terça-feira, 20 de agosto de 2019

TEMPOS DA VIDA


Acho que é inevitável. Sempre que mais um ano passa por nós, pensamos no tempo e nas alterações que se vão verificando na relação com ele. Sendo tempo de férias, repouso activo como lhe chamo, até o tempo é mais para pensar no tempo.
Quando era miúdo, jovem, há já muitos anos, tinha a sensação de que o tempo demorava muito tempo, demasiado tempo, a passar. Era um tempo de pressa, de cres-ser.  Lembro-me, por exemplo, do desejo de chegar rapidamente aos dois dígitos na idade, já não seria um “puto”, pensava eu.
Quando comecei a minha vida profissional e vida familiar própria, emergiu a dificuldade de transformar, organizar o tempo, tanto sobrava como faltava.
A partir de certa altura, não sei dizer qual, a gente sente, a relação com o tempo muda significativamente e fica algo entre o ambíguo e o paradoxo. Por um lado, sentimos que a velocidade do tempo é bem superior à do relógio, o amanhã é ontem, com tanto ainda por fazer. Quem trabalha e continua com uma enorme paixão pela educação ainda sente mais o quanto está sempre por fazer. Por outro lado, creio que começamos a ser capazes de assumir uma atitude de serenidade face às coisas da vida, ao tempo, que retira pressa e, apesar da Atenta Inquietude, nos dá brandura como se diz no meu Alentejo.
Este tempo velho também nos faz olhar para dentro ao olhar para trás e perceber o gozo de começarmos a atingir, do ponto de vista social, alguma inimputabilidade. Não se assustem, é que quando dizia ou fazia certas coisas aos vinte e poucos recolhia, frequentemente e no mínimo, um olhar reprovador. Actualmente, as mesmas afirmações ou comportamentos garantem-me um sorriso de condescendência e empatia, “já velho e como ele se porta ou fala”.
Outra enorme conquista do tempo velho é a possibilidade de contar histórias, histórias nossas, vividas, convividas ou … inventadas. No fundo acho que é isso que se espera e, talvez por essa razão, cada vez gosto mais de histórias.
Finalmente, chegando a este tempo velho, sabe bem uma viagem assim grande à beira de quem gostamos.
Pois então … que venham mais uns quantos.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

AS CONSTRUÇÕES NA AREIA


Por estes dias, as praias mais bonitas do mundo, as da Costa da Caparica, voltam a ser alvo de mais uma intervenção, a reposição de areia.
Não tenho conhecimento objectivo sobre a causa ou causas que levaram à situação actual destas praias. Suspeito que os "bons" tratos dados à Terra, não serão alheios. Por outro lado, lembro-me que, em miúdo, tinha de caminhar umas centenas de metros no areal do Dragão Vermelho para chegar à água.
O areal era imenso ao longo de toda a costa e só nas assustadoras marés vivas e em invernos mais rigorosos que traziam tempestades o mar se aproximava. Actualmente, na praia-mar a frente de praia mais urbana ... não tem praia.
Lembro-me também, desde sempre, de ouvir aos velhos “o mar um dia virá buscar o que lhe tiraram”. Tudo isto a propósito do início do “enchimento” das praias da Costa com areia. A criatividade era enorme embora existissem uns clássicos sempre presentes.
Não ouvi ninguém garantir que este “lifting” garanta praia, ou sequer, Costa da Caparica daqui a alguns, poucos, anos.
Será que isto não se trata de uma forma cara de retomar o concurso “Construções na areia” promovido pelo DN nas praias da Costa, que nós aguardávamos com ansiedade, mas cujos resultados desapareciam na primeira maré alta?
O “tunning” à natureza não costuma dar bom resultado. Veja-se, de novo, a Costa da Caparica.

domingo, 18 de agosto de 2019

OS TRAPEZISTAS

Durante esta semana li no DN uma entrevista muito rica de Rui Mariani, um homem com uma vida ligada à arte do circo e que se apresenta como o primeiro domador de tigres em Portugal. O seu Circo Mundial Mariani e o Circo Victor Hugo Cardinali, membro da família Mariani são os grandes nomes dos espectáculos de circo em Portugal.
A sua história de vida é aliciante e acordou em mim a relação ambígua que sempre mantive com o circo. Devo confessar que sempre tive, desde miúdo, uma relação ambígua com o circo. Na verdade, muito do que me atraía nos diferentes números do circo era, simultaneamente, o que me inquietava. Admirava os números com animais mas achava que o que eles faziam não era “natural”, ria-me com os palhaços mas, sem perceber porquê, achava-os tristes. Mas o momento alto da minha inquietação vinha dos trapezistas. Aliás, trapezista foi também uma das funções desempenhadas por Rui Mariani ilustrando a frequente polivalência nas artes circenses.
Naquele tempo assistia à exibição espectacular dos trapezistas com os olhos muito abertos, fascinado pela coragem e perícia daquela gente que voava e, ao mesmo tempo, assustado com medo de que as mãos do companheiro ou a barra do trapézio lá não estivessem, naquele preciso segundo em que nada pode falhar e o trapezista voador precisa de se segurar. Não me lembro de ter presenciado uma falha ou acidente
Agora … comecei a pensar que a vida de muitos adolescentes e jovens me faz lembrar o número do trapézio. Voam, de um poiso para o outro, atraídos e alimentados pela adrenalina do risco e do desafio que dá sentido a uma existência, neste caso e frequentemente, sem sentido.
Em cada dia, aumentam o risco, em voos mais complicados e testando os limites, os seus e os de quem os rodeia.
À sua volta, muitos ficam indiferentes, outros muitos condenam, alguns outros inquietam-se e ainda outros muitos, também trapezistas, aplaudem.
No circo os trapezistas voam com rede e os acidentes são raros, felizmente.
Os jovens com vidas de trapezista quase nunca voam com rede. Os acidentes sérios são frequentes, falham os apoios de vários lados que não surgem ou estão as mãos de alguém que se atrasou, não percebeu a necessidade ou se atrasou.
Já conheci alguns.

sábado, 17 de agosto de 2019

DOS PROFESSORES


Mais cedo do que tem sido mais habitual já foram divulgadas as listas de colocação dos professores o que se saúda.
As más-línguas atribuirão esta situação à proximidade de eleições. Não acredito, primeiro porque tal seria inédito, não faz parte da praxis política em Portugal e, segundo, porque o ME já afirmou que tal se deveu “ao inexcedível empenho e trabalho das escolas e do Ministério da Educação, por ser ano em que não houve nem concursos extraordinários, nem concurso interno, e por não ter havido outras vicissitudes perturbadoras do procedimento”. Na verdade, a questão é que é possível ajustar procedimentos, o atraso não seria uma fatalidade.
Talvez seja desta que o ano lectivo se inicia sem grandes sobressaltos mas vamos ver o que passa quanto aos auxiliares de educação e aos técnicos especializados, muitos dos quais estão com a continuidade ameaçada com todas as implicações óbvias.
Os docentes colocados têm 72 horas para se apresentarem nas escolas e os não colocados farão parte das chamadas reservas de recrutamento podendo ser chamados a funções ao longo do ano. É também claro que os as necessidades das escolas estão para além dos lugares de quadro nesta matéria torna-se necessário melhorar até em nome da autonomia..
Os colocados em escolas diferentes terão mais tempo para a logística da mudança e os não colocados certamente baterão à porta dos centros de emprego.
Muitos destes são docentes com muitos anos de serviço e que têm provisoriamente desempenhado funções que correspondem a necessidades definitivas. Muitos destes professores vão vivendo projectos de vida adiados.
Raramente a profissão professor tem estado tanto em foco como nos últimos anos bem como a necessidade de defender a qualidade da escola pública sob ameaça significativa. Desencadearam-se múltiplas acções políticas que contribuíram para degradar a sua função, a sua imagem social e o clima e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas.
Opções políticas assumidas e em curso têm contribuído para uma atenção continuadamente dirigida para a educação e para os professores. Essa atenção advém de boas e más razões. Não cabe aqui um balanço alargado o, e entendo que, tal como os miúdos, os professores não têm sempre razão, ninguém tem. No entanto, gostava de deixar algumas notas.
Em primeiro lugar importa sublinhar que ser professor no ensino básico e secundário por razões conhecidas e por vezes esquecidas, é hoje uma tarefa de extrema dificuldade e exigência que social e politicamente justifica o maior reconhecimento que nem sempre é evidente. Acresce que que como é sabido os docentes constituem uma classe profissional com uma média de idade extremamente elevada e com níveis preocupantes de exaustão e cansaço..
Não é fácil ser professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.
Milhares de professores cumprem a sua carreira, muitos deles sem a possibilidade de desenharem projectos de vida para si quando são os principais responsáveis por lançar projectos de vida para os miúdos com quem trabalham. Nos últimos anos milhares de professores, de bons professores e professores necessários, foram constrangidos à reforma e muitos ao desemprego por uma política de contabilidade inimiga da educação pública e da qualidade.
Tantas vezes os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma ignorante barbaridade qualquer, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.
Era desejável mas trata-se de pedir muito que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Pensemos em como a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem.
Pensemos finalmente nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, como sempre escrevo, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.

PARTIU PETER FONDA


Partiu Peter Fonda mais um dos que fizeram parte da minha estrada. Há 50 anos, assinou e interpretou um filme que “mexeu” com a minha geração, “Easy Rider”. Curiosamente partiu quando passam também cinquenta anos de Woodstock. Fica um “emblema” dessa época e desse filme



sexta-feira, 16 de agosto de 2019

ESCOLA A TEMPO INTEIRO OU EDUCAÇÃO A TEMPO INTEIRO


Curiosamente, estamos em plenas férias escolares e no JN encontra-se uma peça sobre algo que muitas vezes aqui tenho abordado, o tempo que as crianças passam na escola.
De uma forma geral, os participantes no trabalho entendem que o tempo passado na escola é excessivo e, também consensualmente, as opiniões inclinam-se para a necessidade de diversificar as actividades desenvolvidas durante o tempo passado na escola.
Sabemos como os estilos de vida actuais colocam graves dificuldades às famílias para assegurarem a guarda das crianças em horários não escolares. A resposta tem sido prolongar a estadia dos miúdos nas instituições escolares alimentando o que considero um equívoco, o estabelecimento de uma visão de “Escola a tempo inteiro” em vez de “Educação a tempo inteiro”.
Para além da reflexão sobre o que acontece nesse tempo e tal como se verifica noutros países, seria imperioso que se alterassem aspectos como a organização do trabalho, verificada em muitos países, que minimizassem as reais dificuldades das famílias recorrendo, por exemplo e quando possível, a tele-trabalho ou à diferenciação nos horários de trabalho que em alguns sectores e profissões é possível.
Acontece que de acordo com o que está definido legalmente a estadia na escola dos alunos no ensino básico pode atingir bem mais de 40 horas semanais se os pais necessitarem, considerando horário curricular, AEC e componente de apoio à família.
É preciso o um esforço enorme, equipamentos e recursos humanos qualificados para que não se corra o risco de transformar a escola numa “overdose” asfixiante para muitos miúdos.
É verdade que existem boas práticas neste universo mas também todos conhecemos situações em que existe a dificuldade óbvia e esperada de encontrar recursos humanos com experiência e formação em trabalho não curricular. Acresce que boa parte das escolas, como é natural, têm os seus espaços estruturados (e por vezes saturados) sobretudo para salas de aula. Espaços para prática de actividades desportivas ou de ar livre, expressivas, biblioteca, auditórios, etc., etc., a existirem dificilmente poderão ser suficientes para uma ocupação da população escolar alternativa à sala de aula. Esta questão é também relevante no que respeita à qualidade e adequação da resposta a alunos com necessidades especiais.
Este obstáculo acaba por resultar na réplica de actividades de natureza escolar com baixo ou nulo benefício e um risco a prazo de desmotivação, no mínimo.
Por outro lado, tanto quanto o tempo excessivo de estadia na escola merece reflexão o risco e as implicações da natureza muitas vezes “disciplinarizada” desse trabalho, ou seja, organizado por tempos, de forma rígida próxima do currículo escolar.
A enorme latitude de práticas que se encontra actualmente, desde o muito bom ao muito mau, sustenta que também neste aspecto os dispositivos de regulação devam ser robustos e eficientes. Recordo que em muitas circunstâncias as AEC são desenvolvidas por entidades externas à escola pelo que importa assegurar a responsabilidade da escola e a sua autonomia.
Na verdade, embora compreendendo a necessidade da resposta seria desejável que, tanto quanto possível se minimizasse o risco de em vez de tentarmos estruturar um espaço que seja educativo a tempo inteiro com qualidade, preenchido na escola ou em espaços e equipamentos da comunidade, assistirmos à definição de uma pesada agenda de actividades que motiva situações de relação turbulenta e reactiva com a escola.
Ao escrever estas notas lembrei-me que em 2007 participei num debate sobre as AEC na Vidigueira em que uma professora presente referiu um episódio elucidativo. Nesse ano e na sua escola tinha sido preparado um espaço para as crianças jogarem futebol. Um dos seus alunos fez a seguinte observação. “Quando eu tinha tempo para brincar não tinha um campo. Agora tenho um campo e não tenho tempo para jogar”.
Os miúdos andavam mal habituados é o que é. Então a escola é sítio para jogar à bola mesmo havendo campo? Não, a escola é para trabalhar. No mínimo, 7 horas por dia. No mínimo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

SER PEQUENO


Dado o inexorável movimento dos dias cumpro hoje mais um marco de uma estrada que já vai longa. A partir de hoje integro a tribo dos “séniores” ou dos “idosos”. Vou ter que me habituar.
No entanto, prefiro recordar que na minha terra era costume, creio que ainda é muito frequente em Portugal, referir que quando se celebra um aniversário, se é "pequeno". Assim sendo, hoje sou "pequeno", coisa que não é nada fácil imaginar e muito menos conseguir, mas é mais amigável que “idoso”.
Embalado por essa ideia lembrei-me de quando era mesmo pequeno, tentação que parece inevitável cada vez que ficamos mais velhos.
Lembrei-me de como brincava, ao que brincava e com quem brincava, quase sempre na rua.
Depois lembrei-me de como brincava com o meu filho, quando ele era pequeno, grandes viagens em grandes brincadeiras.
Agora brinco com os meus netos, são eles os pequenos. Muito a gente se diverte. E havemos de nos divertir ainda mais a brincar. Palavra de avô.
A este propósito e com já vos tenho dito e, certamente, alguns estranharão, acho que por estes dias os miúdos brincam pouco.
Eu sei que os tempos são diferentes e os estilos de vida mudaram significativamente. No entanto, não me parece que sejam razões suficientes. A questão é, creio, de outra natureza.
As brincadeiras já não brincadeiras, passaram a chamar-se actividades. E os miúdos têm muito pouco tempo para brincar, é quase todo destinado a actividades, muitas actividades, que, dizem, são fantásticas, fazem bem a tudo e mais alguma coisa, promovem competências extraordinárias e é preciso ser excelente.
Deixem os miúdos brincar, faz-lhes bem, é mesmo a coisa mais séria que fazem e, como sabem, é importante lidar desde pequeno com coisas sérias.
Hoje não vai dar, é tempo de férias que também nos separam, mas se fosse brincar com os meus netos ainda nos divertiríamos mais. É que hoje … hoje sou pequeno, ainda melhor nos entenderíamos.
Fica para depois.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

OS TEMPOS DA ABSURDIDADE


Os tempos vão estranhos. Os discursos que circulam nos inúmeros suportes são excessivamente contaminados por agendas, muitas vezes ocultas. A produção e circulação de informação e conhecimento são excessivamente determinadas pela “pós-verdade”, pelos “factos alternativos” ou, em inglês é mais sofisticado, em “fake news”.
Os padrões éticos da nossa vida política, económica e social baixaram e a mentira, as mentiras, são regra, deixaram de ser excepção seja qual for a designação. Os últimos dias têm sido particularmente elucidativos.
Lembrei-me, nesta inquietação, de uma obra, lamentavelmente pouco divulgada, do Professor António Bracinha Vieira, um homem enorme, um mestre que me marcou e recordo de vez em quando pela sua lucidez e densidade cultural e científica.
O livro, "Ensaio sobre o termo da história - trezentos e sessenta e cinco aforismos contra o Incaracterístico" é um notável ensaio sobre o que Bracinha Vieira chama de tempo da Absurdidade em que predomina o Incaracterístico e organiza-se em 365 parágrafos antológicos, os "aforismos", que combatem esse personagem dominante, o Incaracterístico. A primeira edição do livro é de 1994, foi objecto de alguma discussão num círculo diminuto e é evidente em muitos dos aforismos uma espécie de premonição do que agora vivemos
Partilho convosco os aforismos 15 e 18.
"Instalou-se no jargon cripto-anglófono do Incaracterístico uma inversão radical do sentido das palavras liberal, liberalismo (ainda presas a um étimo comum com liberdade) insinuando sob o totalitarismo da Absurdidade uma negaça de democracia. Decidido a desnaturar conceitos prestigiosos dos quais nem sequer consegue discernir o alcance, o Incaracterístico investe esses termos de um significado oposto ao que lhes cabia."
"A democracia da Absurdidade exerce-se num cenário oposto ao da cidade-estado: o Incaracterístico elege o Incaracterístico, e todas as alternativas em jogo a ele conduzem. Os sujeitos cujos nomes são designados logo surgem nos ecrãs-circo da Grande Absurdidade, preenchendo hiatos entre a publicidade mercantil, sem se aperceberem que são mercadoria de outras espécies. Dali debitam os seus sirénicos e sorumbáticos cantos. e a escolha entre eles é o fiel da liberdade do Incaracterístico".
A pensar.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

CRIANÇAS DE RUA


Merece leitura e reflexão a entrevista do Público a Matilde Sirgado da direcção do Instituto de Apoio à Criança e coordenadora do Projecto Rua. Trata-se de um programa de apoio a crianças e jovens até aos 18 anos que “usam a rua como estratégia de sobrevivência” e, naturalmente, o objectivo é construir um projecto de vida que as tire da
A situação actual, 80 crianças acompanhadas no ano passado face às 1800 apoiadas em 2000.
De facto o decréscimo é significativo, felizmente, mas continuamos a ter crianças e jovens em situação de grande vulnerabilidade mas já não se encontram como há alguns anos “crianças de rua”. As situações actuais estão mais ligadas a fugas do contexto familiar ou de instituições, criam situações de risco severo em matéria de exclusão ou delinquência, mas os contornos são diferentes.
Esta questão que ainda merece preocupação recordou-me uma experiência pessoal de há alguns anos, passou-se em Moçambique e creio que já aqui contei.
Dessa vez estive duas semanas em Maputo com o Mestre Malangatana, o Velho como lhe chamava, um Homem enorme que já partiu, deixou a obra e as memórias. Estávamos a fazer um trabalho de formação de professores no Centro Popular criado por ele na terra onde nasceu, Matalana, a uns quilómetros de Maputo.
Já tenho partilhado algumas histórias desta graça que a vida me concedeu. Durante toda a estadia jantávamos invariavelmente no Piri-piri, um muito conhecido restaurante na Av. 24 de Julho.
Logo na primeira noite à saída do restaurante, sou completamente submerso por um grupo de moluenes, nome porque são conhecidos os miúdos e adolescentes que vivem na rua em Maputo tal como os "capitães da areia" das ruas de Salvador de que falava outra grande figura, Jorge Amado. Os moluenes tentavam vender-me toda a espécie de “arte popular” a preços “mesmo, mesmo bons”.
Quando viram que vinha acompanhado do Velho, contiveram-se e o Velho Malangatana falou no seu jeito impossível de descrever, “crianças, este branco, o Zé Morgado, é meu amigo, é boa pessoa, é inteligente, vocês não enganem este branco”.
Os miúdos protestaram que não queriam enganar-me e com alguma surpresa, um deles mais velhito aproximou-se para me oferecer um dos batiques que vendia. Perante o meu embaraço na aceitação, disse-me com um sorriso maior que a cara, “sou eu que faço, também me chamo Morgado”. É verdade, o batique estava assinado com um visível e inesperado “Morgado”. Hoje, já passados alguns anos, o batique do Morgado de Maputo ocupa um lugar de relevo na minha casa, na minha cabeça e no meu coração.
Mas de maior relevo ainda, é o lugar de Malangatana, um Mestre.
Nunca me senti tão positivamente discriminado. Em várias das noites seguintes recebi uma oferta bonita dos moluenes, as crianças da rua. Daquelas prendas bonitas que só se dão aos amigos do Velho, do Mestre como eles lhes chamavam.
Privilégio meu.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

DOS "ESQUEMAS" NAS MATRÍCULAS ESCOLARES


A nossa criatividade na definição de “esquemas” é inesgotável. Após a ineficácia do “esquema” da indicação de encarregados de educação que não correspondem à realidade para conseguir o acesso das crianças às escolas desejadas, parece agora surgir o recurso às moradas fiscais “marteladas” com o mesmo objectivo.
O resultado é que em algumas situações, exemplos identificados no Expresso, crianças residentes na área geográfica de cobertura do agrupamento/escola não têm lugar enquanto alunos com residência fora da zona conseguem acesso através do “esquema” usado pelos pais.
Apesar da regulação em vigor e com a actualização contínua das "APP" dedicadas a "esquemas" existirá sempre a tentativa de contornar a situação da cobertura geográfica definida para cada estabelecimento escolar e assim conseguir a matrícula na escola desejada..
Talvez possamos olhar para esta situação de um outro ponto de vista.
Parece claro que, para além da questão específica da insuficiência da oferta na educação pré-escolar, em muitas situações o recurso ao esquema das “moradas fiscais falsas” prende-se com o desejo dos pais de que os seus filhos frequentem escolas que eles entendem ser de “melhor qualidade” independentemente dos critérios que sustentam esse entendimento.
Creio que parece aceitável este sinal de preocupação com a educação esta tentativa de colocar os filhos nas escolas que considerem mais capazes de os bem receber. Por outro lado, a generalidade dos critérios definidos no quadro de critérios incluindo a condição socioeconómica das famílias parece razoável.
No entanto e considerando este cenário, para além de soluções pontuais inconsequentes creio mesmo que o caminho só pode ser incentivar e criar condições para que todas as escolas possam ser escolas públicas de qualidade acomodando todos os alunos. Para isso precisam de recursos, autonomia e dispositivos de regulação para ajustarem a sua resposta às necessidades das populações que servem, uma variável fortemente associada à qualidade dos processos educativos.
Andaremos menos bem se sabendo que existem escolas “boas” e escolas “más” a preocupação se esgotar na forma de evitar que os pais coloquem os filhos nas escolas “boas” em vez de tentar tudo para que as escolas “más” se tornem menos “más” e, portanto, atractivas e também suficientes para todos os que habitam na sua zona de intervenção.
Estamos a falar do sistema público de educação a mais potente ferramenta de desenvolvimento das comunidades, de promoção de mobilidade social e de projectos de vida com qualificação e potencial de sucesso.

domingo, 11 de agosto de 2019

"DO BULLYING", NO PÚBLICO


No âmbito da colaboração entre o Público e a minha escola, ISPA-Instituto Universitário, umas notas sobre o sempre inquietante fenómeno do bullying.
“ (…)
Parece pertinente recordar que uma dimensão importante do fenómeno do bullying nas suas diferentes faces é o medo e a ameaça de represálias às vítimas e a quem assiste, o que, naturalmente, pode inibir a queixa. Assim sendo, torna-se ainda mais necessária uma atenção pró-activa e preventiva de adultos, pais, professores ou funcionários.
(…)”

sábado, 10 de agosto de 2019

DA PRESSÃO PARA A EXCELÊNCIA


Muitas vezes aqui tenho referido uma matéria que julgo merecer atenção pelo impacto que em muitas situações pode ter na vida de algumas crianças, adolescentes e jovens, a pressão para a excelência sendo que esta pressão se estende a actividades de diferente natureza começando, naturalmente pelo desempenho escolar.
No Expresso encontra-se uma peça que revela a existência nos Estados Unidos de um decisão tomada por muitos pais de contratar “explicadores” de Fortnite para incrementar o nível de desempenho dos seus filho procurando que eles atinjam não menos que a excelência, “O foco é treinar e ser um dos melhores no jogo Fortnite. Perante as vozes que censuram este jeito de viver, o pai diz que se fosse outra área, como piano ou representação, as reações seriam diferentes”, com justificações de natureza social e económica, lê-se na peça.
É inquietante assistir como fruto dos estilos de vida, de alterações nos valores e cultura se tem vindo a instalar de mansinho em muitos pais, e também dentro das instituições educativas, uma atitude e um discurso de exigência e de pressão para a excelência no desempenho dos miúdos, centrados sobretudo nos resultados escolares mas extensível a todas as actividades em que se envolvem, é preciso ser bom e ser bom a tudo. E também, vemos agora, no Fortnite.
A questão não tem, evidentemente, a ver com a natural atitude de exigência mas um sim com a pressão muito forte para a produção e alto nível de rendimento e cada vez mais cedo pois, supõe-se, ganharão vantagens na construção de um futuro onde só “os melhores" terão um bom lugar garantido.
Este clima de pressão para resultados e a forma como o sistema educativo tem sobrevalorizado a medida contribui para alimentar um ambiente educativo, escolar e familiar, competitivo e selectivo que cria em muitas crianças e adolescentes uma pressão fortíssima para a excelência dos resultados em todas as actividades. Uma outra consequência mais indirecta é a maior dificuldade de estruturar climas inclusivos pois apesar de inclusão significar todos, os alunos com maior dificuldade, qualquer que seja a sua natureza, ficarão ainda mais vulneráveis e em maior risco de exclusão.
Acontece que algumas crianças, por questões de maturidade ou funcionamento pessoal, suportam de forma menos positiva esta pressão o que poderá gerar o risco de disfuncionamento, rejeição escolar e, finalmente, insucesso, desistência e rejeição de novas experiências. Este cenário de consequências negativas para alguns alunos pode ainda ser mais grave como os estudos mostram em sistemas educativos bem mais competitivos que o nosso.
A melhor forma de preparar os miúdos para o futuro é cuidar bem deles no presente, desejavelmente sem faltas, mas também sem excessos.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

YA


Olá Zé, tudo bem?
Ya.
Estás de férias?
Ya.
Os exames correram bem?
Ya.
Vais continuar a estudar?
Ya
Continuas a pensar ir estudar Comunicação Social?
Ya.
Para trabalhares como jornalista?
Ya.
Então gostas de comunicar com os outros?
Ya.
Parece que não está muito fácil o emprego nessa área?
Ya.
Mas quando se gosta mesmo, vale a sempre a pena tentar.
Ya.
Vai correr bem.
Ya.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

HISTÓRIAS DE FÉRIAS


Como muitas vezes digo produzindo alguns sorrisos, a idade traz algumas vantagens interessantes. A primeira é uma espécie de inimputabilidade, se a impaciência ou cansaço me fizerem soltar alguma expressão menos “própria” o que há umas décadas seria “má educação” agora é visto com alguma generosidade considerando “engraçado, com aquela idade e fala assim". É óptimo, um dia vão saber isso.
A segunda vantagem da velhice é ter história(s) para contar, os mais novos que lidam comigo ouvem-na(s) com frequência e de diferente natureza. Talvez seja por isto que dei comigo a pensar como eram as minhas férias lá bem para trás no tempo.
Quando eu era gaiato, antes do desenvolvimento ter tapado as quintas da zona onde morava com prédios deixando como espaço livre o alcatrão, a oferta de férias para os miúdos era basicamente constituída pelo mais acessível e barato dos equipamentos, a rua. Como os estilos de vida e o quadro de valores ainda tão tinham alimentado a insegurança, quando não havia escola, claro, estávamos na rua, sempre na rua.
As actividades não eram muito sofisticadas nem fantásticas, não ficávamos assim muito excelentes, mas divertíamo-nos a sério nas férias, com calor, com frio, com chuva, mesmo à noite. É verdade que alguns dos meus companheiros ainda foram “homens que nunca foram meninos” como lhes chamou Soeiro Pereira Gomes, desde muito cedo fizeram-se ao trabalho.
Mas ainda arranjávamos tempo para brincar, naquela época o tempo era mais barato e havia mais.
Nessa altura os miúdos ainda podiam apanhar chuva e mexer na terra, não conhecíamos as ameaçadoras bactérias, os nossos pais também ainda não eram excelentes e fantásticos sempre na busca de orientações e “coaching” para promover a excelência dos filhos.
Muitas das actividades eram, por assim dizer, sazonais, mais próprias de umas alturas do ano que de outras. Algumas, já delas aqui contei, dariam vontade de rir aos miúdos de hoje mas eram o máximo, a sério.
Andar horas de bicicleta, os poucos que tinham, ou de arco e gancheta em exibição ou competição, realizar intermináveis jogos de futebol, muda aos cinco acaba aos dez, com bolas de cautchu adquiridas através dos rebuçados, jogar hóquei em patins, sem patins, com uma bola de matraquilhos “desviada” no café e com talos de couve com a curva adequada a servir de stick, são alguns exemplos.
Fazer tiro ao arco com arcos feitos a partir das varetas de guarda-chuvas velhos, passar horas nas diversas variantes dos jogos com berlindes, exercitar a corrida com o jogo da rolha, do lenço à barra, ou do toca e foge, experimentar a estratégia no jogar às escondidas ou a perícia nas corridas de caricas, eram outras das muitas coisas que fazíamos nos nossos tempos livres.
Nesse tempo havia tempo livre, os miúdos hoje quase não têm. Mas são fantásticos e excelentes.
Às vezes ... não.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

COMPUTADORES E ESCOLA

Um outro conjunto de dados constantes no relatório "Educação em Números 2019", da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência pelo impacto nos processos educativos actuais prende-se com o parque informático das escolas.
Para além das queixas recorrentes sobre as dificuldades no acesso à net e a idade “sénior” de boa parte dos equipamentos o número tem sido revisto em baixa.
Quando foi distribuído o famoso (por boas e más razões), ano 2008/2009 conseguiu-se um rácio de um computador por alunos. A partir de 2011 começou a subir e em 17/18 é de 6.6.
Este quadro que é recorrentemente referido por docentes e direcções não surpreende.
Um trabalho da OCDE, “Measuring Innovation in Education”, divulgado já em 2019 mostrava que contrariamente ao que se passa com a generalidade dos países, em Portugal verificou-se um decréscimo do acesso dos alunos a computadores na escola.
Considerando o intervalo entre 2009 e 2015 o indicador de acesso dos alunos a portáteis subiu na generalidade dos países. Apenas o Japão e Portugal baixaram a percentagem, 5% no Japão e de 55% para 43% em Portugal.
No entanto, mais significativo e preocupante pois trata-se do período inicial da escolaridade, no 4º ano a percentagem de alunos com acesso a computadores ou portáteis nas aulas de leitura desceu de 47% em 2011 para 14% em 2016. A queda parece associada a ter terminado em 2011 o programa de distribuição dos “famosos” Magalhães.
O relatório da OCDE também sublinhava a importância deste recurso por parte das escolas públicas e o risco da falta de acesso poder associar-se ao agravamento das desigualdades em função da origem socioeconómica dos alunos que podem não compensar nos contextos familiares o acesso ao mundo digital. Os programas do ME de distribuição de computadores constituiram para muitas crianças a única forma de acederem a estes dispositivos, conheço várias situações.
Parece claro que as novas tecnologias, que já são velhas apesar da insistência na designação, não são a poção mágica para o ensino e aprendizagem. Os computadores ou tablets na sala de aula não promovem sucesso só pela sua existência. A forma como são utilizados por professores e alunos é que potencia a qualidade e os resultados desse trabalho. Aliás, o mesmo se pode dizer de qualquer outro recurso ou actividade no âmbito dos processos de aprendizagem.
No entanto, não podemos esquecer que múltiplos estudos e experiências valorizam este recurso nos processos de ensino e aprendizagem pelo que é importante garantir o acesso pela generalidade dos alunos.
Neste contexto e como já tenho afirmado, considerando o que se sabe em matéria de desenvolvimento das crianças e adolescentes, dos processos de ensino e aprendizagem e da sua complexa teia de variáveis, das experiências e dos estudos neste universo, mesmo quando aparentemente contraditórios, creio que:
1 – O contacto precoce com as novas tecnologias é, por princípio, uma experiência positiva para os alunos, para todos os alunos, se considerarmos o mundo em que vivemos e no qual eles se estão a preparar para viver. Nós adultos estamos a pagar um preço elevado pela iliteracia, os nossos miúdos não devem correr o risco da iliteracia informática.
2 – O computador/tablet na sala de aula é mais uma ferramenta, não é A ferramenta, não substitui a escrita manual, não substitui a aprendizagem do cálculo, não substitui coisa nenhuma, é “apenas” mais um meio, muito potente sem dúvida, ao dispor de alunos e professores para ensinar e aprender e agilizar o acesso a informação e conhecimento.
3 - O que dá qualidade e eficácia aos materiais e instrumentos que se utilizam na sala de aula não é a tanto a sua natureza mas, sobretudo, a sua utilização, ou seja, incontornavelmente, o trabalho dos professores é uma variável determinante. Posso ter um computador para fazer todos os dias a mesma tarefa, da mesma maneira, sobre o mesmo tema, etc. Rapidamente se atinge a desmotivação e ineficácia, é a utilização adequada que potencia o efeito as capacidades dos materiais e dispositivos.
4 - Para alguns alunos com necessidades especiais o computador pode ser mesmo a sua mais eficiente ferramenta e apoio para acesso ao currículo.
5 – Para além de garantir o acesso dos miúdos aos materiais é fundamental disponibilizar a formação e apoio ajustados aos professores sem os quais se compromete a qualidade do trabalho a desenvolver bem como, evidentemente, assegurar as condições exigidas para que o material possa ser rentabilizado.
6 – Finalmente, como em todo o trabalho educativo, são essenciais os dispositivos de regulação e avaliação do trabalho de alunos e professores.
7 – Tudo isto considerado a escola pública deve promover até ao limite a universalidade do acesso a estes dispositivos. Sim tem custos, mas a exclusão sai mais onerosa.
Como referi acima não eistem poções mágicas em educação por mais desejável que possa parecer a sua existência. No entanto, é importante garantir o acesso aos melhores recursos disponíveis a todos os alunos e a situação reportada pela DGEEC e pela OCDE pode ter implicações negativas.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

NÃO PODEMOS ESQUECER AQUELE 6 DE AGOSTO


Os tempos inquietantes que atravessamos tornam ainda mais importante que aquele 6 de Agosto de 1945 em Hiroshima não seja esquecido. A memória é-nos fundamental.
A merda de lideranças que governa a generalidade das grandes potências parecem sinistras personagens de um mau filme de guerra e terror. Mais inquietante ainda, algumas destas sinistras personagens foram eleitas.
É um tempo de “fake news”, de pós-verdade, de manipulação da história e da realidade, transformando o que é virtual no que é real. Os valores são de geometria variável, a Terra agoniza, as pessoas fogem e tudo lhes é negado.
E o futuro gente?

CERTIFICAR E QUALIFICAR


No âmbito do Programa Qualifica foi há dias anunciado um concurso para abertura de novos centros de formação de adultos. Como foi definido o a iniciativa Qualifica enquadra-se no Programa Integrado de Educação e Formação de Adultos destinado aos que “não tiveram oportunidade de estudar no tempo mais natural, mas também àqueles que, ainda sendo jovens, não conseguiram completar a escolaridade obrigatória”.
A meta estabelecida foi a qualificação de 600 000 adultos até 2020. Em meados de 2019, o terceiro ano de funcionamento do programa, 360 mil adultos inscreveram-se nos centros Qualifica o que de acordo com o Governo está acima dos objectivos definidos, 145 mil inscrições por ano.
Do total de inscritos, a maioria acedeu a ofertas de formação como os Cursos de Educação e Formação de Adultos mais exigentes que os processos de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, RVCC, nos quais se inscreveram cerca de 80 000 cidadãos.
A qualificação e formação de adultos é ainda uma das grandes prioridades de Portugal, 55% da população não tem o ensino secundário completo com consequências muito significativas em sociedades marcadas pelo conhecimento e avanço tecnológico.
A qualificação é um bem de primeira necessidade e a melhor forma de combater exclusão e pobreza.
Os dados conhecidos representam ainda uma recuperação pois nos últimos anos tinha-se verificado um forte abaixamento nos dispositivos e recursos alocados à educação permanente ou aprendizagem ao longo da vida. Na legislatura anterior o número de adultos envolvidos em processos de formação passou de 260 000 em 2011 para 57 862 em 2015.
Não tenho informação que me permita construir uma perspectiva global embora algumas experiências que conheço mostrem realidade assimétricas entre o muito bom e o muito mau, dimensão em que a educação em Portugal é verdadeiramente inclusiva.
No entanto, espero, desejo, que o processo em curso seja de facto de qualificação e de reconhecimento de reconhecimento, validação e certificação de competências de facto comprovadas e a justificar valorização formal e não uma “certificação” que compõe estatísticas.
Ainda recordo o Programa Novas Oportunidades que partindo de uma fortíssima necessidade e de um conjunto de princípios correctos, se transformou num enorme equívoco devido a uma enorme pressão “certificadora” que confundiu “certificação” com qualificação” apesar do esforço e dedicação de muitos profissionais envolvidos que eram pressionados para objectivos de “certificação”.
Como disse, espero que os números conhecidos se traduzam em reais processos de qualificação ou de reconhecimento, validação, certificação de competências efectivamente demonstradas e que se resista à tentação de trabalhar para a “estatística”, instalando um fingimento de formação e certificação de competências que promovendo certificação não promove qualificação.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

DE FÉRIAS


E pronto, férias. É verdade que o meu trabalho, por natureza, necessidade e gozo, solicita alguma actividade neste Agosto, o tempo dedicado às férias. Aliás, costumo dizer aos mais novos que têm a generosidade de me desejar boas férias que na minha idade já não temos férias, trata-se, felizmente, acrescento, de repouso activo. Riem-se, poupam-me à explicação mas acho que um dia vão entender.
Ainda sobre as férias e com uma ponta de provocação para ter pretexto para conversas de verão, vou mais longe, afirmo que, muitas vezes, estar de férias é uma questão de atitude. Passo a explicar. Todos nós conhecemos imensa gente que chegando as férias desata numa agitação sem fim procurando, dizem, o que não têm em tempo de trabalho. Ganham stress em deslocações, filas de espera para tudo, calor, fechadas em grupos e em locais cheios de gente igualmente stressada. Nesta altura estamos ainda na expectativa de uma anunciada greve de motoristas que, a confirmar-se, será seguramente uma enorme fonte de desassossego.
No fim deste tempo que voa estão tão cansados que só aguentam tal situação acreditando que tiverem umas férias “fantásticas”. Ainda bem. Provavelmente precisariam de umas férias para descansar das férias.
Por outro lado, também conhecemos pessoas que, sorte a sua, têm uma relação tranquila com a sua vida e com o seu trabalho, atitude que mantêm quando o trabalho se interrompe e quando algumas rotinas mudam.
Daí a ideia de que estar de férias é uma questão de atitude.
Boas férias.

domingo, 4 de agosto de 2019

O ALPINISTA


De vez em quando, esta é uma dessas alturas, o clima político e económico faz-me recordar uma personagem cuja história já aqui contei.
Era uma vez um homem chamado Alpinista. Nasceu numa terra pequena onde muita gente gostava de praticar a subida, na vida, é claro. Uns conseguiam subir alguma coisa, outros nem tanto, mas tinham pena.
O Alpinista, foi um rapaz discreto sem de início revelar algumas especiais capacidades ou dotes que o habilitassem ao sucesso, subir na vida. No entanto, tinha alguma capacidade discursiva, era perspicaz e assertivo, conseguia perceber sem grande dificuldade o caminho a seguir e fazia-o de forma convicta.
Durante a adolescência e olhando para o que se passava naquela terra, tudo o que era lugares importantes eram ocupados de acordo com o aparelho partidário do partido que ocupasse o poder naquela altura e verificando que outros lugares exigiriam um mérito a que ele não acederia, decidiu-se pela via partidária. Analisou a oferta e optou pelo partido que lhe pareceu com maior probabilidade de ocupar o poder durante mais tempo inscrevendo-se na juventude partidária. Diligentemente o Alpinista cumpria as tarefas que lhe eram cometidas e com a sua capacidade discursiva foi subindo na hierarquia, tendo chegado a um patamar que lhe garantiu um lugar nas listas de deputados em representação da juventude. Entretanto inscreveu-se numa daquelas universidades em que a exigência em certos cursos e para figuras de algum relevo público não é muito grande, mas que, para compensar, as notas são mais altas e passou a Dr. Alpinista. O bom desempenho no aparelho do partido e a fidelidade canina no Parlamento, levaram-no a uma irrelevante Secretaria de Estado durante alguns mandatos. A sua acção, socialmente insignificante, mas partidariamente relevante valeu-lhe, à saída do Governo, um lugar na administração de uma empresa de capitais públicos de uma área que ignorava por completo.
Alguns, poucos, anos depois o Alpinista reformou-se, retirando-se para uma das propriedades que faziam parte do património que entretanto tinha adquirido e dedicou-se à escrita.
O livro que produziu, autobiográfico, rapidamente se transformou num enorme sucesso, tem por título, “O Manual do Alpinista”.

sábado, 3 de agosto de 2019

"JÁ CHEIRA A FÉRIAS"


Gostei de ler o texto de João Ruivo, “Já cheira a férias”, que, anunciando as férias, estabelece um “caderno de encargos” para o futuro em matéria de educação que me parece constituir uma boa base de reflexão.
(…)
Mas, para que esse investimento pessoal e profissional resulte em eficiência organizacional, torna-se indispensável que se conjuguem cinco condições, ou objectivos básicos de intervenção: 1ª- Conceder aos educadores autonomia de decisão quanto à elaboração de projectos curriculares, a partir de um trabalho sistemático de indagação, partilhado com os seus colegas. 2ª- Prestar especial atenção à integração da diversidade dos alunos, num projecto de educação compreensiva, que atenda às características e necessidades individuais. 3ª- Manter um alto nível de preocupação quanto ao desenvolvimento de uma cultura de avaliação do trabalho individual e do funcionamento organizacional das escolas. 4ª- Associar a flexibilidade à evolução, face ao reconhecimento que os professores detêm diferentes ritmos para atingirem os objectivos que os aproximem dos indicadores sociais da mudança. 5ª- Manter, finalmente, uma grande abertura às propostas e às expectativas de participação de todos os elementos da comunidade educativa, enquanto condição para promover a ruptura que conduz à renovação.
Infelizmente, a última década não permitiu alimentar este tipo de optimismos. Razões alheias ao crescimento profissional dos docentes, como o são as ancoradas nas crises demográficas, ou em medidas de política educativa, anunciavam tempos de ruptura, pouco favoráveis à reflexão serena sobre o futuro da escola. (…)

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM


Cumprem-se hoje 90 anos do nascimento de José Afonso que partiu há 32 anos. Caberia o lugar-comum de os Grandes não morrem, mas o Zeca não iria gostar, não se dava bem com estatutos e muito menos de Grande. Mas na verdade, o Zeca foi e continua Grande e os Grandes fazem sempre falta.
É certo que ficámos com a música, mais um lugar-comum, quando se ouve é sempre a primeira vez. Mas ficámos sobretudo com a vida e com o exemplo, Grande, naturalmente.
Um homem de uma probidade e generosidade espantosas e com um voluntarismo generoso que contagiava. Diziam-no ingénuo, talvez fosse a ingenuidade de que só as crianças e os puros são capazes e carregam.
O Zeca, gosto de recordar, foi professor enquanto o deixaram. É que embora alguns não saibam, tenham esquecido ou queiram esquecer, já tivemos, mesmo, censura e prisão por delito de opinião.
O Zeca haveria de gostar de algumas coisas que por aí andam, há sempre gente solidária e generosa, mas espantar-se-ia com as nuvens que pairam sobre estes tempos.
E mesmo nesta turbulência manhosa em que este mundo se transformou, o Zeca continuaria a dizer "traz outro amigo também".

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Para não se apagar a chama
Que dá vida a noite inteira
Quando um homem
Se põe
A pensar
Só um pensamento
No momento
P’ra nos despertar

Seja bem-vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também
A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei



"OS OBJECTIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO", UMA OUTRA LEITURA


Gostei de ler “E se a África rejeitasse os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável?” de Elísio Macamo no Público.
Um estimulante texto “fora da caixa” sobre os modelos e Objectivos do Desenvolvimento Sustentado definidos pela ONU.
“ (…)
O que produz instituições que combatem a pobreza são valores – por exemplo, a importância que a dignidade humana, a justiça como equidade, a igualdade de oportunidades têm na convivência social. Combater a pobreza nessas circunstâncias, portanto, é muito mais do que tirar as pessoas da pobreza, mas sim reforçar estes valores. A Agenda da Transformação devia ter destacado estes valores, não objectivos práticos.
(…)”

COMBATE À CORRUPÇÃO? ENTRE O NÃO QUERER E O NÃO PODER

Nos últimos dias a agenda, para além da questão das famosas golas mas também a partir deste lamentável episódio, tem sido marcada pela constatação dos negócios de robustez ética e mesmo legal duvidosa entre familiares de gente com cargos na administração pública, nos seus diferentes patamares e entidades públicas. Nada de novo, é matéria que tem de há muito envolvido gente de múltiplos quadrantes, aqui sim, temos um país inclusivo.
Recordo que os indicadores relativos a 2018 do Barómetro Global da Corrupção, da responsabilidade da Transparency International, a rede global de Organizações Não-Governamentais que em Portugal é representada pela Transparência e Integridade mostraram que Portugal permanece a meio da tabela do índice de percepção da corrupção tendo praticamente estagnado o que segundo a Transparência e Integridade evidencia a inexistência de uma estratégia de combate à corrupção.
Na sequência de relatórios anteriores os dados são devastadores. Sabe-se também que na grande maioria dos casos registados e investigados não resultam condenação, são frequentes as referências à falta de meios e recursos humanos no sistema judicial mas a coisa não se altera significativamente.
Lembro também que já em Fevereiro de 2016 a Comissão Europeia afirmava num relatório que em Portugal “não existe uma estratégia nacional de luta contra a corrupção em vigor”.
No entanto, sobretudo à entrada de cada novo governo ou em períodos pré-eleitorais, está sempre presente nos discursos partidários a retórica que sustenta o fingimento da luta contra a corrupção e a promoção da transparência na vida política portuguesa e, regularmente, emergem umas tímidas propostas que mascaram essa retórica, entram na agenda, por vezes até se dá mais um "jeitinho" nas leis (nada de substantivo) e rapidamente tudo se apaga até ao próximo fingimento.
Do meu ponto de vista, nenhum dos partidos do chamado “arco do poder” ou que a ele pretendem aceder, está verdadeiramente interessado na alteração da situação actual, o que, aliás, pode ser comprovado pelas práticas desenvolvidas enquanto poder nos diversos patamares. A questão, do meu ponto de vista, é mais grave. Os partidos, insisto no plural, mais do que não querer mexer seriamente na questão da corrupção e do seu financiamento, não podem e vejamos porque não podem.
Nas últimas décadas, temos vindo a assistir à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos uma partidocracia instalada que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do estado. Esta teia associa-se à intervenção privada sobretudo nos domínios, e são muitos, em que existem interesses em ligação com o estado, a banca e as obras públicas são apenas exemplos. Os últimos anos, meses, semanas, dias, foram particularmente estimulantes nesta matéria.
A manutenção deste quadro, que nenhum partido estará verdadeiramente interessado em alterar, exige um quadro legislativo adequadamente preparado no parlamento e uma actividade reguladora e fiscalizadora pouco eficaz ou, utilizando um eufemismo, “flexível”. Assim, a sobrevivência dos partidos, tal como estão e da praxis que desenvolvem, exigem a manutenção da situação existente pelo que, de facto, não podem alterá-la. Quando muito e para nos convencer de que estão interessados, introduzem algumas mudanças irrelevantes e acessórias sem, obviamente, mexer no essencial. Seria um suicídio para muita da nossa classe política e para os milhares de amigos de diferentes cores que se têm alimentado, e alimentam do sistema.
O combate à corrupção, parece, assim, um problema complicado e fortemente dependente da criação de uma pressão cívica que obrigue à mudança. De quem faz parte do problema, não podemos esperar a solução. E assim se cumpre a pantanosa pátria nossa amada.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

ENSINO SUPERIOR E ALUNOS COM NECESSIDADES ESPECIAIS


Não é, evidentemente, um problema de disponibilidade orçamental. Trata-se mesmo de desconsiderar os direitos, a equidade de oportunidades e a inclusão das pessoas com necessidades especiais que assim ficam cativados, como agora se diz.
Os alunos com necessidades especiais a frequentar o ensino superior, os poucos alunos nesta situação sublinhe-se, tinham acesso a uma bolsa que cobria as propinas do curso que estivessem a frequentar, independentemente do grau académico do curso, licenciatura, mestrado ou doutoramento.
A partir do próximo ano lectivo e para surpresa de muitos alunos e famílias, a bolsa máxima corresponde ao valor da propina de licenciatura quando é sabido que mestrados e doutoramentos têm propinas bem mais elevadas.
Vejamos. Em 2017/2018 frequentavam o ensino superior 1644 alunos com necessidades especiais, 0,5% do total dos matriculados no ensino superior o que evidencia o que está por fazer em matéria de equidade e inclusão. Considerando as vagas do contingente especial para estes estudantes registe-se que apenas 14% foram ocupadas.
Se a estes dados acrescentarmos que a taxa de desemprego na população com deficiência é estimada em 70-75% e que o risco de pobreza é 25% superior à população sem deficiência e que Portugal se orgulha de ter perto de 98% dos alunos com necessidades especiais a frequentar as escolas de ensino regular no período de escolaridade obrigatória, temos um cenário que nos deve merecer a maior atenção.
A decisão agora conhecida representa mais um enorme obstáculo na promoção de direitos, inclusão e equidade de oportunidades das pessoas com necessidades especiais.
Não será necessário recorrer a comparações com o que é gasto noutras áreas para perceber que, insisto, não é um problema disponibilidade orçamental, é mesmo uma enorme e inaceitável incompetência e insensibilidade.
Como sempre afirmo, os níveis de desenvolvimento e bem-estar das comunidades também se aferem pela forma como lidam com os problemas que envolvem grupos sociais minoritários.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

DA PROMOÇÃO DO SUCESSO EDUCATIVO


A propósito do anúncio da aprovação do programa municipal “Secundário para todos” no município de Lisboa que disponibiliza uma verba de cinco milhões de euros “para ajudar a combater e prevenir o insucesso e o abandono escolar precoce”, algumas notas.
Em primeiro lugar quero reafirmar sem qualquer margem para dúvida que está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo. Assim, por princípio, os custos da educação não são despesa, são investimento, o que mais retorno e bem-estar traz ao país e o caminho mais sólido para construir o futuro.
Mas, os velhos têm sempre um mas, o modelo que está a ser seguido pode conter alguns riscos na cultura e praxis política que temos.
São múltiplos os programas municipais de promoção do sucesso, alguns que conheço dotados com orçamentos muito significativos no âmbito do Quadro Comunitátio  Portugal 2020 e apresentam um elenco interminável de iniciativas de múltipla natureza com o objectivo último de promoção do sucesso educativo. Aliás, tenho dado algumas colaborações de natureza pontual a alguns destes projectos.
A minha questão … é qual a capacidade transformadora e sustentada destes projectos, com frequência vindo de fora para as escolas com iniciativas e intervenções não integradas com as equipas e recursos escolares, aliás, conheço situações em que as escolas ou agrupamentos nem sequer aderem. Não estará em causa o empenho ou a competência dos técnicos envolvidos mas, sobretudo, o modelo de funcionamento.
O investimento em educação terá de ter sempre como eixo central a escola/agrupamento no âmbito de uma reconhecida autonomia com projectos com horizonte temporal passível de criar, de facto, transformação e mudança.
Iniciativas de natureza avulsa, recursos disponibilizados sem garantia de continuidade, intervenção sistemática de agentes exteriores à escola agenciados pelas iniciativas municipais terão, provavelmente, um potencial de mudança mais baixo de … sucesso duradouro e estrutural.
É verdade e registo com muito agrado, o empenho e competência do trabalho desenvolvido por muitos agrupamentos/escolas e professores no âmbito destes projectos.
Importa sublinhar que a autonomia das escolas e agrupamentos é, reconhecidamente, uma ferramenta de desenvolvimento da sua qualidade, pois permite que os seus recursos, modelos de organização e funcionamento se ajustem às especificidades de contexto e, assim, melhor possam responder à população que servem, a toda a população, evidentemente, de acordo com as suas necessidades.
As autarquias têm, evidentemente, um papel crítico nas diferentes dimensões da vida das comunidades que servem. No entanto, a “tutela”  e liderança do trabalho educativo, pedagógico, de promoção do sucesso escolar deverão ser sediados na escola sendo, obviamente, o trabalho desenvolvido em colaboração com todos os múltiplos actores no processos de desenvolvimento mesmo que de forma mais indirecta.
Por outro lado, estes múltiplos projectos carecem de uma regulação eficaz que permita perceber mesmo se estamos a construir sucesso ou a “fabricar” sucesso.

terça-feira, 30 de julho de 2019

É PARA DEVOLVER A CRIANÇA. NÃO É BEM O QUE ESTÁVAMOS À ESPERA


Peço desculpa de neste período de férias e de relaxamento insistir em algumas matérias que são perturbadoras e inquietastes. No DN encontra-se uma peça sobre uma questão que, normalmente apenas é referida na comunicação social na altura em que é divulgado o Relatório CASA, a situação de crianças que passam pela interrupção do seu período de pré-adopção familiar, uma forma mais “simpática" de afirmar que são devolvidas pelas famílias adoptantes às instituições que as acolhem.
Embora ainda sem dos dados de 2018 que o DN informa serem 14, nos últimos três anos foram devolvidas 53 crianças.
Estas crianças, com idades diversas, passam por situações verdadeiramente devastadoras como a peça bem evidencia.
Os motivos para esta “devolução” passam por situações que assim podem aconselhar, maus tratos da família adoptante por exemplo, mas também por justificações como “não correspondem às expectativas”, “'venderam-me gato por lebre” ou que atrapalham as rotinas com os animais de estimação da família.
Também há algum tempo num trabalho sobre o mesmo tema, o DN citava um caso em que uma criança foi devolvida e trocada por outra porque não se adaptava ao cão da família. Outros casos de devolução envolvem dificuldades de adaptação a outros elementos da família ou a questões económicas.
Vejamos com mais atenção. Uma criança que por qualquer razão não tem uma família, está numa instituição, envolve-se num processo de adoção, entra numa família que entende passar a ser a SUA família, deve sentir-se num caminho bonito. Passado algum tempo é devolvida, provavelmente, sem perceber porquê e vive uma, certamente mais uma, devastadora experiência de abandono e rejeição com efeitos que não podem deixar de ser significativos. O trabalho do DN refere algumas situações perturbadoras.
Como é evidente, admito que em circunstâncias excepcionais o processo possa ser interrompido mas, insisto, só mesmo numa situação limite depois de esgotados os dispositivos de apoio às famílias adoptantes.
A lei permite o período de transição e um período de pré-adopção, uma espécie de contrato à experiência. Há uns anos em conversa sobre esta questão com o então presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, Juiz Armando Leandro, este reconhecia que a devolução não tem de ser baseada em "critérios necessariamente válidos".
Como também é referido os serviços competentes têm-se esforçado para que estas situações se minimizem quer através da adequação das famílias candidatas, quer nas orientações e apoios para a optimização dos processos de adopção mas, algumas situações continuarão certamente a acontecer.
Voltando ao tão apregoado "superior interesse a criança", é difícil imaginar o que se passará na cabeça de um miúdo que passa anos a construir uma ideia de família, a certa altura entra numa família a que chama sua e de repente dizem-lhe que volta a estar só, na instituição, porque ... não se dá bem com o cão ou não corresponde às expectativas. Que sentirá a criança?
Porquê? Não presta? Não a querem? ...
Mas as crianças, Senhores?
Deixem-me ainda recordar uma expressão que ouvi em tempos a Laborinho Lúcio num dos encontros que tenho tido o privilégio de manter com ele.
Dizia Laborinho Lúcio que "só as crianças adoptadas são felizes, felizmente a maioria das crianças são adoptadas pelos seus pais”.
Na verdade, muitas crianças não chegam a ser adoptadas pelos seus pais, crescem sós e abandonadas. No entanto, é melhor criar uma oportunidade para que as crianças "desabrigadas" possa ser adoptadas, possam ser felizes.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

PAIS E FILHOS AOS GRITOS


Achei interessante a peça com a entrevista a Hedvig Montgomery no Observador centrada no infindável e complexo mundo a parentalidade nos tempos actuais. O discurso tem, do meu ponto de vista, uma densidade que nem sempre se encontra na enorme oferta que que tem proliferado nos últimos anos em que tanta gente parece quere escrever um impossível “Manual de instrução para educar crianças”. Como sabem, a educação entre nós não é matéria objecto de “saber”, de conhecimento”, é, basicamente, matéria de “opinião”, de “achismos”. Em qualquer cidadão que já se tenha cruzado com crianças ou, sobretudo, que tenha filhos e algum “jeito” para escrita nasce um livro que nos dá a receita para bem educar as crianças. O problema é que a generalidade das crianças não cabe num livro de receitas.
A título de exemplo parece-me de registar, “Estamos sempre a impor limites para manter a criança segura. Aonde ir (e não ir), quando ir para a cama, quando ir para a escola, etc. As crianças precisam disto, e precisam que os pais encontrem os limites apropriados para elas e para as suas idades — do princípio até ao fim.”
A este propósito, aproveitando a época de férias no qual, em princípio, haverá mais temo de contacto nas famílias acrescento umas partindo de uma história que já aqui deixei.
Há algum tempo, também num período de férias escolares, estava a almoçar com um gaiato da família num daqueles espaços de restauração que sempre têm gente nova, adivinharam, isso mesmo, um McDonald's. Numas mesas perto de nós estavam dois casais, gente ainda nova, que tinha à volta três ou quatro crianças, talvez entre os cinco e os sete, oito anos.
Bom, nem vos conto, aquelas alminhas pequenas já teriam almoçado pelo que, enquanto os papás continuavam na "tranquilidade" do repasto, saltitando entre a conversa, curta, e os telemóveis, os pequerruchos entretinham-se a gritar, a correr de um lado para o outro, tropeçando nas mesas, entornando papéis e lixo, enfim, animando o almoço dos presentes.
Os papás, de vez em quando, soltavam um distraído e ineficaz, "estejam quietos", "portem-se bem" e continuavam "tranquilamente" na conversa que, dado o barulho, não me parecia sequer fácil de manter, daí, o menos exigente apego ao telemóvel.
Às tantas, tinha uma gaiata com uns cinco anos a gritar-me aos ouvidos. Olhei para a mocinha com um olhar que tenho guardado para quando é preciso, um olhar que aprendi com o meu pai quando me dizia o que deveria ser feito, e ela recuou indo gritar para o pé de outro comensal bafejado com a sorte de tal experiência.
Fiquei a pensar como gritam estes miúdos, muitos miúdos, a estes acho que nem os ouvi usar um tom de voz normal, seja lá isso o que for, apenas gritos.
Há quem diga que é por causa da educação que levam, ou da falta dela, que os meninos passam o tempo gritar. Talvez não seja um problema de educação, ou, melhor, da falta delea.
Eu creio que os miúdos gritam muito porque, de uma forma geral, os adultos estão mais surdos. Quando os miúdos falam mais baixo os adultos não os ouvem e, por isso, os putos desatam a gritar a ver se alguém lhes liga. O problema é que, muitas vezes, nem assim. Ou então, os adultos senrem que têm de gritar mais alto ... porque são adultos e acosa também não funciona.
Esta história não tem rigorosamente a ver com superpais, tem apenas a ver com atenção, bom senso e regulação que pressupõe relação (não é estar ao lado), afecto, regras, limites e autonomia. Será este o caminho do desenvolvimento saudável.

domingo, 28 de julho de 2019

DUAS FÉRIAS


Neste começo de férias uma história com férias, duas férias.
No último dia de aulas, a Ana foi à biblioteca da escola entregar um livro. Quando estava para sair, o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, disse-lhe adeus e desejou-lhe boas férias. A Ana riu-se.
Vão ser boas, Velho, vou ter duas férias.
Duas férias, Ana? Como é isso?
Primeiro, vou de férias com a minha mãe, com o amigo dela, o João, e com o Manel que é filho do João. Depois, vou de férias com o meu pai, a amiga dele, a Sara, e com o Tito que é o filho da Sara.
Estás contente?
Claro. Eles são todos fixes e a gente farta-se de brincar. Brinco mais do que brincava quando vivia com o pai e a mãe. Eles estavam sempre um bocado chateados e a gente não brincava muito. Já viste Velho, tinha uma família chata e agora tenho duas famílias mesmo fixes.
Sorte a tua, Ana, boas férias.
O Professor Velho tem razão, as crianças são bem capazes de lidar com duas famílias se os adultos ajudarem. Tantas vezes afirmo que é preferível uma boa separação a uma má família com pais casados por fora e descasados por dentro. Esta situação não passa despercebida às crianças e não têm como lidar com ela.
Boas férias.

sábado, 27 de julho de 2019

MAIS ALUNOS NO SUPERIOR


Está a decorrer a primeira fase do concurso de acesso ao ensino superior. Considerando igual período do ano passado verifica-se um aumento de cerca de 5% nas candidaturas já realizadas.
Depois do decréscimo do ano anterior que contrariou três anos de subida, a confirmar-se esta subida  no final de todo o processo de candidatura, trata-se, de facto, de uma boa notícia.
O aumento de número de estudantes que se candidatam ao ensino superior dever-se-á segundo alguns especialistas a maior sucesso no ensino secundário, a melhoria na condição económica de algumas famílias e ao aumento de confiança na formação superior.
Espero que estas razões continuem a sustentar a busca de formação de nível superior.
É importante recordar que, contrariamente ao muitas vezes se entende, as famílias portuguesas enfrentam um dos mais caros sistemas de ensino superior da UE e da OCDE.
Por outro lado, de há uns anos para cá tem vindo a instalar-se a perigosa e falsa ideia de que "somos um país de doutores" e de que não compensa estudar. É fundamental insistir que não temos licenciados mais, temos desenvolvimento a menos e daí alguma dificuldade na absorção de mão-de-obra qualificada. Importa também repensar rede e a oferta, corrigindo assimetrias e ajustando a oferta não só em função da empregabilidade mas não esquecendo o papel do ensino superior e da investigação na promoção do desenvolvimento em todas as áreas do conhecimento.
Na verdade, apesar da recuperação ao nível do abandono, temos uma das mais baixas taxas de pessoas com formação superior entre os países da OCDE. Aliás, não cumpriremos certamente o objectivo de formação superior estabelecido na UE para 2020.
Neste quadro, saber que está a aumentar o número de estudantes, sem a exclusão dos mais vuneráveis, que pretende frequentar o ensino superior é mesmo uma boa notícia.

QUE FAZER? TALVEZ ..., DIZ O ALIANÇA


A “silly season” traz sempre algo de estimulante.
O partido do Menino Guerreiro, o Aliança, inova nas mensagens programáticas. O Menino Guerreiro cresceu e, naturalmente, constrói um novo olhar sobre Portugal e a forma como os problemas devem ser resolvidos e o bem-estar dos portugueses pode ser atingido.
Este seu processo de maturidade no entendimento do mundo traduz-se evidentemente no programa que o Aliança propõe aos portugueses. No Instagram, onde mais poderia ser, vislumbra-se como pode ser mais rica e mais estimulante a nossa vida. É certo que tudo deve ser sempre, mas sempre, fruto do amor. É lindo e ilumina o futuro.
Obrigado Santana Lopes, o país não será nunca capaz de lhe agradecer o tanto que tem feito por nós e o tanto que ainda se propõe fazer por nós.
Somos uma terra de ingratos.


sexta-feira, 26 de julho de 2019

A MAGIA DA AVOZICE


Quase sempre passa discretamente mas de acordo com o calendário das consciências´determina para hoje o Dia Mundial dos Avós.
A avozice é um mundo mágico no qual entrei há algum tempo com a abençoada chegada do Simão há seis anos e do Tomás há três e acho que ainda não consegui acomodar os sentimentos e a magia de acompanhar de perto, tão de perto quanto possível sem o excesso da intrusão inibidora de autonomia, o crescimento destes gaiatos que têm uma geração pelo meio.
Tem sido um divertimento, uma descoberta permanente e a percepção de um outro sentido para uma vida que já vai comprida e também, desculpem a confissão, cumprida.
Neste entendimento e como tem acontecido aqui no Atenta Inquietude a cada 26 de Julho, retomo a minha proposta no sentido de ser legislado o direito aos avós. Isto quer dizer, simplesmente, que todos os miúdos deveriam, obrigatoriamente, ter avós e que todos os velhos deveriam ter netos.
Num tempo em que milhares de miúdos passam muito tempo sós, mesmo quando, por estranho que pareça, têm pessoas à beira, e muitos velhos vão morrendo devagar de sozinhismo, a doença que ataca os que vivem sós, isolados, qualquer partido verdadeiramente interessado nas pessoas, sentir-se ia obrigado a inscrever tal medida no seu programa ou, porque não, inscrevê-la nos direitos fundamentais.
Com tantas crianças abandonadas dentro de casa, institucionalizadas, mergulhadas na escola tempos infindos ou escondidas em ecrãs, ao mesmo tempo que os velhos estão emprateleirados em lares ou também abandonados em casa, isolados de tal forma que morrem sem que ninguém se dê conta, trata-se apenas de os juntar, seria um “dois em um”. Creio que os benefícios para miúdos e velhos seriam extraordinários.
Um avô ou uma avó, de preferência os dois, são bens de primeira necessidade para qualquer miúdo.
Já agora deixo uma história com avô dentro. Como sabem contar histórias é mesmo coisa de avós e às vezes repetem-nas, é o caso desta, já aqui a contei.
De há uns tempos para cá apareceu uma moda naquela terra que “impede” as pessoas de falarem em brincar nas escolas da terra, é proibido brincar nas escolas.
A moda foi fabricada por uma gente ignorante de miúdos, obcecada com trabalho e produtividade, mesmo infantil, uns infelizes escravos convencidos de que são livres e que também querem escravizar os outros.
Mas ainda existem uns professores, muitos, naquela terra que não se deixam enganar, sabem ler os miúdos e percebem que eles aprendem porque também brincam e brincam porque também aprendem. Aliás, brincar e aprender são as coisas mais sérias que os miúdos fazem, sorte a deles, a de alguns, felizmente muitos.
Um dia, um desses professores lembrou-se, que sacrilégio, de dizer aos seus alunos para trazerem para a escola o seu brinquedo preferido. A Maria trouxe uma boneca. O João apareceu com a consola nova. A Sara vinha vaidosa com umas bonecas que o pai tinha trazido do estrangeiro. A Irina trazia o Noddy. O Carlos vinha com uns olhos quase tão grandes como a bola de futebol que trazia debaixo do braço. O David, sempre pronto para as lutas, trazia uns bonecos lutadores de wrestling. A Joana não ligava a ninguém com o seu mp3 cheio das músicas de que gosta. Enfim, por um dia, toda gente veio para a escola com um brinquedo, o seu preferido.
O último a chegar foi o Manel.
Feliz e sorridente entrou na sala de aula com o avô pela mão.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

DAS ALTERAÇÕES AO DL 54/2018

Foram promulgadas as primeiras alterações ao DL 54/2018, um ano depois da sua entrada em vigor.
Sublinho que promover alterações disposições legais quando necessário é, por princípio, uma atitude ajustada que nem sempre se verifica em políticas públicas. No entanto, algumas notas a propósito das alterações ao DL 54/2018 ao fim de um ano de entrada em vigor.
É verdade que todos os processos de mudança estão sujeitos a dúvidas e sobressaltos pelo que a gestão das políticas públicas deve ter isso em consideração. Apesar da reafirmada inovação conceptual, da mudança de paradigma, da revolução desencadeada que instalava definitivamente a "inclusão", a forma como foi colocado em campo só podia criar dificuldades, constrangimentos e dúvidas. 
Como já escrevi, uma das mais significativas maiores alterações apontadas ao 54/2018 seria, criar um novo paradigma, e acabar com a “categorização”. Não teríamos mais referências a “CEIs”, os “NEEs” ou os “redutores”. No entanto, ouvir e ler regularmente que alguém trabalha com 5 “adicionais” e dois “selectivas” ou com 6 “universais” ou ainda “Olá, alguém tem adaptações curriculares não significativas da Disciplina A e Disciplina B do x° ano?” ilustra o novo paradigma que eliminou a categorização.
A burocratização “grelhadora” ou “matrizadora”e os múltiplos e extensos relatórios continuam e relatórios imensos continuam que desgasta sem que o benefício pareça compensar o custo. São excessivamente frequentes os pedidos de “alguém tem um relatório sobre ...”, “alguém tem um programa de …”, “alguém tem uma ficha para ...”
Os testemunhos conhecidos em vários espaços e de diferentes formas sobre o que vai acontecendo pelas escolas nesta matéria ilustram com muita clareza a enorme sombra de dúvidas sobre o processo que mostram todos os intervenientes, professores do ensino regular, docentes de educação especial, técnicos e pais que estão genuinamente empenhados em que todo corra o melhor possível.
Às dúvidas, muitas, surgem respostas que com frequência começam por “eu acho …”, “nós decidimos …”, “na minha escola”, “no meu grupo …”, etc.
Sim, também sei, há gente e escolas a realizar trabalhos notáveis como sempre aconteceu. Merecem divulgação e reconhecimento.
A questão é que, lamentavelmente, não se verificam apenas pontuais incidentes próprios dos processos de mudança e as alterações agora promulgadas ainda que, por exemplo no que respeita ao envolvimento dos pais, possam ser positivas não mexem substantivamente, do meu ponto de vista, com o cenário que descrevi.
Continuo a entender que o processo de mudança ganharia se durante algum tempo, antes da publicação, o normativo estivesse em discussão e trabalho nas escolas, identificando e antecipando os processos decorrentes da mudança, as dificuldades e as necessidades em matéria de ajustamento de recursos, organização e procedimentos. Teria estimulado uma apropriação envolvida e permitiria construir alguma coerência e maior tranquilidade no trabalho a desenvolver pelas equipas das escolas quando, de facto, entrasse em vigor.
Teria sido possível a construção nas escolas de uma massa crítica sólida e fundamentada que, então sim, sustentasse o ajustamento do quadro legislativo, importante e necessário, mas não realizado de forma mais avulsa e reactiva.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

OS MIÚDOS SÁBIOS

Era uma vez, estavam dois miúdos num parque, um desses sítios que algumas terras ainda têm para os mais pequenos brincarem, quando podem e os deixam, é claro. Não havia muita gente. Os miúdos, às tantas, rebolavam no chão um bocado engalfinhados.
Passou um médico e pensou que eles talvez se magoassem porque aquelas brincadeiras podem ser perigosas.
Passou um antropólogo e pensou como ainda provavelmente se realizam lutas simbólicas por territórios, apesar das mudanças culturais.
Passou um pai e pensou como era possível que as crianças estivessem ali sozinhas nos dias que correm.
Passou um professor e pensou como seria mais útil que estivessem a ler algo de interessante em vez de se comportarem assim.
Passou um sociólogo e pensou como desde cedo se procura hierarquizar as relações sociais.
Passou um psicólogo e pensou como começa a ser tão frequente o bullying.
Passou um padre e pensou como os padrões morais que regem os comportamentos se alteram e a violência se instala.
Passou outro miúdo e perguntou “Estão a brincar a quê?”. Responderam os outros, “Às lutas, também queres brincar?”, “Quero” disse o que chegou.
E ficaram três miúdos a rebolar-se no chão um bocado engalfinhados. E felizes.