terça-feira, 10 de Novembro de 2009

SEM FACES OCULTAS

A última legislatura na educação ficou marcada pela crispação e clima instalados nas escolas através da imposição de uma inaceitável e inadequada divisão dos professores e de um modelo de avaliação que tem tanto de imprescindível como de incompetente.
Neste contexto, como frequentemente tenho afirmado aqui no Atenta Inquietude, a mudança é não só necessária como urgente.
No entanto, mais do que discussões de natureza semântica em torno se deve suspender ou mudar, o que me parece fundamental é que se construa. Que se construa um modelo de carreira que discrimine positivamente o mérito e corrija ou elimine a falta de qualidade. Que se construa um modelo de avaliação ágil, pouco burocratizado e eficaz, existem exemplos e conhecimentos que o permitem.
Parece-me também importante que se assegure equidade para todos os professores face ao atribulado e desigual processo de avaliação que, no que já foi realizado, se desenvolveu de formas diferentes em diferentes escolas.
Finalmente, como sempre tenho afirmado, parece-me fundamental que todos os intervenientes neste processo agora em desenvolvimento, chamado negocial, negoceiem sem faces ocultas, ou seja, que façam um esforço para não envolverem a agenda político-partidária. Que se negoceie de acordo com um desígnio de qualidade nas escolas públicas, de pacificação das escolas e de promoção e protecção do mérito e da competência.

A HISTÓRIA DA CRIANÇA FECHADA

Um dia destes a professora Teresa, de Língua Portuguesa, entrou na biblioteca para deixar os livros que tinha estado a trabalhar nas aulas e encontrou o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros.
Olá Velho, tudo bem contigo e com os teus livros?
Tudo bem e tu Teresa, estás bem?
Sim, olha foi giro, os miúdos, de uma forma geral gostaram deste trabalho e motivaram-se com os livros, eles lêem muito pouco, é preciso insistir e tentar que leiam mais. Mas o Tiago não aderiu muito, não se envolveu e pouco colaborou. Não entendo porquê, ele é uma criança muito fechada.
O que é uma criança fechada?
Ora Velho, estás a brincar comigo? É uma criança que fala pouco, não se envolve com os colegas, nem connosco. Sempre muito no seu canto com um ar um pouco ausente e às vezes até parece triste.
Não estou a brincar Teresa. É verdade que as crianças não são todas iguais, mas sabes que muitas vezes falamos assim de algumas crianças, “é fechada” e isso, julgamos, explica o que lhe observamos. Mas a questão é o porquê dela ser “fechada”. Foi ela que se “fechou”? E fechou-se porquê? Não gostou e assustou-se com o que viu ou sentiu dentro dela? Ou não gostou e assustou-se com o que viu ou sentiu do lado de fora. E se não foi ela que se “fechou” mas foi “fechada”? Quem é que a fechou? E porquê? Estás a ver Teresa, dizemos com muita facilidade que o Tiago é uma criança fechada e continuamos a não saber nada dele. Não fica fácil ajudá-lo a “abrir-se”, a não ser “fechado”.
Velho, se calhar é preciso encontrar uma chave que sirva.
Agora estás tu a brincar, mas é mesmo isso, muitas vezes, se estivermos atentos, consegue-se perceber qual é a chave.
Estás sempre com essa ideia de estar atento.
Não conheço melhor forma de perceber o que se passa com os miúdos mas, para complicar, é difícil ensinar ou aprender a estar atento.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

NEM ÀS PAREDES CONFESSO

A Faculdade de Medicina do da Universidade do Porto vai levar a cabo um estudo sobre violência doméstica, designadamente avaliar o impacto sobre a saúde mental e física das vítimas. Através da acção dos médicos de família procurar-se-á saber conhecer o lado menos visível desse universo, o lado que não aparece no episódio de violência que acaba na urgência hospitalar. Como é conhecido de muitos outros estudos, os casos revelados de violência doméstica são apenas uma pequena parte do que se admite passar e que não afecta apenas as mulheres. Os responsáveis pelo estudo admitem naturalmente que o mesmo permitirá caracterizar melhor a realidade. Este melhor conhecimento da realidade possibilitará, creio eu, que se desenhem estratégias preventivas mais eficazes, designadamente no âmbito dos programas educativos e de comportamentos saudáveis junto de adolescentes e jovens.
Parece-me também de registar a intenção de desenvolver um estudo semelhante mas direccionado para a violência dirigida a crianças de cujos valores também apenas se admite conhecer uma pequena parte.
A grande questão é se se conseguirão criar as circunstâncias de protecção e acolhimento que coloquem as vítimas suficientemente confiantes e disponíveis para formalizarem e revelarem as situações, frequentemente, terríveis em que passam parte da sua vida.

EU SEI O CAMINHO

(Foto de Luís Sarment0)

Às vezes, por eu ser pequeno, pensam que não sei o caminho, mas sei. O que eu preciso é que me ajudem a fazê-lo, a levantar-me quando tropeço ou a subir algum degrau mais alto.

domingo, 8 de Novembro de 2009

NÃO COMPLIQUEM

O Público apresenta hoje um trabalho sobre o comportamento dos portugueses que me impressionou. Acho notável o esforço de teorizar sobre uma espécie de “depressão pós-eleitoral” que estará a afectar o bom povo português levando-o a debater pouco a crise. É certo que, felizmente, o psicólogo opinante ainda não vê necessidade de acompanhamento terapêutico. Se já somos um dos países com maior consumo de anti-depressivos, tratar este pessoal todo seria coisa séria. Um outro opinante entende que a percepção de que a crise é importada contribui para inibir o debate.
Com o maior respeito pelas opiniões dos especialistas inclino-me mais a pensar que a partidocracia instalada leva a que coisa política circule pelo interior dos aparelhos partidários e respectiva clientela. A comunicação social, na maior parte dos casos, reflecte e amplia as agendas políticas dos interesses partidários, basta ver o clube dos opinadores nos diversos órgãos de comunicação social, sempre os mesmos e com o mesmo discurso.
Este cenário tem levado a um progressivo desinteresse e desmotivação da participação cívica e envolvimento dos cidadãos o que se traduz, por exemplo, no aumento sistemático da abstenção.
Por isso, não compliquem, o povo está é cansado “destes gajos todos”, temos dificuldade em perceber um rumo e, sobretudo, em sentir confiança nos rumos que nos tentam vender.
Não é um problema da saúde mental dos portugueses, é um problema da saúde da democracia portuguesa.

O TEMPO DA AZEITONA

É tempo de apanhar a azeitona no meu Alentejo. O lagar da vila já abriu e agora toca a apanhar. O mestre Zé Marrafa foi adiantando serviço e já lá vão 962 kg. Este é um ano bom de azeite, compensa o do ano passado que não deu para entregar um quilo que fosse para produzir azeite. Assim, depois de ter colhido azeitona que chegue para pisar, retalhar e para conserva agora é para fazer azeite, do bom.
O velho Marrafa tem um entendimento que eu não me atrevo a discutir sobre a apanha da azeitona aqui no monte, simultaneamente procede-se à limpeza das oliveiras. De modo que me transformo num agricultor em apuros, estendem-se os panos, colhe-se a azeitona numa catártica actividade de varejamento, corta-se o que há a cortar nas árvores com a motosserra, ensaca-se e carrega-se no tractor. Depois lá vamos a caminho do lagar para a pesagem e entrega.
O tempo de espera no lagar passa-se nas lérias, hoje até apareceu um bagaço que aqueceu a espera. O tema grande das conversas era o enleio criado sobre a forma como a azeitona seria aceite. Primeiro, não poderia vir em sacas, mesmo sacas limpas e novas. Só a granel nos carros de caixa ou nos atrelados. O pessoal que se tinha preparado com sacas, como eu, protestava, um atrelado podia ter carregado estrume ou adubo e depois trazer azeitona sem problema, eu e os outros companheiros que usámos sacas novas não poderíamos entregar a azeitona. Devem ser as decisões de protecção à lavoura como diz o Dr. Portas, o Paulo.
Como o meu amigo Manel Ilhéu estava no lagar com a sua carrinha de caixa a desenrascar um amigo, já tinha combinado com ele que se não me aceitassem a azeitona sairia do lagar, despejava as sacas para a carrinha dele e voltava a entrar. Mas chegou o bom senso. O engenheiro responsável do lagar depois de consultas telefónicas repôs a possibilidade de entrega da azeitona em sacas desde que de ráfia. Acho bem e lá me safei.
De maneira que nem sei muito bem o que se passou no país e o corpo não se cala a pedir descanso.
Só lá para o fim de Janeiro, quando voltar ao lagar para buscar o azeite novo, com o ambiente quentinho das enormes salamandras que impede o azeite de coalhar e o cheirinho do azeite novo é que me vou esquecer das agruras da apanha da azeitona e que ainda não terminou.

sábado, 7 de Novembro de 2009

TODOS TÊM A PERDER MAS, SOBRETUDO, TODOS TÊM A GANHAR

Parece que finalmente o ME se dispõe a analisar a situação que a desastrada PEC Política Educativa em Curso do governo anterior criou. Um dos efeitos mais perversos que essa política implicou foi a instalação de uma opinião pública genericamente desfavorável aos professores, “mérito” da Ministra Lurdes Rodrigues que considerou ter “perdido os professores mas ganho a opinião pública”. Também entendo e já o disse que frequentemente os discursos dos representantes dos professores também contribuem para tal.
Neste quadro, creio que a discussão com o ME deve ser feita com especial atenção e com uma preocupação de clarificar e divulgar junto de pais e restante comunidade a justeza das inquietações e reivindicações dos professores. Nesta perspectiva e considerando que a divisão dos professores em titulares e outros, foi a mais incompetente e insustentável decisão em matéria de política educativa nos últimos anos, esta questão merece especial atenção e inegociável revisão.
Por experiência pessoal, tem-me acontecido que quando explico a pessoas que conheço e que criticam as posições dos professores, a forma e os critérios que estão por detrás da divisão, essas pessoas entendem e aceitam que está obviamente errado. A questão da avaliação é bem mais fácil de resolver, os professores, contrariamente ao que se instalou em parte da opinião pública intoxicada pela PEC querem ser avaliados.
Diria que a divisão da carreira é o pecado original e, também já o referi, estranhei desde o início a relativa tranquilidade com que o Estatuto foi aceite. Parece que só quando se começou a aplicar as pessoas se deram conta da gravidade do seu conteúdo.
Esperemos que haja a lucidez política e o entendimento ajustado de todos os actores envolvidos do quanto está em jogo, a qualidade da educação.

PISAR O RISCO

Quando era miúdo uma das expressões que mais me lembro de o meu pai utilizar era “pisar o risco”. Ele definia com alguma clareza quais eram os riscos que não deveriam ser pisados e com a mesma clareza e assertividade fazia-me perceber e sentir quando um qualquer daqueles riscos estava a ser pisado ou em vias disso. Creio que na generalidade das famílias isto acontecia com maior ou menor animação, por assim dizer.
Actualmente os discursos dos pais, e não só, em torno dos riscos mudaram, em algumas famílias significativamente.
Muitos pais, a grande maioria, vive a sua parentalidade de forma extremamente assustada com os riscos que entendem estar presentes na vida dos filhos. Na verdade, as circunstâncias e modelos de vida e valores actuais justificam parte substantiva destas preocupações pois crianças e adolescentes estão efectivamente expostos a diferentes situações de risco. No entanto, também me parece que se verifica uma hiper-valorização destes riscos que sustenta estilos educativos altamente protectores, pouco estimulantes da autonomia dos miúdos tornando-os, por isso, mais vulneráveis e incapazes de lidar com os próprios riscos que inquietam os pais.
Curiosamente, os pais que fazem um discurso de sobrevalorização dos riscos são também os pais que revelam uma preocupante dificuldade em estabelecer para e com os seus filhos quais os riscos que não se podem, não devem, pisar. Em muitos ambientes familiares os miúdos crescem sem uma definição clara e equilibrada de regras e limites que os ajudem a organizar e regular autonomamente o seu comportamento. Os miúdos precisam de conhecer de forma nítida e sem ambiguidades os riscos que não são para pisar e os pais devem gerir as situações em que “o risco é pisado” com flexibilidade e bom senso.
Quanto mais consistente e claro for este processo mais equipadas estarão as crianças e adolescentes para lidarem com os riscos que os espreitam.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

SÃO PRIORIDADES PÁ

Como é evidente, os problemas de rendimento da equipa de futebol do Sporting, a posição de Paulo Bento e a decisão da administração da SAD têm trazido o país em suspenso e fortemente inquieto. Hoje quase tudo se clarificou. Paulo Bento apresentou a demissão, a administração aceitou e a equipa de futebol começará a render mais, espera-se.
O Jornal Televisivo da RTP1 das 13, na primeira meia hora, dedicou a esmagadora maioria do tempo a esta notícia, incluindo largos minutos na abertura, sem nada de relevante a não ser a informação da saída do treinador e a cobertura em directo e creio que integral da conferência de imprensa. No fim do Jornal a notícia foi ainda retomada por mais algum tempo.
Entretanto, foram passando umas minudências informativas como o termo da discussão e aprovação do programa do governo, os desenvolvimentos da operação Face Oculta, a questão da gripe A, coisas insignificantes de política internacional, etc.
Já aqui tenho dito que sou adepto de futebol pelo que neste discurso não existe preconceito mas não consigo entender a gestão das prioridades informativas, sobretudo ao nível do chamado serviço público. Claro que entendo que se trata de uma notícia e que obviamente caberia no universo da informação desportiva. Mas ouvir durante tanto tempo como primeira notícia a saída de Paulo Bento, as opiniões de variadíssimas pessoas sobre a saída de Paulo Bento, a informação prestada pelo Paulo Bento de que só as “suas senhoras” é que sabiam da decisão, que pretende ser “motorista das filhas e levá-las à escola”, que não está interessado para já em voltar ao trabalho, desculpem, é demais. Como se poderia dizer há mais vida para além do Paulo Bento.

SÓ ESTOU BEM ONDE NÃO ESTOU

Em diferentes circunstâncias lembro-me de alguns dos trabalhos notáveis de António Variações, acho muitas das letras que cantava excelentes retratos de uma sociedade que perdura, no melhor e no pior.
Hoje, ouvi alguns relatos e experiências de vida de algumas crianças e adolescentes e do mal-estar em que vivem. Este mal-estar traz dores, umas vezes mais mansas outras mais ruidosas e lembrei-me de novo do António Variações. Dizia ele em “Estou além” que “Vou continuar a procurar a minha forma, o meu lugar porque até aqui só: estou bem onde não estou …”. Acho lindíssima e feliz esta formulação que espelha muito bem como muitos de nós, sobretudo miúdos a quem falta, por exemplo, um aconchego familiar, se sentem, perdidos e, portanto, à procura.
À procura de si, à procura de outros, à procura de caminhos, à procura de um porto de abrigo, no fundo, à procura do seu lugar.
Esta procura cumpre-se às vezes sem fim, outras com mau fim e a maioria com sucesso, ou seja, cada um vai encontrar o seu lugar.
Enquanto não, só se está bem onde não se está, pelo que nunca se está bem. E nota-se. Nota-se os miúdos que não estão bem, não estão bem na escola, não estão bem em casa, não estão bem consigo, não estão bem com os outros. Só estão bem onde não estão.
Como não acredito no destino, acredito que é possível ajudar os miúdos a procurar o seu lugar. Como sempre, é preciso estar atento. Às dores, mesmo as mansas.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

OS PROFESSORES SÃO MEUS. NÃO, SÃO MEUS.

O Público on-line apresenta um título que me parece extremamente elucidativo de um dos mais fortes constrangimentos existentes sobre a qualidade do sistema educativo português, a apropriação político-partidária dos problemas e das decisões. Diz então o jornal que “PSD e CDS disputam liderança na avaliação de professores”. De facto também me parece que esta questão, como muitas outras, se relativiza aos interesses partidários e não aos interesses de professores, pais e alunos. Nos últimos dias os discursos, ainda com o silêncio da Ministra, mostram interessantes pontes entre o militante do PCP Mário Nogueira e o PSD que assume um discurso extraordinário através de um dos maiores bluffs que perora sobre educação em Portugal, um tal Santana Castilho que com uma tribuna oferecida pelo Público se entretém a preencher a agenda política do PSD com um discurso neo-liberal, composto de meia dúzia de banalidades num estilo trauliteiro e agressivo que vende, mas não tem substância. O CDS também quer ganhar e alia-se ao discurso de Mário Nogueira. Neste cenário inscreve-se o PS que depois da arrogante e incompetente legislação sobre avaliação e Carreira se vê agora entalado no sentido de perder para os outros partidos o controle da situação tentará, naturalmente, ganhar os professores perdidos por Maria de Lurdes Rodrigues e o Bloco não querendo perder boleia, também quer liderar o descontentamento dos professores. É que são muitos como sabem.
Neste quadro, seria interessante tentar ouvir os professores, estou a falar dos professores mesmo, perceber o que se faz em muitíssimos países em matéria de avaliação e organização da carreira e com sentido político, um desígnio de bem comum, promover uma inadiável definição de um competente modelo de avaliação e uma organização justa da carreira dos professores que discriminem o mérito e promovam a qualidade.

A TROCA DE IDEIAS

A evolução dos modelos de organização social, económica e cultural das sociedades conduziu a um progressivo abandono da troca, substituindo-a pela compra e venda. A concepção romântica da troca de produtos, já não passa de isso mesmo, de romantismo, tudo se compra e vende. Não digo isto por entender que deveria ser de outra forma, não vislumbro que pudesse ser de outra forma.
Apenas lamento que até a troca de ideias tenha sido substituída pela venda das ideias. Já é difícil assistir a uma conversa entre pessoas que pensam e sabem alguma coisa do que estão falar sem que os intervenientes assumam a postura de quem está a vender as suas ideias e não, apenas a trocá-las com os outros parceiros. Os debates, jogam-se mais em torno das técnicas de marketing, de venda, das ideias que dos conteúdos das mesmas. Cada vez consigo menos participar numa tertúlia, mais formal ou mais informal, sobre um qualquer tema, mais denso ou mais ligeiro, em que os companheiros de conversa não tentem vender as suas ideias, obrigando-me a comprá-las. Quase sempre encontro pessoas pouco dispostos a trocar as suas ideias com as minhas, experimentá-las, apreciá-las e, se for caso disso, também as usarem ou eu achar que as ideias que me foram apresentadas, não impostas em agressivas e às vezes mal educadas técnicas de convencimento, são interessantes conjugando-as ou substituindo as minhas.
Nas discussões as frases já começam pouco com “que achas?”, “que te parece” ou outra fórmula qualquer que ajude a aceder ao pensamento do outro. Começamos cada vez mais as frases com “É assim”, “Não, isso está errado, deve ser assim” e outras alternativas que apenas servem para apresentar a definitiva e indiscutível ideia.
Este cenário, pouca troca e muita venda agressiva, numa terra de achistas e opinadores profissionais empobrece-nos a todos, menos a alguns iluminados, os que vendem as ideias.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

REFERENDAR DIREITOS?

Uma das expressões que integrou recentemente o léxico político português que me causa alguma estranheza, para não dizer, animosidade, é a conhecida “causa fracturante”. Não entendo muito bem. Uma ideia, uma proposta, uma opinião são por natureza fracturantes, ou seja, não são consensuais para toda a comunidade. Liberdade e democracia são isso mesmo. Só sociedades totalitárias não contemplam a ideia de diferença, de fractura
Vem esta introdução a propósito da intenção de legislar sobre o casamento homossexual que consta do programa do governo, uma ideia fracturante e que já Cavaco Silva considerou na anterior legislatura não ser oportuno enquadrar legalmente. O Presidente entende assim que os direitos das pessoas, que umas têm e outras não, são matéria de oportunidade e calendário.
O CDS-PP propõe um referendo sobre o casamento homossexual antes de uma iniciativa legislativa, posição também subscrita pelo Bispo do Porto que acha que esta questão deve ser objecto de grande debate “sem pressas”. A questão parece-me relativamente simples, se eu tenho o direito consignado de estabelecer um contrato civil, chamado casamento, com uma pessoa de outro género, por que não posso ter o mesmo direito face a uma pessoa do mesmo género? Trata-se uma questão básica de equidade de direitos.
Os direitos não se referendam. A recusa implícita ou habilidosa de direitos a um grupo de cidadãos, a comunidade homossexual neste caso, é que me parece verdadeiramente fracturante.

A HISTÓRIA DO BRINCALHÃO

Durante muitos anos fez parte do nosso grupo um companheiro chamado Brincalhão. Era um tipo fantástico, com ele presente não havia depressão que resistisse. Percebia quando alguém do grupo não estava bem e encontrava sempre a melhor forma de, sem se tornar excessivo, recompor o ânimo mais em baixo.
Disponível para quase tudo, as conversas com o Brincalhão não tinham fim, discutia tudo com um empenho convicto mas sempre com um inultrapassável sentido de humor que só por si justificava a discussão.
Devo confessar que tínhamos alguma inveja do sucesso do Brincalhão junto das miúdas que justificávamos dizendo-lhe que o sucesso advinha de ser um excelente palhaço e as miúdas gostarem do circo. A justificação não era muito boa nem muito inteligente, mas não nos ocorria outra e sempre tentávamos, sem o conseguirmos, proteger a nossa auto-estima porque as miúdas gostavam quase todas do Brincalhão.
Para a realização de qualquer tarefa era importante a colaboração do Brincalhão, ajudava a organizar as dúvidas, a escolher os caminhos e sempre nos ríamos imenso. Era um tipo com uma sensibilidade enorme às injustiças, tinha uma visão quase romântica do mundo e da revolução que se deveria fazer. Com o fino e inteligente humor que o caracterizava minava qualquer discurso mais conservador.
O cumprimento das estradas de cada um levou de mansinho à dispersão do grupo. O primeiro a afastar-se e para muito longe foi o Brincalhão.
Algum tempo depois percebemos todos que tínhamos perdido a pessoa mais séria que conhecíamos.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

QUE FAZER COM O MODELO?

Como era previsível aí está o primeiro grande teste parlamentar. Que fazer com a avaliação de professores? Dando como adquirido que a situação existente é insustentável e inaceitável, trata-se de perceber qual o caminho para a mudança. Um primeiro cenário, mais óbvio, mais pacífico, seria o estabelecimento de uma base de entendimento com algum ou alguns dos partidos da oposição, o CDS já manifestou essa disponibilidade que aliás lhe permite marcar o terreno de liderança de uma oposição responsável. Este cenário obrigaria, do meu ponto de vista, a que o PS se sujeitasse a engolir uma carrada de sapos, ou seja, depois de uma “guerra” instalada na rua e nas escolas, com uma teimosa e arrogante persistência num modelo que pela incompetência e burocracia estava condenado à nascença apesar de algumas modificações, depois de uma actuação crispada a cargo do pitbull Valter Lemos que lhe mereceu um prémio de uma nova Secretaria de Estado, viria ao Parlamento reconhecer que afinal o seu modelo não serve, tanta luta para nada, insustentável para o PS.
O segundo cenário, já anunciado por Jorge Lacão, mais aceitável do ponto de vista do PS, será insistir na ideia de que não se suspende o modelo, de que o que está a ser discutido é o modelo em vigor embora, com toda a disponibilidade, dirão, para afinar, melhorar o modelo. Este caminho tenta passar a ideia de que, por um lado o PS não abdica do modelo, e por outro lado, está interessado num “diálogo” que permita a sua melhoria. Veremos se alguém na oposição quer dar a mão ao PS nestes termos.
Temos ainda um terceiro cenário, o estabelecimento de uma coligação negativa, a oposição entender-se e derrotar a posição do governo. Tal hipótese representaria, creio, o risco de afastamento definitivo de uma hipótese de entendimentos parlamentares e, portanto, uma situação potencial de ingovernabilidade que me parece não interessar, de momento, a ninguém.
Qualquer destes cenários evidencia o que não deveria acontecer e prolongar-se. A educação, tal como outras áreas, deveria estar mais protegida dos interesses político-partidários, um dos seus maiores problemas.

UM RAPAZ CHAMADO SALTADOR

Era uma vez um rapaz chamado Saltador. Está mesmo a ver-se que com um nome destes se tratava de uma pessoa destinada a saltar. Pois foi essa a sua vida, sempre a saltar. Passado pouco tempo de nascer saltou da família pois era negligenciado e maltratado. Saltou para uma instituição onde saltava de técnico em técnico sem se fixar em nenhum e sem ninguém se fixar nele. Aliás, até saltou de instituição devido a problemas na primeira. Entretanto o Saltador foi entregue a uma família de acolhimento de onde saltou porque as coisas não correram muito bem. Voltou a uma instituição e entrou na escola. Sem estranheza, os problemas com o Saltador começaram a acontecer, diziam que o saltador era instável, não se ligava às pessoas, que não se concentrava nas tarefas escolares, enfim, sempre a saltar de um lado para o outro. Nessa escola foi saltando de turma e de professores até que, tinha que ser, saltou de escola e para onde foi tudo recomeçou.
Ao crescer saltou da instituição e foi para casa de uma irmã mais velha que se dispôs a recebê-lo. O Saltador foi-se aguentando na casa da irmã, saltou definitivamente na escola e passou a saltar de trabalho em trabalho sempre precário e sempre a acabar quando começava a saber o que fazer.
Como ninguém gosta de andar só o Saltador encontrou um grupo de gente, tão saltadora quanto ele, e começou uma vida de saltos no escuro. A adrenalina e a tentação do ter facilmente motivaram saltos cada vez maiores.
Um dia, algo correu tragicamente mal e o Saltador deu o último salto da sua curta estrada. Saltou para o outro lado da vida.
Reparem na quantidade de gente que leva a vida saltando, em sobressalto.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

AS MALEITAS DO ENSINO SUPERIOR

O ensino superior em Portugal é, como muitíssimas outras áreas, vítima de equívocos e de decisões políticas nem sempre claras. Uma das grandes dificuldades que enfrenta prende-se com a demissão de uma função reguladora da tutela que, sem ferir a autonomia universitária, deveria minimizar o completo enviesamento da oferta, pública e privada, que se verifica, Um país com a nossa dimensão são suporta tantos estabelecimentos de ensino superior, sobretudo, se atentarmos na qualidade. As regiões e autarquias reclamam ensino superior com a maior das ligeirezas.
Nesta matéria, a falta de qualidade, creio que o próximo trabalho de Avaliação e Acreditação mostrará isso mesmo. Este enviesamento alimenta a formação em áreas menos necessárias e não promove a formação em áreas carenciadas. Tal facto, conjugado com o baixo nível de desenvolvimento do país e com uma opinião publicada pouco cuidadosa na informação, leva a que se tenha instalado o equívoco dos licenciados a mais e destinados ao desemprego, quando continuamos a ser um dos países da UE com menos licenciados, já o disse aqui muitas vezes.
Esta rede e o actual modelo de financiamento leva ainda a que, como sublinhou o reitor da Univ. de Évora, a sustentabilidade económica esteja ameaçada, e não será só o caso desta Universidade.
Uma outra nota, agora sobre o processo de Bolonha que, do meu ponto de vista e já o tenho referido, tem na base um problema económico, ou seja, o financiamento público do ensino superior nos países aderentes e menos uma questão curricular e de mobilidade que se resolveria com alguma facilidade sem se ter alterado a estrutura académica dos cursos, se fosse verdadeiramente essa a questão, outro equívoco.
Neste quadro, seria necessária uma intervenção do Ministério corajosa, sólida e concertada com as instituições para que o modelo de organização, financiamento e avaliação do ensino superior público e privado fosse, como precisa, urgentemente reestruturado. Tal caminho, com algumas dores pelo meio, parece-me imprescindível.

O MEU FILHO PASSA NA TELEVISÃO

O JN apresenta um trabalho interessante sobre a participação de crianças em actividades artísticas, publicidade e televisivas. A lei em vigor obriga a que esta participação, para além da autorização dos pais, obtenha também autorização da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens. De acordo com a Comissão Nacional, verificaram-se 123 pedidos durante um ano passado o que representou um aumento face ao ano anterior.
Olhando apenas para a publicidade e novelas, parece claro que os 123 pedidos de autorização registados constituirão apenas uma pequena parte do número de crianças envolvidas naquelas actividades. Tal situação decorrerá do desconhecimento da lei ou do desrespeito da mesma. Não sendo de crer que os produtores desconheçam o quadro legal respeitante à sua área de trabalho, trata-se de desrespeito o que em Portugal também não parece surpreendente, estamos a falar de valores.
Ora é precisamente no quadro dos valores que se coloca a questão. Em primeiro lugar e desde logo pelo “estatuto social” da actividade. Como bem é referido na peça, o facto de uma criança trabalhar no campo ou no restaurante da família não é visto da mesma forma que uma participação regular na gravação de uma novela. Depois importa considerar a “auto-estima”, de que agora tanto se fala por boas e más razões, dos papás, que se revêem através dos filhos nos míticos “15 minutos de fama” referidos por Warhol. No imaginário de muita gente e na sociedade actual, a imagem, o estrelato, são entendidas como uma via excelente para o sucesso, seja lá o que for, tanto pode ser o Cristiano Ronaldo como a Luciana Abreu, somos um país de “artistas”. Finalmente e não menos importante, as questões económicas, os filhos, mudando as circunstâncias, podem sempre ser uma fonte de rendimento familiar extra.
Será certo que algumas crianças e adolescentes envolvidos nestas actividades não se queixarão, provavelmente, pelas razões acima expostas e porque, para alguns, o seu envolvimento pode ser uma forma de compensar uma escola percebida como uma via mais trabalhosa e menos compensadora de chegar ao futuro.
Como sempre digo, é preciso estar atento.

UM RAPAZ CHAMADO FUTURO

Era uma vez um rapaz chamado Futuro que não é um nome muito vulgar. Este rapaz teve sempre uma vida muito curiosa. Ainda não era nascido e os pais, como quase todos os pais, já imaginavam como ele iria ser, com quem se iria parecer, como iria ser a sua vida, etc.
E desde pequeno se relacionaram com ele na perspectiva do que o Futuro seria. Deveria comportar-se assim para que quando fosse crescido agisse de acordo com o que desejavam. Teria que estudar para ser o homem que eles gostavam que fosse. No fundo, deveria fazer sempre tudo muito bem para que fosse um Futuro perfeito.
Os pais sempre lhe foram indicando que caminho seguir, que coisas escolher, o que estudar, sempre com os olhos num Futuro que não queriam condicional. Escolhiam com quem ele se devia dar e até achavam que deveriam escolher quem deveria acompanhar o Futuro pela vida.
Um dia, para surpresa dos pais e pela primeira vez em toda a sua vida, o Futuro disse que não a mais uma determinação do que ele deveria ser. E disse que não de uma maneira tão forte e com uma tristeza tão ruidosa que os pais se assustaram e ficaram aflitos, muito aflitos.
Não foi fácil mas perceberam finalmente que já não poderiam mais ser pais do Futuro, tinham que ser pais no presente. Perceberam que era no presente que o Futuro precisava dos pais e que teria de ser ele, obviamente, a pensar no Futuro.

domingo, 1 de Novembro de 2009

A FEIRA DOS SANTOS

Deixando de lado esse cenário mal frequentado que é a nossa cena política, deixem que vos fale de um dos rituais familiares no meu Alentejo, a ida à Feira dos Santos, no Alvito,
Lá estive hoje. Fiquei um bocadinho decepcionado. A feira mudou de lugar, realiza-se agora no … claro, recinto da feira. Creio que para os feirantes será um melhor espaço de trabalho, embora, ao que ouvi a opinião não seja unânime, o meu amigo Carlos Arroz, aliás, o Mestre dos Presuntos, preferia a localização anterior, nas ruas da vila. Eu também, gostava de ver o largo da Pousada e o largo grande, bem como as ruas cheias de gente, sabia onde ia procurar o Velho de Montoito que trazia uns queijinhos e umas merendeiras de ovelha que nem vos conto, lamentavelmente, estava só a filha, o Velho queijeiro partiu. Sabia onde encontra a senhora que tinha sempre boas castanhas. Sabia onde encontrar uma gente simpática que vinha do Algarve com as amêndoas e os figos secos em vários tons. Sabia onde encontrar um velhote que me fornece as réstias de alhos para semear e o feijão para cozer no lume de chão quando chegar o frio. Sabia onde encontrar os chapéus de palha, gasto um por ano. E cumpria outra obrigação, o pecado anual contra o colesterol, um paio do cachaço, uma especialidade vendida pelo Mestre Arroz.
É certo que acabei por os encontrar, mas gostava mais da “velha” Feira dos Santos. Provavelmente, este é outro sinal de que o tempo me começa a pesar, o apego à tradição e uma desconfiança face às modernices.
À saída ainda encontrei o Ti António Pereira de Vila Nova que também vinha feirar. Deixámos combinada uma tarde de lérias lá no monte.
Apesar de tudo, para o ano, se cá estivermos, como diz o Mestre Zé Marrafa, lá voltarei à Feira dos Santos, no Alvito. Passem por lá.

HISTÓRIA DO BENEMÉRITO

Era uma vez um homem chamado Benemérito. Muita gente na terra onde o homem vivia gostava dele. Gosta-se sempre de um Benemérito como é fácil de perceber. Além de se chamar Benemérito o homem tinha uma história que traduzia uma dos grandes desígnios das pessoas daquela terra, nascer no nada e chegar a homem de muitas posses. De facto, o homem ao crescer e sentindo-se um empreendedor assumiu que sendo Benemérito teria de cumprir o destino e para isso precisava de fazer fortuna, só os Beneméritos com fortuna podem ser beneméritos. Percebendo que vivia numa terra de desperdícios começou a juntar aquilo que os outros deixavam de utilizar vendendo esse desperdício para que novas coisas fossem feitas a partir dos desperdícios.
A partir de certa altura, o Benemérito percebeu que havia muita gente naquela terra que a troco de umas ofertas lhe arranjava mais desperdício, lhe arranjava uns negócios especiais e uns esquemas assim mais esquisitos que lá naquela terra se usavam muito. E assim tudo correu bem, o Benemérito chegou à fortuna, os seus muitos “amigos”, gente importante, iam recebendo “prendas” cada vez mais valiosas pela colaboração nos “negócios” e o Benemérito podia finalmente cumprir o nome, ser benemérito.
Ajudava os mais pobres em alguma coisinha, contribuía para a cadeira de rodas da pessoa com deficiência, uns aquecedores para o lar dos velhos, deu uma ajuda para a compra da ambulância dos bombeiros lá terra, até dava uns almoços de vez em quando numa das suas muitas casas e, claro, não se esquecia do clube de futebol. O Benemérito preparava-se assim para chegar ao topo da carreira de um benemérito, o nome numa rua da terra.
De repente o mundo desabou, apareceram uns polícias com a Face Oculta e levaram o Benemérito preso por causa dos muitos negócios esquisitos em que se metia com a ajuda dos “amigos” que recebiam prendas.
O povo daquela terra ficou desolado e disse-o nas televisões e aos jornais que apareceram a saber dos pormenores. “Não está certo, uma pessoa tão boa e agora presa, dá tanta coisa. Tanta gente má por aí à solta e logo vieram prender o Benemérito”, “Só prendem pessoas boas”, “Quem é que vai ajudar a nossa terra agora?”
É assim o povo daquela terra, Portugal, amigo do seu amigo, na fortuna e na desgraça. Coitado do Benemérito.

sábado, 31 de Outubro de 2009

O PÂNTANO, D. SEBASTIÃO E O PARADOXO

Três notas emergentes da leitura apressada da imprensa de hoje.
Primeiro o pântano, o passado não nos leva a ter grande esperança excessiva na eficácia do combate à corrupção e na efectiva vontade política de que isso aconteça, lembrem-se da decisão política relativa às propostas do Eng. João Cravinho, no entanto, a Face Oculta, uma das muitas na sociedade portuguesa, tem o mérito de mostrar como a corrupção em Portugal se desenvolve à vara larga, como se diz na minha terra e sem segundas leituras. Se isto vai dar alguma coisa é outra história, faz parte do pântano.
No PSD começa à vista, porque em surdina já há muito que se tinha desencadeado, a contagem de espingardas. Parece que Passos Coelho, um nada que quer ser tudo, estará a assustar as elites que se voltam para o D. Sebastião, perdão para o Professor e conhecido entertainer político que dá pelo nome de Marcelo. O Professor que estará mais virado para salvar a pátria em Belém do que para salvar o PSD na Lapa, embora seja visto como um D. Sebastião, sentir-se-á mais provavelmente como Martim Moniz, isto é entalado. De facto, ter que liderar o saco de gatos em que se transformou o PSD deve ser obra e o Professor não é parvo, já por lá andou. Vamos a ver se resiste ao empurrão para a liderança do PSD.
O I noticia que existem cerca de 110 000 casas novas por vender e desocupadas, algumas há anos, e a degradarem-se a cada dia que passa. Por outro lado, existem milhares de famílias a precisar de uma casa decente. Tal paradoxo, fruto das erradas políticas de habitação e urbanismo que estrangularam o mercado de arrendamento de que se não vislumbra a reanimação, da crise financeira que restringe o acesso ao crédito das classes média e média baixa, as casas de preço mais elevado continuam a vender-se, da crise económica inibidora de investimentos nas famílias e de uma baixa diferenciação na oferta, casas recuperadas, casas pensadas para gente jovem ou sénior, etc., parece de difícil alteração. Creio que se tornaria necessário repensar todo o universo da habitação e as autarquias deveriam ter um papel fundamental nesta alteração, mas até tenho medo de falar nas autarquias, corro o risco de voltar ao pântano.

BOCAS DESENVOLVIDAS

Apesar de não estar particularmente atento e, portanto, não ter registado todo o anúncio, apanhei o essencial que me deixou pasmado. A Chicco, empresa fabricante de artigos para o mundo dos bebés e das crianças, apresentava uma chupeta que promove o desenvolvimento da boca, isso mesmo, o desenvolvimento da boca, seja lá isso o que for.
É evidente que tudo na nossa vida se constitui em alvo de mercado, para tudo consumimos qualquer coisa. Também é verdade que a publicidade é criativa, é manipuladora das nossas motivações, é sedutora indo de encontro aos nossos sonhos, é dissimulada na forma como nos cativa e induz no consumo de qualquer coisa, necessária ou não. E neste quadro a publicidade, os seus meios e discursos são de uma latitude sem limites, quase, não estou, como é óbvio, a falar dos limites legais.
Acho fantástica a ideia de uma chupeta que promove o desenvolvimento da boca, mas ainda não consegui perceber. Tenho que consultar uns amigos pediatras, mas estou a tentar imaginar bocas desenvolvidas, como serão? Como se terão desenvolvido as nossas bocas sem a chupeta Chicco? Bom, daqui uns anos sempre se poderá falar da primeira geração de bocas Chicco. Então, com um mundo de bocas desenvolvidas, estas tornar-se-ão mais valiosas. Acabaram-se as bocas sub-desenvolvidas, foleiras, anémicas, feias. Corram pais, adquiram a chupeta Chicco, cuidem do desenvolvimento das bocas dos vossos filhos, eles vão precisar de bocas desenvolvidas.
Só falta o remake do velho slogan “Palavras para quê, é uma boca Chicco”.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

A GENIALIDADE PÓS-MINISTERIAL

Peço desde já desculpa pela prosa deselegante, certamente ignorante e arrogante, que se segue mas a paciência é finita. Hoje revelou-se mais um caso do que chamo a síndrome de Genialidade Pós-ministerial, o afectado foi o Professor Ernâni Lopes, Ministro das Finanças e do Plano no IX Governo Constitucional e catedrático de economia. Vinha a caminho do meu Alentejo e pelo rádio do carro oiço uma notícia registando o lançamento do seu livro “Economia no futuro de Portugal” e são apresentados excertos de uma intervenção do autor arrasando as políticas sectoriais seguidas em Portugal, traçando um quadro negríssimo da situação e pouco animador para o futuro.
Devo confessar que ando um pouco baralhado, por educação e cultura habituei-me a considerar que os especialistas de uma determinada área sabem sobre essa área. A imprevista crise económica, a falência dos modelos que têm vindo a ser seguidos em termos económico-financeiros abalaram a minha confiança nos especialistas em economia e finanças mas também não sei em quem confiar. Será que é de confiar o futuro da economia aos economistas?
Voltando a apresentação do livro, o repórter de serviço enuncia o que o Senhor Professor prescreve como necessário para o futuro. É extraordinário esta síndrome de Genialidade Pós-Ministerial, uma pessoa foi ministro de uma determinada área, deu o seu contributo para a situação que atravessamos, a história não se apaga, deixa as funções ministeriais e então sabe sempre, sem sombra de dúvida, o que deve ser feito. Reparem na quantidade de ex-ministros afectados por este quadro clínico.
Em síntese e de acordo com a notícia, o Professor Ernâni Lopes defende a necessidade golbal de aumento do PIB e mais particularmentes de aumentar a produtividade, reduzir o défice, aumentar as exportações, foi dito assim. Devo dizer que fiquei espantado com a análise, o seu carácter inovador e inesperado.
Talvez a notícia não tenha sido bem construída e como não li o livro o Professor tenha mais do que isto a sugerir. Mas lá que me irrita, irrita.

A MORTE VENDE, O PUDOR E A ÉTICA NÃO

Ontem no Telejornal das 20h a RTP1, como todas as outras estações seguramente, dedicou um tempo significativo à tragédia da morte de uma criança atingida pelo vírus da gripe A. Até aqui nada de estranho, a tragédia é notícia. O que me deixou profundamente incomodado e perplexo foram alguns dos conteúdos apresentados. A jornalista entendeu por bem entrevistar crianças de 10 anos colegas do Adriano, a criança que faleceu, sobre a gripe A, sobre o Adriano e sobre as decisões dos respectivos pais sobre a sua vinda, ou não, para a escola o que resultou numa cena inconcebível. Mas cabe na cabeça de alguém, entrevistar crianças de 10 anos sobre a morte de um colega e sobre como lidar com a gripe A na mesma altura?
A jornalista resolve também registar as opiniões dos pais presentes que de forma mais desinformada e histérica uns, mais ponderados outros, peroravam sobre se a escola deveria estar aberta ou fechada com discursos de impressão e não de informação. A jornalista poderia perceber que neste tipo de situações, mais ruído e confusão só aumentam a ansiedade e angústia e não se promove informação e serenidade. Parece natural que oiça pais, a direcção da escola e, obviamente, os especialistas mas o objectivo é informar e serenar não amplificar a angústia e falta de informação.
Sabe-se que a morte vende mas o pudor, a ética e a inteligência deveriam estabelecer alguns limites.

O MIÚDO QUE GOSTAVA DO CASTIGO

Um dia destes a professora Paula entrou na biblioteca para apanhar uns livros com que preparar as aulas e encontrou o Professor Velho, o que já não dá aulas, está na biblioteca e fala com os livros.
Olá Paula, tudo bem contigo?
Tudo bem Velho, de volta da preparação das aulas. Dizem que a gente trabalha pouco mas nem sabem o que a gente faz.
Sempre assim foi. Mas como é óbvio também acham que a escola é fundamental para os miúdos e somo nós que fazemos a escola, ou seja, dizem mal de nós e entregam-nos os filhos, ou não gostam dos filhos ou, no fundo, sabem que não somos maus, só uns pouquinhos que também nos fazem mal a nós.
Tens razão Velho. Já que te encontro pergunto-te o que achas desta situação. Julgo que sabes, decidimos que aos alunos que se portarem mal damos um castigo, ficam mais tempo na escola acompanhados de um professor. No outro dia fiquei com o Filipe, tu conheces o Filipe, porque se portou mal e foi castigado. Passados alguns dias, ao intervalo, perguntou-me se podia ir para o castigo. Eu não respondi, achei que ele estava a gozar e fiquei a pensar sem entender muito bem. Que achas Velho?
Que sabes da vida do Filipe?
É complicada, a mãe nunca está em casa e o pai só lhe liga quando lhe bate. Os irmãos, são mais velhos, não se dão muito com ele e passa o tempo só.
Que fizeste com ele no castigo?
Fez o TPC, como não era muita coisa e eu tinha algum tempo ficámos de conversa um bom bocado.
E não estás a perceber porque é que ele te pergunta se pode ir para o castigo?
Claro Velho, conversar, como é que não percebi logo.
Sabes o que é mais curioso e estranho nesta situação? É dar-se como castigo a um miúdo algo de que ele precisa para ser gente.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

A NORMALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA

O bullying em contexto escolar é tão antigo quanto a instituição escolar, sendo certo, no entanto, que a designação é recente e o estudo do fenómeno também. Actualmente, é também mais objecto de referências fora dos contextos educativos pois o volume e a gravidade de algumas situações, bem como a divulgação dos estudos e alguma mediatização verificada, colocaram este problema na agenda.
Em mais um estudo constata-se que os adolescentes tendem encarar a violência entre si como normal. Creio que é inquietante mas não pode ser surpreendente. A escola, desde sempre, espelha as realidades sociais e o quadro de valores prevalecente nos contextos que serve. A sociedade da informação e os sistemas de valores actuais banalizaram a violência, não são os adolescentes que a banalizaram. A violência é objecto de jogos de vídeo e computadores, é passatempo de claques e grupos, entra a qualquer hora pelas nossas casas dentro. Estarão eventualmente recordados de que num estudo recente entre jovens namorados alunos do ensino superior se constatou, ao que parece com surpresa, um nível altíssimo de violência na relação.
Por outro lado, a escola, por ser o espaço onde os adolescentes passam a maior parte do seu tempo é, naturalmente, o espaço onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que os alunos carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola.
Apesar disso, creio que na escola, para além de muitíssimos outros aspectos, a violência entre jovens é um fenómeno complexo, existem duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos alunos vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações. Os directores de turma, figura central nas escolas mas com um papel muitas vezes negligenciado, teriam aqui um trabalho fundamental, podem definir-se canais e dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa e ainda detectar junto dos seus alunos sinais que indiciem vitimização. Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada ao agressor. As escolas podem assumir atitudes, discursos e montar dispositivos que, visivelmente, dêem aos alunos um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.
A violência e o bullying entre adolescentes em contextos escolares não serão, provavelmente, eliminados, mas poderão, acredito, ser minimizados, mas não só pela actuação da escola.

AS FACES OCULTAS

Durante muito tempo a referência à face oculta remetia para o mistério poético que se esconderia no lado não visível da lua.
Sinais dos tempos, a face oculta deslocou-se para a terra e, naturalmente, também para a nossa. Temos vindo a transformar-nos num país de faces ocultas.
Ocultam-se os dados reais sobre problemas e dificuldades, pobreza e desemprego por exemplo, de modo a criar uma ilusória realidade mais simpática.
É conhecido o nível altíssimo, embora oculto, de corrupção e fraude em vários patamares e áreas de funcionamento da nossa sociedade. Temos bons exemplos no âmbito autárquico e no mundo económico com a operação em curso, envolvendo altos quadros empresariais e o que se passou recentemente na banca.
Temos uma face oculta na justiça, hoje o I noticia que reputados penalistas arrasam a condenação de Isaltino Morais, pensei que afinal o homem estaria inocente mas não, os reputados penalistas, certamente pagos à altura da sua reputação, apenas tentam provar que os crimes já prescreveram e que se registaram erros processuais. Do meu ponto de vista, estas frequentes práticas mostram uma das faces ocultas da justiça, a manhosice acessível a quem tem dinheiro para a pagar.
Não têm faltado também faces ocultas na nossa vida política, o domínio dos aparelhos e a compra das consciências e dos apoios. Como entender que a mesma pessoa, Santos Silva, possa ocupar quatro pastas ministeriais? Certamente não será por competência técnica, ninguém sabe tanto de áreas tão próximas como defesa e educação. Na mesma linha, só na face oculta da vida política se perceberá como um incompetente Secretário de Estado na Educação, Valter Lemos, área de onde até provinha profissionalmente, transite para Secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional.
Urge a reconstrução de uma ideia de cidadania que combata, denunciando e resistindo, as faces ocultas deste mundo, o nosso.

O PRINCÍPIO DE AVOGADRO

É um título um pouco estranho neste blogue mas faz parte de uma história pessoal que não resisto a partilhar convosco, cerca de quarenta anos depois da sua ocorrência.
Não é assim coisa de que me orgulhe mas a minha carreira de estudante foi mais iluminada pelo mau comportamento do que pelo excelência dos resultados escolares. Em certo ano, lá pelo sexto ou sétimo do liceu, ao deambular pelo livros de físico-química, a ganhar balanço e vontade para estudar, dou de caras no fim do livro com uma nota curricular do físico italiano Avogadro que incluía um selo italiano comemorativo que continha o enunciado do seu princípio, matéria que fazia parte do programa. Vislumbrei naquele selo uma janela de oportunidade, como agora se diria, e dei-me ao trabalho de, com uma lupa, ler e fixar o Princípio de Avogadro em italiano.
Como a sorte protege os audazes, a oportunidade surgiu e em grande. Na aula de Física a Setôra Trincão, como ainda hoje me sinto embaraçado do meu comportamento nestas aulas, chamou-me ao quadro, as famosas chamadas orais. E estou a ver ainda a cena ao pormenor. Eu junto ao quadro e a Setôra a levantar-se da secretária enquanto me perguntava, adivinhem … isso mesmo, o Princípio de Avogadro, sem a menor convicção no meu conhecimento, como era hábito.
E eu com uma segurança e um domínio total da adrenalina surpreendo o mundo com o Princípio de Avogadro expresso num perfeito (quase) italiano. A Setôra nem chegou a acabar de se levantar, sentou-se com uma cara de espanto que ainda retenho e a turma reconheceu a minha actuação com um estrondoso aplauso, o primeiro e último que recebi por desempenho escolar em rapaz.
Donde se prova e recordo-o de vez em quando, que até um indisciplinado aluno é capaz de aprender. De tal maneira que ainda hoje sei o Princípio de Avogadro, “Volumi eguali di gas nelle stesse condizione di pressione e di temperatura contengono lo stesso numero de molecule”.
Desculpe Setôra Trincão, lá onde quer que esteja.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

VELHOS SÃO OS TRAPOS

Manda a agenda das consciências que hoje pensemos na Terceira Idade. Com a simpática e generosa ideia de aliviar a sensação de chegar a velho, é frequente utilizar a expressão “velhos são os trapos” não as pessoas. Era interessante que assim fosse mas não, as pessoas ficam velhas, matéria a que sou cada vez mais sensível vá lá saber-se porquê, e por vezes não é fácil. Pode ser bonito ser velho mas para muitos velhos, seniores, idosos, gente de terceira idade, o que quiserem, a velhice pode ser um pesadelo. Pensões e reformas baixíssimas que produzem situações de fome ainda ontem denunciadas pela DECO, abandono e isolamento pelas família ou por ausência de família, maus-tratos e exploração no interior das famílias ou em “lares”, um eufemismo para instituições, algumas, em que as pessoas estão emprateleiradas e entregues à espera do nada, cuidados de saúde inacessíveis e demorados, são apenas alguns dos problemas que podem esperar a terceira idade, os velhos como eu prefiro. Mas este quadro não tem que ser uma fatalidade, depende da comunidade e das políticas que não seja esta a realidade que espera muitos de nós.
Mas como nem tudo tem que ser negro, gostava de vos recordar um texto, "O Brinquedo preferido”, uma história com velho dentro que em tempos deixei aqui no Atenta Inquietude.

De há uns tempos para cá apareceu uma moda naquela terra que “impede”as pessoas de falarem em brincar nas escolas da terra, é proibido brincar nas escolas. A moda foi fabricada por uma gente ignorante de miúdos, obcecada com trabalho e produtividade, mesmo infantil, uns infelizes neo-liberais. Mas ainda existem uns professores, muitos, naquela terra que não se deixam enganar, sabem ler os miúdos e percebem que eles aprendem porque também brincam e brincam porque também aprendem. Aliás, brincar e aprender são as coisas mais sérias que os miúdos fazem, sorte a deles, a de alguns.
Um dia, um desses professores lembrou-se, que sacrilégio, de dizer aos seus alunos para trazerem para a escola o seu brinquedo preferido. A Maria trouxe uma boneca. O João apareceu com a playstation nova. A Sara vinha vaidosa com umas bonecas que o pai tinha trazido do estrangeiro. A Irina trazia o Noddy. O Carlos vinha com uns olhos quase tão grandes como a bola de futebol que trazia debaixo do braço. O David, sempre pronto para as lutas, trazia uns bonecos lutadores de wrestling. A Joana não ligava a ninguém com o seu mp3 cheio das músicas de que gosta. Enfim, por um dia, toda gente veio para a escola com um brinquedo, o seu preferido. O último a chegar foi o Manel.
Feliz e sorridente entrou na sala de aula com o avô pela mão.

A URGÊNCIA DE UM MODELO

Como seria de esperar face ao passado recente a avaliação de professores será o primeiro grande teste a um governo de minoria que precisa de entendimentos parlamentares. Claro que a questão da avaliação não pode ser desligada do Estatuto de Carreira, sobretudo no que toca à disparatada divisão entre titulares e outros. Neste quadro os actores envolvidos, partidos, governo, sindicatos, etc., ocupam os respectivos lugares na grelha de partida procurando a melhor posição possível no sentido de capitalizarem os resultados sejam eles quais forem, “é a política estúpido”. Sendo evidente o mau resultado da política seguida torna-se portanto necessária a alteração.
O que me parece de sublinhar é imprescindível e urgente necessidade de um entendimento breve nesta matéria. O prolongamento da discussão mantendo-a envolvida nos interesses político-partidários, conjugado com o que já se passou até aqui, tem como consequência dois aspectos que merecem atenção.
Em primeiro lugar e mais evidente, o arrastar do clima de crispação e diferentes entendimentos por parte de escolas e professores e a ausência de uma forma consistente de avaliar os docentes que se constitui como uma ferramenta indispensável à qualidade do sistema educativo.
Em segundo lugar e raramente abordado é o impacto que este clima tem na opinião pública que, fruto do passado recente e independentemente das responsabilidades, toca a todos, construiu uma imagem pouco favorável à classe docente. Ora se existe dimensão imprescindível é a confiança e imagem positiva da população dirigida a quem educa os s seus filhos, a quem é responsável pela construção do futuro.
Não é possível prolongar por muito mais tempo esta situação. Recordo-me da mítica expressão, própria do meu Alentejo, patente na Barragem do Alqueva, “Construam o modelo porra”.

A HISTÓRIA DO CROMO

Era uma vez um homem chamado Cromo. Nome estranho este, parecia indiciador de um destino que o homem quis cumprir. Desde pequeno, logo na escola tentou destacar-se em alguma actividade sem resultados significativos. Aliás saiu cedo da escola e sem grande brilho. Os colegas achavam que o Cromo tinha algum jeito para o futebol a que se dedicava de alma e coração com aqueles sonhos que povoam a cabeça de todos os miúdos, jogar num estádio cheio e aparecer na capa de um jornal desportivo.
Com os sonhos na mochila foi percorrendo os vários escalões na equipa lá da sua terra.
Um dia teve sorte, até os Cromos precisam de sorte que, como sabem, é um bem escasso e um olheiro, uma daquelas pessoas que ao serviço de clubes maiores andam a observar jogadores, reparou nele. Entre parêntesis, devo dizer que acho olheiro um nome bonito, alguém que olha para querer ver. Como ia dizendo, o Cromo recebeu um convite para ir fazer uns treinos num clube daqueles que disputam o campeonato mais importante.
Na noite anterior ao primeiro treino o Cromo nem dormiu, chegou nervoso como nunca se tinha sentido, mas com a ajuda dos companheiros a coisa correu bem e assinou um contrato de profissional.
Ficou algum tempo nesse clube com uma carreira modesta, sem brilho particular e sem ser capa de jornal. O Cromo era um daqueles jogadores discretos diluídos na equipa. Acabou por sair e terminar onde tinha começado, no clube da sua terra.
Apesar de tudo o Cromo cumpriu o seu destino. Ocupa um lugar na página 16 de uma caderneta de cromos que o seu filho tem sempre aberta e que passa o tempo a mostrar aos amigos com um brilho enorme nuns olhos grandes, “Este Cromo é o meu pai”.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

NÃO É VERDADE, NÃO EXISTE FOME EM PORTUGAL

Parece estranho, fome em Portugal, deve ser engano, nós jogamos no clube dos ricos, estamos na União Europeia e na OCDE. Fazemos montes de auto-estradas e rotundas em tudo quanto é cruzamento. Temos estádios de futebol às moscas e a custarem milhares de euros mensais em manutenção. Queremos um TGV para andar mais depressa cá dentro e para a Europa. Não podemos perder o comboio do progresso, Temos telemóveis a dar com um pau. Temos níveis de desperdício que são impensáveis. Claro que também temos pobres. Na verdade todos os países têm pobres, até teremos mais que os 18% oficiais como bem lembrava quem conhece o mundo, o Dr. Fernando Nobre, da AMI. Mas aos pobres já estamos habituados, aliás se assim não fosse o país tentaria atenuar o fosso que existe entre os afortunados e os descamisados. Bom, mas fome é algo para que não estamos preparados. Isso é coisa lá mais para os países africanos, coitados que sofrem tanto e que quando vemos aquelas misérias nos telejornais à hora do jantar até ficamos embaraçados. A culpa é dos governos desses países que não ligam ao povo e às suas necessidades.
Não, deve haver engano, a DECO deve ter-se equivocado, não pode ser. Afirmam que existem velhos sem dinheiro para comprar alimentos. Enganaram-se. Em Portugal não existem pessoas a passar fome. Portugal é um país decente, de gente boa e preocupada com o seu semelhante. Ainda por cima os mais velhos, gente que passou uma vida a trabalhar e agora como prémio teriam a fome.
Não, não é verdade, não há fome em Portugal. Digo eu para ver se logo consigo dormir.

CONFLITOS

Um interessante estudo da consultora Convirgente conclui que em Portugal as empresas perderão cerca de mil milhões de euros por ano devido a conflitos resultantes das relações interpessoais. Alguns empresários julgam que os números pecarão por defeito.
Os portugueses gastarão cerca de 1,58 h por semana a ouvir desabafos dos colegas, a discutir e a servir de mediadores em conflitos. Os conflitos resultam sobretudo de “choque de personalidades” e de “choque de valores”. O “desperdício” de tempo em conflito não é tão elevado como noutros países e os portugueses também abandonam menos as empresas por este motivo verificando-se também menos despedimentos que em outras paragens.
Parece assim claro que, neste aspecto, os nossos brandos costumes ainda prevalecem, o paradigma de que “gostamos de nos dar bem com toda a gente” ainda pesa. Por outro lado, no âmbito da sociedade portuguesa parece evidente a emergência de uma dimensão de conflitualidade e crispação em parte resultante da actuação das próprias lideranças em vários sectores da nossa sociedade, políticos, empresariais ou desportivos, por exemplo. Se atentarmos no que foram as últimas campanhas eleitorais isto parece evidente. Um outro interessante exemplo do nível de crispação, a que um dia destes aqui voltarei, é a natureza dos comentários on-line nos diferentes órgãos de comunicação que ao abrigo, ou não, do anonimato, são de um nível tão baixo, agressivo e insultuoso que até embaraça uma alma que tem pouco de impressionável como a minha.
Como também a peça refere e é sabido nas ciências sociais, o conflito interpessoal não é necessariamente negativo e com maus efeitos. Mais uma vez depende da maturidade e em muitos aspectos da qualidade das lideranças, em todas as instituições e em todos os patamares ou dimensões.

A HISTÓRIA DO RAPAZ IMPERTINENTE

O Manel é um rapaz muito impertinente, diz coisas que as pessoas acham muito desagradáveis e antipáticas.
Então Manel, já sabes o que queres ser quando fores grande?
Já, quero ser uma pessoa que não faça aos miúdos perguntas chatas que não servem para nada.
Sabes Manel, não podemos ser assim, temos que ser amigos uns dos outros.
Não. Sei que preciso de ter amigos e quero ter amigos, mas não quero ser amigo de toda a gente, há gente má.
Olha Manel, não te podes esquecer, é preciso aprender as coisas todas da escola para ficares um homem bom.
Não me parece. Há homens bons que não aprenderam as coisas todas da escola, o avô António, por exemplo, e há homens que aprenderam as coisas todas da escola e não prestam.
Não sejas mal-educado, temos que gostar das pessoas da nossa família.
Não é assim, nós gostamos das pessoas que gostam de nós e são boas para a gente e há pessoas da nossa família que não são boas para nós, nem gostam da gente.
Manel, se estudares como deve ser e te portares sempre bem vais ser como o tio Francisco.
Mas eu não quero ser como o tio Francisco, só quero ser como eu.
E é sempre assim o Manel, não há volta a dar. É mesmo impertinente.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

OS ESPAÇOS DE LIBERDADE ONDE SE FECHAM OS MIÚDOS

Quando se abordam os estilos educativos actuais, é frequente afirmar-se, do meu ponto de vista com alguma ligeireza e erro de apreciação, que os pais tendem a desinteressar-se e negligenciar a educação dos seus filhos entregando à escola essa função. Como sempre digo, existem pais negligentes, mas existe, sobretudo, um estilo de vida e padrões de valores que condicionam fortemente o exercício da parentalidade. Em consequência disso aparecem iniciativas como a “Escola a tempo inteiro” que indo ao encontro de um problema social sério, a guarda dos filhos, promove a presença dos miúdos na escola por vezes até às 12 horas diárias o que, apesar de algumas excelentes experiências neste âmbito, levanta um sério risco de intoxicação escolar para muitas crianças.
Por outro lado, também sinais dos tempos, tem vindo a emergir um mercado de oferta para crianças, logo de bebés, e pais que se propõe ocupar o já pouco tempo em que estão juntos. Esta oferta não pára de crescer e é de uma diversificação que me deixa perplexo. Temos as oficinas, os ateliers, os playcenters, os workshops, os espaços lúdicos, etc. destinados à música, do jazz à clássica, à dança ou à literatura, contos e histórias, às actividades expressivas, plásticas ou artísticas, a designação também varia, em toda a sua gama e diversidade. Temos a filosofia para crianças destinada eventualmente aos mais reflexivos. Temos as actividades desportivas, várias modalidades, e de ar livre em diferentes versões e natureza, quintas pedagógicas, contacto com animais e espaços de aventura, por exemplo. Enfim, uma oferta em desenvolvimento e para todas as bolsas.
É claro que a realização de todas, mesmo todas, estas actividades são imprescindíveis aos miúdos pois promovem níveis fantásticos de desenvolvimento intelectual e da linguagem, desenvolvimento motor, maturidade emocional, criatividade, interacção social, autonomia e certamente mais alguns aspectos de que agora não me lembro.
Os pais, alguns pais, seduzidos pela sofisticação desta oferta e com a culpa que carregam, deixam-se fechar com os seus filhos ou deixam que os seus filhos sejam fechados dentro destes “espaços de liberdade”, comprando, assim, mais um serviço educativo.
Não esqueço que em todos estas iniciativas alguma coisa pode acontecer de interessante para as crianças e para os pais e também não duvido da seriedade dos responsáveis, mas continuo convencido que a melhor utilização que pais e filhos podem dar ao (pouco) tempo livre que têm em conjunto, é … claro, conversar e brincar livremente em conjunto.

A MUDANÇA

Mudar de opinião ou constatar que uma decisão tomada pode ser errada é uma prova de inteligência e maturidade. Mesmo quando as opiniões e decisões parecem bem fundamentadas, podemos sempre admitir que não terão sido a melhor escolha. Insistir teimosamente em algo que se verifica errado é um comportamento de fraqueza e algo de insustentável. Esta introdução deriva do comportamento político da equipa do ME, fundamentalmente a propósito do Estatuto da Carreira Docente, divisão dos docentes em dois grupos, e o famoso modelo de avaliação. As duas peças enfermavam de erros estruturais insustentáveis e desencadearam o maior e mais consensual movimento de protesto entre os professores das últimas décadas. É verdade que tudo isto se contaminou com a luta político-partidária e que mesmo a actuação e discursos dos representantes dos professores foram, frequentemente e do meu ponto de vista, também parte do problema. No entanto, escudados numa incompetente e teimosa arrogância decorrente da maioria absoluta, a PEC – Política Educativa em Curso foi fazendo o seu caminho.
Hoje, dia em que o novo governo toma posse, alguma imprensa refere que o líder da bancada parlamentar do PS, Francisco Assis, entende como prioridade a mudança do sistema de avaliação dos docentes, que augura fácil o consenso pois todos os partidos têm uma posição contra o actual e alguns já elaboraram propostas legislativas.
Ainda bem que se procura mudar o que não está bem, prova de inteligência, mas porque não aconteceu esta mudança logo que se percebeu a incorrecção do modelo proposto? Porque se envolveu o governo com o apoio do grupo parlamentar, que agora muda de opinião, em sucessivas (simplex)ificações que não melhoraram coisa nenhuma? Não era já claro que aquele modelo de avaliação não fazia sentido? É, portanto, legítimo colocar a questão se caso a maioria absoluta se mantivesse, o grupo parlamentar também promoveria a mudança.
O resultado foi o clima instalado nas escolas, a crispação entre professores e administração e uma opinião pública dividida e com a confiança abalada no sistema educativo.
Não são efeitos tangíveis mas são certamente efeitos negativos.

AS LITROSAS DOS ADOLESCENTES

De acordo com um Relatório elaborado pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência, a apresentar na Comissão Permanente de Saúde da AR logo que constituída, está a verificar-se um decréscimo do consumo de droga por parte dos jovens portugueses embora se verifique o aumento do consumo de álcool. Este padrão de comportamentos no consumo tem vindo a ser evidenciado por diferentes estudos sobre os hábitos dos adolescentes e jovens portugueses.
Neste quadro merece reflexão um trabalho este Domingo apresentado pelo DN sobre o consumo de álcool por parte de adolescentes.
Uma primeira nota é o facto de os adolescentes, vários afirmaram-no na peça jornalística, comprarem cerveja e outras bebidas, as litrosas, no comércio mais habitual, lojas de conveniência ou pequenos estabelecimentos de bairro, a um preço bem mais acessível que nos estabelecimentos que frequentam na noite e recorrendo à “toma” simples ou com misturas ao longo da noite, comprida aliás. Esta venda processa-se com a maior das facilidades e sem qualquer controlo da idade dos compradores. Vários adolescentes ouvidos referiram a ausência de regulação dos pais sobre os gastos, sobre os consumos ou sobre as horas de entrada em casa, que muitas vezes tem que ser discreta e directa ao quarto devido ao “mau estado” do protagonista.
Como é evidente, já muitas vezes aqui o tenho referido com base na minha experiência de contacto com pais de adolescentes, não estamos a falar de pais negligentes. Pode haver alguma negligência mas, na maioria dos casos, trata-se de pais, que sabem o que se passa, “apenas fingem” não perceber desejando que o tempo “cure” porque se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e como lidar com a questão. De fora parece fácil produzir discursos sobre soluções, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é muitas vezes sentida como maior que eles.
É preciso que a comunidade esteja atenta a estes adolescentes de 13 ou 14 anos que, ilegalmente” compram as litrosas e aos seus pais que estão tão perdidos quanto eles.

domingo, 25 de Outubro de 2009

O MUNDO ANDA ESTRANHO

Como sempre digo, os tempos andam estranhos. No meio da polémica despoletada por umas disparatadas afirmações de José Saramago, homem com um umbigo maior do que a obra, não se pode ser bom a fazer tudo, e com a comunidade católica a responder ao que não me parece merecer grande resposta, aparece algo que dificilmente imaginaria, o Sr. Padre de Covas do Barroso, em Boticas, homem já septuagenário, foi detido juntamente com outros elementos por posse de arsenal bélico e ilegal constituído por várias armas, muitas munições e explosivos.
Deve tratar-se de um equívoco, ou será que também o Sr. Padre tem a mesma leitura do Antigo Testamento que José Saramago e as armas são apenas ferramentas de trabalho? Eu acredito que muito provavelmente, e a confirmar-se a posse das armas por parte do Sr. Padre, deve ter sido algum pecador que se esqueceu dos instrumentos do pecado na acto da confissão.
Mas lá que o mundo anda estranho, anda.

sábado, 24 de Outubro de 2009

PARA QUANDO AS BOAS NOVAS?

Uma das expressões mais bonitas, das muitas que a língua portuguesa possui é “boas novas”. De facto, acho, não me perguntem porquê, bonito a ideia de designar por novas as notícias que chegam e, mais interessante ainda, quando se trata de notícias positivas, as boas novas.
Lamentavelmente, nos últimos tempos, as novas não são boas e algumas das novas até parecem bem velhas.
Os trágicos números do desemprego continuam a subir apesar de algumas novas sobre indicadores de atenuação da situação de crise. Esta situação evidencia a vulnerabilidade das pessoas e necessidade de políticas sociais eficazes e urgentes.
Parece também cada vez mais claro que os modelos de desenvolvimento económico e o sistema de valores na economia e no mundo do trabalho carecem de reforma, retomo a referência à interessante intervenção de Fernando Nobre no Congresso Nacional de Economistas.
No entanto, os discursos e as novas entre nós, não parecem indiciar a reflexão sobre os novos e necessários caminhos, assentam sobretudo em enunciar paliativos de conjuntura e em medidas sociais necessárias, mas avulsas e com pouco impacto estrutural.
Para quando as boas novas?