quarta-feira, 1 de julho de 2015

QUANDO O TELEFONE TOCA

Ao que se lê na imprensa a Entidade Reguladora para a Comunicação Social encontra "Fortes indícios de acções enganosas" nos concursos com chamadas telefónicas que proliferam nas televisões. Nada de que se não suspeitasse tão evidentes são os abusos. Vamos ver se se verificam alterações.
Esta chamada de atenção para a utilização das chamadas telefónicas e publicidade levou-me para uma nostálgica, saborosa e tranquila viagem de décadas lá para o início da minha adolescência.
Naquele tempo, na minha casa tínhamos como equipamento para ouvir música um excelente rádio, ainda de válvulas, que, além da música permitia ouvir algumas coisas em onda curta que não queriam que ouvíssemos sendo nessa altura usado quase em surdina.
Entretanto, com as economias da costura da minha mãe e dos serões e trabalho a prémio que o meu pai fazia no Arsenal do Alfeite, ofereceram-me um espectacular gravador de cassetes com rádio incluído, um fascínio. Só algum tempo depois chegou uma televisão lá casa.
Era este rádio e gravador, companheiro de todas as horas quando em casa, que me permitia ouvir música, algo que não dispenso. Ainda hoje sempre tenho música à minha beira, tal como agora que estou a escrever na companhia de uns velhos conhecidos “Os Doors” de Jim Morisson.
Com este extraordinário equipamento comecei a construir a minha "casseteca" a partir dos programas que passam música de que gostava e que era ouvida na rádio pois muita não era passada, eram tempos de censura.
O problema é que, muitas vezes, as músicas que iam passando não eram anunciadas previamente o que não permitia gravá-las integralmente. Não contem a ninguém destas piratarias.
No entanto, várias estações de rádio tinham programas de discos pedidos, quase sempre com um formato muito popular, "Quando o telefone toca", em que o ouvinte, depois de reproduzir a frase publicitária solicitada naquele dia e programa, pedia um "disco". Estava atento e com os dedos a postos para carregar no "rec" sempre que era pedida música me interessasse. Devo dizer que muitas vezes, era um esforço e um tempo inglórios, não "pescava" algo de que que gostasse.
Muitas dezenas de músicas foram sendo assim, laboriosamente, coleccionadas, aumentando o acervo e tendo uma banda sonora que me acompanhava.
Como curiosidade sobre este tipo de programas, "Quando o telefone toca", lembro-me de uma vez o, ou a, ouvinte ter dito a frase publicitária "Compre o seu frigorífico no Ultramar" em vez de um mais fácil "Compre o seu frigorífico na "Ultralar"" uma, à época, bem conhecida loja de electrodomésticos.
Outros tempos, outras vidas. Achei engraçada esta viagem ao passado.

MENOS RETENÇÃO, MENOS ABANDONO, MAIS SUCESSO. SERÁ?

Segundo os dados agora conhecidos relativos a 2013/2014 a descida é mais significativa no 1º e 2º ciclos e ligeira no 3º ciclo e ensino secundário. Em todo caso as taxas de retenção insucesso e abandono continuam muito elevadas. Portugal apresenta a terceira taxa mais alta da OCDE de estudantes que repetiram pelo menos um ano lectivo ao longo do seu percurso escolar, 34,9%.
Julgo que o MEC deveria ser mais prudente nesta conclusão. Relativamente ao período de aulas suplementares para o 4º e 6º os dados disponíveis não suportam de forma consistente a afirmação do seu impacto nos resultados agora divulgados. Quanto aos exames, o próprio Presidente do IAVE afirma queles não estão ter impacto nas aprendizagens e no que respeita aos apoios oportunos e adequados existentes nas escolas talvez fosse desejável que o MEC fosse um pouco mais preciso pois as escolas sentem, pelo contrário, enorme dificuldade em estruturar dispositivos de apoio por falta de recursos docentes.
Julgo que a interpretação do divulgado abaixamento dos níveis de retenção e abandono terá de considerar alguns aspectos para além da auto-elogiosa análise do MEC que, como disse, carece de alguma sustentação embora a proximidade de eleições ajude a entender. 
Em primeiro lugar é preciso considerar o impacto das alterações do número de alunos nestes resultados.
Numa outra perspectiva, os estudos comparativos internacionais têm vindo a registar os progressos dos alunos portugueses. No entanto de 2009 para 2012 a situação inverteu-se. Esta tendência parece contradizer a subida de resultados agora divulgada pelo que terão de ser analisados de forma mais fina.
Sabe-se também que de 2011 para cá, depois de um período de melhoria de resultados, os níveis de retenção voltaram a agravar-se em todos os anos de escolaridade. Em média chumbam por ano cerca de 150 000 alunos dos ensinos básico e secundário como referiu o CNE em Relatório deste ano. É evidente também que os alunos com insucesso escolar são os que correm maior risco de abandono escolar precoce.
Por outro lado, importa analisar o impacto que nestes resultados tem a forma como é gerida a avaliação interna nas escolas e a avaliação externa do MEC designadamente com a definição da dificuldade dos exames. Veja-se a oscilação de médias dos exame nacionais ao longo os anos.
Também me parece necessário ponderar o impacto que tem o “encaminhamento” de muitos alunos para vias vocacionais ou profissionais, que minimiza os níveis de abandono, minimiza os números das retenções mas não é garantido que faça subir os números do sucesso educativos e escolar.
Neste contexto, julgo que importa alguma prudência, que falta ao MEC, na análise dos dados agora conhecidos.

terça-feira, 30 de junho de 2015

A TERRA DO LOGO SE VÊ

Existe uma terra pequena à beira do mar grande que se chama Logo se Vê. É uma terra muito engraçada. A maioria das pessoas que por lá vive nunca dá respostas definitivas ou convictas às questões, intenções ou inquietações com que se defronta. Nunca dizem sim ou não, vou fazer isto ou aquilo, vai ser assim ou de outra qualquer maneira. A formulação acaba sempre num prudente “logo se vê”.
Numa breve passagem pelo dia a dia, alguns exemplos, “isto arranja-se assim e depois logo se vê”, “vou votar nestes gajos e depois logo se vê”, “para já tome isto e depois logo se vê”, “tenho que me safar de alguma maneira e depois logo se vê”, “vou estudar alguma coisa e depois logo se vê”, “não mereces, mas passas e depois logo se vê”, “não há dinheiro para tudo, mas compra, depois logo se vê”, “as nossas previsões são estas, mas com a crise logo se vê”, “faz-se a lei assim e já, depois logo se vê”, “sei lá o dia de amanhã, depois logo se vê”, “não sei muito bem o que fazer, depois logo se vê”, "da maneira que as coisas estão vamos andando, depois logo se vê" e muitos outros exemplos podem encontrar-se na terra do Logo se Vê.
Até a própria terra tem tentado, vai para mais de 800 anos, ser uma terra, umas vezes parece conseguir, outras ... logo se vê.

AS FÉRIAS DOS MIÚDOS E OS TPCS

Um trabalho no Observador sobre as férias dos miúdos e a presença dos trabalhos de casa (os TPCs) no período de férias a que dei uma pequena colaboração.
.“… a leitura não pode sequer ser vista como um trabalho de casa. “A leitura de férias é algo que os miúdos devem ser incentivados a fazer”.
A leitura em tempo de férias, por princípio, não deve ser categorizada como TPC, uma tarefa que se TEM que se cumprir.
As férias devem ser isso mesmo, férias sem as mesmas rotinas e os mesmos trabalhos do tempo escolar. A leitura não deve ser "vendida"como um trabalho escolar que também se cumpre em férias. A acentuação desta dimensão torna mais difícil a construção de "projectos de leitores" e a instalação de hábitos de leitura para lá das actividades de estudo.

GOSTEI DE LER, "O EFEITO SAMPAIO DA NÓVOA"

Parece-me interessante e esclarecedor o texto do Professor Jorge Ramos do Ó sobre a candidatura de Sampio da Nóvoa à presidência da República, "O efeito Sampaio da Nóvoa".
Tal como já aqui escrevi, alguns dos conteúdos dos discursos críticos da candidatura de Sampaio da Nóvoa evidenciam, justamente, algumas das razões pelas quais a sua candidatura faz sentido e é necessária. 
É difícil, mas pode ser possível.

O efeito Sampaio da Nóvoa

ATÉ À DESTRUIÇÃO FINAL

A desanexação destes terrenos ou parte de parte deles já tinha sido pedido mas tem sido negada até que chegaram os homens do dinheiro que já contam, claro, co o apoio da Câmara Municipal.
Depois de termos boa parte do nosso litoral, sobretudo o algarvio praticamente destruído e betonizado em nome de uma massificação turística de má qualidade que passou como um rolo compressor por boa parte da costa, e que actualmente tem milhares de camas sem procura, a ameaça pende sobre o litoral alentejano e qualquer parcela do nosso território que mantenha alguma beleza e esteja preservada.
A maioria destes negócios com a cumplicidade das autarquias envolve quase sempre fortíssimos interesses estrangeiros, que se sobrepõem à ordenação dos espaços territoriais e marítimos.
Eu sei, não tenho nenhuma visão fundamentalista, do peso económico que a actividade turística e o investimento em algumas áreas económicas têm em Portugal e de como deve ser cuidada essa importância. No entanto, creio que corremos o sério risco de como diz o povo "matar a galinha dos ovos de ouro" por mal cuidarmos da qualidade da oferta criada e da destruição de uma parte do país e do modo de vida de muitos portugueses com custos que a prazo podem revelar-se pesados.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A HISTÓRIA DO PROBLEMA

Era uma vez um miúdo chamado Problema. E na verdade desde pequeno se percebia bem que as pessoas quando olhavam para ele viam um Problema.
No jardim-de-infância o Problema não teve uma vida muito fácil, sempre que estava em alguma brincadeira ou actividade e qualquer coisa não corria bem, alguém achava que a responsabilidade era, claro, do Problema.
Na escola, e como acontece com todos os miúdos, nem sempre era bem sucedido no que fazia. A situação explicava-se, inevitavelmente, por ele ser, isso, um Problema. Até os pais se foram habituando a olhar assim para o Problema.
Quando passou para a escola dos miúdos maiores, era já um Problema crescido. Os professores, alguns deles, não tinham grande expectativa sobre o sucesso do Problema. Como sabem, por várias razões a escola nem sempre consegue lidar de forma tranquila com os Problemas. No entanto, o Problema ia vivendo, começava a pensar em si e nos embaraços que a vida de Problema lhe colocava.
Foi crescendo, estudando e pensando no que sentia e no que podia fazer.
Um dia, acabou por perceber, estudou a sério, sobretudo matemática e resolveu-se, passou a Problema Resolvido.

DA SOBERANIA. LEMBRAM-SE?

A propósito da decisão de Alexis Tsipras de convocar um referendo na Grécia no âmbito das negociações com os credores e instituições europeias, o Presidente da República afirmou, "Mas foi uma decisão que surpreendeu toda a Europa. Não se entende. E eu também digo que não entendo esta jogada para a frente".
Não me parece nada estranho que Cavaco Silva não entenda. Boa parte das lideranças políticas que nos governa e governa na Europa não entende o que significa soberania e não quer entender o que significa negociação.
Não tenho nenhuma ideia ingénua ou idealizada da situação grega, têm evidentemente responsabilidade na situação que vivem. Curiosamente, os mais responsáveis internos são os que estão sempre ao lados dos credores e do diktat europeu. Também é sabido o papel que a banca internacional teve (tem?) no percurso grego e não só.
No entanto, reconheça-se-lhes o direito de exercerem a soberania. Faz parte da dignidade, dos bens que se não podem hipotecar sem limites.
No entanto, a “perplexidade” de Cavaco Silva não surpreende. A soberania nacional foi, por assim dizer, revista em baixa e colocada em mobilidade especial, portanto, que se lixe a independência, a soberania.
Na verdade, é público e notório que o Governo, feitor sem mandato desta feitoria em que nos transformaram e nos transformámos, se tem esforçado denodadamente para mostrar que os desejos dos chefes são ordens e o resultado é o que bem sabemos, sentimos.
Nos últimos tempos até se ouvem, baixinho é certo, algumas críticas mas nada de contestar seriamente os entendimentos da Troika que nos empobreceram. Aliás, agora que nos aproximamos das eleições será um discurso oportuno.
A verdade é que como já disse, também a soberania entrou em mobilidade especial, terá algum tempo para ser requalificada e, finalmente, será despedida pois, como se lembram, a Senhora Merkel afirmou em tempos que os países do euro devem estar preparados para ceder soberania pois "Temos de estar preparados para aceitar que a Europa (o diktat alemão) tem a palavra final em certas áreas". Com certeza Chefe, disponha.
Os gregos estão armados em "crianças", em "radicais" e querem ter uma palavra a dizer sobre  ... a Grécia, onde já se viu, são tontos. Estão, evidentemente, condenados ao insucesso, Merkel e os credores escrevem o script e que seja feita a sua vontade.
Miguel Beleza tem razão quando afirmou há tempos que a soberania é uma treta. Também é verdade que a feitoria é uma tragédia.
E a gente aguenta?
Fernando Ulrich deve continuar a entender que sim.
E nós?
Até quando?

PRECÁRIA DE VIDA



A precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Por outro lado, as políticas de emprego em curso sempre insistem na maior flexibilização das relações laborais e ainda muito recentemente Passos Coelho reforçou a necessidade de aprofundar o abaixamento dos custos do trabalho.
Neste cenário, os desequilíbrios fortíssimos entre oferta e procura em diferentes sectores, a natureza da legislação laboral favorável à precariedade e insensibilidade social e ética de quem decide, promovem a proletarização do mercado de trabalho mesmo em áreas especializadas ou mesmo o recurso a uma forma de exploração selvagem com uma maquilhagem de "estágio" sem qualquer remuneração a não ser a esperança de vir a merecer um emprego pelo qual se luta abdicando até da dignidade.
O recurso a formas precárias de prestação de trabalho mesmo em profissões altamente qualificadas, caso hoje referido do número insustentável de professores que desempenham funções no ensino superior privado em regime de “recibo verde” são um obstáculo ao desenvolvimento e ao investimento para além da insegurança quanto ao futuro e a um projecto de vida.
Acontece ainda que alguns dos vencimentos que se conhecem, atingindo também camadas altamente qualificadas, não são um vencimento, são um subsídio de sobrevivência.
É justamente a luta pela sobrevivência que deixa muita gente, sobretudo jovens sem subsídio de desemprego e à entrada no mundo do trabalho, sem margem negocial, altamente fragilizadas e vulneráveis, que entre o nada e a migalha "escolhem amigavelmente" a "migalha", ou mesmo uma remota hipótese de um emprego no fim de período de um indigno trabalho gratuito ou mal remunerado e precário.
Como é evidente esta dramática situação vai de mansinho alargando e numa espécie de tsunami vai esmagando novos grupos sociais e famílias.
É um desastre. Grave e dramático é que as pessoas são "obrigadas" a aceitar. Os mercados sabem disso, as pessoas são activos descartáveis.

DAS PRIVATIZAÇÕES E DOS INTERESSES ESTRATÉGICOS DO ESTADO

Nada de novo. As privatizações, na maioria dos casos não são realizadas para acautelar interesses estratégicos do Estado Português. 
As privatizações acautelam, fudamentalmente, interesses dos compradores e dos intermediários que se envolvem numa obscena teia de cumplicidade e despudor de que saímos todos prejudicados.
Esta é a pantanosa pátria nossa amada.

domingo, 28 de junho de 2015

O RIGOR DO IAVE REVISTO EM BAIXA

Dados do IAVE confirmam que “tem cerca de 6650 professores com formação na bolsa de classificadores e outros tantos (6447) sem formação”.
Do meu ponto de vista, um professor experiente da disciplina em avaliação estará preparado para avaliar o exame pelo que a formação específica não será determinante para o bom desempenho.
Também não vou referir as condições de realização dessa tarefa que suscitam várias críticas dos professores envolvidos.
O que julgo muito curioso é que o IAVE que amplifica a retórica de Nuno Crato sobre o rigor, a excelência, a qualidade dos professores, recordo a sinistra PACC, que tem entendido que a formação é essencial, aceita agora que quase metade de professores avaliadores possa desempenhar a tarefa sem formação.
Como diria o mítico Jorge Jesus, das duas três, ou os professores são competentes, estão preparados e, portanto, a formação é dispensável pelo que não existiria, ou o MEC não confia na qualificação dos docentes, entende que os professores precisam de realizar a formação para o desempenho da tarefa com qualidade e rigor pelo que não poderia permitir que quase metade a não tivesse.
Terceira hipótese, o MEC, o IAVE, anda à  deriva.

FAMÍLIA PRECISA-SE. URGENTE

Ao que se lê no Público foram aprovadas alterações significativas no sistema de protecção de crianças e jovens. Em caso de incapacidade da família restrita ou alargada para se responsabilizar por uma criança, a prioridade, sobretudo nos mais novos, será a colocação em acolhimento familiar. Evitar-se-á, tanto quanto possível, a institucionalização. Se conseguirmos levar colocar em prática trata-se de uma boa decisão.
 Em Portugal verifica-se um dos mais elevados índices europeus de institucionalização. No mesmo sentido Portugal tem um dos mais baixos valores no que respeita a colocação de crianças em acolhimento familiar, 4,5 % face aos 30% verificados em Espanha ou 66% em França. No Reino Unido a taxa de acolhimento familiar é ainda mais elevada, 77%, mas este indicador, do meu ponto de vista, deverá ser analisado à luz de algumas particularidades que estes processos apresentam e que têm sido objecto de algumas reservas.
Apesar da evolução que se tem constatado, continuamos com uma elevada quantidade de crianças institucionalizadas, muitas das quais sem projectos de vida viáveis pese o empenho dos técnicos. Seria desejável que se conseguisse até ao limite promover a sua desinstitucionalização das crianças por múltiplas e bem diversificadas razões.
Recordo um estudo da Universidade do Minho mostrando que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.
A conclusão não questiona, evidentemente, a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção ou outros dispositivos como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos. Também deve acentuar-se o trabalho de grande qualidade que muitas instituições procuram desenvolver. Além disso, sabemos todos, que existem contextos familiares que por razões de ordem variada não devem ter crianças no seu seio, fazem-lhes mal, pelo que a retirada pode ser uma necessidade justificada pelo supremo interesse da criança, um princípio estruturante das decisões neste universo.
Acontece ainda que se verifica uma enorme dificuldade de algumas crianças em ser adoptadas devido a situações como doença, deficiência, existência de irmãos ou uma idade já elevada. Assim, muitas crianças estarão mesmo condenadas a não ter uma família. Curiosamente, existem famílias interessadas na adopção de bebés que esperam até cinco anos porque entre os mais pequeninos passíveis de adopção, o número é menor, situação que se mantém, os candidatos à adopção preferem as crianças abaixo dos 3 anos.
Como é óbvio, um processo de adopção é algo cuja qualidade não pode em momento algum ser hipotecada minimizando o risco de "devolução" de crianças em processo de adopção, situação altamente penalizadora para todos os envolvidos. No entanto, parece claro que o processo carece de agilização de modo a que os candidatos à adopção não desistam assustados com a morosidade. Muito recentemente o Governo anunciou a intenção de introduzir mudanças nos processos de adopção.
Quando penso nestas situações lembro-me sempre, conhecerão esta citação mas não resisto a deixá-la, de uma expressão que ouvi já há algum tempo a Laborinho Lúcio num dos encontros que tenho tido o privilégio de manter com ele.
Dizia Laborinho Lúcio que "só as crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas pelos seus pais”. Na verdade, muitas crianças não chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas e muitas não chegam a ser adoptadas por alguém que por as adoptar passaria a ser a sua família, os seus pais.

AS FEIRAS MEDIEVAIS

Chegou o Verão e aí está um dos produtos da época e que tem vindo a conquistar adeptos e organizadores, as feiras medievais.
Durante os próximos tempos teremos uma oferta de feiras medievais por todo o país, das mais modestas às mais produzidas com inúmeros figurantes e actividades, da Idade Média, claro.
Não há concelho que não realize a sua feira medieval. Gostava de perceber a razão desta emergente apetência pela recriação dos ambientes medievais e a renhida competição entre as autarquias pela melhor feira medieval. E porquê medieval e não pré-histórica, ou estilo século XIX?
As imagens que frequentemente as televisões passarão a fechar noticiários vão certamente mostrar os incontornáveis e esforçados cavaleiros e donzelas, artesãos e nobres de ar compenetrado, além de outros imensos e empenhadíssimos personagens a viverem a sua feira medieval. 
Recordo até um episódio de um participante habitual que tinha adquirido propositadamente um burro, ou burra não me lembro, para a qual não tinha instalações mas que com a ajuda de vizinhos e familiares lá se desenrascava para manter o burro que leva às feiras medievais. Um militante das feiras medievais.

De facto, não consigo entender esta moda das feiras medievais. Será devida à nostalgia do passado que de vez em quando nos atinge, ou a alguma estranha premonição dos riscos do futuro, uma espécie de “back to basis”?

PEDALA, MIÚDO, PEDALA


Está explicado. Muita gente, na qual me incluo, tem colocado sérias reservas à política de deslocalização dos miúdos, fechamento de escolas e constituição de mega-agrupamentos.
Percebe-se agora a visão de sucessivas equipas da 5 de Outubro agora corporizada no projecto hoje divulgado. Aumenta-se a distância entre a habitação dos alunos e a escola, pôem-se os alunos a fazer o trajecto de bicicleta e, assim, combate-se o grave problema da obesidade infantil. A capacidade visionária do MEC é uma fonte inesgotável de perplexidade. Já podemos antecipar as múltiplas ciclovias das nossas cidades vilas e as cuidadas, largas, bem iluminadas e seguras bermas das nossas estradas inundadas de bicicletas com crianças e adolescentes a caminho das escolas. O que se poupa em combustível para as famílias, em custos dos transportes escolares para as autarquias e, mais importante claro, os benefícios para a saúde dos mais novos. 
Também é bonito imaginar os amplos espaços de muitas das nossas escolas, sem a enchente própria da sobrelotação, a serem ocupado por alegres grupos de crianças e adolescentes envolvidos em saudáveis jogos tradicionais com a orientação colaboração dos seus mestres e dos senhores funcionários. Que ideia mais interessante!
É verdade que temos um problema grave de excesso de peso em crianças e adolescentes.
Segundo um estudo publicado na Lancet, creio que de 2013, em Portugal 28,7% dos rapazes, 27,1% das raparigas, 63,8% dos homens e 54,6% das mulheres evidencia excesso de peso, enquanto a obesidade afecta 8,9% dos rapazes, 10,6% das raparigas, 20,9% dos homens e 23,4% das mulheres. Estes indicadores vão na linha dos que a OMS divulgou há algum tempo, sobretudo no que respeita à população mais nova.
Na Europa, mais de 27% das crianças com 13 anos e 33% com 11 tem excesso de peso. Portugal é um dos países com indicadores mais inquietantes, 32% das crianças com 11 anos tem peso a mais.
Nada de novo, recordo um estudo, “EPACI Portugal 2012 – Estudo do Padrão Alimentar e de Crescimento na Infância”, segundo o qual, 31.4% das crianças portuguesas entre os 12 e os 36 meses apresenta excesso de peso e 6.5% situações de obesidade. Os dados são preocupantes mas não surpreendem indo no mesmo sentido de dados envolvendo outras idades.
A Direcção-Geral de Saúde tem vindo a recomendar às escolas que alimentos hipercalóricos, como doces ou bolos, não sejam expostos, devendo ficar visíveis aos olhos dos alunos os alimentos considerados mais saudáveis em como estão em curso medidas no sentido de baixar a publicidade a alimentos e bebidas com maior carga calórica.
Recordo ainda que um estudo divulgado em 2014, creio, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, encontrou 17% de rapazes e 26% de raparigas de quatro anos, sublinho, quatro anos, com excesso de peso e obesidade e níveis de colesterol elevados, um cenário verdadeiramente preocupante e de graves consequências futuras.
No entanto, é bom não esquecer, o Ministro Nuno Crato que agora quer os alunos a deslocarem-se de bicicleta e a realizar actividades físicas aos intervalos diminuiu em 2012 a carga horária de Educação Física no 3º ciclo e Secundário e desvalorizou a disciplina retirando-a do cálculo da média final. Estranho? Não, a normalidade crática.
No entanto e apesar desta deriva, a verdade é que enfrentamos um problema grave com consequências em termos de saúde e qualidade de vida em termos individuais e sociais. Assim, e como já tenho referido, justifica-se a definição de programas de prevenção, educação e remediação que o combatam.
Mas talvez tenhamos de o fazer de outras formas. Deixem lá ver.

sábado, 27 de junho de 2015

O "Dr." RELVAS ESTÁ DE VOLTA, OPERAÇÃO DE LAVAGEM EM CURSO

Miguel Relvas reafirma que cumpriu todas as regras na sua licenciatura

O Relvismo está de volta e aí está a primeira operação de lavagem do “Dr.“ Relvas, uma entrevista de fundo num jornal de referência, um clássico após uma travessia do deserto. Seguir-se-á o lançamento do livro "O outro lado da governação" com a colaboração de figuras que farão o favor, os amigos são para as ocasiões, de ajudar na lavagem.
A referência incontornável ao obsceno episódio da licenciatura meteórica é desvalorizada por Relvas pois, afirma despudoradamente, tudo foi feito dentro da lei. Duvidamos que assim seja mas os tribunais decidirão sendo que o relatório da Inspecção-Geral da Educação fala da existência de ilegalidades.
É certo que tudo isto acontece ao abrigo do espírito do espírito de uma lei que, obviamente, não foi feita para gente sem espinha, sem dignidade e sem princípios éticos como alguns dirigentes ou instituições envolvidos em teias complexas e promíscuas de interesses. Como o “Dr.” Relvas.
Afirma também, como mais alguns envolvidos nesta cena triste que “não precisei da licenciatura para chegar onde tinha chegado”. Aqui estamos de acordo e por duas razões.
Primeiro, porque se precisasse de aprender o que aprende num curso universitário, para trabalhar por exemplo, teria de … claro, fazer o curso universitário e não realizar de forma manhosa 4 cadeiras de um curso universitário.
Segundo, porque o que o “Dr.” Relvas precisou para chegar onde chegou não depende da formação universitária. O seu trajecto assenta mais na frequência e manipulação de aparelhos partidários, constituição de grupos de interesses e influência, motivação para o alpinismo social e político à custa seja do que for, inexistência de qualquer pingo de pudor ou sentido ético e .., chega onde chegou.
Também como é costume com esta gente, o “Dr. Relvas sente-se de consciência tranquila. Claro, que estará de consciência tranquila. Esta afirmação entende-se pois com a sua formação deficitária desconhece, evidentemente, o que significa tal termo.
Aguardam-se próximos desenvolvimentos da operação de lavagem do “Dr.” Relvas.

DOS JOBS FOR THE BOYS AND GIRLS

Passos reabre embaixada para colocar adjunto

Carlos Moura Carvalho é o novo Director-Geral das Artes

Como é reconhecido, a questão do desemprego é de uma enorme gravidade e complexidade. São urgentes medidas eficazes e diversas de promoção de emprego. Porque não começar pelos amigos? 
Fazem parte de uma lista VIP, têm o cartão certo, portanto ...
Há que começar por algum lado e os amigos são para as ocasiões.
Aliás, o povo costuma dizer, "quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte".
Cambada de artistas, nem as moscas, às vezes, variam.
São assim as contas da partidocracia. Em alternância pois claro.

OS "SUBSÍDIOS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL"

Pais que fiquem com subsídio de educação especial incorrem em crime de negligência

De há muito que venho a defender a pertinência de repensar todo o modelo dos subsídios de educação especial atribuídos às famílias para apoios especializados a crianças com necessidades especiais. Esta reflexão deve incluir os processos de avaliação e diagnóstico.
Entretanto e ao que se noticia, muitas famílias estão a usar os subsídios para assegurar despesas básicas ou mesmo supérfluas. Os técnicos e centros de prestação dos serviços deixam de os prestar e, ao que parece, existem crianças que já não acedem aos apoios de que, em princípio, necessitam.
Mais uma razão para repensar o modelo e para evitar que se possam criar situações em que crianças com necessidades reais deixam de ter resposta.
Não é nada de novo, os mais vulneráveis são sempre os que sofrem mais.
Mas não é uma fatalidade, fazemos os dias assim, como cantam os Trovante.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

LISBON SOUTH BAY OU 南岸

Pensam que Almada é o Allgarve.
Não, nós somos Margem Sul, a margem certa do Tejo.
Dizem que se "vende" melhor se nos chamarem Lisbon South Bay. Mas que porra é esta. Nós não estamos à venda.
Até porque quando nos quiserem vender, faltará pouco, será melhor chamarem-nos 南岸 (Margem Sul em mandarim, segundo o tradutor do Google) ou manterem o nome que já temos pois os angolanos também falam português.
Deixem-se de modernices pacóvias, cuidem do património cultural, arquitectónico e natural, cuidem dos espaços e das pessoas, o Tejo faz a parte dele, que é grande e muito bonita.

A REFORMA DA PROFESSORA

Os discursos dos miúdos possuem uma infinita capacidade de nos surpreender e de nos mostrar uma representação da realidade através, muitas vezes, de enunciados muito ingénuos. Vejam esta curiosa história.
Uma professora do 1º ciclo que conheço e considero daquelas que nos fazem lembrar com saudade os professores que tivemos, reformou-se há dois anos e deixou, coisa que o sistema não deveria permitir, um grupo de gente pequena do 1º ano. De vez em quando passa pela escola o que deixa os garotos contentes, a gente sempre gosta de ver quem gosta da gente. Um dos garotos que quando entrou para escola já tinha surpreendido a professora com a fantástica questão, “Então és tu que me vais ensinar a ler?”, estabelece este diálogo.
Então professora, vais vir cá sempre ver-nos, estás reformada, não é? Podes vir sempre às terças-feiras?
Vou vindo algumas vezes, sabes, tenho outras coisas que vou fazendo.
Ah pois é, tens que fazer crochet não é?
Que se responde a uma inquietação destas?

A TRADIÇÃO DEVE SER O QUE ERA

Ao que hoje se divulga na imprensa numa povoação do concelho de Vila Flor celebra-se o S. João com a tradicional queima do gato, isso mesmo, queima-se um gato, ainda vivo, em nome da tradição.
No sentido de aumentar o zelo com que se deve cuidar das tradições que o nosso povo deve manter, sugiro que, entre outras, se considere a hipótese de manter a discriminação de género pois o lugar da mulher é em casa e, se trabalhar fora, deve ganhar menos, é a tradição.
O trabalho em casa deve ser também realizado pelas mulheres porque os homens tradicionalmente não lhe tocam. Para que a tradição seja o que era, uma “carga de porrada” na mulher e nos filhos de vez em quando é bom para que não se esqueçam de quem manda.
Deve trabalhar-se de sol a sol e sem direitos como é de tradição.
Para bem cuidar da criançada neste tempo de dificuldades a tradição determina umas sopinhas de cavalo cansado, um alimento riquíssimo com a vantagem de aquecer no tempo do frio.
Se houver alguma dificuldade na escola teremos as tradicionais orelhas de burro ou umas reguadas com a "menina de cinco olhos", já em desuso vá lá saber-se porquê.
Finalmente, a miudagem deve começar a trabalhar de bem pequeno, 10 ou 12 anos no máximo, porque a tradição deve manter-se e um dinheirinho a mais dá sempre jeito nas famílias.
São apenas alguns dos exemplos de tradições que importa cultivar.

PS - Inaceitavelmente, no site do Público ao entrar na notícia o registo video da estimulante tradição passa automaticamente, ou seja, não se pode ler a notícia sem que se vejam as imagens. Faz sentido este tipo de opção? Não, não faz, é má informação, não vale tudo em nome da liberdade de informar e ser informado.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

汉语教学 (O ENSINO DO MANDARIM). O GRANDE SALTO EM FRENTE



Dá-se, assim mais um passo para cumprir o anúncio de Nuno Crato feito em Pequim em Maio de 2014, “Há uma grande notícia”. Aguçaram-se os espíritos face a uma grande notícia saída da 5 de Outubro e … “o ensino do mandarim vai integrar de forma opcional os currículos do 3º ciclo e do ensino secundário”. 
Na altura a comunidade educativa portuguesa exultou com o grande salto em frente sob a orientação do Grande Timoneiro.
Neste percurso do mandarim nas escolas portuguesas é justo realçar a experiência visionária da autarquia de S. João da Madeira que, no uso antecipado de competências municipais em matéria de currículo, tem vindo a promover o ensino do mandarim nas escolas do concelho. É já obrigatório no 1º ciclo, facultativo no 5º e vai estender-se até ao secundário.
A alguns menos avisados e até a alguns conservadores maledicentes que entendem que os problemas em matéria de currículo no sistema educativo português são bastante mais importantes e urgentes que o ensino do mandarim, a “grande notícia” podia levá-los a pensar, mais uma vez, “a montanha pariu um ©rato”. Estão errados, a decisão é, como sempre, genial.
Como sabem, o ensino do mandarim em Portugal está em alta, existe já uma oferta significativa para crianças, sobretudo no ensino particular, sempre muito atento ao mercado. Aliás, alguns pais ouvidos em trabalhos da imprensa, referem o impacto e importância futura que pode ter para as criancinhas o ensino do mandarim. O programa de privatizações que tem vindo a ser seguido autoriza esta ideia, a China foi o maior investidor em Portugal durante 2014, e consta que Eduardo Catroga, António Mexia e mais uns quantos também frequentam as aulas de mandarim.
Neste movimento de aproximação ao mandarim deve destacar-se o esforço visionário da autarquia de 聖約翰木 (S. João da Madeira), que já há algum tempo proporciona o ensino do mandarim em todas as escolas do 1º ciclo e tem como objectivo estender o seu ensino até ao 12º ano. Enquanto o Ministro Nuno Crato andou um pouco à deriva com o ensino do Inglês, S. João da Madeira, deu um passo em frente, antecipou a municipalização da educação em matéria de currículo e, para além do inglês, oferece o mandarim. Justifica a decisão como uma forma de antecipar futuros contactos comerciais com "o maior mercado da humanidade".
De início, ainda tive algumas dúvidas mas quando pensei melhor, é sempre tempo, comecei a perceber o alcance e a visão de decisões desta envergadura. De facto, um concelho em que todos saibam 普通話 (mandarim) é um concelho a entrar no futuro, um exemplo de antecipação do progresso, um concelho em privilegiadíssima posição negocial. Esqueçam a importância do inglês, do francês ou do alemão, são ferramentas antiquadas e inúteis. O nosso futuro passa pelo "maior mercado da humanidade", a ida de milhares de portugueses para a China e a vinda de milhões de chineses para Portugal, num tráfego infernal de charters, genialmente antecipada por Paulo Futre, exige que depois do português, ou mesmo em vez de, todos nós dominemos o普通話 (mandarim). Acresce que, como é sabido, a nossa generosa oferta de vistos Gold, apesar de alguns sobressaltos e negociatas, é muito significativamente aproveitada por cidadãos chineses que carregados de dinheiro chegam a Portugal e não têm com quem falar a não ser com os seus compatriotas de lojas e restaurantes. Não pode ser, nós portugueses devemos falar mandarim para que possamos receber os generosos cidadãos chineses que vêm realizar os seus investimentos em Portugal bem como os empresários chineses que vão comprando as nossas empresas
Os autarcas de S. João da Madeira (聖約翰木) e o Ministro da Educação (教育部) mostram como visão e audácia são o caminho para o futuro e para tal contam com a desinteressada e nebulosa "ajuda" da China.
PS –Para o que der e vier ...  我也正在學習 (Também já estou a aprender) - Com o auxílio do tradutor do Google. Não sei se será uma boa escolha.


DA NORMALIDADE NA COLOCAÇÃO DE PROFESSORES E DA LIBERDADE DE ESCOLHA

Lamentavelmente ... nada de novo vindo da 5 de Outubro.
Ao que se vai sabendo verificam-se erros significativos nos concursos de colocação dos professores. Tudo dentro da normalidade, evidentemente, num ministério cujo responsável é um farol do rigor e da excelência pelo que tudo estará bem..
É também conhecido que com a justificação da "liberdade de escolha", um dos maiores equívocos do discurso político em matéria de educação, se financiam os negócios da educação através do desinvestimento na escola e educação públicas.
O recurso aos contratos de associação e consequente financiamento mesmo em zonas geográficas com oferta pública disponível conduzirá em muitas circunstâncias ao fomentar de um ensino de primeira, um negócio privado interessante, e um ensino de segunda para os filhos dos pais, muitos, sem "liberdade de escolha".
Como sabem existe um velho ditado que afirma que a "liberdade de escolha" quando nasce não é para todos.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

DA NEGRURA CRÁTICA SOBRE A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA

Um elucidativo testemunho da negrura crática que se abateu sobre a investigação científica em Portugal e de forma particularmente gravosa sobre a área das Ciências Sociais.

JÁ NÃO AGUENTO, NÃO PERCEBEM?

Já aqui tenho abordado esta matéria mas a sua gravidade justifica retomá-la.
De acordo com os últimos dados, um em cada seis alunos entre o 8º e o 10º ano já se magoou a si próprio, de propósito, nos últimos 12 meses, sobretudo cortando-se nos braços, nas pernas, na barriga... Referiram que se sentiam “tristes”, “fartos”, “desiludidos” quando o fizeram.
Este indicador, preocupante como é evidente, é-o tanto mais quando representa um aumento de quase cinco pontos percentuais do grupo dos que fazem mal a si próprios considerando o Relatório de há quatro anos.
É importante sublinhar que foram envolvidos no estudo 6026 alunos do 6.º, 8.º e 10.º anos, de Portugal continental, com idades entre os 10 e os 20 anos (a média de idades é 14 anos).
Na verdade, os comportamentos de auto-mutilação em adolescentes são mais frequentes e graves do que muitas vezes pensamos. Alguns estudos internacionais apontam para cerca de 10% da população em idade escolar com este tipo de comportamento pelo que os dados encontrados em Portugal são, de facto, preocupantes.
Este quadro é um indicador do mal-estar que muitos adolescentes e jovens sentem. Em muitas situações não conseguimos estar suficientemente atentos. Acontecem com alguma frequência situações de sofrimento com as mais diversas origens, relações entre colegas, bullying por exemplo nas suas diferentes formas, ou relações degradadas em família que facilitam a instalação de sentimentos de rejeição, ausência de suporte social, facilitadoras de comportamentos auto-destrutivos.
Começa também a emergir como causa deste mal estar a dificuldade que algumas crianças e adolescentes sentem em lidar com situações de insucesso escolar. Estas dificuldades são frequentemente potenciadas pela pressão das famílias e pelo nível de competição que por vezes se instala.
O sofrimento e mal-estar induzem uma espiral de comportamentos em que os adolescentes causam a si próprios sofrimento que promove mais sofrimento num ciclo insuportável e com níveis de perplexidade, impotência e sofrimento para as famílias também extraordinariamente significativos.
Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas é necessário. Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa, ou na escola espaço onde passam boa parte do seu tempo.
De facto em muitos casos, designadamente, em comportamentos de auto-mutilação, pode ser possível perceber sinais e comportamentos indiciadores de mal-estar. Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. É também importante que pais e professores atentos não hesitem nos pedidos de ajuda ou apoio para lidar com este tipo de situações.
Muitos pais, diz-me a experiência, sentem-se de tal forma assustados que inibem um pedido de ajuda por se sentirem impotentes e perplexos.
O resultado pode ser trágico e obriga-nos a nós a uma atenção redobrada aos discursos e comportamentos dos adolescentes. 

A AVALIAÇÃO EXTERNA QUE DEVERIA SER MESMO EXTERNA

O exame de Matemática do 12º ontem realizado foi considerado um exame mais acessível do que o de 2014. Desta vez a Sociedade Portuguesa de Matemática e a Associação dos Professores de Matemática concordam em que tal acontece.
Em 15 deste mês escrevi aqui, "Na época de exames deste ano lectivo temos ainda um dado que não é despiciendo, as próximas eleições legislativas pelo que ...
Em tal cenário não é irrelevante que resultados escolares mais positivos venham mostrar que “alunos e professores corresponderam com o seu trabalho” o que contribui para ratificar a “bondade das políticas educativas”.
No dia seguinte foram divulgados os resultados dos exames de 4º e 6º e, claro, os resultados médios foram melhores do que em 2014. A subida não foi grande mas, de qualquer forma, registou-se uma melhoria.
O MEC em nota de divulgação afirmou, “No geral, ao longo dos anos de aplicação plena destas provas, os dados apontam para uma tendência positiva de adaptação do sistema, tanto às novas metas, como à introdução das provas”.
E pronto, está confirmado. Não questiono o investimento de professores, alunos e famílias mas ... é, por assim dizer, a crónica de uma subida anunciada.
Durante toda a época de exames já realizados tem sido consensual a ideia de que, genericamente, têm sido “acessíveis”.
Continua também demonstrado que a avaliação externa deveria ser da responsabilidade de uma entidade verdadeiramente externa ao MEC.
Enquanto assim não for, e não há indicações de que não o venha ser, os exames continuarão a ser uma arma política privilegiada.

OS DOUTORES DA MULA RUÇA

Muitas pessoas estão a ser avisadas de que perdem o grau atribuído ou de que as disciplinas que assim foram “realizadas” deixam de o ser. Aguarda-se por notícias relativas à responsabilização por parte da instituição que, ao arrepio da intenção e disposição da lei, vendeu cursos e disciplinas de uma forma que mancha a sua credibilidade bem como a de todo o ensino superior que obedece às mesma leis e que as procura usar com as regras e limites que devem ser o padrão no ensino.
Recordo que o Governo já aprovou em Conselho de Ministros a revisão dos processos que estruturados no âmbito da Declaração de Bolonha permitiam a creditação académica por equivalência de experiências profissionais. De acordo com a legislação agora existente está definido o limite de um terço do total de créditos por curso aos créditos que se possam obter por equivalência de experiência profissional.
Importa recordar por uma questão de justiça de que a grande maioria dos estabelecimentos de ensino superior já tinham regras de creditação que em muitos casos são até mais restritas que as agora estão definidas.
Todo este processo emergiu, evidentemente, da divulgação pública da meteórica e escandalosa licenciatura atribuída pela Universidade Lusófona ao "Dr." Relvas, processo que ainda não se concluiu.
Estando ligado profissionalmente a uma instituição de ensino superior privado, creio que a mais antiga do país, com mais de 50 anos, sinto-me de alguma forma envolvido nestas questão mas, por outro lado, também me permite falar com algum conhecimento.
Como já o tenho referido, o aumento exponencial da procura do ensino superior durante os anos 70 e 80 não encontrou resposta na rede existente fundamentalmente pública. Nesse contexto emergiu rapidamente uma enorme quantidade de estabelecimentos de ensino superior privado e, naturalmente, também no ensino público com novas universidades e a explosão do ensino politécnico.
Este aumento foi completamente desregulado, por responsabilidade da tutela com a justificação da autonomia universitária, o que gerou uma rede sobredimensionada, enviesada na oferta, com corpos docentes em muitos casos manifestamente pouco qualificados e, portanto, com compromissos severos de qualidade.
Por outro lado, a decisão política, de base económica, que justificou o processo de Bolonha, introduziu uma outra variável neste universo, as licenciaturas de curta duração, o 1º ciclo, que em algumas áreas passaram a ser a formação de base substituta da anterior formação de 5 anos.
Também no contexto da Reforma de Bolonha e com base num princípio que me parece positivo, se abriu ainda portas ao reconhecimento académico de competências profissionais. Provavelmente, não se imaginaria o recurso manhoso a este expediente de que o "Dr." Relvas e mais uns quantos e a Universidade Lusófona irresponsavelmente se serviram, afirmando sempre a sua “legalidade”.
Um cenário desta natureza num contexto praticamente desregulado, apesar de algumas inspecções inconsequentes, como a imprensa tem referido, conhecendo-se a falta de arquitectura ética de boa parte das nossas lideranças bem como a importância social atribuída ao "canudo de Dr." e menos ao conhecimento, a promiscuidade de interesses e dos lóbis (aliás, uma das 4 cadeiras feitas pelo "Dr." Miguel Relvas) motivou muitos casos de trânsito entre universidades privadas, e não só, e a classe política, sendo muito frequente que uma figura qualquer com currículo partidário ou a ocupação de um cargo político passe em seguida a “Professor universitário” sem currículo nem competência que o justifique, mas de cuja ligação se espera que todos ganhem, seja lá o que for.
É neste caldo que se geraram situações como a do ex-ministro Miguel Relvas e de mais algumas situações menos mediatizadas mas também conhecidas e que agora serão divulgadas.
Lamentei e lamento todo este episódio, que mina a credibilidade do ensino superior privado e fez duvidar de um princípio que por si é importante, o reconhecimento pela academia de que existem saberes e competências que podem ser adquiridas fora da universidade, mas trabalhando mesmo e fazendo prova desses saberes e competências.
Fico triste com esta situação mas não surpreendido, no fundo, como diria Miguel Torga, “a natureza humana é fraca”.
Quando era ouvia com frequência uma expressão que era dirigida a quem se queria “armar” no que não era, chamavam-lhe “doutor da mula ruça”. É o caso destes “doutores da mula ruça”. 

terça-feira, 23 de junho de 2015

DO INÍCIO DO ANO LECTIVO.

"Em ano de eleições, escolas vão poder reabrir no final de Setembro"

Ao contrário de algumas opiniões, mal intencionadas já se vê, eu não acredito que o MEC tenha colocado o início do próximo ano lectivo uma semana depois do que aconteceu este ano, de um início ente 11 e 15 de Setembro passaremos para um começo entre 15 e 21, para ganhar alguma margem de tempo relativamente ao processo de colocação de professores. Assim, dizem as más línguas, minimizar-se-á o risco de que num período em cima das eleições se repita o catastrófico e incompetente arranque do ano lectivo que agora finda.
Não, eu acredito que a preocupação do MEC, tal como afirmou, é mesmo equilibrar a duração dos períodos e por algumas razões.
Primeiro, porque o MEC toma boas decisões e unicamente boas decisões.
Segundo, porque aconteça o que acontecer tudo correrá dentro da normalidade.
Terceiro, porque como se verifica com a introdução e manutenção de exames a meio do terceiro período no 4º e 6º ano, o MEC é mesmo sensível à questão do equilíbrio entre os períodos.
Quarto, porque também acredito no Pai Natal.

CONVERSAS NA SIC NOTÍCIAS E NA RTP INFORMAÇÃO

Deixo os registos das minhas conversas de hoje.
Na SIC Notícias fazendo a revista de imprensa.

Na RTP Informação sobre os exames.

UM RAPAZ CHAMADO ESQUISITO

Um dia destes, estava o Professor Velho na sala de professores às voltas com o chá, quando entrou a professora Sara. Vocês conhecem o Professor Velho, é aquele que já não dá aulas, está na biblioteca e fala com os livros, a professora Sara é uma que trabalha com os pequenos.
Olá Velho, posso?
Claro, tudo bem Sara?
Bem Velho, quando a gente trabalha com os miúdos, nunca se pode dizer que está tudo bem. Conheces o Esquisito?
Não estou a ver quem é. Que se passa?
É mesmo Esquisito, ele tem oito anos, é um miúdo esperto e aprende com facilidade mas tem coisas estranhas, não quer que ninguém lhe toque, se lhe vou fazer uma festa, desvia-se, não quer tocar em material nenhum que venha dos colegas, por exemplo, não pega em borrachas ou lápis que não sejam os dele, sempre preocupado com a limpeza das coisas, diz que podem fazer mal se não estiverem limpas, não tem amigos, brinca sozinho quase sempre. Os outros miúdos acham que ele é vaidoso, que não quer nada com eles, nem que seja deles. E como sabe muitas coisas está sempre a afirmar o que sabe e os outros miúdos ainda menos gostam do Esquisito, dizem que é Esquisito, tem a mania. Que achas Velho?
Olha Sara, se pensar nos miúdos que moram nos livros e nos miúdos que moram na vida, eu acho que o Esquisito é um miúdo talvez esteja com medo do mundo, não quer que o mundo lhe toque. Não sabemos porquê, mas, fala com ele, tenta dar-lhe a mão, ajuda-o a atravessar a ponte entre o mundo dele e o mundo dos outros, sozinho ele vai continuar com medo e não atravessa a ponte nem deixa que ninguém a atravesse para vir ter com ele.
Existem muitos miúdos que de vez em quando precisam de andar de mão dada.

DA DESACORDADA TRAPALHADA

O debate sobre o acordo ortográfico que obrigou a uma ata (e a uma acta) da CPLP com duas grafias

O acordo ortográfico tirou o “C” de “ata” e uma reunião oficial e de alto nível discutiu a eventualidade de se confundir a ata - o documento oficial - com o ato de atar pessoas. Portugal manifestou-se contra a existência de uma ata na grafia pré-acordo, Angola a favor: “Quando a forma ortográfica muda, as palavras não significam a mesma coisa”, defendeu um governante angolano

Creio que nem vale a pena comentar este exemplo dos risco e implicações do atentado à Língua portuguesa que dá pelo nome de Acordo Ortográfico e da nebulosa narrativa que o envolve. O verdadeiro desacordou corre o sério risco de tornar o português numa mixórdia abastardada.
Reptindo o texto de há dias, enquanto for tempo de evitar o atentado à Língua Portuguesa que o Acordo Ortográfico representa vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. Não vou repetir os motivos pelos quais, do meu ponto de vista de leigo nestas matérias, o Acordo deveria ser repensado, tenho repetidamente referido esses motivos.
É também verdade que as explicações que os defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade, antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até "incongruências" o que me parece curioso, desencadeamos um acordo com esta amplitude e implicações para manter "incongruências e imperfeições" que transformam a ortografia da Língua Portuguesa numa mixórdia.
Entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. 
De facto, não tenho conhecimento de alguma perturbação ou drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas. O mesmo se passa entre a comunidade dos países com o castelhano/espanhol como língua oficial.
E, por agora, páro (deveria escrever paro) por aqui e vou continuando a escrever desacordadamente.
Nota - A subscrição da Iniciativa do Referendo, pode ser realizada através do site https://referendoao90.wordpress.com/, ou no grupo do Facebook Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990,  é https://www.facebook.com/cidadaoscontraAO90?fref=ts.

UMA MANHÃ DIFERENTE

Hoje tocou-me uma manhã bem diferente. Começou por responder a um convite para participar na rubrica Revista de Imprensa no Jornal das 10 na SIC Notícias.
Meia hora para ler os jornais do dia e escolher algumas referências para conversar.
Decidi-me por começar por referir a probabilidade anunciada de um acordo entre os credores, acho interessante esta terminologia, e a Grécia embora não se saiba com que preço e efeitos.
No que respeita mais especificamente à nossa realidade não pude deixar de comentar o abaixamento do número de desempregados que recebem subsídio de desemprego, o valor mais baixo desde 2006, e o abaixamento do valor médio e da duração do atribuição do apoio. Acresce que cerca de 50% dos desempregados não têm subsídio. Como ontem aqui escrevia, a gente (sobre)vive de quê?
Nesta altura, como não podia deixar de ser num dia em que se realiza  o exame de Matemática do 12º, uma referência aos exames e de como eles se tornaram o tudo na vida de alunos, professsores e escolas. É positivo que assim seja? Há riscos? O sistema melhora? Questões que, entre muitas outras, merecem reflexão.
Uma chamada de atenção ainda sobre o clima de instabilidade que permanentemente se vive na justiça, agora os magistrados cortaram relações com a ministra, e os danos que isso causa na representação dos cidadãos sobre a justiça, uma das dimensões mais importantes da qualidade da vida cívica e da democracia.
Finalmente, um minuto sobre a notícia relativa à regulamentação da profissão de ama para sublinhar a importância da qualidade dos serviços para a infância e da necessidade urgente de respostas para as crianças mais pequenas que sejam acessíveis, existam e próximas, acessíveis aos rendimentos das famílias e que sejam de qualidade e não depósitos de crianças muitas vezes clandestinos. Esta existência seria certamente um bom contributo para a promoção da natalidade.
Logo a seguir atravesso a cidade, obrigado à minha moto, para participar na manhã informativa da RTP Informação. Para não variar uma conversa sobre os exames na qual procurei apresentar um conjunto de ideias que frequentemente aqui tenho partilhado.
Digam lá se não foi uma manhã diferente.
Para quem possa ter alguma curiosidade partilharei os vídeos quando os tiver.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

AS PESSOAS (SOBRE)VIVEM DE QUÊ


Apesar de algum "cataventismo" episódico, opiniões divergentes dos seus técnicos e responsáveis, as instâncias internacionais que nos governam, a Comissão Europeia ou o FMI, por exemplo, insistem no empobrecimento definitivo dos portugueses. ~
Como repetidamente os feitores-mor Passos Coelho e Paulo Portas e respectivos ajudantes têm afirmado, estamos no bom caminho, estamos, de facto, a ficar mais pobres, a estatística europeia mostra isso mesmo, pelo que, graças a eles e à ajuda dos nossos desinteressados amigos, estamos mais perto da salvação, já estamos a viver abaixo das necessidades e cada vez mais perto da solução final, todos pobres.
Bem, quase todos, é claro. Alguns, muito poucos, para contrariar o Governo e as estatísticas, estão mesmo mais ricos, são uns conservadores desmancha-prazeres.
A verdade é que, apesar dos indicadores de natureza macro mostrarem alguns sinais mais positivos, as pessoas, muitas pessoas, demasiadas pessoas, vivem, não acima das suas possibilidades como alguns abutres entendem, mas abaixo das suas necessidades, como quem conhece a vida da gente muito bem sabe.
No entanto, apesar desta negra situação, ainda entendem que a maioria das famílias está com rendimentos excessivos pelo que insistem na sua redução
Qual será a solução final?
As pessoas (sobre)vivem de quê?

OS EXAMES E O EQUÍVOCO DE ALEXANDRE HOMEM CRISTO

No seu texto no Observador o opinador Alexandre Homem Cristo aborda a questão dos exames partindo de uma posição crítica. A sua posição assenta no entendimento de que o problema central é, os exames “estão completamente desfasados das necessidades de aprendizagem dos alunos”.
O opinador explica porquê. Em síntese, “os professores/directores não os usam para melhorar as aprendizagens" e, sublinha, “porque o modelo de exame nacional português consiste em executar e replicar conhecimentos aprendidos de cor, em vez de estimular o pensamento crítico e o raciocínio”.
Do meu ponto de vista a opinião de Alexandre Homem Cristo a que parece fácil aderir assenta um lamentável, nada inocente e enorme equívoco, entende que a responsabilidade maior é das escolas e dos professores.
Primeiro, porque não usam os resultados para melhorar as aprendizagens dos alunos e, segundo, porque os exames são feitos para responder à forma como, na sua opinião, os professores decidem ensinar, estimulando a memória “em vez de estimular o pensamento crítico e o raciocínio”.
Com algumas pessoas lêem a mesma cartilha esta opinião vai no mesmo sentido das afirmações do Presidente do IAVE em entrevista recente que afirmou que os exames não estão a ter impacto nas aprendizagens porque as práticas dos professores e das escolas não são as mais adequadas.
Acontece, que sem esquecer, evidentemente, as responsabilidades dos professores e escolas, boa parte do seu trabalho é determinado por dimensões que lhes são exteriores e que decorrem das políticas educativas, da visão de educação e de escola dos sucessivos governos e das equipas que vão passando pela 5 de Outubro.
Os exames são construídos pelo IAVE, não pelas escolas e os professores, assentam em currículos extensos, prescritivos com metas curriculares sem fim que “determinam” significativamente as escolhas didácticas e pedagógicas por parte dos professores. 
Com a situação criada e as consequências da avaliação externa sobrevalorizada, os docentes sentem-se “obrigados” a preparar os alunos o melhor possível, com turmas enormes e muitas turmas, sem apoios, para responder a um exame que passa a ser o tudo na vida de alunos e professores e que é coerente com os modelos de currículo e com a visão de educação e de escola que está a implantar-se.
As políticas educativas, inscritas nas políticas globais evidentemente, é que têm criado esta visão de educação, de escola, virada quase que exclusivamente para resultados, competitiva, centrada na medida e normalizadora.
A examocracia não foi criada pelas escolas e pelos professores é uma opção política, legítima mas discutível, profundamente discutível. Não porque os exames não sejam necessários mas porque precisamos de reflectir sobre qual a sua função, que enquadramento, que calendário, em anos de escolaridade, etc.
No entanto, sublinho, antes é necessário saber que educação queremos, que escola e educação públicas queremos.

NEGÓCIOS ESTRANGEIROS

"Chineses dizem que Portugal é o melhor país da Europa para comprar empresas"

Muitos dos negócios que no âmbito das privatizações vamos conhecendo sempre me recordam uma afirmação muito interessante de Nuno Brederode dos Santos numa crónica antiga no Expresso, “Os Negócios Estrangeiros em Portugal raramente são bons negócios mas, quando o são, então são, de facto, estrangeiros”.
Será destino?
Não, não é destino, é o resultado de políticas intencionais, assumidas, viradas para interesses que não o bem comum.
Este discurso não é contra uma visão global do mundo mas contra uma visão que vende ao desbarato, com meandros pouco transparentes e em condições pouco favoráveis aos interesses nacionais.

domingo, 21 de junho de 2015

AS 50 SOMBRAS DE RELVAS

Os homens do marketing e da comunicação estão a fazer o seu trabalho. Entrou em fase de pré-lançamento o que muito provavelmente virá a ser o maior estoiro editorial dos últimos anos, “O outro lado da Governação” uma obra da autoria de dois dos nossos mais carismáticos líderes políticos e brilhantes figuras da cidadania, o “Dr.” Miguel Relvas e o Dr. Paulo Júlio.
Julgo que uma obra intitulada “O outro lado da Governação” só podia ter como autor uma figura como Miguel Relvas, um homem que, aparentemente, não está nas coisas, está ao lado das coisas ou antes das coisas, a fazer as coisas acontecerem, é assim como que um facilitador, Passos Coelho que o diga.
O que se vai conhecendo é profundamente estimulante e ameaça ser uma espécie de “As 50 sombras de Relvas”, uma narrativa sobre as indecências e despudor que muito do trajecto que figuras desta estirpe vai cumprindo.
Parece claro que os factos e a realidade serão seguramente vítima de tortura até se parecerem com realidade que se deseja retratar. De caminho e assim com muito jeito prepara-se o regresso do estadista, o "Dr." Miguel Relvas.
No fundo, como está no último best seller dedicado a outro enorme estadista, “Somos o que escolhemos ser".

A FESTA DA PARQUE ESCOLAR. OS CONVITES NÃO CHEGARAM PARA TODOS

Era, é, reconhecido por toda a gente a necessidade de modernização do parque escolar, em algumas situações inaceitavelmente degradado, pelo que o processo desencadeado sob a responsabilidade da Parque Escolar merecia concordância, independentemente da agenda político-partidária que gere os discursos das lideranças políticas.
A verificada derrapagem nas contas de muitas das obras relacionadas, que se não estranha em Portugal, têm sido apenas e lamentavelmente a "rotina" das obras geridas por capitais públicos. No caso particular da recuperação e modernização de edifícios escolares, a avaliação do que foi realizado foi mostrando algo que muitas pessoas que conhecem as escolas tinham como claro, o desajustamento de algumas soluções técnicas, o novo-riquismo saloio de alguns equipamentos e materiais, o custo exorbitante de manutenção que as soluções adoptadas implicam, etc.
Estas opções, a “Festa” como lhe chamou Maria de Lourdes Rodrigues, e a política contabilística da actual equipa da 5 de Outubro comprometeram o desenvolvimento do programa com consequências muito negativas em várias escolas que ainda continuam em eternas obras  com milhares de alunos com aulas em contentores e em edifícios sem qualidade mínima.
Sublinho que a recuperação do parque escolar e o equipamento moderno das escolas era, é, uma exigência no sentido de dotar alunos, professores e funcionários de condições de trabalho que sustentem a qualidade que todos desejamos, não é um privilégio que se concede à comunidade escolar.
No entanto e como sempre, esse é o meu ponto, para além dos recursos e equipamentos que por direito dos miúdos devem estar disponibilizados em cada momento com a melhor qualidade possível, no fim temos as pessoas. E de facto, a escola, mais do que equipamentos e meios que se desejam de qualidade, é feita pelas pessoas, todas as pessoas, que na sua função específica lhe dão sentido e qualidade e os últimos tempos têm sido particularmente gravosos para uma parte das pessoas da escola, os professores, maltratados de forma inaceitável por várias medidas da política educativa dos últimos anos.
A questão é que a actual PEC – Política Educativa em Curso, para além de ter deixado de apostar nos edifícios também não aposta nas pessoas e na qualidade do seu trabalho, corta custos de forma cega e está cada vez mais claramente assente numa agenda de desinvestimento na escola pública.
Essa é que é a questão e está para lá da melhor ou pior qualidade dos edifícios escolares.

SAMPAIO DA NÓVOA, FRANCISCO ASSIS E A POLÍTICA PORTUGUESA

É sempre bom que em tempos de decisões se clarifiquem ideias.
Em entrevista ao Expresso Francisco Assis afirma ""Não voto Sampaio da Nóvoa". Parece-me uma afirmação clara e, evidentemente, legítima.
Para justificar as razões da sua posição Francisco Assis adianta, "É uma pessoa por quem tenho respeito, mas que representa muitas das coisas que sempre contestei e critiquei na política portuguesa".
Confesso que gostei de ler e acho esclarecedor. 
Se para Frrancisco Assis Sampaio da Nóvoa representa muito do que ele critica e contesta então há razões para ter confiança em Sampaio da Nóvoa.
É que Francisco Assis é um dos muitos que "representa muitas das coisas" que me tornaram um descrente da partidocracia e da forma como boa parte das lideranças partidárias agem e pensam. 
Assim sinto-me mais animado, Sampaio da Nóvoa pode mesmo vir a fazer a diferença.
Será difícil mas é possível.