sábado, 22 de abril de 2017

MENORES EM RISCO, FUTURO EM RISCO

O DN divulga alguns dados preliminares do relatório anual relativo a 2016 da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens.
Em média, sete crianças por dia, 2719 situações sinalizadas de maus tratos físicos e psicológicos a crianças às comissões de menores.
Apesar de um abaixamento ligeiro do número de situações face a 2015 os episódios conhecidos parecem mais grave, designadamente caso de agressão física recorrendo a a materiais como cabos eléctricos, pneus, chicotes ou colheres de metal. Verificaram-se 360 casos de espancamento grave a crianças dos 0 aos 5 anos, 523 dos 6 aos 10 anos, 541 casos dos 11 aos 14 e 442 dos 15 aos 18 anos.
Estima-se que em Portugal cerca de 12 000 crianças estejam expostas a situações que as marcam negativamente, violência doméstica, o que constitui, aliás, a maior justificação para sinalização às CPCJ, cerca de 30%
Deve ainda considerar-se que nem todos os casos chegam às Comissões de Protecção o que torna o cenário ainda mais preocupante sendo que na sua esmagadora maioria são detectados nas escolas e nos serviços de saúde.
Embora não possa ser estabelecida de forma ligeira nenhuma relação de causa efeito, as dificuldades severas que muitas famílias têm atravessado e a insuficiência de apoios sociais não serão alheias a muitas das situações de risco em que crianças e jovens estão envolvidos pois os estudos mostram que crianças e velhos constituem justamente os grupos mais vulneráveis.
De há muito e a propósito de várias questões, que afirmo que em Portugal, apesar de existirem vários dispositivos de apoio e protecção às crianças e jovens e de existir legislação no mesmo sentido, sempre assente no incontornável “superior interesse da criança", não possuímos ainda o que me parece mais importante, uma cultura sólida de protecção das crianças e jovens de que temos exemplos com regularidade.
Por outro lado, as condições de funcionamento as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens que procuram fazer um trabalho eficaz estão ainda longe de ser as mais eficazes e operam em circunstâncias difíceis. Na sua grande maioria as Comissões têm responsabilidades sobre um número de situações de risco ou comprovadas que transcendem a sua capacidade de resposta. A parte mais operacional das Comissões, a designada Comissão restrita, tem muitos técnicos a tempo parcial. Tal dificuldade repercute-se, como é óbvio, na eficácia e qualidade do trabalho desenvolvido, independentemente do esforço e empenho dos profissionais que as integram.
Este cenário permite que ocorram situações, frequentemente com contornos dramáticos, envolvendo crianças e jovens que, sendo conhecida a sua condição de vulnerabilidade não tinham, ou não tiveram, o apoio e os procedimentos necessários. Ainda acontece que depois de alguns episódios mais graves se oiça uma expressão que me deixa particularmente incomodado, a criança estava “sinalizada” ou “referenciada” o que foi insuficiente para a adequada intervenção. Em Portugal sinalizamos e referenciamos com relativa facilidade, a grande dificuldade é minimizar ou resolver ou minimizar os problemas das crianças referenciadas ou sinalizadas.
Por isso, sendo importante registar uma aparente menor tolerância da comunidade aos maus tratos aos miúdos, também será fundamental que desenvolva a sua intolerância face à ausência de respostas.

ESTAVA ESCRITO NAS ESTRELAS

Há poucos dias coloquei aqui um texto com o título “Como é que isto vai acabar?”. Era sobre o ambiente que se tem vindo a instalar em torno do futebol.
Escrevi, “Não será improvável, antes pelo contrário, que tenhamos um dia destes algum episódio mais grave fruto da irracionalidade e do ambiente de hostilidade e ódio instalados.”
Aconteceu esta noite. Não era difícil adivinhar que seria uma questão de tempo. Virão agora os (ir)responsáveis pelos clubes mostrar algumas lágrimas de crocodilo e produzir discursos que são ofensivos vindo de quem vêm.
A mediocridade da generalidade dos dirigentes produz discursos e comportamento que inflamam muitos dos apoiantes, apoiam e organizam as suas actividades. Servem-se deles para os jogos de poder e devem-lhes isso.
A comunicação social na guerra desregulada pelas audiências abriga um grupo imenso de “comentadores” que em inúmeros formatos alimentam a demagogia e a hostilidade sem nada acrescentarem a quem como eu e muitos outros temos uma paião pelo futebol. Eles não são o futebol, são uma escumalha, salvo honrosas pouquíssimas excepções que também se servem do futebol.
Não branqueio nem desculpo o comportamento dos adeptos, de alguns adeptos, longe disso. No entanto, esse comportamento radica noutras questões para lá do futebol que apenas serve de gatilho para a testagem dos limites em nome de um considerado deus maior, o clube, mas que na verdade é fruto do clima instalado pelos energúmenos que o dirigem e deles e do futebol se servem.
Malditos sejam.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

100 ANOS DE MÍSTICA

Há fenómenos estranhos. Comemora-se o centenário dos acontecimentos em Fátima. O Papa Francisco vem participar e vai canonizar os pastorinhos Francisco e Jacinta Marto uma vez que foi, por assim dizer, validado o milagre que realizaram, a cura de um menino brasileiro.
Na semana passada o Padre Anselmo Borges, uma figura respeitada da Igreja, afirmou ao Expresso, “É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima.”
Hoje, em entrevista ao Público o Bispo D. Carlos Azevedo, Delegado pontifício da Cultura no Vaticano, profere, “Maria não vem do céu por aí abaixo” e entende que é o momento de usar uma “linguagem exacta” sobre os acontecimentos de há 100 anos na Cova da Iria, aconteceram visões imaginativas, místicas, não aparições.
Não será que todo o discurso da Igreja sobre esta questão nos últimos 100 anos não foi ele próprio um discurso místico, um discurso imaginativo, ambíguo, manipulador da "mística"?
E o Papa Francisco vem celebrar uma visão imaginativa, mística? 

O PERFIL DO ALUNO, O CNE E A MUDANÇA NAS PRÁTICAS

O Conselho Nacional de Educação emitiu um parecer sobre o Perfil dos Alunos para o Séc. XXI. Do conjunto de apreciações produzidas registo a recomendação 5. “Sejam ponderadas as implicações do documento na organização do sistema educativo, nomeadamente ao nível do currículo, das práticas pedagógicas e da formação inicial e contínua dos professores.
Parece importante esta matéria vai no sentido que também oportunamente aqui escrevi e que retomo.
O que se pretende, a meu ver bem, com o Perfil dos Alunos para o Séc. XXI. Será desenvolvido com que organização curricular, conteúdos e cargas horárias, por disciplina e globais? Com que quadro de autonomia? Com que dimensão das turmas e das escolas? Eu sei que nem todas são excessivamente grandes mas algumas são.
Com que ajustamento em práticas, capacidade e recursos de promover diferenciação para acomodar a diversidade dos alunos e promover um menor peso dos manuais no trabalho de alunos e professores?
Tudo isto será desenvolvido com que modelos e dispositivos de avaliação de alunos, professores e escolas?
Com que impacto na formação inicial e contínua e na organização da carreira dos professores, designadamente do espartilhado modelo dos grupos disciplinares?
Apesar de algumas orientações temos ainda demasiadas destas questões sem resposta clara.
Uma segunda nota remete para a questão mais específica mas central das práticas pedagógicas.
A característica mais evidente de qualquer sala de aula ou escola é a diversidade. Em muitas conversas que realizo com pais pergunto aos corajosos que têm mais que um filho se os tratam da mesma maneira. Nunca alguém me responde que sim e se pergunto porquê, respondem com um ar óbvio qualquer coisa como “então, eles são diferentes”.
Esta é questão central, com grupos diversos e escolas diversas a resposta deve, tem que ser, diferenciada sob pena de não acomodar as diferenças entre os alunos. Não tem só a ver com o Perfil do Aluno para o Séc. XXI, tem a ver com qualidade e inclusão.
Esta diferenciação começa na organização e funcionamento das escolas, dos horários, das turmas, da gestão curricular e caminha até á sala de aula ao nível das práticas nos seus diferentes aspectos.
Todo o sistema educativo e as políticas educativas, por exemplo a questão da autonomia, devem servir de suporte a esta visão.
Indo um pouco mais longe nas práticas pedagógicas e como nestas se traduz um princípio de diferenciação umas notas breves sublinhando que alterar alguns aspectos não tem a ver com “inovação”, termo cuja utilização frequente me irrita um bocado. A questão central pode ser alterar e não inovar.
Uma primeira nota sobre o equívoco habitual de que diferenciação é sinónimo de trabalho individual. Considerando as dificuldades (e o desajustamento) de fazer assentar o trabalho educativo no trabalho individual, encontra-se assim um suposto “impedimento” à diferenciação. De facto, diferenciar não é igual a trabalho individualizado, pelo contrário, implica muito fortemente a aprendizagem cooperada e a cooperação entre professores. Aliás, verificando-se desejavelmente aprendizagem individual por parte de cada aluno a sua construção é social pelo que mesmo que fosse possível o recorrer exclusivamente ao trabalho individual, que não é mesmo com turmas muito pequenas, não seria a melhor forma de trabalhar.
Sublinha-se, pois, que diferenciação não é igual a trabalho individualizado, pelo contrário, implica muito fortemente a cooperação e troca entre os alunos, bem como a cooperação entre professores.
Assim, só o desenvolvimento de formas diferenciadas de organizar os processos educativos, de gerir a sala de aula, de avaliar, de gerir a estrutura curricular, de comunicar, de cooperar com pais e encarregados de educação, etc. poderá permitir responder tão bem quanto possível à diversidade dos alunos e contextos.
Nesta perspectiva, a organização e funcionamento de uma sala de aula pode da forma mais ajustada a recursos e necessidades contemplar alguma foram de diferenciação em dimensões como: Planeamento educativo/gestão curricular; Organização do trabalho dos alunos – as múltiplas formas de organizar o trabalho dos alunos relativamente às situações de aprendizagem; Clima de aprendizagem – a qualidade e nível de interacção e relacionamento social entre alunos e entre professor e alunos; Avaliação – os processos relativos à avaliação e regulação do processo de ensino e aprendizagem; Actividades / Tarefas de aprendizagem – a escolha das diferentes tarefas ou situações de aprendizagem a propor aos alunos e Materiais e Recursos – a definição, utilização e gestão dos materiais e recursos que funcionarão como suporte ao processo de ensino/aprendizagem.
Como nota final sublinhar o que tantas vezes afirmo, um dos factores individuais mais contributivos para a qualidade dos processos educativos, é a presença de um professor empenhado e qualificado.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

OS MIÚDOS A QUEM DÓI A ALMA

Ainda na sequência da participação no debate de ontem sobre os tratos e as circunstâncias de vida de algumas crianças e adolescentes mais uma notas breves.
Os tempos estão difíceis e crispados para muitos adultos e também para os miúdos a estrada não está fácil de percorrer.
Alguns vivem, sobrevivem, em ambientes familiares disfuncionais que comprometem o aconchego do porto de abrigo, afinal o que se espera de uma família.
Alguns percebem, sentem, que o mundo deles não parece deste reino, o mundo deles é um bairro insustentável que, conforme as circunstâncias, é o inferno onde vivem ou o paraíso onde se acolhem e se sentem protegidos.
Alguns sentem que o amanhã está longe de mais e um projecto para a vida é apenas mantê-la.
Alguns convencem-se ou sentem que a escola não está feita para que nela caibam. 
Alguns sentem que podem fazer o que quiserem porque não têm nada a perder e muito menos acreditam no que têm a ganhar.
Alguns destes miúdos carregam diariamente uma dor de alma que sentem mas nem sempre entendem ou têm medo de entender.
Não, não tenho nenhuma visão idealizada dos miúdos nem acho que tudo lhes deve ser permitido ou desculpado. Também sei que alguns fazem coisas inaceitáveis e, portanto, não toleráveis. Só estou a dizer que muitas vezes a alma dói tanto que a cabeça e o corpo se perdem e fogem para a frente atrás do nada que se esconde na adrenalina dos limites.
Espreitem a alma dos miúdos, sem medo, com vontade de perceber porque dói e surpreender-se-ão com a fragilidade e vulnerabilidade de alguns que se mascaram de heróis para uns ou bandidos para outros, procurando todos os dias enganar a dor da alma.
Eles não sabem, eu também não, o que é a alma. Um gaiato dizia-me uma vez, “dói-me aqui dentro, não sei onde”.

OS OLHOS DE ANDRÉ

No âmbito do Mês de Prevenção dos Maus Tratos na Infância e Juventude e a convite da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens participei ontem num debate após a apresentação do filme de António Borges Correia “Os olhos de André” que aconselho.
Em síntese e tentando ler o que os olhos do André nos dizem algumas ideias.
Uma família é um bem de primeira necessidade na vida das pessoas, em particular das crianças.
Citando Bronfenbrenner, "Para que se desenvolvam bem, todas as crianças precisam que alguém esteja louco por elas".
Recuperando mais uma vez a feliz expressão de Laborinho Lúcio, “Só as crianças adoptadas são verdadeiramente felizes. Felizmente, a grande maioria dos pais adopta os seus filhos.”
A regulação parental e a resposta em situações de risco deve ponderar cautelosa e imprescindivelmente os factores de protecção e os factores de risco presentes em cada situação à luz do superior interesse da criança o que nem sempre parece acontecer.
A comunidade pode ser um desses factores de protecção a mobilizar e incentivar.
Um lamento, como quase sempre acontece, a audiência era composta exclusivamente por técnicos a intervir neste universo.
Como sempre digo, discutimos em circuito fechado o que deveria, tanto quanto possível, ser discutido em circuito aberto, os tratos das crianças é uma matéria da comunidade e não um exclusivo das instituições ou dos técnicos.
Um dia vai ser diferente e as crianças e jovens terão melhores tratos.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

ESTÓRIAS DA AVOZICE

Ao fim da tarde sempre que posso um tempinho de avozice é uma bênção, uma coisa mágica.
Avô, vamos fazer uma brincadeira barulhenta?
Acho melhor que não Simão. Lá na minha escola estava barulho e ainda me dói um bocadinho a cabeça.
Que é que fez a tua educadora?
Ainda estou à procura da resposta.
Ideias?

OS ADOLESCENTES E A ESCOLA

Foi divulgado pela OCDE o terceiro volume de resultados obtidos a partir dos dados do PISA de 2015. Este volume é dedicado ao “Bem-estar dos adolescentes”.
Numa primeira apreciação umas notas breves.
Face à média da OCDE, verificam-se alguns desvios não surpreendentes, caso da maior ansiedade face a avaliação, da mais baixa expectativa face à conclusão de um curso superior por exemplo.
Estes resultados poderão estar associados à existência para os alunos que responderam de múltiplos dispositivos de avaliação externa, a maior fonte de ansiedade e do baixo nível de escolaridade dos pais, variável associada às baixas expectativas dos filhos face a trajectos escolares mais longos e bem-sucedidos.
Um dado curioso remete para o facto dos adolescentes portugueses se afirmarem mais “dependentes” da net mas passam um tempo médio online quando comparados com os alunos dos outros países.
De resto e dentro da média mostram-se satisfeitos com a vida, e acima da média sentem que “pertencem” à escola e menos envolvidos em situações de bullying.
É ainda de registar que 90 % dos alunos portugueses afirmam que realizam pelo menos uma refeição conjunta com os pais, a média da OCDE é de 82% e 92% dizem que os pais falam regularmente com eles depois da escola face 86.1% verificado na OCDE.
O conjunto dos dados parece sustentar que a vida escolar e familiar na percepção dos alunos é globalmente positiva e satisfatória tal como no volume anterior tinha ressaltado a percepção positiva sobre o trabalho dos professores.
Surge-me uma pequena dúvida. Será que a forma como estes adolescentes percebem a sua vida escolar e familiar é coerente com a percepção que nós adultos, de forma geral, temos das mesmas questões?
Sabemos que a escola não é um paraíso mas também não é o inferno para o qual todos os dias os nossos filhos e netos são enviados.
É apenas a instituição que lhes ajuda a construir o futuro, não é coisa pouca.

INSISTO. VACINAR OU NÃO VACINAR NÃO PODE SER UMA OPÇÃO

Há dias coloquei o texto que se segue no Atenta Inquietude. O desenvolvimento posterior desta questão obriga a que insista na mensagem, vacinar ou não vacinar não pode ser uma opção, vacinar é uma obrigação em nome do bem estar e da saúde, sobretudo dos mais novos.
O surgimento de alguns casos de sarampo já com uma morte de uma adolescente faz reentrar na agenda a questão da vacinação das crianças. A Apesar de ainda não parecer algo de preocupante também em Portugal começa a emergir alguma discussão relativamente à vacinação.
Estima-se que mais de quatro mil crianças em Portugal não sejam anualmente vacinadas.
Como é sabido existe um Plano Nacional de Vacinação e Portugal tem, felizmente, uma taxa bastante elevada de vacinação nas crianças, cerca de 95%.
Noutros países e até com mais significado também se assiste à emergência de movimentos que levam a que muitos pais recusem vacinar os filhos e por cá também se ouvem opiniões nesse sentido e pais que não procedem à vacinação dos filhos como já foi referido. Alguns dos recentes casos de sarampo parecem atingir crianças não vacinadas.
Recordo que há algum tempo se verificou um surto de sarampo nos Estados Unidos com resultados preocupantes pois atingiu estados em que os pais podem recusar as vacinas.
Não sendo especialista, sei que as vacinas contêm alguns riscos que basicamente estarão controlados e sei também que existem interesses brutais em jogo, designadamente por parte das farmacêuticas e laboratórios. No entanto, parece-me que a vacinação representa um ganho civilizacional que poupa a morte a muitos milhares de crianças pelo mundo inteiro e quando reparamos na taxa de mortalidade infantil verificada em países que não conseguem assegurar campanhas de vacinação generalizadas percebemos isso com clareza. Os testemunhos de gente conhecedora, como Mário Cordeiro ou Gomes Pedro mostram isso mesmo.
Assim sendo, é sempre com alguma preocupação que em nome de valores, certamente legítimos mas que necessitam de ponderação, se possa decidir por comportamentos que manifestamente são causadores de riscos para as crianças.
Ainda no mesmo âmbito recordo também um movimento emergente que defende a realização de partos em casa que, evidentemente, tem merecido a condenação de enfermeiros e médicos devido aos elevados riscos envolvidos para bebés e mães. Também nesta matéria sabemos dos interesses económicos em jogo traduzidos, por exemplo, numa altíssima taxa de cesarianas que parece agora com tendência para baixar.
O povo costuma dizer que "com a saúde não se brinca". Não estamos a falar, obviamente, de brincadeiras mas estamos a falar de decisões que são de uma enorme responsabilidade e que podem levar como aconteceu recentemente no Reino Unido que o Tribunal Superior de Justiça por iniciativa do pai das crianças obrigasse a mãe a aceitar que os filhos fossem vacinados.
Trata-se como sempre do superior interesse da criança. Importa que nós os que trabalhamos na área da educação ou da saúde tenhamos uma maior atenção a estas matérias.

terça-feira, 18 de abril de 2017

OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL. UM RAPAZ EMPREENDEDOR, EMPODERADO, COMO AGORA SE DIZ

Bem, Marco, acabaram as férias da Páscoa, tiveste quatro negativas o que estás a pensar para o terceiro período?
Pai, não comeces já assim com tipo secas, ainda estou de férias.
Eu sei, mas estou preocupado, tenho medo que chumbes o ano.
Não te preocupes, se melhorar a alguma disciplina, assim tipo subir, os setores depois dão-me notas para passar.
O problema não é só passares, é ficares a saber o que é preciso para estudares mais à frente. Se calhar seria melhor arranjar umas horas de explicação para te ajudar nas disciplinas mais difíceis.
Pai, já estou na escola assim tipo bué de tempo, ainda queres que vá para a explicação, ganda seca.
O meu colega, o Francisco, disse-me que a filha anda numa explicadora muito boa, é um bocadinho cara, mas a filha já subiu as notas no fim do segundo período.
Eu acho que sou capaz de me safar sozinho, podíamos fazer um negócio, se eu passar dás-me assim tipo um telemóvel novo.
Sabes que não gosto muito desse tipo de negócios, deves sempre tentar fazer o melhor possível, porque é bom para ti, não porque vais ter um prémio.
Sim, mas ter um prémio também é bom para mim, fico satisfeito bué.
Todos nós temos obrigações e responsabilidades e não podemos cumpri-las só quando nos prometem prémios.
Pai, tás mesmo assim tipo menino. Toda a gente faz alguma coisa sempre a pensar o que vai ganhar com isso, assim tipo, tás a ver.
Certo, se te esforçares e passares de ano ganhas com isso.
Mas se ganhar também assim tipo um telemóvel ainda é melhor. No teu trabalho se te pagarem mais ficas mais assim tipo contente, ou não?
Como sempre não desistes. Então vamos combinar o seguinte, se passares o ano, sem negativas compro-te o telemóvel.
E se for assim tipo só com uma negativa?

DO FUTEBOL. COMO É QUE ISTO VAI ACABAR?

Também no desporto, em particular no futebol, os tempos andam feios, por cá e por fora. Estranho seria se assim não fosse.
A minha paixão pelo futebol vai resistindo aos maus tratos que vai recebendo. São recorrentes e progressivamente mais radicalizados os comportamentos e discursos que o envolvem para além da componente negócio que também desempenha um papel importante no clima criado.
Não será improvável, antes pelo contrário, que tenhamos um dia destes algum episódio mais grave fruto da irracionalidade e do ambiente de hostilidade e ódio instalados.
Os mais recentes episódios envolvendo as claques do Benfica, Porto e Sporting mostram quão próximo podemos estar de alguma tragédia quando, e não é coincidência, se aproxima um Sporting-Benfica que pode ser decisivo para o campeonato.
No Público refere-se que os clubes, leia-se as suas direcções, podem tomar medidas face ao comportamento de alguns, muitos, energúmenos que fazem parte das suas claques.
É no mínimo ingénuo acreditar nisto. As direcções, os seus discursos, comportamentos e decisões são parte do problema, não podem ser parte da decisão.
A mediocridade da generalidade dos dirigentes produz discursos e comportamento que inflamam muitos dos apoiantes, apoiam e organizam as suas actividades. Servem-se deles para os jogos de poder e devem-lhes isso.
É um mundo, escrevia isto há dias, onde não existem santos e pecadores. Talvez a bola sela o elemento mais são deste universo apesar de tantas vezes também ser maltratada.
Já dificilmente me mobilizo para ir a um estádio, não consigo assistir aos milhentos programas televisivos onde opinadores avençados, salvo algumas raras excepções, vão papagueando agendas encomendadas e se envolvem em obscenas trocas de mimos e boçalidades que são mais um alimento para o clima instalado.
O problema é que não consigo não continuar fascinado com esse jogo estranho chamado futebol. Por isso me inquieta tudo isto.

NUNCA TIVE UM BOM, NEM SEQUER UM BOM PEQUENO. Uma história na Visão online

A história da menina que nunca teve um bom, nem sequer um bom pequeno e que gostava tanto de ter um. Agora na Visão online

NUNCA TIVE UM BOM, NEM SEQUER UM BOM PEQUENO

segunda-feira, 17 de abril de 2017

AOS VOSSOS LUGARES, VAI COMEÇAR O TERCEIRO PERÍODO

Vai iniciar-se o terceiro período escolar. Para muitos alunos será o período da decisão, das decisões.
Considerando que uma boa parte dos alunos está já "arrumada" ou porque "chumbados" ou porque terão boas perspectivas de que tal aconteça, com excelência ou com suficiência, para quase todos os outros o terceiro período é o da recuperação, dito de outra maneira, é o das explicações.
De facto, existe um grupo significativo de alunos dos quais se espera que recuperem o rendimento escolar de forma a salvar o ano, pelo que crescerá exponencialmente o recurso à velha "explicação", um importante nicho de mercado para professores, ex-professores, candidatos a professores ou simples curiosos que se dedicam à lucrativa arte. Aliás, ainda durante as férias de Páscoa que hoje terminam muitas crianças e adolescentes passaram já algum tempo nos centros de explicações o aumento da procura dos centros de explicação durante as férias da Páscoa. É preciso ir adiantando para garantir a "recuperação", a nota que permita “passar” ou dê acesso ao curso escolhido, pelo aluno ou pela família.
É também um período de promessas, "se passares, nós oferecemos-te ...", "se tiveres notas para entrar, terás ...". Chamam-se incentivos e providenciam, esperam os pais, uma ajuda extra à motivação para este terceiro período.
Para alguns alunos este terceiro período vai anteceder, espera-se que facilitando, uma mudança, de ciclo, de escola ou a, por muitos desejada, passagem para o ensino superior, esperemos que não desistam de estudar.
No fim do período uma parte dos alunos ainda vai realizar exames. Há que trabalhar e mostrar conhecimento e, dizem, os exames servem para evidenciar uma coisa e outra. Daqui decorre uma outra pressão para o recurso às explicações, vêm lá os exames e os pais e professores esperam, naturalmente, que os filhos ou os alunos façam "boa figura". Alguns pais, mais do que esperar ou desejar, exigem, o que torna vida mais difícil para alguns miúdos e que, em algumas situações, pode mesmo ser um contributo para mais dificuldades.
No entanto, para outros alunos, o terceiro período vai deixá-los mais perto do insucesso, da desmotivação, do abandono revoltado ou resignado. Eles terão falhado, mas não terão sido só eles, nós também.
Existe ainda um grupo de alunos que vive dentro de espaços curriculares ou físicos guetizados de quem também não se espera muito, são CEIs, são NEEs, são “redutores”, são outra qualquer designação, que procuram sobreviver a ambientes que nem sempre são muito amigáveis e inclusivos apesar de algumas boas práticas que se saúdam e registam.
Na verdade, os próximos meses vão ser pesados, exigentes, apesar de haver quem entenda como fáceis os trabalhos dos alunos.
Boa sorte e bom trabalho, para alunos, professores e pais.

O NÚMERO DE ALUNOS POR TURMA, DEVAGAR, DEVAGARINHO MAS A CAMINHO

De acordo com o anunciado faseamento da redução do número de alunos por turma o ME decidiu que a medida será operacionalizada no próximo ano lectivo nos anos iniciais de ciclo e apenas nas escolas integradas em Territórios Educativos de Intervenção Prioritária. Os limites voltam ao que estava estabelecido antes de da alteração promovida por Nuno Crato em 2013, máximo de 24 alunos no 1º ciclo e de 28 nos restantes ciclos.
O diploma apenas será publicado hoje pelo que não sei se também está previsto um outro importante aspecto nem sempre valorizado, o número de alunos por professor. Muitos professores lidam com muitas turmas perfazendo números acima dos 120 ou 150 alunos. Parece dispensável explicitar as implicações negativas desta situação.
Como tantas vezes tenho afirmado é uma medida que se justifica e que importa incentivar.
A revisão de estudos sobre esta matéria mostra o que também conhecemos, existem vantagens em turmas com efectivos menores que podem ser mais ou menos significativas em função das variáveis em análise.
Parece-me de acentuar que os estudos sugerem com clareza impacto positivo no clima e comunicação na sala de aula, na maior facilidade de práticas educativas mais diferenciadas, no comportamento dos alunos, etc., o que, evidentemente deve ser considerado.
Alguns estudos, apenas centrados em resultados, não encontram diferenças significativas mas também me parece que não são consideradas variáveis importantes, de contexto por exemplo, o que nem sempre é tido em conta nos discursos dos economistas da educação.
É também fundamental considerar as diferentes características dos diversos territórios educativos. O facto de começar pelos TEIP percebe-se numa lógica de faseamento mas a verdade é que todos os territórios educativos são TEIPs, os de Intervenção Prioritária e os outros em que realiza a Intervenção Possível.
Na verdade, é necessário considerar as diferenças de contexto, isto é, a população servida por cada escola, as características da escola, a constituição do corpo docente, os recursos disponíveis, etc. Importa ainda sublinhar que a qualidade e sucesso do trabalho de professores e alunos depende de múltiplos factores, sendo que a dimensão do grupo é apenas um, ou seja, importa considerar, vejam-se relatórios e estudos nesta área, as práticas pedagógicas, os processos de organização e funcionamento da sala de aula e da escola, bem como o nível de autonomia de cada escola ou agrupamento, entre outros. Daí a importância de promover uma autonomia real. Aliás, dentro do que entendo por verdadeira autonomia das escolas, deveriam estas ter a competência para definir e organizar as turmas embora aceite a existência de orientações nesse sentido.
Aliás, também com base na autonomia das escolas poderiam ser consideradas outras opções como a presença de dois professores em sala de aula. Em algumas circunstâncias pode ser mais vantajosa que a redução do número de alunos por turma.
Acresce nesta matéria a importância da qualidade do trabalho em turmas com alunos com necessidades educativas especiais o que, evidentemente, deve ser considerado na análise do efectivo de turma, desde logo cumprindo o que está legislado.
Diga-se ainda que é quase dispensável referir a diferença entre trabalhar com 26 ou 28 alunos num estabelecimento privado de acesso “protegido” ou com o mesmo número de alunos num mega-agrupamento de uma escola pública em que um professor lida com várias turmas, centenas de alunos ou se desloca entre escolas para trabalhar.
Não só por esta razão, dimensão das turmas e qualidade do trabalho dos alunos, de todos os alunos, e dos professores, também me parece que deveria ser promovida uma verdadeira desburocratização do trabalho nas escolas e promovido algum ajustamento na sua organização e funcionamento o que certamente libertaria tempo de professores para trabalho em turma ou em apoios que promovessem qualidade.
Sei que mudanças neste sentido são politicamente difíceis mas parecem-me imprescindíveis. Terão custos certamente mas os custos do insucesso e da exclusão são incomparavelmente mais caros.

domingo, 16 de abril de 2017

A DEMOCRACIA REVISTA EM BAIXA

O mundo está a tornar-se definitivamente um lugar perigoso e mal frequentado. Na Turquia parece ter-se dado mais um passo na consolidação de uma ditadura mascarada.

Erdogan clama vitória no referendo na Turquia; oposição impugna resultado

DIA MUNDIAL DA VOZ

De acordo com o calendário das consciências cumpre-se hoje o Dia Mundial da Voz. De forma ainda mais discreta dada a coincidência com a Páscoa aparecem alguns especialistas na comunicação social que discorrem sobre a voz e a atenção e cuidados que deve merecer.
Considerando justamente a importância da voz aqui fica um contributo sobre a importância e a atenção que lhe deveremos dedicar.
Na verdade, existem milhares de pessoas cuja voz ninguém escuta, caso da voz de muitas minorias. Provavelmente nem voz têm ou é muito baixa. É certo que em algumas circunstâncias, por exemplo em campanhas eleitorais, fica bem escutá-los, de passagem é claro.
Parece-me importante que se atente na voz dos velhos, escuta-se pouco os velhos sós, que vivem isolados e que sobrevivem com pensões de miséria.
Continuo a achar que nem sempre damos a atenção que exige a voz dos miúdos. Existem muitos que, por mais alto que gritem, ninguém os escuta e outros que só ouvimos quando causam problemas.
Sabemos das crianças maltratadas e de mulheres vítimas de violência cuja voz é quase sussurrante e inaudível.
É preciso ouvir a voz de centenas de milhares excluídos e em risco de pobreza sem apoios que lhes sustentem, no mínimo, a dignidade.
Não parece ser suficientemente audível a voz de um mundo de jovens com dificuldades enormes para entrar no mercado de trabalho e que vêem comprometida a possibilidade de um projecto de vida.
Também parece necessário dar atenção à voz dos injustiçados por um sistema de justiça caro, ineficaz, moroso e desigual.
De facto, parece indiscutível a necessidade de providenciar à voz, às vozes, a atenção e cuidados que merece, que merecem.

É TÃO TRISTE NÃO SABER LER

O JN de ontem trata com chamada a primeira página um problema que me parece subvalorizado, o analfabetismo.
Estima-se em 500 000 o número de pessoas analfabetas sendo que serão cerca de 150 000 as que têm entre 15 e 65 anos.
Segundo a PORDATA e considerando os Censos de 2011 teríamos uma taxa de analfabetismo de 5.15%. Sendo certo que este dado representa um salto relevante face a 25.7% em 1970 ainda mantemos uma taxa demasiado elevada. A educação de adultos é hoje uma área de forte investimento em diversos sistemas educativos mesmo em países taxas de alfabetização bastante acima das nossas.
Se à taxa de analfabetismo acrescentarmos o analfabetismo funcional, pessoas que foram escolarizadas mas que não mantêm competências em literacia, a situação é verdadeiramente prioritária, atingirá certamente pelo menos dois milhões de portugueses.
Também por estas razões continuo a pensar que não tenhamos tantos professores a mais como muitos discursos e políticas sustentam e muitos professores com anos de experiência avaliada e tratados como descartáveis teriam muito trabalho nesta área.
Os custos pessoais e sociais para as pessoas nesta situação, em várias dimensões, e o impacto económico da falta de competências em literacia justificaria um fortíssimo investimento em minimizar a situação até ao limite possível. Como sempre trata-se de matéria de opções políticas e visão de sociedade.
Tantas vezes é preciso afirmar, os custos em educação não representam despesa, são investimento e com retorno garantido.
A propósito do analfabetismo aqui pelo Alentejo canta-se:
(…)
É tão triste não saber ler
Como é triste não ter pão
Quem não conhece uma letra
Vive numa escuridão
(…)

sábado, 15 de abril de 2017

ESTÁ ASSIM O ALENTEJO

Está assim o Alentejo. Nestes dias criadores, se conseguirmos olhar bem até se vêem as coisas a crescer. 



EPPUR SI MUOVE

Em tempo de Páscoa e na véspera da vinda do Papa Francisco a Portugal a lúcida entrevista ao Expresso do Padre Anselmo Borges é oportuna, de grande significado e claramente indiciadora dos desafios que a Igreja enfrenta e dos males de que padece.
Na entrevista são frontalmente identificados os pecados da Igreja e um caminho de redenção. A questão crítica é a escolha da direcção a seguir, a continuação dos pecados e do imobilismo com a crença na absolvição ou a redenção que a renove. Apesar de alguma frescura nos discursos e comportamento do Papa Francisco não estou particularmente crente na mudança substantiva embora, mesmo como agnóstico, a julgue essencial pelo papel e significado que a igreja ainda mantém nas nossas comunidades.
A propósito das mudanças na Igreja, ou a sua ausência, considerando a referência que ainda constitui para muita gente, recordo que D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, afirmava em 2012, em entrevista ao JN, que a Igreja não está à altura do momento, está "atrasada" e não presta atenção às "transformações do mundo".
A afirmação de D. Manuel Martins lembrou-me o conhecido enunciado, "no entanto ela move-se". Ao que a história ou a lenda rezam, no séc. XVII Galileu Galilei reagiu com esta mítica afirmação à sua condenação no Tribunal do Santo Ofício pela defesa do modelo heliocêntrico, a Terra move-se em volta do Sol.
Do meu ponto de vista, a reconhecida perda da influência da Igreja Católica, sobretudo nos países mais desenvolvidos, deve-se também ao seu imobilismo, à forma conservadora como não reage às óbvias mudanças sociais, políticas, económicas e culturais sustentando um progressivo afastamento da vida das pessoas, como reconhecia D. Manuel Martins.
Um dia, talvez a instituição Igreja aceite e perceba a importância e a necessidade de mudança no discurso e nas atitudes relativas ao divórcio e casamento, às uniões entre pessoas do mesmo sexo e adopção por parte destes casais, à anticoncepção, ao celibato dos padres, à abertura do sacerdócio às mulheres, o combate à ostentação visível em parte das estruturas da igreja, etc. Estas são justamente algumas das questões referidas pelo Padre Anselmo Borges na entrevista ao Expresso
No entanto, considerando o que se tem ouvido e é conhecido das intervenções da hierarquia da Igreja, não creio que, apesar de alguns comportamentos e discursos do Papa Francisco e também da significativa mudança de estilo face ao seu antecessor Bento XVI, seja de esperar um movimento de alteração significativa nas posições da Igreja sobre estas matérias.
Eppur si muove.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

TRUMP É MÁSCULO, LANÇA BOMBAS

Não detenho a competência e o saber para a análise geoestratégica da cena internacional do calibre de figuras como Nuno Rogeiro ou o General Loureiro dos Santos.
Sempre que os oiço ou leio fico com a auto-estima de rastos.
Em entrevista ao DN a propósito do recente lançamento da bomba no Afeganistão pelos EUA, o General Loureiro dos Santos afirma que o lançamento “também pode ter o objetivo de ter efeitos políticos dentro dos EUA, para mostrar que este presidente é másculo e, se necessário, usa os meios mais poderosos para defender os interesses do seu país."
Fiquei perplexo, o homem que “grab them by the pussy” faz prova de ser macho mandando uma bomba gigante algures no Afeganistão.
Isso é ciência política e geoestratégia produzida em patamares demasiado elevados.
O personagem Trump que me assusta na presidência dos EUA justifica. digo eu, uma atenção um pouco mais complexa, a questão do “másculo” é assim tipo … “saiu-me”. Do meu ponto de vista, o problema que Trump levanta e daí o receio que sinto, é a sua visão do mundo e dos direitos humanos sendo presidente da nação mais poderosa do planeta.

FINALISTAS EDUQUESES E APOIANTES E IMITADORES DA GERINGONÇA

Os textos de Guilherme Valente no Público, “Os finalistas do eduquês” e da Maria João Marques no Observador, ”Os finalistas aprenderam com a geringonça” são mais um exemplo perfeito de despudor e preconceito.
Os acontecimentos de Torremolinos são importantes e merecem séria reflexão, escrevi isso há dias. Mas justificá-los recorrendo ao “mantra” do eduquês, seja lá isso o que for, que enche a cabeça de Guilherme Valente ou associá-los à geringonça como escreve Maria João Marques está para lá do sério, é ridículo e perigoso.
Do ridículo não reza a história mas perigoso porque dificulta a análise séria do que está em jogo.
A verdade é que também não é de esperar seriedade vinda daqueles lados, a agenda é assim mesmo.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

ELA

Imaginava-se com ela todos os dias, todo o dia. Não se cansava de olhar para as inúmeras fotografias dela, coleccionava-as desde que a vira pela primeira vez.
Ansiava estar perante o brilho que ela irradiava. Contava os minutos para a poder acariciar e, quando tal acontecesse, iria sentir-se a pessoa mais feliz do mundo.
A toda a hora, antecipava como seria extraordinário vê-la, ouvi-la. Pensava que a trataria com um cuidado, assegurava para si próprio, que nunca usou na sua vida. Já conheceu algumas antes, mas nada de parecido com ela, a que ia chegar.
Todos os dias ao acordar o primeiro pensamento era para ela e, quando adormecia, era também ela que lhe embalava o sonho.
Finalmente, quando a espera já era insuportável, ela apareceu.
Estava à sua frente a PlayStation, último modelo, que os pais lhe tinham prometido se tivesse positiva a tudo no segundo período.

M'ESPANTO À VEZES, OUTRAS M'AVERGONHO

Como diria Sá de Miranda, "M'espanto às vezes, outras m'avergonho".
Não é possível ler sem um sobressalto a notícia do cântico de apoio (?!) de uma claque desportiva que entoava “Quem me dera que o avião da Chapecoense fosse do Benfica” num jogo com uma equipa deste clube.
Felizmente, o clube “apoiado” já se demarcou de tal forma de apoio. É o mínimo esperado embora aquém, obviamente, do que se exigiria.
Como já tenho escrito tenho uma enorme paixão pelo futebol mas neste universo foi-se criando um clima em que não existem santos e pecadores, talvez a bola seja o elemento mais positivo do meio.
Lideranças sem qualidade, sem estatura ou estofo ético produzem discursos incendiários ampliados por funcionário zelosos que nos tempos que correm são comprados e apoiados por parte da massa de apoiantes.
É um mundo de vale tudo em que uma comunicação social hipoteca qualidade e racionalidade para vender espectáculos deploráveis e obscenos de clubite irracional. Um dia vamos ter um problema ainda mais sério e de consequências graves e veremos como será definida a responsabilidade.
Muitos dos meninos de Torremolinos serão certamente os membros das claques e nada disto é um problema apenas de Portugal mas é também um problema nosso.
Afinal o que andamos a fazer nas famílias, nas escolas do pré-escolar ao superior, na comunicação social, na vida política, cultural e económica que acomodam estes dias do avesso?
Esta gente, nos estádios, em Torremolinos, nas ruas, nas salas de aula e átrios das escolas já são alunos do Séc. XXI, que fazer agora para mudar e que fazer agora para prevenir?


quarta-feira, 12 de abril de 2017

DIFERENÇA, EDUCAÇÃO, FORMAÇÃO E ... SONHOS

A lida levou-me hoje para Leiria um encontro de reflexão sobre diferença, educação, formação e ... sonhos.
A solicitação direccionava a minha intervenção para o trajecto de vida das pessoas com necessidades especiais.
Em síntese e como também aqui já tenho dito, parto da ideia de que o processo de desenvolvimento, educação e formação terá de se traduzir na construção de um projecto de vida positivo assente na autonomia, independência e autodeterminação de qualquer pessoa, de todas as pessoas.
De acordo com os dados do ME cerca de 98% de crianças e adolescentes com necessidades especiais frequentam o ensino regular mas uma parte estará incluída, outra parte integrada e boa parte "entregada".
Mas após a escolaridade obrigatória temos um cenário em que o desemprego entre as pessoas com deficiência se estima situar-se entre os 70 e os 75%, o risco de pobreza é superior em 25 % à restante população, que o número de pessoas com deficiência a frequentar o ensino superior ou escolas profissionais é baixo, refiro um pequeno exemplo que poderá não ser representativo mas é elucidativo. Há algum tempo pronunciei-me sobre um trabalho académico que analisou a situação de 13 adultos com paralisia cerebral e encontrou duas pessoas empregadas, 3 desempregadas e os outros nunca trabalharam. Três pessoas têm formação superior e nove estão institucionalizados. Há dias integrei um júri de provas de doutoramento que também acompanhou a entrada fracassada de estudantes surdos no ensino superior tendo tido sucesso no ensino secundário.
É de facto um cenário profundamente inquietante levantando duas vias de reflexão.
A primeira remete para o que fazemos durante o período de escolaridade obrigatória cuja parte final se direcciona para a transição para a vida activa que, do meu ponto de vista deveria significar, formação, emprego ou continuação do percurso escolar. Parece, de facto verificar-se a transição mas a verdade é que poucos transitam para qualquer das direcções que referi. O desafio que se coloca é perceber, assumir o que está a falhar neste processo. Existem situações, felizmente, bem-sucedidas mas o quadro geral não é particularmente animador em demasiadas circunstâncias.
A segunda via de reflexão remete para o depois dos 18 anos. Como promover de forma mais eficaz e com sucesso a passagem de mais jovens com necessidades especiais, de todas as tipologias sublinho, para o ensino superior, como conseguir que a formação profissional disponível seja acessível e capaz de acomodar a diversidade, como promover o emprego considerando, por exemplo, a dimensão do universo da economia social.
Como promover o respeito pela autonomia, independência e autodeterminação minimizando visões assistencialistas mesmo que mascaradas com uma retórica de natureza mais inclusiva com referências à participação e pertença.
Como promover a ideia de que as instituições são um enorme e importantíssimo recurso mas não uma via embora também o possam ser para um grupo muito mais restrito de jovens adultos e adultos com deficiência.
Recordando a forma como acabei a minha intervenção, podemos sempre olhar para o caminho percorrido e centrar o olhar no copo meio cheio. No entanto não podemos esquecer a parte meio vazia, é habitada por muita gente com sede.

MIÚDOS E ADOLESCENTES ONLINE

A imprensa dos últimos dias trouxe de novo para a agenda a questão do tempo excessivo e dos riscos associados que que muitas crianças despendem com a ligação à net nas suas múltiplas diferenciadas oportunidades, designadamente as redes sociais.
É uma questão que deve merecer a reflexão de todos os que lidam com crianças e jovens embora não lhes diga exclusivamente respeito, a net e o mundo de oportunidades, benefícios e riscos que está presente em todas as suas potencialidades.
Para além dos dados agora divulgados, segundo dados do projecto europeu EuKids Online, o uso continuado da Internet repercute-se em 45% das crianças portuguesas com um dos seguintes sintomas: não dormir, não comer, falhar nos trabalhos de casa, deixar de socializar, tentar passar menos tempo online. Em termos europeus apenas a Estónia tem um número superior, 49%. 17 % dos inquiridos revela a presença de dois sinais, ter deixado de comer ou dormir para estar ao computador.
Há algum tempo tinha abordado esta problemática a propósito das implicações do uso excessivo das novas tecnologias no desenvolvimento de crianças e adolescentes, designadamente nos hábitos e saúde do sono.
Um estudo recente realizado nos EUA acompanhando durante seis anos 11 000 crianças encontrou fortes indícios de relação entre perturbações do sono e o desenvolvimento de problemas de natureza diferenciada no comportamento e funcionamento das crianças.
Esta questão, os padrões e hábitos de sono das crianças, é algo de importante que nem sempre parece devidamente considerada. Também entre nós, vários estudos sobre os hábitos e padrões de sono em crianças e adolescentes têm sido desenvolvidos, segundo os quais mais de metade dos adolescentes inquiridos apresentam quadros de sonolência excessiva e evidenciam hábitos de sono pouco saudáveis. Esta constatação vai no mesmo sentido de outros trabalhos com crianças mais novas. A falta de qualidade do sono e do tempo necessário acaba, naturalmente, por comprometer a qualidade de vida das crianças e adolescentes.
Várias investigações sugerem que parte das alterações verificadas nos padrões e hábito relativos ao sono remetem para questões ligadas a stress familiar e sublinham o aumento das queixas relativas a sonolência e alterações comportamentais durante o dia.
Acresce, como os dados do EuKids Online evidenciam, um conjunto de outros riscos decorrentes da utilização menos regulada das novas tecnologias o que solicita alguma reflexão sobre hábitos e estilos de vida dos mais novos. Um dos problemas emergentes e preocupantes neste universo é a utilização das redes sociais e risco do cyberbullying que já aqui tenho abordado. Segundo alguns estudos, perto de 50% das crianças até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel.
Acontece que durante o período de sono e sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida. Creio que, com alguma frequência, alguns comportamentos, sobretudo nos mais novos, que são de uma forma aligeirada remetidos para o saco sem fundo da hiperactividade e problemas de atenção, estarão associados aos seus hábitos e padrões de sono como, aliás, os estudos parecem sugerir.
Em casa, têm durante muitas horas um ecrã como companhia durante o pouco tempo que a escola "a tempo inteiro" e as mudanças e constrangimentos nos estilos de vida das famílias lhes deixam "livre". Também é verdade que a crescente "filiação" em redes sociais virtuais possam “disfarçar”, juntando quem “sofre” do mesmo mal e o tempinho remanescente para estar em família, quase sempre ainda é passado à sombra de uma televisão.
De há muitos anos que se sabe que não se cresce só, cresce-se na relação com pares e adultos. É por isso que, embora entenda a expressão, ouvir chamar a este tempo, o tempo da comunicação, me faz sorrir, acho mais apropriado considerá-lo o tempo do estar só ou a assistir à solidão dos outros. Recordo a afirmação de um miúdo de 11 anos colocada num desenho, "a minha consola é que me consola".
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para que a utilização imprescindível e útil seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.
A experiência mostra-me que muitos pais desejam e mostram necessidade de alguma ajuda ou orientação nestas matérias. Sabemos que estratégias proibicionistas tendem a perder eficácia com a idade.
Creio que o caminho terá de passar por autonomia, supervisão, diálogo e muita atenção aos sinais que crianças e adolescentes nos dão sobre o que se passa com elas.

terça-feira, 11 de abril de 2017

DA INDISCIPLINA E VIOLÊNCIA EM CONTEXTO ESCOLAR. DE NOVO

A propósito do número de armas apreendidas a alunos em contextos escolares durante o ano de 2016, 17, numa peça do JN directores e pais solicitam mais recursos, docentes, técnicos e auxiliares de educação (não gosto do termo assistentes operacionais) que possam ajudar a prevenir comportamentos violentos.
A violência incluindo o recurso a armas corresponde ao topo da escalada que começa em episódios de indisciplina.
Algumas notas que não sendo novas me parecem, infelizmente, justificadas.
Em primeiro lugar julgo que importa clarificar o que está em causa. Permitir, por exemplo, que um telemóvel toque na sala de aula ou outros comportamentos desadequados em sala de aula ou na escola serão indisciplina, insultar, humilhar, confrontar fisicamente um professor, comportamentos frequentes de agressão ou roubos a colegas ou o uso ou exibição de armas configuram pré-delinquência ou delinquência e comportamentos disruptivos podem ainda estar ligados a perturbações de natureza psicológica.
O meu ponto é que a escola não pode ser responsabilizada e considerada competente por e para todo este universo de problemas nos comportamentos dos mais novos. Para situações de pré-delinquência ou perturbações do comportamento pode, evidentemente, dar contributos mas não assumir a responsabilidade pelo que importa clarificar a análise incluindo a reflexão das próprias direcções escolares.
Centremo-nos então na indisciplina escolar que considero matéria de competência da escola e matéria de responsabilidade de toda a comunidade, incluindo os pais, naturalmente, e todas as figuras com relevância social, por exemplo, não se riam, políticos ou jogadores de futebol.
O Estatuto do Aluno, no qual o ME depositava públicas esperanças que me pareceram, desde sempre, sobrevalorizadas e desadequadas face aos seus conteúdos e à realidade das escolas e comunidades actuais, qualquer que seja, é um regulador, melhor ou pior, mas nunca A solução e, pela mesma razão, nunca será A causa da indisciplina.
Parece-me também de referir que todas as figuras sociais a que se colam traços de autoridade por exemplo, pais, professores, médicos, polícias, idosos, etc., viram alterada a representação social sobre esses traços. Dito de outra maneira, o facto de ser velho, polícia, professor ou médico, já não basta, só por si, para inibir comportamentos de desrespeito pelo que importa perceber o impacto destas alterações nas relações entre professores e alunos.
As mudanças significativas no quadro de valores e nos comportamentos criam dimensões novas em torno de um problema velho, a indisciplina. Daqui decorre, por exemplo, que restaurar a autoridade dos professores, tal como era percebida há décadas, é uma impossibilidade porque os tempos mudaram e não voltam para trás. Pela mesma razão, não se fala em restaurar a relação pais – filhos nos termos em que se processava antigamente e falar da "responsabilização" dos pais é interessante, mas é outro nada.
Um professor ganha tanta mais autoridade quanto mais competente, apoiado e valorizado se sentir. O apoio aos professores é um problema central no que respeita à indisciplina mas não só.
Assim sendo, mais do que afirmar o “restaurar” da autoridade dos professores é essencial que o ME desenvolva políticas e assuma discursos que apoiem os professores, que os valorizem social e profissionalmente e promovam climas mais serenos e colaborativos e com mais qualidade nas escolas.
Também por isto se questiona a incompetente constituição de mega-agrupamentos e de escolas e turmas com dimensões excessivas, variável associada à indisciplina escolar.
É também importante reajustar a formação de professores. As escolas de formação de professores não podem “ensinar” só o que sabem ensinar, mas o que é necessário ser aprendido pelos novos professores e pelos professores em serviço. Problemas "novos" carecem também de abordagens "novas".
Parece também importante a existência de estruturas de mediação entre a escola e a família o que implica a existência de recursos humanos qualificados e disponíveis. Veja-se o trabalho dos GAAFs apoiados pelo IAC, experiências no âmbito da intervenção da Associação EPIS ou iniciativas que algumas escolas conseguem desenvolver e que permitam apoiar os pais dos miúdos maus que querem ter miúdos bons e identificar as situações para as quais, a comprovada negligência dos pais exigirá outras medidas que envolvam, eficazmente e em tempo oportuno as CPCJ. Esta mediação não é compatível com o plano de tutoria em desenvolvimento pelo ME com 4h semanais de um professor tutor para um grupo de 10 alunos.
Um caminho de autonomia, com a alteração desejável dos modelos de organização e funcionamento das escolas e na gestão curricular, deveria permitir que as escolas, algumas escolas, mais problemáticas tivessem menos alunos por turma, mais assistentes operacionais com formação em mediação e gestão de conflitos ou ainda que se utilizassem, existindo, professores em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades.
Por outro lado, os estudos e as boas práticas mostram que tal como programas de tutoria, também a presença simultânea de dois professores é um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos também na prevenção da indisciplina.
As dificuldades dos alunos estão com muita frequência na base do absentismo e da indisciplina, os alunos com sucesso, em princípio, não faltam e não apresentam grandes problemas de indisciplina.
Os professores também sabem que na maior parte das vezes, os alunos indisciplinados não mudam os seus comportamentos por mais suspensões que sofram. É evidente que importa admitir sanções, no entanto, fazer assentar o combate à indisciplina nos castigos aos alunos e, eventualmente, nas multas e retirada de apoios aos pais, é ineficaz, é facilitista na medida em que é a medida mais fácil e mais barata, é demagógica porque vai ao encontro dos discursos populistas que aplaudem a ideia do "prender" do "expulsar" até ficarem só os nossos filhos.
O problema é quando também nos toca a nós, aí clamamos por apoios.
Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem-intencionados, não são um bom serviço à minimização dos muito frequentes incidentes de indisciplina que minam a qualidade cívica da nossa vida além, naturalmente, da qualidade e sucesso do trabalho educativo de alunos, professores e pais.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

OUVIR A CRIANÇA

No DN está uma referência a uma matéria que certamente passará despercebida à maioria das pessoas embora todos conheçamos o universo em que se inscreve. A peça fala de uma experiência em curso no Porto de substituir o juiz a entrevista a crianças vítimas de abuso sexual para o registo de declarações para memória futura por psicólogo com formação nesta área.
Como seria de esperar do lado dos juízes surgem algumas críticas e até com o argumento da ilegalidade.
Para o peditório do “quintal é meu” associado à chamada “doença do território” que afecta tanta gente em Portugal já não tenho paciência, apenas umas notas breves em nome dessa entidade abstracta que deveria dar cobertura a tudo o que diz respeito aos mais novos, o superior interesse da criança.
É reconhecido que a entrevista e avaliação a crianças em situação de sofrimento, abusos, regulação parental, violência doméstica, etc., é algo de muito complexo e difícil podendo mesmo induzir mais sofrimento. Também sabemos que mesmo em idades mais novas e nas circunstâncias adequadas as crianças são capazes de exprimir juízos sobre a sua realidade e contexto de vida.
É requerido, por isso, que esta tarefa seja desempenhada por alguém devidamente preparado para a realizar.
Sabendo que de acordo com um recente (já deste ano) acórdão do Supremo Tribunal de Justiça vem determinar que TODAS as crianças devem ser ouvidas no âmbito dos processos judiciais de promoção e protecção que as envolvam. A lei estabelecia que já era obrigatório ouvir a criança a partir dos doze anos mas agora será sempre obrigatório. Quando pela idade ou por outra razão assim não aconteça o juiz responsável deverá justificar formalmente por escrito a decisão.
Segundo o Acórdão, “A criança ou o jovem tem direito a ser ouvido individualmente ou acompanhado pelos pais, pelo representante legal, por advogado da sua escolha ou oficioso ou por pessoa da sua confiança”. Mais determina que “A falta de audição da criança afeta a validade das decisões finais dos correspondentes processos por corresponder a um princípio geral com relevância substantiva.”
Na verdade e como disse na altura, pareceu-me um passo muito significativo no cumprimento de um direito das crianças, a voz sobre matérias que a envolvem e que, aliás, está inscrito na Convenção dos Direitos da Criança.
Esta circunstância veio reforçar a importância da forma como se ouve a voz da criança.
Recordo que há pouco tempo o Instituto de Segurança Social lançou dois manuais, “Manual da Audição da Criança” e o “Manual de Audição Técnica Especializada”, que pretendem constituir uma ferramenta de apoio aos técnicos envolvidos em processos conflituosos de separação parental em que estão crianças e não raras vezes em processo de sofrimento significativo, tal como, aliás, os adultos.
Aliás, recordo que há algum tempo o Conselho Regional de Lisboa da Ordem dos Advogados tomou a iniciativa de distribuir pelos tribunais de Família e Menores exemplares de um livro destinado a ajudar magistrados, procuradores e advogados a realizar de forma adequada audições a crianças no âmbito de processos de regulação parental.
Na verdade, esta atenção à criança e às circunstâncias em que muitas crianças são ouvidas e recebidas devido a questões processuais e de investigação quase que configuram uma nova situação de vitimização ou são percebidas como ameaçadoras e intimidantes. Recordo, por exemplo, sucessivas audições de crianças vítimas de abuso sexual, situação que creio atenuada, mas não resolvida, com os depoimentos para memória futura, hoje em discussão na notícia que justifica estas notas, ou ainda o contacto com os agressores. Quase parece dispensável a necessidade de referir como é violento e capaz de deixar marcas profundíssimas solicitar a uma criança que repetidas vezes relate, relembre e "viva" a situação dramática porque passou, o que significa, certamente, um novo abuso.
Acresce às questões processuais que podem ser, na verdade, outra experiência de violência, a importância do contexto de acolhimento, espaço onde ocorre e a preparação de quem recebe as crianças, nos diferentes serviços.
Acresce ainda que são conhecidas decisões judiciais em matéria de família e direitos das pessoas, já aqui citei algumas, que me fazem interrogar por onde andará o juízo de alguns juízes embora, deve dizer-se, sejam também conhecidas boas práticas de outros magistrados.
Neste contexto, creio que qualquer iniciativa que possa resultar em mais e melhor protecção das crianças parece-me um passo positivo.

domingo, 9 de abril de 2017

CAROS PAIS DOS FINALISTAS QUE MIGRAM PARA O SUL DE ESPANHA

O espírito de Lloret soltou-se de novo. Agora já não em Lloret mas algures numa outra praia mais para o sul de Espanha.
A malta jovem, os finalistas, na sua migração anual para aquelas bandas voltou a manifestar-se conforme a ideia que os lá leva, muita farra, muita adrenalina, muito álcool e … muita merda, é claro.
Nada disto surpreende, é assim há muitos anos, o meu filho fez parte dos primeiros grupos que em massa rumaram a Espanha durante a Páscoa e construíram o espírito de Lloret.
Não surpreende porque este “paradigma” é alimentado pela oferta hoteleira e pelas agências de viagem, o espírito de Lloret não é o espírito da visita de estudo, é negócio, puro e duro.
Para além dos incidentes com consequências graves que se têm verificado, casos de balconing ou acidentes devido ao álcool, o que verdadeiramente me incomoda é algum discurso emergente nestas ocasiões por parte de alguns pais.
Em vez de reflectirem sobre a ligeireza com que aceitam o envolvimento dos seus filhos em algumas aventuras desta natureza sem se asseguraremm das condições reais e da existência de alguma regulação durante a estadia, discorrem sobre a “normalidade” destes comportamentos “próprios” da idade.
Não caros pais, os comportamentos que sabemos existirem podem ser frequentes mas não são “normais”.
Não caros pais, limites são bens de primeira necessidade na formação dos vossos filhos.
Não caros pais, produzir um discurso de “falsa cumplicidade” com os filhos e com os seus excessos é o pior serviço que lhes podem prestar.
Não caros pais, não ajuda os vossos filhos um discurso que alimenta a irresponsabilidade.
Não caros pais, desvalorizar o problema, eventualmente até por medo de o reconhecerem, não o torna mais pequeno.
Por outro lado e por estranho que vos possa parecer depois do que escrevi, cuidado com alguns outros discursos que crucificam os pais.
Estas cenas não acontecem só com os filhos dos outros. Um contexto de estadia em grupo, num espaço fora do habitual, sem supervisão, com uma oferta agressiva e sempre presente de álcool é capaz de fazer mossa mesmo nos miúdos mais auto-regulados e bem-educados.
Claro que depois virão dizer, “não é por ser meu filho mas porta-se sempre lindamente, foi das companhias”.
Talvez todos nós, enquanto comunidade educativa possamos fazer um pouco mais relativamente a isto.

"INOVAÇÃO", AUTONOMIA E DIFERENCIAÇÃO

O Expresso desta semana apresenta no caderno principal e na Revista duas peças centradas na educação a que vale a pena dedicar alguma atenção.
A primeira peça é relativa a um Projecto-Piloto de Inovação Pedagógica a desenvolver durante três anos em seis agrupamentos de zonas diferentes do país e com o objectivo de promover o sucesso educativo. Este Projecto é autónomo relativamente ao Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar.
A segunda peça divulga um conjunto de experiências pedagógicas "na nova sala de aula" em desenvolvimento em diferentes escolas.
Uma primeira nota introdutória. Não simpatizo com a recorrente referência à inovação em educação. Mudar algo na forma como se faz não é o mesmo que inovar, fazer qualquer coisa de novo. Nestas matérias, talvez de forma simplista mas é intencional, penso como Almada Negreiros quando referia na "Invenção do Dia Claro”, "Nós não somos do século de inventar palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas”.
Dito de outra maneira, já conhecemos as palavras da educação, apenas temos que ir ajustando o que fazemos com elas. Peço desculpa, mas não crreio que utilizar um tablet na sala de aula seja é inovar, é fazer o que de há muito sabe, o trabalho em sala de aula deve reflectir o estado da arte das comunidades em matéria de desenvolvimento científico, ou seja, o tablet é “novo” mas a prática nem tanto.
Os dois trabalhos mostram também com clareza o que do meu ponto de vista é central na promoção da qualidade na educação e na qualidade para todos, autonomia e diferenciação, duas dimensões críticas e interdependentes e que também têm pouco de "inovadoras" mesmo que possam estar relativamente ausentes em contextos escolares.
De facto, quer do PPIP quer das experiências mostradas na Revista, sobressaem a importância da autonomia das escolas e dos professores e, tantas vezes o refiro, a promoção da autonomia dos alunos.
A segunda referência relativa à diferenciação que começa na organização e funcionamento das escolas, dos horários, das turmas, da gestão curricular e caminha até á sala de aula ao nível das práticas, da avaliação.
Como parece claro o caminho da diferenciação só se faz com base num quadro forte de autonomia de escolas e professores o que claramente está patente no PIPP, pelo menos na apresentação e que poderemos aferir com a publicação do despacho que o regulará.
Esta autonomia e diferenciação exige algo que em décadas não se tem verificado, o ME precisa de confiar nos professores e nas escolas que na sua esmagadora maioria são competentes e empenhados no sucesso do seu trabalho e no trabalho dos alunos. Neste contexto e como também tenho defendido seria fundamental a existência de dispositivos de regulação que minimizassem o quadro actual, um sistema que deste ponto de vista é verdadeiramente inclusivo, excelentes práticas e desempenhos coexistem sem sobressaltos e sem que nada aconteça com situações deploráveis para professores, alunos e famílias.
Parece-me ainda de sublinhar o horizonte temporal da PPIP, três anos, que resiste à tentação do resultado imediato que se pode habilidosamente construir mas não é real nem sustentado e a intenção de avaliar e, se for o caso, replicar e alargar.
Este caminho, ainda que em fase "piloto" o que melhor permitirá a sua regulação e avaliação, parece estar a ser cosntruído na direcção certa, assim tenhamos os meios, os recuros e o enquadramento em matéria de autonomia real que surja mascarada de "municipalização".

sábado, 8 de abril de 2017

A "SILLY SEASON" CHEGOU MAIS CEDO

Em primeiro lugar devo afirmar que não conheço pessoalmente nem tenho nada contra um cidadão de nome Duarte Pio. Recordando uma figura popular da minha terra quando eu era pequeno, o António Curto, vendedor de peixe, pescador e filósofo, diria até que o senhor Duarte Nuno será meu amigo dado que nunca me fez mal.
O senhor Duarte Pio é Duque de Bragança e, ao que parece, representante e descendente dos reis de Portugal.
Tudo bem, eu próprio sou Morgado embora ainda ande a tentar descobrir de que morgadio.
Dito isto vamos à notícia.
Não sei se terá a ver com esta subida de temperatura, anunciando o Verão, também conhecido por “silly season”, mas apareceu uma petição, mais uma petição, a reclamar a inclusão do senhor Duarte Pio, representante da Monarquia na Lei do Protocolo do Estado da … República Portuguesa. Se o velho Fernando Pessa fosse vivo ouviríamos certamente um sonoro “E esta hem?!”
Os subscritores são figuras maiores da cena política portuguesa como, por exemplo o senhor presidente da Juventude Popular, Francisco Rodrigues dos Santos, que começa por nos descansar pois não é partidário do regresso à monarquia mas afirma que “um país deve ter memória. É uma questão de cortesia e de respeito por uma identidade que nos define a todos como povo”.
A sério? Uma petição para isto?!
Cá para mim foi mesmo sol na moleirinha que este pessoal apanhou. Quando vem assim forte e de repente faz mal.

FAZER AS COISAS CERTAS MAS TAMBÉM FAZER CERTAS AS COISAS

De há muito que entendo a necessidade de ajustar quer a organização do ensino básico quer as áreas disciplinares e respectivos conteúdos tendo também aqui referido algumas ideias sobre esta questão que vão, aliás, na linha do que se encontra em outros países com sistemas educativos com bons resultados.
Sei também da enorme complexidade de mudanças nestas áreas até pelo impacto que poderá ter na organização da carreira e formação dos docentes para além da multiplicidade de variáveis a considerar.
Assim sendo, o quer que venha a ser realizado deve acontecer com uma enorme prudência, reflexão aprofundada e com a participação o mais abrangente possível dos diversos actores e entidades envolvidos.
Como afirmei a propósito da mudança no sistema de avaliação, depressa e bem não há quem. O mesmo se deve considerar sobre o movimento de flexibilização curricular que será ensaiado em algumas escolas e agrupamentos no próximo ano lectivo.
Objectivos globalmente positivos podem ser comprometidos por más metodologias, calendários de mudança inadequados ou a não antecipação das condições e requisitos necessárias aos processos de mudança. O caso das provas de aferição de educação física e as condições inexistentes ou de péssima qualidade em muitas comunidades educativas para a sua realização e para o funcionamento destas áreas do currículo já mostraram estes riscos.
Os directores de escolas e agrupamentos alertam agora para que em muitas escolas as condições existentes e os recursos disponíveis criarão sérias dificuldades ao movimento de flexibilização curricular. O Ministro grante no entanto a existência de condições. Veremos como corre mas espero que bem.
De facto, importaria que as mudanças ou experimentação em educação não se realizassem de forma apressada, sem um consenso tão sólido quanto possível sobre conteúdos e calendário e a consideração prévia das condições e requisitos que sustentem as mudanças em execução e que, reafirmo, me parecem necessárias e num sentido positivo.
Como muitas vezes refiro, é tão importante "fazer as coisas certas como fazer certas coisas". Se bem repararmos nem sempre isto se verifica, mesmo na nossa acção individual. Em políticas públicas é ainda mais necessário.
É claro o risco de transformar algo de positivo num problema. Eu sei que não é fácil prever tudo mas existem situações em que as falhas devem ser mínimas. Poder criar-se um efeito e uma representação negativa sobre a mudança, alimentam-se as opiniões críticas face a essa mudança, surgem dificuldades dispensáveis aos alunos e escolas e finalmente, comprometem-se os próprios resultados.

VACINAR OU NÃO VACINAR NÃO PODE SER UMA OPÇÃO

O surgimento de alguns casos de sarampo fez reentrar na agenda a questão da vacinação das crianças.
Apesar de ainda não parecer algo de preocupante também em Portugal começa a emergir alguma discussão relativamente à vacinação.
Estima-se que mais de quatro mil crianças em Portugal não sejam anualmente vacinadas.
Como é sabido existe um Plano Nacional de Vacinação e Portugal tem, felizmente, uma taxa bastante elevada de vacinação nas crianças, cerca de 95%.
Noutros países e até com mais significado também se assiste à emergência de movimentos que levam a que muitos pais recusem vacinar os filhos e por cá também se ouvem opiniões nesse sentido e pais que não procedem à vacinação dos filhos como já foi referido. Alguns dos recentes casos de sarampo parecem atingir crianças não vacinadas.
Recordo que há algum tempo se verificou um surto de sarampo nos Estados Unidos com resultados preocupantes pois atingiu estados em que os pais podem recusar as vacinas.
Não sendo especialista, sei que as vacinas contêm alguns riscos que basicamente estarão controlados e sei também que existem interesses brutais em jogo, designadamente por parte das farmacêuticas e laboratórios. No entanto, parece-me que a vacinação representa um ganho civilizacional que poupa a morte a muitos milhares de crianças pelo mundo inteiro e quando reparamos na taxa de mortalidade infantil verificada em países que não conseguem assegurar campanhas de vacinação generalizadas percebemos isso com clareza. Os testemunhos de gente conhecedora, como Mário Cordeiro ou Gomes Pedro mostram isso mesmo.
Assim sendo, é sempre com alguma preocupação que em nome de valores, certamente legítimos mas que necessitam de ponderação, se possa decidir por comportamentos que manifestamente são causadores de riscos para as crianças.
Ainda no mesmo âmbito recordo também um movimento emergente que defende a realização de partos em casa que, evidentemente, tem merecido a condenação de enfermeiros e médicos devido aos elevados riscos envolvidos para bebés e mães. Também nesta matéria sabemos dos interesses económicos em jogo traduzidos, por exemplo, numa altíssima taxa de cesarianas que parece agora com tendência para baixar.
O povo costuma dizer que "com a saúde não se brinca". Não estamos a falar, obviamente, de brincadeiras mas estamos a falar de decisões que são de uma enorme responsabilidade e que podem levar como aconteceu recentemente no Reino Unido que o Tribunal Superior de Justiça por iniciativa do pai das crianças obrigasse a mãe a aceitar que os filhos fossem vacinados.
Trata-se como sempre do superior interesse da criança. Importa que nós os que trabalhamos na área da educação ou da saúde tenhamos uma maior atenção a estas matérias.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

DA SÉRIE METE-ME ESPÉCIE. OS MANUAIS ESCOLARES DIGITAIS

Li na imprensa que o Parlamento aprovou com a abstenção do CDS-PP uma iniciativa legislativa no sentido promover o recurso a manuais escolares digitais.
Faz sentido que nas sociedades actuais esta questão seja discutida pois tem implicações de natureza variada a começar pelos fundamentais aspectos de natureza didáctica e pedagógica.
No entanto, mete-me um bocado de espécie que seja o Parlamento a discutir isto.
E os professores, pá?
E as escolas, pá?
E uma coisa irrelevante chamada autonomia do professor, pá?
E outra coisa irrelevante chamada autonomia das escolas, pá?
Dirme-ão que será só a inscrição de um princípio ou mesmo que se tratará apensa de uma recomendação. Certo, mas não é assim que se constroe a mudança.