Mostrar mensagens com a etiqueta Estória. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Estória. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de abril de 2019

OS DIAS DAS MENTIRAS


Como acontece com quase tudo o que está no nosso mundo, as mentiras também têm o seu dia, o 1 de Abril. Lembro-me que ainda miúdo o dia 1 de Abril era aguardado com alguma excitação. Numa rígida matriz judaico-cristã em que a ideia do pecado desempenha um papel essencial, ter uma dia em que se pode pecar, mentir, era algo de estimulante. Esmerávamo-nos na tentativa de criar a melhor das mentiras.
A imprensa tinha, alguma tem ainda, o hábito de colocar uma mentira e ficaram célebres algumas das que ao longo dos anos fizeram primeiras páginas de jornais ou abertura de noticiários televisivos.
O problema grande é que nos tempos que atravessamos não temos O Dia das Mentiras. Numa espécie de concorrência desleal vivemos nos dias das mentiras. Com a capacidade de inovação que caracteriza a humanidade agora fala-se “pós-verdade”, “factos alternativos” ou, em inglês é mais sofisticado, em “fake news”.
Os padrões éticos da nossa vida política, económica e social baixaram e a mentira, as mentiras, são regra, deixaram de ser excepção seja qual for a designação.
Mente-se para alimentar relações laborais precárias e lesivas dos direitos das pessoas a projectos de vida viáveis e positivos.
Mente-se para proteger agendas pessoais ou interesses corporativos.
Mente-se para manipular ou alimentar clientelas que sirvam de patamar para o poder, os poderes, pequenos ou grandes e de natureza diferenciada.
Mente-se para fazer ou pedir um “jeitinho” que só varia na escala, dos cêntimos aos milhões.
Mente-se para legitimar decisões incompreensíveis.
Mente-se para vender ilusões ou promessas.
Mente-se vivendo, por vezes, a vida num fingimento.
São mentiras demais.
Um dia destes, alguém se lembrará de instituir um Dia da Verdade. Nessa altura vamos ver como reagimos à verdade a que já não estamos habituados.

quarta-feira, 27 de março de 2019

O TEATRO


Manda o calendário das consciências que se assinale hoje o Dia Mundial do Teatro.
Num tempo em que a cultura é quase considerada bem de luxo e supérfluo, aqui se recorda uma afirmação muito bonita de Luís Miguel Cintra, um enorme Homem do Teatro, no discurso de aceitação do Prémio Pessoa de 2005.
Escolheu o teatro "para continuar a fazer em adulto aquilo que fazemos em crianças, para continuar a brincar contra toda a solidão".
Vivemos num mundo de gente só, que viva o teatro.

terça-feira, 26 de março de 2019

FESTAS INFANTIS


Na caixa do correio apareceu um destes dias um pequeno folheto promovendo a realização de festas infantis, isso mesmo, a realização de festas infantis que, aliás, são publicitadas como inesquecíveis.
O folheto enumera a oferta disponível para as inesquecíveis festas que, com a vossa licença, aqui deixo.
Num lado enuncia-se Dança com Hip Hop, Expressão corporal, Pinturas faciais, Jogos tradicionais, Contador de histórias, Caça ao tesouro, Karaoke infantil, Aparência fashion e Canções infantis.
No lado B, chamemos-lhe assim, temos Insuflável, Teatro de fantoches, Magia infantil, Palhaço e Espectáculo de fogo.
Claro que uma inesquecível festa infantil ainda beneficia se tiver, segue o resto da oferta, Bolos personalizados 3D, Buffet crianças e adultos, Decoração e criação de ambientes com balões.
Não sei que mais admirar. Fiquei particularmente entusiasmado com a Aparência fashion, mas, por outro lado, o Insuflável é um concorrente de respeito. Estranhei a presença dos Jogos tradicionais e de apenas um Palhaço numa festa infantil inesquecível, tão fantástica, mas parece compensada com o sempre estimulante, imagino, Espectáculo de fogo.
Cativou-me, devo dizer, a ideia de Bolos personalizados 3D (que raio será isto?) mas verdadeiramente irresistível é a Criação de ambientes com balões.
Agora a sério, se querem promover festas infantis, deixem as crianças brincar. É a brincadeira, a coisa mais séria que as crianças fazem, que torna a infância inesquecível.

POLÍTICAS DE FAMÍLIA

Quando tantas vezes aqui tenho referido  a necessidade de políticas de família não era exactamente desta tipologia que estava à espera.
No entanto, não deixo de registar os apoios à família. São sempre importantes.
Aliás, temos sempre sido bons seguidores desta lógica familiar, chamemos-lhe família, loja, cor certa do cartão ou outra qualquer característica de afinidade.
É bonito, gostamos de nos sentir como um país solidário para com os próximos.
Mais a sério, algum pudor não ficaria mal como também a demagogia hipócrita de quem se rege pela mesma "filosofia" se dispensa.

segunda-feira, 25 de março de 2019

O ANANÁS E O ABACAXI


Cenário – restaurante em zona turística
Actores – o escriba e o simpático funcionário que atendeu durante o almoço e teve honestidade de me avisar que as douradas eram de viveiro. É certo que não são  confundíveis, até porque se reflecte no preço, mas fiquei bem impressionado. No final da refeição.
Para sobremesa?
Que fruta tem?
Melão e ananás. 
Apesar de não ser adepto da fruta que não é da época por várias razões decidi-me.
Traga-me ananás, se faz favor.
Certíssimo.
O senhor dirige-se para a janela da cozinha e oiço:
Sai um abacaxi.
E veio de facto uma rodela de … abacaxi.
Não vale a pena entrar em grandes distinções mas basta atentar nas características e nos preços de um e outro para perceber que não é tudo igual.
Poderíamos viver sem estas habilidades mas não seria a mesma coisa.

sábado, 23 de março de 2019

AS ESTEVAS


Por esta altura o Monte fica ainda mais bonito. A beleza frágil e efémera das flores das estevas é sempre mágica.
A míngua de água não impediu que se mostrassem mas a chuva tornaria o seu cheiro anda mais vivo.
São também assim os dias do Alentejo.



quinta-feira, 21 de março de 2019

OS MESTRES DE BONECOS

O calendário marca para hoje o dia do início da Primavera e o calendário das consciências determina que dia 21 de Março também seja o Dia Mundial da Poesia, o Dia Mundial da Árvore e da Floresta,  o Dia Mundial da Infância, o Dia Internacional da Síndrome de Down e o Dia internacional para a Eliminação da Discriminação Racial. Mas não é tudo, talvez poucos de nós saibamos que neste dia 21 de Março também se assinala o Dia Mundial da Marioneta.
Uma das minhas recordações mais antigas é a presença dos “robertos” nas praias da Costa da Caparica trazidos por um Mestre de Bonecos que armava uma barraca de lona e lá dentro manobrava as marionetas em diálogos e situações que apesar de repetidas nos faziam divertir e pedir aos pais umas moedas para o Mestre de Bonecos.
Num mundo que toma sempre novas qualidades seria desejável que não acabassem os Mestres de Bonecos como o meu amigo Delphim  que nos trazem coisas mágicas e que deveriam merecer mais atenção num tempo esmagado pela tecnologia e em que os miúdos mal têm tempo para sonhar.
Os miúdos gostam, tenho a certeza.

PS - Falar destes bonecos também pode ser uma forma de não esquecer o Dia Mundial da Poesia. São poéticos.




quarta-feira, 20 de março de 2019

A TERRA ANDA ZANGADA


De acordo com a ONU a tempestade Idai que atingiu Moçambique terá sido a pior de sempre no Hemisfério Sul.
Imagino que a Terra comece a ficar cansada da irresponsabilidade delinquente desta gente que a povoa, sobretudo dos que lideram. Depois de tanta asneira insistem nos maus-tratos e não se entendem sobre a forma de mudar de rumo.
Dão-lhe cabo das entranhas, alteram-lhe o clima, mudam paisagens, esgotam-na, deixam-na estéril e sem sustento ou, pelo contrário, a água é muita, devasta o que apanha pela frente.
A Terra não está a aguentar e zanga-se. E nós também não aguentaremos.
A minha avó Leonor, mulher de sabedoria, costumava dizer que não era bom a gente meter-se com a Terra, com a natureza, e maltratá-la. A natureza vai ser sempre maior que a gente e não aceita que mandem nela.
Quando acorda zanga-se e quando se zanga os efeitos são devastadores. Apesar destes avisos não parece que a levem a sério.
Esta gente não aprende mesmo, já não espero que o fizessem em nome deles, os seus interesses imediatos não deixam. Mas podiam fazê-lo em nome dos filhos, dos filhos dos filhos, dos filhos dos filhos dos filhos, 

terça-feira, 19 de março de 2019

CONVERSAS INACABADAS


É inevitável, hoje e sempre. Não é possível deixar de recordar um Homem Bom que já partiu há muito. Não partiu sem me mostrar o que nunca viu e me levar onde nunca tinha ido.
Um dia destes haveremos de acabar todas as conversas que não acabámos.
Um dia destes haveremos de começar todas as conversas que não iniciámos.
Vou contar-te tanta coisa que aconteceu e acontece que vais gostar de saber. Deixa-me só recordar, já te tinha dito, que tens dois bisnetos que são uma bênção mágica. Não te rias, ao Simão e ao Tomás já conto histórias com o Arranja Moinhos, todos os dias inventadas, como tu me contavas. Não, não vais perceber a comparação mas um dia explico-te, eles acham que o Arranja Moinhos é como a Patrulha Pata, resolve todos os problemas
Por outro lado, é verdade que também se vão passando tantas outras coisas de que não gostarias mas são assim as coisas do mundo. Partiste numa altura em que acreditávamos que, finalmente, tudo seria melhor, tudo seria possível, e tudo seria melhor e possível para todos.
Até um dia destes, Pai.

sábado, 16 de março de 2019

A ESPERANÇA SAIU À RUA


Depois de ontem ter escrito sobre a tragédia e a desesperança da violência brutal numa escola em S. Paulo e na Nova Zelândia hoje quero sublinhar um sinal de esperança. Recordando as palavras de José Afonso, depois da morte sair à rua, a esperança saiu à rua.
Adolescentes e jovens de muitos mundos desta Terra que é única e está fortemente ameaçada vieram para a rua dizer que é preciso parar. Não temos alternativa a esta Terra e é nela que tem de existir futuro para eles.
É importante a posição e esperemos que se torne num movimento robusto de exigência e promoção de mudança.
Muitas vezes, quando olho para os meus netos, penso o que estará lá mais para a frente à espera deles. Aquilo que eu e a minha geração fizemos não é particularmente animador e chegámos a pensar que tínhamos tudo nas nossas mãos.
Neste mundo mágico da avozice e em múltiplas conversas com o Simão, cinco anos de experiência de uma intensidade iluminada, quando ele faz perguntas ou sugere respostas, ideias, planos, actividades sem fim acrescenta com muita frequência, “é não é, avô?”. E o avô, eu, encantado com a responsabilidade do “saber” securizante dos Velhos digo, “É Simão, é assim, tudo bem”.
Um dia destes, provavelmente daqui a algum tempo, talvez me questione, “Avô, eu e o meu irmão vamos ter uma terra bonita para a gente viver. É, não é Avô?”. Terei de lhe responder, “Acho que sim Simão, tu, o teu irmão e todos os miúdos do mundo vão ter uma terra bonita para viver, mas terão ser vocês a cuidar dela e comecem já.”
Não se distraiam gente, terão que ser vocês.

quarta-feira, 13 de março de 2019

OS RETRATOS DO REGUILA


Era uma vez um miúdo chamado Reguila, tinha uns onze anos. Na escola, nunca fazia nada sem primeiro pedir que lhe explicassem porquê. Nas aulas, quando os professores explicavam matéria que não conhecia, interrogava-os sobre para que servia o que estava a aprender. Gostava de falar, nem sempre respeitava a sua vez ou o silêncio, quando pedido. Também discutia as regras de funcionamento e nem sempre era fácil convencê-lo de algumas. Quando convencido, apesar de alguns lapsos, cumpri-as. Na escola muitos professores falavam do Reguila. Vejamos algumas opiniões.
Um professor chamado Romântico dizia, “É um miúdo tão engraçado e ingénuo. Tem uma vontade muito firme e não abdica dela, é muito autónomo”.
Um professor chamado Conservador dizia, “É um indisciplinado, tem uma família terrível que não lhe ensina nada e ele não se interessa por nada. Só espero que saia da escola, só cá deve andar quem se interessa e se porta bem”.
Um professor chamado Interessado dizia, “É diferente, como todos os outros, às vezes faz-me perder um bocado a paciência, mas normalmente dou-lhe a volta e entendemo-nos”.
Um professor chamado Indiferente dizia, “Ele que faça o que quer, desde que não me perturbe a aula. A vida é dele, nem todos podem ir longe”.
Um professor chamado Daeducaçãoespecial dizia "O Reguila é um universal".
Um professor chamado Inexperiente dizia, “Nunca vi um miúdo como o Reguila, sempre a falar e com as ideias dele, tão teimoso”.
Um professor chamado Velho dizia, “É um miúdo que ainda anda à procura de si e vai esbarrando nos outros, é preciso ajudá-lo a encontrar-se”.
Estavam todos a falar do mesmo miúdo, o Reguila.
E o Reguila? Que retrato faria de si?

terça-feira, 12 de março de 2019

A HISTÓRIA DO OLHAR DA JOANA


Um destes dias, a professora Isabel que trabalha na escola onde está o Professor Velho, aquele que já não dá aulas, está a biblioteca e fala com os livros, convidou-o para ir à sala dela falar com os miúdos de como era a escola noutros tempos. O Professor Velho adora contar histórias, acha mesmo que é umas das vantagens de ficar velho, ter histórias para contar e passou a manhã com os miúdos, mesmo ao intervalo andava por lá no meio dos jogos e brincadeiras. Nessa tarde pediu à professora Isabel que passasse pela biblioteca para conversarem sobre a visita.
Olá Velho, então gostaste da minha turma?
Foi bonito, como sabes gosto de contar histórias e eles, ainda bem para mim, parecem gostar de ouvir histórias e participar nas conversas.
Pois é, gostam mesmo de falar e ainda estão a aprender a não falar todos aos mesmo. Às vezes não é fácil.
Com o tempo e com persistência eles aprendem, são inteligentes e percebem que é melhor assim. Já reparaste naquela menina com o cabelo e os olhos pretos, pequenina, que se chama, creio, Joana?
Já Velho estava para um dia destes te falar dela. Está sempre calada, desvia o olhar quando chego ao pé dela, está quase sempre só. Porque perguntas?
Também me pareceu, como referes, que a Joana é uma menina que parece triste. Desde que cheguei à sala que o olhar dela me chamava. Procurei estar atento e durante o intervalo tentei aproximar-me e conversar.
Não parece fácil, ela foge um bocadinho.
Não fugiu, conversámos sobre uma história que eu tinha contado mas fiquei preocupado. A Joana tem uma sombra?
Uma sombra?
Sim Isabel, uma sombra, uma sombra grande no olhar. Não consegui perceber o que é, mas ela carrega uma sombra grande que a assusta, que a faz ficar com medo. Quando a gente espreita nos olhos dos miúdos consegue, às vezes, ver as sombras da vida deles. Temos que descobrir qual a sombra do olhar da Joana, para a ajudar a perder o medo.

quarta-feira, 6 de março de 2019

PENAS


Às vezes quando me ponho a pensar num texto para partilhar convosco surgem algumas ideias que acabo por abandonar de tão estranhas me parecerem. Hoje, acho que estava nesse caminho mas resolvi deixar seguir a ideia.
Entre as muitas palavras da língua portuguesa que se podem ligar aos miúdos e à sua vida creio que "pena" é uma delas. Reparem em alguns exemplos apenas pela ordem da lembrança.
Existem muitos miúdos cuja vida é uma pena bem pesada. Foram a ela condenados sem perceber porquê, nela vivem sem alternativa e muitos a cumprem por largos anos.
"Que pena, se ele quisesse era bom aluno" é uma expressão dirigida a muitos miúdos que devido a um qualquer motivo ou mal-estar não aproveitam talentos e capacidades que possuem. É curioso que muitos de nós ficamos satisfeitos com a ideia de que "eles não querem" e nunca colocamos a questão sobre "porque será que eles não querem".
Muitos miúdos têm uma presença tão leve, quase invisível que são autênticas penas, qualquer corrente ou agitação os faz abanar. Muitas vezes, de tão frágeis são vítimas despercebidas e silenciosas. Por outro lado e felizmente, existem muitos miúdos para quem a vida, ela própria, tem a leveza de uma pena, tudo corre com serenidade.
Também não é raro que a nossa boa consciência nos leve a ter pena do que acontece aos miúdos sem que esgotemos a capacidade de o evitar. Resta a resignação contida em "faz pena mas que se há-de fazer, é o destino".
Pois é, bem me parecia. É uma ideia mesmo estranha, foi pena ter continuado.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

SER UM "HOMENZINHO" OU UMA "MULHERZINHA"


Nos tempos em que era miúdo, os adultos, sobretudo pais e professores, usavam com muita frequência uma expressão que de vez em quando recordo, "para ser um homenzinho" ou, na óbvia versão feminina, "para ser uma mulherzinha". Tais expressões constituíam no seu entendimento um dos grandes incentivos ao bom desempenho escolar e, ou, ao bom comportamento definidos como requisito fundamental para se ser "alguém", um "homenzinho" ou uma "mulherzinha".
Como é evidente, para muitos de nós, tais fórmulas não eram particularmente apreciadas mas, sobretudo no que respeita a estudar, os poucos de nós que continuávamos para além da escolaridade obrigatória, percebíamos gradualmente como a escola nos leva ao futuro, ou seja, quando espreitávamos para diante, conseguia-se, com algum esforço é certo, vislumbrar lá bem à frente o "homenzinho" que poderíamos ser.
Hoje, tempos mais sofisticados, falamos de "projecto de vida" ou de "imagem criadora de futuro" algo que, mais do que nunca, é fundamental construir e perseguir.
Neste processo a escola, agora para todos, não só para alguns, tem o papel principal. Sem a escola não se chega a "homenzinho" ou a mulherzinha", prefiro Homem e Mulher, não se constroem projectos de vida viáveis e positivos.
Se fizermos a experiência de inquirir adolescentes sobre o que vislumbram quando espreitam lá bem para a frente, ficamos assustados com a quantidade de nadas que obtemos como resposta. Estas nadas não são, naturalmente absolutos, são feitos de incertezas, de perplexidade e de algum receio.
Por isso a escola, não só a escola mas muito a escola, não pode falhar na sua missão central junto dos miúdos, de todos os miúdos, construir o futuro. Tal responsabilidade exige de toda a gente que proteja a escola, não destrate a escola, cuide da escola e exija da escola para que ninguém chegue ao futuro sem projecto de vida. Todos têm de ter um lugar no futuro.
Os homenzinhos e as mulherzinhas, os Homens e as Mulheres, agradecem.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A MINHA ESCOLA


O Expresso tem um trabalho curioso, “A minha escola”, para o qual pediu a algumas pessoas mais ou menos conhecidas que escrevessem sobre o que foi a sua escola.
Achei piada e lembrei-me que também já aqui escrevi sobre o que foi a minha escola.
Num tempo em que a escola, a educação, está sob perante escrutínio, por boas e más razões, achei que poderia recuperar o que foi a minha escola.
Não me esqueço, antes pelo contrário, que a nossa educação, a escola, como tudo o resto, também tem atravessado, atravessa e provavelmente sempre viverá dificuldades e problemas sérios mas só a falta de memória, uma qualquer agenda ou o desconhecimento sustentam o “antigamente era melhor”. Vejamos, pois, um pouco da escola do meu tempo, conversa de velho, já se vê.
A minha escola lá para trás no tempo não era grande, nem pequena, era triste. A maioria das pessoas que por lá andavam era, naturalmente, triste. É claro que nós miúdos também nos divertíamos e ríamos, como sabem os miúdos são resilientes.
As pessoas que mandavam na escola estabeleciam o que toda a gente tinha de aprender, fazer, dizer e pensar. Quem pensasse, dissesse ou fizesse diferente podia até sofrer algum castigo, mesmo os professores, não eram só os alunos. Não se podia inventar histórias, as pessoas contavam só histórias já inventadas. Às vezes, os miúdos e os professores, às escondidas, inventavam histórias novas.
Eu andei nesta escola lá para trás no tempo.
E na escola do meu tempo nem todos lá entravam e muitos dos que o conseguiam saíam ao fim de pouco tempo, ficando com a segunda ou terceira classe, como então se chamava. Chegava.
Alguns outros, nem se entendia que deveriam estar na escola, eram pessoas com deficiência, ainda não se tinha inventado que tinham necessidades educativas especiais, que iriam fazer para a escola.
E na escola do meu tempo os rapazes estavam separados das raparigas.
E na escola do meu tempo havia um só livro e toda a gente aprendia apenas o que aquele livro trazia.
E na escola do meu tempo levavam-se muitas reguadas, basicamente por dois motivos, por tudo e por nada.
E na escola do meu tempo ensinavam-nos a ser pequeninos, acríticos e a não discutir, o que quer que fosse.
E na escola do meu tempo eu era “obrigado” a ter catequese, religiosa e política.
E na escola do meu tempo aprendia-se que os homens trabalham fora de casa e as mulheres cuidam do lar e dos filhos.
E na escola do meu tempo não aprender não era um problema, quem não “tinha jeito para a escola, ia para o campo”. Quanto menos estudassem, menos perguntas e dúvidas teriam.
E na escola do meu tempo não se falava do lado de fora de Portugal. Do lado de dentro só se falava do Portugal cinzento e pequenino.
Na escola do meu tempo eu era avisado em casa para não falar de certas coisas na escola, era perigoso.
Quem mandava no país achava que muita escola não fazia bem às pessoas, só a algumas. Ao meu pai perguntaram porque me tinha posto a estudar depois da quarta classe, não era frequente naquele meio, para ser serralheiro como ele não precisava de estudar mais.
Sim, eu sei, não precisam de me dizer que a escola deste tempo tem muitas coisas, embora com outras vestes e discursos, que nos recordam a escola do meu tempo. Mas o caminho é melhorar a escola deste tempo não é, não pode ser, querer a escola do meu tempo.
Eu andei naquela escola lá para trás no tempo.
Por isso, quando falam da escola hoje, penso, nunca mais voltarei a andar naquela escola. E não quero que os meus netos e os outros miúdos andem numa escola como aquela, a minha escola, lá para trás no tempo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

EM FAMÍLIA, OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL


Estavam na sala e como um tom de voz já estava um pouco alterado dava para ir apanhando.
...
És a pessoa mais estúpida que conheço. Cada vez sou menos capaz de perceber como alguma vez gostei de ti.
Não sejas idiota, o enganado fui eu. Deixei-me arrastar pela tua conversa de menina fina e com estudos. Longe estava de imaginar como alguém pode ser tão desagradável e egoísta.
Algumas amigas avisaram-me de que não prestavas, demorei a entender, mas ao fim de doze anos de casamento, se é que pode chamar casamento a este inferno, já não tenho dúvidas, odeio-te.
Não fosse o que a família acharia de tudo isto não aguentava nem mais um minuto nesta casa. A tua presença e proximidade são insustentáveis.
Olha, vê se te calas que a Andreia vem aí.
...
Quando é que jantamos? Tenho o TPC para acabar.
Vamos já jantar, estávamos mesmo a falar sobre ti e como estamos contentes contigo. Daqui a cinco minutos podes vir para a mesa. E depois, enquanto jantamos aproveitamos para conversar. Não gosto daquelas famílias que mal falam uns com os outros.
Então vou ao quarto mandar uma mensagem à Carla.
...
Devem pensar que sou parva. Já não posso mais. Nunca mais cresço para não ter que estar em casa a aturá-los, sempre a fingir. Ganda seca.

É sempre preferível uma boa separação a uma má família, as crianças percebem muito bem quando têm pais casados por fora e “descasados” por dentro. Compete aos adultos o esforço, por vezes pesado, de construir uma boa separação. Aliás, provavelmente, só assim terão serenidade para voltar a construir uma boa família.
Importante mesmo é que também todos os que de nós lidamos com crianças e com os seus problemas possamos ajudar os pais neste entendimento, poupando sofrimento a adultos e crianças e mesmo decisões de guarda parental pouco amigáveis para o superior interesse da criança.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A HISTÓRIA DOS ERRANTES


Nas escolas, em todas as escolas, existe um grupo de miúdos, sobretudo na fase da pré-adolescência e adolescência, a que podemos chamar de Errantes, não são, naturalmente, os miúdos que erram no que fazem, são aqueles miúdos que erram pela vida e pela escola numa espécie de deriva sem destino sonhado e, muito menos, com destino desejado.
Parece relativamente fácil identificar os errantes, quase sempre não têm boas notas, embora alguns, poucos, as consigam, quase sempre mostram-nos o seu Errante estado com comportamentos que nos incomodam e embaraçam, de que muitos deles também não gostam, mas que fazem questão de assumir, numa tentativa, perante si próprios, de esconder a condição de Errante e de ganharem uma identidade. Existem também alguns Errantes que parecem transparentes, transparecem tristeza, mal damos por eles de tão invisíveis.
Estes Errantes estragam as estatísticas do sucesso e da qualidade, contribuem para as estatísticas dos problemas e, por isso, não são desejados, sobretudo nas escolas muito boas, que não gostam de Errantes, preferem os Destinados, ou seja, os miúdos que já no presente carregam o destino que lhes sonharam e que eles assumem, desejando ou não.
Os Errantes que agora estão na escola, tal como aconteceu com a maioria dos Errantes que já por lá andaram, serão os Errantes da vida, seja lá o que for a vida que os espera, porque eles não esperam a vida. Imaginam apenas o amanhã, que ainda assim e como se costuma dizer, já é longe demais. E esse amanhã imaginado é rigorosamente igual ao hoje vivido.
Se nos abeirarmos dos Errantes, o que nem sempre conseguimos, sabemos, podemos ou queremos, fazer talvez possamos perceber como é difícil a história dos Errantes. Ninguém gosta de andar perdido.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

UM QUILO DE CHUMBO, UM QUILO DE ALGODÃO


Quando era miúdo acontecia com alguma frequência os adultos quererem colocar-nos questões que nos deveriam embaraçar ou, o maior desejo, levar-nos ao engano para então se rirem da ingenuidade e ou do erro, coisas de adultos, como sabem.
Uma das perguntas mais usadas neste contexto era a conhecidíssima “O que pesa mais, um quilo de chumbo ou um quilo de algodão?”. Já não me lembro mas, provavelmente, como todos, durante algum tempo, respondi errado e posteriormente, com um ar de puto inteligente que não se deixa apanhar na curva, já respondia que era uma pergunta um bocado estúpida para se fazer a gente tão sabedora e esclarecida.
Passados estes anos, sem vislumbrar porque me lembrei disto, chego à conclusão de que, embora não fosse certamente a intenção dos adultos a pergunta faz todo o sentido, um quilo não pesa sempre um quilo. Vou tentar explicar esta ideia, no mínimo, disparatada.
Se pegarmos na vida de muitas pessoas que andam à nossa beira, um quilo de vida não pesa o mesmo para todos. Há gente para quem um quilo da sua vida é um fardo insuportável de tanto peso. Por outro lado, também existem pessoas para quem uma tonelada da sua vida é de uma enorme leveza que se carrega sem esforço.
Se olharmos para os mais pequenos a situação ainda fica mais óbvia. Temos miúdos que desde de que nasceram, cada quilo da sua vida tem um peso que não conseguem carregar de tanto sofrimento e que os deixa amachucados debaixo de tamanha dimensão. Outros miúdos, felizmente a maioria, carregam cada quilo da sua vida com a leveza de um berlinde no bolso.
Com o tempo das pessoas a questão põe-se da mesma forma disparatada, uma hora não é sempre uma hora. Todos nós já tivemos horas que duraram uma eternidade e, noutras circunstâncias, tivemos horas que passaram num segundo.
Pois é, agora, que já não me fazem a pergunta, é que eu era capaz de dar a resposta que certamente embaraçaria o perguntador, ou seja, depende do algodão e depende do chumbo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

DA DIFERENCIAÇÃO EM EDUCAÇÃO


Ainda pelos Açores e sempre a conhecer, desta vez as escolas dos concelhos de Povoação e Nordeste, um pequeno intervalo que permite este texto. Para além da realização de reuniões com os auxiliares de educação, como tenho dito recuso designá-los por assistentes operacionais, dedicadas à importância do seu trabalho, desenvolvemos com os docentes algum trabalho em torno de uma matéria tão importante quanto difícil e sujeita a equívocos, a diferenciação, quer na sala de aula quer em dimensões como percursos educativos capazes de responder à necessidade de construir projectos de vida positivos e com qualificação para todos os alunos.
Nestes encontros surgem sempre conversas interessantes. Um professor contou que na condição de presidente do Conselho Pedagógico e querendo promover uma discussão sobre diferenciação começou a reunião colocando num leitor um CD sobre educação falado em alemão.
Poucos minuto após o começo e passada a surpresa a maioria dos colegas começa a referir que não percebe. Foi a altura do professor explicar que muito provavelmente é o que se passa como alguns alunos, não percebem bem o que se passa na aula, daí a necessidade de recorrer a metodologias que os possam “agarrar”.
É uma forma de começar. De facto, a característica mais evidente de qualquer sala de aula ou escola é a diversidade. Em muitas conversas que realizo com pais pergunto aos corajosos que têm mais que um filho se os tratam da mesma maneira. Nunca alguém me responde que sim e se pergunto porquê, respondem com um ar óbvio qualquer coisa como “então, eles são diferentes”.
Esta é questão central, com grupos diversos e escolas diversas a resposta deve, tem que ser, diferenciada sob pena de não acomodar as diferenças entre os alunos comprometendo a qualidade, o sucesso e a inclusão.
Todo o sistema educativo e as políticas educativas devem servir de suporte a esta visão.
Indo um pouco mais longe nas práticas pedagógicas e como nestas se traduz um princípio de diferenciação umas notas breves sublinhando que alterar alguns aspectos não tem a ver com “inovação”, termo cuja utilização frequente me irrita um bocado. A questão central pode ser alterar e não inovar, são de há muito conhecidas boas práticas que diariamente são mobilizadas em muitas escolas quase sempre com pouca divulgação, até mesmo interna.
Uma primeira nota sobre o equívoco habitual de que diferenciação é sinónimo de trabalho individual. Considerando as dificuldades (e o desajustamento) de fazer assentar o trabalho educativo no trabalho individual, encontra-se assim um suposto “impedimento” à diferenciação. De facto, diferenciar não é igual a trabalho individualizado, pelo contrário, implica muito fortemente a aprendizagem cooperada e a cooperação entre professores. Aliás, verificando-se desejavelmente a aprendizagem individual por parte de cada aluno a sua construção é social pelo que mesmo que fosse possível o recorrer exclusivamente ao trabalho individual, (o que nem com turmas mais pequenas aconteceria) não seria a melhor forma de trabalhar.
Assim, só o desenvolvimento de formas diferenciadas de organizar os processos educativos, de gerir a sala de aula, de avaliar, de gerir a estrutura curricular ela própria com uma concepção e conteúdos que sejam amigáveis desta diferenciação, de comunicar, de cooperar com pais e encarregados de educação, etc., poderá permitir responder tão bem quanto possível à diversidade dos alunos e contextos.
Mas para que isto seja consistente e não localizado também sabemos que o sucesso se constrói identificando e prevenindo dificuldades de forma precoce, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio eficazes, competentes e suficientes a alunos e professores, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados e reais de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, com a valorização do trabalho dos professores, com práticas de diferenciação e expectativas positivas face ao trabalho e face aos alunos, com melhores níveis de trabalho cooperativo e tutorial, quer para professores quer para alunos, etc.
Sabemos tudo isto. Nada é novo.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A HISTÓRIA DO DESAJEITADO


Era uma vez um rapaz chamado Desajeitado, um nome um bocado estranho. Toda a gente o chamava assim.
Na escola, os professores achavam-no mesmo um Desajeitado. Quase nunca realizava as tarefas do modo que lhe era pedido. Quase nunca dava as respostas que eram solicitadas, arranjava sempre umas conversas assim um pouco ao lado, como se costuma dizer. A maioria dos seus colegas também achava que o Desajeitado não era muito habilidoso considerando-o um desastrado nas brincadeiras pelo que não era uma companhia muito apreciada. A sua estrada, desde que entrara para a escola, tinha sido sempre percorrida desta forma.
Em casa a situação não era, nem nunca tinha sido, muito diferente. Os pais também achavam que o Desajeitado poucas coisas, ou nenhumas, fazia bem-feitas. Estavam sempre a criticá-lo pela forma pouco cuidada como fazia o que lhe era pedido. Os pais, para tentarem que o Desajeitado fosse um pouco melhor, comparavam-no muitas vezes à sua irmã Desejada que era um modelo, tudo fazia bem feito, era perfeita, nunca errava. Estranhamente, tal discurso não fazia o Desajeitado sentir-se melhor e funcionar de uma forma que agradasse mais às pessoas.
Na verdade, Desajeitado foi o nome que lhe começaram a chamar desde pequeno, o seu nome verdadeiro era Enjeitado.
Como sabem os Enjeitados não têm jeito para quase nada, apenas para se sentir mal o que produz muita falta de jeito, ficam Desajeitados.