sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

"OS NEGÓCIOS DA FAMÍLIA", UMA PEÇA EM EXIBIÇÃO EM QUALQUER LOCAL PERTO DE SI

"Menezes investigado por negócio de lixos com empresa da Mota-Engil"

"Passos Coelho não nega ter recebido dinheiro da Tecnoforma quando era deputado em exclusividade"

O que sempre escrevo a propósito dos recorrentes episódios elucidativos desta longa narrativa, “Os Negócios da Família”. 
"A roda livre de impunidade e incumprimento dos mais elementares princípios éticos quando não da lei, produziu nas últimas décadas uma família alargada que, à sombra dos aparelhos partidários e através de percursos políticos, se movimentam num tráfego intenso entre entidades e empresas públicas e entidades privadas, promovendo frequentemente em negócios que insultam os cidadãos. 
Esta família alargada envolve gente de vários quadrantes sociais e políticos com uma característica comum, os negócios obscuros de natureza multifacetada e de escala variável, desde o jeitinho para o emprego para o amigo até aos negócios de muitos milhões.
Acontece ainda e isto tem efeitos devastadores, que muitos dos negócios que esta família vai realizando envolve com frequência dinheiros públicos e com pesados encargos para os contribuintes.
Esta família conta ainda com a cooperação de um sistema de justiça talhado à sua medida pelo que raramente se assiste a alguma consequência decorrente dos negócios da família.
Curiosamente, mas sem surpresa, todos os membros desta família, quando questionados sobre os seus negócios ou envolvimento em algo, afirmam, invariavelmente que tudo é feito tudo dentro da lei, nada de incorrecto e, portanto, estão sempre de consciência tranquila.
Alguém poderia explicar a esta gente que, primeiro, não somos parvos e, segundo, o que quer dizer consciência.
Esta é a pantanosa pátria, nossa amada." 

Aguarda-se o próximo episódio desta tenebrosa narrativa, “Os negócios da Família”

E não se pode exterminá-los?

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

O PERDÃO CRÁTICO

"Nuno Crato promete corrigir fórmula e pede desculpa aos professores"

Por uma vez e depois de tentar sustentar o insustentável, Nuno Crato veio pedir "desculpa aos pais, aos professores e ao país" pela "incongruência" existente na fórmula aplicada para a graduação dos professores. Esta "incongruência" foi repetidamente dencidas e repetidamente negada
Se o MEC fosse obrigado a submeter-se a uma Prova de Avaliação de Conhecimento e Capacidades que não assentasse na resolução de charadas teria um chumbo garantido.
Se o MEC fosse dado a irrelevâncias como sentido ético e responsabilidade política já teria assumido não uma "incongruência" mas um erro grosseiro com consequências gravosas e que demorou a reconher afirmando teimosa e arrogantemente que tuda estava bem. Daí retirarias as óbvias ilações.
Estou convencido que Passos Coelho, aluno da mesma escola de políticos em que boa parte desta gente se forma, o irá absolver da "incongruência" confessada.
A História não o absolverá.

"ENTREGAÇÃO" OU INTEGRAÇÃO

"Escola de Tomar cria turma só de crianças de etnia cigana"

A presença das crianças das comunidades ciganas nas escolas públicas nem sempre é algo de pacífico e tranquilo como seria desejável que acontecesse. Crianças em idade escolar a frequentar a escola é, obviamente, uma situação normal.
A questão é que os fenómenos de guetização presentes sobretudo no que toca à comunidade cigana e que são complexos, produzem com frequência situações como a que agora é conhecida em Tomar, a criação de uma turma constituída apenas por crianças de etnia cigana. Que escola ou que escolas devem frequentar as crianças da(s) comunidade(s) cigana(s)? Como deve ser gerida a sua colocação em turmas?
Como é também normal emerge uma conflitualidade de interesses em torno da questão assente em valores, experiências negativas ou positivas, estereótipos ou preconceitos de natureza e sinal diferente, dificuldades nas respostas aos problemas, etc.
A pior das soluções parece ser a definição de uma situação que alimente e prolongue a guetização, isto é, para crianças de uma comunidade guetizada uma escola guetizada ou uma turma guetizada.
Em termos formais, distribuir as crianças por várias escolas ou por várias turmas parece mais ajustado. A questão é que não chega.
Como é conhecido por quem lida com estas matérias, não basta ter as crianças na escola para que tudo corra bem. As experiências mostram que as escolas precisam de ter dispositivos e recursos que promovam a presença bem sucedida destes miúdos, como, aliás, de todos os outros. Caso contrário, temos o que por vezes designo por “entregação” (estão entregues) e não integração, com os problemas conhecidos daí decorrentes ao nível do rendimento escolar, comportamento, absentismo e conflitualidade e reacções negativas de alguns pais e professores, ainda que com a concordância de outros.
Por outro lado, as próprias comunidades ciganas devem ser objecto de intervenção e exigências que não pode ficar na atribuição de uma casa num qualquer bairro social (mais um gueto) e na atribuição, por vezes desregulada, do Rendimento Social de Inserção.

Nada mudará e os problemas repetem-se.

quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

CRATO AO FUNDO

Sociedade científica e associação de Matemática "chumbam" fórmula do MEC

Directores: posição da administração educativa é "deplorável", "vergonhosa" e "inadmissível"

Ministro rejeita anular concurso de Bolsa de Contratação de Escola

O despudor ético, a arrogância sem limite, a indesculpável incompetência de quem vende excelência e competência, a delirante negação da realidade, a irresponsabilidade política, são dignas de um manual sobre como não deve fazer-se política de forma séria e competente.
Crato ao fundo. 

OS ALUNOS COM NECESSIDADES ESPECIAIS, UMA QUESTÃO ADMINISTRATIVA

"Recusa de subsídios a crianças com necessidades especiais preocupa Observatório"

O ano escolar que terminou e o que se vai conhecendo do que está a iniciar-se  revelam, entre muitas outras coisas, o entendimento que o MEC tem dos princípios da educação inclusiva. Certamente se lembrarão, que o Ministro, questionado sobre as condições existentes de apoio a alunos com necessidades especiais em turmas demasiado extensas, por vezes não cumprindo a lei, considerou que se tratava de uma "questão administrativa", ou seja e na realidade, disse, os alunos não estão na sala de aula, não participam, sendo que a participação é, como defendo, o mais sólido critério de inclusão.
Com este entendimento assistimos a corte de professores, à utilização irracional de docentes nas escolas desempenhando funções em contextos para os quais não estão preparados, a atrasos e falta nos dispositivos de apoio, a atrasos e falhas nos apoios às famílias e instituições, à falta de técnicos especializados etc., tudo na maior "normalidade" como sempre o MEC entende.
Neste cenário, como a imprensa de hoje retoma, a Segurança Social, assumindo uma competência do MEC, indefere, sem fundamentação conhecida, os pedidos das famílias para apoios especiais o que levou a queixas e intervenção do Observatório dos Direitos Humanos.
Esta situação não é nova, a rejeição de forma administrativa dos pedidos de atribuição de subsídios de educação especial com base no entendimento de que os meninos "não têm necessidades educativas especiais permanentes", um conceito que é tudo menos claro e a carecer de reformulação.
É impossível ler estas questões sem uma inquietação. Não vou discutir aqui o modelo de resposta e o sistema montado, que, aliás, me levantam sérias dúvidas, tenho-o afirmado recorrentemente. Também não vou discutir se as avaliações realizadas aos alunos são sólidas e competentes, matéria sobre a qual nem sequer me devo pronunciar por razões éticas e deontológicas, são da responsabilidade e assinadas por técnicos que se supõem credenciados e formados para o efeito. Se levantarem dúvidas deve aprofundar-se ou esclarecer o processo de avaliação, não proceder a tratamento administrativo.
De facto, parece-me tremendamente discutível esta forma de decisão que, aliás, já se verificava na apreciação dos pedidos de condições especiais para a realização de exames nacionais por parte de alunos com necessidades especiais em que uns burocratas na 5 de Outubro decidiam, sem conhecer os alunos, olhando para os processos, se poderiam, ou não, aceder a condições especiais de exame e, em alguns casos, decidiam completamente à revelia da avaliação da escola e dos técnicos que acompanham e conhecem os alunos.
É esta fórmula, absolutamente desrespeitosa dos profissionais, eticamente inaceitável, que transforma aspectos fundamentais para a vida dos miúdos e famílias numa mera questão administrativa resolvida a "olhómetro" que impressiona pela irresponsabilidade.
Numa política educativa de selecção, "darwinista", para os mais "dotados" os que conseguem sobreviver, a presença de alunos com necessidades especiais só atrapalha. Assim sendo, colocam-se duas hipóteses, ou se mandam embora da escola de volta às instituições a quem se vai garantindo uns apoios, a diminuir evidentemente, para que por lá mantenham estes alunos, sobretudo adolescentes e jovens ou, segunda hipótese e mais barata, nega-se de forma irresponsável e administrativa sua condição de alunos com necessidades especiais, "normalizam-se" e passam a ser tratados como todos os outros alunos e espera-se que a selecção e a iniciativa das famílias leve os meninos que atrapalham para fora da sala de aula, primeiro, e para fora da escola, depois.

A notícia de hoje inscreve-se nesta segunda hipótese, bem mais económica. Acham.

CRIANÇAS QUE PASSAM MAL NÃO APRENDEM

"Meio milhão de portugueses precisa de ajuda alimentar"

Nunca é demais chamar a atenção para a situação de extrema dificuldade que muitas famílias atravessam para assegurar condições básicas de qualidade de vida como a alimentação.
Sabe-se também que as crianças e idosos constituem grupos altamente vulneráveis a situações de privação.
Neste contexto e com também é público, muitas crianças e adolescentes encontram na escola a única refeição consistente e equilibrada a que acedem levando a que em muitas autarquias as cantinas escolares funcionem também no período de férias..
O próprio MEC procurou responder a este tipo de situações  durante o ano lectivo anterior através do PERA - Programa Escolar de Reforço Alimentar.
O impacto das circunstâncias de vida no bem-estar das crianças e em aspectos mais particulares no rendimento escolar e comportamento é por demais conhecido e essas circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências significativas ao nível das necessidades básicas.
Um Relatório de 2013, "Food for Thought", da organização Save the Children, afirmava que 25% das crianças terão o seu desempenho escolar em risco devido à malnutrição com as óbvias e pesadas consequências em termos de qualificação e qualidade de vida de que a educação é uma ferramenta essencial.
Em qualquer parte do mundo, miúdos com fome, com carências, não aprendem e vão continuar pobres. Manteremos as estatísticas internacionais referentes a assimetrias e incapacidade de proporcionar mobilidade social através da educação. Não estranhamos. Dói mas é “normal”, é o destino.
Quando penso nestas matérias sempre me lembro da história, umas das maiores lições que já recebi e que já contei várias vezes e que me aconteceu há uns anos em Inhambane, Moçambique. Ao passar por uma escola para gaiatos pequenos o Velho Bata, um homem velho e sem cursos, meu anjo da guarda durante a estadia por lá, me dizer que se mandasse traria um camião de batata-doce para aquela escola. Perante a minha estranheza, explicou que aqueles miúdos teriam de comer até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.
Pois é Velho, miúdos com fome não aprendem e vão continuar pobres.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

MUITO BEM DITO, DR. MARINHO PINTO. Assim tudo fica mais claro

"Marinho e Pinto diz que 4800 euros não dão para viver bem em Lisboa"

Ainda pensei comentar a afirmação de Marinho Pinto, defendendo que 4800 euros, o seu ordenado como bastonário dos advogados “não permitem grandes coisas. Não permite ter padrões de vida muito elevados em Lisboa, fora de casa, ..."
Mas não vou comentar uma figurinha que procura desesperadamente chegar ao poder socorrendo-se de todos os expedientes e manhas e pretende justamente atenção e promoção.
Têm, no entanto, uma virtude, ajudam a perceber o autor, o Dr. Marinho Pinto. Na ânsia de tanto dizer para mostrar que existe, às vezes esquece-se de afirmar o que ele acha que as pessoas gostam de ouvir e foge-lhe a boca para o que verdadeiramente pensa e pretende.
Ainda me lembro da sua tese sobre as "famílias naturais".

(IN)DIFERENÇA

Primeiro esqueceram que muitas crianças precisam de apoios especiais para crescer e aprender.
Não era importante, os nossos filhos aprendem e crescem muito bem.
Em seguida esqueceram que todas as crianças que têm algumas dificuldades podem precisar de ajuda.
Não era importante, os nossos filhos não têm dificuldades.
Depois esqueceram que algumas crianças podem precisar de ajudas especiais para poder realizar exames.
Não era importante, os nossos filhos realizam os exames sem problemas.
Logo a seguir esqueceram que todas as crianças devem ir à escola, é um bem de primeira necessidade.
Não era importante, os nossos filhos vão à escola, para qualquer escola.
Em seguida esqueceram que juntar continuadamente maus alunos com outros maus alunos não os torna melhores alunos.
Não era importante, os nossos filhos são bons alunos.
Depois esqueceram que a esmagadora maioria dos pais com filhos que não se comportam bem, precisa de apoio e ajuda, não de multas.
Não era importante, os nossos filhos portam-se bem.
Depois esqueceram-se que os miúdos crescem e aprendem melhor no meio de um grupo que no meio de uma multidão que os torna anónimos e transparentes.
Não era importante, os nossos filhos crescem e aprendem num grupo sendo bem visíveis.
Em seguida esqueceram que sendo a escola um bem de primeira necessidade, é fundamental para todos, tem que se preocupar com todos e não só com alguns.
Não era importante, os nossos filhos estão incluídos nos alguns.
Finalmente esqueceram as crianças.
Agora, que percebi, talvez seja tarde para a escola pública.
Ou não.  

Escrito em 5/6/2012 a partir da Indiferença de Brecht 

PS - O que está a acontecer neste início de ano lectivo e os relatos que vou conhecendo de múltiplas escolas deixam-me particularmente descrente no entendimento sério de que o direito a uma educação de qualidade para todos os alunos não seja de geometria variável ao sabor da conjuntura económica ou dependente da agenda ideológica dos ocupantes de circunstância da 5 de Outubro.

Amanhã passa e continua a luta.

LEITORES, LIVROS, EDITORAS, LIVRARIAS

"Há menos editoras, menos livrarias e vendem-se menos livros em Portugal"

Segundo um estudo hoje divulgado realizado soa responsabilidade da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros baixou o número de editoras, de livrarias e também se venderam se estão a vender menos livros. Em 2013 a venda de livros em Portugal caiu 4,6%, o que não surpreende. Algumas notas.
Antes de um reflexão mais centrada nos livros parece-me de sublinhar que nós portugueses apresentamos dos indicadores mais baixos da União Europeia no que respeita ao consumo de bens culturais. Actividades como leitura, cinema e outros espectáculos culturais, visitas a museus e exposição não fazem parte de forma significativa dos nossos hábitos, mais destinados ao consumo de televisão.
Os especialistas sustentam que esta situação, para além dos efeitos da crise na alteração de consumos, remete para aspectos de natureza educativa e para a política relativa à cultura e à sua valorização que tem sido seguida.
No que respeita à leitura e ao mercado livreiro, área que conheço um pouco melhor, e que está também em recessão como os dados hoje divulgados comprovam, importa referir que, de uma forma geral, os bens culturais em Portugal, quando relativizados aos orçamentos familiares médios, são um mercado caro, veja-se o preço dos livros, dos CDs ou dos espectáculos. A este cenário acresce o impacto, designadamente no número de livrarias, da subida dos e-books ou da venda de livros através da net ou em locais menos "tradicionais" , as grandes superfícies comerciais. Assim como no cinema temos cada vez menos salas de cinema mas salas onde se passam filmes (com ou sem pipocas), também vamos deixando de ter livrarias mas sítios onde se vendem livros no meio de milhentas outras coisas.
O universo da cultura vive e vai viver numa apagada e vil tristeza orçamental. Sabe-se como os museus têm dificuldade em manter portas abertas, para não falar dos problemas com investimentos e manutenção nos respectivos espólios. Muito do que se realiza em Portugal em matéria de cultura está dependente de apoios privados, carolice e mecenato e do que ainda algumas autarquias conseguem promover com orçamentos cada vez mais apertados. A crise instalada, com o abaixamento significativo do rendimento das famílias, agrava, naturalmente, a situação.
Por outro lado, e no que respeita ao mercado livreiro, creio que uma das grandes razões para o preço dos livros será o reduzido volume de consumo desse bem por parte do cidadão comum. De facto, à excepção de alguns, poucos, nomes, edições reduzidas dificultarão, por questões de escala, o abaixamento do preço. Algumas editores ou grupos editoriais têm experimentado o lançamento de colecções com obras a mais baixo custo, mas muitos dos potenciais compradores dessas obras, já as terão adquirido pelo que, mais uma vez será difícil que sejam bem sucedidas essas edições. Se considerarmos o caso particular da poesia a situação pode ser um pouco mais negra, basta atentar nas montras ou nas listas dos mais vendidos num mercado gerido por meia dúzia de pontos de venda que asseguram o grosso do "rendimento" e por uma distribuição que trata, muitas vezes, o livro como apenas um produto e não o distribui como um "bem".
No entanto, penso que a grande aposta deveria ser no leitor e não no livro, ou seja, criando mais leitores, talvez as edições, que poderiam em todo o caso ser menos exigentes em papel e grafismo, ficassem mais acessíveis como se verifica noutros países. Esta batalha ganha-se na escola, na educação, e na comunicação social que, sobretudo a televisão, não valorizam como seria desejável os bens culturais. 
Estaremos certamente de acordo que um leitor se constrói desde o início do processo educativo. Desde logo assume especial importância o ambiente de literacia familiar e o envolvimento das famílias neste tipo de situações, através de actividades que desde a educação pré-escolar e 1º ciclo deveriam, muitas vezes são, estimuladas e para as quais poderiam ser disponibilizadas aos pais algumas orientações.
Nos primeiros anos de escolaridade é fundamental uma relação estreita com a leitura, não só com os aspectos técnicos, por assim dizer, da aprendizagem da leitura e da escrita da língua portuguesa, mas um contacto estreito e regular com a actividade de leitura, seja do que for, considerando motivações e culturas diferenciadas apresentadas pelos alunos. 
Só se aprende a ler, lendo, só se aprende a escrever, escrevendo, etc. Neste contexto, não posso deixar de ficar um pouco preocupado com o rumo da educação escolar. Centrando-me no 1º e 2º ciclos, com a introdução das metas de aprendizagem com os conteúdos e na quantidade definida, é minha convicção, pouco espaço existirá para actividades como leitura livre e a descoberta tranquila do prazer de ler.
É certo que existe em actividade o Plano Nacional de Leitura que, parece, estará a dar alguns resultados, mas repare-se como na comunicação social televisiva generalista o livro está praticamente ausente ou no número sempre em baixa de leitores jornais e revistas que é dramaticamente pequeno.
Insisto, é um problema de leitores, não de livros.

NOTÍCIAS DO REINO DO FAZ DE CONTA

"Associação de directores diz que escolas "estão em polvorosa""

"Ano arranca com boicotes e protestos contra falta de docentes, funcionários e escolas encerradas"

"Mesmo assim, para o governante, (Nuno Crato) o ano lectivo “está a começar bem”, “apesar de uma ou outra contestação"."

"Novo Citius arrancou mas os 3,5 milhões de processos estão no velho Citius que não funciona"

"Sistema informático da Justiça totalmente parado"

"Paula Teixeira da Cruz ao i. "Citius não instalou o caos nos tribunais""

Palavras para quê? Exemplos extraordinários da forma arrogante como esta gente, Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz neste caso, encara o mundo que as rodeia "A realidade está enganada, eu é que estou certo". Dito de outra maneira, acabam por se convencer e querer convencer-nos de que a realidade é a projecção dos seus desejos.
O resultados está vista ... mas negado, evidentemente.

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

O MEU FILHO ESTÁ NUMA TURMA DOS "MAUS". ELE VAI FICAR BOM?

Retomando o Despacho Normativo 13/2014 do MEC, hoje publicado em DR, algumas notas sobre a constituição de "grupos de homogeneidade relativa" de alunos. A designação seria uma pérola em "eduquês" mas Nuno crato não é, evidentemente, homem para certas liberdades discursivas, é um homem de rigor como todos os aspectos da politica educativa demonstram.
É definido que as escolas poderão constituir turmas de alunos com dificuldades e de alunos com "elevadas capacidades".
Como já tenho referido, em algumas situações, bem avaliadas todas as variáveis envolvidas, posso entender a constituição por um período de tempo bem delimitado de grupos de alunos para a realização de um trabalho de apoio específico. No entanto, a a constituição, assim enunciada, de grupos de alunos com dificuldades e de grupos de alunos com "elevada capacidade" abre a porta a situações que me parecem profundamente discutíveis.
Esta medida já existiu em tempos com as turmas de nível e quem conhece a realidade sabe que os resultados dos alunos "maus" continuaram genericamente maus, o povo diz junta-te aos bons e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior do que eles.
Quem lida com miúdos reconhece que, na verdade, não existem grupos homogéneos e não vislumbro o que seja a "homogeneidade relativa", quem tanto combateu o "eduquês" talvez agora pense e fale em "cratês", terei que estudar mais para perceber.
A constituição de grupos nivelados, "homogéneos", com base no rendimento escolar, no comportamento ou na origem social e familiar, não é rara nas nossas escolas, é do conhecimento da tutela que tolera o procedimento, as escolas já têm autonomia nesta matéria. Sabemos todos de turmas maioritariamente constituídas por repetentes ou oriundos de alguns bairros, bem como, pelo contrário, turmas maioritariamente constituídas por bons alunos, filhos de docentes ou de funcionários ou de alguém com “capacidade” para influenciar a definição da turma para o seu filho ou, como agora se define de alunos com "elevada capacidade". Até sabemos de escola públicas que recusam alunos com base no "currículo que carregam. Nada de novo, portanto.
A questão central coloca-se em dois patamares, a eficácia e o impacto nos alunos. Vamos por partes. A experiência e os estudos realizados sobre estas questões mostram que sem recorrer a apoios eficazes e adequados, separando apenas por competência, os “bons” continuam bons os “maus” também continuam maus, apenas deixam, crê-se, de atrapalhar o trabalho dos bons. O trabalho dos maus, sendo nivelado por baixo introduz um tecto nas aprendizagens que inibe um percurso do mesmo tipo e qualidade que o dos bons mesmo que sejam bem sucedidos, o que só acontece pelo trabalho de apoio adequado e não por estarem junto de outros maus.
Nós aprendemos mais e melhor com quem sabe mais que nós.
Quanto ao impacto, parece óbvio que a diversidade é sempre preferível a uma falsa homogeneidade. As atitudes de discriminação negativa não apresentam nenhuma espécie de vantagem pessoal ou social, guetizam, estigmatizam e promovem quer nos bons, quer nos maus, uma relação desconfiada e tensa facilitadora de problemas.
As dificuldades escolares gerem-se com apoios e recursos que terão certamente de ser diferenciados mas não podem, não devem, implicar a criação de reservas para os “maus” ou de "condomínios" para os "bons".
Finalmente, creio que esta medida, grupos de nível, se inscreve num processo de selecção neodarwinista que o MEC tem vindo de mansinho a instalar. O caminho é este, dos fracos não reza a história.
O problema é que se não for a escola, a educação, a promover equidade de oportunidades e a combater a exclusão não restará nada nem ninguém que o faça. O Ministro da Educação e Ciência deveria saber isto.

QUEM COMPROMETER RESULTADOS NÃO REALIZA EXAMES

No Despacho Normativo do MEC, 13/2014, hoje publicado em DR, definem-se importantes aspectos relativos à avaliação das aprendizagens dos alunos.
Em termos gerais a filosofia que informa o Normativo, independentemente da retórica sobre autonomia e promoção do sucesso, acentua duas perpectivas centrais da política educativa de Nuno Crato, a normalização traduzida na hipervalorização dos exames e a selecção que afasta os não "normais". Uma nota breve sobre a participação dos alunos nas provas finais, os exames
Dos exames nacionais estão excluídos todos os que podem ameaçar a medida normalizada das aprendizagens. Como é sabido tenho uma posição de reserva relativa à sobrevalorização crática dos exames como motor da qualidade da educação. Este normativo reforça esse entendimento.
No 1º ciclo estão excluídos os alunos os que não tenham português como língua materna e tenham ingressado no ano da realização das provas ou que estejam ao abrigo do artº 21º do DL 3/2008.


Percebe-se que não são os exames que se adaptam aos alunos mas os alunos que se adaptam aos exames. Parece assim garantida a subida das médias e estatísticas mais simpáticas, na medida em que os alunos mais "problemáticos", os que se encaixam nas várias prateleiras identificadas, vão sendo excluídos dos percursos "normalizados". Alguns que eventualmente se "reciclem" e queiram continuar os estudos "gerais", certamente poucos, deverão realizar exames finais.
Muito interessante e esclarecedor.

UMA NOTÍCIA INTERESSANTE VINDA DA FCT

Finalmente uma notícia interessante vinda da FCT, uma abordagem diferenciada no universo das Ciências Sociais e Humanidades no que respeita à análise bibliométrica da produção científica. Vamos ver o resultado.

Caro(a) Investigador(a),
José António Marques Morgado
Nos últimos anos, a análise bibliométrica da produção científica tem vindo a ganhar peso em processos de avaliação individual e institucional, como instrumento para a aferição de produtividade e impacto. Esta é, obviamente, uma análise que permite gerar indicadores quantitativos, não substituindo análises de qualidade de cada uma das publicações.
Os instrumentos bibliométricos têm sido alvo de crítica na avaliação da produção em Ciências Sociais e Humanidades, uma vez que as bases de dados tradicionalmente mais utilizadas (Web of Science Scopus) cobrem muito insuficientemente a produção nestes domínios, não refletindo de forma significativa os outputs reais nestas áreas. Acresce que estas bases de dados incluem poucas publicações nas línguas nacionais – para além do inglês – o que também contribui para uma anulação de alguns indicadores de produção já que, em algumas disciplinas, a produção nas línguas nacionais é relevante e tem impacto mais elevado do que a publicação em inglês.
Conscientes destas limitações, alguns países têm vindo a promover a construção de instrumentos alternativos para avaliação da produção científica em Ciências Sociais e Humanidades. Na Noruega, foi desenvolvido um procedimento que permitiu uma cobertura quase total da produção científica.
A Fundação para a Ciência e a Tecnologia, em articulação com a Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), à semelhança do que tem vindo a ser feito em outros países, pretende implementar um sistema de recolha da produção científica em Ciências Sociais e Humanidades, inspirado no modelo norueguês, mas construído a partir do input dos investigadores.
Espera-se que, através deste projeto se obtenha, por um lado, o registo de produção científica em Ciências Sociais e Humanidades e, por outro lado, o desenvolvimento de um instrumento que permitirá extrair um indicador de publicação adequado a estas áreas.
Neste sentido, será implementado um modelo com as seguintes características:
1.       Lista de revistas e editoras relevantes construída a partir do input dos investigadores.
2.       Classificação das revistas e editoras em dois níveis: nível 1, englobando aproximadamente 80%, e nível 2, correspondendo aos 20% de qualidade superior.

(...)

O PESO DE UMA PENA SUSPENSA

"Maria de Lurdes Rodrigues condenada a três anos e seis meses de prisão com pena suspensa"

O peso brutal de uma pena suspensa.
Falta agora perceber o que vai acontecer a todos os milhares de episódios de amiguismo e "favorzinhos" que intoxicam a democracia e a transformam num pântano.
Nada ou muito pouco, certamente.

SER PROFESSOR

"Reportagem. Ser professor em tempos de cólera"
Neste início de aulas gostava de vos chamar a atenção para um trabalho interessante do I sobre "ser professor nestes tempos de cólera". São contadas sete histórias muito interessantes de professores que dão um sentido extremo à profissão em tempos de grande turbulência.
Há algum tempo um estudo coordenado pela Universidade do Minho sugeria que cerca de dois terços dos professores sentem a sua desmotivação profissional a crescer embora a maioria mantenha o empenho no trabalho com os alunos terços dos professores.
Como já aqui tenho referido, o clima vivido nas escolas nos últimos anos, sobretudo a partir da passagem de Maria de Lourdes Rodrigues pela 5 de Outubro, tem vindo a degradar-se produzindo desânimo, desmotivação, cansaço e a saída antecipada de milhares de professores mesmo implicando a perda significativa de condições económicas que, aliás, afectaram todos os docentes.
Uma primeira nota importante e de carácter genérico relativa ao desgaste da imagem social dos professores. Como muitas vezes tenho afirmado, os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso de responsáveis da tutela, anteriores ou actuais, algum do discurso produzido pelos próprios representantes dos professores e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para uma desvalorização significativa da imagem social dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, designadamente de alunos e pais. Este cenário não pode deixar de se repercutir no trabalho diário nas escolas.
Quando ouvimos discursos de professores, faço-o regularmente e não me refiro aos discursos previsíveis de dirigentes sindicais os testemunhos do clima vivido em muitas escolas pode ser sintetizado em duas palavras referidas sem ordem de importância, desesperança e indignação que resumem o ano agora a terminar e que tomaram conta das escolas nas palavras faladas, choradas, por muitos professores, estou a falar de Professores, não de "técnicos de educação" que sentem a dignidade atropelada.
Para além das ignorantes e demagógicas apreciações por parte de opinadores que por isso mesmo, ignorância e demagogia, ou por agendas implícitas, os últimos anos anos lectivos por questões decorrentes das PECs - Políticas Educativas em Curso criou-se um ambiente extraordinariamente pesado e pouco amigável para o bom trabalho de direcções, professores, funcionários, alunos e pais.
O arranque do ano lectivo e o inenarrável e arrastado processo de colocação de professores, com a definição dos descartáveis "horários zero", as incompetências, as injustiças conhecidas tem sido infernal e repete anos anteriores.
O constante discurso ameaçador da dispensa dos docentes alicerçada numa demagógica utilização dos números da demografia, instalou um clima de apreensão e insegurança devastadores, com milhares de professores a ficar de fora e muitos outros a sentirem-se intimidados, não porque não sejam competentes, a maioria é, não porque não sejam necessários, muitos são, mas porque é preciso cortar, custe o que custar. A unidade de gestão do sistema educativo passou a ser a "hora docente" pelo que a política educativa se transformou num exercício contabilístico.
O aumento do número de alunos por turma criou turmas quase sempre lotadas ou mesmo sobrelotadas, professores com muitas turmas e centenas de alunos, sendo que alguns ainda se deslocam entre as várias escolas do agrupamento ou ainda uma reforma curricular que como preocupação central parece ter tido cortar nas necessidades de professores. Assustador.
Num trabalho ainda altamente burocratizado em que escasseiam apoios suficientes e competentes às dificuldades de professores e alunos, o país educativo transformou-se todo ele num imenso TEIP - Território Educativo em que se faz a Intervenção Possível.
O desencadear da extensão aos professores da mobilidade especial, chamada de requalificação, um insulto quando estamos a falar da classe profissional mais qualificada do país, as rescisões "amigáveis", a perda substantiva verificada no estatuto salarial, a expectativa sobre o aumento da carga horária, a deriva do MEC e os discursos de alguns responsáveis que afirmam algo e seu contrário com o maior despudor, são outros contributos para a indignação e desânimo que caracterizam o universo escolar destes dias de chumbo.
É verdade que Nuno Crato afirmou que os professores “têm a profissão mais linda do mundo” e ainda que ser professor “é um privilégio”, assente na possibilidade de transmitir saber às crianças.
Em muitas escolas, muitos professores, apesar dos imperativos ético-deontológicos, dificilmente sentirão o “privilégio” da profissão “mais linda do mundo”, lidam com um clima pouco positivo que compromete o seu trabalho de professores, o dos alunos, dos funcionários e dos pais e, no limite, o direito a uma educação pública de qualidade.
No entanto e apesar deste cenário "de cólera" como lhe chamou o I, a esmagadora maioria dos professores vai entrar na sala de aula todos os dias, olhar para os alunos e reinventar-se como Professor.
Ainda bem para nós e para os nossos miúdos.

COM AMIGOS DESTES ...

Segundo o CM, a Troika já terá arrecadadado 5,6 mil milhões de euros em comissões e juros com o generoso e desinteressado plano de ajuda que nos disponibilizou, por solidariedade, evidentemente.
Gostava de recuperar a entrevista dada em Maio ao Público por Phippe Legrain, ex-conselheiro económico de Durão Barroso, que constitui um excelente contributo  para entender como a ajuda "solidária" e "generosa" e dos nossos parceiros e que nos empobreceu foi, fundamentalmente, resultante da incompetência das lideranças da Comissão Europeia e da protecção dos interesses da banca francesa e, sobretudo, alemã. Nada de novo, apenas o reforço de que a via seguida, austeridade e empobrecimento, não era a única alternativa mas foi imposta para defender interesses particulares e aceite sem sobressalto por uma gente sem espinha que abdicou da sua soberania.
Recordo, aliás, que em Novembro de 2013, já alguns países europeus consideravam cada vez mais as políticas económicas da Alemanha como o principal obstáculo à resolução da crise económica que atravessamos, referindo-se que a Comissão Europeia iria desencadear uma investigação sobre os excedentes comerciais e as contas correntes alemãs. No entanto, a situação privilegiada da Alemanha é conhecida de há muito.
Segundo dados oficiais, a Alemanha poupou cerca de 41 mil milhões de euros com a crise das dívidas soberanas na zona euro devido à queda das taxas de juro sobre a sua taxa de dívida pública, considerada um "refúgio seguro" pelos investidores do mercado.
Recordo ainda dados de Julho de 2013 que mostravam como os grupos empresariais franceses e alemães foram os que mais beneficiaram das políticas de ajuda do BCE sendo prejudicadas as empresas espanholas e portuguesas. As taxas de juro do BCE decididas como medidas de apoio à economia e a forma como os bancos gerem as taxas de juro nos empréstimos às empresas, levaram a que, de acordo com a Comissão Europeia as pequenas e médias empresas portuguesas, gregas, espanholas e cipriotas as que mais são penalizadas pagando taxas de juro por empréstimos bancários entre os 6% e os 7% sendo que as alemãs e as francesas beneficiam de uns mais simpáticos 2% a 3%. Muito interessante e elucidativo.
Aliás, segundo o "Financial Times", com base em dados do Banco Central Europeu estima-se uma diminuição de cerca de 42 mil milhões de euros em pagamentos de dívida pelas empresas europeias nos próximos cinco anos. Acontece que esta diminuição envolve sobretudo os grandes grupos empresariais alemães e franceses admitindo-se uma poupança de 14 e 9 mil milhões de euros, respectivamente e a Itália, com uma diminuição de 2,3 mil milhões. No entanto e curiosamente, Portugal e Espanha verão as suas empresas ainda mais penalizadas do que já estão com o aumento do pagamento.
Um mês antes, dados do Eurostat mostravam como de 2009 para 2012 os países do Centro e Norte da Europa ficaram mais ricos e os do Sul mais pobres, ou seja e como sempre, a crise tornou os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Para exemplificar, Portugal em 2009 tinha Portugal um PIB per capita 80% da média da EU27 para em 2012 passar para 75% sendo agora um dos quatro países com menor poder de compra.
A análise dos dados mostra como os países envolvidos em programas de austeridade impostos pela "ajuda" se afundaram em dificuldades e os países que generosamente "ajudam" vão enriquecendo.  Deve ser a isto que chama solidariedade e coesão europeias.
Parece claro que para além das enormes responsabilidades políticas internas, importa considerar como, sem surpresa face a muitos dados já conhecidos, que os países mais ricos têm beneficiado fortemente com os pacotes de "ajuda solidária" dirigidos, impostos, aos países mais pobres com os resultados conhecidos. Esta desinteressada ajuda acontece mediante a cobrança de juros altíssimos. Mais um exemplo, dados de final de 2013, Portugal paga por ano 4,4% do seu PIB em juros, 7,2 mil milhões de euros, valor que voa dos nossos bolsos para "dezenas de cofres de Estados e bancos europeus" como afirmava na altura o I num trabalho sobre esta matéria.
Por outro lado e como também se sabe,  as economias fortes do norte da Europa financiam-se a taxa zero ou mesmo, estranhamente a taxas negativas, enquanto nós, as economias do sul e a Irlanda pagamos juros altos cujo montante seria um excelente contributo para a redução dos nossos problemas de equilíbrio. Está certo, somos pobres, temos o dinheiro mais caro, os mais ricos têm o dinheiro mais barato. Deve ser isto a que chamam os mercados a funcionar.
Eu sei que sou estúpido, a economia e as finanças constituem uma matéria inacessível ao cidadão comum, mas parece-me, certamente de forma errada, que assim se torna mais difícil que os países em dificuldades deixem de ser pobres e que haja maior equidade e coesão económica e política na União Europeia.
Que não me levem a mal os nossos generosos amigos, mas às vezes até penso que é justamente isso que pretendem com a ajuda desinteressada que nos dão, que, naturalmente, temos de pagar mas que nos vai deixando pobres.

Tenho até medo de estar a ser injusto para com a sua generosidade e para com os feitores que em seu nome nos administram e estão de forma tão empenhada e eficaz a promover o nosso empobrecimento.

domingo, 14 de Setembro de 2014

AGORA É A SÉRIO

Amanhã as aulas começam "a sério". Com a competente ajuda do MEC não começarão para todas as crianças nem para todos os professores. Os responsáveis(?) refirmam que é normal, num estranho entendimento do que significa normalidade. Algumas notas a pensar, sobretudo, nos que vão iniciar a escolaridade obrigatória.
Para a maioria das crianças e apesar da sua experiência na educação pré-escolar, a "entrada" na escola, ou melhor, o processo de início da escolaridade obrigatória, continua a ser uma experiência fundamental para o lançamento de um percurso educativo com sucesso.
Em muitíssimas circunstâncias da nossa vida, quando alguma coisa não correu bem, é possível recomeçar e tentar de novo esperando ser melhor sucedido. Todos nós experimentámos episódios deste tipo.
Pois bem, o  processo de início da escolaridade envolve na verdade um conjunto  de circunstâncias irreversíveis, ou seja, quando corre mal já não é possível voltar atrás e recomeçar com a esperança de que a situação vá correr melhor. Por isso se torna imprescindível que o começo seja positivo. Para isso, importa que seja pensado e orientado, que crie as rotinas, a adaptação e a confiança em miúdos e em pais indispensáveis à aprendizagem e ao desenvolvimento bem sucedidos.
É fundamental não esquecer que os miúdos à "entrada" na escola não estão todos nas mesmas condições, pelas mais variadas razões, ambiente e experiências familiares, percurso anterior, características individuais, etc. o que exige desde o início uma atenção diferenciada que combata a cultura de que devem ser todos tratados da mesma maneira, normalizando o diferente, que alguma opinião publicada e ignorante defende.
Antes de, com voluntarismo e empenho, se tentar ensinar aos miúdos as coisas da escola é preciso, como sempre afirmo, dar tempo, oportunidade e espaço para que os miúdos aprendam a escola. Depois de aprenderem a escola estarão mais disponíveis para aprender então as coisas da escola.
Vai começar o tempo do trabalho "a sério" e muitas crianças irão rapidamente sentir-se pressionados para a excelência, o mundo não é para gente sem sucesso. Vão ter que adquirir competências, muitas competências, em variadíssimas áreas, porque é preciso ser bom em tudo e é preciso preparar para o futuro, curiosamente, descuidando, por vezes, o presente.
E vão também começar a perceber como anda confusa a cabeça dos adultos, como estamos sem perceber o nosso próprio presente e com dificuldade em antecipar o futuro, que será o presente deles.
Vão, parte deles, desaprender de rir, de se sentir bem e de brincar, a coisa mais séria que sempre fizeram.
Vão ouvir cada vez mais frequentemente qualquer coisa como "não podes fazer isso, já és uma mulherzinha, ou um homenzinho", como se as mulherzinhas e os homenzinhos já crescidos não fizessem asneiras.
Vão conhecer tempos em que se sentem sós e perdidos com um mundo demasiado grande pela frente.
Mais cedo ou mais tarde, alguns deles, vão sentir uma dor branda que faz parte do crescer mas que, às vezes, não passa com o crescer.
Também sei, felizmente que a grande maioria vai continuar a sentir-se bem, por dentro e para fora.
Pode parecer-vos um pouco estranho, mas gostava que a estes miúdos que agora vão começar "a escola", tal como aos outros que já a cumprem, lhes apetecesse "fugir para a escola" e que nós possamos ser capazes de lhes dizer "Cresçam devagarinho, não tenham pressa".
É que depressa e bem, não há quem, como se costuma dizer.
Boa sorte para alunos, professores e pais.

NÃO SEI PORQUÊ MAS GOSTO DESTE NOME

"Stock da Cunha, do Lloyds, vai substituir Vítor Bento"

O Banco de Portugal e o Governo escolheram Stock da Cunha para liderar o Novo Banco resultante dos velhos negócios do velho BES sob a reponsabilidade dos velhos Espírito Santo.
Não sei explicar porquê mas gosto deste nome, Stock da Cunha. 
Parece estimulante para gerir negócios em Portugal.

O MEDO QUE ASFIXIA

Liliana venceu Portugal, o país do medo

O Público apresenta um trabalho cuja leitura se recomenda vivamente direccionado para uma dimensão de natureza psicológica, o medo, que, de mansinho, se instala nas nossas vidas e as condiciona de forma asfixiante em várias áreas.
Estamos perante uma versão actual de uma sociedade constrangida, triste, com medo de lutar pelos seus direitos, esmagada pela arrogância, pelas derivas ideológicas e  por modelos económicos e sociais que nos roubam a dignidade e a esperança.
Tragicamente, muitas vezes, as migalhas de que muita gente precisa para assegurar a sobrevivência ou as circunstâncias inultrapassáveis da dependência e da necessidade em diferentes domínios da nossa vida em comunidade que, aliás, os diferentes poderes alimentam habilmente, inibem a indignação e revolta, levando a que aceitemos o inaceitável.
Até quando?

sábado, 13 de Setembro de 2014

O DEFICIENTE NÃO PODE ESTAR À VISTA

Hospital esconde varredor deficiente durante visita de secretário de Estado

Manuel Sobrinho varre todos os dias à volta do pavilhão masculino do Hospital de Gaia. Diz que ontem o mandaram esconder-se porque iria passar ali um secretário de Estado. Manuel varre de muletas.

Estamos mesmo a andar para trás, não dá para acreditar, Uma pessoa com deficiência, trabalhora do Hospital de Gaia, recebeu ordem ordem da sua chefia para se "esconder" pois estava a decorrer a visita de um Secretário de Estado. A Chefe entendeu, certamente, que a presença de um "deficiente" não seria uma visão agradável para a passagem de Secretário de Estado.
Será que, para não variar, este comportamento delinquente vai passar impune?
O Portugal dos Pequeninos, mesmo pequeninos.

ORIENTAÇÕES POLÍTICAS "INFORMAIS"

"Serviços recebem indicações para cortarem 12% dos funcionários públicos em 2015"

A capacidade deste Governo para gerar perplexidade é notável.
Ao que parece, terá feito chegar aos serviços da administração de forma “totalmente informal” a orientação para que na preparação do orçamento para 2015 seja previsto um corte de 12% no pessoal.
Segundo o Público, o Ministério das Finanças nega a “orientação” mas vários dirigentes confirmam a sua existência e mostram-se apreensivos com os efeitos.
Esta política do corte a “metro” mostra competência e a capacidade de planeamento sustentado de boa parte das políticas. Neste caso surge a “informalidade” da orientação que, assim, pode ser negada. Gente manhosa e sem escrúpulos políticos ou éticos.
Aplicam-se percentagens, indicadores, rácios, etc. de forma cega e administrativa e sem acautelar especificidades ou contextos. É assim na educação, no encerramento de escolas ou na gestão do número de professores através das “orientações” centralistas para a constituição de turmas, é assim na saúde, na segurança social, etc.
Neste caso, alguns dirigentes exprimem a preocupação com o impacto do corte de 12% das pessoas em serviços onde se verifica falta de recursos.
Qual falta de recursos, qual quê, corta-se 12% das pessoas que ainda estão e mais nada.
E a qualidade do serviço?
Ainda vai ficar melhor, vão dizer-nos. Recordemos que Nuno Crato entende que as universidades estão a funcionar melhor depois de terem sofrido cortes orçamentais muito significativos.

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

O MEC, AS SOLUÇÕES E OS PROBLEMAS

"Professores dizem que a bolsa de contratação é "o mais obscuro dos concursos""

"Início do ano lectivo está a “correr melhor” do que no ano passado, diz Passos Coelho"

O Secretário de Estado do Ensino e da Administração Escolar afirmou há dias que o MEC para "cada problema (na colocação de professores) encontra uma solução".
Cada vez estou mais convencido que Casanova de Almeida se enganou na formulação. Queria o Secretário de Estado dizer que o MEC "para cada situação, cria um problema", ou vários.
Só assim é possível manter este processo, que Passos Coelho afirmou "ter corrido melhor que em anos anteriores", com um altíssimo nível de incongruências, falhas, atrasos e instabilidade.
Tal cenário leva o MEC a considerar que tudo continua correr "bem no essencial" e dentro da normalidade, evidentemente.

HÁ AQUI QUALQUER COISA QUE NÃO RIMA

"Inspecção-geral das Actividades Culturais autoriza touros de morte em Monsaraz"

Inspecção-geral das Actividades Culturais autoriza touros de morte em Monsaraz. Actvidades Culturais, touros de morte, não rima, aparentemente. 
Para além desta decisão e ao que conseguimos apurar, a Inspecção-geral das actividades Culturais tem em estudo por dois grupos de trabalho a autorização para que por razões culturais atendíveis e de preservar se possa dar uma "carga de porrada na mulher"  e outra "carga de porrada" nos filhos.
A intenção é promover as actividades profundamente enraizadas na nossa cultura e que não devem perder-se pois são parte da nossa identidade.

UM HOMEM CHAMADO PORMENOR

Era uma vez um homem que se chamava Pormenor. Era pequenino e muito discreto. Durante toda a sua vida nunca foi objecto de grande atenção.
Foi o último de seis irmãos, a família limitou-se a assegurar os serviços mínimos educativos. Enquanto andou na escola, o Pormenor passava o tempo a um canto das salas ou do recreio, sem dar nas vistas, praticamente despercebido.
Viveu só e anónimo num apartamento minúsculo de uma daquelas torres enormes dos subúrbios onde nem os vizinhos conhecia, embora de quando em vez se cruzasse com alguns nos elevadores.
Com alguma sorte e a “ajuda” de um tio bem colocado o Pormenor arranjou um emprego tranquilo onde numa secretária colocada a um canto de uma sala mal iluminada passava os dias viajando entre o computador e os papéis.
Quando morreu, um dos irmãos mandou tratar do funeral a que ninguém compareceu.
E assim foi a sua pequenina e discreta vida. No fundo, não passava de um Pormenor e, como se sabe, o mundo não liga a pormenores. Mesmo que sejam pessoas.

REVISTA DE IMPRENSA

Convidaram-me para participar hoje no Jornal das 10 da SIC Notícias procedendo à "revista de imprensa",
Deram-me os jornais diários e meia hora para "rever" com o conselho de não exceder as cinco referências de modo a ter algum tempo para as comentar. Deixem-me partilhar as escolhas, difíceis aliás, face ao volume de informação disponível.
Comei pelas notícias relativas ao arranque do ano escolar e da estranha normalidade reclamada e reafirmada pelo MEC sobre um processo que tem tudo menos normalidade. Foi ainda possível referir algumas notas sobre o impacto negativo da instabilidade e de algumas das medidas da política educativa neste início de ano lectivo.
Uma segunda nota para, a propósito da situação da menina que estava desaparecida, alegadamente, "raptada" pelo pai no quadro de uma separação familiar complicada, chamar a atenção para o sofrimento, às vezes invisível ou desvalorizado, de muitas  crianças e adultos em processos desta natureza que não têm necessariamente de correr mal, antes pelo contrário, é melhor uma boa separação que uma má família. É, no entanto necessário bom senso e sensatez para evitar sofrimento que em algumas situações pode ser pesado e com eventuais consequências negativas.
Abordei também algo que me parece estranho e que já referi como a "conspiração das plataformas informáticas". Os últimos dias têm sido férteis em referências ao colapso da plataforma que serve o sistema judiciário, como têm sido férteis as referências ao disfuncionamento da plataforma do MEC no que respeita à colocação de docentes, como têm sido referenciadas dificuldades na plataforma informática do Ministério da Saúde. Que estranha força de bloqueio se esconderá por detrás desta reacção negativa das plataformas informáticas às políticas do Governo?
Uma nota breve ainda sobre mais uma afirmação pouco feliz da Dra. Isabel Jonet, a existência de "profissionais da pobreza", gente acomodada e que de geração para geração vive de mão estendida. Pelo menos 20% da população portuguesa a viver em situação de pobreza não autoriza afirmações desta natureza embora saibamos que existem situações de fraude e subsiodiodependência mas que, evidentemente, são uma minoria e decorrem da falta de regulação e de modelos mais assistencialistas.
Com o pouco tempo disponível ainda uma nota sobre a deriva extraordinária do Dr. Marinho Pinto que deixou o MPT e irá fundar um partido que o levará ao Parlamento, pelo menos e para já. Um discurso populista e antisistema, um cataventismo agitado, uma atitude gurrilheira de combate aos afirmados interesses instalados, dos quais faz parte como é óbvio, podem ser perigosos e ser mais um problema que uma solução.
Lamento, mas não falei da novela do BES, das primárias no PS e da saída do Paulo Bento.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

MIÚDOS, PAIS E ESCOLA

Uma colaboração minha num trabalho do Observador sobre questões no âmbito da educação familiar e escolar nos quais sempre me parece oportuno reflectir.

NUNO CRATO E O BURRO DO INGLÊS

O Ministro Nuno Crato não pára de me, nos, surpreender. Em entrevista à RTP elogiou o trabalho de reitores e presidentes dos politécnicos afirmando que as instituições de ensino superior estão a funcionar melhor apesar dos cortes orçamentais de 20% nos últimos anos.
Citando do Expresso, ""O que é extraordinário é que as universidades, os diretores das instituições, os reitores, os investigadores, os professores conseguiram, apesar disto acontecer [cortes] que as universidades funcionassem melhor que tivessem mais receitas próprias, que tivessem mais projetos de investigação".
Não vale a pena retomar as afirmações sobre as dificuldades que as instituições estão a conhecer e o impacto negativo fortíssimo na investigação e produção científica dos cortes nos orçamentos do sector. O Ministro vai negar a realidade, como sempre.
Lembrei-me apenas da velha e conhecidíssima história do burro do Inglês. O Inglês dono do burro, para poupar, foi dando cada vez menos comer ao burro  até que este se finou. Pensou o Inglês, "agora que o burro já conseguia estar sem comer é que morreu".
Haja alguém que rapidamente conte ao Ministro Nuno Crato esta história.
Há palavras e discursos que não se podem produzir, por gente intelectualmente séria, evidentemente.

FILHOS, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE MAS POUCO ACESSÍVEL

"Portugal registou menos 957 nascimentos até Agosto"

A situação portuguesa no que respeita aos nascimentos e renovação geracional continua a agravar-se. Apesar da retórica política sobre esta matéria, parece cada vez mais difícil reverter a tendência como alguns países europeus já conseguiram, casos da França e Irlanda.
Aguarda-se o repetidamente anunciado pacote de medidas do Governo com o objectivo de "remoção dos obstáculos à natalidade". Algumas notas registando como encaro com reservas medidas que não alterem alguns aspectos das políticas seguidas nos últimos anos.
Como aqui escrevia há dias, Portugal integra o grupo com menores apoios sociais para que os pais fiquem mais tempo em casa com filhos pequenos sendo que sobretudo nas zonas mais urbanas, (o interior desertifica-se o que também contribui para a baixa natalidade), a oferta de estruturas formais de acolhimento de bebés e crianças é insuficiente. Acresce que Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças.
Vivemos com uma taxa de desemprego que, oficialmente, ronda agora os 15% mas que sabemos atingir bastante mais gente. Muitas destas pessoas são sobretudo jovens ou mais idosos, o que, por razões diferentes, uns não podem assumir o encargo com filhos, os outros porque não têm recursos para ajudar os seus filhos, torna difícil a promoção da natalidade.
Importa ainda não esquecer a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc. Foi recentemente noticiado que algumas empresas exigem às mulheres um compromisso de que não irão engravidar nos próximos 5 anos. Não adianta argumentar com o quadro legal existente ou que venha a existir. Em Portugal a lei tem mais um carácter indicativo que imperativo.
Em tempos altamente competitivos com a proletarização do trabalho com cortes sucessivos nos salários e nas prestações sociais, as pessoas hipotecam os projectos de vida em troca das migalhas que permitam a sobrevivência o que lhes retira margem negocial ou liberdade de escolha.
A fiscalização e regulação são insuficientes, uso e abuso de estágios não remunerados ou miseravelmente pagos e que não asseguram continuidade, condições de trabalho degradantes cuja não aceitação implica a perda do lugar em troca por alguém ainda mais necessitado e, portanto, calado.
A promoção de projectos de vida familiar que incluam filhos implica, necessariamente, intervir nas políticas de emprego e protecção do emprego e da parentalidade, na discriminação e combate eficaz a abusos e a precariedade ilegal, na inversão do trajecto de proletarização com salários que não chegam para satisfazer as necessidades de uma família com filhos e custos elevados na educação apesar de uma escolaridade dita gratuita, na fiscalidade, por exemplo. A questão é que a política que tem vindo a ser seguida não permite acreditar que existam alterações.
Por outro lado, é urgente a acessibilidade real (na distância e nos custos) aos equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida.
É uma questão de futuro.

PROFESSOR, "A MAIS BELA E EXIGENTE PROFISSÃO DO MUNDO", (Nuno Crato)

Da entrevista de Nuno Crato à Visão que não tive ainda oportunidade de ler, registo uma referência que encontrei na imprensa, “professor é a mais bela e exigente profissão do mundo”. Recordo que já em Setembro de 2012 tinha afirmado que os professores “têm a profissão mais linda do mundo” acrescentando que ser professor “é um privilégio”, assente na possibilidade de transmitir saber às crianças.
Desta vez, finalmente, estou de acordo com o Professor Nuno Crato e acrescentaria que, se ser professor “é um privilégio”, ter acesso à educação de qualidade é um direito.
Creio que também estaremos de acordo que “a profissão mais bela e exigente do mundo”, “a profissão mais linda do mundo”, de quem tem o enorme “privilégio” de contribuir fortemente para que os miúdos sejam gente, deve ser exercida num contexto que a defenda e que defenda a qualidade do seu exercício envolvendo os professores, os alunos e as famílias.
Nesta perspectiva, apesar do romântico enunciado do Ministro sobre a "mais linda profissão do mundo", diria até se ele não se incomodasse, que se trata de um discurso salpicado de algum eduquês que certamente desagradará a José Manuel Fernandes e Guilherme Valente, ficam ainda mais incompreensíveis algumas medidas da PEC – Política Educativa em Curso de que Nuno Crato é responsável.
Não vou falar da questão do desemprego a que muitas pessoas que estavam e eram necessárias na “profissão mais bela do mundo” foram e vão ser votadas. Nem vou falar do insulto e humilhação que impôs a milhares de docentes que tinham o privilégio de desempenhar ou queriam aceder à “profissão mais linda do mundo” submetendo-os a uma sinistra PACC..
Mas vale a pena referir o aumento do número de alunos por turma que em muitos territórios educativos transformarão potencialmente a sala de aula num inferno que mais não serve do que para diminuir necessidades de profissionais com a “mais bela profissão do mundo”.
Vale a pena referir a regular deriva nos processos de colocação e o clima instalado nas escolas.
Vale a pena referir a espécie de reforma curricular operada, os mega-agrupamentos com dimensões insustentáveis, os apoios a alunos e professores insuficientes e desadequados.
Vale a pena referir …
Na verdade, dramaticamente, muitos professores não vão sentir o “privilégio” de desempenhar a “mais bela profissão do mundo” mas vão certamente perceber e sentir o quão exigente é, em qualquer circunstância, mesmo em ambientes tranquilos. Muitos têm, terão, um clima infernal nas escolas e nas salas de aula que deriva em boa parte do entendimento do Professor Nuno Crato sobre o que deve ser um sistema público de educação e ensino.
Ainda assim, são palavras bonitas, ficam sempre bem, mas fazem-nos duvidar.

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

A CIÊNCIA EUROPEIA EM ALERTA VERMELHO

"Carlos Moedas é o novo comissário da Investigação, Ciência e Inovação"

Ao que conseguimos apurar a comunidade científica europeia entrou em alerta vermelho ao tomar conhecimento de que Carlos Moedas será o Comissário Europeu da Investigação, Ciência e Inovação.
A preocupação não advém, evidentemente, do extenso e sólido currículo do novo Comissário em matéria de Ciência, Investigação e Inovação.
As reservas e procupações decorrem, sobretudo, do seu envolvimento numa política  de "Science killers" do Governo português e dos resultados notáveis do seu empenho e responsabilidade num Inovador modelo de intervenção económica que tem sido desenvolvido em Portugal.
Os excelentes resultados excelentes obtidos em diferentes áreas com o contributo inovador e com rigorosa fundamentação científica de Carlos Moedas terão aconselhado vivamente Juncker a esta nomeação que alimenta as maiores expectativas. 


AINDA FALTA TANTO TEMPO PARA O INÍCIO DAS AULAS, QUAL É A PRESSA. SIM QUAL É PRESSA?

"Directores e professores relatam "situações inexplicáveis" que "apontam para erros" na colocação de professores"

"Depois das colocações ainda há 3435 horários de professores por preencher nas escolas"

Ainda existem nas escolas 3435 horários de professor por preencher, um número insignificante.
Existem processos cheios de sobressaltos, inacabados, relativos à contratação e colocação de docentes, inquinados por critérios e decisões que dificilmente se compreendem.
Os directores, os professores e os pais expressam a sua preocupação com o arranque do ano lectivo.
Ainda falta imenso tempo para o início das aulas que apenas começarão bastante lá mais para frente, entre 11 e 15 de Setembro.
É também irrelevante os professores terem algum conhecimento prévio sobre a escola e os grupos de alunos com quem vão trabalhar. Na perspectiva do MEC, cada vez mais clara, o professor é um "entregador de conteúdos", não interessa conhecer a quem, nem como. No final fazem-se os exames e quem aprendeu, aprendeu e quem não aprendeu, aprendesse ... e vai para as vias vocacionais ou profissionais. Neste sentido os professores podem chegar às escolas na véspera das aulas ou mesmo depois, não tem problema nenhum, está tudo certo.
Neste cenário não consigo entender a preocupação que alguns expressam. Como diria uma conhecida figura da nossa praça, "Qual é a pressa? Sim qual é a pressa?"
Na verdade, a repetição anual desta situação sob a responsabilidade de uma equipa que pauta o seu discurso por referências constantes ao rigor, à qualidade, à exigência seria uma anedota se não representasse um patamar de incompetência e desrespeito pelos professores e pelos seu trabalho que não conhece limites.
É evidente que o MEC, numa já pouco saudável relação com a realidade virá, pela enésima vez afirmar que tudo está a correr dentro da normalidade.
No entanto, como há dias afirmava, começo a pensar que Nuno Crato terá mesmo razão e muitos de nós estaremos enganados, a incompetência, o desrespeito,  a demagogia passaram a ser a normalidade, portanto, está tudo bem.

Sem retorno.

terça-feira, 9 de Setembro de 2014

A ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA QUASE GRATUITA E QUASE UNIVERSAL

De acordo com um estudo divulgado há dias, as famílias portuguesas irão gastar em média cerca de 509 euros no início das aulas sendo que a despesa prevista por filho é de 346 euros.
Este montante inclui manuais, os respectivos e caros "anexos" (cadernos de ficahas ou actividades, CDs, etc.) que, aliás, aumentaram de preço num valor superior à inflacção, material escolar e outro equipamento considerado necessário à vida escolar.
Como é sabido no quadro constitucional vigente, lê-se no Artº 74º (Ensino), “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito; 
Desta leitura resulta de forma que creio clara a vinculação do Estado ao providenciar a escolaridade obrigatória de forma gratuita.
O MEC anunciou uma disponibilização de 2,2 milhões de euros para apoio às famílias mais carenciadas para a compra de manuais e material escolar. Para a aquisição de manuais haverá um aumento global da comparticipação em 5,7%. Relativamente ao material escolar o anunciado seria ridículo se não fosse grave, a comparticipação passa de 13 euros (2.º ciclo) ou 15 euros (3.º ciclo e ensino secundário) no escalão A para 16 euros, o que corresponde a um aumento de 23% e 6,5%, respectivamente. No escalão B, passa de 6,5 euros (2.º ciclo) e 7,5 euros (3.º ciclo e ensino secundário) para oito euros, correspondendo, em termos percentuais, ao mesmo aumento. Pode verificar-se a subida extraordinária dos apoios às famílias.
Na verdade, como referimos regularmente, o ensino obrigatório nunca foi gratuito nem universal, vejam-se as taxas de abandono, e os custos incomportáveis para muitas famílias dos manuais e materiais escolares num quadro em que a acção social escolar é insuficiente e tem vindo a promover sucessivos ajustamentos nos valores e critérios de apoio disponibilizados. No universo particular das famílias com crianças com necessidades especiais os custos da escolaridade obrigatória e gratuita são ainda mais elevados, bem mais elevados.
Num tempo em que a Constituição está sob escrutínio e é vista como bloqueio a iniciativas sobretudo no âmbito dos direitos e garantias e também num tempo em que a escola pública está sob ameaça, sendo um dos países europeus com maior assimetria na distribuição da riqueza, importa prevenir o risco acrescido de instalação de condições de insucesso escolar e abandono que, aliás, estão a aumentar preocupantemente com repercussões graves no acesso à qualificação, a base da mobilidade social, promovendo iniquidade e atropelando o direito à educação.

EDUCAÇÃO EM PORTUGAL VISTA DA OCDE

O habitual Relatório Anual da OCDE relativo à educação foi hoje divulgado, “Education at a Glance 2014”
O Relatório, apesar de estar em linha com os dos últimos anos, merece uma leitura atenta e uma reflexão pouco compatível com este espaço.
No entanto, algumas notas telegráficas de alguma leitura rápida ainda por aqui nos Açores.
Verifica-se um abaixamento do investimento no sistema de ensino público sendo bastante mais evidente no 1º e 2º ciclo e no ensino superior, (1º e 2º ciclo, 4660 € por aluno/ano € vs 6213 € em média na OCDE e 7764 € vs 10876 € em média na OCDE no ensino superior) o que contraria a tese crática de que não desce o investimento em educação, designadamente no ensino superior. Acresce ainda que é um dos países em que as famílias realizam mais esforço para apoiar a frequência de ensino superior.
Aumenta o número de jovens entre os 15 e os 29, 17%, bem superior à média da OCDE que não estudam nem trabalham o que é uma ameaça catastrófica sobre o seu futuro.
Portugal continua com um nível preocupantemente baixo de pessoas com qualificação abaixo do secundário e, apesar dos progressos, também no ensino superior o que contraria a imagem criada de um “país de doutores”.
Apesar do elevado nível de desemprego entre os licenciados, Portugal continua a ser um dos países em que a qualificação mais compensa ao nível da empregabilidade e estatuto salarial quando comparado com jovens sem o mesmo nível de qualificação. Este cenário desaconselha vivamente o discurso errado e recorrente “estudar para quê?” que, do meu ponto de vista, para além das dificuldades económicas das famílias estará associado a um abaixamento da procura na frequência do ensino superior.
Existe uma referência que alimentará alguns equívocos, Portugal apresenta um rácio de 1/10 entre professores e alunos que alimentará a tese dos “professores a mais” tão cara ao MEC e a algumas vozes com agenda própria mas importa, por exemplo, conhecer a dimensão e características de turmas das escolas com mais dificuldades.
Provavelmente voltaremos a mais alguns aspectos do Relatório.

segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

UMA BOA NOTÍCIA VINDA DA 5 DE OUTUBRO

"Escolas com piores resultados vão ter créditos horários"

Acabei de ler no Blogue do Paulo Guinote e, desculpa lá Paulo, mas fui ver para crer. Não me orgulho de o afirmar, mas fico sempre com alguma reserva face a notícias emanadas da 5 de Outubro.
E de facto o Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, João Granjo, referiu que oitenta escolas com níveis significativos de insucesso também acederão a credito horário de forma a criarem dispositivos de apoio que minimizem dificuldades. Esta decisão corrige uma situação inaceitável. 
A atribuição de mais meios ou recursos, no caso créditos horários a escolas que tenham promovido melhoria de resultados das escolas tinha, evidentemente, aspectos positivos. No entanto, como tenho referido desde a introdução deste dispositivo, era incompreensível que as escolas que mais dificuldades sentem na promoção de trabalho mais eficaz de alunos e professores, justamente as que mais apoios e recursos precisariam para lidar com esse enorme conjunto de dificuldades não acedessem a crédito horário.
Por outro lado e como também tenho dito, para além das especificidades de natureza contextual que contribuem para cenários mais complicados, vários dos aspectos da PEC - Política Educativa em Curso estarão associados a dificuldades criadas às escolas como cortes de professores e funcionários, insuficiência de dispositivos de apoio, mudanças curriculares inconsequentes, a excessiva concentração de alunos, o clima e a instabilidade nas escolas, a centralização excessiva que retira autonomia às escolas, etc.
Neste quadro deve sublinhar-se a evolução na posição do MEC nesta matéria.
Desejável seria que tal evolução se registasse também noutros aspectos da PEC.