sexta-feira, 25 de Abril de 2014

UMA ESCOLA LÁ PARA TRÁS NO TEMPO

Nos últimos tempos, por razões que todos conhecemos e muitos sofrem não são raros os discursos de descrença e desesperança ouvindo-se enunciados como, "afinal o 25 de Abril ...", e ... "estamos como estamos".
Devo dizer que não simpatizo com este tipo de afirmações. Sendo certo que estamos atravessar tempos de chumbo e com a confiança em baixo, também é verdade que não é sequer possível comparar o país de hoje com o país de 1973. Para refrescar algumas memórias ou contar alguma história aos mais novos, deixem que vos fale da escola do meu tempo, o tempo dos anos cinquenta e sessenta. Escolho falar da escola porque é uma área que conheço um pouco melhor, mas poderia fazer o mesmo exercício em muitas outras áreas de funcionamento da nossa sociedade.
Não me esqueço, antes pelo contrário, que a nossa educação, a escola, como tudo o resto, atravessa um período complicado e com problemas muito sérios, mas só a falta de memória ou o desconhecimento sustentam o “antigamente era melhor”. Vejamos, pois, um pouco da escola do meu tempo, conversa de velho, já se vê.
A escola que havia lá para trás no tempo não era grande, nem pequena, era triste. A maioria das pessoas que por lá andavam era, naturalmente, triste.
As pessoas que mandavam na escola estabeleciam o que toda a gente tinha de aprender, fazer, dizer e pensar. Quem pensasse, dissesse ou fizesse diferente podia até sofrer algum castigo, mesmo os professores, não eram só os alunos. Não se podia inventar histórias, as pessoas contavam só histórias já inventadas. Às vezes, os miúdos e os professores, às escondidas, inventavam histórias novas. 
Eu andei nesta escola lá para trás no tempo. 
E na escola do meu tempo nem todos lá entravam e muitos dos que o conseguiam saíam ao fim de pouco tempo, ficando com a segunda ou terceira classe, como então se chamava. Chegava.
E na escola do meu tempo os rapazes estavam separados das raparigas.
E na escola do meu tempo havia um só livro e toda a gente aprendia apenas o que aquele livro trazia.
E na escola do meu tempo levavam-se muitas reguadas, basicamente por dois motivos, por tudo e por nada.
E na escola do meu tempo ensinavam-nos a ser pequeninos, acríticos e a não discutir, o que quer que fosse.
E na escola do meu tempo eu era “obrigado” a ter catequese, religiosa e política.
E na escola do meu tempo aprendia-se que os homens trabalham fora de casa e as mulheres cuidam do lar e dos filhos.
E na escola do meu tempo não aprender não era um problema, quem não “tinha jeito para a escola, ia para o campo”.
E na escola do meu tempo não se falava do lado de fora de Portugal. Do lado de dentro só se falava do Portugal cinzento e pequenino. Na escola do meu tempo eu era avisado em casa para não falar de certas coisas na escola, era perigoso.
Quem mandava no país achava que muita escola não fazia bem às pessoas, só a algumas. Ao meu pai perguntaram porque me tinha posto a estudar depois da quarta classe, não era frequente naquele meio, para ser serralheiro como ele não precisava de estudar mais.
Sim, eu sei, não precisam de me dizer que a escola deste tempo tem coisas que nos recordam a escola do meu tempo.  Mas o caminho é melhorar a escola deste tempo não é, não pode ser, querer a escola do meu tempo.
Eu andei naquela escola lá para trás no tempo. 
Por isso, quando falam da escola hoje, penso, nunca mais voltarei a andar naquela escola. E não quero que o meu neto e os outros miúdos andem numa escola como aquela, a minha escola, lá para trás no tempo.

quinta-feira, 24 de Abril de 2014

UMA VISÃO DA HISTÓRIA

A tentação de elaborar leituras diferentes da história é algo que dificilmente se consegue contrariar.
Em tempo de lembrar Abril, aquele Abril, aqui fica uma pequena nota de uma experiência sobre história vivida por uma amiga educadora de infância no Meu Alentejo e que já aconteceu há alguns anos.
Por alturas de um 25 de Abril lembrou-se de perguntar à miudagem que se alguém tinha uma ideia do que era o 25 de Abril.
Um dos gaiatos, cinco anos de vivacidade e experiência de vida, sempre o mais participativo e falador do grupo, explicou com toda a convicção “foi quando a tropa matou o Salazar, um velho d’um cabrão que havia aí e era ruim c´mas cobras”.
É apenas uma visão da história, há tantas.

OS VELHOS PROBLEMAS DAS VELHAS PRAXES. De novo.

Ao que parece, a tragédia envolvendo estudantes da Universidade do Minho poderá estar relacionada com uma situação de praxe académica.
Apesar de o fazer com toda a reserva que o desconhecimento dos factos impõe, a sucessão de acontecimentos com consequências muito pesadas associados a praxes académicas leva-me a retomar a questão.
Creio que no final de 2012 ou já em 2013, estruturas estudantis ligadas às praxes de nove universidades e institutos acordaram na elaboração de um documento comum que estabeleça um conjunto de princípios que permita regular os comportamentos de praxe e tentar pôr fim aos abusos que regularmente têm vindo a acontecer, alguns com consequências particularmente graves que, aliás, já motivaram a tomada de posições proibitivas por parte de algumas reitorias e direcções de escola. Esta iniciativa revela por parte dos próprios estudantes a aceitação de situações que devem ser evitadas, daí o esforço de regulação pois, apesar da argumentação sistemática com a existência dos Códigos de praxe e da possibilidade recusa ou do recurso ao Tribunal de praxe, na verdade, muitas situações ultrapassam claramente limites de diferente natureza.
Como várias vezes já aqui afirmei partindo de um conhecimento razoavelmente próximo deste universo, a regulação, mais do que a regulamentação, dos comportamento nas praxes parece-me absolutamente indispensável. Parece-me ainda importante que este movimento de regulação integre o respeito por posições diferentes por parte dos estudantes sem que daí advenham consequências implícitas ou explícitas. Estamos a falar de gente crescida e, espera-se, autodeterminada, seja numa posição favorável ou desfavorável.
Na verdade, de forma aparentemente tranquila coexistem genuínas intenções de convivialidade, tradição e vida académica com boçalidade, humilhação e violência sobre o outro, no caso o caloiro. Tenho assistido e tido conhecimento de cenas absolutamente deploráveis por mais que os envolvidos lhes encontrem virtudes.
Apesar dos discursos dos seus defensores, continuo a não conseguir entender como é que, a título de exemplo, humilhar rima com integrar, insultar rima com ajudar, boçalidade rima com universidade, abusar rima com brincar, ofender rima com acolher, violência rima com inteligência ou coacção rima com tradição. Devo, no entanto sublinhar que não simpatizo com estratégias de natureza proibicionista, sobretudo em matérias que claramente envolvem valores. Nesta perspectiva, parece-me um passo positivo a anunciada iniciativa de regulação que envolverá diferentes academias.
Quando me refiro a esta questão, surgem naturalmente comentários de pessoas que passaram por experiências de praxe que não entendem como negativas, antes pelo contrário, afirmam-nas como algo de positivo na vida universitária. Acredito e obviamente não discuto as experiências individuais, falo do que assisto.
A minha experiência como aluno  universitário, dada a época, as praxes tinham entrado em licença sabática, por assim dizer, foi a de alguém desintegrado, isolado, descurriculado, dessocializado e taciturno porque não acedeu ao privilégio e experiência sem igual de ser praxado ou praxar.
Provavelmente, advém daí a minha reserva.

EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E DESENVOLVIMENTO

"“Não conheço país nenhum que tenha conseguido o feito de Portugal”, diz Mariano Gago"

Sendo certo que importa racionalizar custos e optimizar recursos combatendo desperdício e ineficácia, o caminho que temos vindo a percorrer é justamente o contrário, o desinvestimento na educação, do básico ao superior e à investigação com custos que o futuro se encarregará de evidenciar.
Está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.
Corremos o sério risco de ver ameaçados os excelentes resultados que a investigação e as instituições de ensino superior têm vindo a alcançar.
Como em quase tudo é uma questão de escolhas e prioridades de quem lidera. O problema como referia o Professor Sobrinho Simões num entrevista sobre estas questões é que "os nossos políticos têm um problema ... alguns não se apercebem do valor do ensino superior e da investigação".

O empobrecimento e o desinvestimento em educação e conhecimento nunca poderão ser factores de desenvolvimento.

25 DE ABRIL. Traz outro amigo também

Por estes dias, para as pessoas da minha geração é impossível não falar  do 25 de Abril, daquele 25 de Abril, do nosso 25 de Abril, do meu 25 de Abril. Este ano, vai sendo hábito, o dia parece marcado por uma polémica, do meu ponto de vista inconsequente, sobre a presença de instituições ou figuras na sessão comemorativa oficial na Assembleia da República. A História tem actores, principais e secundários,  heróis ou vilões, e figurantes, mais ou menos anónimos, mas não tem donos. Tenho pena, mas não estranho. Também como nunca nos nossos dias, atravessamos tantas dificuldades, com tantos milhares de pessoas a sofrer a luta pela sobrevivência. Também por isso, voltemos à substância, o nosso 25 de Abril.
Há algum tempo, numa conversa informal com alunos, jovens, do ensino superior, alguns questionavam-me sobre como era a vida académica, e não só, antes desse 25 de Abril. Ao procurar dar-lhes um retrato desse tempo e do que era a nossa vivência diária, deu para perceber alguma perplexidade nos jovens não tanto pelas referências às grandes questões, mas, sobretudo, pelas pequenas histórias do dia-a-dia.
Histórias do clima de desconfiança e suspeição sobre a pessoa do lado que nos prendia dentro da gente; do livro que se não tinha; do filme que se não podia ver; do disco que se contrabandeava; do teatro que não se podia fazer; da conversa que se não podia ter; do professor de quem não se podia discordar; da ideia que se não podia discutir; da repressão visível e, mais pesada, invisível; do beijo que não se podia dar em público; do livro único para formar um pensamento único; de tantas outras histórias com que se tecia um mundo pequeno que nos queria pequenos.
Aquela conversa foi muito estimulante. É certo que me deixou a doce amargura da idade mas, mais interessante, fiquei convencido que aquele pessoal não permitirá nunca que se possa voltar a ter histórias daquelas para contar a gente mais nova.
Acho até que esta gente, apesar das enormes dificuldades que enfrentam para construir um projecto de vida viável e sustentado, não vai mesmo estudar para ser escrava, esta gente vai, apesar de por vezes se sentir à rasca, chegar ao futuro.
Gosto de acreditar nisto. Também por causa daquele 25 de Abril.
E porque é mais fácil e mais bonito, "Traz outro amigo também".


quarta-feira, 23 de Abril de 2014

NECESSIDADES DE SAÚDE ESPECIAIS, NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS

"DGS propõe Plano de Saúde Individual para crianças com necessidades especiais"

Quando está a decorrer um processo de análise e eventual revisão do enquadramento legal da chamada educação especial sob a responsabilidade de um Grupo de Trabalho Interministerial e ainda uma análise no âmbito do Conselho Nacional de Educação sobre a mesma matéria, estranhamente, é colocado em discussão pública pela Direcção Geral de Saúde o Plano Nacional de Saúde Escolar prevendo a obrigatoriedade de todas as crianças e jovens com necessidades especiais de saúde terem um "Plano de Saúde Individual que dê resposta a todas as necessidades identificadas".
Mais se propõe, que este Plano decorra e assente na Classificação Internacional de Funcionalidade, um instrumento da Organização Mundial de Saúde que, numa péssima de decisão, é desde 2008 a base para determinar a elegibilidade de crianças e jovens para a educação especial. É aliás de registar que a utilização da CIF é justamente, creio, pois participei em audições com a o Grupo de Trabalho e com o CNE, uma das matérias em discussão e, eventualmente, a alterar, embora não esteja particularmente optimista ainda que fosse uma medida adequada.
No Plano agora em discussão, estabelece-se a situação de Necessidades de Saúde Especiais, identificadas por referência à CIF que se considera como a "que resulta de problema de saúde com impacto na funcionalidade e necessidade de intervenção em meio escolar, como sejam, irregularidade ou necessidade de condições especiais na frequência escolar e impacto negativo no processo de aprendizagem ou no desenvolvimento individual" (Pág. 15 da proposta).
Parecem-me claro os objectivos e o quadro estabelecido, partindo do princípio que as equipas de Saúdes Escolar e demais estruturas de saúde possuirão os meios e recursos necessários à resposta adequada, oportuna e próxima.
No entanto, esta proposta coloca-me algumas questões. Se os problemas de saúde são identificados por referência à CIF e incluem as situações que envolvem "irregularidade ou necessidade de condições especiais na frequência escolar e impacto negativo no processo de aprendizagem ou no desenvolvimento individual",  estas implicam Necessidades EDUCATIVAS especiais, portanto, quem procede à avaliação das questões que do ponto de vista da educação, repito da educação, estão envolvidas? Os técnicos da saúde? Continuamos com os equívocos actuais e que alimentam enormes ambiguidades e modelos desajustados de resposta embora se constituam como interessante nicho de mercado.
Por outro lado, baseando-se a definição das Necessidades Especiais de Saúde na CIF, sem estranheza uma vez que se trata de um instrumento criado e desenvolvido para se aplicar no universo da saúde, continuará a CIF a ser utilizada para definir elegibilidade de crianças e jovens para EDUCAÇÂO, repito, EDUCAÇÃO, especial, algo que nunca deveria ter acontecido, sobretudo na idade escolaridade obrigatória?
Estando em estudo a revisão do actual quadro, envolvendo um grupo interministerial, não seria avisado clarificar e articular conceitos, legislação e modelos de resposta?
As questões no âmbito da saúde que envolvem as pessoas são, creio que ninguém tem grandes dúvidas, matéria de competência e conhecimento dos profissionais do universo da saúde, tal como as questões sobre educação, ensino e aprendizagem são matéria de competência dos profissionais da educação. Parece-me razoavelmente claro.
Vejamos o que daqui vai resultar.

UM HOMEM CHAMADO NÃO SE SABE O QUÊ

Era uma vez um homem chamado Não Se Sabe O Quê.
Tinha vindo de algures e vivia não se sabe onde. Teria, ou não, uma família que não se conhecia e de quem não falava. Aliás, o homem, praticamente, não falava, apenas trabalhava, fazendo tudo o que lhe pedissem sem a menor reserva.
Fora do trabalho, estava não se sabe onde, fazendo não se sabe o quê. Quando se conseguia olhar nos seus olhos, o que era raro, eles parecia sempre olhar para longe, não se sabe para onde.
Nos intervalos do trabalho ficava num canto, com ar de quem estava a pensar, não se sabe em quê. Alguns colegas disseram que, às vezes, parecia que chorava, não se sabe porquê.
Um dia, levaram-no, não se sabe para onde.
O seu verdadeiro nome era Clandestino.

EXAMES, EXAMES, MAIS EXAMES. A poção mágica

"Matemática e Português vão ser provas de ingresso no superior para futuros professores"

Como tinha sido anunciado e na senda da profissão de fé do Ministro Nuno Crato nos exames como a poção mágica que promove qualidade, os candidatos a professores do ensino básico terão de realizar exames em Português e Matemática para ingressar no ensino superior. O MEC afirma que estes exames visam garantir a "a sólida formação" dos futuros professores. A sério?! Será que alguém acredita mesmo neste efeito?
Como salienta o Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, nenhum estudo sustenta que esta prova à entrada seja o garante da qualidade da formação à saída.
Sendo certo que importa promover a qualidade da formação de professores, a regulação dessa qualidade deve assentar no período da formação e não no seu acesso com um exame a Português e Matemática. A qualidade da formação dos docentes regula-se através dos planos e conteúdos curriculares, da qualificação dos corpos docentes das instituições de formação, das metodologias de formação utilizadas, entre outras dimensões.
À semelhança do que existe noutros países e em Portugal já tivemos, poderá instituir-se como forma de acesso à profissão, à carreira, não no acesso à formação, um dispositivo como um ano probatório, experimental, etc., durante o qual se possam avaliar as competências e capacidades para o exercício da docência.
Um dispositivo desta natureza pode, de facto, ser um contributo para promover a qualidade e preparação de quem se propõe iniciar a sua carreira de professor.
A realização de um exame de Português e Matemática para definir a entrada na formação  de professores do Ensino Básico é uma peça avulsa, sem sustentação que não seja a convicção misteriosa que o Professor Nuno Crato expressa recorrentemente de que se medir muitas vezes a febre, a febre acabará por baixar.
Não é verdade.

DIA MUNDIAL DO LIVRO. As letras nunca se acabam

Porque hoje o calendário das consciências determina que se reconheça o Dia Mundial do Livro, aqui fica uma história velha com livros dentro.
Um dia destes a Ana entrou na biblioteca da escola para entregar uns livros ao Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros. A Ana ia muito concentrada e sentia-se importante na tarefa de responsabilidade que a professora lhe tinha encomendado, a devolução de uns livros.
O Professor Velho aproveitou e como estava arrumar alguns que tinham chegado, mostrou um novo à Ana que começou a folheá-lo e a tentar a leitura, a Ana está a iniciar-se nessa tarefa e ainda tropeça um pouco, é o seu primeiro ano de escola.
De repente, ficou com um ar apreensivo e interroga o Professor Velho.
Velho, as letras podem acabar?
Como assim Ana? Não estou a perceber o que queres dizer com isso.
Todos os livros têm palavras e as palavras têm letras. Eu estou a perguntar se as letras se podem acabar.
Já percebi. Não Ana, as letras não se acabam. Tu já sabes escrever letras?
Já e também já sei escrever palavras com as letras.
Então, se tu és capaz de fazer letras e todas as pessoas que sabem escrever também são capazes de fazer letras, as letras nunca vão acabar. A gente escreve sempre mais para tudo o que precisar.
Ainda bem que as letras não se acabam, assim vamos sempre ter livros novos para ler.
Tens toda a razão. E propósito de livros novos, faz-me um favor, leva estes para a tua professora ver e vos mostrar.
Adeus Velho, o primeiro é para eu ler.
Claro.

A REALIDADE ESTÁ ENGANADA

"“A política que foi seguida foi a que o realismo impunha”, defende-se Passos Coelho"

Como repetidamente tenho escrito, torna-se muito difícil entender a persistência insensível e insensata, cega e surda, neste caminho de “custe o que custar", no cumprimento dos objectivos do negócio com a troika e dos objectivos de uma política "over troika", atingindo claramente o limite do suportável e afectando gravemente as condições de vida de milhões de milhões. Estamos a falar de pessoas, não de políticas ou números, ou melhor, estamos a falar do efeito das políticas na vida das pessoas.
Com uma cumplicidade e fidelidade canina que embaraçam, os feitores e os donos dos destinos conceberam, concebem, uma devastadora situação da qual releva o aumento brutal de situações de pobreza, bem acima das estatísticas oficiais, o aumento fortíssimo do desemprego e do número de pessoas desempregadas sem subsídio de desemprego, o abaixamento dos apoios sociais, a pobreza a afectar crianças e idosos, sempre os grupos mais vulneráveis, a manutenção de simetrias gritantes na distribuição da riqueza, enfim, um inferno para milhões de portugueses.
Creio que já ninguém consegue sustentar a insistência neste caminho. Aliás, até mesmo do FMI se ouviram vozes contestando o "excesso de austeridade" e são conhecidas as falhas nas previsões e modelos econométricos que iluminam as políticas seguidas.
Na verdade, o caminho decidido, por escolha de quem o faz, é bom registar que existem alternativas, está a aumentar assimetrias sociais e obviamente a produzir mais exclusão e pobreza mas, insisto, mais preocupante é a insensibilidade da persistência neste caminho.
Com este terramoto social e económico ainda se insiste no discurso do “bom caminho”, do "único caminho". Isto indigna até à raiva, nós estamos pobres e vamos continuar pobres.
Nós precisamos de combater a assimetria da distribuição da riqueza e produzir mais riqueza, precisamos de combater mordomias e desperdício de recursos e meios ineficientes e muitas vezes injustificados que alimentam clientelas e interesses outros. Nós precisamos de combater a teia de protecção legal e política aos interesses dos mercados e dos seus empregados que conflituam com os interesses das pessoas.
O que precisamos é de coragem e visão sem subserviência ao ditado dos mercados e dos seus agentes para definir modelos económicos, sociais e políticos destinados a pessoas e não a mercados ou a grupos minoritários de interesses.

terça-feira, 22 de Abril de 2014

DESALINHADA MENTE

Desencontrada mente.
Inesperada mente.
Activa mente.
Inoportuna mente.
Desalinhada mente.
Surpreendente mente.
Viva mente.
Simples mente.
Feliz mente.
Nós,
Os Miúdos.

A PEGADA ÉTICA

"Cavaco contra faits divers, intrigas, agressividades, crispações e insultos na política"

O Presidente da República entendeu por bem referir-se hoje ao mau ambiente e comportamento que vai por Portugal na vida pública. No seu jeito de Mestre Escola antigo, lembro-me dos ralhetes do Reitor do Liceu, ralhou com os meninos mal comportados e afirmou que temos de ser "amiguinhos", temos que nos portar bem, o mau ambiente o mau comportamento não nos deixam ter boas notas e progredir.
Cavaco Silva fez muito bem ao expressar a sua preocupação com o ambiente da República. No entanto, há um irrelevante pormenor, Cavaco Silva é o político em actividade com mais tempo de poder político, ou seja, Cavaco Silva é parte do problema, não é parte da solução para os problemas de ambiente na cena política portuguesa. De há muito que me refiro a esta questão, a dimensão ética da nossa vida cívica e política.
Como todos sabemos, o despertar das consciências para as questões do ambiente e da qualidade de vida colocou na agenda a questão das pegadas, das marcas, que imprimimos no mundo através dos nossos comportamentos. Este novo sentido dado às pegadas tornou secundárias e ultrapassadas as míticas pegadas dos dinossauros e as românticas pegadas que os pares de namorados deixam na areia da praia.
Fomo-nos habituando a ouvir referências às várias pegadas que produzimos com nomes e sentidos mais próximos ou mais distantes mas, sobretudo, tem-se acentuado a grande preocupação com a diminuição do peso, isto é, do impacto das nossas pegadas. Conhecemos a pegada ecológica numa perspectiva mais global ou, em entendimentos mais direccionados, a pegada hídrica, a pegada energética, a pegada verde, a pegada do papel, a pegada do carbono, etc.
No entanto, do meu ponto de vista e sempre preocupado com o ambiente, com a qualidade de vida e com a herança que deixaremos a quem nos segue, nunca encontro referências e muito menos inquietações sérias com a pegada ética, isso mesmo, a pegada ética.
Os comportamentos e valores que genericamente mobilizamos têm, obviamente, uma consequência na qualidade ética da nossa vida que não é despicienda. Os maus-tratos e negligência que dedicamos aos princípios éticos mais substantivos provocam um empobrecimento e degradação do ambiente e da qualidade de vida das quais cada vez parece mais difícil recuperar.
As lideranças, as várias lideranças de diferentes áreas, hipotecando a sua condição de promotores de mudanças positivas são fortemente responsáveis pelo peso e impacto que esta pegada ética está a assumir.
Vai sendo tempo de incluir a pegada ética no universo da luta pelo ambiente, pela qualidade vida e pelo futuro.
Em termos mais pragmáticos e face aos numerosos e despudorados incidentes que regularmente surgem, talvez fosse de considerar a instalação urgente de uma ETAR – Estação de Tratamento do Ambiente da República.
Gostava de acreditara que ainda estaremos a tempo de recuperar o ambiente da República. Haverá ETAR que responda?

O TERCEIRO PERÍODO, O DAS EXPLICAÇÕES.

"Terceiro período, o tempo das "explicações""

Umas notas minhas no Público sobre o período escolar que agora começa.
Bom trabalho.

segunda-feira, 21 de Abril de 2014

A EXPLICAÇÃO. Outro diálogo improvável

Um destes dias, no início das aulas do terceiro período, andava o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, pelo recreio quando se cruzou com o Diogo um miúdo reguila e atento que sempre que se encontram tem alguma inquietação a partilhar com o Velho.
Olá Diogo, tudo bem?
Não Velho está tudo mal, já estou cansado. Tu que és Professor e Velho explica-me uma coisa. Porque é que é preciso explicação?
Explicação?! Não percebo.
No segundo período tive negativa a Inglês e a Matemática O meu pai explicou-me que eu precisava de uma explicação. Eu expliquei ao meu pai que estando um bocado mais atento, se estudasse mais e se falasse com os setores, talvez não precisasse de explicação. O meu pai explicou-me que eu não posso chumbar ou mesmo passar com notas muito baixas, por isso era melhor a explicação. Expliquei ao meu pai que muitas pessoas estudam e fazem os cursos sem ter sempre notas altas e mesmo, às vezes, até chumbam, mas depois ficam bons nas profissões. Expliquei ao meu pai que na escola, a seguir às aulas tenho apoio ao estudo e a DT disse que vamos ter ajuda nas disciplinas mais fracas. O meu pai explicou-me que pode não chegar porque somos muitos e, portanto, era melhor uma explicação fora da escola com menos miúdos. Expliquei ao meu pai que saio da escola já tarde, a seguir ia para a explicação, ele disse três dias por semana, e depois ainda tenho que fazer o TPC das outras disciplinas. Ele explicou-me que é preciso muito trabalho para se ser alguém na vida e eu expliquei-lhe que tenho a certeza que vou ser alguém na vida, ser um Diogo é já ser alguém, mas ele explicou-me que ele é que sabe o que é melhor para mim. Velho, estás a ver como já estou cansado. Conheces alguma explicação para pais que não percebem a explicação dos filhos?
Bem, ...

A LER ... SOBRE A DIFERENÇA

"Para onde está a olhar?"


Como sempre afirmo, os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como cuidam das minorias.
No entanto, também nesta matéria sopram ventos adversos.

VOLTEMOS À REALIDADE

"Empresas não vão mexer nos salários e mostram vontade de aumentar pessoal"


"CGTP e CCP exigem que Governo clarifique cortes nas pensões e na função pública"

Pronto, o benfiquismo comemorou o campeonato, a poeira está a assentar e a vida continua. 
Para que não tenhamos surpresas, o trajecto de empobrecimento e proletarização que nos levará à salvação e aos amanhãs que cantam, continua a cumprir-se.
Que siga, pois, ... a vida, melhor, a sobrevivência. 

domingo, 20 de Abril de 2014

A CHAMA IMENSA

Ser benfiquista é ter na alma a chama imensa.


Eu estive lá.

OS CUSTOS DA ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA GRATUITA

"Escolas pedem dinheiro para material e visitas de estudo"


A propósito dos custos de frequência da escolaridade obrigatória, recordo um estudo da Nielsen segundo o qual as famílias portuguesas iriam em média 525 euros no início das aulas. Estes custos têm vindo a aumentar sendo que em 2010, a média foi de 499 euros, em 2012 foi 507 euros e agora atingirá 525 euros.
Como é sabido no quadro constitucional vigente, lê-se no Artº 74º (Ensino), “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito; 
Desta leitura resulta de forma que creio clara a veiculação do Estado ao providenciar a escolaridade obrigatória de forma gratuita.
Acontece que, como é conhecido e reconhecido, o ensino obrigatório nunca foi gratuito nem universal, veja-se as taxas de abandono e os custos incomportáveis para muitas famílias dos manuais e materiais escolares num quadro em que a acção social escolar é insuficiente e tem vindo a promover sucessivos ajustamentos nos volumes de apoio disponibilizados
Num tempo em que a Constituição está sob escrutínio e é vista como bloqueio a iniciativas, sobretudo no âmbito dos direitos e garantias, e também num tempo em que o estado social e a escola pública estão sob ameaça e sabendo-se que somos um dos países europeus com maior assimetria na distribuição da riqueza, importa prevenir o risco acrescido de potenciar a instalação de condições de insucesso escolar, abandono e, finalmente, da dificuldade de acesso à qualificação que alimenta a mobilidade social, discriminação nas oportunidades estando assim comprometido o direito à educação.

A FALHA DO ARTISTA NO TEMPO DAS MARMITAS

A peça do Público sobre o abaixamento das refeições consumidas nos refeItórios universitários e o regresso da "marmita"  com o almoço trazido de casa, outro sinal  dos tempos, recordou-me um longínquo episódio que carrego num cantinho da mochila e de que não me orgulho particularmente.
Tendo terminado a 4ª classe e não havendo liceu oficial na margem sul, o Externato Frei Luís de Sousa era inacessível, os meus pais entenderam que com 9 anos era complicado ir para Lisboa, não havia ainda a ponte sobre o Tejo e a escola mais perto dos barcos era o velho Passos Manuel. Assim, com ajuda de uns familiares mais “letrados”, encontraram uma antiga professora que fazia “ensino doméstico” em Almada com um grupo pequeno que estava oficialmente matriculado no Liceu Camões, onde fomos fazer os exames do 1º ciclo do liceu como alunos externos onde, curiosamente, estive há pouco tempo num encontro com professores.
Mesmo assim era uma experiência. Apanhava um autocarro para Cacilhas e um outro para Almada descendo na zona “nobre”, mesmo à beira do mítico Café Central onde viria a fazer boa parte do meu percurso estudantil. Acontece ainda que essa paragem era das mais frequentadas de Almada tendo sempre gente.
Quase à porta do Central, com público garantido, estavam reunidos os ingredientes necessários para uma bela exibição da rapaziada em crescimento no corpo e no juízo, descer dos autocarros com estes ainda em andamento.
Com alguma imodéstia, não era mau na performance e a adrenalina da assistência fazia desafiar a velocidade do desempenho.
Claro que a coisa um dia correu mal. Como de costume, abri a porta dos velhos autocarros da Piedense, olhei para a potencial plateia, antecipei o aplauso e lancei-me. Faltou velocidade e cumprimento nas pernas e o resultado foi lastimável. Espalhei-me ao comprido. Quando olhei para o meu lado estava o saco donde escorria a sopa que levava para o almoço, comer fora era um luxo. Usava uma daquelas marmitas antigas de “dois andares” encaixados, um para a sopa e outro para o “conduto”, também ele a sair do saco misturado com a sopa e eu com as calças rasgadas, joelhos e mãos a sangrar, a olhar de soslaio para a assistência, esperando ouvir a todo o momento um monumental assobio pela actuação desastrada.
Juntos os cacos do almoço e da minha auto-estima estilhaçada e reprimindo as lágrimas que as esfoladelas sérias de joelhos e mãos pediam, afastei-me com um ar que, quero acreditar, convenceu aquela a gente a não patear o infortunado artista.
Embora actualmente não passe com regularidade por ali, quando o faço, sinto ainda que estão a olhar para mim e para a minha marmita e aberta com o meu almoço espalhado pelo chão.
Inconscientemente, ando um bocadinho mais depressa.

sábado, 19 de Abril de 2014

AS FACES OCULTAS

"Imunidades dos deputados e governantes da Madeira bloqueiam mais de 60 processos nos tribunais"

Outra vez e sempre, as vezes que forem necessárias.  
A roda livre de impunidade e incumprimento dos mais elementares princípios éticos quando não da lei, produziu nas últimas décadas uma verdadeira família que, à sombra dos aparelhos partidários e através de percursos políticos, se movimentam num tráfego intenso entre entidades e empresas públicas e entidades privadas, envolvendo-se frequentemente em negócios que insultam os cidadãos. 
Esta família alargada envolve gente de vários quadrantes sociais e políticos com uma característica comum, os negócios obscuros, e tem membros destacados como Oliveira e Costa, Jardim Gonçalves, Dias Loureiro, Duarte Lima, Isaltino Morais, Penedos, Vara e tantas outras faces mais ou menos ocultas, mais ou menos mediatizadas, mais ou menos discretas na função ou no comportamento.
Acontece ainda e isto tem efeitos devastadores, que muitos dos negócios que esta família vai realizando, envolvendo com frequência dinheiros públicos e com pesados encargos para os contribuintes.
Entretanto, do outro lado desta família que se protege e apoia, com a cooperação estratégica de um sistema de justiça forte com os fracos e fraca com os fortes, temos milhões de portugueses em situações de pobreza e exclusão e a esmagadora maioria da população esmagada por políticas de austeridade que sacrificam a dignidade e ameaçam a sobrevivência.
Todos os membros desta família, quando questionados sobre os seus negócios ou envolvimento em algo, afirmam, invariavelmente que tudo é feito tudo dentro da lei, nada de incorrecto e, portanto, estão sempre de consciência tranquila.
Alguém poderia explicar a esta gente que, primeiro, não somos parvos e, segundo, o que quer dizer consciência.
Esta é a pantanosa pátria, nossa amada. 

A SÉRIO?

"Jardim Gonçalves. "Quem domina os bancos chega a todo o lado""

O Eng. Jardim Gonçalves é um homem reconhecidamente competente nesta matéria. E noutras, evidentemente.

NÃO. DEFINITIVAMENTE, NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES

"Há menos estudantes do secundário a querer tirar um curso superior"


O preocupante abaixamento do número de alunos que terminado o 12º ano pretende continuar a estudar parece ter como causa mais provável as dificuldades económicas das famílias que também explica o abandono de muitos alunos já durante a frequência do curso.
No entanto, temo que o número relativamente baixo de alunos com a intenção de adquirir formação de nível superior possa também estar ligado à perversa e errada ideia do “país de doutores” que, muitas vezes com o auxílio de uma imprensa preguiçosa e negligente, se foi instalando a propósito do número de jovens licenciados no desemprego e da conclusão de que “não vale a pena estudar”, um verdadeiro tiro no pé e que não corresponde de todo à verdade. Desculpem a insistência mas é preciso.
Em primeiro lugar, os jovens licenciados não estão no desemprego por serem licenciados, estão no desemprego porque temos um mercado pouco desenvolvido e ainda insuficientemente exigente de mão-de-obra qualificada e muitos estão no desemprego porque, por desresponsabilização da tutela, a oferta de formação do ensino superior é completamente enviesada distorcendo o equilíbrio entre a oferta e a procura.
A qualificação profissional, de nível superior ou não, é essencial, continuamos com taxas de formação superior abaixo das médias europeias, como também é essencial a racionalidade e regulação da oferta do ensino superior e, naturalmente, a regulação eficaz do mercado de trabalho minimizando o abuso do recurso à precariedade. É ainda de sublinhar que conforme um estudo recente, "Empregabilidade e Ensino Superior em Portugal", da responsabilidade da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior a qualificação de nível superior compensa em termos de estatuto salarial e empregabilidade, como aliás estudos internacionais, por exemplo da OCDE, também demonstram. Embora como recentemente foi divulgado os vencimentos médios estejam em quebra a situação ainda se verifica.
Por outro lado, parece oportuno recordar que, de acordo com o Relatório da OCDE, Education at a glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias, cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia (UE) 23,6%.
Esta informação não é nova. Na verdade e como é do conhecimento das pessoas mais perto deste universo, o ensino superior, Portugal, contrariamente ao que muitos afirmam, tem um dos mais altos custos de propinas da Europa. Conforme dados de 2011/2012 da rede Eurydice, Portugal tem o 10º valor mais alto de propinas na Europa, mas se se considerarem as excepções criadas em cada país, temos na prática o terceiro custo mais alto no valor das propinas.
Em 2012 foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Neste cenário, o número de desistências da frequência tem vindo a aumentar pois muitos alunos ou famílias não suportam os encargos com o estudo. Sabe-se também dos constrangimentos na atribuição de bolsas de estudo.
Como sempre que abordo estas matérias, finalizo com a necessidade de, uma vez por todas, evitar o discurso "populista" do país de doutores, continuamos com uma enorme probabilidade não cumprir a meta europeia para 2020 de 40% de licenciados no escalão etário 30-34 anos.

sexta-feira, 18 de Abril de 2014

NOTA BIOGRÁFICA

"Trabalhadores de call centers criam sindicato para dignificar profissão"

A propósito da iniciativa de trabalhadores de "call center" no sentido de criar um sindicato que contribua para mais e melhor protecção laboral, justificada, aliás, como algumas referência na imprensa têm mostrado retomo um texto antigo. Confesso que o conhecimento deste mundo me levou a ter uma atitude diferente, mais paciente e tranquila com quem me aparece do outro lado da linha em múltiplas circunstâncias.

Nome: Um Número
Idade: 32
Habilitações Académicas: Licenciatura em Gestão Integrada de Contextos Profissionais; Pós-graduação em Promoção de Oportunidades
Morada: Casa dos pais
Profissão: Procurador de emprego
Experiência profissional: Funcionário de Call-center em variados contextos de operação; Experiência de Empregado de Balcão em grandes superfícies comerciais
Competências adquiridas: Elaboração diversificada de currículos; Ocupação criativa dos  tempos de espera em filas do Centro de Emprego; Preparação de entrevistas de emprego; Técnicas de sobrevivência e adaptação a contextos profissionais de exploração e sem dignidade; técnicas de sobrevivência económica
Projecto a curto prazo: Encontrar alguma forma de subsistência que não a generosidade familiar
Projecto a médio prazo: Um trabalho na área de qualificação
Projecto a longo prazo: Uma vida decente
Projecto quase perdido: Esperança

VERDES SÃO OS CAMPOS

Uma pausa nas lidas, a do Monte e a profissional, desafiou-nos para um limpar de alma numa deambulação pelo Meu Alentejo, o Alto, desta vez.
Uma viagem em dois cenários.
Primeiro, o dos verdes campos, que a generosidade de um Inverno com água bem chovida e estes dias criadores enchem de um verde salpicado de branco e de amarelo dos malmequeres, com um volume e uma intensidade que nos deixa a olhar sem tempo.

                                 

O segundo cenário, mais alto, mais perto do céu, a Serra de S. Mamede, com o rosmaninho, a giesta de um amarelo que compete com o Sol e, sobretudo, um dos milagres da natureza, a flor das estevas, uma peça de filigrana delicada.

Foi bonita a festa.

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

PARTIU GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ





Partiu Gabriel García Márquez, outro dos Homens que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando.
A morte não paga fraquezas mas também não fará esquecer grandezas, era apenas um Homem.

O DESTINO



(Foto de Adriane)

O destino,
de quem por destino tem,
andar sem destino,
à procura de um destino,
que destinado está.

E VAI FAZER O QUÊ?

"Cavaco defende que chegou o momento de corrigir injustiças sociais"

Talvez seja de esperar que realize o que tem realizado até aqui, aquela coisa chamada de magistratura de influência que ... não influencia nada. Ou quase.
O Presidente da República pode também insistir no apelo aos consensos, aos compromissos, aos pactos, etc. que todos sabemos impossíveis face à conflitualidade de interesses da partidocracia em que a democracia se transformou. Ou quase.
Também pode, de vez em quando, dizer isto mesmo ou repetir com fórmulas diferentes, de nada adiantae. Ou quase.
O efeito é zero. Ou quase

OS AUDIS DO MEU DESCONTENTAMENTO

"O sorteio das facturas não convence nem sindicatos nem técnicos de contas"

Tenho andado indeciso sobre a elaboração de umas notas sobre o sorteio dos Audis, a Factura da Sorte. Mas hoje, ocasião do primeiro sorteio, resolvi, aqui ficam.
Desde o seu anúncio que me sinto embaraçado com a medida. Não simpatizo de todo com a ideia de sortear carros de topo de gama nos tempos que correm como forma de premiar o bom comportamento fiscal.
Bem sei que a justificação é o combate à evasão fiscal, muito elevada, e à economia paralela que representa mais de 25% do PIB e que este cenário carece de ser revertido. 
No entanto, a evasão fiscal nas pequenas facturas do dia a dia não passa de peanuts comparado com os milhões que circulam pelos paraísos financeiros que continuam de boa saúde e protegidos pela hipocrisia dos políticos. A evasão fiscal circula pelos escritórios de advogados que exploram até ao limite as manhas contabilísticas que as leis amigas posibilitam, permitindo que muitos milhões escorreguem "legalmente" para outras sedes. A evasão fiscal circula pelos negócios das famílias, poucas, que desde sempre mandam na economia portuguesa com o seus protectores estrangeiros.
A evasão fiscal e a economia paralela alimentam-se de um fortíssimo nível de corrupção que raramente tem condenados, veja-se a informação divulgada há dois dias, apenas 6% dos processos de corrupção resultam em condenação, 
A evasão fiscal e a economia paralela circulam também no tráfico de influências e na protecção a negócios que quando correm bem proporcionam lucros fabulosos não taxados, Dias Loureiro, Isaltino Morais, João Rendeiro, Oliveira e Costa, Duarte Lima, etc., etc., que o digam e quando correm mal pagamos todos.
O combate à fraude e à evasão fiscal e à economia paralela passam por um sistema de justiça eficaz, célere e justo, que não seja forte com os fracos e fraco com os fortes. Passa por leis claras e sem alçapões que a contabilidade criativa e bem paga explore. Passa pela exlusividade ou separação de funções minimizando o tráfico de influências e pessoas entre estruturas públicas e privadas. Passa pela transparência dos negócios e das colocações. Passa pela ... vontade séria de as combater e não da produção de uma retórica hipócrita.
O sorteio da Factura da Sorte não é inédito mas, também aqui, os exemplos em que se verifica não são muito animadores, dispenso tal companhia.
Acredito que o Audi possa ser um incentivo ao "cumprimento" fiscal para muita gente. Muitos de nós portugueses, adoramos este "jogo", o jogo da "sorte", no qual depositamos muitos dos nossos sonhos, sintetizados na conhecida fórmula milhões de vezes dita e ouvida, "nunca mais me sai o Euromilhões para deixar de trabalhar". No entanto, esta adesão ainda me deixa mais embaraçado, aceitamos o "jeitinho" no nosso quotidiano e pedimos a factura da "bica" para alimentar a esperança no Audi.
Esta medida, finalmente, recorda-me, a medida do Grupo Pingo Doce num famoso 1º de Maio que, em nome da generosidade e precupação com as famílias ,proporcionou imagens degradantes e deprimentes, bem como, é certo, mais uns milhões de euros nos negócios a troco de uma multa irrisória.
Ainda assim, como o povo costuma dizer ... que o Audi saia a alguém que precise. Boa sorte.

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

PRENDER NÃO BASTA. A INSISTÊNCIA

O jovem que atacou colegas e uma funcionária da escola, condenado a 30 meses de internamento em Centro Educativo, foi hoje libertado. A libertação, por razões processuais, é temporária devendo retornar ao internamento onde tem permanecido sob vigilância máxima devido a "risco de suicídio". Algumas notas, de novo.
Aparentemente, este caso, com os dados conhecidos pela imprensa, tem alguns contornos atípicos, trata-se de um bom aluno, miúdo considerado inteligente, vivenciando uma situação de pouco acompanhamento e alta pressão de uma família estruturada e funcional e outros aspectos mais habitualmente presentes, vítima de colegas em situações de bullying e dificuldades de relacionamento social com isolamento. Este quadro, aqui abordado, naturalmente, em termos abstractos, pode promover um processo que costumo designar por "incubação do mal" que se instala nos adolescentes, a partir de situações de mal-estar que podem passar relativamente despercebidas mas que, devagarinho, insidiosamente, começam interiormente a ganhar um peso insuportável cuja descarga apenas precisa de um gatilho, de uma oportunidade.
Ao olhar para a sentença e para a reacção do rapaz creio que vale a pena recordar um estudo recentemente divulgado, o Programa de Avaliação e Intervenção Psicoterapêutica no Âmbito da Justiça Juvenil, promovido pela DGRSP e co-financiado pela Comissão Europeia, revelando que a média etária dos rapazes dos centros é de 16,6 anos. Em geral, acumulam mais de três anos de chumbos na escola, e, em 80% dos casos, são de famílias cujo estatuto socioeconómico é baixo. Este perfil não corresponde ao do jovem hoje sentenciado. Mas é relevante que mais de 90% dos que foram entrevistados têm pelo menos uma pertubação psiquiátrica, “o que é um dado astronómico”, como classificou Daniel Rijo, professor da Universidade de Coimbra, um dos autores do trabalho para a DGRSP. Nem todos têm o acompanhamento que seria necessário, admitiu.
Por outro lado, segundo dados da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, 24% dos jovens de alto risco de envolvimento em comportamentos de delinquência e a quem foram aplicadas medidas tutelares incluindo o internamento em Centros Educativos reincidiram nos primeiros 12 meses e ao fim de 26 meses a taxa de reincidência sobe para 48.6%.
Julgo importante ainda recordar dados divulgados em 2012 que sublinharam o aumento da delinquência urbana, sendo que 86% dos incidentes registados são protagonizados por gente jovem,  dos 16 aos 35 anos.
Sempre que estas matérias são discutidas, os especialistas acentuam a importância da prevenção e da integração comunitária como eixos centrais na resposta a este problema sério das sociedades actuais.
Parece ser cada vez mais consensual que mobilizar quase que exclusivamente dispositivos de punição, designadamente a prisão, parece insuficiente para travar este problema e, sobretudo, inflectir as trajectórias de marginalização de muitos dos envolvidos mais novos em episódios de delinquência.
No entanto a discussão sobre estas matérias é inquinada por discursos e posições frequentemente de natureza demagógica e populista alimentados por narrativas sobre a insegurança e delinquência percebida, alimentadora de teses securitárias.
A questão central, insisto, é que, sobretudo no caso de gente mais nova, a prisão não pode ser a única solução, os dados sobre a elevadíssima taxa de reincidência mostram isso mesmo. Apesar de, repito, a punição e a detenção constituírem um importante sinal de combate à sensação de impunidade instalada, é minha forte convicção de que só punir e prender não basta.
Parece ser cada vez mais consensual que mobilizar quase que exclusivamente dispositivos de punição, designadamente a prisão, parece insuficiente para travar este problema e, sobretudo, inflectir as trajectórias de marginalização de muitos dos envolvidos mais novos em episódios de delinquência.

Talvez todo este quadro deveria a ser considerando na análise deste episódio de que hoje se conheceu a sentença mas que, provavelmente, não acaba aqui.

ATÉ À PRESCRIÇÃO FINAL

"Tribunal liberta Duarte Lima da prisão domiciliária"


Não desespere Dr. Duarte Lima, a coisa vai-se compondo, até à prescrição final.
Este processo é apenas mais um exemplo elucidativo do funcionamento da nossa Justiça. Desenvolve-se com a interposição de recursos atrás de recursos, num desfile de manobras, manhas e outros expedientes que o nosso sistema de justiça tão minuciosa e eficazmente tem desenhado para que quem dele se sabe aproveitar o possa fazer em seu benefício. Tudo isto se prolongará, obviamente, até à prescrição final.
A titular da pasta da Justiça já tem assumido em público a despudorada utilização de manobras manhosas que mais não fazem que minar a justiça transformando-a numa espécie de administração da injustiça.
Tenho para mim que este caso, como tantos outros, virá a morrer por morte morrida, para usar as palavras de João Cabral de Melo Neto, ou seja, cairá por esgotamento. Assim, o Dr. Duarte Lima poderá ter uma reforma tranquila com os trocos miseráveis resultantes de uma vida dedicada à causa pública e aos negócios com os amigos.
No meio do azar, com estes problemas todos, coitado, até teve sorte, felizmente terá amealhado um bom pé-de-meia que nos tempos que correm não é coisa pouca.
A tragédia é que lemos tudo isto sem um sobressalto de indignação, este fim está escrito nas estrelas, é o destino.

E A LICENÇA PARA USO DO ISQUEIRO?

"Governo quer nova taxa em produtos com alto teor de açúcar ou de sal"

Ao que parece, o Governo considera a hipótese de taxar diferenciadamente produtos considerados prejudiciais à saúde, como alimentos com teor elevado de sal ou açúcar. É uma espécie de dois em um, promove a saúde e a qualidade de vida e cria uma fonte adicional de receita.
Na mesma linha sugiro que se considere uma taxa adicional a imputar à troika pelo conjunto de políticas que tem sido levadas a cabo e fazem mal às pessoas, são políticas altamente tóxicas.
Uma última e desinteressada sugestão no sentido de se recuperar uma peça antológica em matéria de receitas do estado, a licença de uso do isqueiro que ainda conheci. Fumar, só faz mal.

O FUTURO NÃO MORA AQUI

"Inquérito a cientistas portugueses mostra que 46,4% quer emigrar ou já emigrou"

Considerando o trajecto recente do desinvestimento em ciência e investigação em Portugal estes dados não supreendem mas são profundamente inquietantes.
Por outro lado e como é reconhecido, de uma forma geral, o ensino superior e a investigação em Portugal têm uma qualidade que internamente nem sempre é reconhecida e que se evidencia na frequência com que em diversas áreas se assiste à contratação de jovens que estudaram em Portugal para trabalho em empresas ou em investigação em diferentes países, onde se incluem, por exemplo, a Inglaterra, a Alemanha ou os Estados Unidos que não são propriamente países com baixo nível de desenvolvimento científico.
Neste quadro, torna-se ainda mais preocupante a partida para o estrangeiro de muitos milhares de jovens, com formação superior de elevada qualidade, porque em Portugal um projecto de vida viável e bem sucedido é uma miragem. Este êxodo tem, obviamente, com profundas consequências para um país como Portugal.
Em primeiro lugar, porque sendo um país com uma fortíssima necessidade de qualificação nas empresas, vê partir os que mais preparados estariam o que terá, evidentemente, um impacto económico significativo. Aliás, é curioso que membros do Governo como Pires de Lima, Nuno Crato ou o Primeiro-ministro sublinham recorrentemente a imperiosa necessidade de promover emprego qualificado para o desenvolvimento de um país como o nosso. Curiosamente, este entendimento é subscrito por um Governo com forte responsabilidade pela emigração forçada de milhares de jovens com formação superior, designadamente trabalhadores na área científica, que não vislumbram o futuro em Portugal.
Em segundo lugar, porque importa não esquecer que os custos da formação dos jovens qualificados em Portugal são suportados por todos os nós no caso do ensino público e das famílias ou dos próprios na formação em estabelecimentos privados embora, considerando também o ensino público, os custos para as famílias na frequência de ensino superior em Portugal seja dos mais altos na Europa. Isto significa que Portugal, o estado e as famílias, suporta os custos da formação e os outros países aproveitam essa qualificação uma vez que os jovens não conseguem desenvolver o seu trabalho  em Portugal.
Estamos a cuidar mal do nosso futuro.

ENTRE O INCONSEGUIMENTO E A MAÇADORIA

"Passos Coelho na SIC: a “maçadoria”, as pensões e os salários e a promessa"


Num registo de "que se lixe as eleições" em modo "read my lips", a insensível e insensata persistência num caminho conhecido.
Fica um inconseguimento que nos deixa, nos mantém, num estado frustracional.
Enfim, uma maçadoria, Passos dixit.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

NINGUÉM CABE NUMA FOTOGRAFIA, SEMPRE



(Foto de Mico)

O professor velho lá da minha escola, disse-me uma vez que ninguém cabe numa fotografia, sempre.
Um dia, vou ser capaz de sair desta fotografia. Então, vão ver o mundo bonito que vai ser o meu.

OS CUSTOS DE UM ENSINO "MANUALIZADO"

No final do ano lectivo passado, dados divulgados estimavam que os custos médios  de uma família com três filhos, um em cada ciclo do ensino básico, seriam de 450€ em manuais e de entre 600 e 800 € com o restante material.
Acresce que só os alunos integrados no escalão A dos apoios sociais escolares têm os manuais gratuitamente, enquanto os alunos no escalão B serão ressarcidos devendo as famílias adiantar a compra dos manuais, situação difícil para muitos agregados.
Segundo a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros os manuais obrigatórios representariam um encargo superior a 80 milhões de euros para as famílias de 1,4 milhões de alunos. São conhecidos os ajustamentos nas regras e destinatários dos apoios sociais escolares, temos cerca de três milhões de portugueses em risco de pobreza e um terço das famílias a viver mesmo encostadas a esse limiar implicam, por exemplo e como é sabido situações graves de carências incluindo de natureza alimentar. Acresce ainda que, ao custo com os manuais se deve adicionar o encargo com material escolar e materiais de apoio sempre “sugeridos” pelas escolas e que determinam, de acordo com o INE, que as famílias portuguesas gastem mais que a média europeia em educação.
É também de recordar que a Constituição da República estabelece no Artigo 74º que “Compete ao Estado assegurar o Ensino Básico universal, obrigatório e gratuito”.
Relativamente aos manuais escolares, têm vindo a surgir algumas iniciativas, como os bancos de troca de manuais escolares, com o objectivo de reutilizar os manuais escolares, envolvendo autarquias, associações de pais, escolas, etc. e procuram naturalmente contribuir para atenuar os gastos de muita centenas de euros que muitas famílias têm no início de cada ano com esta importante parte do "material escolar". Também agora os CTT se associam a este tipo de iniciativas providenciando a entrega gratuita em Bancos de livros do movimento Reutilizar.
A questão dos manuais escolares é complexa e muito importante, é um nicho de mercado no valor de muitos milhões como referimos. No entanto, do meu ponto de vista, importa avaliar não só o papel dos manuais mas, fundamentalmente, da quantidade enorme de outros materiais que os acompanham, muitos não incluídos nos diapositivos de apoio social e que contribuem de forma muito significativa para o aumento da factura dos custos familiares com a educação potenciando injustiça e desigualdade de oportunidades.
Por outro lado, como ainda há dias referi, creio que em muitas salas de aula se verifica a tentação de substituir a “ensinagem”, o acto de ensinar, pela “manualização”ou “cadernização” do trabalho dos alunos, ou seja, a acção do professor é, sobretudo, orientar o preenchimento dos diferentes dispositivos que os alunos carregam nas mochilas.
Esta questão, que não me parece suficientemente reflectida nas suas implicações acaba por baixar a qualidade das aprendizagens e apesar de se promover algum controlo da qualidade dos manuais, o mesmo não se verifica com os chamados materiais de apoio o que envolve custos pesados de natureza diversa.
Como já tenho afirmado, penso que seria de considerar a possibilidade dos manuais escolares serem disponibilizados pelas escolas e devolvidos pelos alunos no final do ano lectivo ou da sua utilização, ficando as famílias com "folga" para aquisição de outros materiais, livros por exemplo, sendo penalizadas pelo seu eventual dano ou extravio. Como é evidente, dentro desta perspectiva, a própria concepção dos manuais deveria ser repensada no sentido de permitir a sua reutilização.

Não esqueço, no entanto, o peso económico deste mercado e como são os mercados que mandam ...

AS NOVAS QUALIDADES DAS FAMÍLIAS

"Crise "trava" divórcios em Portugal"

Parece estar a assistir-se em Portugal, dados do INE reforçados com um estudo da Universidade Portucalense um abaixamento dos casos de divórcio. Este abaixamento não parece decorrer de uma tendência positiva na qualidade das relações conjugais mas à manutenção de uma relação dadas as condições económicas e os custos de uma separação. Assim, cresce o número de pessoas que apesar de separarem, continuam a partilhar a mesma casa por razões económicas ou que nem sequer assumem a separação por insegurança sobre o futuro. De facto, as famílias e as suas dinâmicas de constituição, organização e funcionamento têm sido recorrentemente objecto de referência, acentuando, sobretudo, os processos de mudança envolvidos.
No entanto, do meu ponto de vista, quase sempre me parece que as diferentes abordagens não valorizam, por vezes nem referem, um aspecto que me parece extraordinariamente relevante e que considero dos mais complexos desafios sociais que actualmente enfrentamos, a educação familiar, ou seja, o que é, o que deve ser, como deve ser a educação familiar em contextos altamente diferenciados e em mudanças permanentes.
De facto, as enormes alterações que temos vindo a constatar no universo das famílias implicam uma séria reflexão sobre as suas implicações e impacto na educação familiar. O paradigma clássico, a família educativa e a escola instrutiva, mudou substantivamente o que não significa, obviamente, a alienação do papel educativo da família, mas sim atentar nas novas qualidades que esse papel vai assumindo, parafraseando Camões.
Desde logo porque, por questões de logística e funcionalidade, o tempo familiar para as crianças encolheu de forma dramática, os miúdos passam tempos infindos na escola sob um princípio a que até o MEC se lembrou de chamar de forma infeliz “Escola a tempo inteiro”. As famílias expressam uma enorme dificuldade em compatibilizar o que ainda entendem ser o seu papel educativo com a pressa e o pouco tempo que assumem ter para o realizar. Tenho conhecido dezenas de pais que se sentem culpados e fragilizados por entenderem que não têm a disponibilidade de tempo e atitude que julgam necessária para os filhos. Esta culpa e fragilidade é, com frequência, a base inconsciente que impede alguns pais de serem consistentes e firmes na definição de regras e limites imprescindíveis às crianças, pois “temem estragar” o pouco tempo que têm com elas devido a um eventual conflito.
Uma outra questão prende-se com o modo e a dificuldade que muitos pais me referem sentir quando lidam com as crianças em situação de “duas famílias”. Mais uma vez, as inseguranças e algum sentimento de culpa estão presentes e contribuem para embaraços que levam os pais a pedir alguma ajuda. Como sempre digo, é preferível uma boa separação a uma má família, mas alguns pais sentem-se inseguros para construir cenários de educação familiar com qualidade quando têm a guarda das crianças repartida.
A situação dos casais que apesar de separados continuam a coabitar o mesmo espaço ou que nem sequer assumem a separação, criando uma situação de "casados por fora" e "descasados por dentro", poderá implicar, quando existem filhos, algumas ansiedades e inquietações nos pais sobre a forma de lidar com um contexto em que aparentemente existe uma família, quando na verdade já são duas com uma ou mais crianças entre elas.
A experiência mostra, como referi acima, que a educação familiar se constitui como uma área extremamente complexa, não existem dois contextos familiares iguais sendo que, para além de tudo, se trata de um universo extremamente sensível a valores e convicções.
Assim sendo, importa estarmos atentos e procurar disponibilizar apoios e orientações nas situações em que os pais revelam e exprimem mais insegurança e dificuldades e que muitas vezes são fonte de grande sofrimento para todos os envolvidos. Estas situações são bem mais frequentes e graves do que julgamos.

O AÇÚCAR E A INDOMESTICÁVEL VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

"Baixos níveis de glucose podem ser uma causa de violência doméstica"


Um estudo hoje referido na imprensa realizado nos Estados Unidos sugere uma forte relação entre os níveis de glucose no organismo e os episódios de violência doméstica.
Não discuto os resultados e o próprio estudo, mas como é evidente, em princípio, dada a nossa condição, será sempre possível estabelecer um qualquer enquadramento ou base biológica para os nossos comportamentos.
Convém, no entanto, não menosprezar ou desvalorizar o nosso livre arbítrio, a capacidade de avaliação intelectual, o juízo moral, social e ético, justamente dimensões que nos permitem lidar e gerir os nossos comportamentos, por exemplo, a agressividade. Assim, a eventual existência de uma base biológica para episódios de violência dirigida ao parceiro ou parceira não pode, não deve, constituir uma qualquer forma de sofisticada desculpabilização ou, porque não, inimputabilidade. Aliás, os estudos de ocorrência e a sua associação a modelos sociais e culturais reforçam esta reserva.
Recordo que segundo o Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2013, os níveis de criminalidade baixaram em 2013 com excepção da violência doméstica com mais três vítimas mortais.
A violência doméstica parece continuar indomesticável. Recordo que no início de Março foi divulgado um estudo realizado sob a responsabilidade da Agência para os Direitos Fundamentais da UE, mostrou que 24% das mulheres portuguesas inquiridas reportou ter sido vítima de violência física ou sexual por parte do parceiro, indicador que está abaixo da média europeia, 33%. No entanto, parece-me de sublinhar pelo seu impacto, que 93% das mulheres portuguesas tem a percepção de que a violência é um fenómeno “comum” ou “muito comum”.
Como já tenho referido, por diferentes ordens de razões e embora a realidade se vá modificando lentamente, veja-se o aumento significativo de denúncias por parte dos homens, parece assumir-se ainda uma espécie de fatalidade na qual parece assentar uma “discreta” tolerância do crime de violência doméstica dirigida às mulheres, que é diferente das reacções quando a vítima é o homem.
Esta aparente tolerância relativizar-se-á à dificuldade de prova, ao sistema de valores e situação de dependência emocional e económica de muitas das vítimas, à atitude conservadora de alguns juízes, etc. Permanece ainda com alguma frequência a dificuldade de promover a retirada do agressor do ambiente doméstico, procedendo-se à saída da vítima numa espécie de dupla violência que, aliás, também se verifica em situações de maus tratos a crianças, em que o agressor fica em casa e a criança é “expulsa”. Por outro lado, os estudos mostram algo que se torna mais inquietante, o elevado índice de violência presente nas relações amorosas entre gente mais nova mesmo quando mais qualificada. Muitos dos intervenientes remetem para um perturbador entendimento de normalidade o recurso a comportamentos que claramente configuram agressividade e abuso ou mesmo violência.
Importa ainda combater de forma mais eficaz o sentimento de impunidade instalado e ainda, como referi, alguma “resignação” ou “tolerância” das vítimas face à percepção de eventual vazio de alternativas ou a uma falsa ideia de protecção dos filhos em caso de separação do agressor.
Nesta perspectiva, torna-se fundamental a existência de dispositivos de avaliação de risco e de apoio como instituições de acolhimento acessíveis para casos mais graves e, naturalmente, um sistema de justiça eficaz e célere.
Nada disto tem muito a ver com os níveis de glucose no organismo das pessoas.

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

AQUELES QUE POR OBRAS VALEROSAS ...

"Restos mortais de Salgueiro Maia devem permanecer no cemitério de Castelo de Vide, diz viúva"

Felizmente temos Gente muito grande.
Recorda-nos a  gente pequena  que nos assombra os dias, os de hoje, os de ontem, os de antes de ontem e ... os de amanhã.

CONTAS DA MINHA VIDA

O meu pai brincava comigo ao faz-de-conta.
Também me dizia, conta comigo,
enquanto contei com ele.
Com os meus amigos combinava,
vamos fazer isso, mas ninguém conta.
Ninguém contava.
A minha professora ralhava,
tens que aprender a fazer as contas.
Na escola, as minhas contas,
quase sempre davam erradas.
Cresci e disseram-me,
tens que fazer contas à vida.
Muitas vezes baralhei as contas.
Muitas vezes me baralharam as contas.
A vida fez as contas por mim.
No fim, acertámos as contas.
O resto foi zero.

O DESENCANTO


Sopram ventos adversos ... e há sentimentos dispersos.