sábado, 6 de fevereiro de 2016

O CARNAVAL DO MEU DESCONTENTAMENTO

Para que conste e como declaração de interesses, o Carnaval nunca me entusiasmou pelo que estas notas estão justificadas. É certo que na adolescência constituía um excelente pretexto para os "assaltos" realizados nas garagens dos amigos, oportunidade quase única para muitos de nós namorarmos sem vigilância e com banda sonora (muitos slows, lembram-se?). Mas mesmo nessa altura o Carnaval não passava de um pretexto.
Hoje nem isso. As televisões esforçam-se por nos mostrar os patéticos desfiles de "escolas de samba" genuinamente portuguesas com umas sambistas resfriadas entre o frio do Fevereiro português e o biquini do verão brasileiro, as tristes figuras mascaradas que nos querem fazer acreditar no divertimento que mostram, a dificuldade sempre presente de separar o Carnaval na Política... da Política no Carnaval, a alegria triste de quem se desloca para assistir ao vivo a tudo isto e... depois volta à tristeza alegre do "ao menos que não nos falte saúde" e também as crianças senhores, que desfilam e saltam de contentes. Estas em dose dupla, pois já na sexta-feira antes do Carnaval as senhoras professoras e educadoras as tinham levado, com máscaras e disfarces sempre originais, a desfilar pelas ruas da sua vida acompanhadas, claro, pelo fotógrafo que tira as fotografias que aparecerão no Boletim Municipal sob o título "A Câmara Municipal como sempre no apoio às iniciativas das escolas".
Também é habitual e fica sempre bem na comunicação social aparecerem umas reportagens com certo ar de exotismo e preocupação etnográfica realizadas em algumas das nossas aldeias que ainda se mantêm abertas (até quando?) em que meia dúzia de resistentes parecem brincar com qualquer coisa a que certamente por vergonha nem chamam Carnaval, dizem Entrudo, é mais nosso.
Acabo por ficar triste com o Carnaval. E sinto-me mais triste porque muito deste Carnaval espelha, de facto, a nossa tristeza embora gostemos de nos considerar um povo alegre.

Bom. Depois começamos a pensar na Páscoa.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

AS PRAXES ACADÉMICAS E A ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Parlamento aprova recomendações sobre praxes académicas

O Parlamento aprovou um conjunto de recomendações sobre as praxes académicas.
Não simpatizo com a ideia de que a Assembleia da República tenha ou deva ter algum tipo de intervenção ou discurso no âmbito das praxes académicas.
Os velhos problemas das velhas praxes devem ser discutidos e regulados nas academias universitárias, designadamente e sobretudo, através da iniciativa dos próprios estudantes. É isso que se deve esperar de gente auto-determinada e num sistema com um quadro constitucional de protecção e atribuição de direitos e garantias individuais.

A TORTURA DOS NÚMEROS

Guilherme Valente, o reconhecido investigador e experiente cientista o mundo da educação volta à carga no Público em defesa do seu ídolo, Nuno Crato, e na defesa de que os exames, só por existirem, são a poção mágica que melhora a qualidade das aprendizagens dos alunos e do trabalho dos professores.
Desta vez, Guilherme Valente, para além do mantra do rigor, apresenta uma retórica inicial sobre o retorcido argumentário de que os exames (que ele confunde com avaliação mas isto é um pormenor para a envergadura do seu conhecmento) são uma ferramenta de promoção da mobilidade social e de eliminação de assimetrias. Esquece por exemplo, nem um génio se lembra de tudo, que o percurso até ao exame continua sujeito a falta de equidade que, evidentemente, o exame só por se realizar não corrige. Neste argumentário recorre a uma outra figura incontornável do saber sobre educação em Portugal, Vasco Pulido Valente.
Depois vem o essencial deste novo capítulo da prosa de Guilherme Valente, uma sessão pública de tortura de números obrigando-os a confessar o que ele quer ouvir.
Os números coitados, resistem, são claros na mensagem, mas não, Guilherme Valente não está satisfeito, usa o que eles dizem para concluir o contrário e validar as suas "opiniões".
O espectáculo de tortura de números prolonga-se por alguns parágrafos sempre com a mesma violência o que, aliás, o torna pouco aconselhável a pessoas mais sensíveis.
Mais a sério. É claro de há muito que o que está em causa é uma posição ideológica sobre a educação e sobre a escola. Não é grave e é legítimo em sociedades abertas e democráticas. Menos aceitável é este tipo de manobras que mostra alguma impotência e desespero patente na velha fórmula tão em voga nos discursos políticos, "a realidade está enganada, eu é que estou certo".
Não Guilherme Valente, você está errado, os dados e os estudos referentes a muitíssimos países sobre esta matéria não permitem concluir que os exames só por existirem melhorem a qualidade das aprendizagens  de uma forma generalizada, que os mais pobres sejam os mais beneficiados com a existência de exames, que vias educativas diferenciadas muito precocemente e dirigidas sobretudo aos alunos com piores resultados sejam promotores de equidade, etc., etc.
No entanto, acredite no que entender mas poupe os números, pobres deles, não têm culpa.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

AS PERGUNTAS E AS RESPOSTAS

O final de mais uma época de avaliação recordou-me algo que há muito tempo, alguém me dizia, saber é perguntar, não é responder. A vida tem-me ajudado a entender, perguntando e perguntando-me, algo que de início não parecia tão claro.
E quando hoje se discute o nível de conhecimento das pessoas, desde os alunos mais novinhos aos alunos do ensino superior, e se evidencia essa suposta ausência de conhecimento sobretudo pelas respostas que dão em exames ou testes, não deixando de estar atento, fico também inquieto pelas perguntas que não fazem e que, não querendo ser injusto com muitos excelentes mestres, foram “aprendendo” a não fazer.
O ensino tem vindo a assentar mais na resposta e menos na pergunta. A pergunta é impertinente, a resposta é inteligente.
A pergunta desestabiliza, a resposta valoriza.
A pergunta é o desassossego e a inquietação, a resposta é a tranquilidade.
A pergunta é a dúvida e a incerteza, a resposta é a segurança e a certeza.
A pergunta é a discussão, a resposta é a conformidade.
A pergunta é o receio, a resposta é a confiança.
A pergunta é a subversão, a resposta é a submissão.
Aos poucos vão-nos convencendo que é melhor ter as respostas do que ter as perguntas.
É, cada vez mais me convenço que tão ou mais importante como saber dar respostas, é saber fazer perguntas. Elas trazem as respostas.

O MELHOR ESCRITOR PORTUGUÊS


M'espanto às vezes, outras m'avergonho diria Sá de Miranda. Não, não é preconceito. José Rodrigues dos Santos não pode ser o "melhor escritor português". A sua consideração como "melhor escritor português" traduz um dado inquietante sobre o consumo da literatura portuguesa. 
É verdade que não é surpresa, é verdade que em muitas áreas, designadamente nas artes e na cultura nem sempre o que tem melhor qualidade é o que se torma mais consumido.
Finalmente, é verdade que José Rodrigues dos Santos não é um escritor de qualidade pese a quantidade de páginas escritas, pese a quantidade de livros vendidos.
Aceito que se critique este juízo mas não é. Mesmo.


AFINAL HAVIA OUTRA

O FMI vem levantar uma série de dúvidas face às previsões contidas na proposta do OGE para 2016.
É, no mínimo, de um enorme despudor vir com este tipo de apreciações quando em Relatório de Dezembro de 2015 assumiu a falha das políticas de austeridade justamente por questões de previsão e avaliação de impactos. Também em várias outras ocasiões o FMI assumiu falhas nas suas previsões e modelos.
Como é evidente, este comportamento intelectual e politicamente desonesto, não surpreendente, aliás, do FMI, não invalida a necessidade de um Orçamento Geral de Estado competente e realista.
Por outro lado e ao que parece pode vir a concretizar-se um acordo com a Comissão Europeia o que, obviamente, decepcionará muitos abutres incluindo alguns que falam português.
A acontecer este acordo cai definitivamente a ideia do TINA “- There Is No Alternative. As políticas duras de austeridade que esqueceram pessoas, famílias e pequenas empresas, promoveram desigualdade, pobreza e exclusão foram uma escolha política, não eram um caminho único.
Joseph Stiglitz, Nobel da Economia em 2001, afirmou há dois meses na Gulbenkian isso mesmo, o resultado destas opções por políticas de austeridade foram a desigualdade e a pobreza.
Afinal … havia outra. Havia e há outra política possível, Talvez ainda estejamos a tempo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL. A PROVA DE AFLIÇÃO

Uma amiga e colega com uma longa carreira na educação fez a sua visita regular à cabeleireira.
Como é hábito nestes contextos e entre pessoas que se conhecem há bastante tempo a conversa flui e não é raro que, se assim são as circunstâncias de vida, mais cedo ou mais tarde se aborde a situação dos filhos e as inquietações que o trabalho de mãe envolve.
Começou a senhora este diálogo que a minha amiga me contou e aqui fica abreviado.
Pois é, um problema é que as coisas na escola estão sempre a mudar.
Porque diz isso?
A minha filha disse-me que vão acabar os exames.
É verdade e que lhe parece.
Ela disse-me que em vez dos exames vai ter uma prova de aflição. Isso é que é um problema.

Na verdade, as mudanças em educação, por diferentes razões e independentemente de serem mais positivas ou menos positivas trazem sempre alguma aflição.

PROFESSOR, UMA PROFISSÃO DE RISCO

A imprensa faz de novo referência a um estudo realizado pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) segundo o qual cerca de 30% dos perto de 1000 professores inquiridos revela risco de burnout, estado de esgotamento físico e mental provocado pela vida profissional, associado a baixos níveis de satisfação profissional. Este estudo foi ontem discutido numa iniciativa que teve lugar na Assembleia da República.
Os professores mais velhos, do ensino secundário ou os que lidam com alunos com necessidades educativas especiais apresentam níveis mais elevados de burnout e sentem mais a falta de reconhecimento profissional.
Como causas mais contributivas para este cenário de stresse profissional são identificadas turmas com elevado número de alunos, o comportamento indisciplinado e desmotivação dos alunos, a pressão para os resultados, insatisfação com as condições de desempenho, carga horária e burocrática, falta de trabalho em equipa, falta de apoio e suporte das lideranças da escola.
Na verdade, os dados só podem surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam pela comunicação social perorando sobre educação e sobre os professores. Aliás, esta situação verifica-se noutros países, sendo que para além dos professores, os profissionais de saúde e de apoios sociais também integram os grupos profissionais mais sujeitos a stresse e burnout.
É fácil avaliar a importância e consequências das situações de mal-estar envolvendo os docentes. Alguns dos discursos que de forma ligeira e muitas vezes ignorante ocupam tempo de antena na imprensa, parecem esquecer a importância deste trabalho e das circunstâncias em que se desenvolve.
É complicada a tarefa de professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.
Os valores, padrões e estilos e vida das famílias alteraram-se significativamente fazendo derivar para a escola, para os professores, parte do papel que competia(e) à família. Este trabalho é realizado, muitas vezes, sem qualquer tipo de apoio ou suporte, com cada professor entregue a si mesmo.
Importa ainda considerar o impacto de variáveis relativas à estabilidade e segurança profissional, bem como os modelos de carreira e progressão. Acrescem ainda questões como a liderança, a autonomia das escolas variáveis importantes na construção dos climas das instituições.
Também deve ser ponderada a deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. Acresce que sucessivas equipas ministeriais têm empreendido um empenhado processo de desvalorização dos professores com impacto evidente nas relações que a comunidade estabelece com estes profissionais
Com muita frequência os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir à afirmação de uma qualquer ignorante barbaridade, vai, numa espécie de exercício sadomasoquista, entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas. Também são conhecidos os casos sucessivos de agressão e insulto por parte de alunos e famílias.
A forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem e isto contamina a serenidade do processo de trabalho.
É também imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Na verdade, ser professor é uma das funções mais bonitas do mundo, ver e ajudar os miúdos a ser gente, mas é seguramente uma das mais difíceis e que mais respeito deveria merecer.
Os sistemas educativos com melhores resultados são, justamente, os sistemas em que os professores são mais valorizados, apoiados e reconhecidos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

OS ZERISTAS, OS DOS "HORÁRIO ZERO"

O ME terá reconsiderado e não envia 58 professores para o regime de mobilidade especial assim como manda regressar às escolas os docentes que estavam integrados numa prateleira insultuosa chamada “requalificação” que foi entretanto extinta.
Estes professores são os chamados “zeristas”, têm “horário zero”, uma expressão que desde a primeira vez que a ouvi me causa sempre algum inquietação.
Estes docentes que integram um grupo que já teve muitas centenas e que entre o desemprego e a repescagem serão agora menos são profissionais com anos de experiência avaliada e que estão sem alunos.
Conforme já escrevi frequentemente, entendo que as necessidades de docentes do sistema educativo constituem uma questão complexa e com múltiplas variáveis que deve ser tratada de forma séria, competente e serena o que não tem acontecido.
Para além das oscilações da demografia que são abordadas de forma habilidosa e não justificam a saída de dezenas de milhares de professores nos últimos anos, entre essas variáveis destacam-se a criação dos insustentáveis mega-agrupamentos, mudanças curriculares destinadas a poupar professores e o aumento de alunos por turma que, não servindo a qualidade da educação, reduziu o número de lugares de docentes.
Este quadro promoveu, naturalmente, um problema de absorção de muitos docentes, já no sistema, e que correm o risco de passar aos chamados “horários zero”, bem como na estabilização dos que se mantêm contratados durante anos por conta das eternas necessidades transitórias.
Conhecendo os territórios educativos do nosso país, sempre defendi fazer sentido que os recursos que já estão no sistema, pelo menos esses e incluindo os contratados com muitos anos de experiência, fossem aproveitados, por exemplo, em trabalho de parceria pedagógica, para possibilitar a existência em escolas mais problemáticas de menos alunos por turma ou ainda que se utilizassem em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades. Estas medidas no âmbito de uma autonomia real das escolas seriam possíveis e um contributo importante.
Os estudos e as boas práticas mostram que a presença de dois professores na sala de aula são um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos.
Sendo exactamente estes os dois problemas que afectam os nossos alunos, talvez o investimento resultante da presença de dois docentes ou de mais apoios aos alunos, compense os custos posteriores com o insucesso, as medidas remediativas ou, no fim da linha, a exclusão, com todas as consequências conhecidas.
É só fazer contas. Em educação, apesar de da necessidade de contenção não existe despesa, existe investimento.

GOSTEI DE LER "OS PAIS TÊM MEDO DE SER PAIS. TÊM MEDO DE DIZER NÃOS"

Gostei de ler, "Os pais têm medo de ser pais. Têm medo de dizer "não"", a entrevista de Javier Urra ao Público.
Como sempre afirmo os "nãos" são um bem de primeira necessidade na vida dos miúdos. Como já tenho escrito e contrariamente ao que correntemente se ouve, crianças e adolescentes não têm mimos a mais, têm, isso sim, nãos a menos.

POR ONDE ANDA O JUÍZO DE ALGUNS JUÍZES

Foi ontem conhecida uma decisão de um Tribunal que condena um homem por comprovados abusos sexuais sobre uma criança de 4 anos, seu neto, a pena suspensa. Sublinhe-se que o mesmo indivíduo já tinha, comprovadamente abusado de uma neta sendo também condenado a pena suspensa.
Muitas vezes tenho escrito que só prender não basta mas não é possível dar estes sinais à sociedade que temos e que alimentarão um forte sentimento de impunidade instalado. Nesta caso acresce mais uma vez a falta de uma cultura de protecção das crianças independentemente das leis ou dos dispositivos que existem.
O que merece verdadeira reflexão é a base de valores que informa a decisão que, aliás, vai no mesmo sentido de decisões de outras como um exemplo paradigmático do Tribunal da Relação do Porto que em 2011 absolveu um psiquiatra que, comprovadamente, sublinho comprovadamente, violou uma paciente que acompanhava num quadro de depressão. A justificação para a absolvição foi que o psiquiatra criminoso violou a paciente mas não usou de violência. Notável e criminosa esta decisão.
Recordo ainda algumas sentenças que conheço no âmbito dos Tribunais de Família relativas à guarda parental ou a decisão de uma Procurador-adjunta do Ministério Público, em Viana do Castelo, que dispensou uma miúda de 13 anos de frequentar a escola por razões culturais, era cigana, pelo que a ilustre Magistrada a dispensou do Direito à Educação.
Por onde anda o juízo de alguns juízes?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

DA INDOMESTICÁVEL VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Nove das 25 mulheres mortas pelos companheiros em 2015 tinham apresentado queixa

O mundo da violência doméstica é bem mais denso e grave do que a realidade que conhecemos, ou seja, aquilo que se conhece, apesar de recorrentemente termos notícias de casos extremos,  é "apenas" a parte que fica visível de um mundo escuro que esconde muitas mais situações.
Por outro lado, para além da gravidade e frequência com que continuam a acontecer episódios gravíssimos de violência doméstica é ainda inquietante o facto de que alguns realizados em Portugal evidenciam um elevado índice de violência presente nas relações amorosas entre gente mais nova mesmo quando mais qualificada. Muitos dos intervenientes remetem para um perturbador entendimento de normalidade o recurso a comportamentos que claramente configuram agressividade e abuso ou mesmo violência.
Importa ainda combater de forma mais eficaz o sentimento de impunidade instalado, as condenações são bastante menos que os casos reportados e comprovados, bem como alguma “resignação” ou “tolerância” das vítimas face à situação de dependência que sentem relativamente ao parceiro, à percepção de eventual vazio de alternativas à separação ou a uma falsa ideia de protecção dos filhos que as mantém num espaço de tortura e sofrimento.
Nesta perspectiva, torna-se fundamental a existência de dispositivos de avaliação de risco e de apoio como instituições de acolhimento acessíveis para casos mais graves e, naturalmente, um sistema de justiça eficaz e célere.
Os dados agora divulgados mostram o quanto está por fazer. O resultado é a alimentação de uma percepção de impunidade que se conjuga com um sistema de valores que ainda “legitima” a violência doméstica, que a entende como “normal”.
Tudo isto tem como efeito a continuidade dos graves episódios de violência que regularmente ocorrem, muitos deles com fim trágico.

IRREQUIETOS, CANSADOS, INSTÁVEIS OU ... COM SONO

Ontem a imprensa fez referência a mais um estudo que vem sublinhar a importância de uma matéria que várias vezes aqui tenho abordado, a qualidade do sono de crianças e adolescentes
Este estudo realizado por uma investigadora da Universidade do Minho sugere que cerca de 72% de mais de quinhentas crianças e adolescentes, dos 9 aos 17,  dormem menos do que seria recomendável para as suas idades.
Umas das principais causas apontadas é a presença de aparelhos como computadores, tablets ou smartphones no quarto.
Em primeiro lugar importa sublinhar algo que todos sabemos mas negligenciamos,a qualidade do sono é um dos mais importantes contributos para o bem-estar geral, incluindo a vida escolar.
Em 2013, um estudo da University College of London mostrava o impacto negativo que a ausência de rotinas como deitar à mesma hora podem ter no bem-estar e saúde das crianças afectando, por exemplo, o processamento da aprendizagem.
A relação entre os estilos de vida e as rotinas, higiene e qualidade do sono dos mais novos são conhecidas e estudadas, mas importa sempre sublinhar a sua importância.
Um estudo recente realizado nos EUA acompanhando durante seis anos 11 000 crianças encontrou fortes indícios de relação entre perturbações do sono e o desenvolvimento de problemas de natureza diferenciada no comportamento e funcionamento das crianças.
Esta questão, os padrões e hábitos de sono das crianças, é algo de importante que nem sempre parece devidamente considerada. Também entre nós, vários estudos sobre os hábitos e padrões de sono em crianças e adolescentes têm sido desenvolvidos, designadamente pela Professora Teresa Paiva de que o que serefer hoe é mais um exemplo. Recordando alguns desses estudos é de referir que mais de metade dos adolescentes inquiridos apresenta quadros de sonolência excessiva e evidenciam hábitos de sono pouco saudáveis. Esta constatação vai no mesmo sentido de outros trabalhos com crianças mais novas. A falta de qualidade do sono e do tempo necessário acaba, naturalmente, por comprometer a qualidade de vida das crianças e adolescentes. Todos nos cruzamos frequentemente nos Centros Comerciais, por exemplo, com crianças, mais pequenas ou maiores, a horas a que deveriam estar na cama e que, penosa mas excitadamente, deambulam atreladas aos pais.
É certo que algumas investigações sugerem que parte das alterações verificadas nos padrões e hábito relativos ao sono remetem para questões ligadas a stress familiar e sublinham o aumento das queixas relativas a sonolência e alterações comportamentais durante o dia.
As situações de stress familiar serão importantes mas parece-me necessário não esquecer alguns aspectos relacionados com os estilos de vida, quer com as rotinas, quer com a utilização regulada das novas tecnologias. Durante o dia, as crianças e adolescentes passam boa parte do seu tempo saltitando de actividade para actividade, passam tempos infindos na escola e, muitos deles, são pressionados para resultados de excelência. Segundo alguns estudos, perto de 50% das crianças até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel.
Acontece que durante o período que seria dedicado ao sono, sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida.
Creio que, com alguma frequência, os comportamentos e dificuldades escolares dos miúdos, sobretudo nos mais novos, que, por vezes, sublinho por vezes, são de uma forma aligeirada remetidos para problemas como hiperactividade e défice de atenção, estarão associados aos seus hábitos e padrões de sono como, aliás, alguns estudos e a experiência de muitos profissionais, parecem sugerir.
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais, eles próprios com níveis baixos de alfabetização informática. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para que a utilização imprescindível e útil seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.
A experiência mostra-me que muitos pais desejam e mostram necessidade de alguma ajuda ou orientação nestas matérias.

A AVALIAÇÃO DA LITERACIA EM LEITURA (PIRLS)

Começa hoje a realização das avaliações em literacia da leitura integradas no Progress in International Reading Literacy Study (PIRLS). Portugal participa pela segunda vez, estreou-se em 2011 com uma colocação em 19º lugar entre 49 países, um resultado positivo e que espelhou a evolução dos alunos portugueses que já se registava por exemplo no PISA. Na altura da divulgação os resultados referi isso mesmo.
Vão participar 330 turmas de 4º ano de 220 escolas representativas do sistema educativo português.
Sou dos que entende importante a participação nestes estudos internacionais que nos dão dados úteis como reguladores e avaliadores do sistema. Não havendo resultados históricos no PIRLS e sabendo que a evolução verificada no PISA até 2009 começou a ficar comprometida nos resultados de 2012 aguardo com alguma expectativa os resultados desta avaliação que serão conhecidos em 2017.
Estes alunos já lidaram com as metas curriculares, com o aumento dos alunos por turma, com o corte de professores e dos dispositivos de apoio, com as implicações decorrentes da existência de exames finais, etc.
Por princípio, sou optimista, o trabalho e empenho de professores e alunos e a sua resiliência em condições muitas vezes pouco amigáveis da qualidade ajudam a esse optimismo.
No entanto também sou realista e pode acontecer que algumas destas dimensões possam influenciar negativamente a prestação dos alunos em termos médios.
Como se diz por lá no Alentejo, deixem lá ver. Em 2017 conversamos.

domingo, 31 de janeiro de 2016

MAS AS CRIANÇAS SENHORES

Faltam as palavras para falar do horror e da barbaridade que no mar e em terra vai acontecendo cada vez mais perto de nós, que, provavelmente, acreditávamos estar a salvo de tamanhas tragédias.
A merda de lideranças actuais da generalidade dos países que põem e dispõem no xadrez do poder mundial e de tantos outros subservientes e submissos que, em muitos casos, de pessoas não sabe nem quer saber, permite, sem um sobressalto e com palavras que de inócuas são um insulto, que se assista à barbaridade que as imagens, os relatos mostram e o muito que se imagina mas não se vê.
Sem estranheza, sempre assim foi, sempre assim é, as crianças são sempre os mais vulneráveis dos mais vulneráveis mas, como sempre, apesar dos sobressaltos ao sabor da espuma dos dias e dos efeitos mediáticos que incluem as lágrimas de crocodilo, a hipocrisia e o despudor, nada acontece.
Apesar da complexidade é evidente para toda a gente com um pouco de senso que nada disto se resolve com muros ou vedações, manipulando emoções e interesses de circunstância ou combatendo alguns e depois apoiar esses alguns ao sabor dos movimentos da luta pelo poder
Crescem muros, a barbaridade estende-se, o horror é imenso e, por vezes, nem a retórica da condenação é convincente e muitos menos, evidentemente, eficaz.
A questão é séria, os ventos sempre semeiam tempestades e as tempestades num mundo global não ficam confinadas nos epicentros.
Não existe terror mau e terror bom. Não existe horror mau e horror bom. Não existe terrorismo bom e terrorismo mau.
Como é possível que tal horror aconteça e tanta gente com responsabilidades assobie para o ar e se fique pelas palavras de circunstância.
Estou a lembrar-me de Rafael Alberti e o seu "Nocturno".
(...)
Las palabras entonces no sirven, son palabras...
Siento esta noche heridas de muerte las palabras.

POLÍTICA? NÃO ME METO E NÃO QUERO SABER

No Público de hoje surge uma peça interessante sobre a falta de mobilização do eleitorado jovem para a participação nas eleições traduzindo-se em elevados níveis de abstenção superiores aos de outros escalões etários que também já são elevados. Algumas notas.
Do meu ponto de vista existe uma questão central. Como muitas vezes tenho referido, o modelo e cultura política instalados há décadas na nossa comunidade, a partidocracia, fomentam, explicita ou implicitamente, o afastamento de grande parte dos cidadãos da participação cívica activa pois, basicamente, ela corre por dentro ou sob tutela dos aparelhos partidários. Aliás, os níveis crescentes e muito altos da abstenção em sucessivas eleições espelham isso mesmo.
Tal cenário alimenta um significativo e comprovado desinteresse dos jovens, mas não só, pela coisa pública e pelo envolvimento activo. Creio também que o grau de qualificação que as gerações mais recentes atingem é relevante nesta atitude crítica ou desinteressada. A participação dos jovens na coisa política tem sido conformada, quase que exclusivamente, às juventudes partidárias, que servem, com excessiva frequência de trampolim para os lugares políticos. Entre as várias lideranças partidárias actuais e recentes temos inúmeros exemplos deste “alpinismo”.
Lembrar-se-ão que há algum tempo, o Dr. Fernando Negrão, figura de relevo no PSD defendia que os adolescentes do 3º ciclo "não deveriam ter contacto com a Constituição". Elucidativo.
Por outro lado, esse desinteresse pela participação cívica, alinhada nos aparelhos, alia-se a um outro entendimento de consequências extremamente importantes, a falta de esperança e confiança em que as coisas possam tornar-se diferentes, ou seja, isto não muda, não adianta.
Talvez a antecipação da idade para votar possa ser um caminho para alterar.
A questão não está na agenda. No entanto recordo que o BE tinha no seu programa eleitoral o direito ao voto a partir dos 16 anos. Creio, não tenho informação actualizada, que o voto sem restrições a partir dos 16 anos apenas se verifica na Áustria, registando-se menor abstenção que no escalão 18-20 anos, o que sugere o interesse dos mais jovens pela participação cívica.
Na verdade, em Portugal e aos 16 anos, as pessoas têm a possibilidade legal de casar, trabalhar ou serem responsabilizados criminalmente. Porque não a acessibilidade ao voto?
Dizem alguns que estes adolescentes não terão maturidade para o uso "responsável" do voto. Provavelmente, algumas das pessoas que entendem que as pessoas com 16 anos não têm maturidade, ficarão indiferentes ao espectáculo indecorosos de "manipulação" e "compra" dos votos a que assistimos em todos as campanhas eleitorais, que envolvem desde as ofertas, os passeios, as promessas que não se vão cumprir, até às recompensas com lugares aos mais empenhados e melhor colocados nos aparelhos. Parece-me fraco o argumento se considerarmos o que socialmente e pessoalmente as pessoas com 16 anos são capazes e como tal consideradas pela comunidade e pela lei, relembro, capazes de casar e trabalhar, por exemplo.
Deve, no entanto, registar-se que nos últimos tempos parece estar a emergir alguma motivação para a acção cívica mas, significativamente, fora da tutela partidária. São exemplos deste caminho várias manifestações envolvendo movimentos como "Que se lixe a Troika"; "Movimento dos Indignados" ou "Precários Inflexíveis" em que a participação de jovens parece importante.

Gente mais nova, pode trazer comportamentos e ideias mais novas.

NOTÍCIAS DA CATALUNHA


Gostei de ler a entrevista de Pepe Menéndez, director-adjunto da Fundació Jesuïtes Educació da Catalunha, ao DN.
Como é sabido os Jesuítas estão a realizar uma profunda mudança no seu sistema de ensino na Catalunha. Vale a pena ler e reflectir sobre a entrevista não necessariamente para replicar “receitas” mas ponderar caminhos e opções.

sábado, 30 de janeiro de 2016

DA "BATOTICE"

As escolas estão a tornar-se "desonestas" e "batoteiras", acusa psicólogo

Será que a "batotice" e a "desonestidade" são "só" das escolas? Tanta gente a falar do que não sabe.
Nada de estranho, estamos todos habituados a que se entenda a educação como matéria de opinião e não matéria de conhecimento e experiência.

A DIGNIDADE

A dignidade é o amparo de um Homem. A dignidade está em amar e ser amado. A dignidade está em fazer e ser reconhecido. A dignidade está em ser e poder ser. A dignidade está em viver, não em sobreviver. A dignidade está em ajudar e ser ajudado. A dignidade está no direito, não no privilégio.
Quando nos retiram a dignidade ficamos desamparados. É grande, é enorme, a quantidade de gente desamparada.

HÁ VIDA PARA ALÉM DA AVALIAÇÃO

A discussão sobre a avaliação no ensino básico e as alterações introduzidas pelo ME. continuam na agenda como foi o caso de ontem em Conferência organizada pelo IAVE.
Não vou repetir tudo o que já escrevi sobre isso sempre na defesa da importância da avaliação externa através de provas de aferição no 1º ciclo e, eventualmente, com exames a partir do segundo
O que ainda quero sublinhar a propósito desta questão é que sendo fundamental a preocupação com os resultados e a sua avaliação, em educação os resultados só se alteram com a intervenção nos processos sendo então importante avaliar o impacto dessa intervenção medindo/avaliando os resultados. Assim, insisto na necessidade de definir de forma adequada e com os recursos necessários apoios para as dificuldades experimentadas por alunos e professores ao longo de todo o ciclo, nos vários ciclos, e disponibilizados em tempo oportuno.
É assim que os melhores sistemas educativos que não têm exames tão cedo estão organizados. Este entendimento não tem rigorosamente a ver com facilitismo pois não consta que esses países tenham sistemas educativos “facilitistas” apesar de não terem exames tão precoces e nos anos de exame apresentarem taxas de retenção muito baixas.
Parece-me ainda de considerar outro conjunto de variáveis com forte impacto nos processos sobretudo se considerarmos as especificidades dos nossos territórios educativos. Refiro, por exemplo, o impacto que turmas sobredimensionadas, metas curriculares excessivas e burocratizadas que inibem a acomodação das diferenças entre os alunos, insuficiência de apoios às dificuldades de alunos e professores durante todos os anos do ciclo, falta de verdadeira autonomia das escolas, entre outros aspectos, podem assumir na qualidade dos processo e, naturalmente, nos resultados.
Parece também necessário que se lance uma reflexão sobre a questão, difícil mas necessária, das metas curriculares e na lógica do entendimento integrado do Ensino Básico, creio que é de repensar a organização do Ensino Básico no que respeita ao número de ciclos e organização das áreas disciplinares.
É claro que se trata de um universo complexo com repercussões em várias dimensões, incluindo na carreira e formação de professores e, por isso mesmo, a reflexão e eventuais mudanças, devem ser realizada com competência, serenidade, tempo e envolvimento participado de toda a comunidade.
Como há dias escrevi, depressa e bem não há quem, e o ME deve resistir à tentação habitual de “alterar” para deixar a sua marca e responder a agendas imediatas ou de outra natureza.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

DA VIOLÊNCIA EM CONTEXTO ESCOLAR

A imprensa de hoje refere dois episódios de alegada violência em contexto escolar. De um terá resultado a morte de uma aluna e do outro um ferimento ligeiro produzido por uma faca.
A questão da violência em contexto escolar, envolvendo só alunos ou alunos, funcionários e professores é importante e deve estar sempre na agenda.
Não sou, longe disso, dos que entendem que as escolas são um inferno, não são e acho que podemos e devemos confiar na escola pública apesar dos maus-tratos que tem sofrido. No entanto, também sei que episódios desta natureza são mais frequentes do que desejaríamos.
Algumas notas repescadas sobre esta matéria, suficientemente complexa para que sejam tantas as dúvidas quantas as certezas, muitas.
Sabemos de há muito que a escola foi, é, será sempre, um reflexo do contexto económico, social e cultural, bem como do sistema de valores em que se integra. Neste quadro, em tempos de violência, a escola espelha essa violência, em tempos de sentimento de insegurança, a escola espelha essa insegurança, em tempos de sentimento de impunidade, a escola espelha esse sentimento de impunidade. Por tudo isto não é possível, como alguns discursos o fazem, responsabilizar exclusivamente a escola, por estas situações. A escola fará certamente parte da solução mas não é, não pode ser, A solução, esta passará por intervenções concertadas no âmbito das comunidades.
Políticas públicas que não defendam a qualidade e o investimento na escola pública promovendo cortes excessivos de docentes, técnicos e funcionários têm necessariamente implicações.
Um segundo aspecto prende-se com o trabalho com as famílias. Muitos casos de violência escolar estão associados, não estou a falar de uma relação de causa-efeito, à acção negligente ou menos competente por parte das famílias. Continuo fortemente convicto de que nas escolas devem ser criados dispositivos, com recursos, humanos e de tempo por exemplo, para trabalho sistemático e estruturado com as famílias. Com as metodologias mais frequentes, reuniões de pais e convocatória para famílias problemáticas irem à escola, que se revelam ineficazes, a maioria dos pais nem sequer aparece, creio que será muito difícil alterar ou, pelo menos, minimizar os efeitos das variáveis familiares nos comportamentos dos miúdos.
Uma outra questão ainda dentro da instituição escola, prende-se com o facto conhecido de que os problemas mais significativos sentidos nas escolas, indisciplina, violência, delinquência, bullying, etc. ocorrem, obviamente, nas salas de aula e, sobretudo nos espaços de recreio. Deixando de lado, de momento, a sala de aula parece-me fundamental que se dê atenção educativa aos tempos e espaços de recreio escolar.
Em muitas escolas a insuficiência de pessoal auxiliar não permite a ajustada supervisão desses espaços. Por outro lado, a sua formação em matérias como supervisão educativa e mediação de conflitos, por exemplo, e, ou, o entendimento que têm das suas competências, muitas não valorizadas pela própria comunidade, leva a alguma negligência ou receio de intervenção.
Talvez não seja muito popular mas digo de há muito que os recreios escolares são dos mais importantes espaços educativos, aliás, muitas das nossas memórias da escola, boas e más, passam pelos recreios. Neste sentido, defendo que a supervisão dos intervalos deveria ser da responsabilidade de docentes. A reestrutura da enorme carga burocrática do trabalho dos professores, dos modelos de organização e funcionamento das escolas, por exemplo, poderiam libertar horas de docentes para esta supervisão que me parece desejável.
Continua a ser verdade que a prevenção é aforma mais eficaz de lidar com estes fenómenos. A prevenção implica custos e recursos que a não existirem sairão bem mais caros pelas consequências.
É uma questão de opção política. Em educação não há despesa, há investimento.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

DAR VISIBILIDADE AO QUE PARECE TRANSPARENTE

Pela primeira vez, a Lego vai ter um boneco numa cadeira de rodas

Nada do que queremos ou achamos que é preciso mudar muda à velocidade que desejaríamos. Assim sendo, as mudanças mesmo pequenas e, às vezes, pouco mais que simbólicas … são mudanças.
Dar visibilidade ao que parece transparente e não devia ser é uma mudança.
Não se pode, não se deve, ignorar.

AS HISTÓRIAS PARA CRIANÇAS

Uma da características das histórias tradicionais para crianças é a sua, por assim dizer, eternidade. Ouvimo-las dos nossos pais e avós e contamo-las aos nossos filhos e netos. E assim continuará a ser.
No entanto, o tempo vai deixando marcas e promovendo alguma actualização nas histórias.
Um dia destes contava a história da Gata Borralheira, lembram-se, ao meu neto que a ouvia "encantado" com uma versão da história que eu imagino ao alcance de dois anos e meio de experiência, de vida a dele e de avozice a minha.
A história acabou com a Gata Borralheira a ir com o Príncipe para a casa dele. É assim que acabam as histórias com Princesas e Príncipes.
Mas o ponto final foi posto alguns segundos depois pelo Simão.
Avô, foram pela A5.
Está certo Simão, a Gata Borralheira e Princípe foram pela A5. Se os encontrarem por lá lembrem-se. Eles, pelos menos eles, foram felizes para sempre.
Agora ando na história da Carochinha. Ainda não sei o fim.


A LER "ERA UMA VEZ ... NOVE MENINOS REAIS"

Gostei de ler o texto muito bonito de Graça Barbosa Ribeiro, "Era uma vez ... nove meninos reais", sobre a produção da colecção de livros para crianças, e não só, “Meninos Especiais”, promovida pela Associação Pais em Rede. Aproveito para recomendar a sua leitura e divulgação.

Apesar da lentidão.
Apesar dos obstáculos.
Apesar da pressão para a "normalização".
Apesar da discriminação ainda presente.
Apesar da retórica de boa parte dos discursos, da legislação e das políticas.
Apesar de ...
A inclusão, através do seu verdadeiro critério, a participação, vai fazendo o seu difícil caminho.
Eppur si muove.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

DOS JOVENS E DA DELINQUÊNCIA

Segundo os dados agora conhecidos da Comissão de Acompanhamento e Fiscalização dos Centros Educativos, dos 186 jovens que em Fevereiro de 2015 cumpriam medidas tutelares nos Centros Educativos 144 estavam já sinalizados, referenciados, por processos de promoção e protecção. Dito de outra maneira, trata-se de jovens com um processo longo e conhecido de problemas e circunstâncias de vida bem adversas.
Recordo também que resultados do Projecto Reincidências – Avaliação da Reincidência dos Jovens Ofensores e Prevenção da Delinquência, da responsabilidade da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, e realizado entre Janeiro de 2013 e Janeiro de 2015 mostram que 33.2% dos jovens inquiridos e que já passaram por uma medida tutelar educativa que pode incluir internamento em Centro Educativo reincidem na prática de delitos.
Acresce que os Centros Educativos sentem ainda forte constrangimento em matéria de recursos humanos pelo que mais dificilmente cumprem o seu papel fundamental de reabilitação através da construção de programas de educação e formação profissional.
Ainda de acordo com um estudo divulgado há algum tempo realizado no âmbito do Programa de Avaliação e Intervenção Psicoterapêutica no Âmbito da Justiça Juvenil, promovido pela Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e co-financiado pela Comissão Europeia, a população que está nos Centros Educativos acumula, em geral, mais de três anos de chumbos na escola e em 80% dos casos é oriunda de famílias de baixo estatuto socioeconómico.
É ainda relevante que mais de 90% dos que foram entrevistados têm pelo menos uma perturbação psiquiátrica, “o que é um dado astronómico”, como classificou Daniel Rijo, professor da Universidade de Coimbra, um dos autores do trabalho para a DGRSP. Nem todos têm o acompanhamento que seria necessário, admitiu.
Sempre que estas matérias são discutidas, os especialistas acentuam a importância da prevenção e da integração comunitária como eixos centrais na resposta a este problema sério das sociedades actuais pelo que a resposta recentemente criada, (mas creio que ainda só no papel) “casas de autonomização” pode constituir-se como um contributo se dotada de recursos adequados.
As Comissões de Protecção de Crianças e Jovens sentem-se incapazes de acompanhar o volume de casos das respectivas comunidades, gerando situações, muitas conhecidas, com fim grave de crianças que depois ficamos a saber, os dados de hoje confirmam-no, que estavam “sinalizadas” ou “referenciadas”, mas sem resposta.
Sabemos que educação, prevenção e programas comunitários e de integração têm custos, no entanto, importa ponderar entre o que custa prevenir e cuidar e os custos posteriores do mal-estar e da pré-delinquência ou da delinquência continuada e da insegurança.
Parece ser cada vez mais consensual que mobilizar quase que exclusivamente dispositivos de punição, designadamente a prisão, parece insuficiente para travar este problema e, sobretudo, inflectir as trajectórias de marginalização de muitos dos envolvidos mais novos em episódios de delinquência.
No entanto a discussão sobre estas matérias é inquinada por discursos e posições frequentemente de natureza demagógica e populista alimentados por narrativas sobre a insegurança e delinquência percebida, alimentadora de teses securitárias.
Apesar de, repito, a punição e a detenção constituírem um importante sinal de combate à sensação de impunidade instalada, é minha forte convicção de que só punir e prender não basta.
É em todo este caldo de cultura que nascem e se desenvolvem as sementes de mal-estar.
É urgente que nos questionemos e questionemos as instituições, em nome dos nossos filhos e dos filhos dos nossos filhos.
Recordo Brecht, "Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem".

DA ADOLESCÊNCIA

Uma peça no Público sobre os comportamentos dos adolescentes na qual colaborei.
(...)
“São mais os estilos de vida que podem estar ligados a determinado tipo de condição, determinados tipos de exercício profissional, pouca presença familiar… Estes estilos podem reflectir-se na educação, os miúdos ficam mais sós, com menos regras, com menos orientação, menos nível de comunicação” (...)

COMPORTAMENTO

Adolescentes não têm mimos a mais, têm mimos maus

DA INDÚSTRIA DOS EXAMES

No DN abordam-se os primeiros efeitos colaterais da substituição dos exames finais do 1º e 2º ciclos por provas de aferição.
Ao que parece os Centros de explicações que nos últimos anos se tornaram um atraente nicho de mercado com a preparação para exames, sobretudo a partir do segundo período, já sentem a diminuição da procura.
Também as editoras que nos últimos anos desenvolveram mais uma estimulante área de negócio, a oferta de materiais específicos de preparação para os exames, sentem ameaçados os seus interesses comerciais.
Nada de estranho, muitas vezes aqui falámos do funcionamento da indústria de exames.
Parece-me, no entanto, útil uma pequena reflexão. Na segunda feira foi divulgado um estudo da responsabilidade conjunta da Fundação Francisco Manuel dos Santos e do CNE mostraram que nove em cada dez alunos com insucesso escolar são de famílias pobres.
A ajuda externa ao estudo e como ferramenta promotora do sucesso não está ao alcance de toda a gente pelo que é fundamental que as escolas possam dispor dos dispositivos de apoio suficientes e qualificados para que se possa garantir, tanto quanto possível, a equidade de oportunidades e a protecção dos direitos dos miúdos, de todos os miúdos.
A substituição dos exames pelas provas de ferição não altera esta necessidade imperiosa, antes pelo contrário, torna-a ainda mais pertinente para que se possam corrigir e apoiar ao longo dos vários ciclos as dificuldades de alunos e professores.
Talvez esta necessidade pudesse ser atenuada com o recurso a professores que já estão no quadro ou com contratos sucessivos e que estão ameaçados pela falta de horários.
De uma vez por todas, é necessário contenção e combate ao desperdício, mas em educação não há despesa há investimento.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

UM TROPEÇO NA CIDADANIA

Movimento enviou esta terça-feira uma carta a aberta a criticar o novo Presidente da República por ter estacionado o carro num lugar reservado a deficientes.

O Professor Marcelo Rebelo de Sousa tropeçou na cidadania, seguido pelas câmaras da SIC estacionou o carrinho num lugar reservado a cidadãos com mobilidade reduzida.
Nada de extraordinário. Como sabem, boa parte da legislação em Portugal não é imperativa, é indicativa, ou seja, a lei diz que é assim mas não tem que ser assim, é como um homem quiser.
Acontece que o homem é o novo Presidente da República e quer mesmo mostrar que é um homem próximo do povo.
Também é verdade que ele só vai jurar cumprir a constituição, não vai jurar cumprir toda a legislação.
Bom, finalmente, ninguém é perfeito ... nem o Professor.

QUEM PASSA MAL NÃO APRENDE

"Sabemos que há crianças que apenas têm direito à educação na nossa Constituição", disse Tiago Brandão Rodrigues, a propósito do estudo ontem divulgado segundo o qual nove em cada dez crianças retidas nas escolas portuguesas são oriundas de famílias com carências socio económicas.


O trabalho ontem divulgado realizado pelo CNE e pela Fundação Francisco Manuel dos Santos espelha uma realidade que todas as pessoas que se movem no universo da educação conhecem e reconhecem, a esmagadora maioria dos alunos com insucesso é oriunda de famílias com estatuto económico e social muito baixos e vivem em situação de pobreza e carência. Aliás, o Ministro da Educação assumiu isso mesmo hoje na Assembleia da República.
O impacto das circunstâncias de vida no bem-estar das crianças e em aspectos mais particulares no rendimento escolar e comportamento é por demais conhecido e essas circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências significativas ao nível das necessidades básicas.
Um Relatório de 2013, "Food for Thought", da organização Save the Children, afirmava que 25% das crianças terão o seu desempenho escolar em risco devido à malnutrição com as óbvias e pesadas consequências em termos de qualificação e qualidade de vida de que a educação é uma ferramenta essencial.
Em qualquer parte do mundo, miúdos com fome, com carências, não aprendem e vão continuar pobres. Manteremos as estatísticas internacionais referentes a assimetrias e incapacidade de proporcionar mobilidade social através da educação. Não estranhamos. Dói mas é “normal”, é o destino.
Quando penso nestas matérias sempre me lembro da história que conto com frequência e foi umas das maiores lições que já recebi, acontecida há uns anos em Inhambane, Moçambique. Ao passar por uma escola para gaiatos pequenos o Velho Bata, um homem velho e sem cursos, meu anjo da guarda durante a estadia por lá, disse-me que se mandasse traria um camião de batata-doce para aquela escola. Perante a minha estranheza, explicou que aqueles miúdos teriam de comer até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.
Pois é Velho, miúdos com fome não aprendem e vão continuar pobres.

O PREÇO DOS MANUAIS ESCOLARES REVISTO EM BAIXA. É POUCO MAS É POSITIVO

Ao que se lê na imprensa encontra-se em curso um processo de negociação entre o ME e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros visando o abaixamento dos preços dos manuais escolares a acontecer já no próximo ano lectivo. Será um passo positivo mas deixa ainda muito por fazer nesta matéria.
De facto, a questão dos manuais escolares é uma matéria importante e não só pelos custos para as famílias. Apesar do esforço desenvolvido em diversas iniciativas promovendo a reutilização dos manuais vários factores como uma excessiva “manualização” do trabalho dos alunos potenciado com o aumento do número de alunos por turma e pelo modelo de currículos assente nas metas curriculares, não porque existem mas pela forma excessiva e inadequada como foram definidas. Acresce ainda a rápida mudança de currículos ou dos manuais aprovados nas escolas e agrupamentos que também obrigam à substituição de manuais. Importa ainda considerar o habitual conjunto de cadernos de actividades, fichas e CDs que acompanham os manuais e que se reflectem significativamente os custos globais.
Tal situação tem óbvias implicações didáctico-pedagógicas e, naturalmente, económicas pelo peso nos orçamentos familiares acrescido
Recordo que no quadro constitucional vigente, lê-se no Art.º 74º (Ensino), “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito;
Na verdade, o ensino obrigatório nunca foi gratuito nem universal, vejam-se as taxas de abandono, e os custos incomportáveis para muitas famílias dos manuais e materiais escolares num cenário em que a acção social escolar é insuficiente e tem vindo a promover sucessivos ajustamentos nos valores e critérios de apoio disponibilizados. No universo particular das famílias com crianças com necessidades especiais os custos da escolaridade obrigatória e gratuita são ainda mais elevados, bem mais elevados.
Sem retomar considerações de natureza mãos didáctico-pedagógica que já tenho abordado creio que a redução da dependência dos manuais passaria, entre outros aspectos, por uma reorganização curricular, diminuindo a extensão de alguns conteúdos, a redução do número de alunos por turma ao abrigo de uma verdadeira autonomia das escolas, o que permitiria a alunos e professores um trabalho de pesquisa e construção de conhecimentos com base noutras fontes incrementando, por exemplo, a acessibilidade a conteúdos e informação diversificada que as novas tecnologias oferecem.
É importante caminharmos no sentido de atenuar a fórmula predominante, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.
Julgo também que seria de considerar a possibilidade dos manuais escolares serem disponibilizados pelas escolas e devolvidos pelos alunos no final do ano lectivo ou da sua utilização, sendo as famílias penalizadas pelo seu eventual dano ou extravio e ficando, assim, com "folga" para aquisição de outros materiais, livros por exemplo, um bem com pouca presença em muitos agregados familiares. Este modelo não é novo, é usado em vários sistemas educativos.
Como é evidente, dentro desta perspectiva, a própria concepção dos manuais deveria ser repensada no sentido de permitir a sua reutilização.
Não esqueço, no entanto, o peso económico deste mercado e como são os mercados que mandam ...

UMAS NOTAS NA VISÃO. "COM A IDADE PASSA, SERÁ?"

Umas notas na Visão sobre o universo da Educação. Tantas vezes se ouve algo como "Com a idade passa". Será que passa mesmo?


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O PRESIDENCIAL VETO A DUAS MÃES E DOIS PAIS

Cavaco Silva num dos últimos exercícios da sua passagem por Belém vetou a adopção de crianças por casais homossexuais pois, afirma, “Está por demonstrar” em que medida a adopção plena “promove o bem-estar da criança”. Também legitima a sua decisão através de habilidosas considerações jurídicas
Cavaco Silva pode afirmar o que entende, parece-me legítimo, não pode é transformar os seus valores e opiniões em ciência.
Algumas notas velhas.
Em primeiro lugar e desde logo está provado que uma família que goste e cuide da criança cumpre melhor o papel de cuidador e educador que uma instituição por mais competentes e empenhados que sejam os seus técnicos. Cavaco Silva deveria saber que Portugal é ainda um país com alta taxa de crianças em instituições. Talvez fosse boa ideia pensar no seu bem-estar”.
No que respeita à homoparentalidade e à falta referida por Cavaco Silva do “amplo debate” recordo uma revisão de algumas dezenas de estudos sobre este conjunto de razões realizada pela Associação Americana de Psicologia que motivou uma resolução da Associação, em 2004, que não confirma nenhuma destas preocupações do argumentário contra e que são, basicamente a eventual dificuldade da criança em lidar com a sua orientação sexual, a vulnerabilidade psicológica e o risco de problemas de comportamento e também o risco acrescido de serem alvo de discriminação, por exemplo, em contextos escolares.
Cavaco Silva também e não quer saber que em 2010, a Associação Americana de Psiquiatria afirmava "apoiar as iniciativas que permitam a casais do mesmo sexo adoptar e co-educar crianças".
Também em 2014 a Ordem dos Psicólogos de Portugal referiu em parecer que "os resultados das investigações psicológicas apoiam a possibilidade de co-adopção por parte de casais homossexuais, uma vez que não encontram diferenças relativamente ao impacto da orientação sexual no desenvolvimento da criança e nas competências parentais". Na mesma linha foi divulgada mais recentemente uma outra revisão de estudos sobre esta matéria mostrando que a homoparentalidade não afecta o desenvolvimento das crianças.
Podemos também lembrar a Cavaco Silva que a maioria das pessoas homossexuais terá sido educada em famílias heterossexuais, que existem muitas crianças com sérios problemas emocionais e vulnerabilidade psicológica, a experimentarem condições de mal-estar devastador integrando situações familiares heterossexuais ou, finalmente, que existem múltiplos casos de crianças discriminadas por variadas razões em contexto escolar o que não nos faz retirar, por princípio, as crianças da escola mas, pelo contrário, combater a discriminação, sejam quais forem as circunstâncias.
Do meu ponto de vista e de uma forma propositadamente simples, a questão central é que o que faz com toda a certeza mal às crianças, é serem maltratadas e os maus tratos não decorrem do tipo de famílias, mas da competência humana e educativa, por assim dizer, de quem delas cuida, pais, mães ou educadores.
Quando as crianças são bem tratadas e crescem com adultos que gostam delas, as protegem e as ajudam a crescer, elas encontram caminhos para lidar com dois pais ou com duas mães.
Insisto, o que as crianças terão dificuldade em resolver é ter por perto adultos, heterossexuais ou homossexuais, que não gostam delas, que as maltratam, negligenciam, abandonam, etc. Isso é que faz mal às crianças.
O resto é uma discussão não conclusiva, assente em valores de que não discuto a legitimidade, mas que não podem ser confundidos com ciência ou com um discurso de defesa das crianças de males que estão por provar. Cavaco Silva deveria saber que a decisão do Presidente da República não deve assentar na ignorância e no preconceito.
Quando se trata do bem-estar dos mais novos parece bem mais importante defendê-las dos males comprovados e que todos os dias desfilam aos nossos olhos.
Como disse, este texto não é novo, parte dele já o divulguei como artigo de opinião no Público. Enquanto for necessário e porque não julgo que mereça alteração, voltarei, insistindo.

A LER. A ENTREVISTA DE JOAQUIM DE AZEVEDO


Vale a pena ler e reflectir sobre a entrevista de Joaquim de Azevedo ao DN. Que caminhos para a educação e para a escola? Qual o sentido da mudança e como mudar? Quais os custos da mudança e quais os custos de não mudar?
As respostas não são fáceis e não serão provavelmente consensuais. Analisar o que se vai fazendo e pensando noutras paragens pode ser inpirador mas não pode ser replicado dadas as diferenças a todos os níveis.

domingo, 24 de janeiro de 2016

DAS PRESIDENCIAIS. TERMINOU O SONHO

E pronto, terminou o sonho.
Um agradecimento a Sampaio da Nóvoa pela janela de esperança que abriu.
É comum que nas noites eleitorais se afirmem vitórias mesmo perante derrotas pesadas. Por umas razões ou por outras todos ganharam mas não, existem derrotados e é bom não esquecer. É bom não esquecer que claramente se verificou uma derrota da estratégia seguida pelo PS, o criativo entendimento da primeira volta como eleições primárias. O grande risco foi sempre que esta decisão facilitasse uma vitória de Marcelo à primeira, ela aí está. 
A democracia implica que se aceitem resultados eleitorais e o sentido do voto dos eleitores. Tal como em 3 de Outubro a maioria dos que votaram rejeitaram a continuidade das políticas anteriores, hoje a maioria dos que votaram escolheram Marcelo Rebelo de Sousa. Curiosamente os que hoje apoiam a escolha de Marcelo Rebelo de Sousa por parte dos eleitores não aceitaram a escolha dos eleitores em 3 de Outubro, um entendimento enviesado da democracia. Até nisto Sampaio da Nóvoa é diferente, já declarou que a "a partir de agora Marcelo Rebelo de Sousa é o meu Presidente".
Mas há mais derrotados. Todos os que colocaram interesses partidários à frente de projectos mais alargados e estabeleceram agendas próprias que levaram a uma dispersão de candidaturas que não permitiram aumentar a possibilidade de levar a uma segunda volta contribuíram, do meu ponto de vista, para a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa e foram derrotados. Talvez Marcelo Rebelo de Sousa deva agradecer a estratégia da esquerda no seu discurso de vitória.
A candidatura de Sampaio da Nóvoa abriu e mostrou um outro horizonte possível e amanhã, amanhã é o primeiro dia do resto da nossa vida. 

DA CORRIDA DE OBSTÁCULOS

Votar não é para quem quer, é para quem consegue

As dificuldades, por vezes inultrapassáveis, que enfrentam pessoas com mobilidade reduzida para aceder a um direito, o voto.
Apenas mais um exemplo da corrida de obstáculos sem fim em que se transforma a vida de muitas pessoas com deficiência e das suas famílias. 
Não precisam de tolerância, não precisam de privilégios, não precisam de caridade, precisam só de ver os seus direitos considerados. Os direitos não são de geometria variável cumprindo-se apenas quando é possível.

DE TANTO CHUMBAR, UM DIA APRENDES. SERÁ?


De novo e sempre.
O peso insustentável da retenção no nosso sistema escolar parece assentar na errada convicção de que a repetição só por si conduz ao sucesso e alimenta o que a OCDE já classificou de "cultura da retenção". Importa ainda considerar o impacto económico desta cultura como evidenciou um estudo realizado pela associação Empresários pela Inclusão Social e pelo Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa.
Confesso a surpresa quando ao discutir-se os efeitos pouco positivos da retenção, cerca de 150 000 alunos por ano, algumas vozes, mesmo dentro do universo da educação, clamam que se está a promover o "facilitismo" ou a defender que "então passam sem saber".
Como me parece evidente não é dada disto. Como exemplo, a Noruega tem uma taxa de retenção próxima do 0% e não consta que os alunos noruegueses passem sem saber, são, aliás, dos alunos com melhores resultados nos estudos comparativos internacionais.
A questão é saber se o chumbo transforma o insucesso em sucesso. Não transforma, repetir só por repetir não produz sucesso, aliás gera mais insucesso conforme os estudos mostram. Muitos estudos internacionais também mostram que os alunos que começam a chumbar, tendem a continuar a chumbar, ou seja, a simples repetição do ano, não é para muitos alunos, suficiente para os devolver ao sucesso. Os franceses utilizam a fórmula “qui redouble, redoublera” quando referem esta questão.
Nesta conformidade e do meu ponto de vista, a questão central não é o chumba, não chumba, e quais os critérios ou o número de exames, mas sim que tipo de apoios, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias desde o início da percepção de dificuldades com o objectivo de evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional. Importa ainda que as políticas educativas sejam promotoras de condições de sucesso para alunos e professores. O aumento do número de alunos por turma no Ensino Básico e no Secundário, a forma como foram definidas as metas curriculares, a cultura de competição e centrada exclusivamente em resultados, os cortes no número de docentes que poderiam desenvolver dispositivos de apoio, são apenas alguns exemplos do que não deve ser feito se, efectivamente, se quiser promover qualidade e sucesso.
Como é evidente este tipo de discurso não tem rigorosamente a ver com "facilitismo" e, muito menos, com melhoria "administrativa" das estatísticas da educação, uma tentação a que nem sempre se resiste.
Assim sendo, o essencial é promover e tornar acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e recursos adequados e competentes de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É fundamental não esquecer que o insucesso continua a atingir fundamentalmente os alunos oriundos de famílias com pior condição económica e social pelo que inibe o objectivo da mobilidade social, replicando o velho "tal pai, tal filho". A associação entre o insucesso e a pobreza em Portugal é, aliás, a mais forte entre os países europeus.
É necessário também diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional mas não em idades precoces criando percursos irreversíveis de "segunda" para os "sem jeito para a escola" e "preguiçosos".
Não tenho nenhum princípio fundamentalista contra os exames, embora no 1º ciclo os entenda como dispensáveis, as provas de aferição podem cumprir e cumpriram o papel regulador. Entender que os exames, quanto mais melhor, só por existirem são fonte de qualidade é que me pareceu e parece uma medida facilitista.
A qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, sim, naturalmente, mas também com a avaliação do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc.
É o que acontece, genericamente, nos países com mais baixas taxas de retenção escolar.
É o que não tem acontecido em Portugal.
Ponto.

sábado, 23 de janeiro de 2016

A CONFLITUALIDADE EM EDUCAÇÃO

Em entrevista ao Expresso o professor Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, sublinha o impacto negativo das sucessivas alterações em matéria de política educativa produzidas pelas diferentes equipas do ME, incluindo a actual. Umas notas telegráficas.
Na verdade, o sistema educativo português parece condenado a uma dimensão de conflitualidade e instabilidade que lhe retiram serenidade e eficácia.
Não sou apologista de falsos consensos, a chamada paz podre, conseguida a todo o preço. A conflitualidade em educação, como noutras áreas, é, pode ser, um factor de desenvolvimento e crescimento.
Existem diferentes posicionamentos sobre educação e escolas designadamente no entendimento do que deve ser um sistema público de educação e ensino. É legítimo que assim seja em sociedades abertas e democráticas independentemente das nossas posições. Recordo como tantas vezes aqui discordei de dimensões da política educativa de Nuno Crato ou Maria de Lurdes Rodrigues só para citar dois exemplos fortes entre antigos ocupantes da 5 de Outubro.
A questão não é a existência destas diferentes visões sobre os caminhos da educação. Os problemas, a instabilidade, emergem quando essas diferentes visões e posicionamento perdem de vista os interesses e o bem-estar educativo de todos os alunos e passam a acomodar, sobretudo, outros interesses sejam partidários, corporativos, profissionais ou económicos.
É neste quadro que a conflitualidade corre o risco de ser parte do problema e não uma busca por soluções. Não está também em causa a legitimidade de alguns destes interesse mas o enorme risco de que a gestão desses interesses pode ameaçar a serenidade e qualidade do trabalho de alunos e escolas. 

O DIA DA REFLEXÃO

Manda a liturgia dos processos eleitorais que o dia anterior se dedique à reflexão. Como em outras ocasiões tenho afirmado não estou muito de acordo com este cenário, do meu ponto de vista, ainda que pareça estranho, deveríamos ter o dia de reflexão no dia seguinte às eleições.
Em primeiro lugar não julgo necessário o dia de reflexão antes do acto eleitoral porque não entendo que essa reflexão influencie significativamente os resultados eleitorais pois, se por um lado, a abstenção continua a crescer, deixando cada vez mais o voto no eleitorado fidelizado, por outro lado, o eleitorado flutuante não decide na véspera, decide, creio, face a contextos e circunstâncias, por exemplo a qualidade e capacidade mobilização das candidaturas em presença.
Em segundo lugar, porque na verdade, em termos de futuro parece ser mais significativo reflectir nos resultados eleitorais que se verificarem. Será totalmente diferente um cenário de vitória à primeira volta de um candidato que se limitou a colocar a sua presença mediática a render e a “vender” um discurso de sedução a tudo e todos ou, como espero e desejo, uma segunda volta com a presença de Sampaio da Nóvoa. Aí, começa tudo de novo mas, felizmente, já não do “zero”.
Aproveito, no entanto e desde já, o dia de reflexão para deixar um apelo muito sentido.
Apelo vivamente aos senhores integrantes da classe política que a propósito das eleições de amanhã se inibam de elaborar comentários como “queria felicitar o povo português pela forma tranquila como está a decorrer, ou decorreu, o acto eleitoral”, “quero registar a normalidade que o povo português evidencia no cumprimento do seu dever cívico”, “os cidadãos mais uma vez mostram a sua maturidade democrática” ou ainda “o acto eleitoral está a decorrer, ou decorreu, com toda a normalidade em todo o território”. Considero afirmações desta natureza um insulto à esmagadora maioria dos cidadãos eleitores em Portugal. Que diabo pensam de nós, para se surpreenderem com a “normalidade” do nosso comportamento?
Então não é de esperar que participar num acto eleitoral, das diferentes formas possíveis, seja algo de normal e tranquilo?
Lembro-me daqueles pais e professores que ao falarem de miúdos acrescentam de imediato “e até se portam bem”, como se o comportamento adequado seja uma surpresa e a excepção. Como se dizia no PREC, “repudio veementemente tais afirmações”.
Já agora, nós, os cidadãos que votamos, ou não, com normalidade democrática, gostávamos de poder comentar as campanhas dizendo que tudo decorreu com a elevação, sentido ético e de esclarecimento normais. Mas não, existiram como sempre os insultos, a demagogia, a trafulhice nas ideias e nas nos comportamentos, a falta de esclarecimento e debate sério, etc.
A actividade das lideranças ou de candidatos a líderes é que nem sempre decorre com normalidade e tranquilidade democráticas. Não tratem os cidadãos como gente incapaz e de quem sempre se espera o pior. 
A campanha que ontem terminou constituiu um autêntico manual. 
Como sabem, sou suspeito, apoio desde o início Sampaio da Nóvoa mas, de facto, foi o único que apresentou e esteve disponível para discutir uma visão para Portugal e para os portugueses dentro do quadro de competências do Presidente da República.