quarta-feira, 23 de maio de 2018

IDEOLOGIA E EDUCAÇÃO


Como resposta a um artigo que David Justino assinando como Vice-presidente do PSD colocou no Público,Domingos Fernandes tem hoje também no Público um texto que justifica leitura “As políticas educativas não são neutras: a propósito de um texto de David Justino”.
Na verdade, acho sempre tremendamente interessante a discussão em torno das questões ideológicas designadamente no universo da educação. Como questiona Domingos Fernandes “há políticas públicas de educação neutras, asséticas, sem quaisquer visões acerca da vida social, da educação e das escolas?”. Não, é evidente que não existem. Aliás, é minha convicção que o académico David Justino talvez não escrevesse o que o vice-presidente do PSD, David Justino escreveu.
Já me aconteceu ao defender, por exemplo, os princípios de educação inclusiva ser “acusado” de produzir um discurso ideológico. Muito provavelmente os meus interlocutores esperariam que me procurasse “defender” através da evidência científica. No entanto a minha resposta foi qualquer coisa como “ainda bem que perceberam, o meu discurso foi claro, corresponde a uma visão de sociedade e, de educação e de escola. Agora vamos à evidência científica que a sustenta". Creio que ficámos na mesma, cada qual com a sua visão ideológica.
Acontece ainda que, com frequência se confunde ideologia com partidarismo. Como já afirmei, tenho uma visão ideológica o mundo que me rodeia mas não consigo encaixar-me numa visão partidária o que, naturalmente, será uma limitação da minha parte.
A verdade é que já cansa a forma habilidosa como muitas questões são abordadas em função da “ideologia”.
Boa parte das pessoas que contestam uma visão ideológica entende que o que defendem não tem carga ideológica, é asséptico, sendo que as ideias contrárias, essas sim, são sustentadas pela ideologia e devem ser combatidas.
Por vezes gostam de afirmar que são pragmáticos e apenas consideram a realidade, o que defendem não tem nada a ver com ideologia, mesmo quando, por exemplo, empunham um bandeira cheia de equívocos a que chamam “liberdade de educação”.
Consideremos de forma breve alguns aspectos.
Quem desmantela o Estado Social é pragmático quem o defende com equilíbrio e sem desperdício é por ideologia.
Quem desinveste na educação e na escola públicas, investe no ensino privado é por pragmatismo. Quem defende a educação e escola pública e a necessária existência de ensino privado regulado mas não financiado indevidamente pelo Estado é por ideologia.
Quem defende uma escola selectiva, competitiva e não inclusiva é por pragmatismo. Quem defende equidade e inclusão como objectivos civilizacionais é por ideologia.
Quem defende o empobrecimento “custe o que custar” é por pragmatismo. Quem entende que pobreza e exclusão não fomentam desenvolvimento é por ideologia.
Quem defende os apoios sem fim dos contribuintes ao sistema bancário fragilizado por administrações incompetentes ou delinquentes é por pragmatismo. Quem entende que não pode ser sempre o cidadão a pagar uma factura de que não é responsável é por ideologia.
Quem alimenta e se alimenta de um sistema de justiça fraco com os fortes e forte com os fracos é por pragmatismo. Quem entende que assim não deve ser é por ideologia.
Quem entende que tudo ou quase deve ser privatizado é por pragmatismo. Quem defende a presença do Estado em sectores essenciais para o bem-estar das populações é por ideologia.
Quem …
Na área que melhor conheço, a educação, tantas vezes me confronto com este modelo. Tantos interlocutores me dizem com a maior tranquilidade que quando os estudos ou a experiência não vão ao encontro das suas ideias, certas e pragmáticas, os estudos são mal feios e contaminados pela ideologia ou que a experiência não serve de argumento. Quando discordo, o meu discurso é ideológico e o do interlocutor é correcto, asséptico do ponto de vista ideológico, obviamente, suportado com a evidência científica que ao meu é negado porque os estudos … são ideológicos. Sim, como disse, o que penso tem uma carga ideológica, é assim que entendo o mundo.
Na verdade, não acredito em visões de sociedade sem arquitectura ideológica. Isso não existe, só por desonestidade intelectual se pode afirmar tal.
Há décadas que não tenho qualquer espécie de filiação partidária, não me orgulho nem me queixo, é assim que penso. Mas tenho posições que são de natureza ideológica sobre o que me rodeia e o que respeita à vida da gente. Não as entendo como únicas, imutáveis ou exclusivas, aliás, gosto mais de discutir e aprender com alguém que também assim se posiciona, sem manha, sem a falsidade do “não tenho ideologia” como se isso fosse uma fonte de autoridade.

O CURRÍCULO DO ENSINO BÁSICO E SECUNDÁRIO, O PARECER DO CONSELHO DAS ESCOLAS


A imprensa de hoje divulga o parecer do Conselho das Escolas sobre os novos currículos do ensino básico e secundário. Apesar do reconhecimento de algumas virtualidades o parecer é negativo ainda que com uma votação equilibrada. É um sinal a ter em conta neste processo.
De facto, importaria que as mudanças ou experimentação em educação entendidas por pertinentes não se realizassem de forma apressada, sem um consenso tão sólido quanto possível sobre objectivos, conteúdos e calendário e a consideração prévia das condições e requisitos que sustentem as mudanças em execução que, reafirmo, me parecem necessárias e num sentido positivo.
Como muitas vezes refiro, é tão importante "fazer as coisas certas como fazer certas as coisas". Se bem repararmos nem sempre isto se verifica, mesmo na nossa acção individual. Em políticas públicas é ainda mais necessário.
Algumas das questões levantadas pelo Conselho de Escolas também foram consideradas no parecer do CNE. Mantém-se uma visão de disciplinarização de competências e saberes, logo no 1º ciclo e com mais disciplinas no 2º e 3º ciclo o que parece contrariar um modelo mais integrado que consta dos princípios orientadores do próprio texto em apreciação e do Perfil do Aluno, a base da mudança.
De salientar também a referência ao risco de que a autonomia das escolas em matéria de currículo seja pouco mais do que uma intenção pois, como também já escrevi e a necessidade de considerar que se a autonomia das escolas for real e que tal se traduza em autonomia curricular então também dever ser considerada alguma autonomia em matéria de afectação de recursos humanos.
Recorde-se que o ME entende que dos projectos de flexibilização curricular das escolas não pode decorrer aumento no corpo docente.
Esta questão, a contratação de docentes/técnicos por parte das escolas, é complexa e geradora de conflitualidades mas, de facto, não pode estar separada de qualquer discussão em torno da autonomia das escolas.
Não simpatizo com unanimidades e a educação é também uma matéria sensível a valores, posições ideológicas e divergências científicas para além de demasiadas vezes ser contaminada pela conflitualidade partidária. No entanto, julgo importante a existência de algum consenso construído de forma participada sob pena de comprometer os resultados e a qualidade de qualquer processo de mudança que por natureza já é difícil.

PARTIU PHILIP ROTH

Os tempos vão de perda. Partiu Philip Roth. Como diria João Bénard da Costa, outro Sábio, Roth era muito aqui de casa.
E continuará a ser.



terça-feira, 22 de maio de 2018

PARTIU JÚLIO POMAR

Partiu Júlio Pomar, um dos Mestres da nossa cultura e cidadania e um construtor de liberdades. 
Recorrendo a Camões, Júlio Pomar será mais um Homem que por obras valorosas se libertará da lei da morte.

OS TEMPOS DA ESCOLA. DE NOVO


A imprensa divulgou a proposta de Organização do Calendário Escolar para o próximo ano lectivo.
Mais uma vez teremos um ano lectivo com enorme desequilíbrio na duração dos períodos escolares, os dois primeiros períodos muito extensos e um terceiro mais uma vez curtíssimo até à entrada no período de avaliações. A dependência do período de interrupção lectiva de uma festa religiosa móvel, a Páscoa, condiciona fortemente o calendário criando regularmente esta situação que é obviamente pouco amigável para o trabalho de professores e alunos.
Também por esta razão a Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas sustenta a ideia que já havia divulgado em Junho de 2016 no sentido de que a organização do ano lectivo deveria ser em dois semestres e não em três períodos como actualmente. A proposta, afirmam, minimizaria os efeitos das assimetrias de duração entre os períodos, seria positiva para a organização das escolas e a existência de dois intervalos de avaliação dos alunos é mais positiva em termos escolares que o modelo actual.
Julgo e também já o tenho afirmado que esta questão deveria ser repensada. Aliás, os tempos da escola justificariam ser globalmente repensados.
Se bem se recordam o blogue ComRegras promoveu em 2016 um inquérito dirigido a directores de escolas e agrupamentos no qual 54.1% dos 181 directores que responderam concorda que o ano escolar seja organizado em dois semestres e não nos habituais três períodos de aulas.
Como já tenho referido, não tenho uma posição fechada e fundamentada sobre as eventuais vantagens sendo certo que existem outros sistemas em que se verifica o modelo semestral.
No entanto, creio que mesmo numa organização em três períodos a situação que suscita mais dúvidas é o desequilíbrio que frequentemente se verifica na duração dos períodos e que se repete de forma muito evidente no próximo ano lectivo.
Parece claro que esta situação não é a mais adequada e julgo ser de considerar um modelo semestral embora mesmo no modelo actual e sabendo que não é fácil mudar a tradição, mudar nunca é fácil, talvez fosse de tentar que o calendário escolar não esteja colado a festividades móveis.
No entanto, creio que vale a pena reflectir nestas matérias, ouvindo a participação dos vários actores, estudando experiências de outros sistemas e, eventualmente, de uma forma tranquila, oportuna no tempo, repensar o calendário escolar.
Nesta reflexão deveria estar incluída a discussão dos benefícios e eventuais efeitos negativos da criação de uma “pausa” a meio do primeiro período (ou de cada semestre) modelo existente em vários países.
Creio mesmo que seria desejável que pudéssemos reflectir de forma global para os tempos da escola considerando outros aspectos.
Num país com as nossas condições climáticas, tal como genericamente no sul da Europa, e considerando boa parte do nosso parque escolar, aulas prolongadas até ao Verão seriam algo de, literalmente, sufocante.
A Confap tem defendido onze meses de actividade na escola. Sendo a guarda das crianças um problema sério e que reconheço, também entendo que não pode ser resolvido prolongando até ao “infinito”, a infeliz ideia de “Escola a Tempo Inteiro”, a estadia dos alunos na escola. A “overdose” é sempre algo de pouco saudável.
No que respeita aos tempos escolares, os alunos portugueses, sobretudo no início da escolaridade tem umas das mais elevadas cargas horárias. Como bem se sabe, mais horas de trabalho não significam melhor trabalho e os alunos portugueses já passam um tempo enorme na escola. Talvez seja de introduzir nesta equação a variável “áreas disciplinares e currículos”, considerando o número de áreas ou disciplinas, conteúdos, organização de anos e de ciclos, etc.
Neste contexto, insisto, seria desejável reflectir sobre os tempos da escola.

ANTÓNIO ARNAUT


Partiu António Arnaut, um homem a quem a democracia e os direitos, em particular o direito à saúde, muito ficaram a dever  
É interessante observar como muitos dos que têm contribuído para degradar a sua obra maior, o Serviço Nacional de Saúde, correm a prestar-lhe a sua sentida homenagem e afirmar isso mesmo.
Como dizia Pedro Abrunhosa a propósito da morte de Manoel de Oliveira e da unanimidade que de repente se instalou sobre a figura, só na morte ou na mediocridade é que se gera unanimidade.
António Arnaut não era um medíocre. Ao contrário de muitos dos que correm a homenageá-lo.

O ESTATUTO DO ADEPTO


Uma rápida vista de olhos pela imprensa online fez-me tropeçar com uma notícia que me deixou perplexo.
Um dos clubes chamados “grandes”, o Sporting, fez distribuir às crianças participantes num evento das escolas da sua Academia um “estatuto do sportinguista”, um guia de 10 pontos sobre a forma de ser apoiante do clube.
Dois dos pontos determinavam que “"O sportinguista é fanático – só vê o seu leão e nada mais" e num outro ponto "ser do Sporting é saber dizer sempre o pior do adversário".
A notícia acrescenta que uma fonte oficial do clube lamentou a distribuição deste material que terá sido distribuído sem “ser devidamente analisado”. É importane a posição mas chega tarde.
Também sou adepto de um clube e sei que a, para muita gente inexplicável, paixão por um clube existe.
No entanto, iniciativas desta natureza não têm a ver com paixão, tem a ver com uma lamentável falta de formação cívica e ajudam a alimentar o clima deplorável e perigoso que se tem vindo a instalar em torno desta nossa paixão, o futebol. Sublinho que na actual situação não existem santos e pecadores.
Como dizia Paulo Freire, a educação não muda o mundo, transforma as pessoas. As pessoas é que transformam o mundo.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

DA SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES


A propósito do seu trabalho “A saúde mental dos portugueses” divulgado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, o Professor Caldas de Almeida produz em entrevista ao Observador um retrato real e preocupante da saúde mental em Portugal.
Os indicadores disponíveis mostram que as perturbações no âmbito da saúde mental são uma matéria grave em Portugal com impactos fortíssimos no bem-estar pessoal e familiar e também económicos através da perda de funcionalidade e de gastos brutais em medicação. Algumas notas relativas á situação de crianças e adolescentes.
Dados do European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs de 2016 sugerem que 13% os jovens portugueses até aos 16 anos consome antidepressivos e tranquilizantes. O estudo envolveu 96043 jovens de 35 países, 3456 portugueses alunos de escolas públicas. O valor é impressionante, a média é de 8%.
Muitas vezes aqui tenho escrito sobre a questão grave da saúde mental de crianças e adolescentes portugueses que, do meu ponto de vista, tem sido uma área desvalorizada, aliás, a saúde mental tem sido um parente pobre das políticas de saúde pública.
Um estudo divulgado em 2015 realizado pela Faculdade de Psicologia e Educação da Universidade de Coimbra em colaboração com entidades estrangeiras apontava para que 8% por cento dos adolescentes portugueses que frequentam o 8.º e o 9 º ano apresentam sintomatologia depressiva e 19% estarão em risco de desenvolver a doença. O estudo contemplava também um programa de prevenção a promover em meio escolar, com a participação dos pais, que pareceu indiciar bons resultados.
Em Maio de 2014, o Expresso relatava que em 2013 se tinham registado cerca de 20 000 novas consultas de pedopsiquiatria, mais 30% que em 2011. Era um indicador preocupante e ainda mais preocupante pela inexistência de resposta adequada e acessível para muitas crianças e adolescentes.
Recordo também que em 2014 foi noticiada a interrupção dos apoios a crianças e adolescentes da região do Algarve pois o programa de que beneficiavam, Grupos de Apoio à Saúde Mental Infantil, que já tinha merecido prémios de boas práticas, foi suspenso em vez de ser generalizado. Esta suspensão foi obviamente sentida com grande inquietação por famílias e profissionais.
Em 2012 esteve em Portugal um especialista nesta área, Peter Wilson, que, naturalmente, referia a necessidade de que nas escolas e na comunidade próxima existam apoios aos professores, às famílias e às crianças com dificuldades emocionais, a única forma, entende, apoiado na sua experiência, de minimizar e ajudar neste tipo de problemas que, não sendo acautelados, têm quase sempre efeitos devastadores em termos pessoais e sociais. Segundo Peter Wilson, os estudos em Inglaterra sugerem a existência de três crianças com problemas do foro emocional em cada sala de aula pelo que o apoio é muito mais eficaz e económico prestado na escola ou na comunidade próxima a alunos, famílias e professores. Este entendimento é partilhado, creio, pela generalidade dos profissionais e famílias, também em Portugal e os dados conhecidos apontam nesse sentido.
Há algum tempo a imprensa referia a inexistência de camas nos serviços de pedopsiquiatria que possam acomodar adolescentes em tratamento o que leva a que em muitas circunstâncias adolescentes sejam internados em serviços de adultos o que na opinião dos especialistas pode ser uma experiência "traumatizante" sendo, aliás, contrárias às boas práticas de qualquer país civilizado em matéria de saúde mental.
Está nos livros e nas experiências que em situação de crise os mais vulneráveis, crianças e adolescentes, por exemplo, são, justamente, os mais sofredores com as dificuldades. Acresce que, actualmente, se verifica em muitos agregados familiares e em contextos escolares a emergência de discursos que pressionam os mais novos no sentido de atingirem a excelência nos resultados escolares ou em qualquer actividade “importante” pois será, dizem, a “única” forma de atingir um patamar de sucesso futuro.
Como se sabe e a experiência mostra, muitas crianças e adolescentes não suportam com tranquilidade esta pressão o que se repercute no seu bem-estar e na sua saúde mental. Para complicar um pouco mais, ainda se verifica que algumas pessoas desvalorizam estes fenómenos, entendendo que é preciso ser exigente e bem-sucedido e não entendendo o sofrimento de algumas crianças e jovens.
Por outro lado é também conhecida a enorme dificuldade que muitas instituições que acolhem menores estão a passar dificultando a resposta com a qualidade bem como a possibilidade de responder a novas situações.
Os miúdos, nas famílias preferencialmente, ou nas instituições, necessitam de um aconchego, um ninho, uma qualidade de vida que os cuidadores, por diversas razões, não sabem, não querem, não podem ou não são capazes de providenciar. Tal cenário implica riscos fortíssimos de compromisso do seu futuro pelo que os apoios e resposta são fundamentais mas não podem passar apenas pela medicação.
Como o povo diz, é de pequenino que se torce o … destino.

domingo, 20 de maio de 2018

É SOBREDOTADO, NÃO PRECISA DE APOIO


No âmbito da realização do seu 13.º Congresso Internacional a Associação Nacional para o Estudo e a Intervenção na Sobredotação defende que a proposta legal relativa à designada “educação especial” que aguarda aprovação no Conselho de Ministros contemple explicitamente a questão dos alunos sobredotados.
Independentemente da forma como possa ser tratada do ponto de vista do enquadramento legislativo, esta problemática tem habitualmente menos atenção específica do que seria desejável.
Este grupo, que de acordo com os especialistas se estima até cerca de 80000 crianças e jovens em Portugal, enquanto grupo minoritário sofre com essa natureza. Parece consensual que os apoios aos alunos, professores e pais são manifestamente insuficientes. Aliás e como muitas vezes aqui tenho referido, esta questão envolve crianças e adolescentes com necessidades especiais de diferentes naturezas. Nada de novo, portanto, lamentavelmente.
No caso mais particular das crianças sobredotadas acrescem algumas outras questões. Em primeiro lugar a dificuldade em avaliar este tipo de situações e o desconhecimento genérico sobre esta matéria que parte significativa dos agentes educativos evidencia. Em muitas situações, conheci algumas, os comportamentos e o funcionamento das crianças e até mesmo as dificuldades escolares experimentadas por algumas eram considerados consequência das mais variadas razões nunca relacionadas com um quadro de sobredotação.
Acontece ainda que com alguma frequência se estabelece o enorme equívoco de que "se a criança é sobredotada não precisa de ajuda", sendo que o próprio Ministério da Educação assim considerou durante muito tempo.
Na verdade, as crianças e adolescentes com sobredotação podem experimentar enormes dificuldades no seu percurso educativo a que as escolas dificilmente dão respostas, tal como têm dificuldade em assegurar respostas eficazes e com os recursos necessários a outros grupos de alunos.
Sem ser um especialista nesta área, a sobredotação, entendo que a única forma de responder à diferença entre os alunos é diferenciando o trabalho educativo, diferenciando as respostas educativas, construir modelos curriculares de natureza mais aberta e flexível tal como definir dispositivos de avaliação também com algum nível de diferenciação e, finalmente ter modelos de autonomia e organização escolar reais bem como dispositivos de apoio competentes e suficientes.
Este cenário, enunciado a propósito dos alunos sobredotados, é a melhor forma de acomodar as diferenças entre os alunos, qualquer que seja a sua expressão, e promover, de facto, uma educação inclusiva que idealmente não deixe ninguém para trás.

CRIANÇAS, ADOLESCENTES E O MUNDO DIGITAL


A entrevista do Professor Paulo Oom no DN sobre a relação das crianças e adolescentes com o mundo digital é de leitura aconselhada.
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sábado, 19 de maio de 2018

DA MANIFESTAÇÃO DOS PROFESSORES. ALGUMAS COISAS QUE SEI

Como é conhecido está marcada para hoje à tarde em Lisboa uma manifestação dos professores por razões de carreira e estatuto salarial.
Como é óbvio não sei que consequências terá e também a sua expressão embora antecipe alguma divergência quanto ao número de participantes, faz parte deste tipo de eventos.
No entanto existem algumas coisas que eu sei, alguns exemplos.
Sei que alguns dos problemas dos professores são também problemas nossos. Sempre assim acontece quando está em causa a qualidade da educação e da escola, pública ou privada, e o trabalho de alunos, professores e pais.
Sei que os sistemas educativos com melhor qualidade, independentemente dos critérios de qualidade são, em regra, os que mais valorizam os professores, em termos sociais, em termos profissionais e também no estatuto salarial.
Sei também que muitos discursos produzidos pela tutela nos últimos anos, muitos discursos de representantes dos professores e de alguns professores, muitos discursos de opinadores ignorantes e/ou com agenda são fortes contributos para o clima que se vive nas escolas.
Sei também que o futuro passa pela educação e pela escola donde …
Sei que a defesa da qualidade da educação e da escola, pública e também privada, passam incontornavelmente pela defesa e valorização das condições de trabalho, em diferentes dimensões, que possibilitem que o trabalho de escolas, professores, directores, técnicos, funcionários, alunos e pais tenha o melhor resultado possível.
Mas não sei o que vai acontecer.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

O MAL-ESTAR COMO SEMENTE. MAIS UMA TRAGÉDIA


Desta vez o choque e o horror aconteceram em Santa Fé, Texas. Pelo menos oito pessoas morreram em mais um tiroteio numa escola secundária sendo que o número de vítimas pode subir. Ao que parece, os responsáveis, já detidos, são alunos da escola.
Acrescenta-se assim mais um marco trágico num a um caminho que já vai longo, demasiado e brutalmente longo. Recorde-se alguns dos mais brutais, Parkland, em Fevereiro deste ano, Columbine (1999), Virgina Tech (2007), ou Sandy Hook (2012) .
Em cada momento desta trágica natureza invade-nos um sentimento de perplexidade. Porquê?
Acontecem com regularidade episódios desta natureza ainda que alguns com menor gravidade. Para além dos episódios que referi nos Estados Unidos também a Noruega, França ou Finlândia assistiram a grandes tragédias.
Em alguns casos, lembro-me, por exemplo, dos distúrbios de há uns anos em Inglaterra em que os comportamentos observados assemelhavam-se grotescamente a um videojogo violento com personagens reais.
Também em Portugal se têm verificado alguns casos de violência extrema envolvendo jovens, apesar de terem, felizmente, efeitos menos trágicos, levando-nos a questionar os nossos valores, modelos educativos, códigos e leis pela perplexidade que nos causam.
Esta perplexidade exige a necessidade de tentarmos perceber um processo que designo como "incubação do mal" que se instala nas pessoas, muitas vezes logo na infância e adolescência, a partir de situações de mal-estar que podem passar relativamente despercebidas mas que insidiosamente começam a ganhar um peso interior insuportável cuja descarga apenas precisa de um gatilho, de uma oportunidade.
A fase seguinte pode passar por duas vias, uma mais optimista em que alguma actividade, socialmente positiva, possa drenar esse mal-estar, nessa altura já desregulação de valores, ódio e agressividade, ou, a outra via, aumenta exponencialmente o risco de um pico que pode ser um tiroteio numa escola ou noutro espaço público, a bomba meticulosamente e obsessivamente preparada ou uma investida contra alguém arriscando a entrada numa espiral de violência cheia de "adrenalina", em nome de coisa nenhuma a não ser de um "mal-estar" que destrói valores e gente. O jovem envolvido neste episódio era reconhecidamente um jovem que “incubava o mal” pelos testemunhos conhecidos e, aparentemente, foi deixado entregue a si e ao seu mal-estar.
É evidente que a punição e a detenção constituírem um importante sinal de combate à sensação de impunidade perigosamente presente na nossa comunidade mas é minha forte convicção de que só punir e prender não basta.
Assim, sabendo que prevenção e programas comunitários e de integração têm custos, importa ponderar entre o que custa prevenir e os custos posteriores da violência, da delinquência continuada e da insegurança.
Importa ainda estratégias mais proactivas e eficientes de minimizar a guetização e "quase total" desocupação de, em Portugal, centenas de milhares de elementos da geração "nem, nem" nem estuda, nem trabalha. Para esta gente, o futuro passa por onde, por quem e porquê?
Finalmente, a importância de uma precoce e permanente atenção às pessoas, ao seu bem-estar, tentando detectar, tanto quanto possível, sinais que indiciem o risco de enveredar por um caminho que se percebe como começa, mas nunca se sabe como acaba.
Nos Estados Unidos, na Noruega, na França, na Alemanha, ... ou em Portugal.

DO MELHOR PROFESSOR DO MUNDO E DO MELHOR PROFESSOR DE PORTUGAL


Na véspera de realização de uma manifestação dos docentes em protesto por razões profissionais, umas notas a propósito da iniciativa de eleger o melhor professor do mundo e o melhor professor de Portugal. Os eleitos dos Teacher Prize foram Andria Zafirakou, professora em Londres e José Jorge Teixeira, professor de Física e Química na Escola Secundária Júlio Martins, em Chaves. Uma saudação aos dois pelo seu desempenho e a sugestão de que se leiam as entrevistas de ambos.
Acho que este tipo de iniciativas pode ter algum significado sobretudo como valor simbólico de valorização e reconhecimento do trabalho dos professores num tempo em que tal reconhecimento e valorização nem sempre são sólidos e expressos. No entanto, não acredito muito na ideia do melhor professor de …   
A esmagadora maioria dos professores é competente e empenhada nesse trabalho, procurando desenvolvê-lo com qualidade, rigor e eficácia, sem facilitismos, contrariamente ao que tantas vezes se afirma de forma ignorante. Todos os dias, em todas as escolas muitos professores fazem trabalhos de notável qualidade que mais frequentemente apenas são valorizados e conhecidos … pelos seus alunos.
Quando qualquer de nós faz um esforço para recuperar lembranças positivas sobre os professores, poucos ou muitos, com que nos cruzámos durante o nosso trajecto escolar, creio que quase todos nos lembramos de professores que continuam na nossa lembrança não só pelos saberes escolares que nos ajudaram a adquirir mas, sobretudo, por aquilo que representaram e foram para nós, ou seja, pela forma como nos marcaram. Cada um desses professores é, certamente, o melhor professor que conhecemos.
Por isso, cada vez mais estou convicto de que os professores, tanto quanto ensinar o que sabem, ensinam o que são, ou seja, existem muitos que nos ensinam saberes, o que é bom e indispensável, mas nem todos permanecem com a gente.
Parece-me sempre oportuno mas nestes tempos mais que nunca acentuar a importância desta dimensão mais ética e afectiva do ensino. Deve ser valorizada e promovida para que os miúdos possam, posteriormente, falar dos professores que os marcaram e que, por essa razão, continuaram com eles.
Para complementar permitam-me recuperar uma história que já aqui coloquei, o Mestre Teixeira, o mestre de Fusíveis.
O Mestre Teixeira foi há muitos anos professor de uma escola que havia naquele tempo que se destinava mais a ensinar o saber-fazer do que o saber-saber. Chamavam-lhes escolas técnicas, umas mais dirigidas para a indústria, as industriais, outras mais dirigidas para os serviços, as comerciais.
O Mestre Teixeira era professor numa escola industrial e era especialista nas coisas da electricidade, sabia tudo sobre esse mundo e tinha, isso é que o fazia ser como era, uma paixão enorme por aquelas coisas. Algumas pessoas, o Mestre Teixeira era uma delas, gostam que toda a gente goste das coisas que os apaixonam e era a partir dessa paixão que ele se relacionava com os alunos.
Mas a grande virtude do Mestre Teixeira era a sua capacidade para entender os alunos, ler os alunos, como eu costumo dizer. Tinha uma capacidade notável de perceber o que se passavam com os adolescentes, o que os levava aos comportamentos ou às dificuldades que evidenciavam. Era quando ele falava qualquer coisa como "tens algum fusível a precisar de ser visto ou a queimar". Tinha então a sabedoria para perceber o que se passava e "arranjar" os fusíveis que não estavam em boas condições. Tal sabedoria e faziam dele um daqueles professores que nos marcam, ensinam o que são, mais do que o que sabem, mesmo quando sabem muito, como era o caso do Mestre Teixeira.
Por isso toda a gente lhe chamava O Mestre de Fusíveis. Hoje, mais do que nunca, fazem falta os Mestres de Fusíveis.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

DESCALÇA NA RELVA? NÃO PODE SER, TEM BICHOS, FICAS DOENTE


É verdade, também existe uma iniciativa mundial designada por “Dia de Aulas ao Ar Livre” que pelo terceiro ano também em Portugal é assinalado. Segundo o Observador, de pois de no ano passado se terem envolvido cerca de 40 000 alunos em actividades ao ar livre como ia de aulas, estima-se que hoje perto de 60 000 possam experiências dessa natureza.
É um caminho que me parece de registar e que vai sendo percorrido.
Recordo de aqui ter referido em Fevereiro de 2017 um projecto que envolvia vários Jardins de Infância de Coimbra e estruturas de ensino superior com o objectivo de levar as crianças a brincar no exterior, na mata do Choupal, qualquer que seja o tempo. As poças, as árvores ou os trilhos com lama, são equipamentos educativos. Não conheço o desenvolvimento do projecto mas espero que tenha tido continuidade.
De facto, muitas vezes aqui tenho referido a importância das actividades ao ar livre que deveriam ser uma rotina e não uma excepção na educação formal e não formal dos mais novos.
Somos dos países da Europa em que adultos e crianças menos desenvolvem actividades no exterior contrariamente, por exemplo ao que se verifica nos países nórdicos. É verdade que esses países têm habitualmente climas bastante mais amenos que o nosso mas, ainda assim, poderíamos ter durante mais tempo crianças e adultos a realizar actividades no exterior. O Estudo do Meio poderia também por regra ser … no meio.
Estão de há muito identificadas as vantagens de diferentes naturezas que estas actividades trazem às crianças e também aos adultos, não vale a pena repetir.
Recordo umas notas a partir de uma cena a que assisti e que já aqui contei.
Num fim de tarde em que fazia uma caminhada num espaço verde muito grande e bonito que existe perto de casa e passei por um grupo familiar. Deu para perceber que uma gaiata pequenina vinha descalça ao colo do pai e pedia para que ele a pusesse no chão relvado. Ouvi o pai dizer que não se pode andar descalço, para ela não ser teimosa porque se quis descalçar e agora tinha que ir ao colo. Para convencer a criança, falava-lhe, cito dos "bichos que estão no chão”, da “quantidade de doenças que apanharia de andar na relva descalça" e mais que entretanto já não ouvi. Reparei ainda que a criança vinha a comer qualquer coisa que ia retirando de um pacote.
É notável, aquele pai revelava uma enorme preocupação com os riscos gravíssimos de andar descalço num relvado bem tratado e, habitualmente, sem a visita dos cães e achava aparentemente, natural a criança comer qualquer coisa hipercalórica certamente muito perto da hora de jantar.
Esta atitude ilustra algo que entre nós está muito presente, um aparente discurso de preocupação que, embora se perceba, eu diria excessiva, com muitas das actividades que as crianças podem, eu diria devem, fazer e, ao mesmo tempo, somos frequentemente negligentes com aspectos verdadeiramente graves de que cito como exemplos o enorme número de acidentes domésticos com crianças ou a obesidade infantil que já é um problema sério de saúde pública.
Muitas vezes, estes pais que protegem tanto as crianças dos riscos de andar descalço, por exemplo, estão também entre os que descansam, no seu entendimento, quando as crianças estão "livres de riscos" no quarto, sós, trancadas num ecrã.
Deixem lá os putos andar descalços e rebolar na relva. E já agora juntem-se a eles. Faz bem a todos.
Finalmente, ainda uma chamada de atenção para duas peças muito interessantes sobre estas questões expressas por dois especialistas.
A primeira, uma entrevista ao pediatra Pedro Oom a propósito do seu livro, “Infectário”. A segunda, também uma entrevista ao investigador Brett Finlay, co-autor do livro “Deixe-os Comer Terra”. Em ambas as entrevistas se sublinha a importância de repensar a nossa acção educativa muito marcada pela inibição de experiências e actividades importantes a vários níveis para o desenvolvimento e bem-estar das crianças.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

EM CASA DOS PAIS ATÉ ... VAMOS VER QUANDO


No Público de ontem referiam-se dados do Eurostat relativos a 2017 segundo os quais os jovens portugueses abandonam a casa dos pais cerca dos 29.2 anos em média.
A este propósito recordo que em Janeiro a Caritas  divulgou um Relatório sobre Portugal “Os jovens na Europa precisam de um futuro!” no qual caracteriza a dificuldade dos jovens portugueses em construir projectos de vida autónomos e positivos.
Nesse trabalho são identificados como dimensões críticas a dificuldade em aceder a trabalho digno, a precariedade laboral, os custos elevados da educação e qualificação e os elevados custos no acesso, renda ou compra, de habitação.
Este cenário ajuda a perceber algumas das mais fortes razões pelas quais os jovens em Portugal abandonam a casa dos pais em média aos 29,2 anos e a tendência é de que tal aconteça cada vez mais tarde. Como é habitual nos países nórdicos verifica-se a saída mais precoce, cerca dos 21anos e no sul da Europa estão os países com a saída mais tardia e nos quais se inclui Portugal. Como já referi, para além das questões de natureza cultural e de valores que importa considerar bem como as políticas de família nos países do norte da Europa, as actuais circunstâncias de vida dos jovens sustentam este cenário que provavelmente demorará a ser revertido.
Segundo o INE e considerando o primeiro trimestre de 2017, existiriam em Portugal cerca de 175 mil jovens entre os 15 e os 29 anos que não estudam, nem trabalham, a geração “nem, nem" ou, na terminologia em inglês os jovens NEET (Not in Education, Employment or Training).
Destes, estima-se que perto de 67 mil não estão inscritos nos centros de emprego. São números impressionantes.
Parece importante assinalar que esta situação afecta sobretudo jovens com menos qualificações e mulheres, o que também não é novo. A exclusão escolar é quase sempre a primeira etapa da exclusão social.
Por outro lado, bem mais de 100 000 jovens, sobretudo qualificados, têm vindo a sair do país, emigrando para outras paragens em busca de uma futuro que por cá não vislumbram.
A estes indicadores já profundamente inquietantes deve juntar-se os dados sobre precariedade, abuso do recurso a estágios e outras modalidades de aproveitamento de mão-de-obra barata e a prática de vencimentos que mais parecem subsídios de sobrevivência mesmo para jovens altamente qualificados.
Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem obviamente sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão, os dados hoje conhecidos mostram-no, o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por sua vez se repercutem no inverno demográfico que atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais. As gerações mais novas que experimentam enormes dificuldades na entrada sustentada na vida activa, vão também, muito provavelmente, conhecer sérias dificuldades no fim da sua carreira profissional.
No entanto, um efeito muito significativo mas menos tangível desta precariedade no emprego, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à própria vida no seu todo e que, com alguma frequência, os discursos das lideranças políticas acentuam. Dito de outra maneira, pode instalar-se, está a instalar-se nos jovens, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não vislumbra saída mobilizadora e que recompense.
O aconchego da casa dos pais pode ser a escapatória para a sobrevivência.

NÃO MATEM ESTA COISA LINDA, O FUTEBOL


Não é matéria que aqui aborde com frequência mas é umas das minhas paixões, o futebol.
Talvez por isso da última vez que o fiz, o texto tinha como título “Não matem essa coisa linda, o futebol”. Pois parece que querem mesmo liquidar o futebol. Os fins-de-semana são regularmente marcados por incidentes com adeptos, agressões a árbitros, agressividade verbal e ofensas nos comentários, tudo o que se antecipava e não ficará certamente por aqui.
Em tempos, a propósito de um apelo de contenção do presidente da Federação Portuguesa de Futebol dirigido aos responsáveis clubísticos escrevi que o alerta vinha tarde, as estruturas directivas e reguladoras são parte do problema embora, evidentemente, se espere que façam parte da solução.
Na verdade, também no desporto, em particular no futebol, os tempos andam feios, por cá e por fora. Estranho seria se assim não fosse.
A minha paixão pelo futebol vai resistindo mal aos maus tratos que vai recebendo. São recorrentes e progressivamente mais radicalizados e violentos os comportamentos e discursos que o envolvem para além da componente negócio que também desempenha um papel importante no clima criado.
A espiral de gravidade dos episódios que já se anunciava começa a confirmar-se da irracionalidade e do ambiente de hostilidade e ódio instalados. Os mais recentes episódios envolvendo as claques e as direcções do Benfica, Porto e Sporting mas não só mostram quão próximo podemos estar acontecimentos ainda mais graves.
Os acontececimentos de ontem nas instalações do Sporting foram mais um passo numa escalada de violência que não se sabe onde nos levará.
Há algum tempo a imprensa referia (desejava) que os clubes, leia-se as suas direcções, pudessem tomar medidas face ao comportamento de alguns, muitos, energúmenos que fazem parte das suas claques.
É no mínimo ingénuo acreditar nisto. As direcções e os seus empregados e porta-vozes, os seus discursos, comportamentos e decisões são também parte substantiva do problema, não podem ser parte da decisão.
A mediocridade da generalidade dos dirigentes produz discursos e comportamento que inflamam muitos dos apoiantes, apoiam e organizam as suas actividades. Servem-se deles para os jogos de poder e devem-lhes isso.
É um mundo em que não existem santos e pecadores. Talvez a bola seja o elemento mais são deste universo apesar de tantas vezes também ser maltratada.
Já dificilmente me mobilizo para ir a um estádio, não consigo assistir aos milhentos programas televisivos onde opinadores avençados, salvo algumas raras excepções, vão papagueando agendas encomendadas e se envolvem em obscenas trocas de agressões e boçalidades que são mais um alimento para o clima instalado de ódio, hostilidade e agressividade.
O problema é que não consigo não continuar fascinado com esse jogo estranho chamado futebol. Por isso me inquieta tudo isto. Não dêem cabo do futebol.

terça-feira, 15 de maio de 2018

O QUE EU GOSTO NA MINHA ESCOLA. OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL


Olá João, como vai a escola?
Na mesma, uma seca.
Uma seca?! Parece-me que não gostas assim muito da escola.
Não tio, não gosto assim muito da escola, quer dizer, há coisas que gosto e coisas que não gosto.
É normal, há sempre e em todo o lado coisas de que gostamos e coisas de que não gostamos. Mas temos que ser positivos. De que gostas mais na escola?
Dos intervalos, é quando estou com os meus amigos e com a Sara.
Bom, mas deve haver outras alturas em que gostas da escola?
Sim, ao fim de semana e nas férias.
E das disciplinas que tens, de quais gostas mais?
De Educação Física porque o setor deixa-nos sempre jogar futebol e também gosto do Trabalho de Projecto.
A Área de Projecto é muito interessante, sim senhor, e porque gostas?
Porque não fazemos nada, posso estar a jogar com o telemóvel.
E não tens professores de quem gostes?
Tenho, a gente gosta da setora de Ciências e da setora de Francês.
É sempre assim, existem alguns professores de quem gostamos mais, é porque elas explicam bem a matéria?
Não tio, é porque a setora de Ciências falta muitas vezes e a setora de Francês que a vai substituir deixa-nos fazer o que quisermos desde que não haja muito barulho.
Acho que assim não vais muito entusiasmado para a escola todos os dias.
Vou tio, com o mesmo entusiasmo com que a maior parte dos adultos vai trabalhar todos os dias.
São também assim, improváveis os dias da escola.

DO ENSINO SUPERIOR, DESLOCALIZAR OS ESTUDANTES


Confirma-se a intenção anunciada pelo Governo, as vagas nas instituições de ensino superior de Lisboa e Porto vão diminuir 5% com o objectivo de manter os estudantes nos estabelecimentos de regiões mais periféricas. A restante rede de ensino superior pode aumentar também em 5% a oferta privilegiando as áreas das ciências da vida, física, matemática, informática e engenharias.
Não vejo como este objectivo possa ser cumprido através desta medida. Os modelos de desenvolvimento das últimas décadas desertificaram o interior praticando políticas públicas sectoriais que centralizaram o país. Os estudantes ficam nas regiões onde finalizam o secundário se tiverem boas instituições de ensino superior e, sobretudo, a possibilidade de aí construírem projectos de vida pessoais, profissionais e familiares com qualidade. Isso obriga a alterar modelos de desenvolvimento e a desenvolver outras políticas.
Não passa por acreditar ingenuamente que se um estudante não “couber” numa universidade ou politécnico em Lisboa ou Porto ele vai voltar para o seu distrito e a fazer aí a sua formação para depois … sair à procura de futuro. Não, muito provavelmente vai candidatar-se a outra instituição pública ou privada para fazer a sua formação no  contexto em que pensa que estará o seu futuro.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

DO REGIME JURÍDICO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA


Já perto do final do ano lectivo começa a surgir alguma inquietação com o facto de ainda não ter sido publicado o Regime Jurídico da educação inclusiva no âmbito da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário que em princípio se aplicará já no próximo ano lectivo.
Como tantas vezes escrevi e afirmei aqui e em contextos de intervenção profissional considero que a lei mais estruturante da resposta educativa a alunos com necessidades especiais, o DL 3/2008, carecia de alterações … desde que saiu. Não vale a pena já reafirmar a argumentação mas assim continuo a pensar.
Neste contexto registei com agrado a decisão do ME de proceder à alteração deste quadro promovendo um novo enquadramento jurídico, o Regime Legal para a Educação Inclusiva.
No entanto e no caso particular das alterações em educação, mesmo quando são justificadas e sugerem alguma urgência exigem que se considere de forma prudente e competente o seu processo e calendário de operacionalização.
Confesso alguma estranheza com várias iniciativas no âmbito da formação e divulgação do novo regime quando ainda se encontrava em processo de legislação.
Estamos todos cansados de inúmeras “reformas”, “orientações”, “alterações”, “inovações”, “projectos”, etc. que são postos em prática sem acautelar tanto quanto possível as condições de sucesso. Isto pode acontecer por excesso de voluntarismo, por incompetência, por imperativos de agenda ou por qualquer outra razão, como a falta de meios e recursos para operacionalizar de forma eficaz o que está disposto.
Os resultados podem ser seriamente comprometedores do sucesso das mudanças e, assim, o que deveria ser um contributo para a solução gera mais problemas e ruído.
Neste contexto, seria desejável que o processo de operacionalização do novo quadro legislativo para a educação inclusiva seja pensado com o rigor possível, que seja feita a sua divulgação de forma adequada, que se criem os dispositivos previstos e sem sobressaltos, que se actue no plano da formação se assim se justificar, que se criem dispositivos de regulação e apoio à mudança, etc.
Como também já referi e do que conheço, julgo que a proposta contém aspectos positivos dos quais destaco o fim do “pecado original” do DL 3/2008, a existência de critérios de “elegibilidade” algo que em educação, do meu ponto de vista é inaceitável, bem como outros que colocam algumas reservas, quer no que respeita a alguns aspectos do “modelo” definido”, quer no que se refere aos recursos necessários, suficientes e competentes.
Quero muito que do processo de alteração resulte mais qualidade nos processos educativos de todos os alunos, menos exclusão, tantas vezes em nome da … inclusão, mais participação de todos os alunos nas actividades comuns, mais apoios e de qualidade aos professores de ensino regular, os actores centrais nos processos educativos de todos os alunos para além dos pais, a disponibilização de recursos suficientes, adequados e em tempo oportuno e dispositivos de regulação do trabalho desenvolvido que minimizem os efeitos em que, perdoem-me o excesso, o sistema é verdadeiramente inclusivo, coexistem sem um sobressalto práticas excelentes com práticas e discursos que atentam contra os direitos de alunos, famílias e docentes.
O grande risco é que apesar de uma “nova lei” se mantenha o “velho” quadro que referi acima, escolas, professores e técnicos a desenvolver trabalhos de qualidade e assentes numa perspectiva de educação inclusiva e que assim continuarão a tentar fazer, seja qual for o quadro legal e escolas, professores e técnicos envolvidos em práticas que, seja qual for o quadro legal, guetizam, excluem, não promovem direitos, participação, pertença e aprendizagem, os verdadeiros critérios de educação inclusiva que transformam a “integração” em “entregação”, os alunos estão “entregados”, não integrados.


domingo, 13 de maio de 2018

PROFESSOR, O MEU FILHO PODE ASSISTIR À AULA?


Na habitual viagem pela imprensa online deparei-me com uma notícia curiosa, um professor de uma universidade americana permitiu que uma aluna levasse para a aula o filho pois não tinha com quem o deixar e não queria faltar.
Como sabem, uma das vantagens de ser velho é ter histórias para contar e este relato recordou-me um episódio de há alguns anos.
Uma aluna minha de uma turma pós-laboral quando eu entrava na sala estava com o filho, gaiato de uns oito anos, e pediu-me se se ele podia estar na sala pois também ela não queria faltar e não o quis deixar sozinho em casa.
Acedi e o miúdo sentou-se com uns materiais a ler e a desenhar.
Passado uns minutos reparei que estava com ar “cansado”, o que raramente acontece a uma criança numa sala de aulas e, neste caso particular, numa aula de ensino superior que apesar de se centrar na educação não lhe era dirigida.
Lembrei-me de lhe perguntar se me podia ajudar na gestão da projecção dos slides. Respondeu afirmativamente, sentou-se na minha mesa e mudava o slide sempre que lhe podia. Durante o resto da aula foi de uma eficiência sem falhas, mudando, recuando quando se tornava necessário e … éramos uma equipa afinada.
Despedimo-nos e na aula seguinte procurando saber se a criança tinha "recuperado" da experiência, disse-me a mãe:
“Gostou e sabe que mais? O meu filho disse-me que queria ser professor”.
Não sei se será essa a sua estrada mas é uma estrada muito bonita. Tem dias como aquele.

sábado, 12 de maio de 2018

CURRÍCULO DO ENSINO BÁSICO E SECUNDÁRIO - PARECER DO CNE


Li no Público uma peça sobre o parecer do CNE relativo ao novo currículo do ensino básico e secundário.
Não consegui encontrar a totalidade do parecer na página do CNE mas duas das questões colocadas merecem umas notas breves.
Entre os Princípios Orientadores na Proposta do Currículo para o Ensino Básico e Secundário  encontram-se:
i) Valorização da gestão e lecionação interdisciplinar e articulada do currículo, designadamente através do desenvolvimento de projetos que aglutinem aprendizagens das diferentes disciplinas, planeados, realizados e avaliados pelo conjunto dos professores do conselho de turma ou do ano de escolaridade;
j) Flexibilidade contextualizada na forma de organização dos alunos e do trabalho e na gestão do currículo, utilizando os métodos, as abordagens e os procedimentos que se revelem mais adequados para que todos os alunos alcancem o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória;
k) Conceção de um currículo integrador, que agregue todas as atividades e projectos da escola, assumindo-os como fonte de aprendizagem e de desenvolvimento de competências pelos alunos;
No entanto, tal como o CNE assinala, este entendimento não parece compatível com a definição de uma matriz curricular do 1º ciclo organizada por disciplinas.




Por outro lado e julgo ser uma dimensão importante, o CNE coloca também a necessidade de considerar que se a autonomia das escolas for real e que tal se traduza em autonomia curricular então também dever ser considerada alguma autonomia em matéria de afectação de recursos humanos.
Recorde-se que o ME entende que dos projectos de flexibilização curricular das escolas não pode decorrer aumento no corpo docente.
Esta questão, a contratação de docentes/técnicos por parte das escolas, é complexa e geradora de conflitualidades mas, de facto, não pode estar separada de qualquer discussão em torno da autonomia das escolas.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A EXPLICAÇÃO


Um dia destes, logo no início das aulas do terceiro período, andava o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, pelo recreio quando se cruzou com o Diogo um miúdo reguila e atento que sempre que se encontram tem alguma inquietação a partilhar com o Velho.
Olá Diogo, tudo bem?
Não Velho está tudo mal, já estou cansado. Tu que és Professor e Velho explica-me uma coisa. Porque é que é preciso explicação?
Explicação?! Não percebo.
No segundo período tive negativa a Inglês e a Matemática O meu pai explicou-me que eu precisava de uma explicação. Eu expliquei ao meu pai que estando um bocado mais atento, se estudasse mais e se falasse com os setores, talvez não precisasse de explicação. O meu pai explicou-me que eu não posso chumbar ou mesmo passar com notas muito baixas, por isso era melhor a explicação. Expliquei ao meu pai que muitas pessoas estudam e fazem os cursos sem ter sempre notas altas e mesmo, às vezes, até chumbam, mas depois ficam bons nas profissões. Expliquei ao meu pai que na escola, a seguir às aulas tenho Estudo Acompanhado e a DT disse que vamos ter ajuda nas disciplinas mais fracas. O meu pai explicou-me que pode não chegar porque somos muitos e, portanto, era melhor uma explicação fora da escola com menos miúdos. Expliquei ao meu pai que saio da escola já tarde, a seguir ia para a explicação, ele disse três dias por semana, e depois ainda tenho que fazer o TPC das outras disciplinas. Ele explicou-me que é preciso muito trabalho para se ser alguém na vida e eu expliquei-lhe que tenho a certeza que vou ser alguém na vida, ser um Digo é já ser alguém, mas ele explicou-me que ele é que sabe o que é melhor para mim. Velho, estás a ver como já estou cansado. Conheces alguma explicação para pais que não percebem a explicação dos filhos?

DEFICIÊNCIA E EMPREGO


O Parlamento debate hoje as políticas de emprego de pessoas com deficiência, quer no sector público, quer no sector privado.
Na verdade esta questão é crítica para muitos milhares de pessoas e suas famílias e com pouco eco no espaço mediático, ou seja, como sempre as vozes das minorias soam baixo..
Recordo que em Dezembro de 2017 escrevi que desde 2010 a Administração Pública contratou 46 pessoas com deficiência em 24 mil vagas e até essa altura ainda não teria sido contratado ninguém nesta condição.
Elucidativo das preocupações do chamado estado social.
A este propósito também é de registar que nas Grandes Opções do Plano para 2018 o Governo identificou a inclusão de pessoas com deficiência ou incapacidade como uma prioridade central. Nesta perspectiva, afirmava-se pretender desenvolver políticas que sustentem a igualdade de oportunidades definindo medidas como o estabelecimento de quotas no mercado de emprego destinadas a pessoas com deficiência ou incapacidade ou acções de formação profissional no sistema regular de formação e o incremento de estágios profissionais em empresas e organizações do sector público e social.
Por princípio, não simpatizo com o recurso ao estabelecimento de quotas para solução ou minimização de problemas de equidade ou desigualdade. As razões parecem-me óbvias, justamente no plano dos direitos, da equidade e na igualdade de oportunidades.
No entanto, também aceito que o estabelecimento de quotas possa ser um passo e um contributo para minimizar a discriminação. No entanto, é estranho, ou nem por isso, que seja a Administração a não cumprir o que para si estabeleceu em 2010.
E na verdade a questão do emprego de pessoas com deficiência é uma questão de enorme relevância. Apesar de evidente recuperação nos níveis de desemprego as pessoas com deficiência continuam altamente vulneráveis a este problema.
Um Relatório de 2014, "Monitorização dos Direitos Humanos das Pessoas com Deficiência em Portugal", divulgado no âmbito da terceira conferência anual da Associação Europeia de Estudos da Deficiência, indiciava que existem empresas que usam indevidamente os apoios estatais para a contratação de pessoas com deficiência obrigando estes trabalhadores a estágios sucessivos e a uma situação de precariedade. Este expediente é, aliás usado com outros grupos, jovens, por exemplo.
As pessoas com deficiência em Portugal têm uma taxa de risco de pobreza 25% superior à das pessoas sem qualquer deficiência e o desemprego neste grupo social terá aumentado cerca de 70 % face a 2011 estimando-se actualmente que ronde os 75 %, uma taxa catastrófica.
Sabemos que os recursos são finitos e os tempos de contenção, mas pode-se afirmar que para as pessoas com deficiência os tempos sempre foram de recursos finitos e de contenção, ou seja, as dificuldades são recorrentes e persistentes.
Creio também que é justamente no tempo em que as dificuldades mais ameaçam a generalidades das pessoas que se avoluma a vulnerabilidade das minorias e, portanto, se acentua a necessidade de apoio e de políticas sociais mais sólidas, mais eficazes e, naturalmente, mais reguladas.
Os números sobre o desemprego nas pessoas com deficiência são dramaticamente elucidativos desta maior vulnerabilidade. A vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, em variadíssimas áreas como mobilidade e acessibilidade, educação, emprego, saúde e apoio social, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são enormes.
Assim sendo, exige-se a quem decide uma ponderação criteriosa de prioridades que proteja os cidadãos dos riscos de exclusão, em particular os que se encontram em situações mais vulneráveis.
As pessoas com deficiência e as suas famílias fazem parte deste grupo.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

DA PANTANOSA PÁTRIA NOSSA AMADA


O habitat pantanoso continua a incubar e fazer eclodir episódios de corrupção, desculpem, alegada corrupção e delinquência económica. O ritmo de conhecimento destas situações é regular e assustador.
A roda livre de impunidade e incumprimento dos mais elementares princípios éticos quando não da lei, produziu nas últimas décadas uma família alargada que, à sombra dos aparelhos partidários e através de percursos políticos, se movimentam num tráfego intenso entre cargos, entidades e empresas públicas e entidades privadas, promovendo frequentemente negócios que nos insultam e, frequentemente, empobrecem.
Esta família alargada envolve gente de vários quadrantes sociais e políticos com uma característica comum, os negócios, alguns obscuros, de natureza multifacetada e de escala variável, desde o jeitinho para o emprego para o amigo até aos negócios de muitos milhões.
Acontece ainda e isto tem tido efeitos devastadores que muitos dos negócios que esta família vai realizando envolve com frequência dinheiros públicos e com pesados encargos para os contribuintes.
Esta família conta ainda com a cooperação de um sistema de justiça talhado à sua medida pelo que raramente se assiste a alguma consequência significativa decorrente dos negócios da família. Curiosamente mas sem surpresa, todos os membros desta família, destes grupos, quando questionados sobre os seus negócios ou envolvimento em algo, afirmam, invariavelmente que tudo é feito tudo dentro da lei, nada de incorrecto e, portanto, estão sempre de consciência tranquila.
Alguém poderia explicar a esta gente que, primeiro, não somos parvos e, segundo, o que quer dizer consciência.
É verdade que está sempre presente nos discursos partidários, sobretudo à entrada de cada novo governo, a retórica que sustenta o fingimento da luta contra a corrupção e a promoção da transparência na vida política portuguesa e, regularmente, emergem umas tímidas propostas que mascaram essa retórica, entram na agenda e rapidamente desaparecem até ao próximo fingimento.
Do meu ponto de vista, nenhum dos partidos do chamado “arco do poder”, está verdadeiramente interessado na alteração da situação actual, o que, aliás, pode ser comprovado pelas práticas desenvolvidas enquanto poder. A questão, do meu ponto de vista, é mais grave. Os partidos, insisto no plural, mais do que não querer mexer seriamente na questão da corrupção e do seu financiamento, não podem e vejamos porque não podem.
Nas últimas décadas, temos vindo a assistir à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos uma partidocracia instalada que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do estado. Esta teia associa-se à intervenção privada sobretudo nos domínios, e são muitos, em que existem interesses em ligação com o estado, a banca e as obras públicas ou mesmo o futebol são apenas exemplos. Os últimos tempos têm sido particularmente estimulantes nesta matéria.
A manutenção deste quadro, que nenhum partido está evidentemente interessado em alterar, exige um quadro legislativo adequadamente preparado no parlamento e uma actividade reguladora e fiscalizadora pouco eficaz ou, utilizando um eufemismo, “flexível”. Assim, a sobrevivência dos partidos, tal como estão, exige a manutenção da situação existente pelo que, de facto, não podem alterá-la. Quando muito e para nos convencer de que estão interessados, introduzem algumas mudanças irrelevantes e acessórias sem, obviamente, mexer no essencial. Seria um suicídio para muita da nossa classe política e para os milhares de boys de diferentes cores que se têm alimentado, e alimentam do sistema.
O combate à corrupção, parece, assim, um problema complicado. De quem faz parte do problema, é difícil esperar a solução.
Assim vão os dias desta pantanosa pátria nossa amada.

O DIA DA ESPIGA


Como dizia Camões o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.
Hoje passa o Dia da Espiga, como se dizia quando era pequeno para referir a Quinta-feira da Ascensão.
Acho que já muito pouca gente repara no Dia da Espiga, como já nenhuns miúdos aparecem a pedir "Pão por Deus" no 1º de Novembro, o Dia de Todos os Santos.
Voltando ao Dia da Espiga e a umas dezenas de anos atrás, na minha casa íamos sempre buscar a sorte prometida no ramo da Espiga. Com o meu pai, pegávamos nas bicicletas, na altura o meio de transporte familiar, e íamos à quinta onde vivia a Avó Leonor apanhar o ramo da Espiga, papoilas, flores silvestres, sobretudo malmequeres amarelos e brancos, o que se encontrasse de espigas de cereais e o ramo de oliveira.
Fazia-se o ramo atado com ráfia, arranjávamos sempre mais do que um para oferecer aos vizinhos e colocava-se pendurado lá em casa por cima da mesa do jantar como chamariz da sorte. Saía apenas quando era substituído pelo novo ramo da Espiga. Nunca me lembro de termos conseguido associar a presença do ramo ao que de bom nos ia acontecendo, mas o ramo da Espiga lá estava e a tradição era sempre cumprida.
Nas novas qualidades que o mundo vem tomando, não parece que possam caber minudências como andar no campo, se houver campo, à cata de flores, espigas e um raminho de oliveira. Não sei se é bom, ou se é mau, mas eu gostava de ir à Espiga, mesmo se não confiava muito na sorte.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

AGRESSÕES A PROFESSORES


As notícias sobre agressões a professores, designadamente cometidas por encarregados de educação, vão chegando com alguma frequência à comunicação social.
Desta vez aconteceu numa escola do concelho do Porto em que familiares de um aluno de oito anos repreendido por uma professora durante a aula entraram na escola e agrediram violentamente a docente.
Algumas notas que apesar de repetidas me parecem ainda justificadas dada a frequência e gravidade destes episódios. Esta questão, embora sempre objecto de rápidos discursos de natureza populista e securitária, parece-me complexa e de análise pouco compatível com um espaço desta natureza. No entanto, uma breve reflexão em torno de três eixos: a imagem social dos professores, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade, que me parecem fortemente ligados a este fenómeno.
Já aqui tenho referido que os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso de gente dentro do universo da educação que tem, evidentemente, responsabilidades acrescidas e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para alterações significativas da percepção social de autoridade dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, sobretudo, alunos e pais.
Esta fragilização tem, do meu ponto de vista, graves e óbvias consequências, na relação dos professores com alunos e pais.
Em segundo lugar, tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os professores, entre outras profissões, polícias ou médicos, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição de professores, como fontes de autoridade. Tal processo alterou-se, o facto de se ser professor, já não confere “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de desrespeito ou de agressão. O mesmo se passa, como referi, com outras profissões em que também, por razões deste tipo, aumentam as agressões a profissionais.
Finalmente, importa considerar, creio, o sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a grandes, o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”.
Considerando este quadro, creio que, independente de dispositivos de formação e apoio, com impacto quer preventivo quer na actuação em caso de conflito, obviamente úteis, o caminho essencial é a revalorização da função docente tarefa que exige o envolvimento de toda a comunidade e a retirada da educação da agenda da partidocracia para a recolocar como prioridade na agenda política.
Definitivamente, a valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.
É ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de punição e responsabilização séria dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.

AINDA OS TPC. AGORA NA VISÃO ONLINE

As reflexões que tenho deixado no Atenta Inquietude sobre os TPC agora na Visão online. Continuo a entender que é uma matéria que deve ser analisada e gerida de forma diferenciada.




terça-feira, 8 de maio de 2018

CRIANÇAS E ADOLESCENTES ONLINE. DE NOVO


Segundo um trabalho da OCDE considerando dados de 2012 e 2015 (recolhidos no âmbito do PISA), oito em cada dez adolescentes portugueses afirmam "sentir-se mal" se não estiverem ligadosà internet. Apenas os adolescentes franceses e suecos de entre os 31 países envolvidos evidenciam uma taxa superior. Por géneros, de 79,4% e entre as raparigas é de 79,2%, considerando os dados de 2015.
Podemos considerar mais um sinal dos tempos as múltiplas referências ao tempo excessivo e dos riscos associados que que muitas crianças e adolescentes despendem com a ligação à net nas suas múltiplas possibilidades, designadamente as redes sociais.
A net e o mundo de oportunidades, benefícios e riscos que está presente em todas as suas potencialidades é uma matéria que deve merecer a reflexão de todos os que lidam com crianças e jovens embora não lhes diga exclusivamente respeito. Consideremos alguns dos potenciais problemas.
Recordo que segundo dados do projecto europeu EuKids Online, o uso continuado da Internet repercute-se em 45% das crianças portuguesas com um dos seguintes sintomas: não dormir, não comer, falhar nos trabalhos de casa, deixar de socializar, tentar passar menos tempo online.
Já aqui tenho abordado esta problemática a propósito das implicações do uso excessivo das novas tecnologias no desenvolvimento de crianças e adolescentes, designadamente nos hábitos e saúde do sono.
Um estudo recente realizado nos EUA acompanhando durante seis anos 11 000 crianças encontrou fortes indícios de relação entre perturbações do sono e o desenvolvimento de problemas de natureza diferenciada no comportamento e funcionamento das crianças.
Esta questão, os padrões e hábitos de sono das crianças, é algo de importante que nem sempre parece devidamente considerada.
Também entre nós, vários estudos sobre os hábitos e padrões de sono em crianças e adolescentes têm sido desenvolvidos, segundo os quais mais de metade dos adolescentes inquiridos apresentam quadros de sonolência excessiva e evidenciam hábitos de sono pouco saudáveis. Esta constatação vai no mesmo sentido de outros trabalhos com crianças mais novas. A falta de qualidade do sono e do tempo necessário a caba, naturalmente, por comprometer a qualidade de vida das crianças e adolescentes.
Várias investigações sugerem que parte das alterações verificadas nos padrões e hábito relativos ao sono remetem para questões ligadas a stress familiar e sublinham o aumento das queixas relativas a sonolência e alterações comportamentais durante o dia.
Acresce, como os dados do EuKids Online evidenciam, um conjunto de outros riscos decorrentes da utilização menos regulada das novas tecnologias o que solicita alguma reflexão sobre hábitos e estilos de vida dos mais novos. Um dos problemas emergentes e preocupantes neste universo é a utilização das redes sociais e risco do cyberbullying que já aqui tenho abordado. Segundo alguns estudos, perto de 50% das crianças até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel.
Acontece que durante o período de sono e sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida. Creio que, com alguma frequência, alguns comportamentos, sobretudo nos mais novos, que são de uma forma aligeirada remetidos para o saco sem fundo da hiperactividade e problemas de atenção, estarão associados aos seus hábitos e padrões de sono como, aliás, os estudos parecem sugerir.
Em casa, têm durante muitas horas um ecrã como companhia durante o pouco tempo que a escola "a tempo inteiro" e as mudanças e constrangimentos nos estilos de vida das famílias lhes deixam "livre". Também é verdade que a crescente "filiação" em redes sociais virtuais possam “disfarçar”, juntando quem “sofre” do mesmo mal e o tempinho remanescente para estar em família, frequentemente ainda é passado à sombra de uma televisão.
De há muitos anos que se sabe que não se cresce só, cresce-se na relação com pares e adultos. É por isso que, embora entenda a expressão, ouvir chamar a este tempo, o tempo da comunicação, me faz sorrir, acho mais apropriado considerá-lo o tempo do estar só ou a assistir à solidão dos outros. Recordo a afirmação de um miúdo de 11 anos colocada num desenho, "a minha consola é que me consola".
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para que a utilização imprescindível e útil seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.
A experiência mostra-me que muitos pais desejam e mostram necessidade de alguma ajuda ou orientação nestas matérias. Sabemos que estratégias proibicionistas tendem a perder eficácia com a idade.
Creio que o caminho terá de passar por autonomia, supervisão, diálogo e muita atenção aos sinais que crianças e adolescentes nos dão sobre o que se passa com elas.