terça-feira, 18 de setembro de 2018

(IN)DIFERENÇA


Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.
Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

Este texto, “Indiferença”, de Martin Niemöller, vem a propósito de uma notícia no JN, “Inquérito nas escolas para saber quem é filho de ciganos ou africanos”. Em algumas escolas do Porto e de Lisboa foi solicitado aos pais a resposta a um inquérito envolvendo questões sobre a ascendência dos alunos. Deveriam responder se a origem do pai ou mãe é "portuguesa, cigana, chinesa, africana, Europa de Leste, indiana, brasileira" ou outra.
Esta notícia não é lá de longe, de muito longe, estas questões estão aqui perto, muito perto e com múltiplas variações.
Será que ficamos indiferentes?

PS - A Direcção Geral de Educação terá mandado suspender a utilização deste inquérito. Andou bem.

ÀS VEZES O SOL BRILHA

Às vezes, mas só às vezes, o Sol brilha. O mundo visto a partir dos olhos dos miúdos fica mais estimulante. Não, não tenho uma visão idealizada ou romântica dos mais novos. Apenas olho à volta.



segunda-feira, 17 de setembro de 2018

AOS VOSSOS LUGARES, A ESCOLA VAI COMEÇAR


A partir de hoje é a sério. Esperemos que as aulas comecem para todos os alunos, com todos os professores, técnicos e funcionários, em instalações adequadas e com os materiais necessários. Será? Não, ainda não é este ano.
Algumas notas pensando fundamentalmente nos que vão iniciar a escolaridade obrigatória.
Para a maioria das crianças e apesar da sua experiência na educação pré-escolar, a "entrada" na escola, ou melhor, o processo de início da escolaridade obrigatória, continua a ser uma experiência fundamental para o lançamento de um percurso educativo com sucesso.
Em muitíssimas circunstâncias da nossa vida, quando alguma coisa não correu bem, é possível recomeçar e tentar de novo esperando ser melhor sucedido. Todos nós experimentámos episódios deste tipo.
Pois bem, o processo de início da escolaridade envolve na verdade um conjunto de circunstâncias irreversíveis, ou seja, quando corre mal já não é possível voltar atrás e recomeçar com a esperança de que a situação vá correr melhor. Por isso se torna imprescindível que o começo seja positivo. Para isso, importa que seja pensado e orientado, que crie as rotinas, a adaptação e a confiança em miúdos e em pais indispensáveis à aprendizagem e ao desenvolvimento bem-sucedidos.
É fundamental não esquecer que os miúdos à "entrada" na escola não estão todos nas mesmas condições, pelas mais variadas razões, ambiente e experiências familiares, percurso anterior, características individuais, etc. o que exige desde o início uma atenção diferenciada que combata a cultura de que devem ser todos tratados da mesma maneira, normalizando o diferente, que alguma opinião publicada e ignorante defende. Muitas vezes os lugares da escola não conseguem acomodar a diversidade dos alunos.
Antes de, com voluntarismo e empenho, se tentar ensinar aos miúdos as coisas da escola é preciso, como sempre afirmo, dar tempo, oportunidade e espaço para que os miúdos aprendam a escola. Depois de aprenderem a escola estarão mais disponíveis para aprender então as coisas da escola.
Vai começar o tempo do trabalho "a sério" e muitas crianças irão rapidamente sentir-se pressionados para a excelência, o mundo não é para gente sem sucesso. Vão ter que adquirir competências, muitas competências, em variadíssimas áreas, porque é preciso ser bom em tudo e é preciso preparar para o futuro, curiosamente, descuidando, por vezes, o presente.
E vão também começar a perceber como anda confusa a cabeça dos adultos, como estamos sem perceber o nosso próprio presente e com dificuldade em antecipar o futuro, que será o presente deles.
Vão, parte deles, desaprender de rir, de se sentir bem e de brincar, a coisa mais séria que sempre fizeram.
Vão ouvir cada vez mais frequentemente qualquer coisa como "não podes fazer isso, já és uma mulherzinha, ou um homenzinho", como se as mulherzinhas e os homenzinhos já crescidos não fizessem asneiras.
Vão conhecer tempos em que se sentem sós e perdidos com um mundo demasiado grande pela frente.
Mais cedo ou mais tarde, alguns deles, vão sentir uma dor branda que faz parte do crescer mas que, às vezes, não passa com o crescer.
Também sei, felizmente que a grande maioria vai continuar a sentir-se bem, por dentro e para fora.
Pode parecer-vos um pouco estranho, mas gostava que a estes miúdos que agora vão começar "a escola", tal como aos outros que já a cumprem, lhes apetecesse "fugir para a escola" e que nós possamos ser capazes de lhes dizer "Cresçam devagarinho, não tenham pressa".
É que depressa e bem, não há quem, como se costuma dizer.
Boa sorte e bom trabalho para alunos, professores, técnicos, funcionários e pais.


domingo, 16 de setembro de 2018

DAS COMPETÊNCIAS FOFAS


Parece claro de há uns anos para cá que a educação escolar envolve o desenvolvimento e aquisição de um conjunto de saberes, comportamentos, competências, etc, nas suas diferentes derivações, que está para além da lógica de aquisição de saberes de natureza disciplinar.
Daqui tem decorrido uma permanente discussão em torno do currículo que oscila entre a definição estreita e normativa de saberes de natureza disciplinar e a ”obesidade curricular”, em que tudo o que pode ser importante a escola pode “ensinar”.
Mais recentemente, com a definição de Perfil dos Alunos à saída da escolaridade obrigatória pretende-se regular o que deve ser o resultante para cada aluno do seu percurso escolar obrigatório.
Parece-me positivo este caminho.
No entanto, começam a emergir alguns discursos e orientações que partindo da ideia antiga das “soft skills”, para além dos saberes instrumentais de natureza disciplinar, inventariam longas listas de competências a promover nos alunos.
Quando atento nalgumas dessas orientações lembro-me do meu amigo João que fala das “competências fofas” numa tradução curiosa das “soft skills”, é um lista imensa.
Julgo, mais uma vez, que é preciso bom senso. Tão desajustado é um currículo normativo, prescritivo, fechado em disciplinas, como um currículo que integra como matéria de trabalho uma infinidade de “competências fofas” que podendo, algumas delas, ser de facto importantes, não têm que se constituir como “objecto” de trabalho escolar. Decorrem da qualidade desse trabalho, da autonomia dos professores, escolas e alunos e, naturalmente, da educação familiar.

sábado, 15 de setembro de 2018

JOSÉ PACHECO, UM CONSTRUTOR DE PONTES


O Professor José Pacheco tem uma entrevista no JN que merece ser lida, reflectida, divulgada e , eventualmente, também discordada em alguns aspectos. 
Foi há 42 anos a alma da escola da Ponte, uma fonte de inspiração de muita gente por cá e por fora e que se desenvolveu em contraciclo com as orientações do ME. Como se depreende da entrevista o José Pacheco continua, felizmente, em contraciclo com muitos dos discursos e ideias em educação. Poderão ser utopias de visionário, podem ser fruto da paixão, podemos não concordar sempre, mas são desafiantes as suas reflexões.
Na verdade sob a orientação de José Pacheco e apesar das vicissitudes e constrangimentos, da pressão da tutela sobre a escola da Ponte e sobre o Director, das inspecções e avaliações que procuravam concluir que seria uma experiência falhada, a comunidade mostrou que era, é, possível ter um outro tipo de escola. Não, não é uma escola perfeita, é apenas uma escola de pessoas.
Aliás, a escola da Ponte tem sido de há anos um objecto de estudo e visita recorrentes por parte de investigadores e professores nacionais e estrangeiros que reconhecem o que de qualidade por ali acontece. Deve ainda sublinhar-se que a visão da escola da Ponte é de uma escola onde verdadeiramente cabem todos, alunos, professores, funcionários e pais.
Há quem lhe chame escola inclusiva.
Para que conste.
Leiam a entrevista, por favor. Não temos que concordar com tudo mas talvez encontremos que pensar. José Pacheco continua, agora no Brasil, a construir pontes … com o futuro. Chama-se Projecto Âncora.

PS - O José Pacheco tem uma colaboração regular no site Educare com um espaço, "O aprendiz de utopias", que é sempre uma leitura estimulante, mesmo que de utopias vindas de um eterno aprendiz.

TEREMOS ALGO DE NOVO NAS VELHAS PRAXES?


A partir de agora e muitas vezes por um período prolongado, tal como nos movimentos migratórios, as cidades com ensino superior começam a ser invadidas por uma população curiosa, os caloiros, também conhecidos pelo acolhedor e simpático nome de "bestas". Andam aos bandos pelas ruas, com um ar patético, mascarado de divertido, às vezes mesmo divertido, enquadrados por um pessoal jovem vestido de negro, trajados, como gostam de dizer que mostram quem manda, tradição ainda é o que era. É o tempo das praxes aos que chegam ao ensino superior.
Não sei se em resultado de alguns episódios lamentáveis, até com consequências graves do ponto de vista físico o que levou a tutela e as instituições a "desencorajar" ou mesmo proibir as praxes, recordo o Programa Praxe +, se em resultado das escolhas dos próprios estudantes ou em resultado dos esforços do MATA (Movimento Anti-Tradição Académica), registo que as “actividades” de praxe têm vindo a ser mais brandas apesar de alguns excessos que sempre se verificam. No entanto, ao que se vê na imprensa, já se observa o que não pode acontecer, humilhar não rima com integrar.
Fico satisfeito com esta alteração, sobretudo se corresponder a decisões assumidas pelos estudantes no seu conjunto e não fruto de ameaças ou determinações da tutela ou da direcção das diferentes escolas, estamos a falar de gente crescida e, espera-se, autodeterminada.
De facto, como regularmente aqui afirmo partindo de um conhecimento razoavelmente próximo deste universo, a regulação dos comportamentos nas praxes tem-me parecido indispensável. Parece-me ainda importante que os dispositivos de regulação das praxes integrem o respeito por posições diferentes por parte dos estudantes sem que daí advenham consequências implícitas ou explícitas para a sua participação na vida académica que, frequentemente, não sendo "enunciadas", são, evidentemente, praticadas.
Os repetidamente referidos "Códigos de Praxe", nas suas diferentes designações, não parecem suficientes para inibir abusos dos comportamentos e as consequências negativas sobre os não aderentes às praxes.
Na verdade, de forma aparentemente tranquila coexistem genuínas intenções de convivialidade, tradição e integração na vida académica com boçalidade, humilhação e violência sobre o outro, no caso o caloiro, a “besta” como elegantemente é designado. Tenho assistido e todos temos conhecimento de cenas absolutamente deploráveis por mais que os envolvidos lhes encontrem virtudes.
Apesar dos discursos dos seus defensores, continuo a não conseguir entender como é que, a título de exemplo, humilhar rima com integrar, insultar rima com ajudar, boçalidade rima com universidade, abusar rima com brincar, ofender rima com acolher, violência rima com inteligência ou coacção rima com tradição. Devo, no entanto sublinhar que não simpatizo com estratégias de natureza proibicionista, sobretudo em matérias que claramente envolvem valores. Nesta perspectiva, parece-me um passo positivo uma anunciada iniciativa de regulação envolvendo diferentes academias.
Quando me refiro a esta questão, surgem naturalmente comentários de pessoas que passaram por experiências de praxe que não entendem como negativas, antes pelo contrário, afirmam-nas como algo de positivo na vida universitária. Acredito e obviamente não discuto as experiências individuais, falo do que assisto e conheço.
A minha experiência universitária, dada a época, as praxes tinham entrado em licença sabática, por assim dizer, foi a de alguém desintegrado, isolado, descurriculado, dessocializado e taciturno porque não acedeu ao privilégio e experiência sem igual de ser praxado ou praxar. Provavelmente, advém daí a minha reserva.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

OS CARREGOS DOS MIÚDOS


Ao que a imprensa referia nos últimos dias sublinhando a preocupação e frustração da DECO, nenhuma das medidas contidas na recomendação feita em 2017 pela Assembleia da República de 2017 relativa ao peso das mochilas escolares terá sido levada em consideração.
Medidas como o estabelecimento de dispositivo de homologação das mochilas e das condições ergonómicas mais adequadas, a definição de salas fixas para cada turma, para evitar que as crianças tenham de carregar as mochilas durante os intervalos, a instalação de cacifos, a possibilidade dos materiais escritos, manuais, por exemplo, livros serem produzidos com um papel com uma gramagem mais leve ou a utilização gradual dos recursos digitais incluíam-se na recomendação.
Como é sabido e há pouco tempo escrevi, o Parlamento é melhor a recomendar que a legislar por isso expressei na altura o meu pouco optimismo que sem surpresa se confirma.
Mas vale a pena insistir.
Diferentes estudos sugerem que cerca de sete em cada dez crianças transportam às costas um peso superior ao aconselhado pela OMS, 10% do seu peso corporal.
Como já escrevi existem muitas matérias que não deveriam ser objecto de legislação, o bom senso deveria bastar mas assim não é, aguardemos que as campanhas e recomendações contribuam para minimizar a situação que para algumas crianças é mesmo pesada.
Como é óbvio, pelas suas implicações e riscos, imediatos e a prazo, para a saúde dos miúdos, esta questão deve merecer a atenção de pais e educadores no sentido de a minimizar, embora, por outro lado, o seu transporte configure um exercício físico que disfarça a ausência de espaços e equipamentos adequados em muitas das nossas escolas e combata uma infância sedentarizada, a troco, é certo, de uma coluna castigada.
No entanto, aproveitando o espaço e o tempo de reflexão criados com início de mais um ano talvez também fosse útil olhar de uma forma mais alargada para o peso excessivo que muitas crianças carregam nas suas costas.
As mochilas escolares serão apenas um dos carregos, por assim dizer, mas existem outros que temo ficarem fora deste conjunto de recomendações e nos quais insisto.
Estou a pensar no peso da pressão para que sejam excelentes.
Estou a pensar no peso da pressão para que sejam o que não são e da pressão para que não sejam o que são.
Estou a pensar no peso da pressão de viver demasiado só.
Estou a pensar no peso da pressão que leva a que, por vezes, só gritando e agitando-se se façam ouvir.
Estou a pensar no peso da pressão de não conhecer o caminho e sentir-se perdido.
Estou a pensar no peso da exclusão que muitos sofrem.
Estou a pensar no peso da pressão de actividades sem fim e, às vezes, sem sentido. Estou a pensar no peso da pressão do depressa e bem.
Estou a pensar no peso da pressão para sejam diferentes e na pressão para que sejam iguais.
Estou a pensar na pressão da exclusão e do insucesso.
Estou a pensar na pressão dos que são vitimizados por outros que também sendo vítimas se escondem na agressão.
Estou a pensar no peso da pressão causada por famílias demasiado distantes ou por famílias demasiado próximas ou ainda por famílias ausentes.
Na verdade, há miúdos que carregam o mundo às costas. Entende-se as preocupações dos professores, pediatras, psicólogos, ortopedistas, outros especialistas e de muitos de nós com a coluna dos miúdos.
Não, não é uma visão romântica ou eduquesa, trata-se do bem-estar de crianças e adolescentes. Estes carregos vão pesar mais a partir de agora.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A INCLUSÃO AGORA É PARA TODOS OS ALUNOS


Num trabalho no Público sobre o início do ano lectivo e as alterações que se verificam, Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas e Jorge Ascensão da CONFAP referem-se à mudança decorrente da entrada em vigor do regime legal para a educação inclusiva como alteração significativa.
Para além da tardia chegada às escolas de orientações nesta matéria, referem que o quadro legislativo implica ”alterações de mentalidade”, a “necessidade de mudar o chip” e Filinto Lima entende que “Os professores titulares jamais poderão dizer que um aluno com necessidades especiais não é da sua turma. Todos os alunos são da turma”, os alunos com necessidades educativas especiais passarão mais tempo na sala de aula, “acompanhados por um professor de educação especial e realmente integrados na turma.”
Ao que parece, para Jorge Ascensão, a mudança pressupõe que se trata “da inclusão de todos os alunos e não apenas dos que tenham algum tipo de dificuldade de aprendizagem. Isto implica uma mudança de paradigma”. A sério?! Inclusão então é para todos. o que se trata de um novo paradigma que obriga a um reforço da formação e a uma comunicação estreita com a família.
É por estas e outras afirmações que como tantas vezes tenho dito os equívocos continuam mesmo com a mudança de quadro legislativo que, sublinho, era necessária e contém aspectos positivos.
Sabemos que os processos de mudança educação não ocorrem com datas marcadas no calendário e portanto é algo de continuado e em construção, esse não é o problema.
O que me inquieta é perceber, avaliando interna e externamente, se do processo de alteração resulta mais qualidade nos processos educativos de todos os alunos, menos exclusão, tantas vezes em nome da … inclusão. Conheço muitos professores que de há muito entendem que todos os alunos que fazem parte do seu grupo … são seus alunos, como é óbvio. Também conheço algumas situações de professores que de vez em quando têm nas suas aulas alunos que são “do especial”, não são seus alunos. Estes terão de “mudar o chip” como afirma Filinto Lima e Jorge Ascensão. E mudarão?
O que me inquieta é se resultará mais participação efectiva de todos os alunos nas actividades comuns, mais apoios e de qualidade aos professores de ensino regular, que com os pais são os actores centrais nos processos educativos de todos os alunos, a disponibilização de recursos suficientes, adequados e em tempo oportuno e dispositivos de regulação do trabalho desenvolvido que minimizem os efeitos em que, perdoem-me o excesso e a repetição, da dimensão o sistema é verdadeiramente inclusivo, coexistem sem um sobressalto práticas excelentes com práticas e discursos que atentam contra os direitos de alunos, famílias e docentes.
Algumas histórias que vou ouvindo não são muito animadoras tal como as boas experiências que se conhecem não fazem a Primavera.
A minha inquietação é que de uma “nova lei” (necessária reafirmo), de um “novo paradigma”, da “reforma do ensino especial”, da “inovação”, se mantenha algum do “velho” quadro de práticas e visões. Temo que entendimentos “inovadores” como já não temos “alunos com necessidades especiais” abra a porta para uma “normalização” alimentada pela falta de recursos que leve a que muitos alunos não tenham a resposta que de facto precisam acabando por ficar “entregados” e não integrados e muito menos incluídos.
Como já escrevi, é verdade que o novo quadro legislativo para a educação inclusiva vem acompanhado de um “Manual de apoio à prática”. Embora julgue úteis orientações de apoio às práticas não acredito em manuais para a inclusão mas deve ser, evidentemente, algum preconceito da minha parte. Aliás, surpreendeu-me que num quadro de tanta mudança de paradigma e de inovação se recorresse a um tão velho dispositivo, o manual.

NUNCA MAIS ME SAI O EUROMILHÕES


Ao que se lê na imprensa continua a aumentar o investimento dos portugueses nos “jogos sociais” da Santa Casa e nas apostas online. Nunca se procurou tanto a sorte como agora.
Na verdade, o Totobola e depois o Euromilhões, o Totoloto, posteriormente a Raspadinha e mais recentemente as apostas online estabeleceram-se firmemente na vida de muitos de nós e criaram mesmo uma imagem criadora de futuro que nos move, provavelmente e para muitas pessoas, a única imagem criadora de futuro.
Importa reconhecer que as imagens criadoras de futuro são imprescindíveis, tanto mais quando atravessamos tempos duros em que esperança também foi revista em baixa e ainda não recuperámos.
Julgo poder afirmar-se que em muitos lares portugueses e em muitas conversas hoje mais do que nunca, uma das frases mais ouvidas é “nunca mais me sai o Euromilhões, para deixar de trabalhar”. Muito provavelmente, cada um de nós já ouviu, pensou ou disse esta expressão alguma vez ou vezes. Creio também que não é usada apenas pelos cidadãos com maiores dificuldades.
Acho curiosa a sua utilização. Entendo, naturalmente, a ideia subjacente à primeira parte. Um prémio de valor substantivo representaria, seguramente, a hipótese de acesso a um patamar superior de bem-estar económico, desejado, naturalmente, por toda a gente. O que de facto me parece mais interessante é o complemento “para deixar de trabalhar”. É certo que nem todas as expressões devem ser entendidas no seu valor “facial”, mas é também verdade que a recorrente afirmação deste desejo acaba por ilustrar a relação que muitos de nós estabelecemos com o lado profissional da nossa vida, isto é, “quero livrar-me dele o mais depressa possível”. Não será grave, mas é um indicador que possibilita várias leituras.
Neste contexto sabem qual é a minha inquietação? É se os miúdos, considerando a agitação que vai pelo seu mundo “laboral” e os discursos dos adultos, desatam a pedir, se puderem, um aumento de mesada que lhes permita apostar no Euromilhões para … deixar de ir à escola.
Já estivemos mais longe.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

ESTÁ AÍ O NOVO ANO LECTIVO


Por estes dias vão começar as aulas. O início do ano lectivo, para além de ser marcado pelos habituais sobressaltos e atrasos na colocação dos professores e funcionários, é influenciado pelo conflito sem fim à vista entre professores ME, por mudanças significativas decorrentes do alargamento dos projectos relativos ao que designam por “flexibilização curricular”, pela definição em cima da hora das “aprendizagens essenciais”, pelas mudanças também já muito perto do início dos trabalhos em matéria de educação inclusiva, entre outras.
Na verdade, apesar de alguns avanços, talvez ainda não seja desta que teremos a tão apregoada quanto necessária “normalidade”, equipamentos e espaços adequados e prontos, docentes colocados e com tempo para a preparação da actividade, funcionários suficientes, técnicos presentes desde o início do ano e em número e função adequados às necessidades de escolas e agrupamentos, materiais e manuais na posse das famílias, etc. Um dia vamos conseguir.
Em muitas escolas, alguns professores, apesar dos imperativos ético-deontológicos, dificilmente sentirão o “privilégio” da profissão “mais linda do mundo”, como um dia referiu Nuno Crato que bem se esforçou para que assim não fosse continuando, aliás, o trabalho de Maria de Lurdes Rodrigues.
Enfrentam situações com climas e condições pouco positivas que comprometem o seu trabalho de professores, o dos alunos, dos funcionários e dos pais e, no limite, o direito a uma educação pública de qualidade.
No entanto, podemos estar seguros, a esmagadora maioria dos professores vai entrar na sala de aula todos os dias, olhar para os alunos e reinventar-se como Professor.
Ainda bem para nós e para os nossos miúdos.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

A GUERRA É A GUERRA.


Ele há coisas! Então não é que no meio do conflito entre ME e professores sobre a recuperação devida pelo período de congelamento verificado nas carreiras surge o Education at a Glance 2018 a dizer que os docentes portugueses do 2.º e 3.º ciclos ganham, em média, mais 35% do que os restantes trabalhadores que têm formação superior. É verdade que estamos apenas considerar os do 2º e 3º ciclos, é verdade que ganham menos que a média dos professores dos países da OCDE mas o que interessa é afirmar “Professores ganham mais 35% do que média dos trabalhadores qualificados”.
Deixem-me recordar umas notas de um texto que já por aqui andou.
Boa parte do que a imprensa e muitos opinadores tudólogos têm produzido sobre educação nos últimos dias, para além da indignação pela falta de seriedade intelectual, (não acredito na ignorância), tem-me causado alguma tristeza.
A questão da carreira dos professores é uma situação complexa sobretudo pelo impacto da reposição dos efeitos de congelamento verificado. Não estranho, pois, a discussão que tem gerado e a dificuldade de encontrar compromissos.
O que me parece mais curioso é que esta discussão seja alimentada também por uma agenda que dela se serve para diabolização dos professores, as pessoas a quem entregamos os nossos filhos todos os dias.
A discussão serve também para que se possa atacar a escola pública e o esforço e a competência da esmagadora maioria dos que nela trabalham.
Continuam a aparecer na comunicação social nos seus vários formatos intervenções que produzidas pelos “falcões” habituais ou caceteiros de ocasião são intelectualmente desonestas, escondendo realidades sobre os professores e o seu trabalho e o trabalho de alunos e escolas e recorrendo às tão em moda “fake news”, factos alternativos.
Como escrevi vejo muita gente ligada à educação considerar como ignorantes as afirmações de muitos desses opinadores. Não sejamos ingénuos, não é ignorância, é guerra política pura e dura.
Como cantava o Fausto, “a guerra é a guerra”.
A educação e a sua qualidade são ferramentas essenciais de desenvolvimento. Apesar do que falta fazer e de situações que não deveriam acontecer, de políticas de sinal errado, alunos e professores têm evoluído positivamente no seu trabalho e constroem saber, ou seja, constroem o futuro.
Como diz Ordine no estimulante ”A utilidade do inútil”, “Só o saber pode desafiar uma vez mais as leis do mercado. Eu posso comungar com os outros os meus conhecimentos sem empobrecer…. Ensinar é um processo virtuoso que enriquece. Ao mesmo tempo, quem dá e quem recebe”.
Não, não é um discurso ingénuo ou romântico, estes anos todos de estrada dão-me alguma lucidez, creio. Os Professores e Educadores e de uma forma geral quem passou pela escola e não tem preconceitos ou agendas implícitas reconhece que é verdade.
No entanto, sei também que acontecem verdadeiros atropelos no quotidiano escolar. Entendo de há muito que um dos pecados estruturais do sistema é justamente a falta de dispositivos de regulação o que permite que coexistam na mesma escola a excelência e a mediocridade sem sobressaltos aparentes.
É assim triste que tantos e tão manhosamente ataquem quem, na sua esmagadora maioria, lhes leva os filhos ao futuro e os trouxe ao presente que têm.
Uma comunidade que não valoriza os seus professores e o seu trabalho é uma comunidade certamente mais pobre e menos desenvolvida. A Educação, o Conhecimento, a Formação são ferramentas de construção e distribuição de riqueza. Os professores e os alunos, futuros adultos, são os obreiros desta empresa. Respeitem-nos!

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

AGORA NO SUPERIOR. BOA VIAGEM


Foram conhecidos os resultados do acesso ao ensino superior. A maioria dos alunos terá sido colocada nos cursos que escolheram. A colocação e as escolhas de curso assentam, naturalmente, nas motivações dos candidatos e das suas expectativas face ao futuro e nos constrangimentos e enviesamentos da oferta. Para os alunos não colocados na primeira escolha teremos um risco acrescido de frustração e desmotivação que pode levar à desistência e desmotivação, esperemos que corra bem.
Umas notas breves na linha do que aqui já tenho escrito.
Sou dos que entendem que cada um de nós deve poder escrever, tanto quanto as circunstâncias o permitirem, a sua narrativa, cumprir o seu sonho. Por outro lado, a vida também nos ensina que é preciso estar atento aos contextos e às condições que os influenciam, sabendo ainda a volatilidade e rapidez com que hoje em dia a vida acontece.
Nesta perspectiva, parece-me importante que um jovem, sabendo o que a sua escolha representa, ou pode representar, nas actuais, sublinho actuais, condições do mercado de trabalho, faça a sua escolha assente na sua motivação ou no projecto de vida que gostava de viver e, então, informar-se sobre opções, sobre as escolas e respectivos níveis de qualidade.
Por outro lado, é esta questão quero sublinhar, boa parte da questão da empregabilidade, mesmo em situações de maior constrangimento, relativiza-se à competência, este é o ponto fulcral.
Na verdade, o que frequentemente me inquieta, como muitas vezes afirmo, é a ligeireza com que algumas pessoas parecem encarar a sua formação superior, assumindo uma atitude pouco "profissional", cumprem-se os serviços mínimos e depois logo se vê. Têm sido mediatizados casos que elucidam deforma nítida este entendimento, a formação não é um conjunto de saberes e competências, é um título que se cola ao nome.
Mesmo em áreas de mais baixa empregabilidade, ou assim entendida, continuo a acreditar que, apesar dos maus exemplos que todos conhecemos, a competência e a qualidade da formação e preparação para o desempenho profissional, são a melhor ferramenta para entrar nesse "longínquo" mercado de trabalho. Dito de outra maneira, maus profissionais terão sempre mais dificuldades, esteja o mercado mais aberto ou mais fechado.
Assim sendo, importa que o investimento, a preocupação com a aprendizagem e a aquisição de saberes e competências possam ser uma preocupação que pode, e deve, coexistir com o desenvolvimento de uma vida académica socialmente rica, divertida e fonte de bem-estar e satisfação. É desejável resistir à tentação do facilitismo, do passar não importa como, da fraude académica, da competição desenfreada que inibem partilha, cooperação e apoio para momentos menos bons.
O futuro vai começar dentro de momentos.
Boa sorte e boa viagem para todos os que vão iniciar agora esta fase fundamental nas suas vidas.

domingo, 9 de setembro de 2018

A IDADE DA ENTRADA NA ESCOLA


No Expresso encontra-se uma peça sobre uma matéria que regularmente, mais nesta fase do ano, entra na agenda, a idade mais ajustada para a entrada na escola. A este propósito algumas notas.
De acordo com a lei em Portugal a entrada na escola é obrigatória para as crianças completem seis anos de idade até 15 de Setembro. As crianças que completam os seis anos entre 16 de Setembro e 31 de Dezembro, já depois do início do ano lectivo, podem matricular-se de forma condicional, ou seja, frequentam se existir vaga na escola. Existe ainda a possibilidade legal, com autorização específica, de que uma criança possa ver antecipada ou adiada em um ano a sua entrada na escola. Nestas circunstâncias colocam-se desde logo dúvidas relativas à idade adequada, sobretudo relativamente às crianças que entram com 5 anos, seja através da situação de condicional ou através de um pedido de antecipação. 
De uma forma geral parece ser entendimento e prática em muitos países que os seis anos parecem ser uma idade ajustada para o início da escolaridade. Considerando a diversidade entre as crianças pode aceitar-se em alguns casos bem analisados que entrem mais cedo ou mais tarde. No entanto, creio que o melhor para a criança é que não se “acelere” este processo, tentação de muitos pais que assim antecipam vantagens futuras mas que na verdade podem implicar alguns riscos para a criança que, naturalmente, devem ser acautelados.
Em primeiro lugar importa sublinhar a importância de uma boa experiência de educação pré-escolar que é bastante mais que a “preparação” para a escola e não deve enredar-se no entendimento de que é uma etapa na qual os meninos se preparam para entrar na escola embora se saiba do impacto positivo que assume no trajecto escolar.
Na verdade, as crianças estão a preparar-se para a vida, para crescer, para ser. A educação pré-escolar num tempo em que as crianças estão menos com as famílias tem um papel fundamental no seu desenvolvimento global, em todas as áreas do seu funcionamento e na aquisição de competências e promoção de capacidades que têm um valor por si só não entendidos como uma etapa preparatória para uma parte da vida futura dos miúdos, a vida escolar.
Este período, a educação pré-escolar, cumprido com qualidade e acessível a todas as crianças, será, de facto, um excelente começo da formação institucional de cidadãos. Esta formação é global e essencial para tudo que virão a ser e a fazer no resto da sua vida pelo que deve resistir-se à tentação de a acelerar.
Por outro lado, a "entrada" na escola, ou melhor, o processo de início da escolaridade obrigatória, continua a ser uma experiência fundamental para o lançamento de um percurso educativo com sucesso.
O início da escolaridade envolve na verdade um conjunto de circunstâncias irreversíveis na vida dos miúdos, ou seja, quando corre mal já não é possível voltar atrás e recomeçar com a esperança de que a situação vá correr melhor. Por isso se torna imprescindível que o começo seja positivo e em tempo oportuno. Para isso, importa que seja pensado e orientado, que crie as rotinas, a adaptação e a confiança em miúdos e em pais indispensáveis à aprendizagem e ao desenvolvimento bem-sucedidos.
Por outro lado, de há algum tempo a esta parte e como tenho constatado em muitas conversas com pais mas também em contextos escolares, tem emergido com progressiva regularidade discursos e comportamentos que sugerem a instalação nem sempre muito consciente de uma enorme pressão sobre os miúdos para a excelência do seu desempenho e em múltiplos aspectos.
Na verdade, fruto dos estilos de vida, de alterações nos valores e cultura e das dificuldades genéricas que enfrentamos, tem vindo a instalar-se de mansinho em muitos pais, e também dentro das instituições educativas, uma atitude e um discurso de exigência e de pressão para a excelência no desempenho dos miúdos, a começar pelos resultados escolares.
A questão não tem, evidentemente, a ver com a natural atitude de exigência mas um sim com a pressão muito forte para a produção e alto nível de rendimento e cada vez mais cedo pois, supõe-se, ganharão vantagens. E recoloca-se a questão da idade adequada.
Por outro lado, o clima instalado relativamente à pressão para resultados e para excelência e à forma como o sistema educativo tem sobrevalorizado a medida contribui para alimentar de um ambiente educativo competitivo e selectivo que cria em muitas crianças uma pressão fortíssima para a excelência dos resultados. Não é raro, antes pelo contrário e de acordo com as disponibilidades das famílias que a seguir à escola muitas crianças caminhem para os centros de explicações que acabam por funcionar como AAE, Ateliers de Actividades Escolares respondendo como 2 em 1, tomam contas das crianças e melhoram, espera-se, o seu rendimento escolar.
Acresce que esta excelência que é exigida é extensiva a todas as áreas em que os miúdos se envolvem, devem ser excelentes a tudo tendo muitas crianças a sua vida transformada numa espécie de agenda, saltando de actividade em actividade numa agitação sem fim.
Acontece que algumas crianças, por questões de maturidade ou funcionamento pessoal, suportam de forma menos positiva esta pressão o que poderá gerar o risco de disfuncionamento, rejeição escolar e, finalmente, insucesso.
Também sei que em muitas destas actividades estará presente uma genuína preocupação dos seus responsáveis pela qualidade e adequação do trabalho que realizam com os miúdos. A questão é que esse trabalho é apenas um dos mil trabalhos com que se vai enchendo a vida dos miúdos.
A melhor forma de preparar os miúdos para o futuro é cuidar bem deles no presente, desejavelmente sem faltas, mas também sem excessos.

sábado, 8 de setembro de 2018

À PROCURA DE "UM MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA O REGRESSO ÀS AULAS"


Mais do que me parece ser habitual nestes dias a imprensa tem apresentado múltiplas abordagens ao início do ano lectivo.
É verdade que o arranque deste ano, para além de ser marcado com os habituais sobressaltos e atrasos na colocação dos professores e funcionários, é ainda marcado pelo conflito sem fim à vista entre professores ME, pelas mudanças significativas decorrentes do alargamento aquilo a que chamam de “flexibilização curricular”, da definição em cima da hora das “aprendizagens essenciais”, das mudanças também já muito perto do início dos trabalhos em matéria de educação inclusiva, entre outras.
A esmagadora maioria das abordagens da imprensa parece perseguir o estabelecimento de uma espécie de “Manual de Instruções para o regresso às aulas”.
Surgem inúmeros os conselhos e orientações para diferentes destinatários, ouvem-se professores, pais, alunos, especialistas e opinadores, como sabem a educação não é matéria de saber, é matéria de opinião. Estou à vontade nesta apreciação porque também dei a minha colaboração a um destes trabalhos, na Visão. Desculparão por ser parte interessada, mas esta abordagem apela mais à reflexão que à tentativa de estabelecer receitas e por isso me parece interessante.
No entanto e neste espaço também deixo um pequeno contributo para o que eu desejaria que fosse o próximo ano lectivo.
É uma ideia muito simples como todas as utopias.
Gostava que todos os alunos, os mais novos aos mais velhos, os que são dispensados pelo tribunal do seu direito à educação por razões culturais, os que não acompanham o ritmo, não têm jeito para a escola e são diferentes, os que não cabem nos lugares e espaços que estão formatados à sua espera, enfim, que todos, mas mesmo todos, quisessem fugir diariamente para a escola. Não porque se sentissem mal nos seus contextos familiares mas porque se sentem bem na escola, participam, sentem que pertencem e aprendem.
Gostava que todos os professores, mas mesmo todos, quisessem diariamente fugir para a escola, mesmo quando estão cansados. Que sentissem como seu trabalho de construção do futuro é fundamental para todos os alunos, que se sentissem valorizados e reconhecidos por toda a comunidade, que se sentissem apoiados por colegas, direcções e pais.
Gostava que que diariamente muitos pais quisessem fugir para a escola. Não porque desgostem de tudo o resto mas porque quando entram na escola se sentem bem-vindos, sentem que os filhos também gostam que eles lá vão e o quanto isso é importante para o sucesso do trabalho de filhos e professores.
Gostava que diariamente … bom, acho que o meu contributo está a ficar demasiado extenso, os manuais querem-se breves e prescritivos.
Sejam felizes.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

DOS AUXILIARES DE EDUCAÇÃO


Na imprensa de hoje refere-se a preocupação dos directores escolares com colocação de auxiliares de educação nas escolas neste início de ano lectivo. Estão a decorrer por estes dias, estamos em cima do início do ano lectiva, concursos para a contratação de tarefeiros com pagamento à hora. Para além da precariedade da situação e da questão salarial, julgo que o modelo, contratação de tarefeiros, pode comprometer a qualidade do importante trabalho dos auxiliares de educação, nem sempre valorizado, pois a estabilidade, experiência e conhecimento das crianças e do meio são essenciais.
Numa nota pessoal posso referir que o meu neto entrou nos últimos dias para um jardim-de-infância da rede pública. Nesta fase e como é sabido, o acompanhamento das crianças é assegurado por auxiliares e registo que a qualidade, competência e atenção com que foi recebido tornaram a situação muito tranquila estando o gaiato muito satisfeito com a sua “nova escola” tendo apenas uma pequena reserva, tem medo que lhe dêem laranja ao almoço, "só gosta em sumo não inteira”. No entanto, também já lhe disseram que não terá laranjas inteiras como sobremesa. Gente atenta e competente é assim mesmo.
Vou repetir-me mas nunca é demais enfatizar o papel essencial que estes profissionais desempenham nas escolas e a necessidade de rácios adequados, qualificação, segurança e carreira que minimizem problemas que têm vindo a ser regularmente colocados por pais, professores e directores.
Seria desejável que a gestão desta matéria considerasse as especificidades das comunidades educativas e não se seguissem critérios cegos de natureza administrativa que são parte do problema e não parte da solução.
Para além da variável óbvia, número de alunos, é necessário que se contemplem critérios como tipologia das escolas, ou seja, o número de pavilhões, a existência de cantinas, bares e bibliotecas e a extensão dos recreios ou a frequência de alunos com necessidades especiais.
Por outo lado a colocação de muitos destes profissionais através do Contrato Empego-Inserção para além das questões de precariedade, descontinuidade e salário levanta fortes problemas de perfil desadequado ao exercício de funções, pessoas sem qualquer tipo de motivação ou competência para estas funções e, pelo contrário, quem as revela não pode continuar.
Na verdade, os auxiliares de educação, insisto na designação, desempenham e devem desempenhar um importante papel educativo para além das funções de outra natureza que também assumem e que exige a adequação do seu efectivo, formação e reconhecimento. No caso mais particular de alunos com necessidades educativas especiais e em algumas situações os assistentes operacionais serão mesmo uma figura central no seu bem-estar educativo, ou seja, são efectivamente auxiliares de acção educativa.
A excessiva concentração de alunos em centros educativos ou escolas de maiores dimensões não tem sido acompanhada pelo ajustamento adequado do número de auxiliares de educação. Aliás, é justamente, também por isto, poupança nos recursos humanos, que a reorganização da rede, ainda que necessária, tem sido feita com sobressaltos e com a criação de problemas.
Os auxiliares educativos cumprem por várias razões um papel fundamental nas comunidades educativas que nem sempre é valorizado incluindo na estabilidade da sua contratação e formação.
Com frequência são elementos da comunidade próxima das escolas o que lhes permite o desempenho informal de mediação entre famílias e escola, têm uma informação útil nos processos educativos e uma proximidade com os alunos que pode ser capitalizada importando que a sua acção seja orientada, recebam formação e orientação e que se sintam úteis, valorizados e respeitados.
Os estudos mostram também que é nos recreios e noutros espaços fora da sala de aula que se regista um número muito significativo de episódios de bullying e de outros comportamentos socialmente desadequados. Neste contexto, a existência de recursos suficientes para que a supervisão e vigilância destes espaços seja presente e eficaz. Recordo que com muita frequência temos a coexistir nos mesmos espaços educativos alunos com idades bem diferentes o que pode constituir um factor de risco que a proximidade de auxiliares de educação minimizará.
Considerando tudo isto parece essencial e um contributo para a qualidade dos processos educativos a presença em número suficiente de auxiliares de educação que se mantenham nas escolas com estabilidade e que sejam orientados e valorizados na sua importante acção educativa.

UMA BOA NOTÍCIA


Uma boa notícia, a que se lê no Expresso. Os médicos portugueses bem como todos os outros cidadãos terão a partir de Janeiro acesso gratuito às quatro mais robustas e seguras plataformas de informação médica, “BMJ Best Pratice”, “Cochrane Library”, “DynaMed Plus” e “UptoDate”. Na situação actual o acesso é pago pelos profissionais e caro.
Passaremos a ter informação actual sobre a evidência científica, as melhores práticas de intervenção e prevenção, etc.
Esta iniciativa terá certamente um impacto positivo em termos de literacia de saúde e no combate a muita informação e publicidade a produtos sem sustentação científica e mesmo de algum risco para os cidadãos.
Seria desejável, é um combate actual na comunidade académica, que a informação científica fosse de acesso livre.
O exemplo da saúde poderia ser extensível a outras áreas, o conhecimento é uma ferramenta de desenvolvimento e bem-estar.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A NORMALIDADE DA VIOLÊNCIA ENTRE ADOLESCENTES


Segundo um relatório agora divulgado pela UNICE, “An Everyday Lesson: #ENDviolence in Schools” estima-se que metade dos alunos entre os 13 e os 15 anos passa por situações de violência na escola ou na sua proximidade. Um em cada três de um em cada três adolescentes entre os 13 e os 15 anos será vítima de bullying e também um em cada três estará envolvido em confrontos físicos.
O bullying em contexto escolar é tão antigo quanto a instituição escolar, sendo certo, no entanto, que a designação é recente e o estudo do fenómeno também. A violência entre jovens fora do contexto escolar também está longe de ser um fenómeno novo. Actualmente, é também mais objecto de referências fora dos contextos educativos pois o volume e a gravidade de algumas situações, bem como a divulgação dos estudos e alguma mediatização verificada, colocaram este problema na agenda.
Em vários estudos constata-se que os adolescentes tendem a encarar a violência entre si como normal e este é o dado mais inquietante mas não surpreendente. A escola, desde sempre, espelha as realidades sociais e o quadro de valores prevalecente nos contextos que serve. A sociedade da informação e os sistemas de valores actuais banalizaram a violência, não são os adolescentes que a banalizaram. A violência é objecto de jogos de vídeo e computadores, é passatempo de claques e grupos, entra a qualquer hora pelas nossas casas dentro. Diferentes estudos envolvendo alunos do ensino superior mostra com preocupação um elevado volume de situações de violência nas relações de namoro e o entendimento que várias das formas de violência são normais.
Por outro lado, a escola, por ser o espaço onde os adolescentes passam a maior parte do seu tempo é, naturalmente, o espaço onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que os alunos carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola.
Apesar disso, creio que na escola, para além de muitíssimos outros aspectos, a violência entre jovens é um fenómeno complexo, existem duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos alunos vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações. Os directores de turma, figura central nas escolas mas com um papel muitas vezes negligenciado, teriam aqui um trabalho fundamental, podem definir-se canais e dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa e ainda detectar junto dos seus alunos sinais que indiciem vitimização. Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada aos agressores. As escolas podem assumir atitudes, discursos e montar dispositivos que, visivelmente, dêem aos alunos um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.
A violência e o bullying entre adolescentes em contextos escolares ou na comunidade não serão, provavelmente, eliminados, mas poderão, acredito, ser minimizados, embora seja imprescindível entender que esta grave questão grave não é competência só da escola e da família. É um problema das comunidades.
No entanto, a existência de dispositivos de apoio sediados nas escolas, com recursos qualificados e suficientes é, a par de ajustamentos nos modelos de organização e funcionamento das escolas uma tarefa urgente.
Do meu ponto de vista, o argumento custos não é aceitável porque as consequências de não mudar são incomparavelmente mais caras. Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas é necessário. Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa, ou na escola, espaço onde passam um tempo enorme.
Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. O resultado pode ser trágico.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

DISPENSADA DOS SEUS DIREITOS POR RAZÕES CULTURAIS


Um Tribunal do distrito de Portalegre decidiu dispensar uma aluna de 15 anos, de etnia cigana e a frequentar o 7º ano do cumprimento da escolaridade obrigatória. O caso chegou ao tribunal por iniciativa da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens devido ao continuado absentismo da aluna. Aliás, o absentismo e abandono são a terceira situação mais frequente a justificar a intervenção das CPCJ e, naturalmente, não se passam apenas na comunidade cigana. A decisão da Juíza tem uma fundamentação que a deveria tornar objecto de estudo obrigatório na formação de juízes e na de qualquer técnico que intervenha com crianças e jovens.
Cito do Público, a adolescente por "ser de etnia cigana, e de cumprir com as suas tradições” é levada “a considerar que não necessita de frequentar a escola”, “A menor não demonstra motivação para frequentar a escola, ajudando a mãe nas tarefas domésticas, na medida em que esta, por doença, não as pode realizar”.
A Senhora Juíza entende ainda que a adolescente “já tem 15 anos e que possui as competências escolares básicas, por necessárias, ao desenvolvimento da sua actividade profissional” e à “integração social no seu meio de pertença”.
Afirma que ela não está “minimamente motivada” para continuar na escola e no seu douto entendimento considera que “o desenvolvimento da personalidade e capacidades dos jovens, actualmente, para o prosseguimento de uma vida digna, adequada às regras sociais e jurídicas, se molda, por vezes, por caminhos diversos e igualmente recompensadores que não simplesmente a frequência da escolaridade até à maioridade, como precisamente sucede neste caso”.
Tenho medo que esta decisão possa criar jurisprudência.
Recordo-me de ter comentado aqui em 2012 uma decisão do Ministério Público em Viana do Castelo ter também “dispensado” da frequência escolar uma menor de 13 anos e de etnia cigana pois “Atento o meio cultural em que esta menor se insere, não existe qualquer medida de promoção e protecção que se adeqúe à sua situação."
Estas decisões não se entendem num país com a escolaridade obrigatória instituída em 12 anos e que tem entre os seus direitos fundamentais de cidadania, o direito à educação.
Já algumas vezes me tenho referido a decisões no âmbito dos Tribunais de Família e de Menores absolutamente atentatórias dos direitos e do bem-estar dos miúdos, que contrariam o princípio fundador do ordenamento jurídico português no que respeita aos mais novos, o superior interesse da criança.
A justificação com o meio cultural, falta de motivação ou a suficiência da formação já adquirida para as necessidades das crianças, é absurda e delinquente. Como é sabido, em Portugal, por razões culturais, também se realizam práticas de mutilação genital feminina, procedimento criminoso, condenável e que atropela direitos óbvios.
Os Meritíssimos Juízes entenderão, provavelmente, que considerando o meio cultural nada haverá a fazer.
Para quem conhece minimamente este universo, são conhecidas muitas decisões “delinquentes” de alguns decisores judiciais que apenas devem reconhecer “o supremo interesse da criança” como figura jurídica e não como princípio fundador inalienável das decisões que envolvam o bem-estar de crianças e jovens, por mais difícil que possa entender-se a sua operacionalização, é uma outra questão.
Este cenário, hoje relata-se apenas mais um exemplo, evidencia a necessidade urgente de que os Tribunais de Família e de Menores e quem decide nestas matérias sejam dotados dos recursos humanos necessários e com formação necessários que permita uma tramitação célere dos processos em apreciação e competente.
Em nenhuma circunstância e muito menos quando envolve menores, a administração do direito será “apenas” um exercício praticado por um amanuense administrativo.

JÁ NÃO AGUENTO


Na Visão encontra-se um trabalho sobre uma questão pouco divulgada mas bem presente na vida de muitos adolescentes e jovens e respectivas famílias, o mal causado a si próprio, a automutilação. São citados estudos em Inglaterra e EUA que dão conta do volume e gravidade das situações registadas.
Na verdade, os comportamentos de automutilação em adolescentes são mais frequentes do que muitas vezes pensamos e devem ser encarados com preocupação. E os casos que vão sendo conhecidos são apenas isso, os conhecidos, a ponta do iceberg.
Alguns estudos internacionais apontam para cerca de 10% da população em idade escolar com comportamentos de automutilação pelo que os dados encontrados em Portugal são, de facto, preocupantes.
Segundo os últimos dados do estudo “A Saúde dos adolescentes Portugueses”que integra o estudo internacional Health Behaviour in School-aged Children, da responsabilidade da OMS, um em cada cinco alunos (20,3%), entre os 13 e os 15 anos já se magoou a si próprio, de propósito, nos últimos 12 meses, sobretudo cortando-se nos braços, nas pernas, na barriga... Referiram que se sentiam “tristes”, “fartos”, “desiludidos” quando o fizeram. Também um estudo da Universidade de Coimbra, creio que divulgado em 2017, que envolveu 2.863 adolescentes, entre os 12 e os 19 anos, a frequentar o 3.º ciclo e o ensino secundário em escolas do distrito de Coimbra refere que cerca de 20% afirma já ter desencadeado comportamentos autolesivos pelo menos uma vez na vida. Recordemos ainda o recente episódio conhecido por “Baleia Azul”.
É justamente por esta dimensão e as suas potenciais consequências que me parece fundamental entender tudo isto como um sinal muito forte do mal-estar que muitos adolescentes e jovens sentem e a verdade é que em muitas situações não conseguimos estar suficientemente atentos. Este mal-estar e o que daí pode emergir decorrem de situações de sofrimento com as mais diversas origens, relações entre colegas, bullying por exemplo nas suas diferentes formas ou relações degradadas na família que facilitam a instalação de sentimentos de rejeição, ausência de suporte social que serão indutoras de comportamentos autodestrutivos.
Começa também a surgir como causa deste mal-estar a dificuldade que algumas crianças e adolescentes sentem em lidar com situações de insucesso escolar. Estas dificuldades são frequentemente potenciadas pela pressão das famílias e pelo nível de competição que por vezes se instala.
Os tempos estão difíceis e crispados para muitos adultos e também para os miúdos a estrada não está fácil de percorrer.
Como disse, alguns vivem, sobrevivem, em ambientes familiares disfuncionais que comprometem o aconchego do porto de abrigo, afinal o que se espera de uma família.
Alguns percebem, sentem, que o mundo deles não parece deste reino, o mundo deles é um espaço, nem sempre um espaço físico, insustentável que, conforme as circunstâncias, é o inferno onde vivem ou o paraíso onde se acolhem e se sentem protegidos mas perdidos.
Alguns sentem que o amanhã está longe de mais e que um projecto para a vida é apenas mantê-la ou que nem isso vale a pena.
Alguns convencem-se ou sentem que a escola não está feita para que nela caibam e onde podem ser vitimizados.
Alguns sentem que podem fazer o que quiserem porque não têm nada a perder e muito menos acreditam no que têm a ganhar fazendo diferente.
Alguns transportam diariamente um fardo excessivamente pesado e que os torna vulneráveis.
Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas é necessário pois muitos destes adolescentes e jovens terão evidenciado no seu dia-a-dia sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa ou na escola, espaço onde passam boa parte do seu tempo. Aliás, alguns testemunhos ouvidos no âmbito dos recentes e mediatizados casos mostram isso mesmo.
De facto, em muitos casos, designadamente, em comportamentos de automutilação ou estados mais persistentes de tristeza e isolamento, pode ser possível perceber sinais e comportamentos indiciadores de mal-estar. Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. É também importante que pais e professores atentos não hesitem nos pedidos de ajuda ou apoio para lidar com este tipo de situações.
O sofrimento e mal-estar induzem uma espiral de comportamentos em que os adolescentes causam sofrimento a si próprios o que promove mais sofrimento num ciclo insuportável e com níveis de perplexidade, impotência e sofrimento para as famílias também extraordinariamente significativos.
Não, não tenho nenhuma visão idealizada dos mais novos nem acho que tudo lhes deve ser permitido ou desculpado. Também sei que alguns fazem coisas inaceitáveis e, portanto, não toleráveis. Só estou a dizer que muitas vezes a alma dói tanto que a cabeça e o corpo se perdem e fogem para a frente atrás do nada que se esconde na adrenalina dos limites.
Alguns destes miúdos carregam diariamente uma dor de alma que sentem mas nem sempre entendem ou têm medo de entender.
Espreitem a alma dos miúdos, sem medo, com vontade de perceber porque dói e surpreender-se-ão com a fragilidade e vulnerabilidade de alguns que se mascaram de heróis para uns ou bandidos para outros, procurando todos os dias enganar a dor da alma.
Eles não sabem, eu também não, o que é a alma. Um adolescente dizia-me uma vez, “dói-me aqui dentro, não sei onde”.
Muitos pais, mostra-me a experiência, sentem-se de tal forma assustados que inibem um pedido de ajuda por se sentirem impotentes e perplexos.
O resultado de tudo isto pode ser trágico e obriga-nos a uma atenção redobrada aos discursos e comportamentos dos adolescentes e dos jovens."
Desculpem a insistência nestas questões mas é necessário.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A PROPÓSITO DE "OS MAIAS"


Após a polémica criada “Os Maias” de Eça de Queirós mantém-se na lista de leituras para o ensino secundário na versão final das “aprendizagens essenciais” homologadas na passada semana bastante tempo antes, como se vê, do início do ano lectivo.
Não me pronuncio sobre a bondade da decisão, muitos especialistas o fizeram, entendo que o livro é um dos muitos incontornáveis da nossa literatura mas tendo a pensar que professores e escolas deveriam ter autonomia para decidir sobre estas (e outras) matérias. O que me preocupa é que incluir ou não "Os Mais" não me parece ser determinante no problema estrutural que enfrentamos, a relação dos mais novos com a leitura. No caso do livro de Eça, muito provavelmente, para muitos alunos o seu conhecimento será assegurado pela leitura de alguns “resumos”, fichas de leitura ou de outros materiais muito acessíveis online que os ajudem a preparar-se para algumas questões num teste ou exame.
São múltiplos os estudos que sublinham essa importância, no trajecto escolar e no trajecto pessoal, como também muitos trabalhos mostram que os hábitos de leitura são pouco consistentes entre as crianças, adolescentes e jovens como, sem surpresa, também o são entre a população em geral. Recordo um estudo conhecido em 2015 realizado na Universidade do Minho que apontava para que 10% dos alunos do ensino secundário nunca leu um livro até ao fim. Não creio que a situação se tenha alterado significativamente.
É reconhecido que os hábitos de leitura se ganham desde muito cedo. Sabemos ainda o quanto é positivo que os pais ou outros “mais crescidos” se envolvam com as crianças, mesmo em idade de jardim-de-infância, em práticas de leitura e de actividades com os livros para, por exemplo, contar histórias a partir das imagens. Lembro-me de ouvir o Mestre João dos Santos afirmar que as crianças aprendem a ler desde que abrem os olhos.
É verdade que os estilos de vida actuais ou a quantidade de tempo que muitas crianças passam nas instituições educativas podem minimizar a disponibilidade familiar para este tipo de actividades depois de dias muito compridos e cansativos para todos.
Também sei que os livros e materiais desta natureza têm uma concorrência fortíssima com outro tipo de materiais, jogos ou consolas por exemplo, e que nem sempre é fácil levar as crianças a outras opções, designadamente aos livros.
Apesar de tudo isto também sabemos todos que é possível fazer diferente, mesmo que pouco diferente e com mudanças lentas.
Como várias vezes tenho afirmado e julgo consensual, a questão central, embora importante, não assenta nos livros, bibliotecas (escolares ou de outra natureza) ou na presença crescente e atractiva dos "tablets", a questão central é o leitor, ou seja, o essencial é criar leitores que, quando o forem, procurarão o que ler, livros por exemplo, espaços ou recursos, biblioteca, casa ou escola e suportes diferente, papel ou digital.
Creio que também estaremos de acordo que um leitor se constrói desde o início do processo educativo. Desde logo assume especial importância o ambiente de literacia familiar e o envolvimento das famílias neste tipo de situações, através de actividades que desde a educação pré-escolar e 1º ciclo deveriam, muitas vezes são, estimuladas e para as quais poderiam ser disponibilizadas aos pais algumas orientações.
Nos primeiros anos de escolaridade é fundamental uma relação estreita com a leitura, não só com os aspectos técnicos, por assim dizer, da aprendizagem da leitura e da escrita da língua portuguesa, mas um contacto estreito e regular com a actividade de leitura, seja do que for, considerando motivações e culturas diferenciadas apresentadas pelos alunos.
Só se aprende a ler lendo, só se aprende a escrever, escrevendo, etc.
A relação de muitas crianças com os materiais de leitura e escrita assentará, provavelmente de forma excessiva, nos manuais, na aquisição pressionada dos “objectivos” e "descritores" curriculares e pouco mais, apesar do esforço de muitos professores. Restará o tempo das AEC onde, apesar de algumas experiências interessantes, também nem sempre se encontram os conteúdos mais adequados, e o tempo de casa que em muitas famílias, cada vez mais famílias, é curto.
Neste contexto, embora desejasse muito estar enganado, não é fácil construir miúdos ou adolescentes leitores que procurem livros em casa, em bibliotecas escolares ou outras e que usem o "tablet" também para ler e não apenas para uma outra qualquer actividade do mundo que tornam acessível. Curiosamente mas sem surpresa têm vindo a diminuir o número de professores bibliotecários algo que do meu ponto de vista não me parece sequer justificável com o abaixamento do número de alunos pois o número de bibliotecas, o espaço de trabalho dos professores bibliotecários aumentou.
Temos que criar leitores, eles irão à procura das bibliotecas e dos recursos.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A TRAGÉDIA ESPREITA


Como dizia Chico Buarque a coisa por lá tá preta. Há tempos assim. Quando tudo já não parece poder ficar pior, fica mesmo.
Num Brasil devastado pela corrupção e pobreza, no meio de uma situação política em que emergem figuras sinistras como Bolsonaro, ainda estava por aparecer o inferno das chamas.
Apareceram devastadoras, para o Brasil e para toda a humanidade. Um património extraordinário desapareceu consumido pelas chamas no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
É uma perda irrecuperável e, como tantas vezes acontece, uma perda anunciada pela incúria e incompetência. Lá, como cá, como em todo o lado, a tragédia espreita, não precisamos de lhe abrir a porta.
Levanta-te Brasil, perdeste uma parte do passado, ganha todo o futuro. A tua gente é grande.

DOS PROFESSORES


Estamos no início de mais um ano lectivo, as aulas começarão daqui a poucos dias. Mais uma vez o ano antecipa-se alguma intranquilidade, um dia seremos capazes de conseguir que um novo lectivo seja apenas isso, um novo ano lectivo sem especiais sobressaltos para além das particularidades do universo da educação.
Os dias de hoje e amanhã e certamente alguns mais serão dias de professores em trânsito. Uns largos milhares estão a deslocar-se para a escola onde ficaram colocados, os resultados dos concursos saíram mesmo no final da semana e os professores têm 72 horas para se apresentarem na escola. Alguns, muitos, terão de se deslocar com filhos, arranjar habitação, etc. Não é fácil e ainda não foi desta que os concursos e os resultados foram antecipados.
Outros largos milhares estarão em trânsito para se inscreverem nos centros de emprego pois ficaram sem colocação. Muitos destes são docentes com muitos anos de serviço e que têm provisoriamente desempenhado funções que correspondem a necessidades definitivas. Muitos destes professores vão vivendo projectos de vida adiados.
Raramente a profissão professor tem estado tanto em foco como nos últimos anos bem como a necessidade de defender a qualidade da escola pública sob ameaça significativa. Desencadearam-se múltiplas acções políticas que contribuíram para degradar a sua função, a sua imagem social e o clima e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas.
Opções políticas assumidas e em curso têm contribuído para uma atenção continuadamente dirigida para a educação e para os professores. Essa atenção advém de boas e más razões. Não cabe aqui um balanço alargado o, e entendo que, tal como os miúdos, os professores não têm sempre razão, ninguém tem. No entanto, gostava de deixar algumas notas.
Em primeiro lugar importa desde logo sublinhar que ser professor no ensino básico e secundário por razões conhecidas e por vezes esquecidas, é hoje uma tarefa de extrema dificuldade e exigência que social e politicamente justifica o maior reconhecimento que nem sempre é evidente. Vejamos.
Não é fácil ser professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.
Milhares de professores cumprem a sua carreira, muitos deles sem a possibilidade de desenharem projectos de vida para si quando são os principais responsáveis por lançar projectos de vida para os miúdos com quem trabalham. Nos últimos anos milhares de professores, de bons professores e professores necessários, foram constrangidos à reforma e muitos ao desemprego por uma política de contabilidade inimiga da educação pública e da qualidade. Veja-se os sucessivos processos de colocação de professores e as situações dramáticas que a incompetência e a arrogância de diferentes equipas na 5 de Outubro produziram.
Tantas vezes os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma ignorante barbaridade qualquer, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.
Era desejável mas trata-se de pedir muito que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Pensemos em como a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem.
Pensemos finalmente nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.

domingo, 2 de setembro de 2018

VACINAR OU NÃO VACINAR NÃO PODE SER UMA OPÇÃO


Vale a pena reflectir na entrevista que se encontra no Público a Peter Hotez, investigador e reitor da Faculdade Nacional de Medicina Tropical em Houston, EUA. A questão, actual e importante, centra-se na campanha que emergiu nos últimos tempos contra a vacinação das crianças e que, entre outros problemas e riscos estará certamente associada ao aumento significativo de casos de sarampo. O argumentário contra a vacinação não tem sustentabilidade científica e muitos países estão a pensar em tomar medidas como não permitir o acesso creches a crianças não vacinadas como forma de pressão sobre os pais.
Já aqui falei destas questão e julgo que importa assistir pois com regularidade alguns pais expressam dúvidas sobre a vacinação face ao que vão lendo e ouvindo.
Temos que insistir na mensagem, vacinar ou não vacinar não pode ser uma opção, vacinar é uma obrigação em nome do bem-estar e da saúde, sobretudo dos mais novos.
Apesar de ainda não parecer algo de preocupante também em Portugal começa a emergir alguma discussão relativamente à vacinação.
Estima-se que mais de quatro mil crianças em Portugal não sejam anualmente vacinadas.
Como é sabido existe um Plano Nacional de Vacinação e Portugal tem, felizmente, uma taxa bastante elevada de vacinação nas crianças, cerca de 95%.
Noutros países e até com mais significado também se assiste à emergência de movimentos que levam a que muitos pais recusem vacinar os filhos e por cá também se ouvem opiniões nesse sentido e pais que não procedem à vacinação dos filhos como já foi referido. Alguns dos recentes casos de sarampo parecem atingir crianças não vacinadas.
Recordo que há algum tempo se verificou um surto de sarampo nos Estados Unidos com resultados preocupantes pois atingiu estados em que os pais podem recusar as vacinas.
Não sendo especialista, sei que as vacinas contêm alguns riscos que basicamente estarão controlados e sei também que existem interesses brutais em jogo, designadamente por parte das farmacêuticas e laboratórios. No entanto, parece-me que a vacinação representa um ganho civilizacional que poupa a morte a muitos milhares de crianças pelo mundo inteiro e quando reparamos na taxa de mortalidade infantil verificada em países que não conseguem assegurar campanhas de vacinação generalizadas percebemos isso com clareza. Os testemunhos de gente conhecedora, como Mário Cordeiro ou Gomes Pedro mostram isso mesmo.
Assim sendo, é sempre com alguma preocupação que em nome de valores, certamente legítimos mas que necessitam de ponderação, se possa decidir por comportamentos que manifestamente são causadores de riscos para as crianças.
Ainda no mesmo âmbito recordo também um movimento emergente que defende a realização de partos em casa que, evidentemente, tem merecido a condenação de enfermeiros e médicos devido aos elevados riscos envolvidos para bebés e mães. Também nesta matéria sabemos dos interesses económicos em jogo traduzidos, por exemplo, numa altíssima taxa de cesarianas que parece agora com tendência para baixar.
O povo costuma dizer que "com a saúde não se brinca". Não estamos a falar, obviamente, de brincadeiras mas estamos a falar de decisões que são de uma enorme responsabilidade e que podem levar como aconteceu, creio que em 2017, no Reino Unido que o Tribunal Superior de Justiça por iniciativa do pai das crianças obrigasse a mãe a aceitar que os filhos fossem vacinados.
Trata-se como sempre do superior interesse da criança. Importa que nós os que trabalhamos na área da educação ou da saúde tenhamos uma maior atenção a estas matérias.

sábado, 1 de setembro de 2018

BRINCAR É A ACTIVIDADE MAIS SÉRIA QUE AS CRIANÇAS REALIZAM. DE NOVO E SEMPRE

Nunca é demais chamar a atenção para o papel central do brincar na vida dos mais novos.
Em relatório recente, lê-se no Observador, a Academia Americana de Pediatria recomenda aos pediatras que na sua prática clínica prescrevam “tempo para brincar”, um bem de primeira necessidade para o bem-estar dos mais novos com impacto em diferentes dimensões.
Insistem que não se trata de uma ideia “frívola” e os actuais estilos de vida de muitas famílias, por diferentes razões, tornam ainda mais importante que se reafirme a importância de brincar. Felizmente, nos últimos tempos começam a ouvir-se muitas vozes nesse sentido. Os que por aqui vão passando reconhecerão a frequência com que aqui refiro esta questão. De novo algumas notas que certamente não serão as últimas.
Durante os últimos anos foi-se instalando a ideia que o brincar é supérfluo, é perda de tempo, o foco deve ser em trabalhar, em rendimento e resultados, em nome da competitividade e da produtividade, condição para a felicidade.
Com esta visão foram retirando aos miúdos o tempo e o espaço que nós tínhamos e empregam-nos horas sem fim nas fábricas de pessoas, escolas, chamam-lhes. Aí os miúdos trabalham a sério, a tempo inteiro, dizem, pois só assim serão grandes a sério, dizem também.
Às vezes, alguns miúdos ainda brincam de forma escondida, é que brincar passou a uma actividade quase clandestina que só pais ou professores “românticos”, “facilitistas”, “eduqueses” ou “incompetentes” acham importante.
Muitos outros miúdos vão para umas coisas a que chamam “tempos livres”, que de livres têm pouco, onde, frequentemente, se confunde brincar com entreter e, outras vezes, acontece a continuação do trabalho que se faz na fábrica de pessoas, a escola.
Também são encaixados em dezenas de actividades fantásticas, com nomes fantásticos, que promovem competências fantásticas e fazem um bem fantástico a tudo e mais alguma coisa.
O brincar da infância vai-se encurtando, algum dia os miúdos vão nascer crescidos para já não precisarem de brincar.
Era bom escutar os miúdos. Se lhes perguntarem (das diferentes formas de poder fazer perguntas) vão ficar a saber que brincar é a actividade mais séria que realizam, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que virão a ser e a saber.
No caso mais particular mas também essencial do brincar na rua sabemos que as questões da segurança e, sobretudo dos estilos de vida e a mudança verificada nos valores e nos equipamentos, brinquedos e actividades dos miúdos, o brincar na rua começa a ser raro.
Embora consciente das questões como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua, talvez com a supervisão de velhos que estão sozinhos as comunidades e as famílias conseguissem alguns tempos e formas de ter as crianças por algum tempo fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã.
No imperdível “O MUNDO, o mundo é a rua da tua infância”, Juan José Millás recorda-nos como a rua, a nossa rua foi o princípio do nosso mundo e nos marca. Quantas histórias e experiências muitos de nós carregam vindas do brincar e andar na rua e que contribuíram de formas diferentes para aquilo que somos e de que gostamos.
Como muitas vezes tenho escrito e afirmado, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a autonomia, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como fala Almada Negreiros. A brincadeira, a rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente, os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.
Curiosamente, se olharmos às nossas condições climatéricas, Portugal é um dos países com valores mais baixos no tempo dedicado a actividades de ar livre, situação com implicações menos positivas na qualidade de vida, nas suas várias dimensões, de miúdos e crescidos.
Talvez, devagarinho e com os riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por pouco tempo e não todos os dias.
É, pois, importante que todos os que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam como “guide line” para a sua intervenção a promoção do brincar.
Os mais novos vão gostar e faz-lhes bem.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

A MUDANÇA DA HORA. E A MUDANÇA DO TEMPO?

Ao que se lê, 80% dos cidadãos europeus e 85% dos portugueses que expressaram opinião entende que não se deve proceder à mudança de hora duas vezes por ano. Em consequência a Comissão Europeia irá propor formalmente que tal seja respeitado pelos estados membros
Terá sido a maior participação de sempre numa iniciativa desta natureza. Aguardo agora que se possa desencadear por pressão dos cidadãos uma iniciativa visando ouvir-nos sobre a mudança do Tempo.
Tenho para mim e quero acreditar que se se procedesse a um inquérito a grande maioria de nós estaria de acordo com uma mudança no Tempo.
O Tempo anda de chumbo. E não só na Europa.

UMA BOA NOTÍCIA


Em linha com o que se tem verificado desde o seu início, em 2014/2015, a oferta e a procura pelos Cursos Técnicos Superiores Profissionais tem vindo a aumentar significativamente. Em 14/15 começou com 395 alunos, em 15/16 já se inscreveram 6430, em 16/17 disparou para 11048 e em 17/18 estavam inscritos12771 alunos. Os dados disponíveis para o ano que agora se vai iniciar sugerem para além da subida das vagas disponíveis, cerca de 15000, um aumento de 15% na procura.
Os Cursos Técnicos Superiores Profissionais substituíram os cursos de especialização tecnológica, têm a duração de dois anos, não conferem grau académico e têm um modelo de natureza fortemente prática e próxima do contexto laboral das instituições. São exclusivamente disponibilizados no ensino politécnico.
Trata-se de uma notícia positiva.
No entanto, não podemos nem devemos esquecer a importância da qualificação de nível superior com acesso a grau e que a oferta de qualificação superior não deve estar exclusivamente subordinada ao mercado de trabalho, quer pela sua volatilidade, quer pelo papel de inovação e desenvolvimento que se espera do ensino superior universitário.
Muitas vezes afirmo que o abandono e insucesso escolar são, quase sempre, a primeira etapa da exclusão social.
Portugal, apesar da evolução registada, tem ainda níveis significativos de abandono escolar precoce, um número muito elevado de jovens que nem estudam, nem trabalham e uma taxa de licenciatura abaixo da média europeia e com dificuldade em cumprir os objectivos fixados nesta matéria no âmbito da UE para 2020.
A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro para muita gente ... é imprescindível.