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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

75 ANOS É MUITO TEMPO

 

75 anos é muito tempo. A música e as palavras de Sérgio Godinho entraram na minha vida em 71. Não mais saíram.

Entre tanta e tão diversificada produção a lembrança de uma das primeiras canções e uma das muitas de que não nos esquecemos, “Romance de um dia na estrada”.



 

domingo, 30 de agosto de 2020

NOITE DE VERÃO

 

Há dias assim, bonitos, compridos e cumpridos. Bem menos do que gostávamos.

Ontem à noite, já bem depois do jantar, um dia não são dias e as férias são para isso mesmo, eu e o neto grande, o Simão, disse que queria ir ver o luar como temos feito nas últimas noites aqui no Monte. 

As noites de Lua grande aqui no Alentejo e com céu limpo são particularmente bonitas, proporcionam uma claridade e um ambiente que nas zonas urbanas não é tão observável.

Em vez de ficarmos perto da casa com as luzes apagadas o Simão perguntou se podíamos dar uma volta grande ao Monte, passar pelos pomares horta, ver os pinheiros gigantes que estão lá no alto, enfim, uma volta inteira. O Tomás já tinha recolhido, era viagem para gente mais crescida e partimos

Para maior surpresa os seis gatos que cá vivem foram caminhando connosco, ora atrás, ora mais à frente.

Tudo era espanto, as sombras que projectávamos apesar de ser de noite, os barulhos dos grilos e cigarras, um mocho lá ao longe, os cães do Montinho que ladravam de nos ouvir, a tentativa de encontrarmos a Estrela Polar, o rasto e a luz do avião que se percebia lá bem alto.

A viagem acabou no telheiro.

Avô, gostei mesmo desta volta ao Monte assim de noite.

Neto, eu também.

E dormiu um sono inteiro e grande.

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O CARTEIRO

 

Li na Visão que a Autoridade Nacional de Comunicações decidiu impor aos CTT a redução do preço no serviço postal universal por falhas nos indicadores de qualidade nos serviços.

Também sou dos que sinto que demasiado frequentemente existem atrasos e menor eficiência nos serviços, noto, por exemplo na recepção de assinaturas, sim, ainda tenho assinaturas em papel. A leitura de alguma imprensa em papel é rotina de que não me separo.

É lamentável a perda de qualidade dos serviços a que talvez não seja estranha a nacionalização dos CTT.

Em sucessivos inquéritos realizados em Portugal sobre os níveis de confiança dos portugueses em diferentes classes profissionais mostrava os carteiros eram um dos grupos em quem mais os portugueses confiavam.

É provável que cartas e postais de natureza pessoal estejam, lamentavelmente, em vias de extinção. Parecem-me mais inteligentes e bonitas que os e-mails, não estão tão sujeitas  a infecções virais, a "forwards" tontos e impessoais e à complementar praga de "junke" e-mail. São os carteiros que as trazem e que, em muitos locais, mais do que imaginamos quando vivemos em zonas urbanas, conhecem os destinatários e prestam um serviço que é bem mais do que a entrega de correspondência.

Quando penso nos carteiros sempre recordo com alguma saudade o Sr. Gonçalves, o carteiro da minha zona quando eu era adolescente. O Sr. Gonçalves que já partiu há alguns anos, era um homem de grandes bigodes, forte, tinha que o ser para transportar aquele enorme saco de cabedal castanho, e amigo da gente nova. Era uma figura. Vou partilhar um segredo e peço que mantenham a devida reserva. Durante algum tempo, o Sr. Gonçalves e eu tivemos um acordo. Ele mostrava-me os postais que vinham do liceu dirigidos ao meu pai com as notas e as faltas e eu, quando o encontrava à tarde e de vez em quando, pagava-lhe uma cerveja na tasca do meu tio. Já vos tenho dito que não fui um aluno brilhante, longe disso, e no que respeita ao comportamento, é melhor nem falar. A cumplicidade com o Sr. Gonçalves no sentido de, por amor filial que compreenderão, proteger o meu pai de notícias menos agradáveis, era conseguida, eu acho, porque ele, no fundo, acreditaria que talvez eu não fosse um caso perdido. E não era, ele entendia de miúdos.

E eu gostava do carteiro, do Sr. Gonçalves.

domingo, 23 de agosto de 2020

A COMICHÃO DO CRESCER

 

Não é raro que a entrada na pré-adolescência e adolescência seja acompanhada pelo aparecimento de uma irritante comichão decorrente das "borbulhas" do crescimento. Ainda menos raramente, os pais dos miúdos que entram nesta fase desenvolvem também uma fortíssima comichão resultante dos comportamentos nem sempre esperados e entendidos dos seus filhos.

A esta fase de comichão em filhos e pais corresponde também com alguma frequência a uma espécie de afastamento e abaixamento dos níveis de comunicação recíprocos o que, naturalmente, acentua a comichão que sendo ela irritante, acaba por deixar todos muito irritados.

Como também é previsível nestas idades, os miúdos tendem a procurar os anti-histamínicos junto dos amigos que, claro, também atravessam um período em que sentem a comichão do crescer e "padecem" das mesmas inquietações.

Por outro lado, os pais, muitas vezes assustados, não sabem como procurar os miúdos e viram-se, na melhor das hipóteses para outros pais com comichão e falam deles, dos filhos, não falando com eles, os filhos. Na pior das hipóteses, os mais assustados escondem, tentam esquecer e não sentir a preocupação com a comichão, esperando que a simples passagem do tempo, que se deseja rápida, a cure.

Talvez fosse de recordar que a comichão do crescer é algo de absolutamente natural, como talvez se lembrem nem sempre é fácil crescer, ficar diferente.

Assim, a gente mais crescida, mais experiente, estando atenta aos sinais, pode contribuir para tranquilizar os miúdos, não se assustando, dando-lhes espaço e tempo para perceber que vão ser capazes de lidar com a comichão do crescer.

Apesar das circunstâncias, este tempo de férias pode ter propriedades anti-histamínicas, é de aproveitar.

sábado, 22 de agosto de 2020

A MÁSCARA

 

A propósito das máscaras do nosso descontentamento.

Era uma vez um homem, chamava-se Feliz. Não havia hora ou circunstância em que não tivesse um sorriso no rosto. Mostrava, invariavelmente, um ar de boa disposição. Tornou-se extremamente popular entre as pessoas.

Por vezes, quem o conhecia melhor julgava perceber uma sombra de tristeza no olhar. Mas era coisa que rapidamente desaparecia e não chegava para tirar o sorriso da cara do Feliz.

É certo que de quando em quando algumas pessoas se sentiam incomodadas com aquele ar de permanente felicidade que lhes lembrava, por oposição, os seus momentos de tristeza. Mas a tudo, o Feliz parecia imune e mantinha-se sempre com o seu imperturbável sorriso nos lábios.

Um dia deixou de aparecer sem que alguém soubesse o motivo. Uma das pessoas, sabendo onde ele morava, tentou saber notícias.

Um vizinho informou. Tinham assaltado o Feliz e roubaram-lhe as máscaras.

Desde então, recusa-se a sair de casa. Não sabe como encarar o mundo.

Na verdade, a máscara sempre foi um adereço essencial para encarar o mundo, agora por razões acrescidas.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O BRINQUEDO PERFEITO

 

Leio no Observador que a Lego tem a produção peças em braille que prevê estarem disponíveis em Portugal em 2021. O material destinado para ser utilizável com mais eficiência e “gozo” por crianças com deficiência visual será produzido em seis línguas incluindo o Português. Parece uma iniciativa interessante porque alarga a mais crianças a utilização de uma material que me parece particularmente positivo como, aliás, já aqui tenho referido.

O meu primeiro contacto com este brinquedo foi há quase 60 anos, uma garagem com dois pequenos “carochas” que um amigo do meu pai me trouxe de uma viagem ao estrangeiro. Naquele dia o LEGO começou a fazer parte da família, até hoje.

Do meu ponto de vista é o brinquedo perfeito. A sua utilização é intuitiva permitindo que o manual de instruções ou a supervisão de alguém só possa ser necessária para réplicas mais sofisticadas. Os bebés com peças LEGO na versão Duplo nas mãos rapidamente entendem a forma como se brinca. Dispensa manual de instruções a não ser para replicar construções.

Contrariamente a muitos outros brinquedos, os LEGO é mesmo interactivo, qualquer de nós, mais pequeno ou mais velho, transforma um monte avulso de peças coloridas naquilo que entender. Por isso uma outra característica, a imaginação, é o limite de uma brincadeira com peças LEGO que a alimentam e estimulam.

É também um brinquedo que permite “trabalhar” em conjunto na construção das mais variadas estruturas.

Uma outra característica muito interessante é o que agora se chama de “amigável”. Quando pegamos em algumas peças LEGO é difícil evitar começar a brincar e experimentar o que aquele conjunto de peças permite fazer.

Os meus netos, cada um de sua forma e capacidade, já estabeleceram uma relação de amizade com os Legos, aliás, boa parte das peças que estão lá por casa já acompanharam o meu filho. Começaram nos Duplos, passaram pelas peças clássicas e o Simão realiza já projectos sem fim como os materiais mais sofisticados desafiando regularmente as minhas capacidades.

Por vezes, os adultos, esquecem este notável brinquedo e deixam-se seduzir por coisas de bem pior qualidade mas que, aparentemente, são muito modernos e atractivos.

Lamento, digo-o aqui muitas vezes e contrariando algumas vozes que por aí andam, que os miúdos brinquem pouco, com o LEGO, por exemplo.

É que as pessoas, algumas pessoas, esquecem que brincar é a coisa mais séria que as crianças fazem.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O VELHO QUE LIA DE OLHOS FECHADOS

 

Era uma vez um Velho que passava todas as tardes de sol sentado num banco do jardim a ler. Bom, nas tardes de sol de Inverno pois no Verão sentava-se num outro banco à sombra, mas sempre com um livro de companhia.

Muitas das pessoas que passavam pelo parque já conheciam o Velho leitor. Um dia, dois miúdos aproximaram-se do banco do Velho atrás de uma bola que lhes tinha fugido e quando olharam para ele repararam que tinha o livro bem seguro à sua frente mas estava com os olhos fechados.

Um dos miúdos disse a rir-se, "Está a dormir".

Não, miúdo, não estou a dormir, estou a ler.

A ler Velho?! Mas com os olhos fechados as pessoas não podem ler.

Querem que vos leia a história que comecei mesmo agora a ler?

Está bem Velho, mas que não seja muito grande, temos que ir embora daqui a pouco, para fazer ainda os trabalhos da escola.

Então o Velho pegou no livro, acomodou-se no banco para que os miúdos se sentassem, fechou os olhos e leu a história mais bonita que aqueles miúdos já tinham ouvido, embora deva dizer-se que os miúdos já não ouvem muitas histórias.

Quando acabou, os miúdos, ainda espantados foram à sua narrativa com uma história para contar, a do Velho que lia de olhos fechados.

Talvez venham a aprender que os Velhos felizes lêem histórias mesmo de livros que não sabem ler. Por isso, podem ter os olhos fechados.

 

Temo que possamos estar num tempo em que os Velhos têm mais dificuldades para se sentirem felizes. Não é fácil ser velho.

sábado, 15 de agosto de 2020

SER PEQUENO

 

Dado o inexorável movimento dos dias cumpro hoje mais um marco de uma estrada que já vai longa. No ano passado passei a integrar a tribo dos “seniores” ou dos “idosos”. Este ano já integro também a tribo dos “reformados”. Vou ter que me habituar.

No entanto e como habitualmente afirmo, prefiro recordar que na minha terra era costume, creio que ainda é muito frequente em Portugal, referir que quando se celebra um aniversário, se é "pequeno". Assim sendo, hoje sou "pequeno", coisa que não é nada fácil imaginar e muito menos conseguir, mas é mais amigável que “idoso” ou “ e “reformado”.

Embalado por essa ideia lembrei-me de quando era mesmo pequeno, tentação que parece inevitável cada vez que ficamos mais velhos. Lembrei-me de como brincava, ao que brincava e com quem brincava, quase sempre na rua. Ainda há dias falava destas brincadeiras com os meus netos e o Simão, do alto dos seus sete anos neste tempo mostrava dificuldade e estranheza face às brincadeiras e aos materiais que tínhamos para brincar. Não eram fáceis aqueles tempos.

Depois lembrei-me de como brincava com o meu filho, quando ele era pequeno, grandes viagens em grandes brincadeiras.

Agora brinco com os meus netos, são eles os pequenos. Muito a gente se diverte. E havemos de nos divertir ainda mais a brincar, é já daqui a pouco, estão cá no Monte e temos muitos “projecto” e “sistemas” para ir fazer. Palavra de avô.

A este propósito e como já vos tenho dito e, certamente, alguns estranharão, acho que por estes dias os miúdos brincam pouco. Não estou falar dos dias da pandemia, são atípicos e esperamos muito o seu fim.

Eu sei que os tempos são diferentes e os estilos de vida mudaram significativamente. No entanto, não me parece que sejam razões suficientes. A questão é, creio, de outra natureza.

As brincadeiras já não brincadeiras, passaram a chamar-se actividades. E os miúdos têm muito pouco tempo para brincar, é quase todo destinado a actividades, muitas actividades, que, dizem, são fantásticas, fazem bem a tudo e mais alguma coisa, promovem competências extraordinárias e é preciso ser excelente.

Deixem os miúdos brincar, faz-lhes bem, é mesmo a coisa mais séria que fazem e, como sabem, é importante lidar desde pequeno com coisas sérias.

Acho que hoje nas brincadeiras com os meus netos ainda nos vamos divertir mais. É que hoje … hoje sou pequeno, ainda melhor nos entendemos.

domingo, 9 de agosto de 2020

ESTES DIAS QUENTES


Estes dias muito quentes levam-me a pensar como seria bom que pudesse existir um Sol que ajudasse alguns miúdos  e jovens que, tal como as suas vidas, se transformaram num bloco de gelo.
De como nesses miúdos ou jovens, quais icebergues, a sua parte mais visível é a agitação, a inquietação, a violência e uma desesperança que leva a lugar nenhum ou, às vezes, a lugares donde se não volta.
Provavelmente, esta agitação, a adrenalina dos limites, transformar o mal sentir no mal fazer é a busca de um calor, o movimento aquece, onde se queimem e exorcizem as bruxas, as fadas más que por negligência, incompetência, destino ou má-sorte, lhes  tecem uma vida, sem vida, de sentido único. Sem sentido.

domingo, 26 de julho de 2020

DOS AVÓS


Quase sempre passa discretamente, mas de acordo com o calendário das consciências determina para hoje o Dia Mundial dos Avós. Uma lembrança à minha Avó Leonor, uma Mulher notável com uns olhos claros e uma fala que eram um ninho de aconchego.
A avozice é um mundo mágico no qual entrei há algum tempo com a abençoada chegada do Simão há sete anos e do Tomás há quatro. Acho que ainda não consegui acomodar os sentimentos e a magia de acompanhar de perto, tão de perto quanto possível sem o excesso da intrusão inibidora de autonomia, o crescimento destes gaiatos que têm uma geração pelo meio.
Tem sido um divertimento, uma descoberta permanente e a percepção de um outro sentido para uma vida que já vai comprida e também, desculpem a confissão, cumprida.
Neste entendimento e como tem acontecido aqui no Atenta Inquietude a cada 26 de Julho, retomo a minha proposta no sentido de ser legislado o direito aos avós. Isto quer dizer, simplesmente, que todos os miúdos deveriam, obrigatoriamente, ter avós e que todos os velhos deveriam ter netos.
Num tempo em que milhares de miúdos passam muito tempo sós, mesmo quando, por estranho que pareça, têm pessoas à beira, e muitos velhos vão morrendo devagar de sozinhismo, a doença que ataca os que vivem sós, isolados, qualquer partido verdadeiramente interessado nas pessoas, sentir-se ia obrigado a inscrever tal medida no seu programa ou, porque não, inscrevê-la nos direitos fundamentais.
Com tantas crianças abandonadas dentro de casa, institucionalizadas, mergulhadas na escola tempos infindos ou escondidas em ecrãs, ao mesmo tempo que os velhos estão emprateleirados em lares ou também abandonados em casa, isolados de tal forma que morrem sem que ninguém se dê conta, trata-se apenas de os juntar, seria um “dois em um”. Creio que os benefícios para miúdos e velhos seriam extraordinários.
Um avô ou uma avó, de preferência os dois, são bens de primeira necessidade para qualquer miúdo e, deixem-me que vos diga e insista, os avós não estragam os netos até porque gostam deles. Cuidam deles com outro tempo, com outro olhar. O tempo de confinamento mais duro mostrou como a separação é difícil.
Já agora deixo uma história com avô dentro. Como sabem contar histórias é mesmo coisa de avós e às vezes repetem-nas, é o caso desta, já aqui a contei.
De há uns tempos para cá apareceu uma moda naquela terra que “impede” as pessoas de falarem em brincar nas escolas da terra, é proibido brincar nas escolas.
A moda foi fabricada por uma gente ignorante de miúdos, obcecada com trabalho e produtividade, mesmo infantil, uns infelizes escravos convencidos de que são livres e que também querem escravizar os outros.
Mas ainda existem uns professores, muitos, naquela terra que não se deixam enganar, sabem ler os miúdos e percebem que eles aprendem porque também brincam e brincam porque também aprendem. Aliás, brincar e aprender são as coisas mais sérias que os miúdos fazem, sorte a deles, a de alguns, felizmente muitos.
Um dia, um desses professores lembrou-se, que sacrilégio, de dizer aos seus alunos para trazerem para a escola o seu brinquedo preferido. A Maria trouxe uma boneca. O João apareceu com a consola nova. A Sara vinha vaidosa com umas bonecas que o pai tinha mandado vir estrangeiro. A Irina trazia o Noddy. O Carlos vinha com uns olhos quase tão grandes como a bola de futebol que trazia debaixo do braço. O David, sempre pronto para as lutas, trazia uns bonecos lutadores de wrestling. A Joana não ligava a ninguém com o seu dispositivo com as músicas de que gosta. Enfim, por um dia, toda gente veio para a escola com um brinquedo, o seu preferido.
O último a chegar foi o Manel.
Feliz e sorridente entrou na sala de aula com o avô pela mão.

sábado, 25 de julho de 2020

DO CATA-VENTISMO


Era uma vez uma terra chamada A Terra da Contradição. Tinha, como muitas das terras, uma forma de organização política designada por democracia representativa. Assim, os cidadãos pessoas organizavam-se em estruturas partidárias e na altura em que se realizavam eleições desenvolviam-se campanhas de apresentação e divulgação de ideias com que cada partido procurava captar o voto do cidadão. O partido com mais votos era chamado a constituir o governo que, em princípio, duraria até novas eleições. A Terra da Contradição tinha uma particularidade curiosa que envolvia muita gente, mas estava sobretudo presente no discurso das pessoas ligadas à actividade política. Era essa particularidade o facto de cada pessoa, consoante as circunstâncias, o tempo ou outro qualquer critério, expressar opiniões e posições absolutamente contraditórias com a maior naturalidade. De facto, era muito frequente uma pessoa pertencendo ao partido do governo defender uma coisa, e, quando na oposição defender outra completamente diferente. Em poucos dias ou semanas as pessoas mudavam de opinião com a maior das facilidades sobre qualquer aspecto.
Uns diziam que este funcionamento se deveria à inteligência das pessoas, porque “só não mudam os burros”, outros achavam que é preciso evoluir, alguns ainda pensavam que se tratava de alguma incoerência nos outros e flexibilidade em si próprios. Enfim, a dificuldade era encontrar alguém que, de facto, tivesse um discurso coerente, sólido e durável sobre a vida e as suas circunstâncias, sobretudo ao nível dos grandes princípios. 
Às vezes, os que assim procuravam manter-se até eram acusados de conservadores, imobilistas e incapazes de evoluir.
Esta terra tinha uma paisagem lindíssima e bucólica, marcada pela presença dos milhares de cata-ventos das mais variadas formas e cores.

sábado, 18 de julho de 2020

ESTÁ CALOR NO ALENTEJO. A SÉRIO?!


Estão uns dias de calor áspero aqui pelo Alentejo. Já começaram os alertas e mesmo com uma agenda tão carregada de inquietações não tardarão, certamente, as incontornáveis e patéticas reportagens sobre o modo como os alentejanos lidam com o calor, tal como surgem nos dias de frio com o pessoal de Trás-os-Montes. 
No fim da manhã comentava com o Mestre Zé Marrafa como ele me é pesado quando chega.
O Velho Marrafa lá me disse, acho que para me agradar, que achava que embora estivesse calor, o problema é mais à noite quendo ao fim de muitos dias de calor, de calma, as casas já não arrefecem. De dia anda-se na lida e "não tem dúvida", expressão peculiar no Alentejo.
Numa de indivíduo atento e informado referi a informação sobre os alertas de calor ainda previstos para os próximos dias.
O Velho Marrafa, por simpatia e generosidade alentejanas, não disse o que lhe terá passado pela cabeça, certamente qualquer coisa como "tão sempre a inventar molengas", foi mais comedido e considerou engraçado essa "coisa dos alertas". Então, dizia ele, estão a avisar-nos que faz calor no Alentejo, estamos no Verão queriam o quê? O Alentejo sempre teve calor no Verão, uns dias mais ásperos que outros, mas sempre quentes. A gente lida com o calor, anda mais coberto e bebe mais água. Deviam avisar a gente, continuava o Mestre, era se viesse aí frio agora em Julho, que a gente ainda estranhava e se constipava, e ria-se com aqueles olhos pequeninos pretos debaixo da pala do boné, a boina como ele lhe chama, que lhe protege a cabeça do calor, é claro.
Calor no Alentejo não é nada de novo, sempre assim é e sempre assim foi, mas a verdade é que talvez o Mestre Marrafa estaja a esquecer que mal que temos feito à terra também trará mais calor e durante mais tempo.
Bom, lá mais para o fim da tarde vou regar as alfarrobeiras que foram este ano para a terra e estão lindas.
Mas está mesmo calor.
E são assim os dias, quentes, do Alentejo.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

UM MUNDO ÀS AVESSAS


As coisas nem sempre são o que parecem, o que pensamos que são ou mesmo o que gostávamos que fossem.
Na verdade, há pais que fazem mal aos filhos.
Na verdade, há filhos que fazem mal aos pais.
Na verdade, há professores que fazem mal aos alunos.
Na verdade, há alunos que fazem mal aos professores.
Na verdade, há velhos que fazem mal aos novos.
Na verdade, há novos que fazem mal aos velhos.
Na verdade, ...
Na verdade, há pessoas que fazem mal a pessoas.
Na verdade, ... o mundo é um lugar estranho e ... às vezes ... muito feio.
Parece que anda às avessas.
Apesar de tudo e sempre, talvez seja de recordar Mandela reafirmando que a educação e o ensino são as mais poderosas armas para mudar o mundo.

Vem esta introdução a propósito de uma notícia com a qual tropecei no DN. Um homem e uma mulher, dificilmente lhes poderemos chamar pais, fabricaram quatro crianças para vender a três casais no espaço europeu incluindo Portugal. O negócio terá rendido cerca de 89 000 € o que mostra que as crianças são um produto acessível, equivalem a carrito de gama média/baixa. Foram condenados a prisão por um Tribunal do Porto.
Um mundo às avessas.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

DO "ENGRAÇADISMO"


É sempre difícil ser juiz em causa própria. No entanto, atrevo-me a dizer que me considero um tipo com algum sentido de humor e gosto de me rir, com e de.
Mas se existe algo que me abespinha mesmo é a onda de “engraçadismo” que invade a comunicação social. O humor é uma coisa o “engraçadismo” é outra coisa bem diferente e profundamente irritante.
Para quem conhece o ambiente de muitas salas de aula é um clássico, o miúdo esperto que adora lançar piadas sem piada, fazer cenas bué d’engraçadas apenas para chatear o "setôr", para se rir muito de si mesmo e, sobretudo, para que o seu grupo de apoiantes se ria e o ache "mesmo fixe", mesmo esperto.
Também em casa conhecemos o mesmo estilo, “armar” em engraçado sem graça.
Mas o que me tira do sério são os adultos que cultivam o “engraçadismo” convencidos do seu enorme humor. Esta síndroma afecta até … humoristas. Dois rapazes que antes faziam humor integrados no Gato Fedorento dedicam-se agora ao engraçadismo nas páginas do Observador, textos sem graça ou humor pejados de preconceitos e alarvidades que a liberdade de expressão e a agenda que servem lhes permite, felizmente, e que a liberdade de opinião, felizmente, também me permite escrever que nos putos tolero, faz parte do crescimento, nos adultos irrita, é muito umbiguismo para o meu gosto.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

AVÔ, JÁ VAI HAVER ESCOLA DA OUTRA?


Este fim-de-semana numa conversa casual e falando em estar de férias, o Simão, o neto grande, perguntou se a seguir às férias já havia escola da outra ou se ainda era a do ipad.
O Simão frequentou o 1.º ano e, como a generalidade dos seus colegas passou a ter a escola à distância. Também no caso dele a escola ficou mesmo distante, não gosta, não quer e insiste que a “outra” escola é que é a que ele gosta. E nós percebemos que assim seja e por que razões assim é.
Mas o que me inquietou na questão colocada por ele é que não sabemos que escola teremos em Setembro.
É conhecido que as aulas terão início entre 14 e 17 de Setembro, que se desejam presenciais, mas pode haver um modelo misto de aulas presenciais e à distância.
Também sabemos a grande orientação é “dentro do possível”. As escolas e os docentes vão o que estiver ao seu alcance para “dentro do possível” os miúdos tenham aulas na sala de aula com professores e colegas.
Também percebo que existem variáveis que não são passíveis de acautelar, a evolução da situação pandémica, por exemplo. E também entendo que a dimensão de escolas e agrupamentos não é igual e as exigências em matéria de espaços e recursos para aulas em condições de segurança são diferenciadas. E ainda percebo que os riscos de bem-estar de docentes, técnicos e alunos deve ser acautelado. Mas também entendo que as políticas públicas, de educação neste caso, não podem acabar no “dentro do possível” em modo as escolas hão-de resolver.
Só não sei o que vou responder ao Simão, que escola ele terá em Setembro, se ainda terá a do ipad “com links” que ele odeia ou, mais, a da sala de aula com a Professora e Colegas que ele adora. Bom, temos tempo, é só lá para meados de Setembro. Vamos ver se é possível “dar um jeito”.

sábado, 4 de julho de 2020

A ENXADA


Cumprem-se hoje sete anos que entrei pela primeira vez no mundo mágico da avozice, nasceu o Simão, o meu neto Grande. E se achava mágica a ideia da avozice quando não a conhecia e se achei mágico quando a conheci, continua mágica em cada dia que passa.
É mágico não porque não existam sobressaltos, mas porque a bênção de ver os netos crescer com o privilégio de estar por perto é maior que tudo o que é grande.
A passagem de cada aniversário, sobretudo de gente pequena, implica o incontornável “Avô, qual vai ser a minha prenda?”.
O Simão, tal como o Tomás, o neto Pequeno têm uma paixão pelo monte, pelo Alentejo, pelo menos da dimensão da minha e porque estamos num ano atípico pouco dado a festas muito frequentadas, ficámos por aqui.
Considerando o esforço com que permanentemente lidam com as ferramentas de trabalho para realizar “projectos” e “sistemas” achámos por bem oferecer uma enxada pequena, mais leve, ao Simão e, tinha de ser, uma ainda mis pequena ao Tomás. Não tarda, entrarão em acção que por agora o calor é bravo, é o tempo dele, como disse o Mestre Zé de manhã quando andávamos na lida.
Há pouco, quando pensava na enxada lembrei-me de umas falas que o meu Pai, que partiu cedo, mas não sem antes me mostrar o que não conheceu, me dizia de vez em quando.
Na família mais próxima fui o primeiro a prolongar os estudos sem brilho, mas sempre, quase, progredindo. E o meu Pai, de vez em quando, achava por bem informar-me ou recordar-me que ser educado, estudar, a escola, era a melhor enxada que podia ter para a construir uma vida melhor.
Ele tinha razão, não tenho, não tive, uma vida de sonho, não sei sequer o que será, mas sei que tenho uma vida com que nunca sonhei, estar aqui no Monte com a família, os netos, ou tudo o que fiz em termos profissionais, por exemplo. E foi a enxada de que o meu pai falava que aqui me trouxe, por  isso digo que ele me mostrou o que nunca viu, partiu demasiado cedo e … tenho pena que não tenha conhecido os bisnetos.
Iria dizer-lhes que a educação, escola, estudar, é a melhor enxada para construírem uma vida de que gostem.
Tenho a certeza de que o vão fazer e que a enxada que lhes dei hoje, o neto Pequeno, o Tomás, também recebeu uma, vão ser para nos ajudar e se divertirem aqui no Monte.
E são assim os dias mágicos da avozice, hoje também os dias do Alentejo.



sexta-feira, 3 de julho de 2020

SER


Não sou o que gostavam que eu fosse.
Não sou capaz de saber o que gostava de ser.
Se penso em ser, acho que não vou ser mais além do que agora sou, não sou.
Será que se pode ser sem se ser?
Como é que vai ser?
Como é que vou ser?
Ou não ser.

A tarefa central na educação familiar e escolar é o contributo para a construção pessoal de um projecto de vida bem-sucedido para todos os indíviduos em termos de qualificação, desenvolvimento global e cidadania e formação pessoal.
Às vezes falhamos.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

A HISTÓRIA DO PAPAGAIO


Num período de avaliação e de divulgação de rankings que mostram o que sabemos e com vantagens por confirmar, uma história de avaliação escolar lá para trás no tempo.
Há mais de 40 anos estava eu a assistir à prova oral do meu colega Fernando na disciplina de Ciências Naturais, acho que era assim que se chamava, do 5º ano do antigo curso do Liceu, quando o Setôr Jardim, professor competente mas demasiado sério para o nosso gosto, disse ao meu colega para ir buscar uma peça que se encontrava numa mesa com materiais de apoio às provas. Tratava-se de um papagaio embalsamado, empoleirado num pequeno tronco.
Com o papagaio na mão do Fernando, o Setôr Jardim exigiu a classificação do bicho. O meu colega respondeu terminando com a referência à pertença ao grupo das Trepadoras, não sei se será ainda uma designação actual. Inquirido sobre a justificação, respondeu que se devia ao facto de estar equipado com dedos opostos nas patas que optimizavam a função de trepar.
Num raro momento de humor, mas mantendo a habitual sisudez, o professor perguntou-lhe como sabia ele tal coisa se desde o início agarrava o papagaio pelas patas. Pois o meu amigo Fernando respondeu tranquilamente que tinha um papagaio em casa. O exame acabou por ali, com sucesso, diga-se.
Tal como naquele tempo, creio que uma parte da nossa escola ainda desconhece, ou não quer conhecer, o que os miúdos já sabem quando se sentam, seja aprendido em casa, nos ecrãs onde se fecham ou noutro qualquer cenário que não a sala de aula. O que há para saber está dentro do manual, dos manuais, dentro da sala de aula. O que os miúdos carregam, bom ou mau, muito ou pouco, ou não é valorizado ou nem sequer é conhecido.
A escola é sempre melhor sucedida quando conhece o que os miúdos sabem e os leva a um passo adiante.
Como sempre digo, a gente só aprende a partir do que já sabe. Por isso é que muitos miúdos experimentam sérias dificuldades para darem passos na aprendizagem que, algumas vezes, são maiores que as suas pernas.

terça-feira, 23 de junho de 2020

A NOSSA NECESSIDADE DE CONSOLO


A minha avó Leonor usava com muita frequência o termo desconsolo para caracterizar qualquer situação ou facto que considerasse menos positivo, "está um frio que é um desconsolo", "não faças isso, é um desconsolo", "são pessoas infelizes, é um desconsolo". Se ela ainda estivesse connosco muito mais desconsolo haveria de encontrar. Os tempos são tempos de desconsolo.
Stig Dagerman acha que a "nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer". Se se entender como ele que "só existe uma consolação verdadeiramente real: a que me diz que sou um homem livre, ser inviolável, soberano dentro dos seus limites", então estaremos condenados ao desconsolo. Um homem livre, inviolável, soberano, parece do domínio da utopia, não da distopia em que parecemos viver.
No entanto, sou um tipo moderadamente optimista, quando olho para miúdos pequenos que estão a aprender a ser gente, os meus netos por exemplo, gosto de acreditar que não estarão condenados ao desconsolo. Talvez possamos ser menos exigentes que Dagerman no seu angustiado opúsculo, talvez possamos encontrar consolo, algum consolo.
Do meu ponto de vista a dignidade e o afecto são fontes fundamentais de consolo e acho que para muitos de nós a dignidade e o afecto serão alcançáveis, devendo mesmo ser exigidos.
É, se não deixarmos que nos roubem a dignidade e se encontrarmos o Outro a nossa necessidade de consolo é possível de ser cumprida, quase.

domingo, 21 de junho de 2020

AS OBRAS DE ARTE


A terminologia que usamos e que, naturalmente, está em permanente construção oferece, por vezes, algumas situações menos esperadas.
Até à altura em que devido a circunstâncias familiares a comecei a ouvir, não conhecia a expressão "obras de arte" como designação das estruturas mais conhecidas, por mim pelo menos, por pontes. De facto, no mundo da construção civil uma ponte não é uma ponte, é uma obra de arte. Devo dizer que me parece ser uma opção mais bonita e que desconheço a sua origem.
No entanto, depois de alguma surpresa inicial, acho que a designação é apropriada. Uma ponte é um dispositivo, por assim dizer, que, em muitas circunstâncias, permite a ligação mais fácil, ou é mesmo a única forma de ligar dois pontos, duas instâncias, que uma qualquer barreira separa. Dito de outra forma, uma ponte é algo que permite a comunicação.
Embora estejamos, diz-se, num mundo cuja característica mais marcante é a comunicação, tenho para mim que atravessamos uma séria e generalizada dificuldade em comunicar. São demasiados os monólogos e poucos os diálogos. As barreiras, os muros e valores que acreditávamos em desaparecimento emergem e minam a comunicação, os entendimentos.
Devo dizer que gostava de ser eu a estar enganado mas um olhar sobre o que nos rodeia, seja à escala individual, miúdos sós, famílias com baixos níveis de comunicação, seja a escalas de outra dimensão, as dificuldades ou até a ausência de diálogo, de comunicação, é preocupante em muitos contextos de vida. No caso dos miúdos, nas actuais circunstâncias e em relação à escola a comunicação está altamente comprometida para muitas crianças.
Nesta perspectiva e pela sua importância, acho que qualquer dispositivo que promova a comunicação, que aproxime distâncias, que facilite a relação, é sempre uma obra de arte.
E como estamos necessitados de obras de arte. A questão é que a arte nunca parece ser uma prioridade.