

"Despesa com Educação recua mais 700 milhões de euros"

Sem surpresa dada a cultura deste Governo, em particular do MEC, a proposta de Orçamento Geral do Estado para 2015 contempla um corte de cerca de 700 milhões de euros com desinvestimento em todos os sectores com excepção da educação pré-escolar, cujo orçamento sobe 5%.
Confirma-se a apetência continuada pelos cortes orçamentais no universo da educação o que exige também continuar a insistir na referência aos riscos desta política fortemente comprometedora do futuro.
Recordo, mais uma vez, que a Conferência WISE – World Innovation Summit for Education de 2012, em Doha no Qatar, definiu como eixo central o investimento em educação mesmo em tempos recessivos, sublinhando a importância da qualificação, incentivos e apoios aos professores e a relação dos percursos educativos com o mercado de trabalho.
Sendo certo que importa racionalizar custos e optimizar recursos combatendo desperdício e ineficácia, o caminho que temos vindo a percorrer é justamente o contrário, o desinvestimento na educação, do básico ao superior com custos que o futuro se encarregará de evidenciar.
Está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.

Como em quase tudo é uma questão de escolhas e prioridades de quem lidera. O empobrecimento e o desinvestimento em educação nunca poderão ser factores de desenvolvimento.

O SOL NASCE PARA TODOS, A CRISE E AS DIFICULDADES NÃO

"País tem mais 10 mil milionários"

É mesmo verdade. A crise e a austeridade, contrariamente ao que acontece com o Sol, não nascem para todos.
Segundo o Relatório "Global Wealth Report 2014", do Credit Suisse, divulgado por estes dias, que avalia a evolução da riqueza no mundo e respectivas desigualdades, nos últimos dois anos mais 21172 portugueses atingiram, pelo menos, um milhão de dólares. Aliás, no ano em curso existem já mais 10 777 novos "remediados" com, pelo menos, um milhão de dólares.
O Relatório, considerandos os dados mundiais, reafirma a conclusão de que os tempos de crise acentuam o fosso entre ricos e pobres. 
Nada de novo, apesar dos discursos com que nos querem convencer de que as assimetrias no rendimento de ricos e pobres e na distribuição da riqueza se vão esbatendo, às vezes torturando alguns números para que a realidade pareça diferente, um estudo do Banco Central Europeu conhecido em Julho revelava que em Portugal o peso da fortuna dos mais ricos é superior ao que se acreditava, um quarto da riqueza pertence a 1% da população.
Considerando os nove países da zona euro analisados, Portugal é o terceiro país com uma maior concentração da riqueza, atrás da Áustria e da Alemanha.
Também sabemos que a esta concentração corresponde uma das maiores assimetrias da Europa entre o rendimento da minoria mais favorecida e os mais pobres que se acentua com a crise como o Relatório agora conhecido confirma.
Como algumas vezes oiço alguém referir, falamos de pobreza, quando o nosso problema é com a riqueza, está mal distribuída e todos queremos ser ricos, muito ricos. É neste quadro que se acentua e promove a desregulação que leva ao enorme fosso entre os mais ricos e os mais pobres.
Nós precisamos de combater a assimetria da distribuição da riqueza e produzir mais riqueza, precisamos de combater mordomias e desperdício de recursos e meios ineficientes e muitas vezes injustificados que alimentam clientelas e interesses outros. Nós precisamos de combater a teia de protecção legal e política aos interesses dos mercados e dos seus empregados que conflituam com os interesses das pessoas.
O que precisamos é de coragem e visão sem subserviência ao ditado dos mercados e dos seus agentes para definir modelos económicos, sociais e políticos destinados a pessoas e não a mercados ou a grupos minoritários de interesses.

Como vamos conseguir?

PARA COMPENSAR

"Trabalhamos mais 324 horas que os alemães e ganhamos menos 7484 euros"

De acordo com dados da OCDE, os portugueses, em termos médios, trabalham mais 324 horas anuais que os alemães.
Para compensar, os preguiçosos do Sul, nós, ganhamos menos 7484 euros que os nossos benfeitores, os alemães. 
Dá tanto jeito vender a ideia de que não trabalhamos e por isso merecemos a pobreza. A estatística é uma chatice, dá cabo dos preconceitos.
Ou não.

M'ESPANTO ÀS VEZES, OUTRAS M'AVERGONHO

"Coimbra tenta evitar que estudantes atirem carrinhos de compras ao Mondego"

Como diria Sá de Miranda, "M'espanto às vezes, outras m'avergonho".
A notícia sobre a habitual prática de no contexto das festas académicas em Coimbra se lançarem ao Mondego centenas de carrinhos de compras dos supermercados depois de usados pelos estudantes nas suas actividades "académicas", "tradicionais", "superinteressantes", "fomentadoras do espírito académico", "criativas" e que enchem de "orgulho" os participantes, deixa-me envergonhado e triste.
Pertenço  e gosto de pertencer ao meio académico, sei que não é um mundo perfeito, muito longe disso, obviamente. Procuro defender sempre a qualidade do trabalho dos alunos, do seu investimento, das suas qualidades e expressar o que diariamente beneficio do contacto com estudantes universitários.
No entanto, fico sem jeito, como dizem os brasileiros, quando assisto ou tenho conhecimento de algumas actividades no âmbito das praxes ou de comportamentos como os que aqui ser relatam. Sim, eu sei que não se pode tomar a árvore pela floresta, que no meio de milhares de estudantes estes comportamentos são minoritários. Mas existem porra!
Para além do crime ambiental, já grave em sim mesmo, são absolutamente estúpidos, de mau gosto e mostram a enormidade do que está por fazer dentro de algumas cabeças que, muito provavelmente, estão a caminho de ser "doutores".
Doutores da "mula ruça" como diria a minha Avó Leonor.

EXPERIMENTALISMOS? NÃO, É MESMO INCOMPETÊNCIA

"Isabel deixou os seus alunos para ser colocada numa escola em que não tinha aulas para dar"

Como se percebe por este exemplo, um entre muitos, o que tem corrido mal neste processo de colocação de professores não tem rigorosamente a ver com experimentalismos, seja lá isso o que for. É mesmo incompetência, pura e dura.
O resto é a habitual demagogia, despudor e irresponsabilidade dos donos da 5 de Outubro.

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

O PROCESSO DE COLOCAÇÃO DE PROFESSORES PODE SER MELHORADO. A SÉRIO?

Confesso que fiquei espantado, o Ministro Nuno Crato entende que o processo de colocação de professores "pode ser melhorado". Esta dose de humildade, apesar de não ter sido referida pelo próprio como mais um "momento histórico", é algo que deve ser registado.
Com a informação disponível não conheço os aspectos que o Ministro entende ser melhorado. Provavelmente, como sempre considerou o processo competente e adequado, exceptuando aquele "pormenorzito" da fórmula errada, as melhorias serão pequenas afinações, o tipo de letra das centenas de circulares dirigidas às escolas, por exemplo.
O Ministro disse também no Parlamento que está disponível para discutir com os partidos a autonomia das escolas. Registo o esforço e a intenção de diálogo, apenas não percebo bem porque só agora se lembrou e também não vislumbro a razão para o súbito interesse pela questões da autonomia por parte de um Ministro que tem alimentado um centralismo burocrata e esmagador que mesmo para as escolas com contratos de autonomia continua insustentável como os directores referem regularmente.
Relativamente aos efeitos que esta caótica situação terá nos alunos e no seu percurso escolar, nomeadamente, nos que frequentam anos com exame final, alguns dos exames a meio do 3º trimestre, Nuno Crato afirma que “a igualdade de circunstâncias dos alunos perante os exames vai ser o mais perfeita possível”. É claro que esta ideia de o "mais perfeita possível" vai ser de uma enorme latitude e mais uma vez as escolas, os professores, terão de apagar um fogo ateado pela incompetência do MEC com recursos e esforços que já estão no limite.
Neste contexto partilho um depoimento que me parece elucidativo e que está na caixa de comentários a um texto anterior aqui no Atenta Inquietude.
"Escolas há que contornam a situação com a imposição de aulas de substituição (gratuitas para os docentes que as leccionam e extra o seu próprio horário lectivo).
Na minha escola/ agrupamento é o que está a acontecer há semanas em várias disciplinas.
Eu já vou na terceira semana consecutiva a leccionar aulas da minha disciplina numa turma que não me pertence e num ano de escolaridade que não me foi atribuído, a acumular ao meu próprio horário lectivo e repartindo a leccionação dessa disciplina/turma com mais duas colegas (uma disciplina/turma = três professoras).
Percebo que o interesse dos alunos fale mais alto, mas começo a perguntar-me se, quando finalmente forem colocados professores nesses horários por atribuir nas escolas, os colegas que estão agora a ser sobrecarregados não precisarão também eles de ser substituídos! Estar à frente de uma turma de alunos não é a mesma coisa que estar sentado numa repartição pública, sem qualquer desprimor para a actividade, obviamente. Já há gente muita cansada nas escolas, em certos casos a fazer quase meio horário a mais por semana. Porquê? Porque um bando de incompetentes, que dá pelo nome de responsáveis do MEC, não consegue resolver um imbróglio que nunca devia ter acontecido? E ainda assim continua em funções?"

Que mais se pode dizer?

UMA IMPREVISÍVEL REFORMA CURRICULAR

Lê-se no DN:
"No agrupamento Dr. Azevedo Neves, na Amadora, há 23 turmas do 3.º ciclo que ainda não têm professor de Matemática. São cerca de 400 alunos. No 1.º ciclo há turmas que ainda não tiveram aulas, apenas para citar os casos mais importantes, segundo o diretor José Biscaia. Falhas que levaram a direção a tomar medidas: foi convocado o conselho pedagógico para que os professores decidam que matéria é essencial e a que podem deixar de fora."
Esta pode ser a forma mais imprevisível de proceder a uma necessária reforma curricular.
Começam a faltar as palavras para falar de uma situação que não podia ter acontecido. Que não podia prolongar-se como se está a prolongar. Que deveria ter responsabilidades assumidas e consequências óbvias retiradas.
Aliás, deve registar-se que Cavaco Silva veio a público numa pouco habitual e profunda análise política afirmar que em matéria de colocação de professores "alguma coisa não está bem". É verdade Presidente, pode dizer-se mesmo que a coisa está mal, muito mal.
Embora a mudança de um Ministro possa significar apenas isso, a mudança do Ministro e não a mudança das políticas, Nuno Crato podia prestar um último bom serviço à educação e ensino público, assumir as responsabilidades da única forma que em política se devem assumir, com a demissão.

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

CRIANÇAS ABANDONADAS QUE ESTÃO À VISTA

"Telemóvel ou filhos? O que é prioritário pode não ser tão óbvio para alguns pais"

No Público de hoje encontra-se a referência a um estudo norte-americano que envolveu um número importante de crianças com idades diferentes sobre as relações com os seus pais e as relações destes com dispositivos como telemóveis ou tablets.
O estudo sugere  que as crianças expressam de forma muito clara um aumento da distância, da desatenção e de dificuldades relacionais pois sentem os pais numa sobreutilização daqueles dispositivos em detrimento do contacto consigo e da atenção que lhes dedicam.
O estudo é importante, ouve as crianças, e vem ao encontro de outras investigações e das experiências que vamos conhecendo em muitas famílias.
A falta de disponibilidade e atenção para os miúdos, mesmo quando estão com eles, também contribuem para que muitíssimas crianças e jovens sintam que vivem à beira de pais para os quais passam completamente despercebidas, são as que eu chamo de crianças transparentes, olhamos para elas, através delas, como se não existissem. Não estando desaparecidas, estão abandonadas. Algumas delas não possuem ferramentas interiores para lidar com tal abandono e desaparecem, mantendo-se à nossa vista, no primeiro buraco que a vida lhes proporcionar, um ecrã, outros companheiros tão abandonados quanto eles, o consumo de algo que lhes faça companhia ou a adrenalina de quem nada tem para perder.
Em boa parte das situações pode ficar difícil ir à procura destas crianças e adolescentes e, por vezes, alguns perdem-se de vez.

DEFINITIVAMENTE, NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES

O MEC criou um Programa, Retomar, disponibilizando 3000 bolsas destinadas a recuperar estudantes do ensino superior que tenham desistido da frequência. Contrariamente às expectativas divulgadas apenas 480 candidaturas foram formalizadas.
Algumas notas sobre esta situação.
Para além do efeito decorrente do calendário e procedimentos do Programa, creio que outras questões de maior relevo poderão ajudar a compreender este aparente desinteresse pela frequência do ensino superior, envolvendo até alunos que já iniciaram o seu percurso académico.
Recordo que no início do ano um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos mas não tem meios para os pagar. É também preocupante o abaixamento que se tem vindo a verificar de procura de ensino superior apesar deste ano se ter registado uma pequena subida. As dificuldades económicas são a principal razão para não continuar.
Por outro lado, talvez seja de considerar o impacto da tão perversa quanto errada ideia do "país de doutores" que se foi instalando com o precioso auxílio de uma imprensa preguiçosa e negligente pois não corresponde à verdade e que alimentando a ideia de que "estudar não vale a pena", representa um verdadeiro tiro no pé. Promove ainda o risco dos cidadãos desinvestirem em projectos de vida que passem pela qualificação, a verdadeira alavanca do desenvolvimento e, portanto, do futuro.
É ainda de relembrar que de acordo com o Relatório da OCDE, Education at a glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias, cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia, 23,6%.
Esta informação não é nova. Na verdade e como é do conhecimento das pessoas mais perto deste universo, o ensino superior em Portugal, contrariamente ao que muita gente afirma de forma leviana, tem um dos mais altos custos de propinas da Europa. Conforme dados de 2011/2012 da rede Eurydice, Portugal tem o 10º valor mais alto de propinas na Europa, mas se se considerarem as excepções criadas em cada país, tem efectivamente o terceiro custo mais alto no valor das propinas.
Ainda neste contexto, em 2012 foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior particular o esforço é ainda maior. Percebe-se assim a taxa altíssima de jovens que exprimem a dificuldade de prosseguir estudos.
As dificuldades pelas quais passam muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado, são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Para reforçar a ideia de qua não somos, definitivamente, um "país de doutores" importa sublinhar que, apesar dos progressos dos últimos anos, estamos muito longe de poder vir a cumprir a meta a que nos comprometemos com a UE para 2020, 40% de pessoas licenciadas entre os 30 e os 34 anos.
A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível.